sábado, 2 de junho de 2018

9.º Domingo do Tempo Comum – Livres para amar e não para obedecer a leis humanas! (Mc. 2,23-3,6)

Não faz sentido fazer as coisas por obediência. Só porque a lei manda. Não faz sentido amar por decreto! Ou sentimos sentimentos de afeto, de amabilidade ou em nada adianta. Na vida, muitas vezes, é o medo da punição que nos move. Punição e repreensão pública porque não agimos de acordo com preceitos e normas criadas por humanos. Ao contrário, deveríamos agir de forma livre e entusiasta simplesmente porque gostamos. Porque vemos a importância e a beleza de agir segundo um determinado modo. Sem imposições e sem ameaças de castigo. Na época de Jesus a observância do repouso no dia de sábado havia se tornado uma obsessão. Os sacerdotes do templo eram os maiores interessados em impor essa lei. Não havia o desejo de ver um povo que celebra junto, que curte a família, que humaniza o trabalho e outras ocupações. Que repousa de suas atividades e ambições, que reflete e se confronta sobre os rumos que deve tomar. Havia, isso sim, o mórbido desejo por parte da religião oficial de afirmar o seu poder sobre o povão. Sentir que tinha um povo submisso e que podia puni-lo por causa de sua eventual desobediência. Manter o povo sempre num estado de alerta e de medo. Mantê-lo escravo, como outrora, no Egito. Jesus nessa narração evangélica mostra o que deve vir em primeiro lugar, sempre: o ser humano com sua liberdade e suas necessidades reais. Jamais podemos colocar a pessoa numa situação de escravidão e de submissão. Nem para servir obrigatoriamente outros, nem para obedecer à força a leis impostas por terceiros. Principalmente quando se usa para tanto o nome de Deus. As leis, sempre, ou são feitas para preservar e defender dignidades e direitos, ou podem e devem ser desobedecidas e descartadas! Faraós, imperadores , sumos sacerdotes e presidentes impostores, nunca mais!

sábado, 26 de maio de 2018

A TRINDADE QUE ESTÁ EM NÓS, E QUE SOMOS NÓS! (Mt. 28,16-20)


É difícil acreditar que alguém que não conhecemos nos ame, se a pessoa que nos fala desse amor, ela também, não nos manifeste amor e respeito de verdade. É difícil acreditar que alguém, no passado, foi justo conosco, se quem nos informa sobre isso nos desrespeita e nos usa. Ou seja, podemos sentir o amor ou os cuidados de alguém que não conhecemos somente mediante os gestos concretos de amor e compreensão de alguém que está ao nosso lado nos dando afeto e proteção. Os esquecidos e excluídos de Israel ao saborear os gestos de compaixão e de acolhida de Jesus podiam, de alguma forma, imaginar e crer que o Deus que eles não viam e nem conheciam poderia ser como Jesus. Podiam sentir que Deus os estava amando e acolhendo, pois o mesmo o sentiam e viam em Jesus. Jesus inverte a lógica da religião oficial judaica, e de todas as religiões: Deus é igual a Jesus, e não Jesus igual a Deus! Se Deus pudesse ser visto agiria e amaria como Jesus. Com Jesus, Deus não deve ser mais procurado, mas somente acolhido. A religião nos diz que devemos buscar a Deus, procurá-lo em tudo e todos, e a toda hora, mas ocorre que Deus já veio até nós na pessoa de Jesus, o humano divino. O que os humanos, então, devem fazer é simplesmente ‘amar e agir como Jesus’. 
É aprender a ser humanos como Jesus o era. Trindade é isso: amar como um Pai, acolher plenamente como um filho o amor de um pai, e possuir um Espírito de coragem para reproduzir e multiplicar permanentemente esse amor! Não se trata de afirmar dogmas, nem de especulação filosófica e nem de doutrina, mas de implementar as dinâmicas da vida. Celebrar e vivenciar a Trindade significa tomar consciência de que nós ‘filhos/as’ temos a missão de fazer imergir, ou seja, de batizar no amor invisível de Deus, - que se tornou visível em Jesus, - todas as criaturas, irmãos e irmãs de toda cultura e nação, eliminando confins, alfândegas, barreiras e preconceitos ! E sermos tão amorosamente ‘humanos’ ao ponto de sermos, de fato, ‘divinos’... como o Homem/Deus, Jesus.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Bem-aventurados os misericordiosos porque obterão mais misericórdia – Mt. 5,7 -


Num de seus inúmeros desabafos públicos o papa Francisco nos alerta que hoje ‘vivemos no meio do mar da indiferença’, e incentiva ardentemente ‘as nossas paróquias e comunidades a serem verdadeiras ilhas de misericórdia’ (Mensagem para a Quaresma em 2015). Realmente, na atualidade, o que mais deveria nos indignar é a nossa incapacidade de nos comover e compadecer diante de tantos sofredores. Afundamos no drama dos massacres e chacinas, mas o nosso coração permanece frio diante das dezenas de milhares de vítimas. Assistimos, cotidianamente, a múltiplas formas de abuso, de ódio e de vingança, mas encaramos tudo isso com cínica naturalidade. Ser misericordioso significa superar a violência da mórbida indiferença, e ‘educar-treinar’ o coração a ser generoso e sensível. O misericordioso, de fato, é aquele que tem ‘coração mole’, mas não débil. Que é incapaz de dizer um ‘não’ a alguém que necessita de compreensão e de perdão para recomeçar uma nova vida. Ser e agir de modo misericordioso, no entanto, exige educar e se deixar educar para tanto. Ninguém, pois, nasce ‘geneticamente misericordioso’. É por isso que Mateus, nessa bem-aventurança, nos diz que se aprendermos a ser solidários e compassivos como o fazem ‘os pobres pelo espírito’ podemos nos tornar efetivamente misericordiosos. A misericórdia é, de fato, para Jesus, o ‘efeito positivo’ de todos aqueles que se colocam ao lado dos aflitos, dos deserdados dominados, e dos que têm fome e sede de justiça. São aqueles que ao viverem a plena solidariedade com esses sofredores descobrem dentro de si o poder real de superar indiferenças e egoísmos e intolerâncias. E se abrem, definitivamente, para compreender, perdoar e proteger. Nesse sentido, para Mateus os misericordiosos não são uma nova categoria social de pessoas, - como o são os pobres, por exemplo, - mas são a expressão e o resultado da ação solidária de todos aqueles homens e mulheres que, como Jesus, deixam coração e entranhas estremecerem dentro de si. Pessoas que se indignam emotiva e eticamente ao sentir o que sente uma vítima do racismo, do estupro ou da homofobia. Ou que se revoltam ao verem a aflição do povo palestino massacrado pelo exército israelense, ou pessoas difamadas pela Globo e por outros plantadores de mentiras. Que sentem a mesma fome de justiça daqueles que são presos arbitrariamente e passam anos a fio, atrás das grades, pela má vontade de magistrados e de policiais cooptados. Ou, sofrem, enfim, com a angústia interior de uma filha adolescente que aprontou, e que não consegue obter o perdão de seus pais. 

Com isso, Mateus nos diz que se todos nós podemos ser capazes de produzir ‘gestos de misericórdia’, nem todos assumimos a misericórdia como ‘estilo de vida’. Como um modo de agir sistemático, e como uma opção fundamental e permanente de vida. Misericórdia não é um mero sentimento, nem uma louvável virtude, mas um agir claro e permanente em favor dos que se encontram na necessidade, e no abandono mais absoluto.  Pessoas que agem assim são ‘bem-aventuradas’ pois possuem a garantia que sentirão a misericórdia do próprio Deus! Isso permite que nos sentamos mais fortes na hora de perdoar uma injustiça sofrida. Quem não se compadece terá mais dificuldade em compreender e perdoar. A sua capacidade de amar tornar-se-á sempre mais estéril. É notório que vivemos um trágico momento histórico em que setores da sociedade brasileira e não, parecem dar mais vazão à sua cega intolerância e ódio, do que a gestos de solidariedade e compaixão. É nesse momento que Jesus de Nazaré nos repropõe a parábola do Pai que abraça com força e ternura o filho que volta até ele pela saudade do seu amor. E a lição de vida do ‘estrangeiro samaritano misericordioso’. Ele não teme sujar suas mãos e sua imagem para acudir não somente uma vítima anônima da violência física, mas também da cínica indiferença daqueles ‘hipócritas tementes a Deus’ que viravam o seu rosto do outro lado para não contrair a impureza religiosa. Na realidade, não queriam se confrontar com os apelos subversivos da prática humana da misericórdia e da compaixão. O único valor que conta no ‘soçobrado mar da vida’! (O presente artigo é publicado no O Jornal do Maranhão da Arquidiocese de São Luís)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PENTECOSTES

Quando aprendermos que Deus não se adora nem na igreja, nem no templo, nem na sinagoga, nem na mesquita, nem no céu infinito, mas em ‘espírito e verdade’, em toda montanha, em toda planície, em toda mata, em todo riacho e mar, em todo casebre e ou casa de taipa e maloca, será Pentecostes.

Quando deixarmos de ser guiados pelas fórmulas dogmáticas e catequéticas, e os credos ortodoxos, e proclamarmos com gestos coerentes o ‘hino à caridade’, será Pentecostes!

Quando deixarmos de competir com outras igrejas para ver quem faz mais sinais prodigiosos, e começarmos a balbuciar a linguagem do diálogo fraterno, será pentecostes!

Quando formos intolerantes com a nossa intolerância, os nossos preconceitos e racismos, e apertarmos com firmeza e ternura a mão do ‘outro e diferente’, será Pentecostes!

Quando derrubarmos os palanques dos espetáculos e dos teatros da fé, e começarmos a acreditar na fé dos pequenos excluídos e dos ignorados pelos profissionais dos templo, será Pentecostes.

Quando renunciarmos aos títulos eclesiásticos altissonantes, às vestes litúrgicas multicoloridas e aos altares dos sacrifícios, e nos revestirmos com as vestes do diálogo e calçarmos as sandálias da humildade, será Pentecostes.

Quando, enfim, sentarmos à mesma mesa e juntos comermos o mesmo pão no mesmo prato, sem inveja, nem ódio, sem cobiça e ambição, e reconhecermos pela ‘amorosidade’ recíproca que há um só Pai-Mãe,
só assim teremos a força e a ousadia de sair de nossas prisões domiciliares e de nossos egoísmos e sentiremos que não somos nós a agir, mas o espírito da Liberdade e da Luz sem fim.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

5º Dom. de Páscoa – Com Jesus, Deus plantou uma nova videira – (Jo. 15, 1-8) –

Muitas vezes nós nos iludimos que ao fazer algumas pequenas reformas, por exemplo, na política, na economia, ou na igreja, algo totalmente novo irá acontecer. João nos diz que não é assim! É preciso plantar uma nova planta, diferente da anterior, ou seja, um novo e inédito sistema político econômico  e eclesial. Para nos explicar isso João retoma a imagem antiga da vinha em que Deus cuidava com amor, mas ela, mesmo assim, não produzia frutos. Mais que isso: os enviados para cuidar da vinha eram todos assassinados pelos antigos vinhateiros. E Deus cansou! Arrancou tudo e deu uma nova vinha a novos e diferentes agricultores vinhateiros. João nos diz que com a Páscoa Jesus é a nova e verdadeira vinha, e não o que restou da vinha do velho e corrupto Israel dos sacerdotes e escribas. A nova vinha que é Jesus se torna produtiva se os ramos, que são as novas comunidades cristãs, são produtivas. Jesus opera uma transformação na realidade só se os seus discípulos/comunidades produzem obras renovadoras. Os novos galhos da nova vinha possuem uma nova relação entre si e com Deus, pois são alicerçados no amor recíproco e não nos preceitos ou na obediência às leis do templo.  E como age o Agricultor Vinhateiro, ou seja, Deus? Ele pede que os galhos/comunidades/discípulos permaneçam unidos ao tronco Jesus, pois só assim podem produzir frutos. E que aceitem ser podados. Que aceitem que algo de si seja cortado e purificado. Não como forma de punição, mas para produzir mais frutos. Compreender que a realização dos galhos é proporcionar muitos e gostosos cachos de uva, e fazer a felicidade de quem os come. Os discípulos não podem exigir nada em troca, a não ser a genuína felicidade de ver outras pessoas felizes com os frutos que sabem produzir gratuitamente em comunhão entre si e com a verdadeira videira. Acabaram os tempos em que cada galho se acha autônomo e autossuficiente, e segue projetos individuais. Está fadado à falência se não se articular com outros na confiança e na colaboração!

sexta-feira, 13 de abril de 2018

3º domingo de Páscoa – ‘Ser testemunhas de um Deus vivo’ – (Lc.24, 35-48)


Por que continuam as dúvidas no coração dos discípulos se já tinham visto Jesus vivo? Será que é somente falta de fé por parte dos discípulos ou aqui está se usando uma linguagem que é um tanto incompreensível? A linguagem dos evangelistas para descrever a caminhada de fé na Ressurreição parece nos atrapalhar um pouco. Eles não estão fazendo crônica histórica. Eles estão fazendo catequese, e não jornalismo! Querem mostrar às suas comunidades, muito tempo depois da morte de Jesus, que Ele continua atuante apesar da sua morte biológica. Em outras palavras: aquele que se foi permanece vivo nos que ficam, desde que estes levem adiante o que ele fez! As aparições são, portanto, recursos literários, e não descrição de um dado histórico! É como se a nossa comunidade, após ter lido e meditado as ações e a pregação de Jesus se perguntasse: ‘Jesus se estivesse aqui conosco, hoje, o que faria e o que diria diante desse ou daquele problema?’ A própria comunidade de forma coerente e conhecedora do jeito de Jesus coloca na boca de Jesus palavras e gestos que a ajudam a iluminar a sua realidade atual. As dúvidas, o medo, a incerteza, na realidade, estão ligadas às antigas expectativas das comunidades com relação ao ‘enviado de Deus’, o Messias. Como Jesus pode ser o enviado se foi humilhado e morto? Como ser seguidores de um crucificado que fracassou? O mundo iria mangar delas! Aos poucos, porém, as novas comunidades se convencem que só um sofredor como Jesus poderia compreender os dramas dos que sofrem violência hoje. Jesus, mais uma vez, se revela às comunidades como aquele que continua trazendo suas feridas abertas e convida a todos a mergulhar na paixão e morte de tantos irmãos que continuam sendo crucificados, não para morrer com eles, mas para dar nova esperança. Não para conformar pessoas, mas para motivá-las a tirar as cruzes e as causas do sofrimento e da violência, mesmo que isso nos custe caro. Mesmo que custe a própria vida!