sábado, 31 de julho de 2021

Um catolicismo pós paroquial - entrevista com Michael Ebertz

 O que a Igreja pode aprender com o conhecimento sociológico dos ambientes?
Deveria renunciar à sua onipresença em nível territorial. Deveria dizer adeus à ideia de ser quase análoga ao estado e abranger todo o país com as suas paróquias. Hoje em dia, essa é uma abordagem errada. Além disso, a Igreja deveria aumentar a sua atratividade. Deveria oferecer às pessoas de diferentes ambientes "estações de reabastecimento espiritual". Lugares onde podem obter "alimento espiritual", algo para à sua vida. Para visitar esses lugares de vida, as pessoas estão dispostas até mesmo a percorrer longas distâncias.
 

O que mais a Igreja poderia aprender desses ambientes?
Deveria focar menos no coletivo e mais no indivíduo com suas relações, preocupações e necessidades. Sabemos que a religião não tem nenhum papel na vida cotidiana de muitas pessoas, que de fato se movem em ambientes sem religião. Mas quando a vida é interrompida, como no caso de uma separação, querem conforto e orientação, precisam de redenção. Nas transições importantes da vida, como os casamentos, querem um símbolo desse evento que é tão importante para eles - por exemplo, um casamento na igreja. Nessas situações fora do cotidiano, a Igreja deveria estar muito mais presente. Deveria se parecer com uma espécie de força-tarefa móvel, mais que ser uma igreja estática que espera que as pessoas venham às paróquias. Aliás, ao contrário da crença popular, muitas paróquias não estão disponíveis para todos. Certos ambientes dominam - alguns grupos específicos seguram toda a paróquia em suas mãos. Especialmente os tradicionalistas, a classe média e os conservadores consolidados. Essa apropriação de ambientes ocorre em todo lugar, por exemplo até nos centros juvenis municipais: mesmo que em teoria se destinam a todos os jovens, na realidade são muitas vezes dominados por um ambiente muito específico. Outros jovens nem mesmo chegam perto.

O que significa tudo isso agora: tábula rasa, fazer desaparecer todas as paróquias e em seu lugar um centro juvenil aqui e um centro familiar ali?
Não vamos fingir que isso ainda não aconteceu. Muitas paróquias desapareceram - é o que está acontecendo em muitas dioceses. Na arquidiocese de Friburgo, haverá apenas 36 grandes paróquias no futuro, enquanto hoje existem mais de 1.000. Mas com um conceito inteligente de desenvolvimento da Igreja, sob essas grandes paróquias, que já não serão mais orientadas segundo o princípio territorial, poder-se-iam criar “hotspots de ambiente espiritual”. Com o Coronavírus aprendemos o que poderia ser multiplicar os formatos de celebração e de culto. Os formatos digitais poderiam ser utilizados para alcançar aqueles ambientes que se definem exclusivamente de maneira digital. Com toda certeza um hotspot para os tradicionais com veneração de santos, procissões e rosários; mas por favor também um hotspot para os socioecológicos que ainda acreditam numa sociedade melhor do futuro e que, se não forem interceptadas, irão migrar para um novo tipo de “religião da natureza”. Mas também um hotspot para o ambiente jovem de expeditive que estão em busca de significado e tendem a combinar ideias e práticas cristãs e não-cristãs em uma colagem espiritual. Se a Igreja se dirige aos diferentes ambientes de acordo com as suas necessidades, em vez de tentar de alguma forma de comunitarizá-los numa Igreja local sob o domínio dos ambientes aí presentes, então também poderia voltar a crescer.
 

Você tem esperança de que a Igreja efetivamente se reoriente e se concentre mais nos ambientes?
Eu sou bastante cético quanto a isso. Seriam necessários bispos corajosos que utilizassem adequadamente processos de desenvolvimento da Igreja - ou poder-se-ia também dizer: processos de reestruturação e desmantelamento. Certamente há oportunidades na atual reestruturação dos sistemas operacionais pastorais. Poderia haver experimentos, ou seja, simplesmente tentar alguns hotspots espirituais de ambiente. A ciência poderia observar e avaliar isso para que as experiências possam ser úteis em outro lugar. Tratar-se-ia de criar bons exemplos através da experiência.


Como a pandemia afeta os ambientes e quais são as consequências para a Igreja?
O Coronavírus foi uma grande provocação para a Igreja - basta pensar na experiência do impedimento da assembleia litúrgica dominical. Mas as celebrações digitais são, pelo menos em parte, bem-sucedidas. O tamanho da comunidade de culto aumentou em alguns lugares, embora nem todos os membros da Igreja estejam conectados à Internet. Eu mesmo participei de tais celebrações, onde as pessoas também puderam acessar os chats e, assim, participar ativamente. Pessoas de regiões muito diferentes se reuniram. Há um potencial de crescimento para a Igreja de conectar as pessoas com o evangelho, independentemente do que fizerem com isso. De toda forma, a Igreja não tem mais esse poder de controle –
Estou surpreso que, depois do Coronavírus, as celebrações presenciais sejam consideradas a panaceia. Como se não houvesse mais nada. Também nesse caso os ambientes não são levados em consideração. Certos ambientes não servem para uma celebração presencial. Não sabem como se comportar ali. Isso também significa que as celebrações presenciais excluem. Portanto, o que poderíamos aprender com o Coronavírus poderia ser multiplicar os formatos de celebração e de culto. Os formatos digitais poderiam ser utilizados para alcançar aqueles ambientes que se definem exclusivamente de maneira digital. E as celebrações religiosas são apenas um exemplo.
Por meio da digitalização e das mídias sociais, existem enormes oportunidades não só de multiplicar quantitativamente a presença comunicativa, mas de oferecê-la especificamente para os ambientes. Há um potencial de crescimento para a Igreja de conectar as pessoas com o evangelho, independentemente do que fizerem com isso. De toda forma, a Igreja não tem mais esse (poder de) controle.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O Bozo está acima de todos....e nada acontece com ele!

 Na quarta-feira, 27, o STF afirmou, por meio de publicação nas redes sociais, que  “uma mentira repetida mil vezes não vira verdade”, em referência a tese de Bolsonaro. Hoje, o mandatário classificou a manifestação da Suprema Corte como “fake news” e prometeu a publicação de uma nota para rebater o tribunal. “Não vai ser para peitar o Supremo, até porque eu estou por cima, eu tenho noção de judô”, disse em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada, em Brasília. “Vou rebater logo mais a nota do Supremo Tribunal Federal de ontem dizendo que não tirou poderes meus. Isso é fake news. Uma decisão que acho que é de março ou de abril, o Supremo decidiu que as medidas restritivas impostas por governadores e prefeitos não poderiam ser modificadas por mim”, afirmou Bolsonaro. Em abril de 2020, uma decisão do STF definiu que estados e prefeituras têm autonomia para tomar decisões relacionadas à Covid-19, mas isso não tira a responsabilidade do governo na mediação da crise, como vem alegando Bolsonaro. (Com informações do Estadão e O Globo.)

Doses de vacina destinadas aos índios Yanomami são vendidas por servidores públicos a garimpeiros com pagamento em ouro!

 Pelo menos 106 doses da vacina chinesa contra a Covid-19, a Coronavac, destinadas a Terra Yanomami, na região norte do país, foram vendidas a garimpeiros em troca de ouro, de acordo com denúncia divulgada pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY). As informações são do portal G1. O esquema fraudulento teria sido liderado por servidores que estavam na região prestando serviço ao Distrito de Saúde Indígena Yanomami (Dsei-Y), subordinado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde. O ofício, assinado pelo presidente do Condisi-YY, Júnior Hekurari Yanomami, apontou que cinco servidores, um enfermeiro e quatro técnicos de enfermagem, foram os responsáveis pelas vendas das vacinas na comunidade Komamassipi, na região do Parafuri, onde 45 garimpeiros foram vacinados, em troca de 15 gramas de ouro por cada dose. Também foram vacinados 23 garimpeiros nas regiões do Parima e 38 em Homoxi. A vacinação dos invasores teria sido feita em março, abril e maio deste ano. Na época, o grama do ouro era cotado a R$ 319,82 no Banco Central. Sendo assim, as 106 doses de vacinas, que deveriam ser aplicadas nos Yanomami, devem ter movimentado R$ 500 mil. A suspeita sobre esses desvios de vacinas veio à tona por meio de reportagem publicada, no mês passado, nos portais “Repórter Brasil” e “Amazônia Real”, que flagrou uma das servidoras tentando vender ouro em Boa Vista.Com isso, o Condisi-YY foi fiscalizar a comunidade onde essa servidora atuava e confirmou a troca de vacina por ouro. Segundo os indígenas, a vacinação dos invasores ocorreu durante o dia e à noite, tanto nos postos de saúde das três comunidades, quanto nos acampamentos do garimpo.


quinta-feira, 22 de julho de 2021

Desmatamento acumulado dos últimos 11 meses cresceu 51% na amazônia, aponta Imazon

A Amazônia perdeu em junho deste ano uma área de floresta de 926 km², território quase três vezes maior do que a cidade de Fortaleza, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Com isso, o desmatamento acumulado nos últimos 11 meses, de agosto de 2020 até junho de 2021, chegou a 8.381 km². Isso significa um aumento 51% em relação ao período de agosto de 2019 a junho de 2020, que somou 5.533 km² de devastação.Em junho deste ano, o Pará teve quatro municípios no ranking dos 10 que mais desmataram na Amazônia: Altamira, São Félix do Xingu, Novo Progresso e Itaituba, que somaram 174 km² de área desmatada.

“Apenas essas quatro cidades concentram 52% de toda a devastação registrada no Pará. E uma parcela do desmatamento que ocorre nesses municípios está situada em áreas sem destinação de uso, o que caracteriza o processo de ocupação da terra através de ações de grilagem para regularização futura“, relata Fonseca. O terceiro estado que mais desmatou em junho foi o Mato Grosso (14%), seguido de Rondônia (11%), Acre (9%), Maranhão (3%) e Roraima (2%). Já a análise do desmatamento por categoria do território indicou que 63% ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, 22% em assentamentos, 13% em unidades de conservação e 2% em terras indígenas. Já as florestas degradadas somaram 50 km² em junho, sendo 94% da degradação detectada no Mato Grosso e 6% no Pará.

Explosão do garimpo ilegal na Amazônia despeja 100 toneladas de mercúrio na região

 O incentivo ao garimpo ilegal promovido pelo Governo brasileiro nos últimos dois anos provocou uma enxurrada de mercúrio nas águas amazônicas. Um volume estimado em 100 toneladas do metal neurotóxico foi utilizado em 2019 e 2020 para extrair ouro ilegalmente da região, de acordo com estimativas feitas com base em um levantamento oficial. Esse ouro foi exportado pelo Brasil para países como Canadá, Reino Unido e Suíça. Em levantamento produzido em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais, o Ministério Público Federal (MPF) detectou uma quantidade de 49 toneladas de ouro lavado (extraído ilegalmente, mas documentado para parecer legalizado) com agentes comerciais que atuam na Amazônia obtido em colaboração com facções criminosas que invadem áreas protegidas em busca do metal precioso. A falsificação é feita com base em declarações fraudulentas de origem.

Dessas 49 toneladas, 17 foram lavadas no Pará —especialmente na região do médio Tapajós, área onde vivem os indígenas da etnia Munduruku. O prejuízo socioambiental da região, segundo o MPF, chegou a 9,8 bilhões de reais. E o cálculo é de que a extração desse ouro foi responsável pelo desmatamento de 21.000 hectares de floresta —derrubada para a procura do metal. “Pela sua omissão na implementação de controles de certificação de origem e de rastreabilidade na cadeia de produção e circulação de ouro de garimpo, o Estado Brasileiro promove e é ele próprio responsável direto pelas ameaças e violências praticadas contra os povos indígenas, em especial o povo Munduruku”, ressalta o MPF, que recomendou uma série de medidas aos órgãos legais de controle, como a adoção pela Agência Nacional e Mineração de um sistema de certificação e rastreabilidade do ouro brasileiro.


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Frases do dia....

 Tragédia

“Enquanto o Brasil triplica o fundão eleitoral, quase dois milhões de alunos pobres perdem o direito à isenção e não farão o Enem. Tragédia” – Bruno Caetano, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo – O Estado de S. Paulo, 19-07-2021.

Rolos

Qualquer Zé Mané pode oferecer um negócio de bilhões em vacinas ao Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, como ficou evidente graças a reportagens desta Folha e investigações da CPI da Covid. Talvez seja possível mesmo negociar bondes, terrenos na Lua ou remédios fantasmagóricos. Se o negociante tiver amigo militar, pastor ou propagandista do bolsonarismo, a conversinha fica ainda mais facilitada. Uma empresinha americana que de costume vende umas dúzias de pias e torneiras negociava um lote imaginário de centenas de milhões de doses de AstraZeneca. Quase todo mundo já sabe desses rolos” – Vinicius Torres Freire, jornalista – Folha de S. Paulo, 18-07-2021.

Blefe – a resposta escatológica de Bolsonaro

“Com obstrução intestinal, Bolsonaro blefou na resposta escatológica que deu à CPI do Senado (Caguei para a CPI, não vou responder nada, disse Bolsonaro sobre carta de senadores”. Caso exemplar de fake News” – Elio Gaspari, jornalista – Folha de S. Paulo, 18-07-2021. Esqueci: quando decidiu cagar o fez pelo nariz, mediante uma sonda!!!!!

Sob Bolsonaro, número de multas pagas por crimes ambientais na Amazônia cai 93%



Os entraves à fiscalização ambiental da Amazônia na gestão Jair Bolsonaro alcançam não só quem monitora infrações no campo, como aqueles que estão nos gabinetes de órgãos federais, julgando esses processos. Em 2019 e 2020, a média de processos com multas pagas por crimes que envolvem a vegetação nos Estados da Amazônia Legal despencou 93% na comparação com a média dos quatro anos anteriores. A centralização de decisões e a burocratização de processos ajudam a explicar o mau desempenho.... 

Racismo, negligência e extermínio: o tripé básico do governo Bolsonaro

 No Brasil, cor e classe social são fatores de risco na pandemia de coronavírus. Essa é a constatação apresentada nos estudos recentemente publicados pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde Pública da PUC-Rio e o Instituto Polis. Dos contaminados, quase 55% dos pretos e pardos vão a óbito, entre os brancos a taxa ficou em 38%.  Os dados refletem a histórica ineficiência das instituições brasileiras de construir políticas públicas de reparação histórica e de combate ao racismo.  

Mesmo as poucas iniciativas existentes, como é o caso das cotas raciais, ainda não foram suficientes para produzir um impacto em largas proporções ao ponto de igualar a pirâmide social brasileira. Em média, um trabalhador negro tem salário 17% menor que um branco de mesma origem social. Essa realidade se agravou ainda mais na atual crise econômica. Com o desemprego e a queda brutal da massa salarial, os trabalhadores negros e negras tiveram extrema dificuldade de acesso à saúde. Agora a CPI do Genocídio escancarou que Bolsonaro e seus aliados utilizaram a pandemia como uma oportunidade para exercerem sua necropolítica e o extermínio da população negra. É o que ficou comprovado no depoimento de Pedro Rodrigues Curi Hallal, que afirmou ter participado de uma reunião com membros do palácio do planalto e do ministério da saúde para apresentar dados da pesquisa EPICOVID-19 desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas. No encontro, o pesquisador enfatizou a necessidade de serem desenvolvidas ações coordenadas para proteção da vida de populações negras e indígenas, mas foi imediatamente censurado pela equipe de comunicação do governo. Além de impedirem a divulgação dos dados, logo em seguida o governo federal encerrou todas as relações e investimentos destinados à continuidade da pesquisa. A ausência deliberada de ação governamental para mitigar os efeitos do coronavírus nas populações negras causou ainda uma grande disparidade no número de vacinados entre negros e brancos. Segundo dados da Agência Pública, mais de 3,2 milhões de pessoas brancas receberam a primeira dose do imunizante, esse número cai para 1,7 milhões quando se trata da população negra.  

Como se não bastasse ter negligenciado a compra de vacinas, prevaricado em relação às denúncias de superfaturamento na compra da Covaxin, Bolsonaro também transgrediu o princípio constitucional de igualdade e equidade na proteção da vida. Sobram elementos para o impeachment do presidente, o povo está convencido disso, o que falta é parte do congresso deixar a sua condição de cúmplice no plano bolsonarista calcado em racismo, omissão e aniquilação dos brasileiros. (GGN)

MORREU, DE COVID, KARAPIRU, O RESISTENTE AWÁ DA SERRA DA DESORDEM, NO MARANHÃO

 


Tiracambu e o povo Awá está de luto. Morreu no dia 16 de julho o índio Awá-Guajá, Karapiru, de Covid. Apesar de ter recebido duas doses de vacina, não resistiu diante de um inimigo invisível, mas letal quanto os caçadores e invasores que o perseguiram covardemente por mais de uma década. Ao povo Awá a nossa proximidade e gratidão por nos ter oferecido um dos índios mais meigos, doces e resistentes que já conheci!

Um pouco de história

Corria o ano 1979. No município de Porto Franco, no Estado do Maranhão, nordeste do Brasil, uma família de índios Awá-Guajá é perseguida impiedosamente por um grupo de empregados de fazendeiros da região. Karapiru, a esposa, um filho e uma filha, de 5 e 8 anos, respectivamente, procuram fugir entre a baixa e rala vegetação, enquanto os tiros de espingarda de seus perseguidores se tornam sempre mais ensurdecedores. Improvisamente, o inesperado: a esposa de Karapiru é atingida em cheio, cai e agoniza. As crianças assustadas, chorando, se jogam sobre o corpo sem vida da mãe. Karapiru é tentado em voltar para socorrer. Percebe a proximidade e a determinação dos perseguidores que estão à espreita prontos para alvejá-lo. Não tem como voltar, não pode voltar, só correr, correr....para longe!

Município de Feira de Santana, Bahia, 1989. Um grupo de lavradores de uma comunidade rural vinha observando desde algum tempo que estavam desaparecendo vários animais na região. Muitos deles eram encontrados esquartejados, mortos com flechas. A perplexidade e o espanto tomam de conta da população local. O mistério é desfeito quando, certo dia, aparece na pequena aldeia um homem totalmente nu, segurando um enorme arco e um feixe de flechas. É um índio, e está com fome. Não há medo em seus olhos. De início as pessoas ficam apavoradas, mas ao perceber a sua serenidade lhe oferecem comida e abrigo. Não conseguem se comunicar. Ele fala uma língua estranha. O índio passa três meses com eles na aldeia, vivendo com a população local. Um dia, porém, chega um carro do governo federal com funcionários da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) chamados por membros da aldeia. Conseguem convencer o índio a ir junto com eles até Brasília. Na sede da autarquia federal, lingüistas e antropólogos se revezam para descobrir a identidade daquele índio. Levantam-se várias hipóteses. Convocam índios de várias regiões para falar com o recém contatado, mas ninguém consegue se comunicar. Só percebem que fala uma língua Tupi. Um funcionário do órgão federal que havia trabalhado alguns anos no Maranhão achou que poderia ser um índio Awá-Guajá. Imediatamente convocam um jovem Awá do Maranhão. Este se apresenta, e começa a falar com o índio. A conversa flui de ambas as partes. A satisfação é visível no semblante dos funcionários da FUNAI. Improvisamente, o jovem levanta a camiseta daquele índio. Marcas antigas de chumbo aparecem na pele morena e áspera de suas costas. O jovem se vira para os presentes e com os olhos arregalados exclama: “É meu pai!” Karapiru, depois de dez anos de solidão, trocando o dia pela noite, a 1.300 quilômetros de distância de sua terra original, havia encontrado parte da família que achava ter perdido definitivamente. Benvindo, o nome que os funcionários haviam dado àquele menino de 8 anos encontrado com a irmã sobre o corpo frio da mãe morta, havia reencontrado o pai que achava morto.

Descanse em paz, amável guerreiro!



sábado, 17 de julho de 2021

XVI domingo comum - Desembarcar do comodismo e do medo, e se 'armar' de compaixão indignada! (Mc. 6,30-34)

 Ritmos de vida frenéticos deveriam nos levar à necessidade periódica de repouso físico e mental. Nem sempre se consegue fazê-lo, ou nem sempre se quer.... Às vezes aparecem urgências de última hora, outras vezes falta a concentração para tanto. Muitas vezes a constatação de tantas situações de angústia e de sofrimento impedem, moralmente, toda tentativa de se afastar. 

No evangelho de hoje podemos entrever o dilema permanente de Jesus. De um lado a necessidade de recarregar e motivar o grupo, e do outro, a presença permanente de um povo faminto de consolo, de saúde e de pão. Jesus diante disso se deixa conduzir pela ‘compaixão’ e renuncia a todo tipo de ‘descanso’. O evangelista descreve o surgimento em Jesus de um forte sentimento que é uma mistura de indignação e de piedade. Chega à conclusão que a causa principal pelo aparecimento da ‘compaixão’ é a constatação por parte de Jesus, que aquele povo - que havia se antecipado ao grupo e o havia impedido de repousar, -  parecia ‘como ovelhas sem pastor’. Um povo mergulhado numa profunda desolação política e social. De abandono humano e religioso. De traição e de negligência. Os ‘líderes religiosos e políticos’ que deviam se comportar como pastores que protegem e servidores de um povo indefeso e agredido haviam se transformado em lobos violentos e assassinos. Precisamos urgentemente de pastores que assumam a postura de um pastor de verdade, cuidadoso e sensível, presente e acolhedor, servidor e amigo. Assim como era Jesus de Nazaré! O drama, infelizmente, se perpetua até os nossos dias: temos que conviver com líderes religiosos aproveitadores e inescrupulosos, celebrantes alienados de cultos vazios que disperdem o rebanho. E líderes políticos e sociais corruptos e insensíveis, aproveitadores e manipuladores. É preciso reproduzir hoje o a mesma decisão de Jesus: renunciar ao ‘descanso’ e desembarcar, para ir ao encontro de quem clama e quer proteção e apoio. 


Papa Francisco impõe restrições aos saudosistas tradicionalistas do 'Rito antigo'.

 A intervenção de Francisco derruba a legislação de Bento XVI intitulada Summorum pontificum, de 2007, que permite um maior uso da missa em latim pré-Vaticano II e estabelece uma série de novas condições rígidas que dão mais autoridade aos bispos locais. A decisão de Bento XVI havia permitido celebrações do Rito Antigo onde quer que um grupo de fiéis as solicitasse. Mas, com esta última decisão, cada padre que celebra o Rito Antigo deve agora obter a permissão de seu bispo para continuar a fazê-lo, enquanto qualquer padre ordenado após esta última decisão deve submeter um pedido formal ao seu bispo local, que, por sua vez, deve consultar a Santa Sé

A intervenção de Francisco visa a tornar a liturgia tridentina uma exceção, ao invés da norma, e conter os padres mais jovens e tradicionalistas que desejam rezar o Rito Antigo. Sua decisão também contesta o argumento que foi desenvolvido em alguns círculos eclesiais e entre certos cardeais de que o Rito Antigo, conhecido como “Forma Extraordinária”, pode coexistir e influenciar as celebrações ordinárias da liturgia. Francisco, no entanto, determinou que a liturgia que surgiu após as reformas do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, é a “única expressão” do Rito Romano, e não usa a expressão "Forma Extraordinária". Ele também afirma que uma das condições para a celebração da missa pré-Vaticano II é que “tais grupos não excluam a validade e a legitimidade da reforma litúrgica e dos ditados do Concílio Vaticano II”. O Rito Antigo exige que os padres rezem as orações da missa em latim muitas vezes de forma inaudível, enquanto se voltam ad orientem (de costas para o povo). Embora muitos sejam atraídos por seu estilo contemplativo e sobrenatural, o Rito Antigo também se tornou um ponto de encontro para a dissidência ao pontificado de Francisco e de oposição ao Vaticano II. Francisco se diz entristecido, explicando em uma carta aos bispos que acompanha seu motu próprio Traditionis custodes que a Missa Tridentina tem sido cada vez caracterizada “por uma rejeição crescente não só da reforma litúrgica, mas do Concílio Vaticano II, com a afirmação infundada e insustentável de que ele traiu a Tradição e a ‘verdadeira Igreja’”.

(Christopher Lamb, publicada em The Tablet, 16-07-2021.)

sexta-feira, 16 de julho de 2021

O início do fim do papado de Francisco. Artigo de Thomas Reese

 Como pastor, Francisco tem conquistado a imaginação do mundo com a sua compaixão e abertura a todas as pessoas. Ele tem colocado o amor, especialmente o amor pelos pobres, no centro das atenções em sua pregação do Evangelho. Como líder mundial, ele tem colocado o seu papado diretamente do lado dos migrantes e refugiados. E tem sido uma voz profética contra o aquecimento global e os excessos do capitalismo. E, dentro da Igreja, ele tem encorajado o diálogo e um estilo de governo mais consultivo: dito de maneira direta, a Congregação para a Doutrina da Fé não atua mais como a Inquisição de antigamente.

Ele tem tido menos sucesso em conquistar o establishment clerical para a sua visão de Igreja. Em seus oito anos como papa, Francisco pouco alterou o establishment clerical que herdou. Muitos bispos e padres da Cúria Romana e do mundo inteiro acham que a sua eleição foi um erro e esperam um retorno àquilo que consideram normal no próximo papado. Eles acham que ele não enfatizou o dogma e as regras o suficiente, então não estão cooperando. Mesmo assim, Francisco tem tratado esses opositores com a gentileza de um pastor que espera a sua conversão. Qualquer outro CEO simplesmente substituiria quem não está dentro da sua agenda, mas Francisco se recusa a demitir pessoas.

Como resultado, ele tem esperado até que as autoridades da Cúria e os bispos alcancem a idade da aposentadoria. Para que tal estratégia surta efeito, é necessário um papado muito longo, como o reinado de 27 anos de João Paulo II, seguido pelos oito anos de Bento XVI. Durante esse período de 35 anos, João Paulo II e Bento XVI refizeram o episcopado à sua imagem. O teste decisivo era a lealdade e a ortodoxia como eles a definiam. Qualquer pessoa que questionasse a posição do papado sobre o controle de natalidade, os padres casados ou as mulheres padres era desqualificado. Esses bispos, então, renovaram os seminários, que produziram o clero que temos hoje.

Reformar a Igreja Católica leva décadas, e não anos. Se o seu papado for considerado um fracasso, será porque Francisco fracassou em substituir ou em sobreviver ao establishment clerical instituído por João Paulo II e Bento XVI. Seu papado só terá sucesso se ele for seguido por papas que estejam em sintonia com a sua abordagem do catolicismo, e isso não está garantido. Ele nomeou homens simpáticos para o Colégio dos Cardeais, mas os conclaves são imprevisíveis, como a sua própria eleição mostrou.

 Thomas J. Reesejesuíta estadunidense,  ex-editor-chefe da revista América, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998)

FRASES DO DIA......

 Ricos precisam ser civilizados

“O maior desafio não é educar os pobres, é civilizar os ricos” – Angela Alonso, professora de sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Folha de S. Paulo, 16-07-2021.

O golpe do fundão eleitoral. Avacalhação nacional e a cambulhada de indignidades

“A 'nova política' está por toda parte. Chegou ao poder federal com Jair Bolsonaro ('sem partido!') e ao governo de vários estados, como o Rio de Janeiro de Wilson Witzel, que pelo menos já foi para a cadeia. Neste ano, os 'homens novos' assumiram de vez o comando da Câmara, com Arthur Lira (PP-AL), cúmplice maior do presidente, seu premiê e regente da avacalhação nacional. Esse casamento de inconveniência acaba por gerar uma cambulhada de indignidades, tal como o golpe do fundão eleitoral. (...) O aumento do fundo eleitoral de R$ 1,8 bilhão para R$ 5,7 bilhões em 2022 (o dinheiro extra equivale a 11% do Bolsa Família)” – Vinicius Torres Freire, jornalista – Folha de S. Paulo, 16-07-2021.

Lapso

“Ao menos publicamente até 20h30 desta quinta-feira, 15, nenhum chefe de Poder ou de casa legislativa havia desejado em nota ou em redes sociais pronta recuperação a Bolsonaro, internado em São Paulo” – Coluna do Estadão – O Estado de S. Paulo, 16-07-2021.

À vontade para tocar a balbúrdia

“O governo Bolsonaro não tem projeto político e líderes para negociar um programa legislativo. Não é mesmo capaz de propor projetos com um mínimo de competência técnica e compostura —considere-se o papelucho bisonho que Paulo Guedes quis passar como “reforma do IR”. Quanto ao Congresso, Bolsonaro apenas arrumou um centrão para chamar de seu e evitar o impeachment. Em troca, Lira e sua turma entregam umas “reformas” mambembes e ficam à vontade para tocar a balbúrdia, para não dizer outra coisa” – Vinicius Torres Freire, jornalista – Folha de S. Paulo, 16-07-2021.

sábado, 3 de julho de 2021

Solenidade de São Pedro e São Paulo - Tu és o ungido, filho do Deus que dá vida!

 A fim de manter os seus discípulos longe do fermento dos fariseus, isto é, da doutrina dos fariseus e dos saduceus, Jesus os leva para longe da instituição religiosa judaica e os conduz ao extremo norte do país. É o que escreve Mateus no capítulo 16, versículos 13-20. “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe”. Cesaréia de Filipe fica no extremo norte do país. É a cidade construída por Filipe que era um dos filhos de Herodes o Grande, e, para distingui-la da Cesáreia Marítima, foi chamada “Cesaréia de Filipe”. Na época de Jesus, a cidade estava em construção. É bom ficar atentos a este detalhe! Nos arredores da cidade se encontrava (e ainda se encontra) uma das três nascentes do Rio Jordão, que também era considerada a porta de entrada para o reino dos mortos. Portanto, é importantes observar estes elementos para a compreensão do que o evangelista nos relata. Pois bem, Jesus conduz seus discípulos tão longe da Judéia e também da Galileia para pôr-lhes uma pergunta. “Perguntou aos discípulos: “Quem dizem as pessoas” - literalmente "os homens" – “ser o Filho do Homem?”. O evangelista contrapõe “os homens” ao “Filho do Homem”. O Homem que tem a condição divina, isto é o Homem que tem o Espírito e aqueles que não o têm.

 Jesus quer se dar conta do resultado da pregação dos discípulos que Ele havia enviado para anunciar a novidade do Reino. A resposta é decepcionante! Eles responderam: “Alguns dizem que és João Batista” - porque acreditava-se que os mártires imediatamente ressuscitariam -“outros, Elias”. Elias, segundo a tradição, não tinha morrido, mas tinha sido arrebatado no céu e voltaria à chegada do futuro messias. “Outros ainda, Jeremias” - sempre segundo a tradição, Jeremias teria sobrevivido a uma tentativa de apedrejamento – “ou algum dos profetas” - Ninguém, nem os discípulos nem as pessoas que eles evangelizaram, compreenderam a novidade trazida por Jesus! Então, Jesus retomou: “E vós” - portanto, se dirige ao grupo todo - “quem dizeis que eu sou?”: Jesus voltou-se para todo o grupo dos discípulos, mas é apenas um aquele que toma a iniciativa. “Simão Pedro respondeu”. “Simão” é o nome, “Pedro” é um apelido negativo que indica a sua teimosia, e quando o evangelista o apresenta com este apelido, significa que há algo contrário ao anúncio de Jesus Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Finalmente, há um dos discípulos que compreendeu que Jesus não é o filho de Davi, quer dizer aquele que impõe o reino com a violência, mas é o Filho de Deus (literalmente) “vivificante”, que comunica vida. Jesus então declarou: “Feliz és tu, Simão”. Jesus chama-o “feliz”, mas acrescenta: “filho de Jonas”. "Filho", na cultura hebraica não apenas indica quem nasceu de alguém, mas quem lhe parece no comportamento. E Jesus chama-o de "filho de Jonas". Jonas é o único dos profetas do Antigo Testamento que fez exatamente o oposto do que o Senhor lhe tinha ordenado. De fato o Senhor lhe tinha dito: "Jonas, vai a Nínive para pregar a conversão, caso contrário, eu vou destruir esta cidade” e Jonas fez o oposto. Somente depois, no final, ele vai se converter. “Porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. “Por isso, eu te digo: tu és Pedro”. A palavra grega usada pelo evangelista é “Petros”, que significa um tijolo, uma pedra, que pode ser recolhida e utilizada para uma construção. “E sobre esta pedra”. Pedra não é o feminino de Pedro. 

O evangelista usa a palavra grega “Petra” que significa a “rocha” que é boa para as construções, firme que não pode ser removida. É a mesma palavra que Jesus, no capítulo 7, escolheu para a casa construída sobre a rocha. Portanto, Jesus disse a Simão: "Você é um tijolo. Sobre esta rocha " - e a rocha é o próprio Jesus - “edificarei a minha Igreja”....a assembleia dos que apostam no reino, não num templo... Por isso usa este termo leigo. “E as forças...” - literalmente "as portas". As portas de uma cidade indicavam a força e o poder dela! “... do inferno...” (“dos ínferos ou inferiores”), isto é o reino dos mortos (e não o que nós chamamos de inferno). Lembro mais uma vez que o episódio acontece perto de uma das cavernas que acreditava-se ser a entrada para o reino dos mortos “... não poderão vencê-la”. Quando uma comunidade é construída sobre Jesus, o Filho do Deus vivo, comunica a vida e, portanto, as forças negativas, as forças da morte, não terão poder algum sobre ela! “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Dar as chaves a alguém significava colocá-lo como responsável pela segurança daqueles que estavam dentro da cidade. Jesus lhe dá a responsabilidade de todos aqueles que pertencem a este Reino, que é a alternativa que Jesus veio trazer. “Tudo o que ligares na terra” - aqui o evangelista utiliza uma linguagem rabínica, que significa declarar autêntica ou não uma doutrina – “será ligado nos céus” - isto é em Deus - “e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Então Jesus ordena: "Isso não deve ser dito a ninguém", porque Ele não é o messias esperado pela tradição. Jesus é Cristo, é o Messias, mas de uma forma completamente diferente: Ele não usará o poder, e sim o Amor, não o comando, e sim o serviço.