sábado, 28 de junho de 2014

A copa das copas: as ruas e as urnas! Um artigo de Flávio de Campos da USP. Vale a pena ler

A principal característica da Copa do Mundo de 2014, que marcará definitivamente a história do futebol, é a sua intensa politização. A agenda esportiva, iniciada com a Copa das Confederações de 2013, entrelaçou-se à agenda política, com a realização das eleições gerais no segundo semestre deste ano.Futebol e política entraram em campo com uma disposição tática nunca vista. Não é novidade a utilização do sucesso de seleções por governos autoritários: 1934 e 1938 pelo regime fascista na Itália; 1970 pela ditadura militar brasileira; 1978 pelos militares argentinos. A particularidade desta Copa é a expressão da política em uma chave democrática. Claro, pode-se recordar as tentativas de todos os presidentes em extraírem algum dividendo das conquistas de 1958, 1962, 1994 e 2002. No atual certame, no entanto, são opositores, à direita e à esquerda do consórcio instalado no Palácio do Planalto, que utilizam o futebol mais que o próprio governo, a quem se acusava previamente de uma mal-intencionada instrumentalização bolivariana.

Às vésperas do seu início, chamava a atenção a desmobilização torcedora em contraste com a intensa mobilização social, tendência que foi se alterando com o transcurso do torneio. Além de diversas categorias em greve, movimentos sociais hasteavam bandeiras históricas outrora empunhadas pelo PT e de certo modo arriadas desde 2003 em nome da governabilidade requerida pelo presidencialismo de coalizão. Em seu conjunto, a organização de variadas iniciativas à margem do megaevento -- Copa Rebelde, Copa do Povo, Copa dos Refugiados, Copa das Meninas, Mundial de Futebol de Rua, Copa Revolucionária da Mulher-- traduzem a politização em sentido amplo e crítico. Nesse sentido, arrisco afirmar que o futebol já interferiu no resultado das eleições de 2014. Após as jornadas de junho de 2013, as intenções de voto para a presidenta Dilma Rousseff (PT) e sua popularidade se desidrataram.As demandas das ruas calçaram chuteiras ao estabelecerem como parâmetro os gastos com a organização da Copa e o propalado padrão Fifa. Ao mesmo tempo, fortaleceu-se a percepção coletiva de que uma extensa lista de responsabilidades --atrasos nas obras de infraestrutura e mobilidade urbana, problemas nos estádios e o desperdício da janela de oportunidades-- deveria ser atribuída ao governo federal.

Percepção distorcida porque tais responsabilidades merecem ser repartidas com governantes estaduais e municipais de muitas siglas partidárias, inclusive oposicionistas.Não é de estranhar, portanto, que enquanto Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) sejam alegremente retratados em fotografias com camisetas do Brasil e cercados de filhos e ex-atletas, vejamos Dilma acuada, vaiada e vulgarmente desrespeitada. Impensável imaginar uma visita sua à Granja Comary, à semelhança do que fizeram Angela Merkel e a realeza da Holanda nos vestiários de suas respectivas seleções, sem que isso provocasse reações furiosamente negativas.Neste momento, Dilma é a torcedora número 1 do escrete nacional. Uma eliminação prematura, antes das semifinais, pode intensificar o descontentamento daqueles que se engajaram pelo sucesso da seleção. No segundo semestre, isso será ingrediente do repertório do eleitorado oposicionista. Já eventual vitória não garantirá a reeleição de Dilma, mas poderá oferecer algum alento, atenuando a saraivada de críticas e contrapondo-se à onda pessimista e mal-humorada que tomou conta do país neste último ano.

Em ambas as situações, por meio do futebol e de sua importância para a sociedade brasileira, tornaram-se explícitos dilemas, conflitos e interesses como poucas vezes na história do país. Esse é o principal legado da Copa. O enfrentamento político com o Brasil diante do espelho.

Pedro e Paulo: rupturas permanentes com um passado que não permite crer no 'Deus vivo' de Jesus (Mt. 16,13-19)

Existem momentos na nossa vida em que somos impelidos a produzir rupturas radicais com o nosso passado. Deixar, definitivamente, certos comportamentos, estilos e opções de vida, sob pena de sermos permanentemente insatisfeitos e incompletos. Numa linguagem mais teológica poderíamos dizer que é necessário entrar num radical processo de conversão existencial e espiritual. Jesus, Pedro e Paulo, e muitos outros, passaram por isso. Jesus rompeu com o seu passado de ‘marceneiro’ dependente de uma família e de uma comunidade religiosa fechada no norte da Galiléia, e se tornou um itinerante missionário do reino em muitas comunidades e famílias. Paulo rompeu com o seu passado de observante rigoroso e defensor intransigente das normas farisaicas, - além de perseguidor impiedoso, - para se tornar o proclamador da liberdade que vem de Cristo. Pedro, também, de pescador e cidadão absorvido por um cotidiano insosso e sem esperanças, converte-se num discípulo impávido do ‘mestre’, inicialmente, e, posteriormente, num líder dos discípulos e discípulas do ‘ressuscitado’, após a morte de Jesus, e após ter negado a pertença ao Seu grupo. No próprio trecho evangélico de hoje assistimos a mais uma ruptura com um determinado passado de Jesus, e à escolha de uma nova e radical opção de vida. Jesus abandona a sua missão na Galiléia, - a que lhe havia proporcionado fama de ‘mestre e curador’ e começa a percorrer o caminho rumo a Jerusalém, rumo à cruz e à rejeição.

É nesse contexto de ‘rupturas constantes’ com um determinado passado, feito de mentalidades e práticas específicas que somos chamados, como Pedro, a responder à incessante pergunta de Jesus ‘quem eu sou para vocês’? A depender da sua resposta nós daremos um determinado sentido à nossa vida, mas, também, iremos gerar um determinado modo de ser igreja de Cristo, hoje. Contemplando as ‘rupturas’ produzidas por Pedro e por Paulo não somente no seu itinerário existencial pessoal, mas no seu itinerário teológico e histórico como membros de um grupo eclesial podemos compreender alguns elementos que não podem ser ignorados na ‘nossas respostas’ à pergunta do mestre que ele continua dirigindo à sua igreja. 1. Ser discípulos do ‘Cristo filho do Deus vivo’ significa saber segui-lo no caminho na cruz e da rejeição, e não na expectativa de obter cargos, reconhecimentos públicos e poder. 2. Ser igreja do ‘Cristo filho do Deus vivo’ significa romper com o medo e a dependência produzida pelas normas e as prescrições religiosas ligadas a um espaço sagrado e a um templo, e mergulhar na beleza de criar fraternidade e comunhão com todos os povos e culturas. Alimentar-se das inúmeras manifestações do amor do Pai que fala a todos, não quer divisões e rivalidades entre seus filhos e filhas, e sim, liberdade e respeito principalmente para os ‘seus pobres’ que continuam pagando as conseqüências das ‘respostas equivocadas’ de seus pastores à ‘pergunta’ de Jesus. Que como Pedro e Paulo saibamos incorporar e reproduzir as escolhas e opções de vida do ‘Cristo filho do Altíssimo’!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Corpus Domini - Não só de pão vive o homem!

O Papa Francisco celebrou a missa na tarde desta quinta-feira, 19 de junho, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, na Basílica Papal de São João de Latrão, em Roma. "O Senhor, teu Deus, (...) te alimentou com o maná, que tu não conhecias", disse o Papa Francisco no início de sua homilia citando uma passagem do Livro do Deuteronômio. "Estas palavras de Moisés fazem referência à história de Israel, que Deus fez sair do Egito, da condição de escravidão, e por quarenta anos o guiou no deserto para a terra prometida. Uma vez estabelecido na terra, o povo eleito atingiu uma autonomia, um bem-estar, e correu o risco de esquecer as tristes vicissitudes do passado, superadas graças à intervenção de Deus e à sua infinita bondade", frisou o Santo Padre. As Escrituras exortam a fazer memória de todo o caminho feito no deserto, no tempo da penúria e do desconforto. Moisés convida a voltar ao essencial, à experiência de total dependência de Deus, quando a sobrevivência foi colocada em suas mãos, para que o homem compreenda que "não vive somente de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca do Senhor". "Além da fome material o homem leva consigo outra fome, uma fome que não pode ser saciada com comida comum. É a fome de vida, fome de amor, fome de eternidade. O sinal do maná – como toda experiência do êxodo – continha em si também esta dimensão: era figura de uma comida que sacia esta fome mais profunda que existe no homem. Jesus nos dá este alimento, assim, é Ele mesmo o pão vivo que dá vida ao mundo. Seu Corpo é verdadeira comida sob a espécie de pão; seu Sangue é verdadeira bebida sob a espécie de vinho. 
Não é um simples alimento com o qual sacia nossos corpos, como o maná; o Corpo de Cristo é o pão dos últimos tempos, capaz de dar vida, e vida eterna, porque a substancia deste pão é Amor." Viver a experiência da fé significa deixar-se alimentar pelo Senhor e construir a própria existência não sobre bens materiais, mas sobre a realidade que não perece: os dons de Deus, sua Palavra e seu Corpo. "Se olharmos ao nosso redor, daremos conta de que existem tantas ofertas de alimento que não vem do Senhor e que aparentemente satisfazem mais. Alguns se nutrem com o dinheiro, outros com o sucesso e com a vaidade, outros com o poder e com o orgulho. Mas a comida que nos alimenta verdadeiramente e que nos sacia é somente aquela que nos dá o Senhor! O alimento que nos oferece o Senhor é diferente dos outros e talvez não nos pareça assim saboroso como certas iguarias que nos oferecem o mundo. Agora sonhamos com outros alimentos, como os hebreus no deserto que choravam a carne e as cebolas que comiam no Egito, mas esqueciam que aqueles alimentos eram comidos na mesa da escravidão. Eles, naqueles momentos de tentação, tinham memória, mas uma memória doente, uma memória seletiva." (Fonte: Rádio Vaticano)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Indígenas do Maranhão - Quando religião vira 'ópio' da etnia!

Algo espantoso parece estar acontecendo em várias aldeias Guajajara do Maranhão, na região de Grajaú e Arame. Algo que está se alastrando e contaminando os adolescentes e jovens, principalmente. Parece uma 'droga alucinógena' que cria efeitos deletérios e inesperados. Diga-se, de passagem, que não é algo novo, mas agora, parece assumir proporções alarmantes. Trata-se de ‘pastores’ evangélicos que ‘invadem’ as aldeias e num misto de fanatismo religioso, com ameaças e fortes pressões psicológicas desestruturam a mente de vários jovens indígenas. Os efeitos são assustadores: desmaios, falta de concentração, abandono das normais atividades e, um caso de suicídio e outras tentativas similares ocorrendo em diferentes aldeias quase que simultaneamente. Evidentemente, a ação desses pastores encontra um terreno fértil sendo que na maioria das aldeias da região as igrejas evangélicas prosperam e, muitas delas, se apoiam na carga emocional dos fregueses indígenas.  Em alguns casos ouviu-se dizer que os pastores estariam em contatos diretos com o ‘diabo’ que estaria tomando posse da alma de vários jovens indígenas. O fenômeno vem provocando não somente acalorados debates, mas também verdadeiros conflitos internos entre lideranças e famílias que vêem seus filhos sendo manipulados de forma tão grosseira com consequências desastrosas desde um ponto de vista psicológico e social. Nem todos os indígenas têm consciência da existência da manipulação exercida pelos pastores e acham que sua atuação seria como que uma espécie de ‘purificação e expulsão’ libertadora.  Seria suficiente constatar os afeitos dessas sessões ‘diabólicas’ para perceber que uma nova forma de dependência está sendo posta em ação. Cabe, finalmente, uma última consideração: quem irá ser responsabilizado pela morte do jovem que se suicidou após algumas sessões do pastor e pela desestruturação emocional que vem ocorrendo em muitos outros?  

Colinas da Lessinia de Verona oferecem paz e tranquilidade! Viva as férias!

O blogueiro encontra-se temporariamente na Itália por um período de férias junto à sua família. Daí a escassez de postagens...Na realidade, uma salutar ausência que serve para reencontrar e abraçar as raízes camponesas e mergulhar na paz dos montes e colinas da Lessinia de Verona. Uma paisagem mágica e sugestiva onde o canto dos canarinos é interrompido raramente por máquinas agrícolas. Uma paz e uma segurança que não existem na capital maranhense. Os habitantes do povoado costumam ainda deixaram as portas de suas casas abertas, sem trancar. Quando saem ‘escondem’ a chave debaixo de um vaso de flores ou a deixam numa janela ou debaixo de um tapete externo. Aqui não se tem memória de um assalto, de um homicídio, de uma violência que tenha chocado a população. Mergulhar nesses mundo, no início, foi algo surpreendente...Não parecia real! Agora, no seu íntimo, o blogueiro vem tomando consciência que esse mundo é real e poderia ser real para muitas cidades e povos. Nem tudo é ouro, claramente. Também aqui pequenos conflitos e tensões não deixam imunes as pessoas, mas estamos longe de ter que agüentar o som em volume máximo, se apavorar toda vez que alguém estranho se aproxima da gente, gastar grana com cerca elétrica, com porte de arma, e com segurança noturna. Certamente haverá quem diga que não há vida num povoado pacato como esse, mas é que a bela Verona fica a 15 minutos daqui e nada custa, vez por outra passear por piazza Brá, delle Erbe, visitar catedrais e teatros romanos...Mas à noite voltar para dormir na quiete e no clima ameno da colina.