sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTIDADES E IGREJA CATÓLICA LANÇAM NOTA DE REPÚDIO CONTRA IRREGULARIDADES COMETIDAS PELA SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE DA PREFEITURA DE AÇAILÂNDIA EM PIQUIÁ DE BAIXO

 

NOTA DE REPÚDIO

 

Piquiá, 06 de fevereiro de 2026

 

Na manhã do dia 03 de fevereiro de 2026, ocorreu em Piquiá de Baixo mais um episódio de extrema gravidade institucional, revelador de ilegalidades administrativas, violação de direitos fundamentais e grave déficit de condução democrática no processo de finalização da transferência das famílias daquela comunidade. Na referida data, representantes da Defesa Civil e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, com o auxílio de maquinário pesado pertencente a empresa vinculada à AVB (Aço Verde Brasil), ingressaram na área de Piquiá de Baixo, entre os escombros de residências anteriormente demolidas, sem qualquer aviso prévio, notificação formal ou apresentação de ordem administrativa individualizada, procedendo à demolição imediata da histórica Igreja de São José, bem de inegável valor simbólico, cultural e religioso para a comunidade local.

Na sequência da intervenção, o agente que se identificou como responsável técnico e coordenador da operação, na qualidade de representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, passou a pressionar moradores presentes no local, aplicando multas, inclusive em situação que resultou na violação da porta de uma residência ainda ocupada, contendo móveis e eletrodomésticos, ato que somente não culminou em demolição em razão da intervenção direta e imediata do proprietário do imóvel.

A conduta acima descrita mostra-se incompatível com o exercício regular da função pública, sobretudo diante da posterior constatação de que a justificativa apresentada no momento da ação, a suposta existência de ato administrativo formal, consensuado com o Ministério Público, e amparado em um PRAD (Programa de Recuperação de Áreas Degradadas), não correspondia à realidade fática.

Tal afirmação foi expressamente desmentida, no prazo de 24 horas, pelo Promotor de Justiça do Meio Ambiente de Açailândia, que esclareceu a uma comissão da sociedade civil que o esboço do PRAD, - inclusive por ele solicitado reiteradas vezes ao longo de meses, - somente lhe fora apresentado na tarde daquele mesmo dia, pelo próprio Secretário Municipal de Meio Ambiente, para fins de análise e debate, inexistindo, portanto, qualquer autorização prévia para a ação executada.

O que se evidencia e desperta profunda indignação, portanto, é a adoção reiterada de um modus operandi administrativo marcado pela imposição unilateral e precipitada de medidas extremas e irreversíveis (demolição), pela supressão de instâncias de diálogo, pelo apagamento de memórias incômodas (poluição intensa, óbitos por doenças pulmonares, queimaduras graves pela munha quente despejada nas proximidades das casas, sistemática ausência dos poderes públicos, etc.) pelo desrespeito a acordos em construção e pela afronta a princípios basilares da administração pública, notadamente a legalidade, a finalidade, a publicidade, a razoabilidade e a participação social.

 Diante desses fatos, nós, associações, entidades da sociedade civil, Igreja Católica de Piquiá (Diocese de Imperatriz) e cidadãos e cidadãs abaixo assinados, tornamos pública nossa denúncia e veemente repúdio a mais um conjunto de abusos praticados por representantes da Prefeitura Municipal de Açailândia contra famílias que ainda permanecem em Piquiá de Baixo, à espera de solução definitiva e digna para sua realocação.

Desde o início do processo de transferência das famílias de Piquiá de Baixo, instaurado há mais de um ano, para os locais previamente negociados e definidos de comum acordo para seu reassentamento, bem como para a subsequente demolição das moradias, os representantes da Prefeitura encarregados da execução dessas medidas vêm reiteradamente praticando irregularidades administrativas como a notória falta de notificação para muitas pessoas, em afronta direta aos princípios da legalidade, da participação social e da gestão democrática, condutas que não podem nem devem permanecer sem a devida apuração e responsabilização. O ocorrido em 03 de fevereiro não constitui fato isolado, mas representa reincidência grave de práticas administrativas irregulares, perpetradas por órgãos que têm o dever funcional de cumprir a lei, respeitar os acordos firmados, dialogar com a comunidade e mediar conflitos, e não de agravá-los por meio de ações arbitrárias.

 Diante do exposto, os signatários requerem e exigem:

1. A imediata apuração administrativa e o afastamento cautelar dos agentes públicos responsáveis pela ação que resultou na demolição da Igreja de São José e na tentativa de demolição de residência ocupada, sem prévia notificação, por manifesta incompatibilidade com a condução adequada do processo de realocação das famílias de Piquiá de Baixo.

2. Que a empresa AVB (Aço Verde Brasil) que desde o início do processo de transferência e de demolição das casas vem proporcionando apoio logístico concreto diga explicitamente qual o seu papel no processo de demolição das casas,  esclareça formalmente se tinha ciência ou não da metodologia adotada pelos órgãos municipais na execução da ação do dia 03 de fevereiro, e que tipo de apoio logístico concreto forneceu na ocasião, sob pena de ela ser suspeita de cumplicidade e de conivência com os autores das irregularidades.

3.   Que a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Maranhão, por intermédio da Delegacia de Polícia Civil de Açailândia, proceda à investigação rigorosa e imparcial dos fatos já noticiados por meio de Boletim de Ocorrência regularmente registrado, promovendo a devida apuração e responsabilização legal dos envolvidos;

4. Que o Ministério Público do Estado do Maranhão convoque, com urgência, reunião institucional com todos os atores sociais envolvidos, tendo com finalidade a análise de eventuais danos morais e materiais causados e a construção de metodologias consensuais, transparentes, respeitosas e legalmente adequadas, capazes de evitar a intensificação de conflitos, da vulnerabilidade social e o aprofundamento do sofrimento humano das famílias e cidadãos afetados.

 Paróquia Santa Luzia do Piquiá

Ass. Justiça nos Trilhos

Missionários Combonianos

Centro Frei Tito

Ass. Carlo Ubbiali

Sindicato Trabalhadores Rurais de Açailândia

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Um comentário:

MARCO PASSERINI disse...

A interminável saga de Piiquiá de Baixo, nas mãos de Wagner Moura, daria um bom roteiro para mais uma estatueta.