sexta-feira, 10 de julho de 2026

15 domingo comum - Não a semente, mas o solo-receptor é que faz a diferença!

Será que as palavras, por si só, têm poder para motivar, seduzir e fascinar pessoas, ou elas dependem, essencialmente, de quem as comunica? Seja o que for, Jesus parece sugerir um outro caminho: as palavras e seus efeitos transformadores dependem de quem as acolhe! Em outras palavras: podemos ter palavras-sementes de ótima qualidade, serem proclamadas por hábeis e generosos ‘comunicadores-semeadores’, mas tudo vai depender da abertura ou do fechamento de quem as escuta e acolhe! É, afinal, a qualidade do ‘solo humano’, do receptor da palavra que faz a diferença. A parábola hodierna nos mostra que o ‘semeador’ deixa cair, paradoxalmente, sementes valiosas, de qualidade, em vários tipos de solos. Parece não se preocupar em selecionar, previamente, o solo, nem analisar qual poderia ser o mais apto, evitando, assim, desperdícios, e visando, unicamente, o seu pleno aproveitamento. O semeador parece acreditar que todos 'os solos-pessoas', - até os mais impróprios – possuem energia interna para fazer germinar a 'semente-palavra'. Há, contudo, algumas condições para que isto aconteça:1. Não se deixar ‘sufocar’ jamais quando aparece a perseguição e a calúnia por manter fidelidade à palavra anunciada; 2. Jamais permitir que a sedução da riqueza e do poder prevaleça; 3. Nunca desistir quando se experimenta medo e a angústia perante os conflitos e as turbulências da vida. O nosso 'solo humano-espiritual' está pronto para tudo isso?


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Festas juninas - Perguntas ao 'meu São João'....

Porque, ó meu São João, não convidaste as estrelas rodopiantes do céu de Upaon-Açu a dançar ao passo dos claríns do Boi de Axixá para alumiar os cegos corações de quem se alimenta das turvas águas do Bacanga e do Anil?

Porque, ó meu São João, o hipnótico rufar dos teus tambores não comoveu Ogum a baixar, impávido, em quem nunca vibrou na vida, e naqueles corpos suados e transfigurados que só desmaiam pela fome, pelo cansaço e pela dor?

Porque, ó meu São João, ainda iludes as delirantes praças e seus exaltantes arraiais a acreditarem que ainda haverá um amanhã de sol quando, tu bem sabes, que os únicos lampejos nos céus de Gaia são só as flechas incandescentes dos seus temporais?

14 domingo comum - Nada pesa para quem faz com amor!

Há fardos na vida que deixam de ser tais quando compreendemos o sentido e o valor que eles escondem. Assistir um filho ou uma mãe acamada, por exemplo, pode ser um peso fisicamente exigente, mas pode se tornar um ‘jugo’ afetiva e moralmente leve. Compreender o valor da gratuidade e da gratidão ou a generosa doação incondicional para com aqueles que precisam de apoio, nos motiva a estarmos ao seu lado, custe o que custar. Para quem entende isso não existe cruz pesada, nem jugo insuportável, nem sacrifício inútil, nem destino amaldiçoado. As elites sacerdotais e os sabichões cegos da religião oficial não podiam entender isso. Eles foram educados a manter uma relação voltada única e exclusivamente para satisfazer um Deus supostamente desejoso de sacrifícios e mortificações, e não para manifestar solidariedade e compaixão aos seus irmãos e irmãs! Jesus de Nazaré continua a nos alertar, hoje, que preceitos, celebrações, liturgias e ritos, esses sim, se tornam verdadeiros jugos se ignoram que o único e verdadeiro compromisso do discípulo é ouvir, acolher, confortar todos aqueles que estão sendo esmagados sob o peso da indiferença, do abandono e da truculência dos que alimentam a alienação do legalismo e do moralismo do templo, e da lógica perversa de quem vive nos palácios.


sábado, 27 de junho de 2026

Solenidade de Pedro e Paulo - Por uma igreja mais humana!

 Se alguém nos perguntasse quem somos, muitos de nós responderíamos, sem hesitar, que somos, primeiramente, seres humanos. Se, contudo, persistissem em suas indagações e nos perguntassem como cada um de nós se compreende como ‘ser humano’ teríamos, certamente, uma infinidade de respostas. Chegaríamos até, a ensaiar respostas de acordo com as expectativas dos nossos pesquisadores. De fato, temos dificuldade em nos definir, e em nos expor para os outros. No evangelho de hoje Jesus, por sua inciativa, se assume, de imediato, como ‘filho do homem’ com tudo o que isso acarreta. Não receia em indagar os seus discípulos para saber como o povo compreende a sua ‘humanidade’ ou, a sua missão como ‘ser humano’ no meio dele. Ao ouvir as diferentes respostas, Jesus não esconde a sua decepção. Afinal, Ele é equiparado a alguns dos míticos profetas, semideuses, do passado de Israel. Jesus percebe que não estava sendo entendido como ‘filho do homem’, humano entre os humanos, mas como um semideus., uma espécie de líder celestial Ele que movido pela compaixão quis se igualar em tudo à condição humana, não havia sido acolhido como humano no meio dos humanos. O povo de ontem e de hoje, e o próprio Pedro, continuam, no fundo, a desejar ainda ‘messias’ e supostos ‘ungidos’ para poder delegar a esses supostos salvadores da pátria o que os ‘humanos’ não querem assumir!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza

 

Em 23 de junho, uma comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter como alvo crianças em Gaza. Em um relatório de cem páginas, os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra menores palestinos no território desde 7 de outubro de 2023 até 31 de março de 2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está cometendo genocídio.A reportagem é publicada por RFI, 25-06-2026.


Mais de 20 mil crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, cerca de 40 mil ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram órfãs. No relatório, os especialistas destacam que “o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o ‘grupo palestino’, no todo ou em parte, em Gaza”. Para a comissão, as crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua capacidade de sobreviver. Segundo o documento, as forças israelenses têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados superlotados. Israel também perturba sistematicamente a capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95% das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores e enfraqueceu “os alicerces da sociedade palestina”.

Estado israelense também tem como alvo os serviços neonatais e de maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento de abortos espontâneos e malformações congênitas. Além disso, a fome imposta em Gaza causou mortes infantis. Em 1º de outubro de 2025, 151 mortes de crianças por subnutrição haviam sido registradas.

Mas Israel também ataca diretamente as crianças. Tel Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e rifles, visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior do corpo “para infligir o máximo dano”, diz Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão. O relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone com câmera infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que ganhou destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando tentava deixar a Cidade de Gaza com sua família.

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

12°Domingo Comum - 'NÃO TENHAIS MEDO'!

Sentir medo faz parte da nossa estrutura emocional. É um mecanismo do nosso cérebro para se antecipar, e nos preservar de eventuais perigos e ameaças iminentes ou futuras. Contudo, quando o medo, em lugar de desencadear em nós uma reação positiva para superá-lo e enfrentar os supostos perigos, e chega a nos paralisar e dominar, ele se torna uma perigosa fobia. Algo patológico que não nos deixa viver com dignidade e liberdade. É a esse tipo de medo que Jesus parece se referir no evangelho de hoje. O ‘Não tenhais medo’ que o Mestre repete como uma espécie de refrão é dirigido aos seus seguidores que fazem a experiência concreta da perseguição e do banimento público por serem discípulos Dele. Jesus os incentiva a enfrentar o medo que Ele sabe ser real, e a não se deixar travar por ele. Ao mesmo tempo, Ele os motiva a não negociar com o medo ao compactuar com quem os ameaça e persegue, e a não renunciar jamais às suas convicções e aos seus testemunhos. Talvez, hoje, estejamos enfrentando dentro da igreja de Jesus outros ‘medos’ extremamente perigosos e patológicos: o medo de um 'deus' entendido como juíz intransigente e castigador; o medo de perder privilégios e poder; o medo de perder uma fantasmagórica e imutável ‘identidade católica’; o medo de perder fregueses devotos, e não discípulos! Na realidade, o verdadeiro ‘medo’ que deveríamos sentir é o de trair e renegar o Pai e o seu Reinado de amor e de compaixão!  

sábado, 13 de junho de 2026

XI Domingo Comum - Para ser discípulo de Jesus é preciso sentir indignação e compaixão!

"Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca". (Ap.3,16) O indiferente, o apático é incapaz de sentir nele a dor e a alegria que existem no outro. Às vezes, tem-se a impressão de que nos acostumamos de tal maneira em ver pessoas abandonadas, humilhadas e esmagadas por outros humanos que deixamos secar, aos poucos, a escassa indignação e empatia que ainda sobrevivem em nós. Achamos mais conveniente aderir à lógica diabólica da ‘religião’ e ‘orar’ pelos doentes e aflitos, em lugar de assisti-los e defendê-los em seus direitos e dignidade. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que os seus discípulos, se quiserem ser missionários autênticos da ‘Realeza do Pai’, devem abandonar a indiferença e a apatia. Devem rechaçar os vícios dos devotos hipócritas do templo e de seus preceitos de 'pureza litúrgica' que impedem a aproximação com 'as pessoas impuras'. Devem se deixar educar, definitivamente, pela indignação e pela ternura compassiva. Só assim poderemos sarar as feridas abertas e infectadas do egoísmo e da indiferença, purificar a lepra da intolerância e do racismo, e expulsar os demônios do medo, da dependência e da manipulação. 


domingo, 7 de junho de 2026

10°domingo comum - CHEGA DE SACRIFÍCIOS E RITOS, QUERO AMOR E COMPAIXÃO!

Pela nossa formação catequética e religiosa, um tanto distorcida, temos dificuldade de encarar a nossa relação com Deus de acordo com o modo vivenciado por Jesus. Muitos continuam a imaginar que temos um Deus que exige louvores, súplicas, promessas, sacrifícios, cumprimento rigoroso de ritos e liturgias que, afinal, nós mesmos criamos. Imaginamos que tudo isso é necessário para conquistar a Sua benevolência, e obter, em troca, favores e graças. É uma clara relação mercantilista, uma tentativa de cooptação e de manipulação de um suposto 'deus' que nós mesmos criamos para nós! E pagamos as consequências disso tudo: sentimentos de culpa, escrupulosidade litúrgica, misticismos e ritualismos desencarnados e ausência de obrigações éticas e morais para com as pessoas. Afinal, imaginamos que é o 'deus' ao qual nos dirigimos que nos dá tudo, o bem e o mal! Jesus nos prova que o nosso compromisso real é com as pessoas, filhos e filhas de um Pai que se preocupa exclusivamente com eles. O Deus de Jesus não quer nada para si, Ele já tem tudo, não precisa ser convencido de nada, Ele nos protege e ama com ou sem súplicas, orações e sacrifícios. Com isso, o Deus de Jesus nos desvia da religião bitolada e carola para assumirmos o verdadeiro compromisso de fé que faz sentido: amar os nossos semelhantes, compadecer-se do humilhado e do excluído. Sim, aqueles que com os nossos critérios religiosos  julgamos impuros e indignos. O Deus de Jesus quer amor, não alienação religiosa!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Solenidade do Corpo e Sangue de Jesus - Servir, defender e proteger corpos desfigurados, sacrários do amor do Pai!

Nós não temos corpo, nós somos corpo! É através dele que entramos em sintonia com as pessoas na sua integralidade e com a própria transcendência. Sem o corpo não existiria nem amor nem compaixão, nem solidariedade e nem caridade. Celebrar a solenidade do Corpo e do Sangue de Jesus é mergulhar na plenitude da Sua humanidade: identificar-se com sua sensibilidade, sua empatia e, também, com sua capacidade de ‘sair do seu corpo’ para cuidar de outros corpos, feridos, perseguidos, torturados, escravizados, famintos e violentados. Escandalizamo-nos quando existe uma profanação da ‘hóstia consagrada’, mas permanecemos indiferentes quando o corpo de um filho de Deus, que é o verdadeiro templo e sacrário do Pai, é linchado e desfigurado. Revoltamo-nos com quem não se ajoelha para adorar e venerar a ‘hóstia santa’ num ostensório dourado, mas somos incapazes de nos ajoelhar para lavar os pés dos nossos irmãos como Jesus fez. Afinal, nunca passou pela cabeça de Jesus de exigir reverência e adoração ao seu ‘corpo’, - algo fácil de se fazer, - mas, ao contrário, Jesus colocou toda a sua corporeidade a serviço daqueles corpos desfigurados pelo egoísmo e pelo ódio. Fez do seu corpo o alimento para saciar a fome e sede de respeito e de amor de quem não se alimenta de poder, de dinheiro, de prestígio, de alienação.


Corpus Christi: é mais cômodo adorar a Jesus que segui-lo - por padre Adroaldo Palaoro

 Celebramos o “Corpus Christi”, uma das festas mais ricas por seu conteúdo e simbolismo, mas que nos faz pensar também no “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos. Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bem maior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”. Comungamos o “Corpo de Cristo” para podermos viver o seguimento com mais radicalidade. Infelizmente, o que temos observado é que grande parte dos cristãos não seguem uma Pessoa (Jesus Cristo), mas se limitam a cumprir alguns ritos, leis, práticas devocionais e piedosas... que revelam uma espiritualidade intimista, alienante e distante do compromisso com os outros. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o compromisso com os “corpos” explorados, manipulados, usados, escravizados...

Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito ao “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá, por todos os lados...Certamente, nunca passou pela cabeça de Jesus pedir que os seus(suas) seguidores(as) se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de servos, lhes disse: “Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. Essa lição, ousada e provocativa, parece que nunca nos interessou. É mais cômodo transformá-Lo em objeto de adoração do que segui-Lo no serviço, na disponibilidade e na entrega aos demais. Todas as demonstrações de respeito e veneração diante do Corpo de Cristo tem seu sentido e significado. Mas, ajoelhar-nos diante do Santíssimo Sacramento e continuar menosprezando ou ignorando o próximo, é uma ofensa. Se, em nossa vida, não deixamos transparecer a atitude de Jesus, todos os gestos de adoração continuarão sendo “magia barata” para tranquilizar nossas consciências. É preciso descobrir a presença de Jesus em todos os corpos desfigurados, famintos, violentados, desprezados..., e que suplicam por uma presença servidora e solidária. Diante destes corpos desumanizados, morada do Ressuscitado, é que devemos nos ajoelhar para facilitar a ajuda e o serviço. Ninguém pode servir a partir de uma posição elevada; é preciso “descer”, esvaziar-nos de nosso ego prepotente, para prolongar as mãos e o coração do Compassivo.

 “Corpus Christi” nos fala, portanto, da “Encarnação continuada”, ou seja, Deus não só se “encarna”, Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, ou um evento isolado da história, mas uma atitude eterna de Deus. Toda a Criação e toda a Humanidade foram assumidas por este “mistério” fundante de nossa fé. Assim, toda a história humana se faz História da Salvação. E o “assim novamente encarnado” (S. Inácio) se visibiliza em todos os “corpos” humanos. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40) Ao comungar o “Corpo de Jesus”, nosso corpo e todo nosso ser tocam algo do mistério da Encarnação. A comunhão é – ou deveria ser – uma sacudida pessoal e comunitária que nos impulsiona a retomar o projeto vital de Jesus, do qual nos afastamos continuamente. 

Na Eucaristia se concentra toda a mensagem de Jesus, que é o Amor. O Amor que é Deus manifestado no dom de si mesmo e que Jesus deixou transparecer durante sua vida. Ao dizer, “isto é o meu corpo”, Jesus está afirmando: Isto sou eu: Dom total, Amor total, sem limites. Ao comer o pão e beber o vinho consagrados, queremos afirmar: fazemos nossa a Sua vida e nos comprometemos a nos identificar com o que foi e fez Jesus. O pão que nos dá a Vida não é apenas o pão que comemos, mas o pão no qual nos transformamos, quando fazemos de nossa vida uma doação contínua. Somos cristãos, não só quando comemos o pão, mas quando nos deixamos consumir, como Ele fez.

Discípulos(as) de Jesus somos quando aprendemos a partir o pão. Reconhecemos os cristãos hoje quando partem o pão e não o retém para si. O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece. Compartilhar significa não “monopolizar”, não permitir que haja necessitados entre nós. O pão partido é a vida compartilhada: bens, dons, tempo, qualidades...O cristão, além disso, compartilha seus ideais, seu entusiasmo, seu ânimo, sua fé, sua esperança. Também hoje Jesus precisa de nossas mãos para multiplicar os grãos; precisa de nossas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido. O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo. O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!

 Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, energia de vida. Por fim, é preciso enfatizar que, celebrar e venerar o “Corpo de Cristo” nos remete ao nosso corpo e ao corpo dos outros. Nossos corpos estão integrados e dignificados no Grande Corpo Cósmico d’Aquele que se esvaziou dos atributos divinos para se fazer “Corpo” e “divinizar” nossos corpos. Integrados ao “Corpo do Ressuscitado” somos chamados a superar toda suspeita, medo, julgamentos moralistas e visões dualistas dos nossos corpos. Afinal, não “temos” corpo, “somos corpo”; pensamos, amamos, sentimos e entramos em relação com o Transcendente através de nosso corpo. Enchemo-nos de assombro diante do mistério que é cada corpo. Nossos esquemas e dualismos de matéria-espírito, espaço-tempo, passado-futuro, longe-perto, parecem diluir-se. Todo corpo está “animado” e toda “alma” está sempre “corporificada”. No encontro com o “Corpo de Cristo” passamos a ter uma outra visão de nosso corpo; isso implica superar a parcialização, a polarização e a dicotomia e buscar a harmonia e a integração. Somos nosso corpo animado, com vida e com sentido. Construímos nossa vida com nosso corpo e graças a ele. Com, em e pelo corpo, vivemos nossa história, caminhamos pela vida na contínua aventura de crescimento e de maturação, de amor e de conhecimento, de encontro com os outros e conosco mesmo, com nossos desejos e medos, nossas alegrias e dores, nossas esperanças e desesperos, nossas vitórias e desilusões ... Tudo isso está inscrito em nossa “carne”.

 

Nosso ser profundo, nosso ser essencial se manifesta, se abre para fora através de nosso corpo. O corpo deixa transparecer o que há de mais humano e mais divino em seu interior.

Deixemos “transparecer” o “Corpo de Cristo” em nossos corpos!

 

sábado, 30 de maio de 2026

SOLENIDADE DA TRINDADE SANTA - CRER NO DEUS-PAI DE JESUS, E REJEITANDO OS ÍDOLOS

Desconfiemos daqueles ‘devotos’ que, com frequência, colocam o nome de Deus em seus lábios! Que com petulância citam e invocam o Seu Santo nome, mas é para ocultar e justificar seus sórdidos projetos de manipulação e de dominação. Que gritam, com empáfia, em alto e bom som, que ‘Deus está acima de tudo e de todos’, mas não dizem que o ‘deus’ em que, supostamente, acreditam é, na realidade, um ‘ídolo’ que eles mesmos criaram para si. Um ídolo moldado à sua imagem e semelhança, utilizado de acordo com seus interesses e conveniências. No fundo, por trás de ‘tamanha devoção’ se escondem verdadeiros idólatras! A solenidade da Trindade Santa vem para nos lembrar o que ‘Deus’ jamais poderá ser, e o que Ele deveria ser para quem faz a opção de seguir radicalmente Jesus de Nazaré. Se é verdade que ninguém viu Deus, e, portanto, Ele não pode ser descrito e nem definido, também é verdade que, a partir de Jesus de Nazaré, Deus pode ser sentido e experimentado como Pai. Como uma fonte inesgotável de amor, de compaixão e de ternura para com seus filhos e filhas. Um Deus-Pai-Mãe incapaz de condenar, de ameaçar, de chantagear e de punir, e que nos educa para agirmos da mesma forma. Só quem faz a experiência de acolher e amar os filhos de Deus é que pode acreditar, de fato, no Deus-Pai de Jesus. Fora isso, só charlatanice!


sexta-feira, 29 de maio de 2026

MPF pede medidas urgentes para proteger terras indígenas Kanela no Maranhão

 

A ação foi movida contra a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a União, o estado do Maranhão e o município de Fernando Falcão. Segundo o MPF, houve falhas do poder público na proteção territorial e ambiental das comunidades indígenas. As investigações começaram em 2023, após denúncias encaminhadas pelo Conselho Indigenista Missionário no Maranhão (Cimi-MA) sobre crimes cometidos na região. Em caráter de urgência, o MPF pede que os órgãos responsáveis apresentem, em até 30 dias úteis, um plano emergencial provisório para proteger as terras indígenas Porquinhos e Kanela. O documento deve informar as ações que serão adotadas, o cronograma de execução e os mecanismos de monitoramento. O órgão também pediu que o estado do Maranhão suspenda imediatamente licenças e autorizações concedidas para atividades agrossilvipastoris na Terra Indígena Porquinhos, ou comprove o cancelamento desses atos. 

De acordo com as investigações, indígenas têm sido ameaçados por madeireiros e pela extração ilegal de madeira. Roças da comunidade também teriam sido incendiadas, e o fogo chegou a atingir casas dentro da aldeia enquanto moradores participavam de uma festa cultural na Aldeia Escalvado. As apurações apontam ainda aumento da presença de fazendeiros, madeireiros e pessoas não indígenas na região, além do avanço do desmatamento ilegal, da destruição do cerrado e da exploração das florestas. Segundo o MPF, a Terra Indígena Porquinhos esteve entre as terras indígenas mais desmatadas do país em 2023. Relatórios citados na ação também indicam problemas em licenças ambientais emitidas no entorno das terras indígenas. Ainda segundo o MPF, cerca de 12 fazendas ocupam, total ou parcialmente, áreas reivindicadas pelos indígenas, sem consulta prévia às comunidades. A procuradora da República Anne Caroline Aguiar afirmou que a situação representa um processo contínuo de violação de direitos. “Tais circunstâncias evidenciam que não se trata de danos pontuais ou isolados, mas de um processo contínuo de erosão dos direitos fundamentais das comunidades indígenas, com impacto direto sobre sua reprodução física, cultural e espiritual”, disse. A Terra Indígena Kanela já é oficialmente reconhecida pela União. Já a Terra Indígena Porquinhos tem uma área demarcada, mas os indígenas reivindicam a ampliação do território tradicionalmente ocupado. Esse processo ainda não foi concluído. Um diagnóstico técnico feito em 2022 pelo Centro de Trabalho Indigenista apontou avanço da soja, desmatamento do cerrado, uso frequente de agrotóxicos, contaminação ambiental, redução da fauna, impactos nos rios e abertura de estradas ilegais nas terras indígenas Porquinhos e Kanela. 

Ao final da ação, o MPF pede a criação de uma instância permanente de articulação entre os órgãos públicos e os povos indígenas para coordenar a proteção das terras indígenas. O órgão também requer que União e Funai adotem medidas permanentes de proteção territorial, com plano de contingência, monitoramento contínuo, retirada de invasores e reforço na fiscalização. Em relação ao estado do Maranhão, o pedido inclui o cancelamento e a suspensão de licenças ambientais consideradas irregulares, reforço da segurança pública e medidas preventivas no entorno das terras indígenas. O município de Fernando Falcão deve participar das ações de proteção e não autorizar intervenções que afetem os territórios indígenas. Já o Ibama deve intensificar a fiscalização ambiental e adotar medidas imediatas contra infrações (G1)

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Magnifica Humanitas: um escândalo necessário

 O documento interpela prioritariamente os cristãos, mas se dirige de forma explícita àqueles aliados, diz o Papa, que se mostrem sensíveis à tríade platônica do bem, da verdade e da beleza. Mais do que isso, a exortação de Leão é clara: o diálogo deve ser sempre onipresente e deve ser estabelecido com todos os homens e mulheres do nosso tempo. Sem exceção. Essa universalidade que paira em cada pessoa, singular, sofredora e concreta é um dos traços que atravessam todo o texto.

O início da encíclica é aberta e explicitamente social, o que poderá surpreender quem não está acostumado a ler encíclicas. Leão XIV apela à destinação universal dos bens, à subsidiariedade, à solidariedade e, inclusive, ironiza a ineficiência da mão invisível do mercado, enfatizando a imperiosa necessidade de que existam redes sólidas que garantam uma educação pública. A opção preferencial pelos pobres, as referências abertíssimas aos migrantes e a insistência nos marginalizados, nos fracos e nos que sofrem revelam sua inapagável sensibilidade missionária. Quem viveu entre os pobres não consegue esquecer disso, e Prevost exibe com orgulho e lucidez aquelas verdades das quais foi testemunha.

Haverá quem intua rupturas ou revoluções. Também não faltará quem queira traduzir as teses do Papa para um esquema ideológico e político. Vão se equivocar por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o mais radicalmente social afirmado por Leão é legitimado nas palavras de seus predecessores. Sem rupturas. E, em segundo lugar, porque cada afirmação passível de ser encaixada no precário sistema da esquerda ou da direita corre o risco de entrar em colisão com afirmações que figuram em outro lugar do texto. Leão adverte que o progresso científico não acarreta necessariamente o progresso moral e lembra as palavras de Romano Guardini quando apontou que “o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu o poder”. A IA nos torna mais capazes, mas potencializar nossas faculdades torna mais possível do que nunca o aumento das desigualdades, quando não da escravidão.

Penso que o valor mais original da encíclica está na matriz moral ou nas premissas éticas que inspiram o diagnóstico e a terapia. Leão XIV impugna não apenas a eficiência e o cálculo - isso muitos fazem. O Papa nos alerta sobre os riscos de interpretar a humanidade em termos de capacidade e superação pura. Sua antropologia, naturalmente baseada no pano de fundo do Evangelho, insiste em acolher a vulnerabilidade e o limite da humanidade não como um defeito, mas como sua condição mais própria.

Frente à fantasia transumanista ou pós-humanista que busca transcender nosso limite exacerbando nossas faculdades, Prevost reivindica a humanidade ferida, de pele e coração sofrido, consciente de seu limite e aberta, sobretudo, ao rosto e à limitação alheia. A consideração teórica e abstrata ganha altitude de forma abertamente soberana, sem esquecer as condições concretas nas quais a IA se desenvolve e que requer “corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo dos cálculos não se interrompa”. Ao lado da abstração metafísica do teólogo, convive sempre a prática concreta e executiva do Prevost missionário. Junto com a IA, a guerra é o outro grande eixo sobre o qual a Magnifica Humanitas se concentra, uma ameaça antiga que se situa e se agrava no mundo contemporâneo. Mais uma vez, o eterno paira em uma circunstância concreta, desta vez, como problema. Neste ponto, o Papa redobra sua ambição e se serve da exortação quase desesperada de Paulo VI: “Nunca mais a guerra!”. O slogan poderia parecer vazio, se não estivesse sustentado por uma quantidade de argumentos sólidos e até radicais, no melhor sentido da palavra.

Leão XIV não é um ingênuo, nem um publicista delicado de uma moral infantil ou beatífica. Tem consciência dos argumentos realistas, mas sua aposta na civilização do amor ultrapassa a praticidade daqueles que resumem a política à gramática do amigo-inimigo, do eles ou nós. Realpolitik é considerada e explicitamente desprezada como uma forma de irresponsabilidade. Papa não só propõe desarmar a IA, mas exorta, implora e roga aos cristãos que também desarmem a linguagem. Este documento tem algo de escandaloso, e nota-se a vocação de impacto que possui sobre o âmbito civil e, inclusive, sobre a ordem mundial. Por trás de cada guerra, diagnosticará o pontífice, não costuma haver mais do que um interesse econômico tão injusto quanto ilegítimo. Por trás da agressividade polarizadora dos discursos, costuma acabar aparecendo, sempre, o ídolo maligno do dinheiro.

Se virtudes teologais como a fé e a caridade atravessam todo o documento, o Papa reserva a última parte da encíclica para invocar a esperança. Em cada momento da história, mesmo nas noites mais escuras, apareceram homens e mulheres capazes de semear essa civilização do amor. Diante dos grandes desafios da IA ou das guerras globaisLeão reivindica a moral da proximidade praticada nos ambientes cotidianos. Essa pequena fidelidade que cada um de nós tem ao alcance das mãos é o lugar a partir do qual se constrói a paz e a justiça, segundo seu diagnóstico.Falar com todos, negociar com todos, dialogar com todos em nome da vulnerabilidade humana é o primeiro passo para reconstruir um mundo que, aos olhos de todos, encontra-se irremediavelmente ferido.

Com essa encíclica, fica claro que Leão XIV não está disposto a se conformar com um papado figurativo. Magnifica Humanitas não é um documento cômodo, nem foi escrito com este propósito. Mais uma vez, uma verdade antiga volta a se fazer nova: como deixou escrito São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, aquele Cristo Crucificado era um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios. E a receita continua vigente. Não devemos ter medo de sujar as mãos na obra do nosso tempo, adverte Prevost no início da encíclica. E este Papa parece disposto a agir assim, convidando-nos a pensar o que significa continuar sendo humanos em uma época fascinada com a possibilidade de deixar de ser.

O artigo é de Diego S. Garrocho, professor titular de Filosofia Moral na Universidade Autónoma de Madrid – UNAM, publicado por Ethic, 26-05-2026.


 

Desmatamento fica abaixo de 1 milhão de hectares pela 1ª vez desde 2019, mostra MapBiomas

 Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) do MapBiomas, lançado na 4ª feira (27/5), trouxe uma boa notícia para o meio ambiente e o clima. O desmatamento no Brasil caiu 21% em 2025 em relação ao ano anterior. Além disso, o desmate de 984.794 hectares – apesar de ser equivalente a seis vezes o território da cidade de São Paulo – foi o menor em seis anos.

devastação atingiu todos os biomas brasileiros, incluindo os dois mais desmatados: o Cerrado registrou uma diminuição do desmate de 17%, e a Amazônia, de 23,5%. A maior redução percentual na área desmatada foi no Pantanal, com queda de 48,4% em relação a 2024, informam g1 e O GloboApesar da queda, o Brasil ainda perde 2.698 hectares por dia de vegetação nativa – o equivalente a 17 Parques do Ibirapuera. No Cerrado, foram perdidos 1.482 hectares por dia. Na Amazônia, o desmate foi de 792 ha por dia – o que equivale à perda de cerca de 5 árvores por segundo, destacam Veja e UOL. Juntos, Amazônia e Cerrado responderam por mais de 84% da área desmatada no país em 2025. O Cerrado permanece como o bioma com a maior área desmatada – 540.614 hectares (54,9% do total), apesar da queda de 16,9% em relação a 2024. Na Amazônia, foram desmatados 289.478 hectares – uma redução de 23,5% frente ao ano anterior. Se este nível de desmatamento vier a ser confirmado pelo PRODES, será o menor desmate da série histórica. Segundo o RAD, o principal vetor de supressão foi a agropecuária, responsável por mais de 97% da perda de vegetação no país entre 2019 e 2025. O MATOPIBA – região que engloba os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – concentrou 40% de todo o desmate no país e 70% da devastação do Cerrado, mesmo com queda de 24% em relação a 2024, apontam o IPAM e a CNN Brasil. Os dados escancaram o que pode ocorrer depois que os deputados federais limitaram os embargos via satélite sobre áreas ilegalmente desmatadas na “Semana do Agro”. Como explica o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, a mudança aprovada pelos deputados enfraquece justamente um dos principais instrumentos usados para interromper rapidamente o avanço do desmatamento, destaca o Brasil de Fato. “Todo o sistema de monitoramento de desmatamento hoje é feito no mundo inteiro por imagens de satélite, porque a imagem de satélite acaba sendo, em muitos casos, uma prova quase tão boa quanto a própria visita a campo”, explica. “Imagina que eu decidisse que não posso mais usar o radar para aferir a velocidade com que o veículo anda”, compara.

Cerca de 65% das áreas desmatadas identificadas pelo MapBiomas foram alvo de ações concretas das autoridades em 2025. De acordo com a Folha, a relação havia sido de 54% em 2024 e de apenas 5% em 2019, no primeiro ano do (des)governo de Jair Bolsonaro. Em nota, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) afirmou que os números positivos resultam da implementação dos Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas (PPCDs), que, pela primeira vez, abrangem todos os biomas do país. A pasta também destaca a intensificação das ações de fiscalização ambiental e as novas normas para acesso ao crédito rural, segundo o Estadão.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Cientistas repudiam ‘Pacote do Dia do Agro’ aprovado na Câmara e alertam para riscos ambientais

O documento, intitulado “Pacote do Dia do Agro não é sustentável”, expressa oposição ao avanço de propostas legislativas consideradas prejudiciais à conservação ambiental, à biodiversidade e ao enfrentamento da crise climática. Segundo as entidades, os projetos representam “graves retrocessos ambientais” e podem gerar impactos sociais, econômicos e climáticos em diferentes regiões do país.

A nota critica três propostas aprovadas na Câmara dos Deputados. Entre elas está o PL 364/2019, que exclui campos nativos e outras formações vegetacionais abertas do conceito de vegetação nativa protegida pela legislação ambiental brasileira. Os cientistas alertam que a medida poderá facilitar a destruição de milhões de hectares de ecossistemas naturais, afetando espécies únicas e comprometendo serviços ecossistêmicos fundamentais, como a proteção do solo, a recarga de aquíferos, o abastecimento de água, a polinização e o sequestro de carbono. Outra preocupação é o PL 5900/2025, que amplia o poder do Ministério da Agricultura sobre normas relacionadas a espécies de interesse econômico. Para os pesquisadores, a proposta enfraquece atribuições de órgãos ambientais e científicos, além de concentrar decisões no Ministério da Agricultura em temas que podem impactar diretamente ecossistemas e atividades produtivas.Já o PL 2564/2025, que busca impedir que órgãos ambientais, como o Ibama, realizem embargos e punições baseados em imagens de satélite e monitoramento remoto. De acordo com a nota, a proposta dificultaria a fiscalização ambiental, especialmente em regiões de difícil acesso, como a Amazônia.

“Um tiro no pé para o agronegócio”

Para Valério Pillar, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), os projetos demonstram desprezo pela conservação ambiental e podem trazer consequências negativas inclusive para o próprio agronegócio“Esses projetos de lei aprovados na Câmara dos Deputados expressam o desdém da maioria dos parlamentares pela conservação da biodiversidade e pelos benefícios que a natureza provê a toda a sociedade. Desprotegem campos nativos e cerrados em todo o Brasil, limitam a fiscalização por satélite e debilitam a autoridade do Ministério do Meio Ambiente. É um ‘tiro no pé’ para o agronegócio, pois compromete a sustentabilidade da agricultura diante das mudanças climáticas e do maior risco de eventos extremos de chuva e seca”, afirma. No documento, pesquisadores também alertam que a flexibilização da legislação ambiental pode ampliar as emissões de carbono, reduzir a capacidade de resposta aos eventos climáticos extremos e aumentar o risco de sanções comerciais internacionais e boicotes a produtos brasileiros em mercados que exigem critérios socioambientais mais rigorosos. (IHU)

 

O pensamento escravocrata na era da Inteligência Artificial. Artigo de Moisés Mendes

 Essa foi uma das crueldades cometidas em nome do fim da escravidão: o Brasil é que iria se livrar dos danos do escravismo. Não eram os escravizados que iriam se libertar do sistema que os explorava há mais de 300 anos. Mesmo os pensadores considerados liberais do século 19 cometiam esse ‘erro’ de avaliação. É o que os jornais publicavam. Antes de pensarem no que a libertação significaria para o escravizado, as elites refletiam sobre os benefícios do fim da escravidão para o país. É mais ou menos o que dizem hoje os pensadores liberais do século 21, com um detalhe que os diferencia. Os liberais do século 19, influenciados por fatos históricos recentes, como a Revolução Francesa, eram mais ‘iluministas’ do que os liberais produtivistas de hoje. Faíscas daqueles tempos vinham de fora e iluminavam ou pareciam iluminar os abolicionistas. 

Hoje, não. Tudo o que se lê, sob o ponto de vista da elite empresarial, em reflexões de pensadores do liberalismo, passa sempre pela questão ‘racional’ posta por essa pergunta, diante da possibilidade de acabarem com a escala 6X1: o que o país ganha com isso? Não perguntam o que pode mudar na vida das pessoas se elas tiverem dois dias de folga e como isso pode repercutir na qualidade de vida e em todas as atividades, mesmo sob o ponto de vista da economia. Dois exemplos pontuais, que estão na capa do jornal O Estado de São Paulo, na edição desse 26 de maio. O primeiro, em texto de um dos pensadores ‘liberais’ do jornal, o cientista político Fernando Schüler, tem esse título em forma de interrogação: “A pergunta real sobre o fim da escala 6×1. Haverá ganho de produtividade?”.

O segundo exemplo, no mesmo Estadão, é do colunista Rodrigo da Silva, com essa chamada: “Por que o debate sobre a escala 6×1 precisa de menos romantismo e mais aritmética”. Os liberais do século 19, apesar dos erros que cometiam ao verem os negros como passivos à espera de uma abolição redentora, abandonaram cedo essas contas básicas da matemática que atormenta hoje os liberais dos tempos da Inteligência Artificial. Os liberais do século 19 diriam hoje: é muito mais do que a aritmética, estúpido. Um jornal de São Paulo, criado em 1875, foi uma das vozes mais fortes do abolicionismo no Brasil, apesar de durante muito tempo publicar na capa anúncios em que eram oferecidos, como mercadorias à venda, negros escravizados. Esse jornal chamava-se A Província de São Paulo e mais tarde passou a se chamar O Estado de São Paulo. É o que chamam há muito tempo de O Estadão, da família Mesquita, publicado até hoje como porta-voz do conservadorismo brasileiro e atualmente sob gestão profissional que inclui prepostos de banqueiros.Pois esse jornal abolicionista de 1875, que mobilizou os liberais paulistas pelo fim do escravismo, é o mesmo que mobiliza agora os liberais produtivistas do século 21 em defesa da manutenção da escala 6X1. Porque, segundo esses liberais, a questão é matemática.

 

domingo, 24 de maio de 2026

O ESPÍRITO JÁ ESTÁ DENTRO DE NÓS! É URGENTE RECONHECÊ-LO!

 

O Espírito não criado, o preexistente,

que com sua centelha original alumiou as trevas,

nunca deixou de pairar sobre os seres vivos.

Jamais deixou de permear o cosmos infinito com sua seiva vital.

Hoje, continua a ser invocado e suplicado,

mas ELE JÁ ESTÁ DENTRO DE CADA SER VIVO...

...que, no entanto, ainda teima em pedir que Ele venha!

Talvez fosse sensato compreender que são os seres vivos

que ainda não sentem o Sopro do Pai presente e atuante dentro deles.

INVOQUEMOS O ESPÍRITO NÃO PARA QUE VENHA,

MAS PARA QUE SEJA RECONHECIDO E ACOLHIDO!

 

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

PENTECOSTES - O 'TERREMOTO EXISTENCIAL' QUE MUDA A NOSSA VISÃO DE MUNDO E A NOSSA PRÁTICA!

Existem na nossa vida uma multiplicidade de acontecimentos aparentemente contraditórios, de encontros fortuitos, de gestos ambíguos e de enigmáticas tendências. Num primeiro momento, tudo isso nos parece um amontoado de fatos sem conexão, sem propósitos e sem intencionalidades. No entanto, é possível que, ao fazermos experiências fortemente impactantes, verdadeiros terremotos interiores, tudo isso mude. São radicais mutações do nosso ser que nos obrigam a olhar a totalidade da nossa existência com outros olhos e com uma inédita disposição. Ficamos tão atônitos, e até intimidados com esse tipo de descoberta que não titubeamos em afirmar que ‘na vida nada acontece à toa’ ou que ‘Deus sabe o que faz, pois Ele escreve certo por linhas tortas’. Graças a essas experiências inéditas, mesmo que dolorosas, tudo nos parece interconectado, carregado de sentido, e o que nos parecia incompreensível e misterioso acaba se tornando, surpreendentemente, um marco referencial na nossa vida. Esta foi, de alguma forma, a mesma experiência luminosa que fizeram os discípulos de Jesus em Pentecostes, após a sua morte e a sua definitiva ausência física. Uma experiência coletiva, original, reveladora, sofrida, irrepetível, da compreensão e dos propósitos de suas vidas e de sua missão. Quando isto ocorre, todos os acontecimentos, os encontros, os gestos se iluminam e  adquirem sentido, inclusive o fracasso, a decepção, a dor e a morte! Deixemos Pentecostes acontecer!

sábado, 16 de maio de 2026

SOLENIDADE DA ASCENSÃO - CHEGA DE RASTEJAR, É PRECISO SE ELEVAR E OLHAR COM OS OLHOS DE QUEM OLHA DESDE O CÉU!

 Frequentemente as nossas atitudes e perspectivas denunciam que somos ainda demasiadamente terrenos, quase rasteiros. Não conseguimos nos desvencilhar de um imediatismo interesseiro e opaco. Temos dificuldade de nos transcender, de enxergar um pouco mais além do nosso nariz. Afinal, somos crias e multiplicadores de uma cultura supostamente pragmática e eficiente do aqui e agora. Jesus, no evangelho de hoje, ao se distanciar fisicamente dos seus discípulos, em lugar de consolá-los e conformá-los, os incentiva a fazer novos discípulos, novas testemunhas do Pai. Em outras palavras, os catapulta para fora do mundinho tapado em que viviam e atuavam, e os envia para se inserirem nos grandes cenários e desafios da sociedade. Jesus não quer uma seita de cultuadores piedosos, adoradores submissos da sua pessoa, mas reprodutores incansáveis de sua prática, e protagonistas ousados da Boa Nova nos quatro cantos do planeta. Chegou a hora de pensar e agir grande. De olharmos a nossa realidade com os olhos de quem a vê desde o Céu. Que sabem descortinar com clarividência, agora, novos e invisíveis horizontes e perspectivas de vida. Mas para tanto é preciso, urgentemente, que aprendamos a nos elevar, a nos distanciar de nós mesmos e a nos educar a enxergar as pessoas da nossa humanidade que ninguém vê e ninguém convida! 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Pela primeira vez, as guerras estão deslocando mais pessoas do que inundações, tempestades e outros desastres naturais

Imaginemos um assentamento que abrigasse mais de 82 milhões de pessoas — praticamente a população da Alemanha. Isso é real, mesmo que não sejam todas juntas: é o número de pessoas que foram deslocadas internamente dentro de seus próprios países no final de 2025, após fugirem de conflitos armados ou desastres naturais, de acordo com as estimativas mais recentes do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), a principal organização global para medir e analisar esse fenômeno, que publicou seu relatório anual nesta terça-feira.

Cada ano traz um desenvolvimento diferente, mas todos apontam na mesma direção: a deterioração global está se agravando. Durante anos, desastres naturais — inundações, tempestades, ciclones — causaram muito mais deslocamentos populacionais do que conflitos armados. De fato, 2024 foi um ano excepcionalmente devastador em termos climáticos. Mas as guerras vêm ganhando terreno na dinâmica global de deslocamento forçado e, em 2025, pela primeira vez desde que registros globais comparáveis começaram a ser mantidos, guerras e violência causaram mais deslocamentos forçados dentro dos países do que desastres naturais: os conflitos desencadearam um recorde de 32,3 milhões de movimentos populacionais (um aumento de 60% em relação ao ano anterior), em comparação com 29,9 milhões ligados a desastres naturais. Em 31 de dezembro de 2025, um total de 68,6 milhões de pessoas estavam vivendo longe de suas casas devido à guerra e outras 13,6 milhões devido a eventos relacionados ao clima. (IHU)

Nem galinhas nem crocodilos: a lição das mães que nos ensinam a voar. Artigo de Massimo Recalcati

 A literatura psicanalítica, basicamente, forneceu um retrato patológico da mãe. Um bestiário variegado a descreveu como uma desgraça a ser evitada como a peste: a mãe — a mãe galinha ou crocodilo, polvo ou vampiro — é a mãe que invade abusivamente a vida do filho, recusando sua perda; na linguagem freudiana, mas também junguiana, é a mãe devoradora que, em vez de se separar de seu fruto, o absorve canibalisticamente. Mas essa versão tentacular da mãe — da qual a prática clínica ainda oferece inúmeros exemplos hoje — só pode ser a versão patológica da maternidade. A essa, dever-se-ia acrescentar a figura da mãe morta ou fria, como o oposto da devoradora, ou seja, a mãe que abandona seus filhos tornando-se ausente. Também dever-se-ia tentar, contudo, ser mais justos com a mãe e, portanto, evocar não apenas sua onipotência devastadora, mas também seu ser figura insubstituível de cuidado. O filho, dizia Rainer Maria Rilke em um poema pungente, é como o orvalho que precisa de uma planta para se sustentar. E essa planta seria, precisamente, a mãe. Para além da identidade biológica, dever-se-ia lembrar, antes de tudo, que ser mãe não é o mesmo que ser a figura genitorial do filho.

Ser mãe não é um dado da natureza, mas uma experiência que consiste não tanto em gerar a vida, mas em cuidar dela de forma autêntica. Nesse sentido, Françoise Dolto lembrava que toda mãe é fundamentalmente sempre adotiva, no sentido de que o que a torna tal não é a continuidade biológica com o filho, mas, precisamente, o ato de cuidar. Poderíamos então dizer, de forma mais radical, indo além da identificação do materno com um único sexo específico, que existe uma mãe sempre que há um ato de cuidado ou, se preferir, que todo ato de cuidado se revela, em sua essência, profundamente materno. Mas em que consistiria um ato de cuidado? A resposta a essa pergunta nos leva a perceber como a lição da mãe vai muito além do bestiário no qual se gostaria de aprisioná-la.O ato de cuidado materno consiste, basicamente, em reconhecer a diferença substancial que distingue o nome do número. Aos olhos de uma mãe, de fato, cada filho é filho único, mas não na ordem do número. É filho único porque é filho insubstituível e incomparável. A lógica que inspira o cuidado materno nunca é aquela do geral, mas aquela do particular. Nesse sentido, Lacan lembrava que o amor materno é sempre amor pelo nome. É amor pela diferença do outro que rejeita ou encara com justificada suspeita qualquer generalização. A lição da mãe nos lembra, em outras palavras, que o amor que cuida nunca pode ser amor pela vida em geral, mas apenas amor de cada um, pelo filho por ser único, pelo seu nome mais próprio. Seu cuidado, portanto, nunca poderá ser procedural, protocolar, nunca será anônimo, impessoal, mas sempre particularizado. Nesse sentido, a lição materna também deveria ressoar em nossa vida civil e política, que com muita frequência demonstra sinais de incúria, ou seja, de confundir, em vez de distinguir, o nome do número.

Quando nos sentimos mais maltratados senão justamente quando nosso nome é confundido com um número? Esse é o risco da ação política, que muitas vezes pensa por meio de números em vez de nomes. Basta pensar na guerra como o fenômeno mais radical da incúria, podemos ver claramente como ela contradiz radicalmente o código materno. Se a maternidade, ao cuidar de cada indivíduo, torna a vida insacrifável, digna de ser considerada, como o Papa Francisco nos lembrou com força, "imensamente sagrada", a política pode, ao contrário, fazer do sacrifício do particular a sua ideologia subjacente. As vidas individuais não valem nada em relação à necessidade geral. Diversamente, o ensinamento materno nos lembra que ninguém é dono da vida de seu filho, nem mesmo quem a concebeu ou adotou. Pelo contrário, o que a maternidade demonstra é a existência de uma hospitalidade — acolher a vida do filho no próprio corpo — que renuncia a todos os direitos de propriedade.

É isso que vemos nestes belos meses de primavera nos parques públicos, quando encontramos mães ensinando seus filhos a caminhar. Um gesto aparentemente simples, mas que carrega em si toda a lição do amor materno: a você que foi sangue do meu sangue, vísceras nas minhas vísceras, eu ensino a caminhar, a se afastar de mim, a trilhar seu próprio caminho. Esse é o cerne mais profundo da grande narrativa bíblica do Rei Salomão. Seu famoso estratagema da espada revela que a verdadeira mãe não é aquela que reivindica o filho como sua propriedade, mas aquela que está disposta a perdê-lo, a renunciar a toda propriedade, contanto que a vida daquele filho seja salva.

 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

'MAMÃE EU QUERO SER PREFEITO...MENTIR SOZINHO EU SOU CAPAZ....'

 

Mamãe, não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz, 
não quero ir de encontro ao azar...’ 

Assim começa a música ‘Cowboy fora- da- lei’ de Raul Seixas em 1987. Certamente o nosso autor sabia muito bem que eventuais assassinatos preconizados nas letras da sua canção não viriam pela mão de um povo desiludido ou ludibriado pelas promessas não mantidas por prefeitos vencedores. Afinal, quem teria coragem de cometer tais barbaridades com administradores públicos só pelo fato de não cumprirem o que prometeram? É tão corriqueira essa realidade no nosso País que, se assim fosse, teríamos poucos prefeitos sobreviventes! Em geral, as fantásticas promessas que os candidatos gritam de seus palanques ou chegam até a assinar em cartório são dirigidas para o ‘povão’ que, sistematicamente, sabe que jamais serão cumpridas e que jamais serão punidas pela justiça. Dito de outra forma, ninguém do ‘povão’, pelas informações que temos desses últimos 45 anos, atentou à vida de algum prefeito em exercício por ele não ter cumprido suas promessas. Entretanto, o mesmo não pode ser dito daqueles grupos políticos com densidade política e interesses econômicos de destaque dentro de uma unidade municipal, sejam eles aliados de ocasião ou opositores de conveniência ao prefeito vencedor. Interesses variados contrariados, promessas de cargos não mantidas aos amigos ou supostamente tais, desentendimentos e disputas internas que fogem ao controle são motivos mais que razoáveis para a eliminação física de quem administra. Pelas estatísticas, na maioria dos casos de assassinato de prefeitos, há sempre um ‘vice’ envolvido. Ou seja, parece ser ‘briga de branco’ em que o ‘povão’, sempre à margem, não se imiscui. Somado a tudo isso, há que se constatar que até aqueles setores do ‘povão’ mais aguerridos em reivindicar ou denunciar coerência e cumprimento do prometido, há bastante tempo deixaram de fazê-lo. Cansaço, luta permanente desgastante, articulação paciente, diária, têm prazo de validade. Dessa forma, fica bastante óbvio que, em geral, um prefeito administra, preferencialmente, em favor de uma minoria de sanguessugas e de apaniguados que, paradoxalmente, são os únicos que poderiam atentar ao seu cargo e à sua vida. 

Uma outra característica de um candidato a prefeito que o Raul cita nas letras da sua obra é a sua capacidade de mentir, da mesma forma que os jornais mentem! Ou melhor, candidatos sabem mentir sozinhos sem ter cumplicidade ou respaldo da mídia. É próprio de um candidato mentir. É tão visceral e tão generalizada essa postura que não chega a escandalizar ou a indignar ninguém. Quantas vezes ouvimos expressões do tipo ‘É o calor da campanha, sabe como é...deixa pra’ lá, releva!’ para tentar justificar os excessos no palavreado, nos gestos, nas promessas alucinantes de uma infinidade de candidatos de todos os espectros políticos e ideológicos. Quem não lembra, por exemplo, daquele famoso candidato que prometia que ‘ia metralhar a petralhada?’, mas acabou ‘metralhando’, com sua incompetência, mais de 700 mil amigos e inimigos?

Dito tudo isso, qual o peso que se deve dar, então, a um candidato a prefeito que após ter ouvido um grupo de cidadãos que apresentam um conjunto de normais e óbvias reivindicações em favor da cidade, e não do grupo, o aprova e se compromete colocando formalmente a sua assinatura? Será que aquele candidato, uma vez eleito, ao não cumprir o seu compromisso poderia invocar o ‘calor da campanha’, ou o ‘clima de campanha e suas dinâmicas’ como justificativa? Ou, simplesmente, deixa de ser ‘homem de palavra’ em que para ele mentir e assumir compromissos com a população sabendo, de antemão, que não irá cumpri-los é um gesto sem peso, sem valor e, principalmente, sem consequências legais?  Nobre, seria, se por parte daquele prefeito eleito ao não conseguir cumprir os compromissos assumidos publicamente viesse a público esclarecer, mostrar, expor e debater as causas efetivas do seu não cumprimento. Ocorre que, ao contrário disso, os descumpridores de promessas e de compromissos fogem, se escondem e voltam a mentir sobre as suas próprias mentiras que um dia assinaram.

O caso emblemático do prefeito de Açailândia, no caso Piquiá!









6 ª domingo de Páscoa - VENHA A NÓS O ESPÍRITO DA VERDADE PARA DEFENDERMOS OS INDEFESOS

Como se pode manter convicções e valores de vida em uma realidade onde tudo parece se esvair na atmosfera, e uma trajetória de vida coerente é rotulada pelo ‘senso comum’ como alienação ou insensatez? Como deter, afinal, o rolo compressor do ‘efeito manada’ que, tragicamente, sempre desponta em épocas de crises profundas em que predominam as atitudes massivas do ‘salve-se quem puder’, ou do ‘cada um por si e Deus por todos’? Jesus, no evangelho hodierno, parece deixar claro que não existem saídas individuais. Que a salvação entendida como plenitude de vida, aqui e agora, vem como resultado de um conjunto de imperativos éticos (mandamentos) conscientes, construídos e praticados coletiva e reciprocamente. A superação da sensação de perdição, de rejeição e de desamor é possível somente quando fazemos a experiência concreta de nos sentir defendidos, apoiados e amados por alguém que está sempre ao nosso lado. Um alguém que, mesmo não sendo visível e palpável, o sentimos como um ser vivo que emana segurança, acolhimento amoroso e paz interior. Um ‘ser-espírito’ que nos revela, sistematicamente, que não somos uma massa de órfãos abandonados, ou uma manada alienada de indivíduos enlouquecidos, mas sim, filhos queridos e irmãos solidários de uma mesma família planetária.

VIVA O DIA DAS MÃES! 

terça-feira, 5 de maio de 2026

CAOS ADMINISTRATIVO E SOCIOAMBIENTAL EM PIQUIÁ: DE FARSA A TRAGÉDIA!

 

Muitos maranhenses não sabem onde fica Piquiá. Poucos sabem que esse vilarejo de pouco mais de 4 mil residências pertencente ao município de Açailândia é responsável por quase a metade do quarto maior PIB do Estado do Maranhão. De Piquiá saem quase 2 bilhões de Reais em aço, ferro-gusa e outros derivados do minério de ferro que a empresa Vale distribui às empresas siderúrgicas locais e suas terceirizadas. Diante disso surge espontânea a ideia de que esse aglomerado de famílias vindas, em diferentes etapas, e de diferentes estados da Federação num outrora recanto florestal paradisíaco rico em ‘pequi’, ao longo de quase 50 anos, estaria vivendo numa redoma de prata. Ledo engano. Piquiá, em 2026, vive jogada às traças pelas recidivas e desastrosas administrações municipais, pela inoperância e o descaso socioambiental sistêmico de suas poderosas empresas minero-siderúrgicas. Hoje, Piquiá não possui saneamento básico, são poucas as ruas pavimentadas, verdadeiras crateras surgidas pela falta de manutenção recolhem esgoto fedorento e águas pluviais, e sem contar com uma praça que seja digna de tal nome. Entretanto, Piquiá oferece um outro trágico primado que a coloca a competir de igual para igual com São Luís do Maranhão: os altos índices de poluição que, quase sempre, são superiores aos permitidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Um morador histórico de Piquiá que tem acompanhado as vicissitudes desse vilarejo ao longo desses últimos 40 anos costuma afirmar que ‘Piquiá é a terra das promessas jamais cumpridas’, tecendo justas críticas aos diferentes administradores municipais que têm se sucedido e às notórias empresas minero-siderúrgicas que vêm se notabilizando não somente por suas superproduções de ferro-gusa, aço, e outros insumos, mas principalmente por ‘distribuírem o pó preto’ que emana de suas chaminés, sem nenhum investimento significativo, e sem compromisso com iniciativas concretas consistentes de compensação socioambiental e social’ para a população local.

Uma recente pesquisa patrocinada pela Associação Carlo Ubbiali em parceria com o Departamento de Ciências Sociais – Grupo de Estudo e Pesquisa Trabalho e Sociedade, da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), realizada ao longo de 2025 junto a cerca de 200 famílias de Piquiá sobre suas percepções a respeito da realidade socioambiental e do mercado de trabalho dos moradores de Piquiá, revela que 92% identificam a Poluição como o principal problema a ser combatido. Em segundo e terceiro lugar vem a ausência de saneamento básico e a ausência de pavimentação das ruas, respectivamente. Sabe-se que a identificação pura e simples de problemas estruturais como estes não garante a sua solução, mas pode motivar as vítimas do descaso a pressionarem e obrigarem os administradores públicos e outros atores econômicos que impactam o cotidiano de milhares de famílias a rever, radicalmente, a sua (in)capacidade de planejar e apontar prioridades. Foi com esse intuito que na manhã do dia 04 de maio uma comissão de representantes dos moradores de Piquiá reuniram-se com o Ministério Público da cidade de Açailândia. Não é que em diferentes ocasiões não se tenha tentado tecer um diálogo direto com o prefeito e alguns dos seus secretários para debater esses problemas estruturais. Ao contrário. Em pelo menos 4 ocasiões houve a possibilidade de pôr na mesa dos gestores públicos essas ‘feridas socioambientais’ que há mais de quatro décadas atentam o direito básico de uma vida digna, entretanto, do lado dos administradores públicos só ouvia-se uma monótona promessa de que ‘em 2026 iremos surpreender Piquiá’, ou ‘os projetos já estão prontos, carecem somente alguns ajustes burocráticos’, ou ‘nas próximas semanas formaremos uma equipe para mensurar o nível de poluição, identificar os responsáveis e exigir que as empresas tomem as medidas cabíveis, ou ‘os ônibus para o transporte público (do itinerário Piquiá-Açailândia-Piquiá) já chegaram, falta só criar a empresa municipal e começar a rodar...’ e outras lorotas que só vêm a desmoralizar e desacreditar o que, eufemisticamente definimos como ‘poder público’ de Açailândia. A Promotoria manifestou sensibilidade, esclareceu aos representantes algumas questões específicas e manifestou total disponibilidade em desempenhar o seu papel de mediação e de defensor de direitos coletivos convocando as partes, mas com alguns pontos centrais bem firmes, a saber: 1. Do lado da população ficou a tarefa de resgatar o documento contendo, por exemplo, os compromissos de campanha assinados pelo então candidato e, hoje, prefeito de Açailândia; a síntese e sistematização dos conteúdos-resultados emergidos das diferentes reuniões formais e informais realizadas com representantes da Prefeitura e, por último, a entrega dos resultados da pesquisa realizada ao longo de 2025 sobre as percepções da população de Piquiá a respeito da sua realidade socioambiental. Do lado da Prefeitura, o representante do Ministério Público iria comunicar formalmente o prefeito e os seus secretários para que se preparassem adequadamente, a partir do material fornecido, e em data a ser marcada de comum acordo, a administração pública iria expor tudo o que está sendo planejado para Piquiá, deixando claro os prazos e as modalidades. Haveria, finalmente, uma reunião conjunta para a apresentação e debate, finalizando com a assinatura de um termo de ajuste de conduta. Caso isso não venha a acontecer por falta de cumprimento do acordado, a população de Piquiá não terá outra saída a não ser a judicialização do caso.

AQUI ABAIXO ALGUMAS RUAS DE PIQUIÁ......