quinta-feira, 28 de maio de 2026

Magnifica Humanitas: um escândalo necessário

 O documento interpela prioritariamente os cristãos, mas se dirige de forma explícita àqueles aliados, diz o Papa, que se mostrem sensíveis à tríade platônica do bem, da verdade e da beleza. Mais do que isso, a exortação de Leão é clara: o diálogo deve ser sempre onipresente e deve ser estabelecido com todos os homens e mulheres do nosso tempo. Sem exceção. Essa universalidade que paira em cada pessoa, singular, sofredora e concreta é um dos traços que atravessam todo o texto.

O início da encíclica é aberta e explicitamente social, o que poderá surpreender quem não está acostumado a ler encíclicas. Leão XIV apela à destinação universal dos bens, à subsidiariedade, à solidariedade e, inclusive, ironiza a ineficiência da mão invisível do mercado, enfatizando a imperiosa necessidade de que existam redes sólidas que garantam uma educação pública. A opção preferencial pelos pobres, as referências abertíssimas aos migrantes e a insistência nos marginalizados, nos fracos e nos que sofrem revelam sua inapagável sensibilidade missionária. Quem viveu entre os pobres não consegue esquecer disso, e Prevost exibe com orgulho e lucidez aquelas verdades das quais foi testemunha.

Haverá quem intua rupturas ou revoluções. Também não faltará quem queira traduzir as teses do Papa para um esquema ideológico e político. Vão se equivocar por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o mais radicalmente social afirmado por Leão é legitimado nas palavras de seus predecessores. Sem rupturas. E, em segundo lugar, porque cada afirmação passível de ser encaixada no precário sistema da esquerda ou da direita corre o risco de entrar em colisão com afirmações que figuram em outro lugar do texto. Leão adverte que o progresso científico não acarreta necessariamente o progresso moral e lembra as palavras de Romano Guardini quando apontou que “o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu o poder”. A IA nos torna mais capazes, mas potencializar nossas faculdades torna mais possível do que nunca o aumento das desigualdades, quando não da escravidão.

Penso que o valor mais original da encíclica está na matriz moral ou nas premissas éticas que inspiram o diagnóstico e a terapia. Leão XIV impugna não apenas a eficiência e o cálculo - isso muitos fazem. O Papa nos alerta sobre os riscos de interpretar a humanidade em termos de capacidade e superação pura. Sua antropologia, naturalmente baseada no pano de fundo do Evangelho, insiste em acolher a vulnerabilidade e o limite da humanidade não como um defeito, mas como sua condição mais própria.

Frente à fantasia transumanista ou pós-humanista que busca transcender nosso limite exacerbando nossas faculdades, Prevost reivindica a humanidade ferida, de pele e coração sofrido, consciente de seu limite e aberta, sobretudo, ao rosto e à limitação alheia. A consideração teórica e abstrata ganha altitude de forma abertamente soberana, sem esquecer as condições concretas nas quais a IA se desenvolve e que requer “corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo dos cálculos não se interrompa”. Ao lado da abstração metafísica do teólogo, convive sempre a prática concreta e executiva do Prevost missionário. Junto com a IA, a guerra é o outro grande eixo sobre o qual a Magnifica Humanitas se concentra, uma ameaça antiga que se situa e se agrava no mundo contemporâneo. Mais uma vez, o eterno paira em uma circunstância concreta, desta vez, como problema. Neste ponto, o Papa redobra sua ambição e se serve da exortação quase desesperada de Paulo VI: “Nunca mais a guerra!”. O slogan poderia parecer vazio, se não estivesse sustentado por uma quantidade de argumentos sólidos e até radicais, no melhor sentido da palavra.

Leão XIV não é um ingênuo, nem um publicista delicado de uma moral infantil ou beatífica. Tem consciência dos argumentos realistas, mas sua aposta na civilização do amor ultrapassa a praticidade daqueles que resumem a política à gramática do amigo-inimigo, do eles ou nós. Realpolitik é considerada e explicitamente desprezada como uma forma de irresponsabilidade. Papa não só propõe desarmar a IA, mas exorta, implora e roga aos cristãos que também desarmem a linguagem. Este documento tem algo de escandaloso, e nota-se a vocação de impacto que possui sobre o âmbito civil e, inclusive, sobre a ordem mundial. Por trás de cada guerra, diagnosticará o pontífice, não costuma haver mais do que um interesse econômico tão injusto quanto ilegítimo. Por trás da agressividade polarizadora dos discursos, costuma acabar aparecendo, sempre, o ídolo maligno do dinheiro.

Se virtudes teologais como a fé e a caridade atravessam todo o documento, o Papa reserva a última parte da encíclica para invocar a esperança. Em cada momento da história, mesmo nas noites mais escuras, apareceram homens e mulheres capazes de semear essa civilização do amor. Diante dos grandes desafios da IA ou das guerras globaisLeão reivindica a moral da proximidade praticada nos ambientes cotidianos. Essa pequena fidelidade que cada um de nós tem ao alcance das mãos é o lugar a partir do qual se constrói a paz e a justiça, segundo seu diagnóstico.Falar com todos, negociar com todos, dialogar com todos em nome da vulnerabilidade humana é o primeiro passo para reconstruir um mundo que, aos olhos de todos, encontra-se irremediavelmente ferido.

Com essa encíclica, fica claro que Leão XIV não está disposto a se conformar com um papado figurativo. Magnifica Humanitas não é um documento cômodo, nem foi escrito com este propósito. Mais uma vez, uma verdade antiga volta a se fazer nova: como deixou escrito São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, aquele Cristo Crucificado era um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios. E a receita continua vigente. Não devemos ter medo de sujar as mãos na obra do nosso tempo, adverte Prevost no início da encíclica. E este Papa parece disposto a agir assim, convidando-nos a pensar o que significa continuar sendo humanos em uma época fascinada com a possibilidade de deixar de ser.

O artigo é de Diego S. Garrocho, professor titular de Filosofia Moral na Universidade Autónoma de Madrid – UNAM, publicado por Ethic, 26-05-2026.


 

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