Neste sábado, enquanto milhões de americanos amaldiçoavam Donald Trump em manifestações sob o lema “Chega de Reis”, um grupo de extremistas, em nítido contraste com essa indignação, elogiava o republicano em Dallas, Texas. Entre os apoiadores incondicionais do “Rei” Trump estavam dois representantes de Jair Bolsonaro, seus filhos Flávio e Eduardo. O ex-presidente foi impedido de viajar para o Texas porque permanece em prisão domiciliar, onde pretende estabelecer uma sede para o neofascismo verde-amarelo, enquanto cumpre uma sentença de 27 anos como líder da tentativa de golpe de 2023. A revolta brasileira foi inspirada pela ocupação do Capitólio em 2021, apoiada por Trump, que alegava fraude eleitoral por parte do candidato democrata, Joe Biden.
Na cúpula de Trump em Dallas, Bolsonaro foi representado por seus filhos, Flávio e Eduardo, figuras importantes no clã familiar, organizado com uma hierarquia de estilo militar. Flávio é pré-candidato à presidência nas eleições de outubro, onde, segundo as pesquisas, enfrentará uma disputa acirrada com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu irmão Eduardo é um ex-congressista que vive nos Estados Unidos há um ano, onde trabalha como lobista para Trump, o Departamento de Estado e o Congresso. Questionado pela imprensa, Eduardo disse que estava em Dallas a mando do pai. Na opinião dele, a política não tem muitos segredos; funciona como o exército: a palavra do general não é questionada, é executada por "coronéis, tenentes e soldados".
“Aos seus
pés”
Desde
que foi recebido por Trump em março de 2019, três meses após
assumir a presidência, Jair Bolsonaro declarou sua devoção a ele sem qualquer
constrangimento. Sua subserviência atingiu extremos constrangedores, como
quando se pôs em posição de sentido e se curvou diante da bandeira americana. E
afirmou, por meio de seu então ministro das Relações Exteriores, sua disposição
de ser um "pária" da comunidade internacional se esse fosse o preço a
pagar por seu alinhamento irrestrito. Um alinhamento que manteve
inabalavelmente mesmo após perder para Lula no segundo turno
das eleições presidenciais de 2022, quando fez de sua lealdade a Washington uma
marca registrada de sua política de oposição. Assim, em setembro do ano
passado, dias antes de ser condenado juntamente com um grupo de generais, ele
organizou eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, lembrados pelas imensas
bandeiras americanas sob as quais milhares de ativistas se protegeram. Nesses
comícios, os filhos do líder de direita, Flávio e Eduardo, discursaram como
porta-vozes de seu superior. Neste sábado, em Dallas, o formato se
repetiu, com Bolsonaro puxando os cordões de Brasília; seus
filhos expressaram seu apoio incondicional a Trump e aos
Estados Unidos discursando antes e durante o evento da Conferência de
Ação Política Conservadora.
O
deputado Carlos Zarattini, do Partido dos Trabalhadores, deplorou a
atitude "servil" do senador Flávio Bolsonaro, candidato à
presidência, instando-o a ser menos subserviente politicamente. Ele criticou o
senador por prometer entregar de bandeja os minerais de terras raras do Brasil, apesar de o país
possuir algumas das maiores reservas mundiais. Ao contrário da abordagem de
Bolsonaro, continuou o deputado, o governo Lula rejeita a
presença de mineradoras americanas, a menos que elas se comprometam a processar
os recursos dentro do país. A possível tomada de controle dos campos de
petróleo brasileiros pelos Estados Unidos foi um dos temas discutidos na semana
passada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e seu
homólogo, Marco Rubio, à margem da reunião do G7 realizada na
França.
Outro
tema recorrente na agenda dos ministros das Relações Exteriores é a inclusão das organizações criminosas Comando Vermelho e
Primeiro Comando da Capital na lista de grupos terroristas ou
narcoterroristas do Departamento de Estado. Vieira e o próprio Lula contestam
essa inclusão. Para o presidente, esse rótulo mascara o risco de uma
"invasão" estadunidense do território brasileiro. Esse risco
de invasão é visto como uma oportunidade por Flávio Bolsonaro,
que, durante sua visita aos Estados Unidos, concordou em classificar essas
facções como “terroristas”. Ele repetiu, com mais moderação, o que já havia
declarado no ano passado, quando disse sonhar com a Marinha dos EUA ancorada na
costa do Rio de Janeiro e seus comandos invadindo os morros para caçar os “narcoterroristas”
do Comando Vermelho. Uma tese historicamente defendida por Jair
Bolsonaro.
Como
vocês podem ver, foi Jair Bolsonaro, e não seus filhos Flávio e
Eduardo, quem escreveu os discursos na CPAC. Esses discursos
variaram de elogios a Trump e às diretrizes de sua política externa,
que está intrinsecamente ligada à guerra contra o narcoterrorismo,
a críticas ao suposto "intervencionismo" de Joe Biden nas eleições de
2022. Na realidade, Biden não cedeu às pressões golpistas de Bolsonaro após
perder para Lula. Tudo o que Flavio e Eduardo disseram foi roteirizado enquanto
estavam em prisão domiciliar em Brasília. Sem talento ou biografia, Flávio não
passa de filho do pai, como Lula da Silva costuma salientar. Sempre
que o atual presidente critica a extrema-direita, ele direciona
suas críticas a Jair Bolsonaro, a quem apelida de "a coisa",
ignorando deliberadamente seu filho. É incomum o líder do PT pronunciar o nome
"Flavio", algo que certamente fere o ego do jovem pré-candidato.
Esse
tratamento injusto dado a Flávio tem um significado político maior: as eleições
de 4 de outubro e o possível segundo turno no dia 25 daquele mês serão, em
última análise, um duelo entre Lula e Jair Bolsonaro, deixando o senador
carioca com o papel de mero figurante. O próprio Flávio reconheceu isso no fim
de semana, durante sua visita aos Estados Unidos. Em declarações à
imprensa, afirmou que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto,
residência presidencial, ao lado de seu pai. Mais tarde, tentou se retratar,
dizendo: "Ele será o presidente, não o pai dele."
Nenhum comentário:
Postar um comentário