sábado, 29 de novembro de 2025

ADVENTO - "Estamos abastecidos de futuro” (Pedro Arrupe, sj). É preciso desatá-lo. - Por Adroaldo Palaoro

 

Nossa concepção de futuro se atrofiou: vivemos “tempos sem futuro”. Não podemos prever o futuro com segurança. Hoje, o futuro se apresenta a nós muito mais aberto que em qualquer outra época de nossa humanidade. Os conhecimentos, os meios de comunicação, a tecnologia... não nos asseguram uma certeza do que virá. Aventurar no futuro torna-se cada dia mais complexo e difuso, pois predomina a incerteza que nós mesmos geramos. Vivemos uma geração que teme o futuro; por isso vivemos um “presente esticado” porque o futuro nos apavora. Já que preferimos não imaginar o futuro, alargamos o presente.

Precisamente porque faltam valores e um sentido para a existência é que se irrompe o medo do futuro, a acomodação, o refúgio no efêmero e no imediato, sem raízes e sem esperança. O medo do futuro nos ajuda a entender a mediocridade e o vazio do presente. Não esqueçamos que o Advento é toda uma possibilidade de vida que temos à frente. Por isso o grande grito deste primeiro domingo é “Vigiai!” porque “não sabeis quando virá o vosso Senhor”. Ninguém vigia o passado que já passou e já não existe mais. Vigiamos o que está por vir, o que está vindo. A vigilância olha sempre o futuro. Um futuro que depende de Deus e depende de nós. Porque uma coisa é a ação de Deus em cada um de nós neste tempo do Advento e outra coisa é o que nós fazemos para que algo novo aconteça. Nós mesmos somos um “advento”, porque nosso futuro humano depende do que esperamos. Haverá aqueles que já não esperam nada. Haverá outros que esperam algo novo, mas duvidam. E haverá aqueles que esperam o novo e dedicam suas vidas a criá-lo já agora. Porque em cada momento definimos nossas vidas; em cada momento algo surpreendente pode acontecer em nossa vida; em cada momento nossa vida pode apagar-se ou pode rejuvenescer-se. No evangelho deste domingo (primeiro do advento), as duas pequenas parábolas insistem na atitude da vigilânciaA primeira delas nos adverte com uma intencionalidade clara: o maior inimigo da vigilância é a dispersão, revestida de rotina e apego ao costumeiro (“comer, beber, casar-se”). Viver vigilantes para olhar mais além de nossos pequenos interesses e preocupações. Na segunda, a insistência se situa na importância de “estar vigilante”, porque o que está em jogo é nada menos que a segurança da “casa”, ou seja, a consistência da própria pessoa.

Não é raro que, ao sentir um mal-estar ou medo frente ao nosso mundo interior, optemos pela “distração” ou “dispersão”. Por outro lado, vivemos dispersos e ansiosos porque crescemos com a ideia de que nos falta “algo” que, supostamente, se encontra “fora” de nós, com o qual conseguiríamos, finalmente, desfrutar da felicidade desejada. dispersão é o estado habitual de quem se encontra identificado com seus pensamentos, sentimentos, emoções ou reações, ignorando sua verdadeira identidade. Vivemos num contexto marcado pela “dispersão”, seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes. E então, nós nos esvaziamos, nos diluímos, perdemos a interioridade e... nos desumanizamos. “dispersão” corrói a interioridade da pessoa e dissolve aquilo que é mais nobre em seu interior. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que a pessoa deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador. Isso tudo leva a pessoa a debilitar-se, provocando a redução da vitalidade humana em vez de favorecer o crescimento pessoal.

Advento é tempo propício – “kairós” – para ajudar a superar nossa “dispersão” e poder recuperar a densidade humana interna. Para isso, precisamos entrar em “estado de vigilância”, repensar a interioridade perdida, reconquistar a autodeterminação. Estar atentos e vigilantes é uma condição humana e cristã para viver intensamente; viver distraídos e dispersos é perder as oportunidades de muitos encontros, é deixar que o outro passe ao nosso lado sem nos darmos conta, é deixar que Deus passe sem que o percebamos, é deixar passar o momento em que Ele nos chama e perdemos a oportunidade de dar uma resposta vivificadora. Viver é estar atentos à vida, a nós mesmos, aos demais. Viver é estar atentos às ocasiões únicas, às oportunidades que não voltam; viver é estar com os olhos abertos para contemplar, é estar com os ouvidos atentos para escutar. É nessa direção que o “tempo do Advento”, centrado n’Aquele que vem, mobiliza e reordena todas as dimensões da vida e propõe um caminho de humanização. Ele desafia cada um a assumir o potencial humano criativo que está latente em seu interior.

 

Reflorestar consciências: por que o Brasil precisa de uma universidade indígena?

 

“O Brasil é o único país no mundo a ter nome de uma árvore”, lembra a deputada Célia Xakriabá, que fez parte do processo de concepção da nova universidade. “Na verdade, a universidade indígena já existe há mais de 1.500 anos atrás. Hoje é apenas assinatura. Mas, na verdade, antes de assinar com a caneta, nós assinamos com sabedoria da floresta, nós assinamos com o jenipapo e o urucum”, afirma a parlamentar, que é graduada em Educação Indígena, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estudiosa das experiências de universidades indígenas na América Latina. “Em 2016, tive a oportunidade de pesquisar sobre universidade indígena no México e as universidades autônomas. E o Brasil ganha um momento muito importante porque é reconhecendo a universidade indígena, mas com a pluralidade de povos diferentes. E hoje pensar as epistemologias indígenas é pensar uma superação do epistemicídio também. Quantas vezes o nosso conhecimento indígena, a ciência indígena foi negada na universidade?”, comenta Xakriabá.

Consagração de um direito

Maurício Terena, advogado indígena, explica que a universidade representa a consagração do mandamento constitucional e o respeito ao conhecimento tradicional. “Uma universidade indígena vem que para consagrar o respeito ao conhecimento tradicional indígena, que a história desse país é fundada numa perspectiva da qual os nossos corpos, os nossos conhecimentos, eles eram invalidados por essa ciência hegemônica. Então, poder hoje estar testemunhando esse lançamento dessa universidade indígena, eu acho que acima de tudo como advogado indígena, é a consagração do mandamento constitucional, mas também a promoção e o respeito dos conhecimentos indígenas”, afirma. Terena lembra das dificuldades que passou para se formar em direito, sendo um estudante indígena. “Eu relembro um pouco das violências que a gente passa no ensino superior quando a gente fala que é indígena, quando a gente traz as perspectivas, no meu caso, do direito indígena para o debate”, recorda o advogado.

Territórios transformados

Além da importância epistemológica e climática, a universidade indígena é vista como um marco importante para a inclusão e a melhoria de vida nas comunidades. Para estudantes como Ricardo, do povo Potiguara, a universidade indígena é uma questão de resistência e proporciona visibilidade para seu povo. “Ajuda a dar visibilidade para o nosso povo e à nossa resistência”, comentou brevemente, tomado pela timidez, o jovem de 18 anos, que viajou da Paraíba a Brasília para prestigiar a criação da Unindi. Por sua vez, Maurício Terena já vislumbra transformações profundas a partir dessa experiência acadêmica que, se bem não está restrita aos povos indígenas, sendo uma universidade aberta a toda a sociedade, tem potencial para promover grandes viradas de pensamento na sociedade brasileira.“Isso gera na sociedade brasileira uma nova maneira de se organizar politicamente. Eu já fico curioso para daqui 10, 15 anos, ver como ela vai transformar acima de tudo as nossas realidades locais, mas também a configuração da sociedade como um todo, e a academia também, porque a gente vai passar a trazer conhecimentos que, em alguma medida, foram invalidados durante o processo de construção desse país. Acho que trazer uma virada epistemológica mesmo da ciência no nosso país”, avalia.

Universidade do clima

Celia Xakriabá aponta que não é possível pensar em soluções climáticas sem reconhecer a ciência e a tecnologia ancestral dos povos indígenas. Ela chega a sugerir que a universidade indígena pode ser reconhecida como a universidade do clima, algo que não existe em nenhum lugar do mundo. “No mundo inteiro não existe escola do clima e universidade do clima. E a universidade indígena já pode ser reconhecida também como a universidade do clima. Nós, povos indígenas, somos 5% da população mundial e protegemos mais de 80% da sociobiodiversidade”, propõe a parlamentar, que defende que a “ciência do clima” esteja enraizada nos territórios. Com um toque de poesia e ancestralidade, a deputada reforça a ideia de que preservar as florestas e o meio ambiente já é uma alternativa e uma solução, e deve passar pelo reconhecimento dos saberes tradicionais. “A Terra é a professora mais antiga do planeta e a floresta também é escola, a floresta também é universidade”, recita. Segundo o governo, os grupos técnicos interministeriais responsáveis pelo desenho das instituições atuarão ao longo de 2026 e a previsão é que as universidades entrem em funcionamento em 2027.

A reportagem é de Leonardo Fernandes, publicada por Brasil de Fato, 27-11-2025

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Iª domingo de advento - É URGENTE SABER INTERPRETAR OS SINAIS DA 'DES-GRAÇA' QUE PAIRAM SOBRE A HUMANIDADE !

 

Muitos sinais apontam para uma rápida e próxima autodestruição do planeta terra. Não é paranoia e nem alarmismo irresponsável. Só acompanhar os alertas explícitos de quem vem estudando as transformações políticas, sociais e climáticas da humanidade. Os negacionistas e egoístas de turno, em sua inconsciência alienante, continuam a acreditar que são imortais e inesgotáveis. Ou que, na última hora, na pior das hipóteses, possa aparecer uma nova arca de Noé para salvá-los! Em seu afã de possuir e dominar tudo e todos, aqui e agora, acham que é urgente arrancar, explorar, e consumir a todo custo, não se importando com as consequências. Jesus, que é um verdadeiro analista dos grandes movimentos da história, continua nos alertando: ‘ficai atentos’, pois estamos a viver um verdadeiro processo seletivo, de filtragem, de depuração e julgamento global. Alguns poucos, ao acumular bens, sugando territórios, abusando do seu poder, e descartando outros seres humanos como mercadoria sobrante, sequer imaginam o colapso planetário que estão a produzir. Em sua falta de sintonia e empatia para com os seus semelhantes e com a natureza acreditam que estão a garantir a sua própria e definitiva sobrevivência.  Ledo engano. O dia da desgraça os flagrará como um astuto e surpreendente ladrão que vem roubar a agonizante esperança. Agora é a hora de ‘forçar a irrupção da Realeza do Filho do Homem’ que vem como permanente e inédita chance de graça, de reerguimento e de equidade planetária. 'Contudo, será que haverá ainda fé na terra quando isto ocorrer?' 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Maranhão é o estado que tem mais trabalhadores informais do que formais

 


Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que 6 Estados do Brasil têm mais trabalhadores informais do que formais: Maranhão, Pará, Piauí, Amazonas, Bahia e Ceará. Todas as unidades da Federação do Norte e do Nordeste registram taxa de informalidade acima da média nacional, que é de 37,8%. Os percentuais são do 3º trimestre de 2025 e constam na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

A taxa de informalidade é a proporção de trabalhadores que não têm carteira de trabalho assinada e outros direitos trabalhistas, como férias, contribuição para a Previdência Social e 13º salário, em comparação com o total de ocupados. Também entram no contingente de informais os empregadores e trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ e os trabalhadores familiares auxiliares.

A taxa do Maranhão é de 57%, com 1,5 milhão de informais entre 2,7 milhões de ocupados.

Leia abaixo as taxas dos demais Estados que têm mais da metade dos trabalhadores em situação informal:

Pará – 56,5%;
Piauí – 52,7%;
Amazonas – 51,5%;
Bahia – 51,5%;
Ceará – 51,1%.

Além destes Estados, há 17 unidades da Federação com taxa acima da média nacional (37,8%). São Paulo (29,3%), Distrito Federal (26,9%) e Santa Catarina (24,9%) têm os menores níveis de informalidade. Em números absolutos, São Paulo, o Estado mais rico do país, tem o maior contingente de informais: 7,1 milhões de pessoas. A explicação para ter a 3ª menor taxa é o tamanho da população ocupada, que somou 24,3 milhões.

O Brasil registrou 102,4 milhões de pessoas ocupadas no 3º trimestre, sendo que 38,7 milhões são informais. Norte e Nordeste respondem por 41% de toda a população informal do país. O Sudeste tem 15,1 milhões, mas a população ocupada é 44% superior à das duas regiões somadas.

Maranhão integra projetos que buscam recuperar 3,3 mil hectares de terras indígenas na Amazônia

 

A iniciativa prevê plantio de 5,7 milhões de mudas, criação de empregos e execução de ações em 26 territórios da região Norte e do Maranhão, com recursos administrados pelo BNDES.O Maranhão está entre os estados contemplados pelos 19 projetos do programa Restaura Amazônia para Terras Indígenas. Os projetos foram selecionados para recuperar áreas degradadas porque se destacaram entre 44 propostas inscritas no edital. Ao todo, as iniciativas prometem restaurar mais de 3,3 mil hectares em 26 territórios indígenas, com o plantio de 5,7 milhões de árvores e a geração de 1.420 empregos.

O Maranhão está entre os estados contemplados pelos 19 projetos do programa Restaura Amazônia para Terras Indígenas, anunciados nesta sexta-feira (21), em Belém, durante o encerramento das atividades do Pavilhão dos Círculos dos Povos na COP30. Os projetos foram selecionados para recuperar áreas degradadas porque se destacaram entre 44 propostas inscritas no edital. Ao todo, as iniciativas prometem restaurar mais de 3,3 mil hectares em 26 territórios indígenas, com o plantio de 5,7 milhões de árvores e a geração de 1.420 empregos. O investimento total é de R$ 123,6 milhões, financiados pelo Fundo Amazônia e geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “A gente vem hoje a público dizer que 26 terras indígenas serão contempladas nos estados de Rondônia, Amazonas, Acre, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão. Ou seja, a gente vai ter 26 territórios indígenas, muitos deles recém-desintrusados, num esforço profundo de trabalho”, declarou o superintendente de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Kadril.

 A presença do Maranhão entre os selecionados reforça a participação do estado nas ações de restauração ambiental apresentadas na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, destacou que o anúncio consolida as ações climáticas do governo federal na Conferência do Clima, atendendo a demandas de demarcação, proteção, gestão e recuperação de terras indígenas. “Deixamos claro que não há como pensar soluções para a crise climática, se não incluir todos e todas que protegem os territórios, que cuidam da biodiversidade, que cuidam da mãe Terra. Não tem como encontrar soluções efetivas se não incluir essas diferentes vozes”, afirmou a ministra. O Restaura Amazônia integra uma estratégia mais ampla do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que prevê recuperar 12 milhões de hectares no país. Desse total, 6 milhões já foram restaurados por meio de iniciativas de plantio e regeneração natural, segundo o MMA. A secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA lembrou que “a retomada do Fundo Amazônia chega em mais de 600 organizações da sociedade civil, em três de cada quatro municípios da Amazônia, em projetos de restauração ecológica para reconstruir o antigo Arco do Desmatamento, onde o reflorestamento construirá um verdadeiro cinturão verde no território de sete estados amazônicos” — entre eles, o Maranhão. (IMIRANTE)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

JESUS O ANTIMONÁRQUICO QUE MORRE POR INSTAURAR O REINADO DO CUIDADO E DO BEM-QUERER!

Em geral são sempre 'os chefes' que tripudiam das tragédias alheias. Para eles as vítimas agonizantes, anônimas e impotentes da violência institucional não passam de meros efeitos colaterais na sua guerra santa contra quem luta por liberdade e justiça. Parece paradoxal, mas os assim chamados chefes do povo encontram o seu sentido de existir em oprimir e dominar os seus ‘súbditos’. Já, outros líderes morais, desprovidos de mandato, de tronos e de exércitos pagam com a própria vida por defender e servir os ‘súbditos’ dos 'chefes'! Esses que deveriam ser considerados, de fato, cuidadores do povo, são eliminados pelos falsos reis por se comportarem como pastores e defensores das pessoas que sequer lhes foram confiadas mediante uma investidura formal. O trono do Rei Jesus é uma vergonhosa cruz que carrega um letreiro com o altissonante título de ‘Rei dos Judeus’. Jesus o antimonárquico morre como rei por servir um povo esmagado, ao passo que os chefes do povo governam e vivem por cuidar deles mesmos. Uma incompreensível inversão. Hoje temos ainda seguidores de Jesus que têm dificuldade de compreender que vivemos para os outros, e não para nós mesmos. Para salvar quem precisa e não para salvar a nossa pele e a nossa alma! É preciso que nos lembremos daqueles que, esquecidos por todos, nos pedem de ser simplesmente...lembrados, olhados com amor e abraçados sem temor! Enfim, é preciso nos converter definitivamente ao Reinado do cuidado e do bem-querer!


Guarani Kaiowá é morto com tiro na testa em área de conflito no MS

 

UM INDÍGENA de 36 anos, Vicente Fernandes Vilhalva, foi morto com um tiro na testa em um ataque atribuído a pistoleiros contra a retomada (ocupação) Pyelito Kue, no município de Iguatemi (MS), neste domingo (16). Ao menos outros quatro Guarani Kaiowá ficaram feridos. A área integra a Terra Indígena (TI) Iguatemipeguá I, sobreposta à Fazenda Cachoeira e retomada pelos indígenas em 3 de novembro. O ataque teria sido realizado entre 4h e 5h por cerca de 20 homens que já teriam chegado atirando, segundo lideranças ouvidas pela reportagem. Elas relatam que barracos de lona e pertences na retomada foram incendiados e destruídos por um trator. Ainda de acordo com os Guarani Kaiowá, pistoleiros teriam tentado levar o corpo de Vicente Vilhalva, mas foram impedidos pelos indígenas. 

“Perdemos um guerreiro que sempre esteve na luta em defesa dos direitos dos povos indígenas, Vicente era um dos porta-vozes da comunidade. Não tivemos chance, os jagunços estavam com arma de fogo, calibre .12 e .38 e acertaram um dos nossos”, relata Xe Ryvy Rendy’i, um indígena da comunidade. “A ponte está interditada. Parece que já estavam se organizando para atacar a comunidade. Porque nunca arrumaram a ponte. Só depois que fizemos a retomada, decidiram bloquear. Foi um crime bem organizado. Nenhum carro está passando por lá”, denuncia Rendy’i. Apesar de as autoridades federais terem sido acionadas pelos indígenas assim que houve o ataque, a FNSP (Força Nacional de Segurança Pública) só chegou ao local às 9h, quatro horas depois de os tiros cessarem. Servidores da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) também se dirigiram ao local no final da manhã deste domingo. “Fomos cercados. Os pistoleiros não chegaram para conversar, já chegaram atirando. Não temos armas, não temos nenhuma chance de defesa. Recuamos e fomos até a aldeia, mas eles seguiram atirando fora da retomada, nas nossas casas. Queimaram tudo na retomada: os barracos, as panelas, as cadeiras”, conta uma das lideranças de Pyelito Kue, sob anonimato. 

Demarcação de território está parada desde 2013

Recém ocupada pelos indígenas, a Fazenda Cachoeira está arrendada por duas empresas de exportação de carne: a Agropecuária Santa Cruz e a Agropecuária Guaxuma. A reportagem entrou em contato neste domingo com as duas companhias, mas não obteve retorno até o fechamento. O texto será atualizado se um posicionamento for recebido. Em matéria publicada no site o Joio e o Trigo em 12 de novembro, um advogado da Agropecuária Guaxuma afirmou que a empresa desconhece o conflito na região e que “não possui qualquer tipo de segurança na propriedade arrendada”. A Cachoeira é uma das 44 propriedades sobrepostas à TI Iguatemipeguá I. A área de 41.714 hectares abarca os tekohas (“lugar onde se é”, em guarani) Pyelito Kue e Mbaraka’y e foi delimitada pela Funai em 2013. Desde então, no entanto, o processo demarcatório está parado.

Vivendo atualmente em uma aldeia de 97 hectares traçada a partir de um acordo judicial de 2014, as cerca de 120 famílias de Pyelito Kue alegam estar espremidas, sem condições de plantar e passando fome. Diante da estagnação do processo demarcatório, a comunidade decidiu atravessar a estrada de terra e ocupar outro pedaço considerado por eles como território tradicional. Os indígenas passaram 22 dias escondidos em um pequeno trecho de mata na Fazenda Cachoeira e, desde o dia 3 de novembro, montaram acampamento em campo aberto, no meio da pastagem de gado. O ataque que matou Vicente Vilhalva é o quarto desde o início do mês. O saldo dos outros, ocorridos entre 3 e 5 de novembro, foi de quatro indígenas feridos a balas de borracha e duas crianças machucadas depois de suas mães terem caído, ao correrem, com elas no colo.

Os cartuchos e as fotografias de perfurações de casas e de uma panela por balas letais foram entregues à Delegacia da Polícia Federal de Naviraí (MS), onde os indígenas registraram um boletim de ocorrência.  Desde o dia 5 de novembro, a Força Nacional visita a região. A reportagem esteve no local e constatou que os agentes têm feito patrulhas pontuais, sem presença fixa na área. O conflito fundiário no Mato Grosso do Sul escalou desde o fim de setembro, quando indígenas da TI Guyraroká, que também aguarda a demarcação, foram reprimidos pela Polícia Militar após retomarem área da Fazenda Ipuitã, em Caarapó (MS). O governo federal criou um GTT (Grupo de Trabalho Técnico) interministerial com a finalidade de “elaborar diagnóstico com subsídios técnicos para a mediação de conflitos fundiários envolvendo povos indígenas no sul do estado de Mato Grosso do Sul, incluindo a realização de levantamentos e estudos sobre áreas públicas e privadas”, segundo publicação no Diário Oficial da União (DOU) em 3 de novembro. A secretaria-executiva do GTT cabe ao Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), e está com a atuação focada nos tekohas Guyraroká e Passo Piraju, sobre os quais devem publicar um relatório na próxima semana. (Reporter Brasil)


ONU alerta que só conseguirá ajudar um terço das pessoas em situação de fome crítica no mundo em 2026

 

Programa Mundial de Alimentos (PMA) anunciou nesta terça-feira (18) que, na melhor das hipóteses, poderá ajudar apenas 1/3 das cerca de 318 milhões de pessoas que precisarão de auxílio alimentar em 2026 devido a cortes no financiamento humanitário.

"A redução do financiamento humanitário global está obrigando o PMA a priorizar a assistência alimentar para aproximadamente um terço dos necessitados", concentrando-se em 110 milhões das pessoas mais vulneráveis, afirmou o órgão em comunicado.A agência calcula um custo de US$ 13 bilhões (R$ 69 bilhões) para o combate à fome no mundo no ano que vem, mas alertou que provavelmente receberá apenas cerca da metade deste valor. O maior doador do PMA é o governo dos Estados Unidos, que, sob o segundo mandato de Donald Trump, cortou a ajuda externa, incluindo a destinada às Nações Unidas. Outros grandes contribuintes, entre eles alguns países europeus, também reduziram seus orçamentos humanitários.

'Várias fomes simultâneas'

A agência da ONU, com sede em Roma, destaca que a previsão de 318 milhões de pessoas em situação de fome crítica em 2026 representa mais do que o dobro do número registrado em 2019. O aumento está relacionado a conflitos armados, condições climáticas extremas e à instabilidade econômica no mundo atualmente. Neste ano, as Nações Unidas declararam fome em Gaza e em áreas do Sudão. Diante deste cenário, a diretora-executiva do PMA, Cindy McCain, lamenta que a resposta global para o combate à fome "continua lenta, fragmentada e insuficientemente financiada".

“O mundo enfrenta várias fomes simultâneas, em Gaza e em algumas regiões do Sudão. Isso é totalmente inaceitável no século 21”, pontuou McCainAlém disso, na semana passada, as duas agências alimentares da ONU, o PMA e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), já haviam alertado sobre a existência de 16 "pontos críticos de fome" em todo o mundo, entre eles HaitiMaliPalestina e Sudão do SulO relatório conjunto dos dois órgãos alerta que o financiamento atual para ajuda humanitária é “perigosamente insuficiente”.

“A crise alimentar mundial não mostra sinais de abrandamento em 2026, pois os conflitos, os fenômenos meteorológicos extremos e a instabilidade econômica deverão provocar mais um ano de grave insegurança alimentar”, acrescentou Cindy McCain

(IHU) 

Consciência negra - QUANDO É PRECISO MAIS QUE UM CANTO...

 

É preciso ter raça sempre!

Pela 1ª vez, desde que o Censo foi criado em 1872, a população parda superou a população branca. Somos hoje 92.083.286 (45,3%) da população brasileira. Entretanto, os recortes étnico-raciais mostram que o racismo no Brasil é alarmante. Na medicina há um racismo velado que poucos conhecem: somente 3% dos médicos no Brasil são negros (dados do CFM), 80% dos transplantados no Brasil são homens brancos. A despeito das doenças cardíacas ocorrerem mais em homens negros, a maioria dos transplantes de coração são em homens brancos (Jornal da USP), na pandemia da covid-19, a taxa de letalidade da doença nos negros foi de 55%, enquanto nos brancos foi de 38% (FIOCRUZ). A taxa de mortes por causa evitáveis em 2023 foi maior entre negros: de 51,8% para homens e 37,8% em mulheres em comparação com 39,4% e 26,5% entre não negros (Pacto Nacional de Combate às Desigualdades).

Uma das principais vias a partir da quais as políticas raciais se estruturam na saúde é a omissão e a falta intencional de dados, de tornar invisível a população negra. Há muitas formas de racismo no Brasil e a mais perversa é o racismo institucional e subjetivo de quando um médico negro precisa passar por mais validações para assumir um cargo, quando é confundido com o atendente, recepcionista ou auxiliar do hospital, quando não assume postos de poder, ou quando não aparece nos dados demográficos étnicos/raciais de sua instituição.  O CFM, AMB, OPGE, FBG, não possuem estes dados. Desde 1993, a Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) vem abordando e lutando para diminuir as disparidades raciais em um país onde a herança escravagista é tão terrível quanto a nossa. No seu brilhante Equity Project apresenta uma autoanálise transparente da composição racial e étnica dos seus membros, líderes voluntários e funcionários em comparação com os dados populacionais dos EUA. Adotou o antirracismo como estratégia para promover a diversidade, a equidade e a inclusão, e para reduzir as disparidades nas doenças gastrointestinais. A União Europeia de Gastroenterologia segue o mesmo caminho.

Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida!

O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo. Entre os séculos XVI e XIX trouxe à força cerca de 4,86 milhões de escravos africanos (40% de todos os africanos que cruzaram o Atlântico) para trabalharem nos 3 ciclos da economia brasileira: cana de açúcar, mineração e café.  Mais longa que a escravidão do Egito, mais duro que o cativeiro na Babilônia foi a escravidão negra no Brasil, que só foi abolida em 1888. Os impactos de terem sido abandonados à própria sorte, sem nenhuma forma de reparação, explica porque o povo negro está na base da pirâmide social. As políticas públicas de ações afirmativas, como as cotas, por exemplo, representam uma tentativa de pagar uma dívida e tentar diminuir as consequências de um passado colonial que ainda nos divide em Casa Grande e Senzala. A gastroenterologia brasileira tem vários desafios e um deles é tentar eliminar as disparidades raciais na saúde para diversas doenças gastrointestinais e de não se calar e nem abafar as vozes que querem acabar com o racismo estrutural, institucional e interpessoal, que a cada dia aumenta a lacuna entre negros e brancos neste país.

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça é preciso ter SONHO sempre!

Há cerca de um mês atrás, uma paciente negra, fez uma colonoscopia comigo. Ao entrar na sala vi que ela teve aquele impacto inicial e me disse: ”que bom que a senhora é da minha cor” e perguntou se podia me dar um abraço. Naquele abraço recebi toda a consideração e contentamento daquela mulher, mas recebi também o peso de tentar fazer com que minha especialidade seja o mais representativa possível da população a qual assiste. O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação”. Esta frase de Steve Biko, advogado, intelectual e ativista sul africano, assassinado pelo regime do apartheid, mostra que a luta de ontem abre caminho para as vitórias de hoje e que racismo se combate todo dia.

Hoje, dia da CONSCIÊNCIA NEGRA, na qual lembramos a morte de Zumbi dos Palmares e a luta de um povo contra a exploração e opressão do sistema colonial, celebramos a resistência, luta e a resiliência do povo negro de hoje, quilombola, favelado, periférico, que teima em ser FELIZ e ter SONHOS sempre!

Joceli Oliveira dos Santos - Gastroenterologista/Endoscopista e Ex- membro da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da FBG

 

 

 

sábado, 15 de novembro de 2025

33 domingo comum - É permanecendo firmes na defesa dos verdadeiros templos que iremos salvar a humanidade

 

Ainda tem gente que acha que precisa de templos para adorar Deus, mas já Jesus dizia que não é em nenhum santuário que se adora Deus, mas ‘em espírito e verdade’. Ainda há gente que acha que o templo é a morada do Altíssimo, mas já São Paulo dizia que ‘nós somos o santuário de Deus’ e o nosso corpo é ‘templo do Espírito Santo’! Apesar de tudo isso há devotos que continuam gastando dinheiro e energias embelezando e revitalizando templos e igrejas desviando a atenção da única realidade que conta: proteger e cuidar do órfão, da viúva, do pobre e do estrangeiro! São esses falsos devotos que contribuem para confundir os simples de coração ao se apresentarem como profetas ungidos e iluminados. Jesus é claro em rechaçar esse tipo de gente: ’Não vão atrás deles’! Jesus é contundente em detonar o que era considerado o cerne da religião judaica, o templo e suas relações de dominação e manipulação. Aqui não cabe reformar, é preciso destruir, não deixar pedra sobre pedra! Afinal, os verdadeiros templos em que encontramos o amor cuidadoso de Deus e onde Ele colocou a sua tenda são os seus filhos e filhas! São esses templos ameaçados e humilhados por perseguições, guerras e doenças que devemos defender e proteger com firmeza e coerência. É nisso que estaremos adorando o único e verdadeiro Deus! 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

“A pós-verdade é o fim do mundo comum”. Entrevista com Máriam Martínez-Bascuñán

 Máriam Martínez-Bascuñán (Madri, 1979) é professora de Teoria Política na Universidade Autônoma de Madri. Foi também diretora de Opinião do jornal El País e é, sobretudo, uma estudiosa de Hannah Arendt, a quem recorre para analisar os desafios da pós-verdade e da credibilidade nas democracias atuais, em seu mais recente livro intitulado El fin del mundo común (Taurus, 2025). 

 Você diz que o mundo comum está acabando. Se assim for, que futuro nos espera?

Eu falo do fim do mundo comum, mas não como algo irreversível. É o diagnóstico que faço. Detenho-me no que é o mundo comum, e meu diagnóstico é que a pós-verdade é isto: o fim do mundo comum. Junto com Hannah Arendt, defino esta ideia de mundo comum como aquilo que, ao mesmo tempo, nos conecta e nos separa. A pós-verdade não está em que o político mente, pois os políticos sempre mentiram. Acontece que agora o político utiliza a verdade ou a mentira como uma arma de poder para construir uma realidade alternativa, que é uma ficção. Deixamos de habitar no mesmo mundo. O mundo comum é também a erosão de todos esses intermediários, de todas essas instituições invisíveis que ajudavam a sustentar o chão compartilhado para que fosse possível uma conversa, a deliberação pública e, inclusive, as regras do jogo democrático. Quando caem todas essas instituições invisíveis, com todos os consensos, torna-se possível acreditar em realidades alternativas e em mundos fictícios que o líder é capaz de impor

 “Sem pluralidade, não há mundo comum”, ressalta. O problema é que os partidos políticos agora buscam desprestigiar e desumanizar seus rivais?

O problema hoje é que, de alguma forma, substituímos a pluralidade pela lógica tribal. O tribalismo instaura uma lógica para o cidadão de que a verdade não exige entendimento ou preocupação; exige pertencimento. A fidelidade ao grupo vale mais do que sua própria opinião e a evidência e o julgamento crítico se tornam quase um luxo desnecessário.

 E como é possível debater essas questões em meio a tanta polarização?

É muito difícil, porque tudo já assumiu a forma de guerra cultural; qualquer assunto, até mesmo a mudança climática, torna-se uma guerra da pós-verdade. Por fim, criou-se muita confusão, ninguém sabe mais em quem acreditar. O pior não é espalhar uma mentira, mas deixar de acreditar em tudo. E deixar de acreditar em tudo significa que, se alguém diz que venceu as eleições, quando as perdeu, uma porcentagem muito significativa da população acaba acreditando. Para que isso acontecesse, tiveram de desacreditar os meios de comunicação, as instituições eleitorais, as autoridades e os jornais. Ao final, aderimos à lógica da tribo, à narrativa, que, além disso, canaliza a raiva e apresenta um rosto a ser odiado e contra quem protestar.

 No livro, você ressalta que “temos uma cidadania mais desorientada do que um povo enganado”. Será que isto acontece porque a única ideologia propositiva é a da extrema-direita?

Penso que o central é que se tornaram bons narradores políticos. Possuem uma forma de ver o mundo reconhecida por essas pessoas que se sentem de fora e que oferece uma visão coerente sobre o mundo, mesmo que seja fictícia. Eles são narradores políticos com narrativas perfeitamente coerentes e elaboradas. Tenta-se combater isto com dados e especialistas, mas os fatos por si só não convencem ninguém. Além de dados e ciência, são necessários narradores políticos que saibam contar os fatos de modo que mexam com os cidadãos e os façam ver por que são importantes.

 Devemos assumir que o debate público estará para sempre imerso em falsidades e pós-verdade?

Um programa político não deveria ser reativo; ou seja, não deveria estar o tempo todo respondendo às barbaridades do populista e não deveria se deixar colonizar pela agenda dele. Além disso, os políticos devem ser capazes de alcançar as pessoas com histórias baseadas em fatos. Penso que estamos menosprezando as emoções. Um político não pode vencer as eleições sem mobilizar as emoções. O crucial está no tipo de emoção que se mobiliza, se a raiva ou a esperança, como fez Obama. Não se alcança as pessoas apenas com autoridade científica. É preciso, com base nessa evidência científica, construir uma narrativa política que convença o cidadão e o faça se sentir protagonista, não espectador, que seja convidado a fazer parte da solução, a deliberar, a decidir junto.

 O livro termina falando dos meios de comunicação e do jornalismo com uma sentença muito dura: “O objetivo não é tanto salvar o jornalismo, mas a função pública que realizava”. Se não forem os meios de comunicação, quem serão os novos atores que realizarão esta função?

Não considero que devam ser outros atores, nem que voltaremos ao mundo de antes. O espaço público mudou e as redes fizeram isto. Há uma leitura positiva nisso: entraram opiniões que eram completamente marginais e que romperam o consenso hegemônico. Defendo a importância da crônica e da narrativa dos fatos a partir da imparcialidade homérica. A imparcialidade homérica, segundo Arendt, não guarda silêncio sobre o vencido, dá testemunho de Heitor e de Aquiles. Homero mostra todos os lados com dignidade e preserva essa pluralidade de perspectivasimparcialidade homérica não é equidistância, nem é tratar todas as afirmações como igualmente válidas, nem é dar o mesmo peso aos fatos e às mentiras. É dar testemunho dos fatos como são. Às vezes, essa falsa equidistância leva à normalização de coisas que nunca deveriam ter sido normalizadas. O central está na pluralidade de perspectivas e na imparcialidade, que não é equidistância. Não podemos voltar a assistir a casos como a cobertura da BBC nas eleições de 2024, que colocava no mesmo nível uma proposta de justiça de Kamala Harris e as declarações de Donald Trump dizendo que iria fuzilar jornalistas.

Uma pessoa "super-rica" ​​aquece o planeta em um dia tanto quanto uma pessoa da metade mais pobre da população aquece em um ano

 

Oxfam apresenta um relatório sobre a desigualdade climática que alerta para a forma como os investimentos dos maiores acumuladores de carbono do mundo contribuem enormemente para o consumo do orçamento de carbono restante da Terra, antes de ultrapassar os limites do Acordo de Paris.

desigualdade está crescendo globalmente, alimentada pela onda crescente do neoliberalismo e da extrema-direita. A riqueza dos bilionários está se multiplicando e crescendo três vezes mais rápido do que no ano passado, enquanto a maioria da população mundial está perdendo poder de compra. A situação não é diferente quando se trata de mudanças climáticas: o estilo de vida perdulário dos chamados "super-ricos" — aqueles que compõem o 0,1% mais rico da população mundial — gera em um único dia as mesmas emissões de gases de efeito estufa que uma pessoa na metade mais pobre da população emite em um ano inteiro. Este é um dos dados mais impressionantes do último relatório da Oxfam Intermón sobre desigualdade climática, publicado duas semanas antes do início da XXX Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) — um dia antes do segundo aniversário da tempestade Dana que devastou Valência em 2024 — e que traz uma série de conclusões preocupantes para o futuro.

O ponto principal é que “os super-ricos estão esgotando o orçamento de carbono restante do mundo — ou seja, a quantidade de CO2 que pode ser emitida sem causar um desastre climático”, como afirma o documento. O título da pesquisa é ainda mais explícito: Saque Climático: Como uma Minoria Poderosa Está Levando o Mundo ao Desastre.

Novos dados divulgados na terça-feira revelam que um desses indivíduos super-ricos produz, em média, 1,9 milhão de toneladas de CO2 por ano por meio de seus investimentos, 346 mil vezes mais do que a pessoa média. Para se ter uma ideia da dimensão desse número, isso seria o equivalente a um de seus jatos particulares dar 10 mil voltas ao redor do mundo — justamente um dos itens de luxo que mais emite gases poluentes na atmosfera em benefício de uma única pessoa. Em termos de peso, eles emitem mais de 800 kg de CO2 por dia, em comparação com 2 kg para os 50% mais pobres da população.

 A reportagem é de Pablo Rivas, publicada por El Salto, 29-10-2025.

3.000 famílias hoje no planeta possuem 15 trilhões de dólares...e pagam taxas irrisórias para tentar indenizar parcialmente o estrago que produzem....


“Dilexi Te”: implode a estrutura metodológica da teologia. Artigo de Jung Mo Sung

 

Na exortação Dilexi Te, que trata sobre “o amor para com os pobres”, o Papa Leão XIV, assumindo o documento preparado pelo Papa Francisco, afirma algo que teologicamente é muito importante para a Igreja e para a comunidade teológica: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes (Mt 25, 40). Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” (n. 5).

O amor aos pobres e a crítica às injustiças sociais que negam aos pobres o direito de viver com dignidade não é uma mera questão do campo da beneficência ou da teologia moral ou da doutrina social da Igreja. Mas, sim da Revelação. Com isso, esse documento critica a forma “tradicional” moderna de separar (a) a teologia dogmática ou sistemática, – que trataria do “ser” de Deus e, por isso, seria o mais importante e a que merece, de fato, o título de “teologia” – da (b) teologia moral ou teologia ética, que seria uma teologia de segunda categoria que aplicaria as teses da teologia dogmática na vida pessoal e na sociedade.

Pessoas formadas nesse horizonte de teologia dogmática não entendem e não aceitam a linha teológico-pastoral assumida pelo Papa Francisco e também agora pelo Papa Leão XIV. Em parte, porque vai contra tudo que estudou ou entende sobre Deus e a revelação. Por isso, a frase “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” é tão importante e conflitante. Para formação teológica “tradicional”, a Igreja pode e é bom que ajude os pobres porque essas “beneficências” seriam uma “prova” de que somos de uma igreja e religião de pessoas “boas”. Mas, essa ajuda não define se a nossa teologia é correta ou não no que se refere ao ser Deus. Porém, o Papa Francisco e o Papa Leão XIV dizem algo diferente. Para eles, amar aos pobres e fazer opções práticas para defender a vida dos pobres é a revelação do quem Deus é. Isto é, na opção pelos pobres e vítimas de injustiça entendemos corretamente a revelação do ser de Deus.

Deus se nos revela na pessoa de Jesus, Jesus esse que amou aos pobres e a todas as pessoas sofridas. Nem todas as imagens de deuses anunciados nas igrejas ou nas religiões são verdadeiramente de Deus. Muitas delas são apenas ídolos, deus-falso que é insensível aos sofrimentos dos pobres e oprimidos. Uma imagem do ser de Deus que justifica as injustiças do mundo é apenas de um ídolo. Por isso, os temas da opção pelos pobres e das estruturas do pecado social – temas fundamentais no Dilexi Te – estão diretamente ligados à revelação do quem e como Deus é.

Sensibilidade social (teologia espiritual), indignação ética frente à injustiça social (teologia do pecado social) e a opção prático-social em favor dos que têm a sua vida negada (teologia prática) são pressupostos e comprovações de que estamos no caminho correto (teologia dogmática) da compreensão da revelação de Deus.

(por motivos editoriais o artigo foi sintetizado pelo blogueiro, sem deformar o conteúdo)

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

GUARDIÕES DA FLORESTAS DO POVO GUAJAJARA SE REUNEM, FAZEM BALANÇO E PROJETAM AÇÕES PARA O 2026!


Caciques, coordenadores e representantes dos Guardiões da Floresta da região Ponta D’Água, Abraão, Zutiwa e Lago Branco da Terra Indígena Arariboia, Maranhão, se reuniram no dia 02 de novembro passado para fazer o ponto da situação. A reunião promovida pela Associação Carlo Ubbiali contou também com a presença do bispo da Diocese de Grajaú, Dom Giuseppe e o coordenador geral Fly, da aldeia Jenipapo. Após a apresentação dos presentes se procedeu para uma avaliação bastante completa da atuação dos Guardiões ao longo de 2025. 

Com muito realismo foram colocados os empecilhos que ainda impedem uma atuação mais consistente dos Guardiões. As diferentes intervenções de alguns dos presentes enfatizaram o seguinte: 1. ‘Há parentes que não entendem que fazemos isso de forma voluntária porque amamos a nossa terra. Eles criticam porque os guardiões não ganham, mas não é essa a questão. A questão é saber que ao garantirmos segurança no território, todos ganham. E isto cabe a nós todos’. 2. ‘Outros parentes acham que ao fazer o nosso trabalho estaríamos atrapalhando, mas não é assim, pois agimos dentro da lei. Talvez alguém esteja incomodado pelo fato que os Guardiões não deixem que pessoas que moram na terra façam o que querem com as nossas riquezas’. 3. Faltam equipamentos básicos como botas, mochilas, e de segurança: além disso, faltam instrumentos de logística (bases de apoio, drones, etc.) e transporte (moto, carro...) ou um fundo de apoio para gasolina e manutenção dos meios de transporte...4. Falta de apoio institucional, ou seja, falta apoio por parte dos organismos governamentais que têm a tarefa e a obrigação legal de proteger e fiscalizar uma terra indígena. 5. Outro ponto levantado foi a questão da ‘plena ocupação do território de Arariboia’, ou seja, há regiões que não possuem uma presença física e base fixa para fiscalizar-monitorar as possíveis invasões e ocupações externas. Precisaria criar pelo menos mais duas bases, mas de forma segura, permanente e autossustentável, ou seja, com uma população indígena no local capaz de se defender em caso de eventuais ameaças...6. Foi dito também que seria preciso pensar numa espécie de ‘institucionalização’ dos Guardiões, no sentido de serem reconhecidos formalmente, e se constituírem como um organismo valorizado pelo governo federal. Afinal, fazem um trabalho de suma importância, expondo, inclusive, a própria vida para realizar ações que caberiam, constitucionalmente, à PF. 

A segunda parte da reunião verteu sobre a identificação dos principais avanços, iniciativas concretas, pontos positivos no gerenciamento do território. 1. ‘A demarcação física da nossa terra foi uma grande conquista, mas com o tempo apareceram as ameaças que todos conhecemos. Hoje existe uma consciência renovada de que não podemos entregar esse patrimônio a pessoas ou grupos que tentam se apropriar. As novas gerações têm que conhecer a nossa história para segurar a nossa terra’. 2. ‘Hoje compreendemos que com ou sem apoio institucional estamos protegendo o que é nosso por amor, na base do voluntariado. Hoje a nossa organização é bem articulada e isso nos dá mais serenidade e esperança de que vamos conseguir manter protegida a nossa terra com a nossa união.3. Outro ponto positivo foi sem dúvida a construção de uma base local para os guardiões da nossa região Ponta D’Água e a abertura de uma trilha que permite nos deslocar para melhor fiscalizar e monitorar. 4. Mais um ponto positivo é o crescente interesse em conhecer e saber mais como lidar com a gestão do nosso território que não é somente terra e plantas, mas é também união, força política, luta por saúde, educação de qualidade, construção de um futuro que cabe a nós escolher. 5. Um outro aspecto a ser mencionado é o crescimento da nossa produção de legumes, de hortas, de pequenas experiências de reflorestamento de plantas nativas (açaí, bacaba, buriti...) e com formação específica em muitas regiões da nossa terra....

O terceiro momento da reunião se concentrou nas propostas concretas para a construção de um futuro mais esperançoso para o território de Arariboia. Concretamente, ver qual o futuro que se quer construir no território. Quais prioridades, quais iniciativas deveriam ser tomadas no que se refere ao monitoramento e à gestão do território? (sistema de proteção-fiscalização, produção, reflorestamento...). Foi enfatizado por parte da maioria que: 1. É importante investir na alimentação sustentável, sadia, investir na produção de frutas nativas, reflorestar com frutas nativas. 2. Fortalecer a educação escolar indígena, a língua nativa, mas sem descuidar da outra também. Afinal, temos que compreender sempre mais o mundo dos não indígenas e dominar seus próprios instrumentos para poder emergir socialmente e politicamente e ‘sobreviver’ com autonomia. 3. Estudar com mais afinco a proposta de construção de novas bases de apoio de forma sustentável com roças ao redor, e bastante gente. 4. Foi dito que os guardiões deveriam dar exemplo de ‘trabalho em conjunto, em mutirão’ colocando roças todos juntos e, eventualmente, dividi-las entre eles para cada um cuidar. Os presentes concordaram em iniciar algumas experiências concretas e imediatas: 1. Estudar a possibilidade de plantios de inhame em cada regional, não somente por ser algo valorizado atualmente, no mercado, mas como forma de resgatar um produto tipicamente indígena, consumido outrora e hoje pouco valorizado internamente. 2. Estudar e pensar concretamente no plantio e reflorestamento de arvores frutíferas nativas como bacaba, açaí precoce, buriti e outros, e expandir a produção de legumes com mais hortas (alface, cebolinha, coentro, pimentão, tomates....) 3.Promoção de minicursos de formação específica para realizar com sucesso as atividades indicadas, convidando técnicos parceiros ou outros.

domingo, 9 de novembro de 2025

Teologia e velocidade. Artigo de Riccardo Cristiano

Nos últimos dias, o padre Antonio Spadaro, editor de longa data de La Civiltà Cattolica e atual subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação Católica, proferiu o discurso de abertura do 76º ano acadêmico da Academia Alfonsiana em Roma. Ao longo dos últimos meses, Spadaro tem conduzido uma discussão teológica sobre a necessidade de uma teologia rápida, um termo que precisa ser compreendido para que se entenda por que ela é necessária agora:

De um lado está a terra do século XX, com seus valores, ideais e tragédias; do outro, emerge um novo "continente", gerado pela revolução digital e pela rejeição dos horrores do passado, animado por uma forma diferente de inteligência. A tensão entre os dois mundos é sísmica: o século XX resiste, mas está destinado a se tornar memória, material de museu. Contudo, seu declínio não é pacífico. Como um animal ferido, o século passado, pressentindo seu fim, redescobriu sua ferocidade: a ferocidade que o levou a acreditar na guerra como solução e a considerar o sofrimento civil um preço inevitável. Assim, enquanto o novo mundo avança, o velho se debate em um espasmo final e violento, evocando suas piores sombras. Eis, então, sua proposta: uma teologia rápida, visto que não estamos em um tempo de mudança, mas sim em uma mudança de era, a percepção do Papa Francisco de alguns anos atrás, da qual sua proposta se origina. A era da Inteligência Artificial, dos algoritmos e das mídias sociais está transformando o mundo, e o faz rapidamente, capturando, carregando e arrastando, como torrentes velozes quando a chuva se transforma em tempestade.

A teologia rápida, portanto, não é um conjunto de respostas novas, fáceis e rápidas, mas uma teologia oportuna diante das mudanças de época: "A teologia rápida não exclui a lentidão, mas a integra. Não nega a profundidade, mas a vive no ritmo do presente, como quem sabe refletir enquanto caminha." A teologia rápida, portanto, é oportuna; mas, para prosseguir, há uma premissa crucial: que "teologia rápida" não é "rápida". Rapidus, por outro lado, não é aquilo que corre, mas aquilo que arrebata, arrasta, subjuga. E também é capaz de envolver atitudes, estilos de vida, compreensões da realidade, da política. A invenção da luz elétrica “capturou” o ritmo dos nossos dias; as redes sociais capturaram nossa capacidade de relacionamento; a inteligência artificial capturou nossa maneira de pensar. A teologia rápida, portanto, não é um atalho intelectual. É, ao contrário, a capacidade de apreender as questões à medida que surgem e de oferecer respostas com uma flexibilidade quase intuitiva, sem pretender ser exaustiva. Não se trata de correr atrás das notícias, mas de vivenciar a história enquanto ela acontece, superando a tentação de adiar, que é o perigo de um certo tradicionalismo. O desafio crucial é reconhecer que o Espírito de Deus age em tempo real, no meio das crises e das mudanças. "A rapidez do mundo contemporâneo gera confusão, ansiedade e solidão. É por isso que a teologia não pode se limitar a interpretar processos: ela deve ter empatia com as pessoas que os vivenciam. Uma teologia rápida é uma teologia empática. Significa permitir-nos ser tocados pelas feridas do tempo, escutar os medos, reconhecer em novas linguagens — mesmo aquelas frágeis ou temporárias — um desejo autêntico de sentido. Não há rapidez sem compaixão. A intuição espiritual mais rápida é sempre a do amor."

Portanto, este período tempestuoso é o momento de partir para o mar, e a referência evangélica é muito clara: à noite, Jesus está diante da multidão junto ao Mar da Galileia, um corpo d'água exposto a repentinas tempestades de vento. Ele fala de um pequeno barco balançando nas ondas. Naquele exato momento — talvez o menos oportuno — ele os convida a atravessar. Está escuro. Não será uma travessia à luz da lua: o caos chega na forma de águas turbulentas. De repente, "houve uma grande tempestade de vento, e as ondas se quebravam no barco, de modo que ele já estava se enchendo de água". O caos não perturba Jesus. De fato, ele está deitado na popa, dormindo sobre seu travesseiro. E esse sono deve ter sido profundo, se ele não acordou nem mesmo com o bater das ondas e a água que invadiu o barco! O caos não perturba o repouso. O Senhor é sempre o senhor da situação, mesmo quando "dorme". E assim ele intervém como um libertador. Então, imediatamente, "o vento cessou, e houve uma grande calmaria". Jesus pode, portanto, dizer aos seus discípulos: "Por que vocês estão com medo? Vocês não têm fé?"

Esta cena do Evangelho expressa poderosamente a condição da Igreja neste tempo de correnteza: somos chamados a uma fé que não espera a tempestade passar para partir, mas que a atravessa, certos de que o Senhor está conosco, mesmo que pareça estar dormindo.

 

"No mundo de Caim, a esquerda precisa enfrentar o medo. Não pode ser apenas contra". Entrevista com Massimo Recalcati

 Por que agora mais nenhuma expressão de ódio desqualifica quem a profere?

Vivemos num tempo de fanatismo ideológico. Veja bem, existem dois tipos de ignorância. Uma é aquela simples ignorância de quem desconhece um assunto. A outra é mais disseminada e é a verdadeira marca do nosso tempo. Diz respeito a quem tem certeza de possuir a verdade. Disso brota todo tipo de fundamentalismo.

O que mais lhe causa impressão nessa violenta metamorfose da linguagem?

A palavra é o que humaniza a vida. Estabelece a diferença mais profunda em relação à vida animal. Ela nos permite tornarmo-nos humanos renunciando ao atalho da violência. Onde há ódio e violência, deparamo-nos com o caminho oposto: a violência mata a palavra. Isso também acontece quando a palavra se transfigura em arma; o insulto torna-se então uma palavra projétil.

Qual a importância das novas tecnologias na criação de um ecossistema dominado que recompensa a agressão?

Nas redes sociais, a relação entre a palavra e as suas consequências é rompida. Toda agressão se torna lícita. Não há barreira considerada inviolável: doença, morte, Holocausto... É uma forma radical de imaturidade psíquica.

As raízes do ódio. Desenvolvimento.

O ódio e a violência não podem ser explicados como uma regressão do humano ao animal, ao bestial. Os animais usam a violência para sobreviver. Nós somos a única forma de animal que sente prazer no exercício da violência. É o ódio de Caim que nega a experiência de Abel, isto é, o outro de si, o Dois que força o Eu a renunciar ao seu poder narcisista. Se preferir uma definição rigorosa de ódio, é esta: o esforço para levar o Dois de volta ao regime fechado do Um.

O ódio escraviza?

O ódio, dizia Jacques Lacan, ‘é uma carreira sem limites’.

É assim que explicamos a crise das democracias, desafiadas por dentro e por fora pelos Cains das autocracias e dos populismos?

A democracia é a experiência da morte do Um e da descoberta do Dois. As guerras eclodem porque faltou o tempo coletivo para a elaboração simbólica do luto pelo Um. Pense no conflito russo-ucraniano: em vez de encaminhar a Rússia para a democracia — experiência da morte do Um — Putin gostaria de refundar o império, negando a experiência do Dois.

O mesmo acontece dentro das democracias, com a construção do inimigo.

A busca do inimigo é uma vocação paranoica que permeia todo regime iliberal. Ela engessa cada identidade em uma narrativa que nega o Dois: o diverso é vivido como uma ameaça, como um obstáculo à nossa plena realização.

Em suma, a armadilha das identidades.

Walter Benjamin dizia: 'A democracia nos obriga ao exercício contínuo da tradução'. Em uma democracia, de fato, existem mais línguas, e todos somos obrigados a um esforço de tradução da língua do outro. Nos regimes iliberais, ao contrário, todos falam a mesma língua...

O caldo de cultura para tudo isso é o medo que autocratas ou aspirantes a autocratas se empenham em transformar em ódio?

O soberanismo psíquico, dizíamos, é a destruição de Abel, em nome do Uno, sozinho. As massas do século XX, como observou Wilhelm Reich, não sofreram passivamente os regimes totalitários. Pelo contrário, houve um desejo ativo pelo fascismo. Isso é o que mais desconcerta.

Atualizando, equivale a se questionar por que hoje, o povo, onerado pela crise, está disposto a abrir mão de um pouco de liberdade em troca de segurança, ou da ilusão dela.

Exatamente. É um desejo de proteção que pode comportar a fuga, como diria Fromm, da liberdade. Existe, de fato, uma profunda ambivalência do ser humano diante da liberdade. Por essa razão, Spinoza pôde dizer que o homem pode preferir suas correntes à liberdade.

Por que, no consenso, a narrativa é mais importante do que os resultados?

O fundamento do populismo é uma equivalência substancial entre o Povo e o Bem. O líder não representa seu povo, mas o encarna em suas pulsões mais básicas. Trata-se de uma relação hipnótica e não de delegação. O excesso de sociedade líquida, para usar as palavras de Bauman, levou a um retorno de identidades sólidas e à busca por pais primordiais, líderes da guerra e das armas, como Netanyahu, Trump ou Putin.

O erro histórico das elites tradicionais e da esquerda é contrapor a tudo isso apenas o politicamente correto?

Não há dúvida. A esquerda é apenas 'contra': contra Trump e contra Meloni, de maneira quase obsessiva. Mas ser contra não amplia o consenso. Pelo contrário, o estreita sectariamente.

Em outras palavras, a esquerda coloca a identidade acima do país.

Exatamente. Cultiva a horta de sua identidade e de seus seguidores. Em vez disso, deveria recomeçar a falar com a maioria do país, não apenas com as minorias.

A esquerda também está acorrentada ao seu Caim?

Ser democráticos é um esforço de longo prazo. Estar sozinho contra bloqueia o país e bloqueia junto ao país também a esquerda. (IHU)

 

sábado, 8 de novembro de 2025

Solenidade da Dedicação da basílica de João do Latrão - Chega de profanar corpos e templos, fora imperadores e mercadores da religião!

Não se pode adorar a Deus e idolatrar o dinheiro ao mesmo tempo! Abusar dos espaços próprios da espiritualidade e da fé e transformá-los em máquinas para lucrar é algo inaceitável. Quando o binômio templo e mercado se alimentam reciprocamente é imperativo destruir o templo que se deixou contaminar pelo mercado! O corpo de Jesus é a verdadeira ‘tenda’ – não santuário, - que Deus escolheu para habitarNão são as belas e imensas basílicas e catedrais, e sim, a ‘carne humana e fragilizada’ que foi escolhida pelo ‘Onipotente’ para habitar, humano, entre nós. São as ameaças, as torturas, as violações a essa ‘casa-corpo’ que provocou a profética indignação de Jesus. Algo que deveria suscitar também em cada seguidor a mesma reação. Hoje se celebra a solenidade da ‘dedicação da primeira igreja-pedra, a de São João do Latrão’, em Roma, construída e doada pelo imperador Constantino ao Papa Silvestre, cerca de 1700 anos atrás. A partir disso somos incentivados a nunca permitir que imperadores, especuladores e cambistas de toda espécie se apropriem e profanem corpos-templos e os espaços reservados aos corpos-pessoas adorarem e servirem o único Deus. E expulsar todos aqueles que em nome de Deus fazem dos corpos-templos uma mercadoria! 


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A Morte é a última cena - Por Kécio Rabelo

Foi durante um jantar, desses em que o vinho se mistura às confidências e as palavras parecem ter mais alma do que som, que um amigo me disse — com uma serenidade quase desconcertante: “A morte é a última cena.” Fiquei em silêncio. Não por falta de resposta, mas porque certas frases parecem exigir pausa, como se precisassem pousar dentro da gente. Ele continuou cortando o pão como quem reparte um pensamento antigo: falava sobre o tempo, sobre o desperdício de vida que há em viver correndo. “A gente se ocupa tanto em chegar, que esquece de estar”, disse. E eu, que o ouvia entre goles lentos, entendi que aquela conversa não era sobre morrer, mas sobre o modo como escolhemos existir.

A morte — pensei — é o último ato, sim. Mas o ensaio começa no instante em que abrimos os olhos pela primeira vez. O palco é o dia, o cenário muda conforme o tempo, e o roteiro... esse ninguém escreve por completo. A vida é feita de improvisos, acasos e reticências. Há quem viva como se a eternidade estivesse no bolso, empurrando os encontros para amanhã, os afetos para depois, os gestos simples para nunca. Há também quem transforme cada manhã em uma chance de beleza: um café compartilhado, uma conversa demorada, um olhar que entende sem precisar traduzir. Talvez o segredo esteja em reconhecer o paradoxo: viver é caminhar em direção à morte, mas é justamente esse destino inevitável que dá sentido à viagem. A consciência da finitude não deve ser lida como sombra, mas como luz — um lembrete de que o tempo é curto demais para ser gasto com o que não toca a alma.

Foi esse mesmo amigo quem, anos atrás, havia dito numa cerimônia de despedida de um amigo em comum: “Não morre mal quem vive bem.” Nunca esqueci essa frase. E desde então passei a compreender melhor que o sentido da eternidade não está num tempo distante, mas começa aqui — no agora. Nas pequenas coisas, nos gestos que unem, nas convergências silenciosas do cotidiano. A eternidade é tecida no modo como cuidamos dos outros, no amor que deixamos nas palavras e nas presenças que se tornam abrigo. Meu amigo sorriu, como se já soubesse que sua frase me acompanharia. E eu percebi que, mais do que uma constatação, “a morte é a última cena” era um convite: o de cuidar da vida com qualidade, de viver encontros verdadeiros, de deixar que o tempo seja espaço de presença, e não apenas de passagem. 

No fim, talvez o grande mistério não esteja em saber quando termina o espetáculo, mas em como escolhemos atuar enquanto o pano ainda está aberto. Porque, se a morte é mesmo a última cena, o que dá sentido à peça — ah, isso — é o modo como a gente vive o intervalo. Quando nos despedimos naquela noite, senti que o jantar tinha sido mais do que um encontro de amigos: foi uma pequena lição sobre o essencial. A vida é feita de ensaios, tropeços, gargalhadas, arrependimentos, e uma última cena — inevitável.

Kécio Rabelo – presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB).