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............Impressiona-me
o fato de nos encontrarmos em meio a uma metamorfose do contexto sociopolítico;
está nascendo uma "América Latina diferente", que deve ser
interpretada com novas chaves de compreensão.
Será que foi obra de Trump?
A
questão é mais complexa, mas sem dúvida um elemento fundamental é justamente o
fato de que, com o governo Trump, a América Latina voltou
a ocupar o centro do espectro político. A ideia é restabelecer uma forte
hegemonia, após o desinteresse demonstrado pelos governos Obama e Biden.
Fala-se abertamente de um retorno à "Doutrina Monroe". De fato, Miami
é a "capital" dessa linha política, cuja figura-chave é o
subsecretário Marco Rubio, um cubano exilado. Ele é o "cérebro"
dessa operação, que visa eliminar a esquerda do continente.
Outro aspecto é o desejo de contrabalançar a China, que tem se
tornado cada vez mais presente nos últimos anos, especialmente no Chile e no
Peru.
No entanto, você também mencionou uma mutação genética
interna. O que é isso?
O
mais óbvio é que o anti-americanismo, entendido como hostilidade
contra os "gringos", os Estados Unidos, não existe mais.
Hoje, na América Latina, todos olham para o norte; todos esperam ir
morar nos Estados Unidos, considerados a terra da prosperidade. A consequência
é a crise do ideal "bolivariano", que fascinou gerações
de latino-americanos nos últimos cinquenta anos: o anseio por um subcontinente
unido, livre de influência estrangeira. Hoje, nenhum líder da direita
latino-americana se refere a essa ideia; todos olham para Washington.
Nesse cenário, o que está à esquerda está fora de lugar?
Por
um lado, parece quase "jurássico", com líderes ainda em cena após
vinte anos. Por outro lado, justamente aquele que se apresentava como uma
grande novidade, o jovem presidente do Chile, Gabriel Boric, que emergiu como líder dos protestos
populares, decepcionou as expectativas e não conseguiu atingir seus objetivos.
De que maneira uma situação social e política tão complexa
afeta a Igreja?
Este
ressurgimento da direita é também o retorno de uma certa
dimensão religiosa, uma espécie de aliança entre a "cruz" e a
"espada", que, no entanto, é liderada pelo mundo
neoevangélico, por vezes por certas seitas. A voz da Igreja parece
fraca... Contudo, nas últimas décadas, a voz da Igreja continental, através
do CELAM, tem sido particularmente significativa, e é urgente que
continue a sê-lo. É difícil imaginar uma Igreja que permaneça
confinada às fronteiras nacionais.
O que esperar?
O Papa
Francisco, precisamente com vistas a um renovado compromisso social e
político, defendeu os movimentos populares em quatro
discursos muito importantes. A estas palavras somou-se o quinto discurso, o
do Papa Leão XIV, em alguns aspetos ainda mais
"revolucionário". Mas devemos acreditar nele; devemos abraçar esta
perspectiva. (IHU)
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