terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Carta de São Daniel Comboni aos seus missionários por ocasião da escolha do novo padre geral do instituto

Limone, 31 de dezembro, 2024

Meus queridos e amados confrades,

que o Coração de Jesus continue a incendiar suas almas de compaixão e de zelo apostólico. Como vocês bem sabem, apesar de eu me encontrar numa dimensão que vocês ainda não conhecem, o fluxo de informações que tem existido entre nós e vocês jamais foi interrompido. Da mesma forma, garanto-lhes que o afeto e a admiração por vocês nunca diminuíram. 

Queria me dirigir a vocês nesse momento importante para a vida do Instituto que vocês criaram, após o meu retorno ao Pai, e do qual vocês hoje fazem parte. Chegou até mim, - ainda não sei bem por quais caminhos, - que o padre geral de vocês abdicou de sua função para a qual havia sido eleito, de forma soberana, para ser bispo de uma diocese na minha amada África. Confesso que fiquei surpreso e um tanto pensativo com tal notícia. Andei investigando por aqui, através da minha restrita rede de anjos-anunciadores, para obter maiores detalhes sobre a procedência ou não dessa informação, e pude constatar que é verdadeira.

 Diante disso, gostaria, inicialmente, de parabenizá-los porque - diferentemente daquilo que muitos bispos católicos andam dizendo de si próprios ao se apresentarem como ‘legítimos e diretos sucessores dos apóstolos’, - vocês nunca entenderam o padre geral que escolhem, periodicamente, como meu direto sucessor. Contudo, não posso deixar de estranhar o poder que lhe é conferido. É verdade, existe um conselho geral, e uma configuração de instituto em que cada província possui um seu coordenador auxiliado por vários conselheiros, mas, no final das contas, o poder de decisão e, porque não, de interferência é, em última instância, do padre geral. E isso tem gerado muitos equívocos e manifestações pouco evangélicas. Ainda há missionários que entendem esse ‘serviço’ como uma espécie de cargo público a ser prestigiado e celebrado solenemente com parentes e amigos! 

Pessoalmente, acredito no poder da ‘sinodalidade’ que, ultimamente, na dimensão terrena de vocês, assumiu uma centralidade bem significativa. Em outros contextos, outrora, se falava em ‘comunhão e participação’, mas o seu sentido último não muda excessivamente. Tenho que admitir que quando me encontrava no seu mundo terreno atribuía-se ao escolhido a exercer uma missão dentro da igreja uma autoridade e um poder que, agora, vejo um tanto exagerados. Por ele se rezava e invocava o dom do Espírito para que ele pudesse exercer a sua missão com sabedoria. Hoje, após muitos anos, imaginava que diante das grandes transformações históricas na igreja e na sociedade, o instituto de vocês soubesse se adequar e alinhar de forma autônoma e original a estrutura, a linguagem, os conceitos e a metodologia, mas me parece que pouco mudou. 

Vocês não acham que chegou a hora de deixar de lado aquele pudor institucional que, frequentemente, oculta ‘segundas intenções’? Vocês não acham, por exemplo, que chegou a hora de largar de ‘nomear o nome de Deus em vão’ invocando as luzes do Espírito Santo para que os delegados escolham o novo geral de acordo com a sua (deles) consciência, mas que, ao lado da oração sempre bem-vinda, se criem, também, mecanismos concretos para que haja um amplo e participativo debate sobre o papel, os desafios, a missão, a identidade do futuro coordenador do seu instituto? Vocês não podem ignorar que quando há uma eleição, e nesse nível, principalmente, - e não se pratica um discernimento aberto, direto, comunitário, enfim, sinodal, - é grande a tentação de vocês mergulharem nos sórdidos joguinhos de ‘grupelhos de pressão’ para viabilizar este ou aquele nome, e, pior, sempre na surdina. Às vezes, tenho a impressão que as assembleias e os capítulos que vocês fazem são meras formalidades e repetições de coisas já vistas, e que pouco acrescentam à atual vida do instituto. 

Finalizando esta minha carta, como pai e pastor de vocês, - pois é assim que ainda me considero, -  exorto-os a não ter medo do futuro próximo que vocês mesmos estão a vislumbrar: a escassez de vocações, ou o seu surgimento restrito, basicamente, a uma região bem específica da terra, a minha amada África, o aumento de casos de desistência de missionários, os desafios com a manutenção econômica e muitos outros problemas que vocês bem conhecem. Convido-os a não serem meros executores de regras canônicas engessadas e esclerosadas, e nem modernos reprodutores de tarefas apostólicas ditadas por planos sexenais elaborados às pressas. Filhinhos, não se preocupem com o nome do candidato a ser o futuro geral de vocês, nem do atual e nem do futuro. Assegurem-se, ao contrário, que desde já se multipliquem as formas, os meios e os conteúdos centrais e coerentes da missão de vocês, hoje, para debater, discernir, e escolher todos juntos os melhores caminhos, evitando disfarçadas atitudes autoritárias, elitistas e omissas. Que Jesus o único e verdadeiro Pastor seja sempre Aquele que caminha ao seu lado. Abraço-os com profundo afeto e que Maria mãe missionária nos proteja sempre!

Vosso Daniel Comboni


sábado, 28 de dezembro de 2024

Solenidade da família de Jesus, Maria, José e quem ouve e pratica a Palavra

Quando disseram a Jesus que a mãe dele e seus irmãos estavam 'lá fora'para procurá-lo, - pois alguns diziam que ele estava fora de si, - Jesus de forma contundente afirmou que mãe, pai e irmãos são todos aqueles que escutam a Palavra e a põem em prática. Aquele filho que outrora vivia submisso e obediente a seus pais, chega à idade adulta em que, sem titubear, reafirma uma estrutura-identidade de família que vai além das tradicionais conotações biológicas. Em outras palavras Jesus afirma que é profundamente evangélico e humanamente salutar ser pai e mãe para quem nunca conheceu o amor de um pai ou de uma mãe, e ser irmão ou irmã para aqueles que nunca conheceram relações afetivas em que são oferecidos carinho, presença amorosa e proteção de graça, sem ser condicionado pelas obrigações morais do parentesco. Jesus sabia algo a esse respeito: afinal aprendeu a acreditar num Pai compassivo e misericordioso ao conviver com um pai não biológico que O amou e cuidou como se assim não fosse! Hoje as nossas igrejas refletem no seu seio as disputas, as ciumeiras e as rivalidades existentes nas comuns “sagradas famílias” e estão longe de viver o amor gratuito e soberano, para além da pertença biológica, étnica, religiosa e de gênero.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Cordel de Natal

 Natal outra vez, será que chegou a nossa vez.

A vez de cantar a esperança com ou sem dança?

Natal é tempo de reflexão, é o que dizem os irmãos,

Momento certo de semear virtude e assumir nova atitude.

Fico um tanto desconfiado com tanto mercado,

Muitos dons e muita luz a verdadeira paz não produz.

Natal é cantar a vida da pessoa querida,

Elevar o louvor e oferecer mais amor.

Pôr fim à guerra em toda a terra

Extinguir a escravidão e cantar a libertação

Natal é a estrela contemplar, e por ela se deixar levar,

e dos palácios de Herodes sempre se desviar; 

Natal é servir com afeição a comunidade e o povão

Caminhar sem ambição em plena comunhão.

Jesus não cansa de nascer na noite escura e no alvorecer

Meu irmão minha irmã não canse de crer que um novo mundo vai nascer! 


Feliz Natal 

A Eterna Criança, o Deus que faltava - Por Fernando Pessoa

 Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Pelo menos o recém-nascido Jesus........

Pelo menos o recém nascido Jesus ao nascer encontrou uma manjedoura e os cuidados de dois pais ao seu lado, ao passo que muitos recém nascidos, hoje, são colocados entre os escombros do terror, e sem o cobertor de um carinho paterno. Pelo menos Jesus tinha o calor do hálito emanado por um boizinho e um jumentinho, enquanto que muitos recém nascidos, hoje, inalam a fria indiferença ou são banhados pela baba da raivosa truculência de desumanos intolerantes e agressivos. Pelo menos o recém-nascido Jesus recebeu a surpreendente visita de suspeitos e desconhecidos pastores, ao passo que, hoje, muitos recém nascidos morrem sozinhos e desassistidos ainda na primeira semana de vida. Pelo menos o recém-nascido Jesus se tornou adulto e conseguiu, embora entre incompreensões e conflitos, realizar a sua missão, enquanto que, hoje, muitos recém nascidos sequer chegam à adolescência, pois são ceifados pelas balas de pistoleiros fardados do estado ou o seu futuro é sequestrado pelas gangues dos traficantes. Ainda bem que Jesus nasceu uma vez por todas!!!!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

IV Domingo do advento - O impossível se torna possível, e o divino assume a essência dos humanos!

Deus se revela não num templo sagrado, mas numa casa comum, num anônimo povoado. Não fala a sacerdotes, - supostamente mediadores entre Deus e os homens, - mas dialoga com uma mulher palestina da insubordinada 'Galileia dos pagãos'. A desconhecida Miriam acredita que algo grandioso está ocorrendo dentro dela. Muitas dúvidas a fazem balançar, mas não retroceder. Ela se deixa conduzir pelo Espírito e confia num futuro que não conhece e nem controla. Maria, contudo, não é uma ingênua passiva que acolhe tudo sem procurar razões e explicações do que lhe foi anunciado. Ela sai à procura de verificações e visita Isabel, outra grávida despachada pela biologia por ser considerada 'estéril'. Ela constata que o impossível se torna possível. A pequena 'grande vida' ainda embrional dormitando no útero de uma 'improdutiva' mexe surpreendentemente com expectativas e sonhos seculares até então frustrados. Miriam compreende que a revelação daquele anjo não era adivinhação e nem promessa vazia. Era o início da realização definitiva de uma esperança que vinha acalentando com o seu povo desde sempre. Deus deixou os distantes céus e veio para conviver com o seu povo sofrido, mas bem-aventurado porque acreditou no impossível. 


Censo 2022 mapeou 750 localidades e mais de 57 mil indígenas no Maranhão

O Censo Demográfico 2022 mapeou um total de 750 localidades indígenas no Maranhão, representando 8,75% do total das 8.568 existentes em todo o Brasil. O estado tem o quarto maior número de localidades indígenas o país, ficando atrás apenas do Amazonas (2.751), Mato Grosso (924) e Pará (869). Novos dados do levantamento censitário relacionados aos povos indígenas foram divulgados nesta quinta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São consideradas localidades indígenas todos os lugares com aglomerados permanentes de 15 ou mais moradores indígenas, seja em áreas urbanas ou rurais. Elas incluem aldeias, comunidades, sítios, acampamentos, instituições de acolhimento e outras formas de organização socioespacial dessas populações.

População

Os dados mostraram ainda que o Maranhão conta com uma população indígena de 57.166 pessoas, o que representa 0,84% da população total residente no estado. Em comparação com o Censo 2010, que mostrou um total de 38.831 pessoas, a população indígena no Maranhão aumentou 47%. Dos 57.166 indígenas maranhenses, 41.677 (72,91%) residem dentro de terras indígenas, enquanto que 15.489 (27,09%) moram fora dessas localidades. Ainda segundo o Censo do IBGE, em 2022, haviam 9.604 moradias ocupadas dentro das terras indígenas.

Moradias

Em relação ao tipo de domicílio, os dados apontam que a maioria da população indígena do Maranhão reside em casa, somando 16.799 (95,63%) de domicílios desse tipo. Maloca é o segundo tipo de moradia ocupada por moradores indígenas no estado, com 358 domicílios (2,04%). Além destes, aparece também apartamentos, com 223 domicílios (1,27%); Casa de vila ou condomínio, com 144 (0,82%); cortiço (20 – 0,23%); e estrutura degradada ou inacabada (3 – 0,02%). (fonte: Gildean Farias)


quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Polícia Federal realiza operação contra exploração econômica de indígenas na cidade de Jenipapo dos Vieiras no Maranhão

Operação cumpriu 10 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de participar do crime na cidade de Jenipapo dos Vieiras. Segundo as investigações, os comerciantes também vendiam mercadorias a preços abusivos.

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta terça-feira (17), a operação 'Cativeiro Ilegal' contra a exploração econômica de indígenas no Maranhão. Ao todo, 10 mandados de busca e apreensão domiciliares foram cumpridos na terra Lagoa Comprida, em Jenipapo dos Vieiras, cidade a 438 km de São Luís. De acordo com as investigações, iniciadas a partir de uma denúncia anônima, comerciantes da região estariam retendo indevidamente cartões de benefícios sociais e previdenciários dos indígenas como garantia de pagamento de dívidas. Os débitos seriam fruto de mercadorias vendidas a preços abusivos e empréstimos realizados a juros elevados. Além disso, os investigados teriam feito empréstimos em nome dos indígenas junto a instituições financeiras. Suspeitos cobravam preços absurdos em relação à dívidas e produtos comprados pelos indígenas . Durante a diligência, um dos alvos das investigações foi flagrado pelos agentes na posse de cartões bancários pertencentes aos indígenas. Os cartões foram apreendidos e devolvidos aos titulares com apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai).

No decorrer das buscas, a PF apreendeu outros cartões de benefícios, documentos de identidade, armas de fogo e munições. Duas pessoas foram presas em flagrante por posse ilegal de armas. Os mandados foram expedidos pela 2ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Maranhão. Os objetos apreendidos serão analisados para determinar se as condutas configuram crimes como apropriação indébita, extorsão ou retenção de cartões magnéticos de contas bancárias vinculadas a benefícios sociais - crime previsto no Estatuto do Idoso caso a vítima seja indígena idosa. O nome da operação reflete a exploração sutil e opressiva enfrentada pelos indígenas, mantidos reféns de um ciclo de dívidas e manipulação econômica. Essa dinâmica, marcada pela retenção de cartões e imposição de preços elevados, cria uma dependência invisível que perpetua a vulnerabilidade dessas comunidades.

Comentário do blogueiro - Depois de séculos em que centenas de Guajajara têm sido usados em trabalho servil, quase escravo, continuamos a presenciar essas formas vis de exploração econômica. Alguém poderia alegar que os índios entregam livremente o cartão do benefício aos comerciantes locais e confiam piamente na sua utilização-manipulação. Caberia uma dupla ação: uma relativa aos comerciantes que cobram absurdos por saberem as dificuldades dos indígenas de 'administrar um cartão' (conferir as mercadorias, somar, subtrair, etc.); e outra ação de caráter pedagógica junto aos próprios indígenas no sentido de não somente alertar do perigo da exploração, mas de eles mesmos aprender a gerenciar seus parcos recursos sem apelar para um comerciante 'patrão' como costumam falar...

sábado, 14 de dezembro de 2024

III domenica di avvento - Lo strano battesimo di Giovanni Battista che esigeva cambiamento radicale di rotta

Strano battesimo quello di Giovanni Battista!!!! Nessuna formalità e nessuna formula. Nessuna fonte battesimale e lontana dal tempio. Nessun corso di preparazione e nessun padrino. Nessun certificato di nascita per il battezzato e nessun certificato di matrimonio per i genitori. Ma questo fu il battesimo che Gesù scelse per se. E non per mancanza di opzioni, poiché lungo il fiume Giordano c'erano molti battezzatori. Giovanni esigeva solamente ciò che riteneva essenziale per cambiare radicalmente una persona/cittadino e una nazione che si trovava sull'orlo del collasso sociale: un impegno personale, libero e consapevole per un cambiamento radicale di vita. Esigeva dai candidati al battesimo di riorientare le loro opzioni, scelte e comportamentali para eliminare il meschino egoismo che impedisce di condividere il pane con gli affamati e un rifugio per i bisognosi; la fine della corruzione che ruba il frutto del sudore e del sangue dei poveri; e la lotta contro tutti gli abusi della violenza poliziale e delle estorsioni istituzionali che negano l'inviolabilità dei corpi e la dignità di ogni essere. Gesù, il “senza peccato”, no ha vuto dubbi ed é entrato nella fila di coloro che si impegnavano a fare del battesimo un segno concreto di persone rinate capaci di fare la differenza e di dare nuove rotte alla Chiesa e alla società.

sábado, 7 de dezembro de 2024

8 de dezembro - Maria, paradigma de quem está de prontidão para gerar a salvação que vem dos pequenos

A lógica de Deus é original. Age na contramão do senso comum, da lógica da maioria. O seu 'enviado' não é escolhido entre as elites dos palácios, do templo e na prestigiosa capital Jerusalém. O todo-poderoso escolhe o seu ‘representante na terra’ na anônima e suspeita Nazaré, na Galileia dos pagãos, numa casa comum, no ventre de uma moça da plebe, já noiva de um jovem chamado José. Difícil acreditar que esse futuro messias de 'ascendência monárquica' iria arrebentar com os inimigos e reerguer a nação. Difícil acreditar que do ‘lixo social e religioso’ Deus iria separar e empossar aquele que teria a missão de ‘salvar a nação’ que se encontrava à beira da falência. Uma aposta, a de Deus, que, após dois mil anos, se verifica acertada. Os que nasceram nos palácios, filhos de reis e de rainhas, de oligarquias e de democracias, de pais da pátria e de golpistas fardados ou não, continuam a oprimir nações e a sugar o sangue de gente e de bicho. Maria é o símbolo daquele ‘pequeno resto’, do pequeno rebanho que ainda resiste em sua fé: que continua a acreditar contra toda suposta evidência de que a salvação vem dos pequenos, daqueles que sabem cuidar um do outro. Que fazem de sua convivência fraterna e compassiva o seu verdadeiro templo, o seu trono e o seu altar. 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Estudantes Guajajara do Maranhão conquistam primeiro lugar em competição nacional de foguetes



Estudantes indígenas da Terra Indígena Bacurizinho, localizada no município de Grajaú, Maranhão, alcançaram uma conquista histórica ao vencer a 67ª Jornada de Foguetes, realizada de 4 a 7 de novembro, em Barra do Piraí (RJ). A equipe, composta por nove alunos das escolas indígenas Y’yzar Lorena e Tamarinda, conquistou o primeiro lugar na categoria de ensino fundamental ao realizar um lançamento de 389 metros, garantindo uma posição de destaque no ranking histórico da competição. A participação foi fruto do excelente desempenho obtido na Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG), ocorrida em maio na Aldeia Arymy, como parte do projeto Astronomia no Sertão. A iniciativa é coordenada pelos professores Genilson Martins, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), e Daniely Gaspar, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Inclusão e ciência de mãos dadas

O projeto faz parte das iniciativas GLOBE e STEAM, da Agência Espacial Brasileira (AEB), que buscam popularizar a ciência em comunidades indígenas e rurais, promovendo a inclusão em eventos científicos de grande porte. “A participação dos estudantes indígenas é uma oportunidade de valorização cultural e transformação social”, destaca a professora Daniely Gaspar. “Com o conhecimento científico, eles se tornam mais preparados para proteger os interesses de seus povos, unindo saberes tradicionais e acadêmicos para preservar territórios, tradições e direitos.”Ela também ressaltou que iniciativas como essa incentivam os jovens a criar soluções inovadoras para desafios locais e globais: “Nosso objetivo é ampliar horizontes e mostrar que a ciência pode ser uma ferramenta poderosa de preservação e desenvolvimento sustentável.”

Parceria com a AEB

A Agência Espacial Brasileira, por meio de um Termo de Execução Descentralizada (TED) firmado com a UFMA, apoia projetos como o GLOBE e STEAM no Maranhão. Essas ações integram o programa AEB Escola, que dissemina o conhecimento científico por meio da educação espacial. Segundo Aline Veloso, Coordenadora de Desenvolvimento de Competências e Tecnologia da AEB, a combinação entre práticas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e os protocolos do Programa GLOBE proporciona uma interação única entre atividades aeroespaciais e o estudo do meio ambiente. “Temos na equipe Bacurizinho um exemplo de como o conhecimento tradicional aliado à ciência pode contribuir para o desenvolvimento da sociedade”, enfatizou Veloso.

Protagonismo indígena em destaque

A vitória da equipe Bacurizinho simboliza o impacto positivo das iniciativas educacionais que aproximam comunidades indígenas do universo científico. Além de estimular o interesse pela astronomia, a conquista reforça a importância do protagonismo indígena em eventos de relevância nacional.

sábado, 30 de novembro de 2024

EM DEFESA DO AMOR DE SI - Vito Mancuso

Para ser compreendido em sua essência, o mito de Narciso precisa ser justaposto ao mito de Eco. Narciso e Eco representam, de fato, os dois extremos do amor: o amor de si que ignora completamente o outro, e o amor do outro que ignora completamente a si mesmo. Qual é a pior forma?

Narciso era belíssimo e todos que o conheciam, mulheres e homens, jovens e idosos, se apaixonavam por ele, mas ele sempre repelia a todos. Eco, que havia sido punida por Hera com a privação da capacidade de falar, exceto pela repetição das últimas palavras ouvidas (daí o nome eco para o fenômeno acústico da repetição de um som), um dia viu Narciso e, como todos os outros, apaixonou-se por ele. Devido à sua condição, no entanto, o diálogo gerou uma série de equívocos, até que ela se aproximou dele para abraçá-lo, mas ele recuou indignado, dizendo-lhe: “Tire suas mãos de mim! Eu preferiria morrer a me entregar a você!” A pobre Eco só pôde responder “me entregar a você” e fugiu tomada por uma vergonha que a consumiu gradualmente, até sobrar dela apenas a voz. Quanto a Narciso, um dia ele se deparou com uma fonte cristalina. Bebeu, mas, ao ver a sua imagem, apaixonou-se por si mesmo, o que o levou a sofrer por um amor impossível e morrer por isso, algumas fontes antigas dizem por consumir-se, outras por afogamento, pois queria abraçar sua própria imagem na água.

Ambos, no entanto, morrem por amor: ela por ter amado demais um outro, ele por ter amado demais a si mesmo. E o seu mito nos propõe o dilema do amor de si. Estamos lidando com o mais obstinado cativeiro ou com o fundamento de uma vida saudável? Todas as tradições espirituais são unânimes em enfatizar a necessidade de libertação do ego. O Buda coloca a origem da dor no afã como manifestação mais imediata do ego. Platão escreve: “A causa de todos os vícios de cada um de nós é, na maioria das vezes, uma forma excessiva desse amor a si mesmo”. Jesus ensina: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo” e, para a Imitação de Cristo, “a renúncia interior de si mesmo une a Deus”. Entre os modernos, Kant coloca a raiz do mal no amor de si, dizendo que ele, “adotado como o princípio de todas as nossas máximas, é a fonte de todo o mal”. Gandhi concorda: “Se pudéssemos apagar o Eu e o Meu da religião, da política, da economia, etc., logo seríamos livres e traríamos o céu para a Terra”. Einstein também pensava assim: “O verdadeiro valor de um homem se determina examinando até que ponto e em que sentido ele conseguiu se livrar do ego”. Simone Weil exaspera a perspectiva: “Eu sou a lepra, tudo o que eu sou é lepra, o eu como tal é lepra”.

As coisas, no entanto, não são tão unilaterais quanto parecem. Pois se Jesus ensina que o eu deve negar a si mesmo, por outro lado afirma: “Que vantagem tem um homem que ganha o mundo inteiro, mas perde ou arruína a si mesmo?” O que significa que a negação de si não equivale à destruição de si, como acreditava Simone Weil, mas exatamente ao oposto é funcional para não perder o eu, que deve ser preservado e salvo. Quando Jesus formulou o mandamento do amor ao próximo, como medida desse amor, ele propôs justamente o amor de si: “Amarás o teu próximo ‘como’ a ti mesmo”. Isso significa que não se pode amar o próximo se antes não se amar a si mesmo e que, portanto, existe um amor mais do que legítimo por si mesmo. Essa dialética também está presente em Gandhi, que, embora por um lado quisesse se reduzir a nada, do outro afirmava: “Sou um otimista incurável porque acredito em mim mesmo”, onde essa autoconfiança também manifesta o amor para si. O mesmo deve ser dito sobre o budismo, sobre o qual Corrado Pensa escreveu: “O amor por si mesmos torna mais inteiros, mais confiantes e mais satisfeitos”. No que diz respeito à filosofia antiga, Aristóteles escreve: “Todos os sentimentos de amizade surgem da relação de si mesmo consigo mesmo e depois se estendem também aos outros... É acima de tudo consigo mesmo que se é amigo, portanto, é preciso amar a si mesmo acima de tudo”. E para a filosofia moderna, aqui está Rousseau: “O amor de si é sempre bom e sempre conforme à ordem”.


Estamos, portanto, diante de uma antinomia: o pensamento, por um lado, ensina a luta contra si mesmo e, por outro, incentiva seu cultivo. Que relação, então, devemos ter com nós mesmos? Superação ou satisfação? Ora um, ora outro, creio eu, dependendo das estações e das circunstâncias, o importante é não cair nos extremos de Eco e de Narciso. Mas uma ajuda nos vem da ciência contemporânea. Ela nos fala da estrutura ontológica do ser, dizendo que todo fenômeno físico é o resultado de uma agregação, o que não pode deixar de valer também para o nosso ego, que, portanto, não existe como substância em si, mas nasce e vive de suas relações e, portanto, é constitutivamente relação.

É por isso que a orientação positiva em relação aos outros não está em oposição à orientação positiva em relação ao si mesmos. Pelo contrário, é somente a orientação positiva para si mesmo que possibilita uma orientação positiva para os outros, assim como as relações felizes com os outros alimentam a autoestima. Além disso, o amor de si nem sempre é tão frequente quanto se imagina, porque muitos vivem na não aceitação de sua realidade, desejando ser diferentes do que são e buscando outro lugar no mundo, outra família, outro corpo, outro caráter, outro eu. E, nessa perspectiva, amar a si mesmos (pelo que realmente se é) também pode ser um grande ato de humildade e de reconciliação com os próprios limites.



sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Iº domingo de advento - Nada de fuga e de medo. É hora de enfrentar os embates, pois a libertação está próxima

O planeta, e até o próprio universo, parecem estar em guerra contra si mesmos.  O rugido do mar da brutalidade e do mal parece fazer afogar toda esperança possível. Os astros humanos parecem se digladiar em permanentes conflitos sangrentos, infindáveis e universais. É nesse contexto conflituoso e sombrio que, paradoxalmente, temos que nos erguer e acreditar que a nossa libertação está próxima. É nessa crise social, espiritual e cósmica aterradora que o ‘Filho do homem, o Filho da Esperança’ aparece na ‘nuvem’. A mesma nuvem divina que acompanhava os passos do povo de Moisés quando saiu da terra da escravidão e da dor.  De dia ela fazia sombra e de noite iluminava. Era, e é, o mesmo Javé, ‘Aquele que está com o seu povo’ que continua vítima das ambições das estrelas decadentes de hoje que sufocam as legítimas aspirações de milhões de pequeninos. A implosão desses falsos astros, prepotentes e violentos, já começou. O que conta, agora, é o que se passa com os discípulos do Filho do Homem. É urgente que eles compreendam o sentido e o alcance desses acontecimentos atuais, que o seu coração se eduque a ser sensível e atento, e estar preparados para o que der e vier, sem fugir e sem se esconder. O tempo se encurtou, e não há mais espaço para discípulos medrosos e alienados. 


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

SOLENIDADE DE JESUS CRISTO SERVIDOR DO UNIVERSO, A TESTEMUNHA DA VERDADE!

No anonimato e na insignificância em que fomos mergulhados, muitos patéticos narcisistas pressionam para aparecer a qualquer custo. Para sermos vistos lançamos mão de atitudes sempre mais dominadoras, manipuladoras e autoritárias. A palavra rei, muito desgastada no seu sentido, não nos remete, imediatamente, a atitudes de serviço e de pastoreio. Mesmo assim, a igreja insiste em dinamizar a nossa fé em Jesus Rei do universo, talvez com o intuito de adotarmos o modo de 'administrar' de Deus: o mesmo adotado por Jesus em favor dos pobres e dos pequeninos! O diálogo de Jesus com Pilatos no evangelho hodierno é um chamamento radical a largar definitivamente toda atitude e simbologia que nos remetem às patológicas práticas de mandar, de manipular, de oprimir, e de extorquir qualquer pessoa, e em todos ambientes. E adotar uma metodologia que vai na contramão daquela assumida pelos 'déspotas deste mundo’, ou seja, a capacidade de servir, de acolher e de proteger os que são humilhados peloss mandatários que vivem nos palácios e nos templos! Chegou a hora de deixarmos de lado manias de grandeza, práticas de liturgias espalhafatosas e vazias,  e de uma fé sem obras. É preciso resgatar de vez a mesma missão de Jesus de Nazaré: sermos testemunhas da verdade, a VERDADE QUE LIBERTA! 


sábado, 16 de novembro de 2024

33º domingo comum - Coragem, enxuga o pranto, o velho mundo de opressão e dor está com os dias contados!

Quando fazemos a experiência dolorosa de passar por uma grande tribulação, ou provação inexplicável, e a superamos, nos tornamos verdadeiras ‘estrelas’ luminosas! Paradoxalmente, são as experiências de sofrimento e angústia não desejadas que nos fortalecem e amadurecem. Sem querer, nos tornamos fonte de esperança e luz para todas aquelas pessoas que percorrem o nosso mesmo itinerário existencial. O evangelho de hoje está longe de falar de mudanças cósmicas, ou de realidades que se referem ao ‘fim dos tempos’. Jesus nos alerta sobre a nossa capacidade de ler os sinais da nossa realidade e de interpretá-los de forma adequada. Isso significa que temos que ir além daquilo que parece ser uma verdade, mas que não é! De fato, quando achamos que tudo acabou, algo surpreendente acontece na nossa vida. Quando achamos que os vitoriosos desse mundo vão nos dominar e oprimir para sempre, eis que eles caem com estrelas decadentes sem brilho, e impotentes! É preciso, portanto, enfrentar a perseguição, a exclusão, a solidão sem desesperar, pois tudo isso tem um fim. E ele está mais próximo do que imaginamos. É a esperança e não o medo que deve nos guiar! Coragem, o Filho do homem venceu as falsas ‘estrelas’ desse mundo! 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

“A versão sacerdotal do cristianismo tornou-se uma expressão patológica do mesmo” Por PE. Jorge Costaddat

Parece-me que o principal problema da Igreja Católica hoje não é o clericalismo, mas a versão sacerdotal do catolicismo. O clericalismo é um problema moral. A organização sacerdotal do cristianismo não. Esta é uma dificuldade estrutural. Se a Igreja Católica não fosse organizada sacerdotalmente, não haveria os abusos de poder por parte do clero que tanto lamentamos hoje e muitos outros problemas.  

Há padres que não são clericais. Eles não abusam de sua investidura. São ministros humildes, que caminham com suas comunidades e a seu serviço. Eles aprendem com os leigos e os orientam com eficácia, porque têm a abertura necessária para aprender sobre a realidade e a vida em geral. Ninguém foge de suas pregações porque eles têm algo a dizer. No entanto, eles não foram eleitos por suas comunidades e, consequentemente, não devem prestar contas a elas pelo desempenho de suas funções. Padres, sacerdotes, ministros, ou como se quiser chamá-los, são escolhidos por outros padres e são ordenados pelos bispos para cumprir uma função. Nesse sentido, o nome “funcionários” pode muito bem ser aplicado a eles, mesmo que não gostem. São administradores maiores ou menores, de uma espécie de multinacional ― a maior do mundo? ― que nada deveria ter que a ver com a Igreja de Cristo.  A Igreja – que, como qualquer organização humana, requer uma institucionalidade – precisa destes servidores para desempenhar tarefas que vão desde o anúncio da Palavra até à administração dos sacramentos, incluindo a arrecadação de recursos para desenvolver estes serviços, para apoiar as obras educativas, caritativas e de justiça, e para sustentar a própria vida deles. Porém, essa mesma instituição foi capaz de desumanizar sua liderança. Na verdade, ela o faz. Será que precisa fazer isso até certo ponto? Em mais de uma ocasião, pareceu-nos que sim. 

O fato é que na Igreja Católica de hoje é possível ser padre sem ser cristão. Soa duro, mas é a isso que chegamos. Nos seminários, as pessoas são formadas para ensinar e administrar os sacramentos, bem como o dinheiro e, às vezes, as pessoas. Para isso, os formandos são submetidos a processos de aculturação. Os seminaristas são romanizados. Eles são reformatados. Eles são vestidos como sacerdotes para distingui-los dos outros. Eles estão isentos de passar pelas experiências fundamentais de seus contemporâneos, como intimidade afetiva e paternidade, e, no caso dos religiosos, pela obrigação de qualquer pessoa de ganhar seu pão. Os sacerdotes são seres psicologicamente divididos na mesma medida em que são separados (“escolhidos” por Deus) dos mortais comuns. Eles representam a separação entre Igreja e mundo. Aqui a Igreja (“sagrada”), ali o mundo (“profano”). À medida que essa separação é acentuada, eles são incapazes de entender o que está acontecendo e orientar efetivamente um povo que progressivamente os considera irrelevantes. A pregação de muitos deles é um fracasso do começo ao fim. Mesmo a doutrina da Igreja Católica, em mais de uma maneira, vem de pessoas que parecem não ter as tradições epistemológicas necessárias. 

Muitos, especialmente os jovens, consideram a Igreja uma anomalia. O fato é que os próprios padres, divididos internamente, bipolarizados, acabam se desintegrando. Talvez os padres clericais consigam superar esse perigo. Mas certamente ao preço de uma desumanização que não pode ser a vontade de Deus que, convertido em um ser humano autêntico e o mais autêntico dos seres humanos, nos humaniza. Jesus foi um leigo que soube integrar a realidade em seus mais diversos aspectos em sua pessoa, uma pessoa humana que nos divinizou porque nos laicizou. Quem pode explicar a sua conversão em um Sumo e Eterno sacerdote? A Igreja Católica não precisa resolver o problema do clericalismo. Ela precisa, em primeiro lugar, ser não-sacerdotal [dessacerdotalizar-se]. Na Igreja, houve e há versões não sacerdotais do cristianismo: monaquismo, religiosidade popular latino-americana, 70% das comunidades da Amazônia sem padres, as igrejas evangélicas pentecostais e outras. Todas essas versões têm seus próprios problemas. Umas são mais saudáveis, “mais cristãs” do que outras. A versão sacerdotal do cristianismo tornou-se uma expressão patológica dele.  Os ministros da Igreja Católica – que infelizmente não deixam de ser chamados de “sacerdotes”, como o Vaticano II tanto queria – deveriam ser escolhidos, formados e capacitados para liderar as comunidades através de processos nos quais se pudesse controlar que eles tivessem a autoridade necessária para realizar tal serviço. A autoridade, na Igreja de Cristo, deveria provir, antes de tudo, de uma experiência pessoal do Evangelho. As autoridades deveriam, como testemunhas, ser capazes de proclamar com convicção que Deus é digno de fé e que a própria Igreja pode constituir o Evangelho no mundo de hoje. A Igreja Católica necessita de ministros que sejam cristãos, em vez de funcionários de uma organização sacerdotal internacional administrada por uma classe que se elege e acredita estar isenta de accountability (= prestar contas) ao Povo de Deus.  


domingo, 10 de novembro de 2024

Alcune considerazioni senza pretese sulle nomine a vescovi di missionari religiosi

Ogni volta che ascolto o leggo le notizie che annunciano la nomina di missionari religiosi a vescovi, sono sopraffatto da un misto di timore e tremore. Non c'è da stupirsi: mi oppongo con veemenza a questa pratica anche se devo riconoscere che è abbastanza consolidata nella tradizione vaticana. Nulla vieta, però, che nell’attuale tappa del lungo cammino ecclesiale si possa inaugurare una presa di posizione nuova e inedita, anche contro ogni tendenza, senza illusioni e senza pretese. Di seguito presento alcuni argomenti per giustificare la mia opposizione.

Il primo motivo è che ritengo che un religioso consacrato, missionario, debba dedicarsi solo ed esclusivamente a quelle realtà che clamano per giustizia e vicinanza compassiva e a quelle segnalate, storicamente, dal fondatore e costantemente aggiornate dal proprio istituto. Comprendo che quando assume la 'carica' di vescovo, il missionario è legato, direttamente e sistematicamente, ad un'amministrazione formale che, personalmente, considero deviante. Reputo che la carica di vescovo, così come è attualmente concepita nell'amministrazione ecclesiastica, non è in linea con la vocazione missionaria del prescelto, nonostante le sue più nascoste ambizioni personali. Il religioso, infatti, si allontana, anche involontariamente, dagli obiettivi e dalle dinamiche tipiche del missionario consacrato. Basti guardare le azioni di diversi missionari che, dopo aver assunto l'amministrazione di una diocesi, finiscono per separarsi emotivamente ed effettivamente dal loro istituto, dalle loro presenze missionarie, dalla loro metodologia e dalle loro opzioni pastorali. Non possiamo nemmeno ignorare che, spesso, numerose diocesi hanno al loro interno presbiteri locali qualificati ad assumere il ruolo di pastore di una determinata diocesi, senza necessariamente ricorrere a presbiteri missionari “da fuori”!

Il secondo motivo che mi fa dissentire dalla prassi delle nomine episcopali dei religiosi missionari è la constatazione che, in generale, gli ordinati, invece di assumere 'diocesi missionarie', cioè realtà ecclesiali bisognose, impegnative e carenti di tutto, molte volte sono destinati ad assumere 'diocesi autosufficienti', senza grandi sfide pastorali, richiedendo solo continuità nell'amministrazione ordinaria. Qual è allora il significato di queste scelte? Si potrebbe sostenere che la presenza di un vescovo di un istituto missionario spingerebbe positivamente i cristiani ad aprirsi a una nuova sensibilità missionaria, tuttavia, io la penso diversamente. Nella maggior parte dei casi è il vescovo missionario ad essere “cooptato” dalle esigenze della carica propria di un vescovo per inserirsi e iniziare a lavorare secondo gli schemi consolidati dell'amministrazione canonico-diocesana. I ruoli di “vescovo-amministratore e vescovo-pastore” sembrano essere sempre più inconciliabili e, in alcuni casi, antagonici, soprattutto per quei missionari che si sono identificati con le loro precedenti esperienze missionarie positive. Credo che molti di noi abbiano potuto ascoltare o assistere gli sfoghi di confratelli vescovi o di vescovi diocesani di fronte al grande dilemma di conciliare lo spirito-pratica missionaria che, in generale, ci mette in contatto sistematico con comunità, movimenti, famiglie e comunità ecclesiali, gruppi, e gli obblighi canonico-burocratici di controllo delle responsabilità, la angosciante e imbarazzante preoccupazione di reperire fondi per le attività pastorali e per il mantenimento degli agenti pastorali, di dialogare con il clero e di risolvere crescenti conflitti e dispute interne, di celebrare cresime, di presiedere messe di chiusura di feste del patrono, partecipando a numerose commissioni della Conferenza Episcopale e 'potendo viaggiare', frequentemente, anche per alleviare le tensioni interne accumulate.

Un terzo motivo che vorrei esporre è che i responsabili degli istituti religiosi e delle loro comunità vedono quasi sempre la nomina di un loro membro come una sorta di riconoscimento pubblico davanti al Vaticano, o davanti ad altri istituti. Oppure un riconoscimento delle presunte qualità e virtù di un missionario con un profilo specifico per la gestione delle risorse umane e finanziarie. Si finisce per entrare in una logica estremamente ambigua e pericolosa. Il Vaticano, attraverso i suoi mediatori, effettua le sue indagini e nomina il candidato che, in genere, non trova alcuna opposizione da parte dei responsabili dell'istituto missionario, e nemmeno la presentazione di alcun tipo di condizione. Non mi sfugge che in questi casi c'è una velata imposizione canonico-vaticana di dover accettare, formalmente e moralmente, la 'nomina a vescovo' – soprattutto perché il ruolo vincolante dell'obbedienza formale non può essere contestato, ma accettato ciecamente. Mi sembra tuttavia legittimo domandarsi se non sarebbe il caso che il prescelto e il suo Consiglio Generale reagissero con garbata fermezza alla Congregazione Romana, abdicando, una volta per tutte, a questo atteggiamento ormai antiquato di sottomissione alle sue decisioni intoccabili. Non sarebbe il caso, ad esempio, che lo stesso missionario scelto come vescovo, in comunione con la propria congregazione, manifestasse il suo legittimo diritto al dialogo o, se si preferisce, alla negoziazione, al dissenso? Con tale presa di posizione si potrebbe raggiungere un consenso in cui il candidato sia destinato, almeno, a una diocesi “veramente missionaria” con carenza di risorse umane qualificate, infrastrutture insufficienti, scarsa presenza ecclesiastica e missionaria e lontano dalla sua “patria”, anche per segnalare la sua ferma disponibilità a continuare ad essere missionario 'ad gentes' come aveva promesso quando si consacrò? Purtroppo noto che un Consiglio Generale non ha una ragionevole autonomia per contestare e opporsi a una nomina vaticana.

Il quarto motivo che mi infatidisce è che il missionario, una volta scelto e nominato vescovo, incorpora, anche involontariamente, le stesse abitudini di quando avviene una “promozione solenne” a una posizione prestigiosa, all'interno di una certa gerarchia. In questi casi assistiamo a patetiche manifestazioni di velata adulazione da parte di chi ci circonda, di formalismi farisaici e omaggi retorici, attestando così che il prescelto non si sta tuffando in una missione di servizio missionario nascosto e disinteressato, ma piuttosto, in una realtà fatta di visibilità pubblica, con le sue dinamiche di potere e di ingerenza sociale ed ecclesiastica. Continua a stupire come certi missionari, una volta giunti all'episcopato, siano molto attenti alle formalità, coltivando una cura esagerata con i simboli della carica (mitria, pastorale, casula, anello, croce pettorale, ecc.), per non parlare dei titoli onorifici e delle residenze ufficiali ben attrezzate. Non sembra essere questo ciò che il Maestro ha insegnato ai suoi missionari itineranti seguaci della Buona Novella quando li ha avvertiti che «chi è il primo deve essere l'ultimo e il servitore di tutti»!

Certamente non mancheranno persone che reagiranno a queste insignificanti considerazioni dicendo che sarebbero il risultato di qualcuno che non ha più la possibilità di essere vescovo, immaginando così che questo sarebbe il sogno di ogni sacerdote e missionario ... Altri diranno che si vuol insistere a cercare 'il pelo nell'uovo' e che non conviene creare polemiche stupide e senza senso... Altri, infine, osserveranno che tutto questo è una autentica inutilitá, non aggiunge nulla e non porta da nessuna parte... Tuttavia, non possiamo ignorare l'attuale situazione globale ed ambiente ecclesiale in cui viviamo. È in essa che siamo chiamati ad essere segno luminoso, sale che dà sapore, testimoni di una Buona Novella concreta, comprensibile e aggiornata. Non si può, infatti, negare che, oggi, la società e molti settori della nostra Chiesa tendano a consolidare pratiche feudali devianti, favorendo il risorgere di varie forme di autoritarismo illuminato, di discriminazione del 'diverso', del 'anatema sit' per coloro che vivono 'extra ecclesia', di libertà illimitata di inoculare e imporre pensieri unici e distorcere i valori evangelici e umani. Non possiamo più fare silenzio difronte a tante contraddizioni e come missionari audaci, come soggetti di pensiero critico e membri di un gruppo missionario che vanta un’identità missionaria di servizio e aperta al mondo, rompere con pratiche, abitudini, metodologie e terminologie canonico-pastorali sclerotiche che ci deviano dal vero e unico paradigma che dá senso a ogni discepolo veramente missionario: 'stare in mezzo al mondo come coloro che servono'. Niente di più!

 São Luís, 10 novembre de 2024

 

Algumas despretensiosas considerações sobre nomeações a bispo de religiosos missionários

Toda vez que ouço ou leio notícias anunciando a nomeação de missionários religiosos a bispo sou invadido por uma mistura de temor e tremor. Não é para menos: sou veementemente contrário a essa prática mesmo que tenha que reconhecer que está bastante consolidada na tradição vaticana. Nada impede, contudo, que na atual etapa da longa caminhada eclesial se possa inaugurar, até contra todas as tendências, uma nova e inédita postura, sem ilusões e sem ufanismos. Coloco, a seguir, algumas argumentações para justificar a minha contrariedade.

O primeiro motivo é que considero que um religioso consagrado, missionário, deveria se devotar única e exclusivamente àquelas realidades gritantes e específicas da humanidade, e àquelas apontadas, historicamente, pelo fundador e permanentemente atualizadas pelo seu próprio instituto. Entendo que ao assumir o ‘cargo’ de bispo o missionário é vinculado, direta e sistematicamente, a uma administração formal que, pessoalmente, considero desviante. Ocorre que o cargo de bispo, tal como é concebido atualmente na administração eclesiástica, não se coaduna com a vocação missionária do escolhido, em que pesem suas mais recônditas ambições pessoais. O religioso, com efeito, se afasta, mesmo sem querer, dos objetivos e das dinâmicas próprios de um missionário consagrado. É só olharmos a atuação de vários missionários que, após assumirem a administração de uma diocese, acabam se apartando afetiva e efetivamente de seu instituto, de suas presenças missionárias, de sua metodologia e de suas opções pastorais. Não podemos ignorar, também, que, frequentemente, inúmeras dioceses possuem, internamente, em seus próprios quadros, presbíteros locais qualificados para assumirem o cargo de pastorear uma determinada diocese, sem recorrer, necessariamente, aos presbíteros missionários de ‘fora’!

O segundo motivo que me faz discordar com a prática de nomeações episcopais de religiosos missionários é a constatação de que, em geral, os ordenados em lugar de assumirem ‘dioceses missionárias’, ou seja, realidades eclesiais necessitadas, desafiadoras e carentes de tudo, muitas vezes são destinados a assumirem ‘dioceses autossuficientes’, sem grandes desafios pastorais, exigindo somente continuidade na administração ordinária. Qual, então, o sentido dessas escolhas? Poder-se-ia argumentar que a presença de um bispo proveniente de um instituto missionário sacudiria, positivamente, os cristãos a se abrirem a uma nova sensibilidade missionária, contudo, acho o contrário. Na maioria dos casos é o bispo missionário que é ‘cooptado’ pelas exigências próprias do ofício a se enquadrar e a passar a trabalhar segundo os esquemas consolidados da administração canônico-diocesana, e da sua freguesia. Os papeis de ‘bispo-administrador e de bispo-pastor’ parecem ser sempre mais irreconciliáveis e, em alguns casos, antagônicos, principalmente para aqueles missionários que têm se identificado com suas experiências missionárias positivas anteriores. Acredito que muitos de nós puderam ouvir ou presenciar desabafos de colegas bispos ou de bispos diocesanos diante do grande dilema de conciliar o espírito-prática missionária que, em geral, nos coloca em contato sistemático com comunidades, movimentos, famílias e grupos eclesiais, e as obrigações episcopais canônico-burocráticas de monitorar as prestações de conta, a angustiante e constrangedora preocupação em arrecadar fundos para as atividades pastorais e a manutenção de agentes de pastoral, dialogar com o clero e resolver os crescentes conflitos e disputas internas, celebrar crismas, presidir missas de encerramento de festejos, participar das inúmeras comissões da CNBB e ‘poder viajar’, frequentemente, até para aliviar as tensões internas acumuladas.

Um terceiro motivo que gostaria de expor é que quase sempre os responsáveis dos institutos religiosos e suas comunidades veem as nomeações de um dos seus membros como uma espécie de reconhecimento público perante o Vaticano, ou perante os demais institutos. Ou um reconhecimento das supostas qualidades e virtudes de um missionário com perfil específico para administrar recursos humanos e financeiros. Acaba-se entrando numa lógica extremamente ambígua e perigosa. O Vaticano através de seus mediadores faz suas sondagens e nomeia o indicado que não encontra, em geral, por parte dos responsáveis do instituto missionário nenhuma oposição e, tampouco, a apresentação de algum tipo de condição. Não ignoro que existe nesses casos uma velada imposição canônico-vaticana de ter que aceitar, formal e moralmente, a ‘nomeação a bispo’ – até porque o papel vinculante da obediência formal não pode ser contestado, mas acatado cegamente. No entanto, parece-me legítimo se perguntar se não seria o caso de o escolhido e o seu conselho geral reagirem com firmeza polida e altivez digna à Congregação Romana abdicando, uma vez por todas, a esta ultrapassada atitude de submissão às suas irretocáveis decisões. Não seria o caso, por exemplo, de o próprio missionário escolhido como bispo, em comunhão com a sua própria congregação, mostrarem seu legítimo direito ao diálogo ou, se preferirem, à negociação, à dissidência. Com tal postura poder-se-ia chegar a um consenso em que o nomeado seja destinado, pelo menos, a uma diocese ‘realmente missionária’ com escassez de recursos humanos qualificados, de infraestruturas, de pouca presença eclesial e missionária, e longe de sua ‘terra natal’, até para sinalizar a sua firme disposição em continuar a ser um missionário ‘ad gentes’ como prometeu quando se consagrou? Infelizmente, observo que um Conselho Geral não possui uma razoável autonomia e uma honrosa altivez para contestar e se opor a uma nomeação vaticana.

O quarto motivo que me incomoda é que o missionário, uma vez escolhido e nomeado para ser bispo incorpora, mesmo sem querer, os mesmos hábitos próprios de quando ocorre uma ‘solene promoção’ a um cargo de prestigio, dentro de uma determinada hierarquia. Assiste-se, nesses casos, a patéticas exibições de uma velada bajulação por parte do seu entorno, de formalismos farisaicos e de retóricas homenagens atestando, dessa forma, que o escolhido não estaria a mergulhar numa missão de serviço missionário oculto e abnegado, e sim, numa realidade de visibilidade pública, com suas dinâmicas de poder e de interferência social e eclesial. Continua a causar espanto como determinados missionários ao chegar ao episcopado capricham nas formalidades cultivando um cuidado exacerbado com a simbologia do cargo (mitra, báculo, casula, anel, cruz pectoral, etc.), sem falar nos títulos honoríficos e nas bem equipadas residências oficiais. Não parece ser isto o que o Mestre ensinou aos seus seguidores missionários itinerantes da Boa Nova ao alertá-los que ‘aquele que é primeiro seja o último e o servidor de todos’!

Certamente, não vai faltar gente que vai reagir a essas insignificantes considerações afirmando que seriam o fruto de alguém que não tem mais chance de ser bispo, imaginando, assim, que esse seria o sonho de todo presbítero e missionário... Outros dirão que se insiste em encontrar ‘o pelo no ovo’ e que não compensa criar polêmicas estúpidas e sem sentido... Outros, enfim, observarão que tudo isso é coisa manjada e que não vai acrescentar nada e não levar a lugar nenhum...Contudo, não podemos ignorar a atual conjuntura mundial e eclesial em que vivemos. É nela que somos chamados a ser sinal luminoso, sal que dá sabor, testemunhas de uma Boa Nova específica, compreensível e atualizada. Com efeito, não se pode negar que, tendencialmente, a sociedade e muitos setores da nossa igreja, hoje, estão a consolidar práticas feudais destoantes ao promoverem o ressurgimento de várias formas de autoritarismo iluminado, de discriminação do ‘diferente’, do ‘anátema sit’ aos que vivem ‘extra eclesia’, da liberdade ilimitada para inocular e impor pensamentos únicos e desvirtuarem valores evangélicos e humanos. Não podemos mais nos omitir, como missionários ousados, como sujeitos críticos pensantes e membros de um grupo missionário que ostenta uma identidade missionária servidora e aberta ao mundo, em romper com práticas esclerosadas, hábitos, metodologias e terminologias canônico-pastorais que desviam o foco do que continua sendo o único paradigma que faz sentido para todo discípulo realmente missionário: ‘estar no meio do mundo como aqueles que servem’. Nada mais do que isso!


 São Luís, 10 de novembro, 2024


sábado, 9 de novembro de 2024

32º domingo comum - Quando uma igreja se torna 'ópio do rebanho' manipulado por falsos guias espirituais

Religiões e igrejas que exploram e manipulam viúvas utilizando ou não o nome de Deus são a prova cabal de que se tornaram, de fato, ‘ópio dos povos’ e instrumento de desumanização. O trecho evangélico de hoje apresenta o absurdo dos absurdos: uma viúva, - que simboliza as categorias mais fragilizadas da nação, juntamente com os órfãos, - coloca no cofre do tesouro do templo tudo o que tinha: uma simples moeda de ferro. Certamente, ela achava que com aquela oferta estaria agradando o próprio Deus. Contudo, as ofertas daquele cofre deveriam ser utilizadas para proteger e assistir justamente viúvas como ela em suas necessidades. Paradoxalmente, a própria viúva que deveria ser a beneficiária daquelas ofertas foi manipulada a tal ponto pelas sanguessugas do templo a dar tudo o que tinha para manter os privilégios daqueles falsos adoradores de Deus! Entre eles os próprios escribas; teólogos ambiciosos e manipuladores, metidos a ‘guias espirituais cegos’, que fazem longas orações nas casas das viúvas para lhes devorar o pouco que ainda possuem. Chegou a hora de desmascarar os inúmeros manipuladores de Deus que vivem nos templos de hoje. E de expor publicamente aqueles cidadãos fervorosos que ainda acham que um bolsa-família ou um benefício social em favor de viúvas, realmente necessitadas, é incentivo à preguiça! Chegou a hora de aderir à prática de Jesus de Nazaré, o verdadeiro defensor de viúvas, órfãos, paralíticos, cegos, surdos-mudos...os ignorados de hoje!

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Steven Forti, historiador: “Extremas-direitas como Trump estão assassinando a democracia”

Atualmente, 71% da população mundial vive em autocracias. Há 20 anos esse número era de 50%. Dos 91 países considerados democráticos, apenas 32 são democracias liberais (há 15 anos eram 43). Mais dados: se em 2003 havia 35 países que se democratizavam, hoje são 18. E o mais grave: se em 2003 eram apenas 11 países que se autocratizavam, hoje são 42. A tendência é evidente e o historiador especializado em extrema-direita Steven Forti alerta para o perigo no seu último livro ‘Democracias em extinção: o espectro das autocracias eleitorais’ (Akal). Estas forças são os atores “que estão a executar com maior força este assassinato da democracia”. Donald Trump, nos Estados Unidos, pode ser o próximo.

Eis a entrevista.

Trump não é mais o candidato desconhecido de 2016 que enfrentou um rival ligado ao establishment, como explicar o grande apoio atual apesar de conhecê-lo muito melhor?

A mesma pergunta também pode ser feita no caso de Jair Bolsonaro no Brasil, que embora tenha perdido eleições, manteve um nível de apoio muito elevado. A extrema direita tem sucesso por razões estruturais. Para além de uma liderança poder ser considerada pela população muito radical, extremista ou mesmo pouco apresentável, este candidato conseguiu estabelecer uma ligação com uma parte da população que vai além da política e tem a ver com o afetivo e o emocional. Acrescentemos dois outros elementos: a forte polarização e radicalização do que há algum tempo se chamava centro-direita ou direita tradicional. Se somarmos tudo isso, vemos como uma figura que nos parece pouco apresentável conseguiu unir um eleitorado altamente mobilizado contra um adversário político que é considerado um inimigo e uma ameaça real a uma série de valores e uma forma de vida.

Como ele diz, Trump absorveu praticamente toda a direita tradicional americana. Apesar das particularidades do sistema bipartidário nos EUA, este perigo existe na Europa?

Claro. Já temos evidências confiáveis ​​suficientes disso. Pensemos, por exemplo, na Itália, onde o que seria a direita tradicional praticamente desapareceu ou é uma muleta de uma coligação hegemonizada pela extrema direita, ou seja, Giorgia Meloni. Pensemos também no caso francês, onde os republicanos se tornaram uma força minoritária à direita, onde a hegemonia é detida pelo lepenismo. Há outro país onde a batalha ainda está aberta: o Reino Unido. Os conservadores não só se radicalizaram na última década de uma forma muito óbvia, como também têm um concorrente muito forte, Nigel Farage, que poderá até canibalizá-los. Independentemente de o sistema ser bipartidário ou multipartidário, é uma dinâmica óbvia. Em praticamente todos os países, salvo algumas pequenas exceções com pontos de interrogação para o futuro, a direita tradicional radicalizou-se, alinhou-se claramente com a extrema direita, ou tornou-se irrelevante e até canibalizada.

Acrescentemos um último elemento: o caso da Argentina. Javier Milei, que certamente não era um candidato que poderíamos considerar moderado, venceu as eleições no segundo turno graças à aliança que lhe foi oferecida pela direita tradicional representada pelo Macrismo, que agora governa com ele. Isso não levou Milei a moderar. Às vezes o discurso destes direitos é que temos que 'romanizar' os bárbaros, ou seja, levá-los para um caminho mais moderado, controlando-os um pouco e incorporando-os ao sistema. Em vez disso, o que vemos é que os romanos se tornaram bárbaros.

Que implicações tem a atual vaga de democratização?

Vivemos uma onda de desdemocratização. A democracia está em declínio acentuado há pelo menos 15 anos, de acordo com muitos índices. E a data não é uma coincidência, porque está ligada à crise econômica de 2008. A democracia vai extinguir-se? Seremos a última geração que viveu num sistema democrático? Esta já não é uma questão que pode dar origem a uma série distópica da Netflix, mas sim é uma realidade que estamos a viver e que é bom considerarmos. Os dados nos oferecem um quadro bastante sombrio. E embora a extrema direita não seja o único ator que representa uma ameaça à democracia, no mundo ocidental a extrema direita é o ator que mais vigorosamente leva a cabo este assassinato da democracia.

O que a democracia ofereceu foram melhores condições de vida. Numa democracia, você não só terá maiores liberdades em comparação com uma experiência passada de ditadura, mas também será capaz de fazer face às despesas e os seus filhos possivelmente viverão melhor do que você. Havia um horizonte. No entanto, o que muitas pessoas têm experimentado é que talvez o seu presente e o seu futuro não sejam tão bons quanto o esperado. O elevador social quebrou, as desigualdades aumentaram... A falta de expectativa ou a percepção de que o futuro não será melhor afeta muito e evidentemente há atores políticos que tentam aproveitar e capitalizar as frustrações e ansiedade presentes em um bom parte da população.


Steven Forti é historiador e analista político, professor associado de História Contemporânea na Universidade Autónoma de Barcelona e pesquisador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, co-autor de Patriotas indignados. Sobre la nueva ultraderecha en la Posguerra Fría (Alianza, 2019) e autor de Extrema derecha 2.0. Qué es y cómo combatirla (Siglo XXI de España, 2021).


Com a vitória de Trump volta o PROJECT 2025. Uma ameaça ao mundo! Por Mel Gurtov

Ampliar agressão econômica e geopolítica à China, potência nuclear. Impor novas restrições ao comércio internacional. Ameaçar Irã, Coreia do Norte, Venezuela e até o México. Visita à delirante (e perigosíssima) agenda externa do candidato. O Projeto 2025, o ambicioso guia de planejamento de políticas da extrema direita publicado como Mandate for Leadership (Mandato para Liderança), foi concebido para desmantelar o “Estado Profundo” e instalar um presidente e aliados leais que levarão adiante a agenda autoritária de Donald Trump. Agora, ele supostamente não existe mais – mas não é verdade. A campanha de Trump, preocupada com a má impressão que o Projeto 2025 estava recebendo, ordenou que ele fosse desconectado. Mas não se engane: embora Trump possa discordar de algumas das recomendações, o projeto foi concebido com ele, e somente ele, em mente.

A maior parte da atenção da mídia dos EUA e dos legisladores democratas tem sido dedicada, com razão, ao lado doméstico da agenda do Projeto 2025 – seus planos para colocar o Departamento de Justiça a serviço do presidente, livrar-se do Departamento de Educação como um passo para emascular a educação pública, tornar os Estados Unidos indesejáveis para imigrantes negros, proibir o aborto em todo o país, dar ao setor de combustíveis fósseis o que ele quiser e conter a dissidência pública. As ideias sobre relações exteriores seguem essa agenda porque, para serem implementadas, todas elas dependem de um executivo todo-poderoso e de uma burocracia que foi expurgada de liberais e esquerdistas. (“Grande parte da força de trabalho do Departamento de Estado é de esquerda e está predisposta a discordar da agenda e da visão política de um presidente conservador”, diz o documento).

O Projeto 2025 propõe três tarefas essenciais de governança para promover sua causa: reafirmar o papel dominante do presidente na formulação de políticas, desmantelar as principais agências governamentais preocupadas com o bem-estar social e substituir muitos funcionários públicos que não passam no teste de lealdade (eles serão reclassificados como trabalhadores comuns) por funcionários políticos leais ao chefe do Executivo. O plano busca maneiras de contornar a burocracia do governo, o que, por si só, é um objetivo comum a todas as administrações anteriores. Mas ele difere drasticamente em sua submissão aos impulsos autoritários de Trump. Todas as páginas do documento enfatizam que os funcionários e outros membros da equipe devem alinhar seus pontos de vista com os do presidente, com a forte implicação de que não fazer isso resultará em demissão ou reatribuição. É uma fórmula para limitar o debate político dentro das agências ou entre elas ao que o presidente já decidiu. Na política externa o Project 2025 mostra uma verdadeira obsessão pela China que a responsabiliza por tudo o que há de pior. Com relação à Rússia é muito diferente. Refere-se somente ao conflito coma Ucrânia, e dá mais importância ao Ártico. 


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

PF prende financiadores do garimpo na Terra Indígena Yanomami

Boa Vista/RR. A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quarta-feira, 30/10, uma operação que resultou na prisão de duas pessoas envolvidas no comando de uma organização criminosa dedicada ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, às margens do Rio Uraricoera. Além dos mandados de prisão, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em imóveis situados nos municípios de Boa Vista e em Alto Alegre/RR, bem como o sequestro de bens móveis, imóveis e valores. Durante a ação, foram encontrados um carregamento de suprimentos e equipamentos destinados ao garimpo que resultou na prisão em flagrante da responsável pelo imóvel. As investigações revelaram o possível uso de mercenários armados na defesa dos garimpos ilegais, revelando a estrutura e periculosidade da referida organização criminosa. Além disso, estima-se que a atuação do grupo tenha causado impactos socioambientais avaliados em mais de R$ 295 milhões além da extração ilegal de aproximadamente 229 kg de ouro, avaliados em R$ 68.926.710,00 (valores atuais). Os investigados responderão pelos possíveis crimes de usurpação de bens da União, extração ilegal de recursos minerais, organização criminosa, lavagem de dinheiro, porte e posse ilegal de arma de fogo de uso restrito e crimes contra a fauna. (Comunicação Social da Polícia Federal em Roraima)



domingo, 3 de novembro de 2024

Líderes católicos vergonhosamente silenciosos enquanto Trump e Vance mentem sobre imigrantes. Editorial do National Catholic Reporter

Os candidatos republicanos Donald Trump e JD Vance vêm espalhando mentiras sobre imigrantes nos Estados Unidos como um pilar de suas campanhas. Não há outra palavra que se aplique às mentiras vis e facilmente comprováveis que eles propagam. As consequências da retórica odiosa de Trump e de sua promessa de realizar uma deportação em massa persistirão além de 5 de novembro, não importa quem vença. O ex-presidente criou uma narrativa e a plantou de maneira tão eficaz na imaginação pública que ela se imporá a qualquer discussão sobre imigração por muito tempo. É uma narrativa que representa uma ameaça mortal no centro do ensino social católico, um desafio direto àqueles cuja fé considera repulsiva a linguagem e a intenção de Trump. Então, o que nós, católicos, devemos fazer? Nós, para quem a essência da nossa fé não está em uma piedade pública ou fuga do mundo, mas na compaixão pelos perdidos, pelos desabrigados, pelos abandonados, por aqueles que buscam refúgio contra a violência do Estado e a pobreza. O vergonhoso silêncio de nossos líderes católicos tem sido ensurdecedor.

As falsidades propagadas por Trump e Vance têm uma consequência especial para os católicos. As poderosas declarações de Jesus em nossos textos sagrados sobre onde está a prova de nossa fé estão todas enraizadas em como tratamos o estrangeiro, o menor entre nós, aqueles considerados párias, os famintos, os que precisam de roupa e abrigo. Nosso próximo, como deixa claro a parábola do bom samaritano, é o viajante destituído e espancado deixado à beira da estrada. Esses textos são o alicerce do ensino social católico, desde a encíclica Rerum Novarum, promulgada em 1891, passando por cada papado subsequente e especialmente hoje, com a defesa incessante e insistente do Papa Francisco pelos migrantes desde os primeiros meses de seu pontificado. A Catholic Legal Immigration Network Inc., ou CLINIC, entidade fundada há décadas pelos bispos americanos, observa que o ensino católico "reconhece uma gama de direitos humanos para os recém-chegados, com base em sua dignidade dada por Deus, que se estende muito além daqueles reconhecidos por nações ou organismos internacionais individuais". Além disso, a Igreja "ensina que a autoridade civil obtém sua legitimidade ao proteger e defender os direitos humanos e o 'bem comum de toda a família humana'. Nesse contexto, o serviço aos recém-chegados constitui uma obrigação para as pessoas de fé, não uma opção". No entanto, nossos líderes religiosos impotentes concluíram que eles têm outra opção: vergonhosamente ficar de fora desta batalha em silêncio, à margem. Nenhuma versão das mentiras sobre imigração é mais instrutiva do que o uso contínuo, por Trump e Vance, da calúnia de que imigrantes haitianos em Springfield, Ohio, estão comendo cães e gatos dos vizinhos e causando, de outra forma, uma grande perturbação na vida daquela comunidade. As mulheres por trás das acusações falsas admitiram publicamente seu erro e expressaram um profundo arrependimento pelos problemas causados à comunidade haitiana. Autoridades nos níveis local e estadual, incluindo o governador republicano, consideraram totalmente falsas a história e as caracterizações dos haitianos que residem legalmente naquela comunidade. Springfield é a história nacional em menor escala, um exemplo do que acontece quando líderes públicos gastam seu capital político para incitar o ódio.

Os candidatos republicanos optaram por não deixar que uma mentira viral desenfreada fosse desperdiçada. Vance, confrontado com a verdade, usou uma espécie de alquimia linguística. "A imprensa americana ignorou totalmente essas coisas até que Donald Trump e eu começamos a falar sobre memes de gatos", disse ele, de acordo com uma reportagem da NPR. "Se eu tiver que criar histórias para que os meios de comunicação prestem atenção ao sofrimento do povo americano, então é isso o que vou fazer". Que nobre. Exceto que o sofrimento só aumentou para os alvos de sua difamação. Como resultado, a cidade de Springfield experimentou numerosas ameaças de bomba e novos níveis de medo. Sabemos que os bispos pronunciaram-se incessantemente e gastaram milhões na tentativa de mudar atitudes e leis em relação a questões como aborto e contracepção. Quanto às mentiras sobre imigração, seus comentários têm sido poucos e insuficientes para os ataques a essa população vulnerável. Por que, então, o silêncio sobre essa questão de vida? A imigração não é uma questão de consciência individual lutando com a possibilidade de contrariar o ensino eclesiástico. Não, trata-se de um ex-presidente buscando um segundo mandato que usaria o poder do cargo e os instrumentos do Estado para impor desumanidade a milhões de imigrantes entre nós. Seremos obrigados a ficar parados e simplesmente testemunhar a vilificação de outros, muitos dos quais agora frequentam nossas igrejas? Seremos forçados a testemunhar insultos gratuitos como "ilha de lixo flutuante no meio do oceano", uma referência a Porto Rico feita no comício de Trump no Madison Square Garden? Será nosso destino ficar de braços cruzados e aceitar o pior que pode ser dito — e as piores consequências — para os mais vulneráveis entre nós?

Silêncio.

Nossos bispos ainda não denunciaram as mentiras e os mentirosos. Não usaram qualquer autoridade moral que possuam para enfrentar a calúnia. Abandonaram os imigrantes, que tantas vezes e orgulhosamente reivindicam como nossos, e os deixaram vulneráveis aos ventos políticos volúveis e ao imenso poder do Estado. Em seu silêncio, consentem? O cardeal Henry Edward Manning descreve o pecado da omissão como “deixar de realizar o bem ou os deveres aos quais estamos vinculados por aquelas obrigações". Dolan e os seus colegas bispos são os príncipes da Igreja Católica. Com os seus mantos e cajados de pastores vem a responsabilidade não só de fazer o bem como também há a responsabilidade de defender os fiéis quando estes são apontados como “o outro” pelos líderes políticos. O Papa Bento XVI nos lembrou que “reconhecer a imagem divina no outro” está no centro da mensagem cristã. Todos somos criados à imagem de Deus, um entendimento que São João Paulo II tirou diretamente da Bíblia. Jesus olhou para além das convenções sociais de seu tempo para perceber a mulher no poço, a mulher sendo apedrejada por adultério e a mulher suplicando por cura por causa da sua menstruação. Jesus olhou para além do soldado romano odiado e curou o seu servo após seu pedido. Jesus viu o odiado coletor de impostos romano, Mateus, e o converteu. Jesus não só percebeu estas pessoas, ele também as respeitou, elevou-as e as chamou porque Deus as criou e ama cada uma delas. Deus estava refletido nelas, assim como Deus se reflete nos porto-riquenhos que ele criou, não no “lixo” retratado no comício de Trump. Agir com base nesta ideia, que é “a via mestra da doutrina social da Igreja”, é uma obrigação de todos os católicos romanos, especialmente dos seus líderes. Dom González percebeu a necessidade do momento e esteve à sua altura. Mas, infelizmente, muitas outras vozes católicas permanecem silentes.

Esta eleição não é apenas um teste de quem somos enquanto americanos. É também um teste a todos os católicos e, em particular, aos líderes eclesiásticos. Permanecer em silêncio enquanto a política do ódio e divisão persiste não é uma opção. Com apenas alguns dias restantes nesta campanha, não é tarde demais para dizer que muitos bispos deixaram de estar à altura do que o momento exige.


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

O impacto do aquecimento na saúde atinge níveis recordes, mas os governos continuam a financiar a energia fóssil

 A crise climática tem impactos diretos na saúde humana e uma equipe internacional composta por dezenas de cientistas de instituições acadêmicas e organizações internacionais os analisa desde 2016. E, a medida que o aquecimento avança, a contagem dos danos aumenta. O relatório Countdown deste ano, que envolveu 122 investigadores, revela “as descobertas mais preocupantes até à data em oito anos de monitorização”. Dos 15 indicadores que estudam “os perigos, exposições e impactos das alterações climáticas relacionados com a saúde, dez atingiram novos recordes”, nota o documento. São indicadores como a mortalidade relacionada com o calor em pessoas com mais de 65 anos, que aumentou 167% em comparação com os dados da década de 1990; o aumento das horas de sono perdidas devido às altas temperaturas; ou o avanço de doenças infecciosas como a dengue, a malária, o vírus do Nilo Ocidental e a vibriose, que chegam juntamente com as alterações climáticas a latitudes até agora livres destas doenças.

Mas este relatório – que é publicado menos de duas semanas antes do início da cúpula do clima, COP29, que este ano se realiza em Baku, capital do Azerbaijão – não só relata os danos, como também se concentra nas causas. “Vemos com preocupação que governos e empresas continuam a alimentar o fogo, continuam a promover a expansão dos combustíveis fósseis em detrimento da saúde e da sobrevivência das pessoas em todo o mundo”, alerta Marina Romanello, diretora executiva da Countdown. Estes combustíveis (carvão, petróleo e gás natural) são a principal fonte de gases com efeito de estufa que estão a sobreaquecer o planeta. A sua concentração na atmosfera não para de crescer e, tal como a Organização Meteorológica Mundial alertou esta semana, ameaçam prender a humanidade num “ciclo vicioso” de feedback de aquecimento. “Longe de diminuir, as emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) relacionadas com a energia atingiram um máximo histórico em 2023”, sublinha também o estudo Countdown. “As empresas de petróleo e gás estão a reforçar a dependência global dos combustíveis fósseis e, em parte alimentadas pelos elevados preços da energia e pelos lucros inesperados da crise energética global, a maioria está a expandir ainda mais os seus planos de produção de combustíveis fósseis”, alerta este grupo de investigadores. Os autores analisaram os planos das 114 maiores empresas de petróleo e gás do mundo (cobrindo 80% de toda a produção global de petróleo e gás). Na edição do ano passado, alertaram que os planos expansionistas destas empresas gerariam até 2040 emissões 173% acima do nível necessário para cumprir o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris (o do aquecimento, que está hoje em torno de 1,2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, não excedam 1,5). Mas a lacuna está a aumentar: tomando como referência os dados de março de 2024 de novos projetos fósseis, os investigadores calculam que as emissões destas empresas em 2040 serão 189% superiores. (IHU)

Marco temporal: indígenas bloqueiam rodovias pelo Brasil em mobilização contra PEC 48




Nesta quarta-feira (30), como parte da mobilização contra o marco temporal convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), rodovias foram bloqueadas em distintas partes do país. As manifestações acontecem em meio à possibilidade de senadores da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) trazerem de volta à pauta a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 48, que pretende cristalizar o marco temporal na Carta Magna.  No último 10 de julho, parlamentares pediram vista, quando a apreciação de um processo é adiada para poder ser analisado com mais detalhe. O indicativo era que o tema fosse retomado nesta quarta (30), o que não ocorreu até o momento.  

Rodovias travadas 

No Rio Grande do Sul, o povo Kaingang das Terras Indígenas (TIs) de Rio dos Índios, Goj Vezo e Iraí travaram um trecho da BR 386. "Estamos aqui dizendo a esses parlamentares que não aprovem esse projeto genocida contra os povos indígenas e contra a humanidade de modo geral", afirmou o cacique Luis Salvador, em vídeo feito durante o protesto. Outro grupo Kaingang fez uma manifestação na BR-285, interrompendo desde as 8h o acesso entre os municípios de Lagoa Vermelha (RS) e Passo Fundo (RS). "Roubaram nossa terra, querem roubar nosso futuro", diz uma das faixas estendidas na estrada.   Em Roraima, os povos Macuxi e Wapichana da TI Tabalascada ocuparam as pistas da BR-174 e da BR-432 na cidade de Cantá (RR). Com pneus e cartazes com escritos como "respeitem nossos direitos" e "nossa história não começa em 1988, sempre estivemos aqui", indígenas bloquearam a RR-203, principal via de acesso entre a capital Boa Vista (RR) e Amajari (RR). No Maranhão, indígenas Guajajara da TI Rio Pindaré interditaram a BR-316 no município de Bom Jardim (MA), a cerca de 280 km da capital São Luís. Em outra região, os Akroá-Gamella travaram a rodovia MA-014, no trecho que conecta as cidades de Vitória do Mearim (MA) e Pinheiro (MA).  "Nosso marco é ancestral, não à PEC da Morte", reivindicaram indígenas Guarani Mbya em Ubatuba (SP), em ato na BR-101, no litoral paulista. Enquanto rodovias eram bloqueadas pelo Brasil, cerca de 400 lideranças indígenas de diferentes povos marcharam em Brasília da Esplanada até o Congresso Nacional para entregar uma carta ao Executivo, o Legislativo e o Judiciário.  No documento, a Apib apresenta 25 reivindicações. Entre elas, que o Ministério da Justiça publique a portaria declaratória de 12 TIs; o arquivamento definitivo de PECs que estão em tramitação e retiram direitos indígenas da Constituição; e que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare a imediata inconstitucionalidade da Lei 14.701/2023, que instituiu o marco temporal.  As medidas, diz a carta, são necessárias "para conter as violências contra nossos povos, a criminalização e o assassinato de nossas lideranças". 

O imbróglio do marco temporal 

A tese ruralista do marco temporal prevê que só podem ser demarcadas as TIs que estivessem ocupadas por povos originários em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. Em 21 de setembro de 2023, o STF considerou a tese inconstitucional. Neste mesmo dia, em afronta ao judiciário, o senador Hiran Gonçalves (PP-RR) apresentou a PEC 48. É esta a proposta que segue tramitando. Paralelamente e ainda naquele mesmo mês, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14. 14701/23, que instituiu o marco temporal e está em vigor até o momento.  Em seguida, a corte recebeu ações opostas para definir sobre a validade da lei. De um lado, a Apib, a Rede Sustentabilidade e o Psol entraram com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), pleiteando a sua derrubada definitiva. De outro, o PL, Republicanos e PP apresentaram uma Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC), para respaldar a Lei 14.701/23. Relator das ações, o ministro Gilmar Mendes optou por, em vez de respaldar a decisão de inconstitucionalidade do marco temporal já tomada pelo STF, criar uma mesa de conciliação para rediscutir o tema. Inaugurado em agosto, a comissão - da qual o movimento indígena se retirou - tem trabalhos previstos até o fim de 2024. Na carta entregue aos Três Poderes nesta quarta-feira (30), a Apib considera o grupo de conciliação "uma armadilha que desvia o Estado de suas atribuições constitucionais, já que os direitos dos povos indígenas são direitos fundamentais, indisponíveis e inalienáveis". (Edição: Martina Medina)

domingo, 27 de outubro de 2024

SOBREVIVER AO APOCALIPSE! Por Márcio Santilli (ISA)




Não estranhem o recurso (outra vez!) à figura do apocalipse. Incêndios e enchentes, crime organizado e falsos profetas, entre outros sinais do tempo, nos aproximam dela e não é fácil achar outra similar. Também cabe repetir que o apocalipse, em geral, é o fim de “um mundo”, e que “outro mundo” virá ‒ na crença cristã, o reino de Deus na Terra. Apesar de tudo, a Bíblia empresta à esperança a sua força popular. Em 2023, a Amazônia, que já foi chamada no passado de “pulmão do mundo”, emitiu mais gases de efeito estufa do que absorveu por causa dos incêndios florestais criminosos descontrolados. Aquecidos pelo efeito estufa, os oceanos passam a jogar na atmosfera metano, em vez de oxigênio. São muitos os sinais do “tipping point”, o ponto de não retorno, a partir do qual, segundo os cientistas, a crise climática se torna irreversível e passa a se retroalimentar. Cidades isoladas pela seca, ou destruídas por enchentes. Ondas de calor. Recordes de incêndios, criminosos. O curso natural dos “rios voadores”, que levam chuvas da Amazônia ao centro-sul do país, foi tomado por uma gigantesca nuvem de fumaça e fuligem, afetando todo Brasil e países vizinhos. Diz a sabedoria popular que só se aprende com amor, ou com dor. O amor é energia para proteger e socorrer vidas, e para juntar pessoas para construir o futuro. Não comove os responsáveis pela emergência climática. A dor, por si, também não ensina o suficiente para transformar. Sem acúmulo, por amor, de alianças e projetos, tudo pode voltar atrás ao passar à dor.

Resiliência do mal

Em 1970, já havia evidências científicas de que o acúmulo de CO2 e de outros gases de efeito estufa na atmosfera estava retendo mais calor dos raios solares na atmosfera e causando o aumento da temperatura média da Terra. Em 1992, na conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro (RIO-92), chefes de Estado do mundo todo assinaram duas convenções, sobre a conservação da diversidade biológica e sobre as mudanças climáticas globais. O Acordo de Paris foi firmado em 2015 pelos líderes mundiais e todos os países declararam compromissos e metas para a redução da emissão de gases do efeito estufa. Ao final de uma década, os países devem renovar e repactuar esses compromissos, as chamadas “NDCs” (Contribuições Nacionalmente Determinadas, na sigla em inglês), nas próximas conferências da ONU. Fato é que, após meio século de conhecimento sobre a grave emergência climática (ou 30 anos depois da convenção da ONU), os países ou a civilização contemporânea não foi capaz de conter o aumento das emissões e iniciar um processo de redução. Elas seguem aumentando, assim como suas fontes: a produção e uso de carvão, petróleo e gás, assim como a destruição das florestas fontes, entre outras. Aqui no Brasil, predadores aproveitam a seca inclemente para usar o fogo como arma de vingança política, concorrência econômica ou expressão de ódio ou de revolta. A Petrobras projeta uma transição energética sem horizonte definido. Nem o setor do agronegócio mais aberto ao debate assume responsabilidades ou se organiza para conter a grilagem de terras e o desmatamento ilegal. Ele quer uma NDC sem avanços, como se o agravamento da crise climática, que tanto ameaça a agricultura, se dispusesse a nos esperar. Entre abril e maio deste ano, Porto Alegre sofreu uma enchente devastadora, o maior desastre climático da história do Rio Grande do Sul. A negligência na manutenção do sistema de diques que protege a cidade agravou o seu impacto. Mas isso não impediu que o atual prefeito, Sebastião Melo (MDB), quase se reelegesse no primeiro turno e seja o favorito para o segundo turno, em 27 de outubro. A tragédia, por si só, não muda a história. Ela detona a crise, mas a mudança pressupõe acúmulo prévio em opções que mobilizem corações e mentes na hora H. Em cada hora H. Do contrário, alonga-se a dor e o custo da travessia.

Além do limite

Se, por um milagre, fosse possível zerar, instantaneamente, as emissões globais, ainda assim levaria um século, ou mais, para reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera a níveis anteriores à Revolução Industrial. A menos que um esforço de reflorestamento planetário possa abreviar o caminho. Porém, sequer se deu início a um processo de redução gradual das emissões globais. Estudos recentes indicam que os eventos climáticos extremos que vêm ocorrendo em vários lugares só eram esperados para 2050, ou mais. O aquecimento global está acelerando e reduzindo o tempo para uma reação da humanidade. Enquanto isso, guerras crônicas e disputas comerciais tornam mais difícil avançar nas negociações internacionais. Veremos que metas os países assumirão na revisão das suas NDCs. Devem ficar muito aquém do necessário para enfrentar a urgência do desafio climático. O Brasil vem reduzindo, de forma consistente, o desmatamento na Amazônia, que é o seu principal fator de emissões. Está dando um estímulo importante para o esforço mundial pela redução de emissões. Porém, desde 2023, vem sofrendo com enchentes com vítimas em várias cidades, sucessivas ondas de calor, estiagens recordes consecutivas e incêndios criminosos na Amazônia e no Pantanal, com nuvens de fuligem, menor disponibilidade de água e maiores perdas agrícolas. Mesmo assim, a bancada ruralista no Congresso continua aprovando projetos de lei que reduzem a proteção ao meio ambiente e aos direitos dos povos tradicionais. Ataca a área ambiental do governo e prestigia céticos climáticos, chafurdando no negacionismo climático. Importa mais a lacração para uso imediato em redes sociais e discurso eleitoreiro, assim como dinheiro fácil. E o resto que se exploda!Solução nenhuma cairá do céu, até porque a crise foi engendrada e segue sendo alimentada pela civilização humana, a quem cabe dar-lhe solução, ou não. No Brasil, o andar de cima da sociedade sinaliza que vai esticar a corda, até arrebentarem novas tragédias. Em contrapartida, moradores de áreas de risco nas cidades, famílias de agricultores, povos indígenas, comunidades tradicionais e periféricas e outros grupos vulneráveis são o foco  da agenda de resistência e superação da crise, a prioridade socioambiental. Considerando que as condições climáticas ainda vão piorar muito até que possam começar a melhorar, a agenda prioritária é a que pode salvar vidas e modos de vida dessas populações e aumentar a resiliência dos territórios e das áreas urbanas em que possam viver. Organizações e movimentos sociais podem estruturar redes de cooperação e solidariedade em torno das necessidades mais básicas para sobrevivermos ao inevitável agravamento da crise.

Floresta: água e comida

O Brasil é detentor de 12% da disponibilidade mundial de água doce. Embora essa água não esteja distribuída por igual, mais abundante onde vive menos gente, sobretudo na Amazônia, constitui um ativo geopolítico essencial num mundo super populoso e carente. Porém, com o adensamento da ocupação do território, o desflorestamento e a pressão sobre nascentes e rios, houve uma forte redução da disponibilidade e da superfície de água nas últimas décadas. As cenas inusitadas de ribeirinhos e indígenas, caminhando quilômetros pelo leito seco dos rios, à procura de água potável, não deixam dúvidas de que, se entramos num novo normal, as comunidades da Amazônia terão que se rearranjar nos territórios e vão precisar de novas tecnologias para permanecerem neles. A gravidade da situação justifica a convocação de uma conferência dos movimentos socioambientais em parceria com a comunidade científica, para compartilhar estudos recentes e discutir as melhores opções para enfrentar a crise. Os cientistas também estão perplexos com a aceleração da crise climática, mas as comunidades precisam dispor das informações existentes para orientar estratégias de sobrevivência.

Cada caso é um caso, mas o Brasil deve aprender com as boas iniciativas de outros países, como a experiência inspiradora da Etiópia, que promoveu o plantio de 250 milhões de árvores em um só dia, como parte da mobilização nacional continuada, ano a ano, para, com o florestamento, conter as tempestades de areia e o avanço do deserto sobre as cidades e regiões agrícolas. Os movimentos sociais e as organizações socioambientais devem aproveitar as agendas em curso, como a conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP-30), em Belém, em 2025, para chamar a atenção de todo mundo para as demandas de sobrevivência impostas pela crise climática aos povos e às comunidades da floresta.

A Terra Indígena Alto Turiaçu, a maior terra indígena do Maranhão está em chamas. Mais de 25 mil hectares foram destruídos!

Há mais de 20 dias, um incêndio está destruindo a maior reserva indígena do Maranhão. O fogo destruiu 25 mil hectares de floresta, segundo o corpo de bombeiros do Maranhão. Árvores centenárias tombam ao terem o tronco queimado. A Reserva Alto Turiaçu tem mais de 530 mil hectares. É um dos últimos retalhos de Floresta Amazônica no estado. Um território que abriga duas etnias. São aproximadamente 4 mil indígenas ka´apor e 60 awá-guajá. Parte dos Awá-Guajá vive isolada na floresta. Lá também vivem espécies raras de animais. A ararajuba está ameaçada de extinção. Só existe nesta parte do Maranhão e em outra reserva no Pará. Os focos de incêndio estão espalhados pela reserva. “É através também de não indígena que eh caça né? Muita história e toca o fogo, dessa forma o fogo surgiu também”, diz Acadjurixã Ka´apor. Cerca de 30 homens se revezam no enfrentamento às chamas - bombeiros, funcionários do Ibama e indígenas. As equipe precisam economizar água, a fonte mais próxima fica a 15 km. Para agilizar o trabalho, os combatentes não estão voltando para aldeia nem para comer e dormir. Estão acampados no meio da mata. “A previsão é que o combate completo seja em torno de três ou quatro dias sendo o último dia para monitoramento aqui da dos focos”, afirma o tenente Willian Castro. (Jornal Nacional)


sábado, 26 de outubro de 2024

30ª domenica comune - Superare la propria cecitá per scoprire il cammino di Gesú de Nazareth!

Siamo persone in permanente cammino, anche quando siamo fisicamente costretti a fermarci. A volte vorremmo camminare insieme agli altri, ma siamo messi ai margini della strada e incapaci di seguire lo stesso cammino. Possiamo anche,autonomamente, scegliere una strada diversa rispetto agli altri, ma come possiamo scegliere quella che riteniamo che sia la migliore  se non siamo in grado di vedere le diverse opzioni? Dobbiamo liberarci del sopracarico di ogni tipo che abbiamo ereditato dalla nostra formazione, e guardare la vita e le persone con occhi nuovi! Il Timeo cieco del vangelo di oggi ci rappresenta fedelmente quando accorgendoci di essere esclusi, non ci rassegniamo e cominciamo a gridare, a disobbedire al “senso comune” e a rivendicare la piena partecipazione di Colui che può sostenerci nel nostro desiderio di camminare consapevolmente ed autonomamente. Non è Gesù a compiere il 'miracolo', ma la fede della persona stessa quando scopre che la sua cecità ed emarginazione non è volontà divina, ma un'imposizione di tanti che pensano di vedere e di 'camminare per la retta via'... Ecco perché Timeo getta via il mantello del suo passato di dipendenza e di cecità e si mette sulla strada di Gesù, e non quella dei suoi aguzzini!


30º domingo comum - Superar a própria cegueira para enxergar o caminho de Jesus de Nazaré!

Somos pessoas a caminho, permanentemente, mesmo quando somos fisicamente obrigados a parar. Às vezes queremos caminhar juntos com os outros, mas somos jogados à margem do caminho e impossibilitados de percorrer o seu mesmo caminho. Podemos, também, autonomamente, escolher um caminho diferente que os demais, mas como escolher o que consideramos o melhor caminho para nós se somos impossibilitados de enxergar as diferentes opções? Precisamos nos libertar de muito entulho de toda ordem que herdamos na nossa formação, e olhar a vida e as pessoas com olhos novos! O cego Timeu do evangelho de hoje nos representa fielmente quando ao percebermos que somos excluídos não nos conformamos e começamos a gritar, a desobedecer ao ‘senso comum’ e a reivindicar participação plena Àquele que pode nos apoiar na nossa vontade de caminhar consciente e autônomo.  Quem faz o ‘milagre’ não é Jesus, mas a fé da própria pessoa quando descobre que a sua cegueira e a sua marginalização não é vontade divina, mas imposição de muitos que acham que enxergam e que ‘caminham na reta via’... Por isso que Timeu joga para longe o manto do seu passado de dependência e cegueira e se coloca a caminho, o de Jesus, e não o dos seus carrascos!