sábado, 13 de março de 2010

Traição ao projeto do Pai, eis o verdadeiro adultério! (Jo.8-11)

A narração hodierna de João parece ser uma complementação e ampliação da parábola do filho pródigo do evangelho de domingo passado. À primeira vista parece ser um simples gesto isolado de confrontação de Jesus com os fariseus e escribas a respeito de uma pecadora anônima pega em flagrante adultério. Mostraria, no caso concreto, de um lado uma extrema liberdade e autonomia de Jesus perante as leis em vigor, do outro, uma tolerância inédita para com aquelas pessoas que as desrespeitam. João, porém, vai muito além daquilo que à primeira vista a narração parece sugerir.
João está fazendo, na realidade, uma crítica estrutural ao sistema religioso judaico, utilizando-se de um personagem, uma adúltera, que representa simbolicamente o sistema religioso alicerçado no templo.

João, de forma perspicaz, nos informa que ‘Jesus, de manhã bem cedo, tornou para o templo....’ É nesse contexto do templo que os fariseus e os escribas aparecem trazendo uma mulher pega em flagrante adultério e interpelam Jesus acerca da sua interpretação das leis sobre aquele caso específico. Jesus não responde diretamente à inquisição dos seus interlocutores, mas retruca com outra pergunta que os deixa desarmados e sem resposta. Na realidade, abre seus olhos sobre a sua própria situação de adúlteros.

João, com efeito, elabora a cena de forma tal que deixa transparecer que os verdadeiros adúlteros, na prática, eram os que acusavam a mulher. Que o verdadeiro adultério se dava naquele templo que agia de forma intolerante, legalista e implacável para com os pecadores comuns. Jesus, para João, estava dizendo para os fariseus e escribas que o sistema religioso que eles alimentavam era uma verdadeira traição, uma infidelidade continua ao Deus da vida e do amor. Ao passo que para ‘o adultério da mulher’ só cabia misericórdia e compreensão, e não julgamento.

O adultério religioso, ou seja, a traição/infidelidade ao projeto do Deus da misericórdia e da justiça, esse sim, é o verdadeiro pecado que destrói consciências e quebra a relação com Deus e o seu povo. Os fariseus e os escribas, em lugar de julgar os demais ‘pelos ciscos que viam nos olhos alheios, deviam tirar a trave que estava fincada em seus próprios olhos’ que era bem maior! Que eles também aprendessem o que significa ’misericórdia eu quero, e não sacrifícios’!

Um comentário:

Renato disse...

Meu amigo, neste episódio, bastante conhecido dos leitores da Bíblia, no ministério terreno de Jesus, encontramos um quadro que evidencia a diferença entre a "religião" dos homens e o Verdadeiro Evangelho do Jesus de Nazaré. Nesta passagem bíblica, percebemos a pseudo-religião dos escribas e fariseus, mais vinculados aos aspectos formais da lei mosaica do que ao verdadeiro sentido do cristianismo na sua pureza de origem. Nos termos da religião mosaica, aquela mulher, apanhada em adultério, não encontraria nenhuma porta de escape, devia mesmo ser apedrejada até à morte. Vê-se, assim, que perante a dura e inflexível lei mosaica, o interesse pelas regras e leis, por certo, estava acima do valor da vida humana. Também, meu amigo, esta passagem bíblica oferece-nos uma outra hermenêutica: os escribas e fariseus usaram aquela mulher, expondo-a perante a multidão, simplesmente, para a consecução de seus maquiavélicos propósitos, os quais eram conseguir apanhar Jesus em qualquer contradição dos seus legítimos ensinamentos. Podemos, então, perceber que a "religião" dos escribas e fariseus, no seu formalismo primitivo, era levar o homem a exercer o "juízo" e não a Misericórdia. Ignoravam que a Verdadeira Religião tem que ter as suas raízes estreitamente ligadas ao Amor e ao Perdão que não deixa de ser pedestal do Amor.
Jesus de Nazaré, sabiamente, colocou os acusadores daquela mulher adúltera em um beco sem saída, dizendo-lhes:

"aquele dentre vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra."