sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Agire come Gesù, non importa l'appartenenza - Mc.9,38-43.45.47-48


Non sempre abbiamo l'abitudine di fare una adeguata distinzione tra religione e fede. Spesse volte le identifichiamo. Tuttavia, la fede può sussistere e alimentarsi anche fuori dalla religione. La fede è la motivazione intima, profonda di un rapporto personale, inimitabile e irriproducibile tra la persona e Dio (indipendentemente dalla sua identità).
La religione è prodotto/frutto di un sistema umano, sociale e culturale che tenta di interpretare i rapporti tra la persona e Dio e cerca di strutturarli, metterli in funzione di un sistema prodotto culturalmente e storicamente. Ossia, un'insieme di norme, codici, precetti, gerarchie, forme di appartenenza chiara, di identità, che spesso minacciano la “fede”. Teoricamente, la religione dovrebbe essere uno spazio che alimenta e sostiene la fede, ma spessissimo la nega!Ho cercato di fare questa introduzione anche se un po' semplicista perché il vangelo odierno smaschera il facile abbinamento fede-religione.
Gesù è interpellato dai suoi discepoli perché si manifesti e “giudichi” un anonimo che stava curando utilizzando il suo nome. Essi volevano che glielo impedisse poiché non “apparteneva al gruppo di Gesù”. Ossia, non aveva una identità legata al gruppo, quantunque riproducesse, fuori dal gruppo, gli stessi segni di Gesù. Gesù, saggiamente, si colloca al di sopra di questi criteri di appartenenza formale e rafforza altri criteri, principalmente il criterio del giusto agire (orto-prassi), indipendentemente dai criteri formali di identità: “Chi non è contro noi è con noi. Non c'è nessuno che faccia ciò (agire bene) e subito dopo parli male di me e del mio modo di fare”. A partire da questa affermazione Gesù lascia chiaro che cosa è per lui la vera religione, quella che può e deve alimentare la fede, ossia il “retto agire”.
Gesù, infatti, segue nel suo intento di smascheramento della falsa religione ampliando e specificando maggiormente cosa tutto ciò può significare la pratica della vera fede indipendentemente dall'appartenenza formale a un gruppo o religione: chiunque, infatti, darà un bicchiere d'acqua da bere a un discepolo di Gesù, nel suo nome (e non motivato da precetti religiosi) - ossia chi agisce mosso dalla pura compassione e dalla carità, - avrà la sua ricompensa. Al contrario, coloro che “scandalizzano”, ossia, che sono di inciampo ai “piccoli” (in senso sociale) che agiscono rettamente, curano, guariscono, fanno segni sorprendenti nel nome di Gesù, pur non appartenendo al suo gruppo, sarebbe meglio che rinuncino al loro progetto di vita, si ritirino.
Coloro che usano tutti mezzi a loro disposizione (braccia, piedi, mani, occhi....) per impedire (scandalo) a tutti coloro che cercano di curare e guarire le ferite del corpo e dello spirito, come Gesù faceva, dovranno fare una radicale purificazione estirpando dentro di loro tutto ciò che “scandalizza”, impedisce il crescere della vita, del bene, del giusto agire! Estirpare e potare radicalmente le cause dello scandalo sono condizioni indispensabili per poter accedere all'imminente regalità di Dio.
E' preferibile, infatti, passare per un processo di dolorosa purificazione e di conversione radicale al nuovo che Dio sta preparando, che essere esclusi dal suo accesso e partecipazione. La loro esclusione significherebbe morte, infelicità e mancanza di speranza.
P.S. Peço desculpa aos amigos de lingua portuguesa por ter escrito em italiano, mas o teclado italiano è pobre na simbologia gràfica.....

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Que o "maior" sirva até o calvário (Mc. 9. 30-37)

Às vezes diante do inevitável, do “consumado” tentamos reagir de todas as formas. Vemos o que está por vir, mas freqüentemente nos recusamos em acreditar que aquilo que está acontecendo bem pouco podemos fazer para alterá-lo ou redirecioná-lo. Descobrimos a nossa incapacidade de modificar uma realidade que parece maior do que nós. A fuga tampouco não parece ser solução, pois seria uma forma de posticipar o problema, e não uma solução definitiva.

Isto parece ser o que Jesus experimentou quando o que parecia ser uma intuição ou percepção passou a ser algo claro, certo, inevitável. Refiro-me à consciência de Jesus de que, inevitavelmente, se persistisse nas mesmas opções e decisões que havia tomado seria fatalmente destinado a pagar com a sua vida por tudo isso. Jesus começa a perceber que não somente será o profeta-servo sofredor, o rejeitado, mas também o “sacrificado, o condenado a morte”.

O paradoxo que Marcos nos apresenta consiste justamente nisto: diante da perspectiva de serviço rejeitado, sacrificado, condenado, os discípulos de Jesus - o servo rejeitado, - em lugar de segui-lo no serviço incompreendido, rejeitado e sofrido discutem e rivalizam para ver quem dentre eles era o maior!

Temos fortes elementos para pensar que Marcos não está preocupado em resgatar um acontecimento histórico ocorrido na vida de Jesus, mas em dar uma resposta às primeiras manifestações polêmicas já existentes entre os seguidores de Jesus sobre quem e como deveriam ser os “dirigentes oficiais” da igreja hierárquica nascente.

Evidentemente, o evangelista, ao fazer memória da trajetória de Jesus procura recuperar de um lado aqueles elementos inspiradores da conduta e da opção do Jesus histórico sobre esse tema-problema (serviço X poder), e do outro, quer oferecer uma reflexão-repreensão a quantos, na atualidade (anos 70-80,) queriam fazer do apostolado um meio para se projetar e acumular prestigio.

Marcos deixa claro que o seguidor-discipulo de Jesus não pode segui-lo achando que vai ser para ele uma oportunidade para “ganhar a vida”, e sim um serviço muitas vezes contrastado, perseguido, incompreendido e sacrificado. Ou seja, o verdadeiro discípulo de Jesus para Marcos é somente aquele que O segue até o calvário. Ponto final.

Isto vale para todos, mas principalmente vale para aqueles que são chamados a ter responsabilidades dentro da igreja, ou seja, para aqueles que são considerados pelas pessoas comuns como sendo “os maiores, os primeiros”. Cair na tentação de utilizar o seguimento de Jesus para adquirir poder e prestigio è negação da prática e da mensagem de Jesus. É um comportamento típico de um “satanás” (veja evangelho de domingo passado), ou seja, de alguém que pensa e age “segundo os homens”, segundo suas ambições, e delas è dominado e controlado.
Uma pessoa assim não poder ser chamado de cristão!

sábado, 12 de setembro de 2009

O profeta rejeitado: renegar os projetos de dominação e assumir as suas consequências (Mc. 8, 27-35)

Quantas cruzes e experiências de morte fazemos ao longo da nossa vida! Momentos de angústia e desânimo que parecem minar, quando não matar, a nossa vontade de lutar e viver. Experiências em que os nossos sonhos, expectativas, ideais não encontram correspondência na realidade crua do dia-a-dia. É justamente nessas horas que construímos efetivamente a nossa identidade: quando o que queremos e imaginamos poder ser se choca com o que realmente somos, sentimos, fazemos e subimos, ou seja, com uma realidade não totalmente planejada por nós!
O trecho evangélico desse domingo põe em evidência as circunstâncias em que Jesus começa a se entender como um profeta rejeitado. Parece não existir mais espaço e condições para contemplar e se regozijar com os sinais maravilhosos de cura que operava, e com os numerosos consensos e aplausos públicos... Outros sinais que Jesus consegue captar, a partir da sua sensibilidade e capacidade de análise, lhe apontam outros desfechos para a sua missão. Começam a surgir nele outras reflexões e, principalmente, vê-se obrigado a rever integralmente a sua própria auto-compreensão e identidade.
É interessante perceber que Jesus nunca se autodefine, ou seja, Ele nunca diz que é o Cristo, ou o Filho de Deus, ou o Enviado-Messias, e também não aceita que alguém o enclausure em categorias cristalizadas que podem dar margem a distorções e especulações. Todavia, Jesus define sempre a sua missão e, geralmente, os seus efeitos e conseqüências. O trecho de hoje é paradigmático nesse sentido.....

1. Jesus utilizava frequentemente a metodologia da “sondagem” (v.27) para sentir o pulso das intenções das pessoas a seu respeito. Jesus parece não querer ignorar os impactos que o seu modo de ser e agir produz nas pessoas, embora isso não signifique ter que rever o seu plano de ação a depender dos resultados da sondagem...

2. Ao mesmo tempo, para evitar efeitos desviantes quanto à sua identidade deixava claro para as pessoas “quem ele não era”. Nesse sentido, Jesus ao proibir que Pedro reproduzisse as mesmas categorias/critérios que existiam na cabeça do povo em geral, rejeita a mentalidade judaica segundo a qual o Cristo/Messias devia ser glorioso, vencedor, triunfante, vingador, dominador. Ele não era assim!

3. Pedro que simboliza o conjunto dos discípulos que seguiam Jesus recusa a aceitar essa identidade de Jesus, pois colocava em xeque também suas próprias expectativas triunfantes e dominadoras. Para ele significava ter que ser discípulo de Jesus no sofrimento, na cruz, no abandono, na perseguição. O próprio Pedro, portanto, se sentia obrigado a rever a sua própria autocompreensão e isto lhe provocava frustração e indignação por não corresponder àquilo que sonhava e desejava.

4. O último momento incorpora todos, discípulos e povo em geral. Essas palavras de Jesus, posteriormente, foram utilizadas por setores da própria igreja católica para conformar sofredores e inocular-lhes o vírus da aceitação passiva e da negação da sua dignidade e da consciência e luta pelos seus direitos à vida plena. Renegar a si mesmo não significa rejeitar o bom e bonito que somos e temos, e ao qual temos que aspirar. Não significa tampouco renunciar a lutar e defender os nossos direitos à felicidade quando alguém nos humilha, oprime e ameaça. Ao contrário, significa para Jesus re-negar os projetos de dominação e opressão que existem dentro de nós, e assumir conscientemente as conseqüências de tal renúncia, ou seja, a cruz, a rejeição e a perseguição de quantos dominam e, enfim, partilhar a mesma experiência de Jesus, ou seja, seguir Jesus até o fim, o calvário.

A recusa a seguir Jesus no sofrimento - entendido como conseqüência natural das escolhas coerentes feitas, - significa perder o sentido da própria existência e a felicidade interior de quem se sente em paz consigo mesmo e com os outros. Cair na tentação de levar adiante os próprios projetos de dominação, de esperteza, de salvaguarda de privilégios pessoais, vai necessariamente produzir sentimentos de perdição, de infelicidade, de não realização humana.

Jesus, o profeta sofredor rejeitado nos ensina que é preciso desmascarar hoje as falsas promessas de felicidade fácil e imediata, que é preciso ir contra as tendências planetárias segundo as quais se salva e sobrevive somente aquele que sabe ser ousado e esperto em tirar proveito de tudo e de todos, sem ética e sem respeito. Quem assim agir já perdeu a sua vida, mesmo que não venha a ser “crucificado.”

sábado, 5 de setembro de 2009

Liberar a fala cativa e romper o silêncio omisso, anunciando e denunciando! Mc. 7,31-38

Talvez um dos maiores pecados na atualidade sejam a incapacidade humana em ouvir os clamores e os gritItálicoos de socorro por paz, justiça, fraternidade e vida. A indiferente surdez parece congelar sentimentos e modos de sentir. Simultaneamente, ao seu lado, aparece a incapacidade de denunciar e falar em favor dos que gritam e clamam. A voz covarde e omissa de quem não vê, não sente e não ouve, tampouco poderia falar do alto dos telhados! Como não nos reconhecer surdo- mudos? Como não desejar que alguém nos ajude a abrir nossos ouvidos para escutar, e tocar nossa língua para defender e gritar em favor de tantos silenciados ameaçados em seus direitos e dignidade?

O evangelho hodierno è uma verdadeira escultura carregada de singelo simbolismo plástico. Com mão hábil o evangelista Marcos parece esculpir de um lado denúncias claras e diretas e, do outro, elimina o material bruto que sobra fazendo emergir atitudes e perspectivas a serem assumidas.

Vamos tentar esculpir a pérola evangélica:

1.“levaram a Jesus um surdo-mudo....” (v.31) Foram as pessoas que tomaram a iniciativa de conduzir o surdo-mudo a Jesus. A iniciativa não foi da “vítima”. Nem sempre temos consciência de sermos surdo-mudos. A nossa arrogância e autosuficiência nos impede frequentemente de nos compreender como necessitados de libertação. É preciso que alguém próximo nos conduza e nos leve até onde precisamos fazer a experiência de nos “abrir”.

2.“... o tomou separadamente, longe da multidão....” Marcos com essas anotações parece nos dizer que não pode ser mais um desejo de cura da multidão – a que conduziu o doente até Jesus, - mas um desejo do próprio doente. Deve ser ele, agora, que consciente de sua situação se abre para Jesus. Deve ser o surdo-mudo que, pessoalmente, está disposto a fazer a experiência de ouvir e falar, e não mais por uma insistência dos seus intermediários.

3.“... Colocou seus dedos nos ouvidos e com a sua saliva tocou a língua... (v.33) Parece a ação de um escultor, ou melhor dito, de um....criador que vai modelando um novo ser humano, um novo Adão. Tocar com os dedos da mão e tocar com sua própria saliva o outro, o impuro, o “não-homem” manifesta a íntima ligação entre criatura-criador, sem barreiras e preconceitos e, ao mesmo tempo, a tentativa de moldar a criatura à imagem do criador. É como se Jesus dissesse ao surdo-mudo: “seja como eu!”

4.“... olhando para o céu soprou e disse:” abre-te “... (v.34) Para Jesus olhar para o céu não significa pedir-invocar ajuda para que consiga no seu intento – que já existe – mas é a típica imagem-referência a Deus para que o “beneficiado” perceba que è desejo e aprovação de Deus que Jesus lhe abra os ouvidos e libere a sua fala. O aramaico “efatà” è muito mais expressivo do que a língua portuguesa (abre-se): ele manifesta muito mais do que um simples processo físico de abrir... Aponta para um movimento mais totalizante, ou seja, abertura ao futuro, superação do medo e da incerteza quanto ao seu novo estado de “curado”. Não há como negar que Marcos está se dirigindo diretamente aos novos convertidos, discípulos e interlocutores de sua comunidade para que se deixem tocar e esculpir-moldar por Jesus, e que não tenham medo do que poderá acontecer com eles futuramente.

5.“... desfez-se o nó da sua língua e começou a falar corretamente...” (v.35) Liberar a fala, soltar o verbo e romper o silêncio, assim poderíamos descrever quanto Jesus operou no “mudo”. Na medida em que Jesus libera os ouvidos do “surdo” e o educa a escutar a sua palavra e os gritos de tantos irmãos que como ele não podem gritar, o predispõe e o envia para “falar-anunciar-denunciar”.

6.“...Ele fez bem todas as coisas....” (v.37) Como não lembrarmos aqui a mesma expressão utilizada no Génesis em que Deus após ter criado algo, ao contemplar a obra de suas mãos, constatava “que tudo era muito bom!” Com efeito, Jesus, ao vencer a surdez humana, ao liberar a “fala cativa” e ao “romper o silêncio omisso” estava realizando uma nova e inédita criação no ser vivo que Ele moldou.

Um bom domingo para todos desde Roma e um saudoso abraço!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Caminhar com os outros, sem verdades e dogmas, procurando... caminhos

A manhã de ontem começou com uma palestra estimulante do padre geral dos jesuitas, Nicolas Adolfo. A sua constataçào inicial foi de que è preciso rever a teologia da evangelização. A atual è incapaz de dar conta das mudanças e complexidades que vêm se verificando. Ele o fez a partir de sua experiência missionària no Japão em contato com as culturas asáticas. Nesse sentido enfatizou a importância de retomarmos desde um ponto de vista contextual, a teologia da criação. Com efeito ela è a mais adequada para compreender essas culturas. Segundo essa visão que è cósmica, Deus està presente nas coisas, nos seres vivos, na totalidade da realidade. Como se fosse uma espècie de onipresença de Deus.


Um segundo aspecto que està presente nas culturas-teologias asiáticas e que podem nos ajudar a entender como estar presentes nelas è o fato que Deus è algo que não pode ser conhecido. Nós também temos uma teologia negativa segundo a qual Deus è um mistério insondàvel, o totalmente outro, mas frequentemnente falamos demais sobre Deus como se o conhecéssemos plenamente. Como falar de Deus se nem sequer conhecemos a realidade humana? Entretanto, a humanidade continua procurando o sentido da sua existência, pois não se sente feliz também com essas visões que escondem ambiguidades. Afinal, nessa visão o esforço humano è como se mostrar bons com "os deuses" para que eles não nos prejudiquem...



Ao mesmo tempo, nessa procura de sentidos, a humanidade procura sistemas de pensamentos, simbolos ,sinteses. Todas as religiòes tem isso. É algo que inclui e pega o todo: o pensar, o agir, o sentir, a moral....ou seja, pensa o todo. A crise religiosa surge do fato que o "sistema" quer pegar e explicar tudo. Diante disso podem surgir duas reaçoes: 1. A postura mística, a consciência da existência do mstério, pois aceitar o sistema totalizante seria uma ameaça ao sentuido de Deus. 2. Aceitar plenamente o sistema.


O missionario està no meio da crise e vive plenamente na crise. Afinal o verdadeiro missionàrio è aquele que "sabe que não sabe"! O missionàrio não è aquele que ensina, e sim aquele que acompanha os demais a descobrir o seu caminho.


Um sábio indu dizia a esse respeito que tudo começa com a experiência, depois procura o sentido da experiência, começa,então, a encontrar explicaçòes , e ai as explicaòoes se tornam monstros que querem eliminar as experiências; logo, precisa matar os monstros (as explicaçoes). A superação da crise atual talvez consista em ter que matar os monstros! Observe-se, por exemplo, que os jovens hoje querem continuar a procurar sempre, mesmo sem ter explicaçoes. Temos que revalorizar o que se dizia a respeito da "docta ignorantia" (sàbia ignorancia): o cristão conhece quando...não conhece! Nào conhece nada da vida humana mas fala demais sobre Deus. Quem afirma que conhece Deus que o mate, pois aquele não è Deus, è outra coisa, pois Deus não pode ser conhecido! Alguns estudantes japoneses diziam que a nossa teologia era lógica demais...para ser verdadeira. No mundo asiático há ainda espaço para o mistério, o desconhecido e inexplicável. A nossa teologia deveria ser mais humilde.




O budismo frequentemente não é considerado uma religião pois não fala de Deus,sendo que Este è mistério. Ele tem muita coisas a nos oferecer: os temas da paz, da harmonia, da meditação, a sabedoria da vida. É preciso se perguntar o que nós podemos oferecer a ele se negamos os valores que ele tem. No budismo, por exemplo, "tudo è vazio". Tudo è frágil e precisa de apoio e compreensão. Isso faz desenvolver um sentimento de compaixão muito grande para com tudo o que è fragil e fraco, sem condenar ou julgar. É preciso comprender. Esse sentimento não se dá só com as pessoas, mas também com os seres vivos, animais, etc. Para o budismo o pecado não vem da maldade humana, e sim da sua ignorancia.


Nesse sentido, como apresentar Jesus às culturas asiáticas que tem um grande apreço por ele, mas que não seguem a religião cristà? Jesus de forma coerente com o seu modo de sentir deveria ser apresentado como o caminho, jamais como um conjunto de verdades ou doutrinas, ou dogmas. O próprio taoismo significa caminho, um modo para procurar, algo a ser trilhado, jamais algo a ser apresentado como absoluto, claro, definido. Os asiáticos aprendem muito mediante o ver e o sentir. Eles percebem quando se fala com o coração (falar com autoridade), ou quando se fala sem mexer nos seus sentimentos das pessoas.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Combonianos em Roma para o XVII capìtulo geral:dialogando com o mundo!

Iniciou hoje em Roma o XVII capítulo comboniano. Ele reune representantes delegados de todas as jurisdições combonianas do mundo. Teremos, de um lado, a possibilidade de escolher e eleger a nova coordenação geral e, do outro, escolher um novo e mais adequado sistema de governo-coordenaçáo. Teremos de um lado a oportunidade de enfrentar temàticas específicas internas, e do outro, encarar o desafio de analisar, debater e encontrar pistas de como interagir com todas aquelas forças sociais que visam enfrentar os grandes problemas do mundo.

Evidentemente, - por sermos homens de "igreja" -temos pressupostos especìficos, mas procuramos aquelas soluções que muitos setores sociais hoje tentam construir: o fim das dominações econômicas e culturais, um maior respeito e equidade entre os povos principalmente com os do hemisfério sul, uma maior participação da sociedade na superação dos conflitos sociais. Tudo isso a partir do sentido de pertença a uma igreja que se identifica com a pràtica de Jesus de Nazarè. Temos consciência que somos plurais e, às vezes, adotamos metodologias diferenciadas e quase antagônicas entre nòs, mas estamos a buscar algo que nos acumuna. Percebemos, de fato, que ao enfatizar sobremaneira o poder das diferenças e especificidades regionais e/ou continentais podemos entrar nas suas armadilhas, ou seja, deixar de buscar o pouco ou o muito que nos une.

Os combonianos, hoje, são cerca de 1.700 e estão presentes em 4 continentes. Sofrem como todos os institutos religiosos a escassez de novas vocações o que, longe de ser algo negativo, os coloca na situaçào de refletir sobre o sentido de estar presentes no mundo hoje como missionàrios consagrados. A partir das reflexões que emergirão a respeito poderà surgir um jeito inédito de ser padre ou consagrado, hoje. O que não pode faltar, entretano, serà a coragem, a ousadia e o risco de "abrir caminhos novos e inéditos". Um abraço em todos e espero poder interagir com vocês!

domingo, 9 de agosto de 2009

Um pacto social para uma educação escolar indígena respeitosa no Maranhão

Voltei de mais uma rodada coordenando oficinas pedagógicas em algumas aldeias do povo Guajajara em Grajaú e Arame. Muitos professores acabavam de voltar de um curso de ‘formação continuada’ oferecido pelo Estado com recursos do Governo Federal. São tentativas, às vezes louváveis, às vezes patéticas, de mostrar serviço e de tirar do marasmo em que se encontra desde o seu nascimento a educação escolar indígena no Maranhão. Pode-se dizer, hoje, sem sombras de dúvida que nesse setor não existe impasse, existe uma clara falência institucional.
Tudo teria que ser recriado e reinventado ou tomar a decisão corajosa e necessária de fechar (literalmente!) as portas por alguns anos até se chegar a um consenso mínimo sobre alguns pressupostos. Uma pausa para um grande entendimento, um pacto social entre indígenas e estado. Na situação atual, o Estado do Maranhão finge que administra a questão da educação escolar indígena, e os professores indígenas e não, - que supostamente devem ‘dar aula’ - fingem que o estão fazendo. Nem um, nem outro parecem não perceber que estão alimentando e ampliando o vórtice da displicência civil, da irresponsabilidade social e da hipocrisia política.

Hoje o nosso Estado é considerado pela equipe do MEC, na questão da educação escolar indígena, inviável. É, de longe, na Federação, o Estado mais caótico e displicente. O próprio MEC só assegura o mínimo porque ele também, por sua vez, é cobrado. Afinal, onde estão os pontos de estrangulamento que estariam inviabilizando a educação escolar indígena no Estado? A seguir, coloco só alguns que considero centrais e determinantes, e cuja solução poderia se constituir num reinício de uma política educacional junto aos povos indígenas que assegure não somente o funcionamento formal, mas produza efetivamente o que um povo indígena espera de uma ‘educação formal’ que ele não criou....mas que no fundo deseja.
1. Não há como negar que a educação escolar indígena no Estado se deu de forma abrupta, vertical e por decreto. Não houve desde o início, por parte do Estado, formas de diálogo e/ou tentativas de conhecer as expectativas e os desejos que os povos indígenas esperavam das ‘escolas’ - genericamente entendidas - que se implantavam. Acostumados a receber e a engolir tudo o que vinha do alto os indígenas não tinham porque recusar...mais essa!Perguntamo-nos por que nunca se fez uma tentativa, embora parcial e circunstancial, de intuir o sentido que os indígenas teriam dado ás formas escolares que se pretendia implantar? Nem um estudo de impacto, nem um levantamento, nem uma produção antropológica sobre a realidade educacional que por decreto se estava iniciando!

2. Essas formas desrespeitosas de ‘invadir’ práticas e significados alheios, pois era isso que estava acontecendo, manifestam que o ranço colonialista se reproduz (ad intra) mediante ‘os colonizados de outrora’ (os administradores do estado nacional). O colonizado de outrora, vítima do império colonizador português, se torna, agora, colonizador, perpetuando em suas vítimas o conjunto de práticas e significações que o subjugavam, embora sob uma roupagem verbal e conceitual adequada aos tempos atuais do ‘politicamente correto’. Surge, assim, - dentro de uma violência simbólica sistêmica praticada pelo Estado, - os conceitos da educação escolar ‘diferenciada, específica, bilíngüe e intercultural’. São formas utilizadas, afinal, para amenizar e tornar mais apetecível às vítimas a violência simbólica embutida. Aqui não se trata de negar aos povos indígenas aquelas ferramentas que hoje são consideradas essenciais para a sua ‘sobrevivência política e para a sua plena realização étnica, ou seja, saber ler, escrever, produzir e sistematizar conhecimentos, mas favorecer e facilitar para que sejam ‘os indígenas’ a definir os modelos, a metodologia, os tempos e os conteúdos de seus próprios processos educacionais. Isto requer, sabidamente, dedicação e paciência histórica, o que não existe num estado colonial que tem pressa em implantar uma cidadania monocultural e achatada.

3. Na concepção e prática indígena em que tudo está interligado e interconectado, integrado de forma radical, a educação escolar indígena pensada e administrada pelo estado pode levar à radical desintegração, desconexão, fragmentação e ‘disciplinarização’ do saber. A escola tal como é concretizada pelo estado colonial nas aldeias indígenas exacerba sobremaneira o parcelamento das relações, do saber e dos significados, criando artificialmente duas realidades separadas: o da escola e o do cotidiano em que este não encontra continuidade na escola. Esta, no caso, deveria retomar e potencializar o cotidiano que é alimentado por sonhos, projetos, histórias, relações humanas, religiosas, sociais tensas e pacíficas ao mesmo tempo, conhecimento acumulado, embora não registrado sob categorias cristalizadas.

4. A introdução da educação formal assalariada (embora sempre com salários atrasados e defasados) nas aldeias produziu os mesmos efeitos que os produzidos pelas aposentadorias, o bolsa-família, a terceirização da assistência à saúde com envolvimento de indígenas, ou seja, uma corrida por postos de trabalho e cargos em diretorias de associações... Não que o dinheiro ou determinadas formas de organização não propriamente indígena devessem ser realidades permanentemente desconhecidas aos indígenas, mas a sua compulsiva inserção em formas organizativas hierarquizadas de um lado e a distribuição monetária com caráter fixo (mensal ou não), individual para determinadas pessoas que supostamente exercem certas funções, - ignorando os esquemas e os sistemas de organização familiar existentes entre os vários povos indígenas na hora de sua apropriação e distribuição interna, - associada, ao mesmo tempo, à total desconsideração do conjunto dos ‘sentidos’ indígenas acerca do dinheiro dos brancos fez com que o ‘dar aula’, por exemplo, se tornasse um mero detalhe. Ao passo que a luta por salários, concurso, dinheiro para transporte e merenda se tornam a verdadeira bandeira hoje na educação escolar indígena, pois o Estado é parte integral e alimentador do grande esquema!

5. As evidentes (aparentes) melhorias de alguns anos para cá na educação escolar indígena em termos de maior universalização do ensino entre os indígenas, do seu acesso, expansão das construções de prédios escolares (embora todos de péssima qualidade) etc. e, talvez, uma maior apropriação por parte de muitos indígenas do que são hoje os pilares do ‘funcionamento da sociedade’ não indígena, não fazem jus e não amenizam as carências/omissões existentes e o despreparo institucional com que o Estado lida com essa questão estratégica e conflituosa ao mesmo tempo.

Estamos em clima de Conferência Nacional da Educação Escolar Indígena. Ela nada irá acrescentar se alguns pressupostos e engodos não forem enfrentados e solucionados. Nada de mais sensato do que propor ao Estado do Maranhão que proporcione e crie as condições políticas para um grande ‘pacto para uma educação escolar indígena’ merecedora desse nome. Nesse grande entendimento mediado pelo Ministério Público Federal as partes terão que ‘abrir o jogo’ assumir compromissos e respeitá-los. Para chegar até lá, entretanto, é preciso dedicar tempo, estudo, pesquisa para conhecer e preparar o terreno para que os indígenas elaborem o seu próprio ‘projeto de vida’ e digam para que querem ou não uma determinada educação para seus filhos, e em vista de qual futuro. Tudo isso, todavia, parece não ser minimamente claro nem para um (estado) e nem para o outro (indígena)!