domingo, 13 de junho de 2010

A mulher, pecadora e sem nome, revela com um gesto de amor, a misericórdia de Deus!

Há encontros que deixam marcas indeléveis. Olhares que mexem por dentro. Toques que fazem vibrar. Silêncios que expressam uma profunda intensidade de sentimentos. Gestos que a distância de anos nos comovem.

Nós humanos não nos comunicamos somente a partir da linguagem falada. Não vivemos somente sob o domínio da palavra. A palavra, às vezes, camufla, distorce e esconde sentimentos e intenções. Nós humanos nos relacionamos e nos abastecemos graças a uma pluralidade de linguagens: gestuais, afetivas, simbólicas, subliminares e outros.

Lucas no seu intuito de apresentar/justificar a escolha de Jesus de fazer comunhão e conviver com os impuros e rejeitados da sua sociedade elabora uma verdadeira aula de vida de uma beleza literária sublime. Nela predominam os gestos e os sentimentos, muito mais do que as palavras. Os símbolos muito mais do que as elucubrações racionais.

Jesus, o ‘Rabi’ que não é reconhecido como tal pelos demais rabi da época, aceita o convite de visitar um fariseu notório, e tomar refeição na sua casa. Um gesto que manifesta mútuo respeito e estima, em que pesem as divergências religiosas entre os dois. O sentar à mesma mesa e comer o mesmo alimento manifesta a vontade de fazer comunhão com a pessoa que convida, em pé de igualdade, sem discriminação. Este é o cenário que Lucas constrói: a casa de um fariseu legalista, ligado ao templo e às normas, mas ao mesmo tempo, aberto em fazer comunhão com o Mestre amigo dos publicanos e das prostitutas das quais ele mantém as devidas distâncias.

Algo, porém, vem por à prova a aparente tolerância do fariseu: uma pecadora sem nome, mas notória, irrompe na sua casa. O espaço inviolável do legalista e ‘puro’ fariseu é subitamente ‘profanado’ por uma ‘impura’ sem nome. Ela pode ‘tornar impuros’ quantos entrarem em contato com ela. A pecadora sem pronunciar uma só palavra se joga aos pés de Jesus o Rabi, os banha com as lágrimas da confiança, os enxuga com cabelos da esperança e os perfuma com o aroma do amor verdadeiro.

Jesus, diferentemente do fariseu, se deixa tocar, não só fisicamente, mas também no profundo do seu coração. Não teme o contato físico de uma mulher pecadora – o que era algo inédito para a época - e nem teme os julgamentos dos convivas. Jesus, o homem livre que não discrimina, aceita se tornar aos olhos deles mais um ‘impuro’ que senta à sua mesa para quebrar as suas atitudes de arrogância e intolerância. Jesus não se envergonha em se comover diante de um ‘toque de amor’ de uma impura, pois Ele sabe compreender o seu desespero ao se sentir condenada e julgada pelos ‘falsos puros’ legalistas e sem misericórdia.

O amor profundo que a pecadora manifesta para com Aquele que a sabe compreender e acolher sem julgá-la desmascara a aparente jovialidade inicial do fariseu e expõe a sua intolerância. O fariseu anfitrião acaba se sentindo, ele próprio, ‘excluído’ na sua própria casa/templo por ter julgado quantos fazem da misericórdia um sacramento da verdadeira presença de Deus na vida dos humanos. Um simples, mas intenso gesto de amor de uma ‘impura’ revelou mais do que as rubricas litúrgicas das tradições religiosas o próprio amor de Deus.

Jesus lembra indiretamente a proclamação profética de Isaias ' misericórdia eu quero, e não sacrifícios'. Afinal, a mulher, pecadora e sem nome, pode ter o nome de qualquer um de nós!

Um comentário:

Elma disse...

Adorei suas postagens, mas essa está melhor que as outras, talvez pq foi feita depois de lhe conhecer.
Um abraço
Elma Rezende
Balsas-MA