quarta-feira, 12 de novembro de 2025

“A pós-verdade é o fim do mundo comum”. Entrevista com Máriam Martínez-Bascuñán

 Máriam Martínez-Bascuñán (Madri, 1979) é professora de Teoria Política na Universidade Autônoma de Madri. Foi também diretora de Opinião do jornal El País e é, sobretudo, uma estudiosa de Hannah Arendt, a quem recorre para analisar os desafios da pós-verdade e da credibilidade nas democracias atuais, em seu mais recente livro intitulado El fin del mundo común (Taurus, 2025). 

 Você diz que o mundo comum está acabando. Se assim for, que futuro nos espera?

Eu falo do fim do mundo comum, mas não como algo irreversível. É o diagnóstico que faço. Detenho-me no que é o mundo comum, e meu diagnóstico é que a pós-verdade é isto: o fim do mundo comum. Junto com Hannah Arendt, defino esta ideia de mundo comum como aquilo que, ao mesmo tempo, nos conecta e nos separa. A pós-verdade não está em que o político mente, pois os políticos sempre mentiram. Acontece que agora o político utiliza a verdade ou a mentira como uma arma de poder para construir uma realidade alternativa, que é uma ficção. Deixamos de habitar no mesmo mundo. O mundo comum é também a erosão de todos esses intermediários, de todas essas instituições invisíveis que ajudavam a sustentar o chão compartilhado para que fosse possível uma conversa, a deliberação pública e, inclusive, as regras do jogo democrático. Quando caem todas essas instituições invisíveis, com todos os consensos, torna-se possível acreditar em realidades alternativas e em mundos fictícios que o líder é capaz de impor

 “Sem pluralidade, não há mundo comum”, ressalta. O problema é que os partidos políticos agora buscam desprestigiar e desumanizar seus rivais?

O problema hoje é que, de alguma forma, substituímos a pluralidade pela lógica tribal. O tribalismo instaura uma lógica para o cidadão de que a verdade não exige entendimento ou preocupação; exige pertencimento. A fidelidade ao grupo vale mais do que sua própria opinião e a evidência e o julgamento crítico se tornam quase um luxo desnecessário.

 E como é possível debater essas questões em meio a tanta polarização?

É muito difícil, porque tudo já assumiu a forma de guerra cultural; qualquer assunto, até mesmo a mudança climática, torna-se uma guerra da pós-verdade. Por fim, criou-se muita confusão, ninguém sabe mais em quem acreditar. O pior não é espalhar uma mentira, mas deixar de acreditar em tudo. E deixar de acreditar em tudo significa que, se alguém diz que venceu as eleições, quando as perdeu, uma porcentagem muito significativa da população acaba acreditando. Para que isso acontecesse, tiveram de desacreditar os meios de comunicação, as instituições eleitorais, as autoridades e os jornais. Ao final, aderimos à lógica da tribo, à narrativa, que, além disso, canaliza a raiva e apresenta um rosto a ser odiado e contra quem protestar.

 No livro, você ressalta que “temos uma cidadania mais desorientada do que um povo enganado”. Será que isto acontece porque a única ideologia propositiva é a da extrema-direita?

Penso que o central é que se tornaram bons narradores políticos. Possuem uma forma de ver o mundo reconhecida por essas pessoas que se sentem de fora e que oferece uma visão coerente sobre o mundo, mesmo que seja fictícia. Eles são narradores políticos com narrativas perfeitamente coerentes e elaboradas. Tenta-se combater isto com dados e especialistas, mas os fatos por si só não convencem ninguém. Além de dados e ciência, são necessários narradores políticos que saibam contar os fatos de modo que mexam com os cidadãos e os façam ver por que são importantes.

 Devemos assumir que o debate público estará para sempre imerso em falsidades e pós-verdade?

Um programa político não deveria ser reativo; ou seja, não deveria estar o tempo todo respondendo às barbaridades do populista e não deveria se deixar colonizar pela agenda dele. Além disso, os políticos devem ser capazes de alcançar as pessoas com histórias baseadas em fatos. Penso que estamos menosprezando as emoções. Um político não pode vencer as eleições sem mobilizar as emoções. O crucial está no tipo de emoção que se mobiliza, se a raiva ou a esperança, como fez Obama. Não se alcança as pessoas apenas com autoridade científica. É preciso, com base nessa evidência científica, construir uma narrativa política que convença o cidadão e o faça se sentir protagonista, não espectador, que seja convidado a fazer parte da solução, a deliberar, a decidir junto.

 O livro termina falando dos meios de comunicação e do jornalismo com uma sentença muito dura: “O objetivo não é tanto salvar o jornalismo, mas a função pública que realizava”. Se não forem os meios de comunicação, quem serão os novos atores que realizarão esta função?

Não considero que devam ser outros atores, nem que voltaremos ao mundo de antes. O espaço público mudou e as redes fizeram isto. Há uma leitura positiva nisso: entraram opiniões que eram completamente marginais e que romperam o consenso hegemônico. Defendo a importância da crônica e da narrativa dos fatos a partir da imparcialidade homérica. A imparcialidade homérica, segundo Arendt, não guarda silêncio sobre o vencido, dá testemunho de Heitor e de Aquiles. Homero mostra todos os lados com dignidade e preserva essa pluralidade de perspectivasimparcialidade homérica não é equidistância, nem é tratar todas as afirmações como igualmente válidas, nem é dar o mesmo peso aos fatos e às mentiras. É dar testemunho dos fatos como são. Às vezes, essa falsa equidistância leva à normalização de coisas que nunca deveriam ter sido normalizadas. O central está na pluralidade de perspectivas e na imparcialidade, que não é equidistância. Não podemos voltar a assistir a casos como a cobertura da BBC nas eleições de 2024, que colocava no mesmo nível uma proposta de justiça de Kamala Harris e as declarações de Donald Trump dizendo que iria fuzilar jornalistas.

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