“O Brasil é o único país no mundo a ter nome de uma árvore”, lembra a deputada Célia Xakriabá, que fez parte do processo de concepção da nova universidade. “Na verdade, a universidade indígena já existe há mais de 1.500 anos atrás. Hoje é apenas assinatura. Mas, na verdade, antes de assinar com a caneta, nós assinamos com sabedoria da floresta, nós assinamos com o jenipapo e o urucum”, afirma a parlamentar, que é graduada em Educação Indígena, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estudiosa das experiências de universidades indígenas na América Latina. “Em 2016, tive a oportunidade de pesquisar sobre universidade indígena no México e as universidades autônomas. E o Brasil ganha um momento muito importante porque é reconhecendo a universidade indígena, mas com a pluralidade de povos diferentes. E hoje pensar as epistemologias indígenas é pensar uma superação do epistemicídio também. Quantas vezes o nosso conhecimento indígena, a ciência indígena foi negada na universidade?”, comenta Xakriabá.
Consagração
de um direito
Maurício
Terena, advogado
indígena, explica que a universidade representa a consagração
do mandamento constitucional e o respeito ao conhecimento tradicional. “Uma universidade
indígena vem que para consagrar o respeito ao conhecimento tradicional indígena, que a história
desse país é fundada numa perspectiva da qual os nossos corpos, os nossos
conhecimentos, eles eram invalidados por essa ciência hegemônica. Então, poder
hoje estar testemunhando esse lançamento dessa universidade indígena, eu acho
que acima de tudo como advogado indígena, é a consagração do mandamento
constitucional, mas também a promoção e o respeito dos conhecimentos
indígenas”, afirma. Terena lembra das dificuldades que passou para se
formar em direito, sendo um estudante indígena. “Eu relembro um pouco das
violências que a gente passa no ensino superior quando a gente fala que é
indígena, quando a gente traz as perspectivas, no meu caso, do direito
indígena para o debate”, recorda o advogado.
Territórios
transformados
Além da importância epistemológica e climática, a universidade indígena é vista como um marco importante para a inclusão e a melhoria de vida nas comunidades. Para estudantes como Ricardo, do povo Potiguara, a universidade indígena é uma questão de resistência e proporciona visibilidade para seu povo. “Ajuda a dar visibilidade para o nosso povo e à nossa resistência”, comentou brevemente, tomado pela timidez, o jovem de 18 anos, que viajou da Paraíba a Brasília para prestigiar a criação da Unindi. Por sua vez, Maurício Terena já vislumbra transformações profundas a partir dessa experiência acadêmica que, se bem não está restrita aos povos indígenas, sendo uma universidade aberta a toda a sociedade, tem potencial para promover grandes viradas de pensamento na sociedade brasileira.“Isso gera na sociedade brasileira uma nova maneira de se organizar politicamente. Eu já fico curioso para daqui 10, 15 anos, ver como ela vai transformar acima de tudo as nossas realidades locais, mas também a configuração da sociedade como um todo, e a academia também, porque a gente vai passar a trazer conhecimentos que, em alguma medida, foram invalidados durante o processo de construção desse país. Acho que trazer uma virada epistemológica mesmo da ciência no nosso país”, avalia.
Universidade
do clima
Celia
Xakriabá aponta
que não é possível pensar em soluções climáticas sem
reconhecer a ciência e a tecnologia ancestral dos povos indígenas. Ela chega a
sugerir que a universidade indígena pode ser reconhecida como a universidade
do clima, algo que não existe em nenhum lugar do mundo. “No mundo inteiro
não existe escola do clima e universidade do clima. E a universidade indígena
já pode ser reconhecida também como a universidade do clima. Nós, povos
indígenas, somos 5% da população mundial e protegemos mais de 80% da
sociobiodiversidade”, propõe a parlamentar, que defende que a “ciência do
clima” esteja enraizada nos territórios. Com um toque de poesia e
ancestralidade, a deputada reforça a ideia de que preservar as florestas e o
meio ambiente já é uma alternativa e uma solução, e deve passar pelo
reconhecimento dos saberes tradicionais. “A Terra é a professora mais antiga
do planeta e a floresta também é escola, a floresta também é universidade”,
recita. Segundo o governo, os grupos técnicos interministeriais responsáveis
pelo desenho das instituições atuarão ao longo de 2026 e a previsão é que as
universidades entrem em funcionamento em 2027.
A reportagem é de Leonardo Fernandes, publicada por Brasil de Fato, 27-11-2025
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