Caciques, coordenadores e representantes dos Guardiões da Floresta da região Ponta D’Água, Abraão, Zutiwa e Lago Branco da Terra Indígena Arariboia, Maranhão, se reuniram no dia 02 de novembro passado para fazer o ponto da situação. A reunião promovida pela Associação Carlo Ubbiali contou também com a presença do bispo da Diocese de Grajaú, Dom Giuseppe e o coordenador geral Fly, da aldeia Jenipapo. Após a apresentação dos presentes se procedeu para uma avaliação bastante completa da atuação dos Guardiões ao longo de 2025.
Com muito realismo foram colocados os empecilhos que ainda impedem uma atuação mais consistente dos Guardiões. As diferentes intervenções de alguns dos presentes enfatizaram o seguinte: 1. ‘Há parentes que não entendem que fazemos isso de forma voluntária porque amamos a nossa terra. Eles criticam porque os guardiões não ganham, mas não é essa a questão. A questão é saber que ao garantirmos segurança no território, todos ganham. E isto cabe a nós todos’. 2. ‘Outros parentes acham que ao fazer o nosso trabalho estaríamos atrapalhando, mas não é assim, pois agimos dentro da lei. Talvez alguém esteja incomodado pelo fato que os Guardiões não deixem que pessoas que moram na terra façam o que querem com as nossas riquezas’. 3. Faltam equipamentos básicos como botas, mochilas, e de segurança: além disso, faltam instrumentos de logística (bases de apoio, drones, etc.) e transporte (moto, carro...) ou um fundo de apoio para gasolina e manutenção dos meios de transporte...4. Falta de apoio institucional, ou seja, falta apoio por parte dos organismos governamentais que têm a tarefa e a obrigação legal de proteger e fiscalizar uma terra indígena. 5. Outro ponto levantado foi a questão da ‘plena ocupação do território de Arariboia’, ou seja, há regiões que não possuem uma presença física e base fixa para fiscalizar-monitorar as possíveis invasões e ocupações externas. Precisaria criar pelo menos mais duas bases, mas de forma segura, permanente e autossustentável, ou seja, com uma população indígena no local capaz de se defender em caso de eventuais ameaças...6. Foi dito também que seria preciso pensar numa espécie de ‘institucionalização’ dos Guardiões, no sentido de serem reconhecidos formalmente, e se constituírem como um organismo valorizado pelo governo federal. Afinal, fazem um trabalho de suma importância, expondo, inclusive, a própria vida para realizar ações que caberiam, constitucionalmente, à PF.
A segunda parte da reunião verteu sobre a identificação dos principais avanços, iniciativas concretas, pontos positivos no gerenciamento do território. 1. ‘A demarcação física da nossa terra foi uma grande conquista, mas com o tempo apareceram as ameaças que todos conhecemos. Hoje existe uma consciência renovada de que não podemos entregar esse patrimônio a pessoas ou grupos que tentam se apropriar. As novas gerações têm que conhecer a nossa história para segurar a nossa terra’. 2. ‘Hoje compreendemos que com ou sem apoio institucional estamos protegendo o que é nosso por amor, na base do voluntariado. Hoje a nossa organização é bem articulada e isso nos dá mais serenidade e esperança de que vamos conseguir manter protegida a nossa terra com a nossa união.3. Outro ponto positivo foi sem dúvida a construção de uma base local para os guardiões da nossa região Ponta D’Água e a abertura de uma trilha que permite nos deslocar para melhor fiscalizar e monitorar. 4. Mais um ponto positivo é o crescente interesse em conhecer e saber mais como lidar com a gestão do nosso território que não é somente terra e plantas, mas é também união, força política, luta por saúde, educação de qualidade, construção de um futuro que cabe a nós escolher. 5. Um outro aspecto a ser mencionado é o crescimento da nossa produção de legumes, de hortas, de pequenas experiências de reflorestamento de plantas nativas (açaí, bacaba, buriti...) e com formação específica em muitas regiões da nossa terra....
O
terceiro momento da reunião se concentrou nas propostas concretas para a
construção de um futuro mais esperançoso para o território de Arariboia.
Concretamente, ver qual o futuro que se quer construir no território. Quais
prioridades, quais iniciativas deveriam ser tomadas no que se refere ao
monitoramento e à gestão do território? (sistema de proteção-fiscalização,
produção, reflorestamento...). Foi enfatizado por parte da maioria que: 1. É importante
investir na alimentação sustentável, sadia, investir na produção de frutas
nativas, reflorestar com frutas nativas. 2. Fortalecer a educação escolar
indígena, a língua nativa, mas sem descuidar da outra também. Afinal, temos que
compreender sempre mais o mundo dos não indígenas e dominar seus próprios
instrumentos para poder emergir socialmente e politicamente e ‘sobreviver’ com
autonomia. 3. Estudar com mais afinco a proposta de construção de novas bases
de apoio de forma sustentável com roças ao redor, e bastante gente. 4. Foi dito
que os guardiões deveriam dar exemplo de ‘trabalho em conjunto, em mutirão’
colocando roças todos juntos e, eventualmente, dividi-las entre eles para cada
um cuidar. Os presentes concordaram em iniciar algumas experiências concretas e
imediatas: 1. Estudar a possibilidade de plantios de inhame em cada
regional, não somente por ser algo valorizado atualmente, no mercado, mas
como forma de resgatar um produto tipicamente indígena, consumido outrora e
hoje pouco valorizado internamente. 2. Estudar e pensar concretamente no
plantio e reflorestamento de arvores frutíferas nativas como bacaba,
açaí precoce, buriti e outros, e expandir a produção de legumes com mais hortas
(alface, cebolinha, coentro, pimentão, tomates....) 3.Promoção de minicursos
de formação específica para realizar com sucesso as atividades indicadas,
convidando técnicos parceiros ou outros.
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