Por que agora mais nenhuma expressão de ódio desqualifica quem a profere?
Vivemos
num tempo de fanatismo ideológico. Veja bem, existem dois tipos de ignorância.
Uma é aquela simples ignorância de quem desconhece um assunto. A outra é mais
disseminada e é a verdadeira marca do nosso tempo. Diz respeito a quem tem
certeza de possuir a verdade. Disso brota todo tipo de fundamentalismo.
O que mais lhe causa impressão nessa violenta metamorfose
da linguagem?
A
palavra é o que humaniza a vida. Estabelece a diferença mais profunda em
relação à vida animal. Ela nos permite tornarmo-nos humanos renunciando ao
atalho da violência. Onde há ódio e violência, deparamo-nos com o caminho
oposto: a violência mata a palavra. Isso também acontece quando a palavra se
transfigura em arma; o insulto torna-se então uma palavra projétil.
Qual a importância das novas tecnologias na criação de um
ecossistema dominado que recompensa a agressão?
Nas
redes sociais, a relação entre a palavra e as suas consequências é rompida.
Toda agressão se torna lícita. Não há barreira considerada inviolável: doença,
morte, Holocausto... É uma forma radical de imaturidade psíquica.
As raízes do ódio. Desenvolvimento.
O
ódio e a violência não podem ser explicados como uma regressão do humano ao
animal, ao bestial. Os animais usam a violência para sobreviver. Nós somos a
única forma de animal que sente prazer no exercício da violência. É o ódio
de Caim que nega a experiência de Abel, isto é, o
outro de si, o Dois que força o Eu a renunciar ao seu poder narcisista. Se
preferir uma definição rigorosa de ódio, é esta: o esforço para levar o Dois de
volta ao regime fechado do Um.
O ódio escraviza?
O
ódio, dizia Jacques Lacan, ‘é uma carreira sem limites’.
É assim que explicamos a crise das democracias, desafiadas
por dentro e por fora pelos Cains das autocracias e dos populismos?
A
democracia é a experiência da morte do Um e da descoberta do Dois. As guerras
eclodem porque faltou o tempo coletivo para a elaboração simbólica do luto pelo
Um. Pense no conflito russo-ucraniano: em vez de encaminhar a Rússia para
a democracia — experiência da morte do Um — Putin gostaria de
refundar o império, negando a experiência do Dois.
O mesmo acontece dentro das democracias, com a construção
do inimigo.
A
busca do inimigo é uma vocação paranoica que permeia todo regime iliberal. Ela
engessa cada identidade em uma narrativa que nega o Dois: o diverso é vivido
como uma ameaça, como um obstáculo à nossa plena realização.
Em suma, a armadilha das identidades.
Walter Benjamin dizia:
'A democracia nos obriga ao exercício contínuo da tradução'. Em uma democracia,
de fato, existem mais línguas, e todos somos obrigados a um esforço de tradução
da língua do outro. Nos regimes iliberais, ao contrário, todos falam a mesma
língua...
O caldo de cultura para tudo isso é o medo que autocratas
ou aspirantes a autocratas se empenham em transformar em ódio?
O
soberanismo psíquico, dizíamos, é a destruição de Abel, em nome do
Uno, sozinho. As massas do século XX, como observou Wilhelm Reich, não sofreram passivamente os regimes
totalitários. Pelo contrário, houve um desejo ativo pelo fascismo. Isso é o que
mais desconcerta.
Atualizando, equivale a se questionar por que hoje, o povo,
onerado pela crise, está disposto a abrir mão de um pouco de liberdade em troca
de segurança, ou da ilusão dela.
Exatamente.
É um desejo de proteção que pode comportar a fuga, como diria Fromm,
da liberdade. Existe, de fato, uma profunda ambivalência do ser humano diante
da liberdade. Por essa razão, Spinoza pôde dizer que o homem pode preferir suas
correntes à liberdade.
Por que, no consenso, a narrativa é mais importante do que
os resultados?
O
fundamento do populismo é uma equivalência substancial entre o Povo e o Bem. O
líder não representa seu povo, mas o encarna em suas pulsões mais básicas.
Trata-se de uma relação hipnótica e não de delegação. O excesso de sociedade
líquida, para usar as palavras de Bauman, levou a um retorno de
identidades sólidas e à busca por pais primordiais, líderes da guerra e das
armas, como Netanyahu, Trump ou Putin.
O erro histórico das elites tradicionais e da esquerda é
contrapor a tudo isso apenas o politicamente correto?
Não
há dúvida. A esquerda é apenas 'contra': contra Trump e contra Meloni, de maneira quase obsessiva. Mas ser
contra não amplia o consenso. Pelo contrário, o estreita sectariamente.
Em outras palavras, a esquerda coloca a identidade acima do
país.
Exatamente.
Cultiva a horta de sua identidade e de seus seguidores. Em vez disso, deveria
recomeçar a falar com a maioria do país, não apenas com as minorias.
A esquerda também está acorrentada ao seu Caim?
Ser
democráticos é um esforço de longo prazo. Estar sozinho contra bloqueia o país
e bloqueia junto ao país também a esquerda. (IHU)
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