É preciso ter raça sempre!
Pela 1ª vez, desde que o Censo foi criado em
1872, a população parda superou a população branca. Somos hoje 92.083.286 (45,3%) da população
brasileira. Entretanto, os recortes étnico-raciais mostram que o
racismo no Brasil é alarmante. Na medicina há um racismo velado que poucos
conhecem: somente 3% dos médicos no Brasil são negros (dados do CFM), 80% dos
transplantados no Brasil são homens brancos. A despeito das doenças cardíacas
ocorrerem mais em homens negros, a maioria dos transplantes de coração são em
homens brancos (Jornal da USP), na pandemia da covid-19, a taxa de letalidade
da doença nos negros foi de 55%, enquanto nos brancos foi de 38% (FIOCRUZ). A
taxa de mortes por causa evitáveis em 2023 foi maior entre negros: de 51,8%
para homens e 37,8% em mulheres em comparação com 39,4% e 26,5% entre não
negros (Pacto Nacional de Combate às Desigualdades).
Uma das principais vias a partir da quais as políticas raciais se estruturam na saúde é a omissão e a falta intencional de dados, de tornar invisível a população negra. Há muitas formas de racismo no Brasil e a mais perversa é o racismo institucional e subjetivo de quando um médico negro precisa passar por mais validações para assumir um cargo, quando é confundido com o atendente, recepcionista ou auxiliar do hospital, quando não assume postos de poder, ou quando não aparece nos dados demográficos étnicos/raciais de sua instituição. O CFM, AMB, OPGE, FBG, não possuem estes dados. Desde 1993, a Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) vem abordando e lutando para diminuir as disparidades raciais em um país onde a herança escravagista é tão terrível quanto a nossa. No seu brilhante Equity Project apresenta uma autoanálise transparente da composição racial e étnica dos seus membros, líderes voluntários e funcionários em comparação com os dados populacionais dos EUA. Adotou o antirracismo como estratégia para promover a diversidade, a equidade e a inclusão, e para reduzir as disparidades nas doenças gastrointestinais. A União Europeia de Gastroenterologia segue o mesmo caminho.
Quem traz na pele essa marca possui a
estranha mania de ter fé na vida!
O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo. Entre os séculos XVI e XIX trouxe à força cerca de 4,86 milhões de escravos africanos (40% de todos os africanos que cruzaram o Atlântico) para trabalharem nos 3 ciclos da economia brasileira: cana de açúcar, mineração e café. Mais longa que a escravidão do Egito, mais duro que o cativeiro na Babilônia foi a escravidão negra no Brasil, que só foi abolida em 1888. Os impactos de terem sido abandonados à própria sorte, sem nenhuma forma de reparação, explica porque o povo negro está na base da pirâmide social. As políticas públicas de ações afirmativas, como as cotas, por exemplo, representam uma tentativa de pagar uma dívida e tentar diminuir as consequências de um passado colonial que ainda nos divide em Casa Grande e Senzala. A gastroenterologia brasileira tem vários desafios e um deles é tentar eliminar as disparidades raciais na saúde para diversas doenças gastrointestinais e de não se calar e nem abafar as vozes que querem acabar com o racismo estrutural, institucional e interpessoal, que a cada dia aumenta a lacuna entre negros e brancos neste país.
Mas é preciso ter força, é preciso ter
raça é preciso ter SONHO sempre!
Há cerca de um mês atrás, uma paciente negra, fez uma colonoscopia comigo. Ao entrar na sala vi que ela teve aquele impacto inicial e me disse: ”que bom que a senhora é da minha cor” e perguntou se podia me dar um abraço. Naquele abraço recebi toda a consideração e contentamento daquela mulher, mas recebi também o peso de tentar fazer com que minha especialidade seja o mais representativa possível da população a qual assiste. “O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação”. Esta frase de Steve Biko, advogado, intelectual e ativista sul africano, assassinado pelo regime do apartheid, mostra que a luta de ontem abre caminho para as vitórias de hoje e que racismo se combate todo dia.
Hoje, dia da CONSCIÊNCIA NEGRA, na qual
lembramos a morte de Zumbi dos Palmares e a luta de um povo contra a exploração
e opressão do sistema colonial, celebramos a resistência, luta e a resiliência
do povo negro de hoje, quilombola, favelado, periférico, que teima em ser FELIZ
e ter SONHOS sempre!
Joceli Oliveira dos Santos - Gastroenterologista/Endoscopista e Ex- membro da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da FBG
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