quinta-feira, 22 de outubro de 2026

XXX Domingo Comum - Não maltratem o 'estrangeiro'! Vocês se esquecem o quanto dói ser ignorado e excluído?

Após a segunda guerra mundial, meu pai com outros jovens deixaram o nosso povoado à procura de trabalho nas minas de carvão mineral, na França. Naquele frio subsolo respiravam pó de carvão, medo e preconceito. Mamãe fez o mesmo caminho com outras jovens, mas na Suissa, trabalhando como mulher de limpeza, num hotel. Todos eles sentiram na alma o que significou ‘ser estrangeiros’. Às vezes, tem-se a impressão de que as ‘nossas’ segunda e terceira geração olvidaram que nossos pais e avôs fizeram a indelével experiência de serem ‘oprimidos e maltratados’ em terra estrangeira, e reservam aos estrangeiros de hoje, em nossa própria terra, a mesma xenofobia que os nossos antepassados sofreram outrora. Em muitos casos, numa irracional generalização, os estrangeiros são considerados invasores, responsáveis pela violência, pela crise econômica, pela intolerância e pelo desmantelo cultural atual, tal como ocorria na época do Êxodo e do Israel de Jesus. É o próprio Mestre que no evangelho de hoje nos diz que é preciso interromper essa lógica. É preciso amar o nosso próximo, unilateralmente, sem exigir reciprocidade. Amar não somente o parente biológico ou o membro da mesma igreja, ou nação, mas quem ‘convive ao nosso lado’, que trabalha, chora e sonha conosco, independentemente de sua origem, opção sexual, etnia e religião. O amor e não o ódio, a compaixão e não a intolerância, têm o poder de nos transformar em seres que aprendem a amar como o Pai ama seus filhos. Afinal, é amando os filhos de Deus Pai que amamos Ele, diretamente!


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Como podemos acabar com a tirania do presente na política? Entrevista com Pierre Rosanvallon

 

Em ‘A tirania do presente’, você constata que nossas sociedades deixaram de se preocupar com o longo prazo e as gerações futuras. Quando isso começou?

Podemos fazer retroceder essa desconexão à modernidade. A modernidade representa a ruptura do mundo dos direitos, da subjetividade e da humanidade. E essas rupturas ocorreram ao nos libertarmos das amarras do passado e das promessas do futuro incorporadas por religiões que antes ensinavam o sacrifício do presente. Os ritmos políticos e o próprio conceito de coesão social mudaram. Porque se os indivíduos se tornarem senhores do seu próprio futuro, poderão remodelá-lo. Substituímos as instituições imutáveis e herdadas por instituições que podem ser perpetuamente questionadas.

Será que a própria estrutura do nosso sistema político complica a nossa relação com o longo prazo?

A democracia é um regime do presente, e é crucial que assim permaneça, mas deve obedecer a vários ritmos: o das instituições, o da vontade geral, o da lei… Mas a vontade geral não pode ser reduzida simplesmente ao “capricho do momento” ao qual as eleições parecem estar sujeitas. Uma nação tem uma existência que faz parte de um contínuo, portanto, são necessários guardiões dessa continuidade.

Para conciliar urgência e longo prazo, o senhor nos convida em seu livro a examinar nossa condição de terranos, além da de indivíduos e cidadãos. O que esse novo rótulo permitiria?

Os procedimentos institucionais para estabelecer o longo prazo são essenciais, mas não são suficientes. Os indivíduos também precisam ter internalizado essa prática de planejamento futuro. Porque você pode tomar todas as decisões que quiser sobre os comportamentos a serem adotados para reduzir o consumo de energia, por exemplo, mesmo assim os resultados serão extremamente ruins se eles não forem internalizados pelos cidadãos. Na democracia, as decisões institucionais e o comportamento individual devem estar alinhados. Em regimes totalitários, onde o conceito de indivíduo não existe, o problema não se coloca – a vontade da China torna-se a vontade do povo chinês, porque este é forçado a conformar-se; não há diálogo social. Mas, em uma democracia, esse alinhamento é essencial.

E como criamos as condições para esse alinhamento?

O mundo moderno era inicialmente um mundo do indivíduo. O que permitiu que o conceito de cidadão se consolidasse foi o fato de ter emergido gradualmente como uma forma de proteção. Isso não aconteceu de forma repentina. Se deu devido a guerras, lutas de classes e muitas outras provações que demonstraram a importância dessa segunda dimensão.

Você cita Cynthia Fleury na introdução, que essencialmente escreve que, enquanto não “batermos no muro”, não seremos capazes de nos “colocar a caminho”. Pode-se pensar que, entre o retorno da guerra à Europa, a pandemia de Covid-19 e verões que chegam a 42°C, já fomos lançados à realidade em velocidade vertiginosa. E, no entanto, nada parece realmente mudar…

Edgar Morin disse algo semelhante: o “nós” prevalece sobre o “eu” quando enfrentamos uma provação terrível. Mas os eventos atuais mostram que essa narrativa do muro não é totalmente precisa. Não acredito em um caminho de Damasco para as mudanças climáticas, na lógica da conversão pela brutalidade dos acontecimentos.

É por isso que estou desenvolvendo o conceito de exercícios democráticos. Precisamos implementar experimentos, como um “parlamento das gerações”, que poderia ser modelado a partir de convenções cidadãs e nos permitiria abordar diretamente a questão da justiça intergeracional e compartilhar o conhecimento. As teorias da justiça (que são teorias da distribuição) são geralmente concebidas em termos de ricos contra pobres. Essa questão deve ser ampliada para as relações entre gerações. Refletir sobre o que constitui a justiça entre gerações também poderia ter a vantagem de atrair as gerações mais jovens de volta à política. Porque, atualmente, os eleitores mais assíduos são também os mais idosos. Enquanto se poderia pensar que deveria ser o contrário: ao completar 18 anos hoje, você terá que viver a vida inteira com as decisões tomadas pelos governos.

Que mandato exato daríamos a esses “parlamentos das gerações”?

Precisamos de assembleias permanentes das gerações futuras que desenvolvam uma abordagem mais ponderada para o futuro, que permitam a coexistência de vozes divergentes. Mas essas experiências não devem se tornar instituições. As instituições diminuem o ritmo, acalmam as mentes, mas elas devem permanecer despertas.

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

XXIX domingo comum - AOS IMPERADORES DE HOJE SÓ DEVOLVEMOS SEUS AMULETOS, A DEUS PAI DEVEMOS O COMPROMISSO DE PROTEGER QUEM FOI CRIADO À SUA IMAGEM!

A humanidade parece viver um verdadeiro paradoxo, planetário, trágico e, aparentemente, irreversível. Parece que quanto mais a sociedade avança desde um ponto de vista tecnológico, mais ela involui na sua consciência social, organizacional, política. Tem-se a impressão que estamos voltando a cultuar caudilhos, imperadores civis, líderes políticos como se fossem verdadeiros pais-patrões salvadores de uma nação que, incontestavelmente, se submete às suas autocráticas vontades. Jesus, na notória diatribe sobre a licitude ou não de pagar imposto a César coloca algumas orientações e questões centrais que continuam atuais. Aos imperadores de ontem e de hoje é preciso devolver as efígies e os símbolos que eles próprios forjaram, no intuito de perpetuar o seu suposto sagrado poderio. A eles não devemos nada! Só se devolve um desgastado objeto de metal, uma moeda de ferro que representa a sua deformada cara de falso senhor do mundo!  Agora, ao verdadeiro Senhor que não submete e nem escraviza, que não ameaça e nem persegue devemos tudo o que nós temos e somos. Ao Deus que criou o ser vivo à sua ‘imagem’ e semelhança temos a obrigação de cuidar, proteger e salvar os seus filhos e filhas. Afinal, é neles que Deus ‘cunhou’ a sua cara’! Ao protegermos esses templos vivos, reflexos indeformáveis do Pai, e vítimas dos donos das moedas virtuais de hoje, estaremos prestando o único e verdadeiro culto que é agradável ao Deus de Jesus de Nazaré!


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

XXVIII Domingo Comum - QUEM ACEITA PARTICIPAR DO BANQUETE DO PAI NÃO PODE FICAR DO LADO DE QUEM EXCLUI DO BANQUETE!

Há oportunidades que aparecem na nossa vida que são únicas. Existem convites específicos a nós dirigidos que devem ser acolhidos no instante, pois nunca mais voltarão. Ocorre que estamos tão obtusamente fixados no que conhecemos e experimentamos de forma rasteira que não percebemos tudo isso como ‘momentos inéditos de graça’ que poderiam mudar qualitativamente a nossa existência. Só com o tempo é que constatamos, com tristeza, o que perdemos. O evangelho de hoje nos alerta sobre duas coisas. 1. Os convites a entrarmos numa nova lógica e prática de vida que as circunstâncias do cotidiano nos oferecem, ao serem ignorados e desprezados por nós, serão aproveitados, inexoravelmente, por outras pessoas. Depois disso, não cabe nem inveja e nem ressentimento. 2.Ao compreendermos, porém, a importância única de aceitarmos o convite a entrar na nova lógica da Realeza do Pai, com atitudes e valores bem específicos e bem diferentes daqueles que o anti-reino oferece, faz-se necessário "vestir a camisa'. Ou seja, é imprescindível assumir radical e definitivamente aquele compromisso-missão de construir o novo jeito de ser e viver inaugurado por Jesus. Aceitar o convite para o banquete do reino e não vestir-incorporar a sua lógica de fraternidade, de comunhão, de justiça, produzirá a nossa própria autoexclusão. Afirmar ser discípulo de Jesus e apoiar os representantes do anti-reino que excluem e perseguem é sinal que nunca vestimos, de fato, a camisa do Reino do Pai!


sábado, 3 de outubro de 2026

XXVII domingo comum - QUEM NÃO ADMINISTRA COM JUSTIÇA E COMPETÊNCIA A VINHA DO SENHOR SERÁ DEMITIDO E SUBSTITUÍDO!

Muitos ainda acreditam que a política, seja ela partidária ou não, nada tem a ver com a espiritualidade e a fé dos cristãos. Para eles seriam duas dimensões separadas da mesma pessoa. Acham que no âmbito da política o cidadão-cristão tem autonomia para escolher, decidir, atuar, de acordo com uma determinada ética, e na esfera da fé, vigoraria outra ética, totalmente contrária à primeira, a evangélica. É a favor da pena de morte na rua, mas na igreja defende a vida. Impõe e aguenta ritmos de trabalho absurdos para trabalhador pobre, mas na igreja fala contra a escravidão e a exploração do povo. Da mesma forma, na praça defende o administrador violento e autoritário, corrupto e golpista, mas na igreja apresenta Jesus como o servidor de todos e príncipe da paz. Essas posturas têm nome: esquizofrenia, dissociação cognitiva ou, na melhor das hipóteses, hipocrisia escrachada. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que para quem não sabe administrar no respeito e na justiça a ‘vinha do Senhor’ está destinado ao fracasso, à falência, à destruição.  Mais cedo ou mais tarde as contas chegam e, naturalmente, os administradores da vinha, incompetentes, corruptos, violentos, serão substituídos por um ‘novo povo, com uma nova consciência e prática’ que, fatalmente, tomarão de conta da ‘renovada vinha do Senhor’. Afinal, só quem sabe de ser ramo enxertado na videira que é Jesus, pode dar frutos e produzir um novo jeito de sermos sociedade e igreja, cidadão e cristão simultaneamente.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Perdidos num labirinto sem saída

Repete-se ad nauseam que vivemos ‘tempos estranhos’, e não sem razões. Poder-se-ia dizer, contudo, que sempre houve épocas em que até para uma minguada minoria de sábios nunca foi fácil decifrar o conjunto de acontecimentos em que as sociedades se encontravam mergulhadas. Algo paradoxal: afinal, aqueles setores de uma determinada sociedade que eram considerados os atores e os protagonistas de determinados acontecimentos que acabavam condicionando a totalidade da sociedade, eram também eles, por sua vez, simultaneamente, catapultados nas consequências-resultados que de lá emergiam, de forma confusa e indecifrável. Em outras palavras, parece que em determinados períodos históricos uma determinada sociedade acaba se descobrindo perdida, desnorteada, percorrendo sinuosas e obscuras vias onde parece não mais existirem saídas e nem entradas, pois uma pode ser confundida com a outra, e o suposto ponto de saída é confundido com o ponto anterior. Tem-se a impressão, hoje, de sermos tantas pequenas cobaias que correm apressada e loucamente num labirinto autoprojetado onde perdemos o mapa-projeto original que indica a única saída principal, sob pena de correr à toa e de permanecermos, paradoxalmente, num mesmo ou similar lugar.

Imaginemos, por um instante a ansiedade e o progressivo desespero que começam a tomar de conta daquelas criaturas enjauladas naquele labirinto em que, após inúmeras tentativas, não acham a única saída salvadora para todos. Começam a crescer os níveis de agressividade de uns contra outros em que se esvai, rapidamente, a lucidez necessária para parar, se reorganizar, memorizar caminhos já percorridos, colocar sinalizações para tanto para evitar correr em vão como baratas tontas. O absurdo é que é isso mesmo que aquelas cobaias acabaram se tornando: seres atordoados, dominados pelo medo e o desespero, com mentes entorpecidas, incapazes de repensar suas estratégias de saída. Haverá uma delas que, afinal, assumirá com a força e com a sua capacidade de persuasão ilusória a condução da totalidade das cobaias, sob a promessa de conduzi-las para uma saída definitiva que, de fato, não existe. Levará as poucas cobaias que ainda sobrevivem, após sangrentas lutas fratricidas, a se submeterem e a seguir a líder que, fatalmente, recomeçará a percorrer mais caminhos, já percorridos, mas que já não consegue mais reconhecer. É a perdição e a inanição que precedem a autodestruição.

 


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

XXVI domingo comum - CHEGA DE BLÁ BLÁ BLÁ, É PRECISO PÔR EM PRÁTICA O PLANO DO PAI!

Participamos de uma época cultural e social em que a palavra dada parece definitivamente banalizada. Muitos desconfiam daquelas pessoas que chegam até a registrar a própria palavra-promessa em cartório como suposta garantia de que irão cumpri-la. Há uma inegável esquizofrenia entre as afirmações verbais e a sua realização concreta, entre o prometer, formalmente, e o seu cumprimento. O mais paradoxal, contudo, é que essa contradição se naturalizou de tal maneira que poucos se escandalizam e se indignam. Jesus, no evangelho hodierno, deixa claro que não se deixa comover pela solenes e formais manifestações de devoção e de piedade, a não ser que elas sejam ladeadas por gestos concretos de compaixão e de justiça. Já em outras ocasiões o Mestre alertava os seus seguidores de que não é aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ que vai compreender, acolher e entrar na lógica e na prática do Reino, mas aquele que, sem muitas falas, cumpre o plano do Pai! Ao agir dessa forma, Jesus desmascara a vergonhosa hipocrisia dos fariseus de ontem e de hoje que enchem a própria boca de fórmulas devocionais, mas despejam uma baba nojenta de moralismos e de condenações baratas, misturada com manifestações de ódio, de intolerância, de racismo, de corrupção e de violência. Jesus prefere um seguidor que, embora aparentemente refratário ao projeto do Pai, acaba, afinal, aderindo a ele, a todos aqueles falsos seguidores que se inflamam de ardor litúrgico e celebrativo, mas que não realizam, de fato, a vontade do Pai. Daí que o Mestre sentencia que os supostos e presunçosos 'devotos santinhos' serão precedidos no Reino por aqueles ‘desviados’ que eles sempre condenaram e demonizaram.