quarta-feira, 27 de maio de 2026

Cientistas repudiam ‘Pacote do Dia do Agro’ aprovado na Câmara e alertam para riscos ambientais

O documento, intitulado “Pacote do Dia do Agro não é sustentável”, expressa oposição ao avanço de propostas legislativas consideradas prejudiciais à conservação ambiental, à biodiversidade e ao enfrentamento da crise climática. Segundo as entidades, os projetos representam “graves retrocessos ambientais” e podem gerar impactos sociais, econômicos e climáticos em diferentes regiões do país.

A nota critica três propostas aprovadas na Câmara dos Deputados. Entre elas está o PL 364/2019, que exclui campos nativos e outras formações vegetacionais abertas do conceito de vegetação nativa protegida pela legislação ambiental brasileira. Os cientistas alertam que a medida poderá facilitar a destruição de milhões de hectares de ecossistemas naturais, afetando espécies únicas e comprometendo serviços ecossistêmicos fundamentais, como a proteção do solo, a recarga de aquíferos, o abastecimento de água, a polinização e o sequestro de carbono. Outra preocupação é o PL 5900/2025, que amplia o poder do Ministério da Agricultura sobre normas relacionadas a espécies de interesse econômico. Para os pesquisadores, a proposta enfraquece atribuições de órgãos ambientais e científicos, além de concentrar decisões no Ministério da Agricultura em temas que podem impactar diretamente ecossistemas e atividades produtivas.Já o PL 2564/2025, que busca impedir que órgãos ambientais, como o Ibama, realizem embargos e punições baseados em imagens de satélite e monitoramento remoto. De acordo com a nota, a proposta dificultaria a fiscalização ambiental, especialmente em regiões de difícil acesso, como a Amazônia.

“Um tiro no pé para o agronegócio”

Para Valério Pillar, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), os projetos demonstram desprezo pela conservação ambiental e podem trazer consequências negativas inclusive para o próprio agronegócio“Esses projetos de lei aprovados na Câmara dos Deputados expressam o desdém da maioria dos parlamentares pela conservação da biodiversidade e pelos benefícios que a natureza provê a toda a sociedade. Desprotegem campos nativos e cerrados em todo o Brasil, limitam a fiscalização por satélite e debilitam a autoridade do Ministério do Meio Ambiente. É um ‘tiro no pé’ para o agronegócio, pois compromete a sustentabilidade da agricultura diante das mudanças climáticas e do maior risco de eventos extremos de chuva e seca”, afirma. No documento, pesquisadores também alertam que a flexibilização da legislação ambiental pode ampliar as emissões de carbono, reduzir a capacidade de resposta aos eventos climáticos extremos e aumentar o risco de sanções comerciais internacionais e boicotes a produtos brasileiros em mercados que exigem critérios socioambientais mais rigorosos. (IHU)

 

O pensamento escravocrata na era da Inteligência Artificial. Artigo de Moisés Mendes

 Essa foi uma das crueldades cometidas em nome do fim da escravidão: o Brasil é que iria se livrar dos danos do escravismo. Não eram os escravizados que iriam se libertar do sistema que os explorava há mais de 300 anos. Mesmo os pensadores considerados liberais do século 19 cometiam esse ‘erro’ de avaliação. É o que os jornais publicavam. Antes de pensarem no que a libertação significaria para o escravizado, as elites refletiam sobre os benefícios do fim da escravidão para o país. É mais ou menos o que dizem hoje os pensadores liberais do século 21, com um detalhe que os diferencia. Os liberais do século 19, influenciados por fatos históricos recentes, como a Revolução Francesa, eram mais ‘iluministas’ do que os liberais produtivistas de hoje. Faíscas daqueles tempos vinham de fora e iluminavam ou pareciam iluminar os abolicionistas. 

Hoje, não. Tudo o que se lê, sob o ponto de vista da elite empresarial, em reflexões de pensadores do liberalismo, passa sempre pela questão ‘racional’ posta por essa pergunta, diante da possibilidade de acabarem com a escala 6X1: o que o país ganha com isso? Não perguntam o que pode mudar na vida das pessoas se elas tiverem dois dias de folga e como isso pode repercutir na qualidade de vida e em todas as atividades, mesmo sob o ponto de vista da economia. Dois exemplos pontuais, que estão na capa do jornal O Estado de São Paulo, na edição desse 26 de maio. O primeiro, em texto de um dos pensadores ‘liberais’ do jornal, o cientista político Fernando Schüler, tem esse título em forma de interrogação: “A pergunta real sobre o fim da escala 6×1. Haverá ganho de produtividade?”.

O segundo exemplo, no mesmo Estadão, é do colunista Rodrigo da Silva, com essa chamada: “Por que o debate sobre a escala 6×1 precisa de menos romantismo e mais aritmética”. Os liberais do século 19, apesar dos erros que cometiam ao verem os negros como passivos à espera de uma abolição redentora, abandonaram cedo essas contas básicas da matemática que atormenta hoje os liberais dos tempos da Inteligência Artificial. Os liberais do século 19 diriam hoje: é muito mais do que a aritmética, estúpido. Um jornal de São Paulo, criado em 1875, foi uma das vozes mais fortes do abolicionismo no Brasil, apesar de durante muito tempo publicar na capa anúncios em que eram oferecidos, como mercadorias à venda, negros escravizados. Esse jornal chamava-se A Província de São Paulo e mais tarde passou a se chamar O Estado de São Paulo. É o que chamam há muito tempo de O Estadão, da família Mesquita, publicado até hoje como porta-voz do conservadorismo brasileiro e atualmente sob gestão profissional que inclui prepostos de banqueiros.Pois esse jornal abolicionista de 1875, que mobilizou os liberais paulistas pelo fim do escravismo, é o mesmo que mobiliza agora os liberais produtivistas do século 21 em defesa da manutenção da escala 6X1. Porque, segundo esses liberais, a questão é matemática.

 

domingo, 24 de maio de 2026

O ESPÍRITO JÁ ESTÁ DENTRO DE NÓS! É URGENTE RECONHECÊ-LO!

 

O Espírito não criado, o preexistente,

que com sua centelha original alumiou as trevas,

nunca deixou de pairar sobre os seres vivos.

Jamais deixou de permear o cosmos infinito com sua seiva vital.

Hoje, continua a ser invocado e suplicado,

mas ELE JÁ ESTÁ DENTRO DE CADA SER VIVO...

...que, no entanto, ainda teima em pedir que Ele venha!

Talvez fosse sensato compreender que são os seres vivos

que ainda não sentem o Sopro do Pai presente e atuante dentro deles.

INVOQUEMOS O ESPÍRITO NÃO PARA QUE VENHA,

MAS PARA QUE SEJA RECONHECIDO E ACOLHIDO!

 

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

PENTECOSTES - O 'TERREMOTO EXISTENCIAL' QUE MUDA A NOSSA VISÃO DE MUNDO E A NOSSA PRÁTICA!

Existem na nossa vida uma multiplicidade de acontecimentos aparentemente contraditórios, de encontros fortuitos, de gestos ambíguos e de enigmáticas tendências. Num primeiro momento, tudo isso nos parece um amontoado de fatos sem conexão, sem propósitos e sem intencionalidades. No entanto, é possível que, ao fazermos experiências fortemente impactantes, verdadeiros terremotos interiores, tudo isso mude. São radicais mutações do nosso ser que nos obrigam a olhar a totalidade da nossa existência com outros olhos e com uma inédita disposição. Ficamos tão atônitos, e até intimidados com esse tipo de descoberta que não titubeamos em afirmar que ‘na vida nada acontece à toa’ ou que ‘Deus sabe o que faz, pois Ele escreve certo por linhas tortas’. Graças a essas experiências inéditas, mesmo que dolorosas, tudo nos parece interconectado, carregado de sentido, e o que nos parecia incompreensível e misterioso acaba se tornando, surpreendentemente, um marco referencial na nossa vida. Esta foi, de alguma forma, a mesma experiência luminosa que fizeram os discípulos de Jesus em Pentecostes, após a sua morte e a sua definitiva ausência física. Uma experiência coletiva, original, reveladora, sofrida, irrepetível, da compreensão e dos propósitos de suas vidas e de sua missão. Quando isto ocorre, todos os acontecimentos, os encontros, os gestos se iluminam e  adquirem sentido, inclusive o fracasso, a decepção, a dor e a morte! Deixemos Pentecostes acontecer!

sábado, 16 de maio de 2026

SOLENIDADE DA ASCENSÃO - CHEGA DE RASTEJAR, É PRECISO SE ELEVAR E OLHAR COM OS OLHOS DE QUEM OLHA DESDE O CÉU!

 Frequentemente as nossas atitudes e perspectivas denunciam que somos ainda demasiadamente terrenos, quase rasteiros. Não conseguimos nos desvencilhar de um imediatismo interesseiro e opaco. Temos dificuldade de nos transcender, de enxergar um pouco mais além do nosso nariz. Afinal, somos crias e multiplicadores de uma cultura supostamente pragmática e eficiente do aqui e agora. Jesus, no evangelho de hoje, ao se distanciar fisicamente dos seus discípulos, em lugar de consolá-los e conformá-los, os incentiva a fazer novos discípulos, novas testemunhas do Pai. Em outras palavras, os catapulta para fora do mundinho tapado em que viviam e atuavam, e os envia para se inserirem nos grandes cenários e desafios da sociedade. Jesus não quer uma seita de cultuadores piedosos, adoradores submissos da sua pessoa, mas reprodutores incansáveis de sua prática, e protagonistas ousados da Boa Nova nos quatro cantos do planeta. Chegou a hora de pensar e agir grande. De olharmos a nossa realidade com os olhos de quem a vê desde o Céu. Que sabem descortinar com clarividência, agora, novos e invisíveis horizontes e perspectivas de vida. Mas para tanto é preciso, urgentemente, que aprendamos a nos elevar, a nos distanciar de nós mesmos e a nos educar a enxergar as pessoas da nossa humanidade que ninguém vê e ninguém convida! 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Pela primeira vez, as guerras estão deslocando mais pessoas do que inundações, tempestades e outros desastres naturais

Imaginemos um assentamento que abrigasse mais de 82 milhões de pessoas — praticamente a população da Alemanha. Isso é real, mesmo que não sejam todas juntas: é o número de pessoas que foram deslocadas internamente dentro de seus próprios países no final de 2025, após fugirem de conflitos armados ou desastres naturais, de acordo com as estimativas mais recentes do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), a principal organização global para medir e analisar esse fenômeno, que publicou seu relatório anual nesta terça-feira.

Cada ano traz um desenvolvimento diferente, mas todos apontam na mesma direção: a deterioração global está se agravando. Durante anos, desastres naturais — inundações, tempestades, ciclones — causaram muito mais deslocamentos populacionais do que conflitos armados. De fato, 2024 foi um ano excepcionalmente devastador em termos climáticos. Mas as guerras vêm ganhando terreno na dinâmica global de deslocamento forçado e, em 2025, pela primeira vez desde que registros globais comparáveis começaram a ser mantidos, guerras e violência causaram mais deslocamentos forçados dentro dos países do que desastres naturais: os conflitos desencadearam um recorde de 32,3 milhões de movimentos populacionais (um aumento de 60% em relação ao ano anterior), em comparação com 29,9 milhões ligados a desastres naturais. Em 31 de dezembro de 2025, um total de 68,6 milhões de pessoas estavam vivendo longe de suas casas devido à guerra e outras 13,6 milhões devido a eventos relacionados ao clima. (IHU)

Nem galinhas nem crocodilos: a lição das mães que nos ensinam a voar. Artigo de Massimo Recalcati

 A literatura psicanalítica, basicamente, forneceu um retrato patológico da mãe. Um bestiário variegado a descreveu como uma desgraça a ser evitada como a peste: a mãe — a mãe galinha ou crocodilo, polvo ou vampiro — é a mãe que invade abusivamente a vida do filho, recusando sua perda; na linguagem freudiana, mas também junguiana, é a mãe devoradora que, em vez de se separar de seu fruto, o absorve canibalisticamente. Mas essa versão tentacular da mãe — da qual a prática clínica ainda oferece inúmeros exemplos hoje — só pode ser a versão patológica da maternidade. A essa, dever-se-ia acrescentar a figura da mãe morta ou fria, como o oposto da devoradora, ou seja, a mãe que abandona seus filhos tornando-se ausente. Também dever-se-ia tentar, contudo, ser mais justos com a mãe e, portanto, evocar não apenas sua onipotência devastadora, mas também seu ser figura insubstituível de cuidado. O filho, dizia Rainer Maria Rilke em um poema pungente, é como o orvalho que precisa de uma planta para se sustentar. E essa planta seria, precisamente, a mãe. Para além da identidade biológica, dever-se-ia lembrar, antes de tudo, que ser mãe não é o mesmo que ser a figura genitorial do filho.

Ser mãe não é um dado da natureza, mas uma experiência que consiste não tanto em gerar a vida, mas em cuidar dela de forma autêntica. Nesse sentido, Françoise Dolto lembrava que toda mãe é fundamentalmente sempre adotiva, no sentido de que o que a torna tal não é a continuidade biológica com o filho, mas, precisamente, o ato de cuidar. Poderíamos então dizer, de forma mais radical, indo além da identificação do materno com um único sexo específico, que existe uma mãe sempre que há um ato de cuidado ou, se preferir, que todo ato de cuidado se revela, em sua essência, profundamente materno. Mas em que consistiria um ato de cuidado? A resposta a essa pergunta nos leva a perceber como a lição da mãe vai muito além do bestiário no qual se gostaria de aprisioná-la.O ato de cuidado materno consiste, basicamente, em reconhecer a diferença substancial que distingue o nome do número. Aos olhos de uma mãe, de fato, cada filho é filho único, mas não na ordem do número. É filho único porque é filho insubstituível e incomparável. A lógica que inspira o cuidado materno nunca é aquela do geral, mas aquela do particular. Nesse sentido, Lacan lembrava que o amor materno é sempre amor pelo nome. É amor pela diferença do outro que rejeita ou encara com justificada suspeita qualquer generalização. A lição da mãe nos lembra, em outras palavras, que o amor que cuida nunca pode ser amor pela vida em geral, mas apenas amor de cada um, pelo filho por ser único, pelo seu nome mais próprio. Seu cuidado, portanto, nunca poderá ser procedural, protocolar, nunca será anônimo, impessoal, mas sempre particularizado. Nesse sentido, a lição materna também deveria ressoar em nossa vida civil e política, que com muita frequência demonstra sinais de incúria, ou seja, de confundir, em vez de distinguir, o nome do número.

Quando nos sentimos mais maltratados senão justamente quando nosso nome é confundido com um número? Esse é o risco da ação política, que muitas vezes pensa por meio de números em vez de nomes. Basta pensar na guerra como o fenômeno mais radical da incúria, podemos ver claramente como ela contradiz radicalmente o código materno. Se a maternidade, ao cuidar de cada indivíduo, torna a vida insacrifável, digna de ser considerada, como o Papa Francisco nos lembrou com força, "imensamente sagrada", a política pode, ao contrário, fazer do sacrifício do particular a sua ideologia subjacente. As vidas individuais não valem nada em relação à necessidade geral. Diversamente, o ensinamento materno nos lembra que ninguém é dono da vida de seu filho, nem mesmo quem a concebeu ou adotou. Pelo contrário, o que a maternidade demonstra é a existência de uma hospitalidade — acolher a vida do filho no próprio corpo — que renuncia a todos os direitos de propriedade.

É isso que vemos nestes belos meses de primavera nos parques públicos, quando encontramos mães ensinando seus filhos a caminhar. Um gesto aparentemente simples, mas que carrega em si toda a lição do amor materno: a você que foi sangue do meu sangue, vísceras nas minhas vísceras, eu ensino a caminhar, a se afastar de mim, a trilhar seu próprio caminho. Esse é o cerne mais profundo da grande narrativa bíblica do Rei Salomão. Seu famoso estratagema da espada revela que a verdadeira mãe não é aquela que reivindica o filho como sua propriedade, mas aquela que está disposta a perdê-lo, a renunciar a toda propriedade, contanto que a vida daquele filho seja salva.