quinta-feira, 2 de abril de 2026

QUINTA-FEIRA SANTA - UM PÃO ESPECIAL PARA TODOS, PARA 'SANTOS' PECADORES, E PARA 'PECADORES' SANTOS! - Um conto -

 

 

Um padeiro especial

Chegou, surpreendentemente, resplandecente, a manhã de quinta-feira santa e, como de costume, Antônio José, de inegável ascendência italiana, saiu para o mercadinho do velho e renomado Augusto, conhecido como ‘Bigode Doce’, - como ele mesmo gostava de se autodenominar.

- ‘Lá vem o madrugador...’ exclamou, com o seu vozeirão, como se estivesse à sua espera.

- ‘Bom dia, Antônio José, meu ilustre e estimado freguês’, não sem esconder uma veia de ironia.

- ‘Não esqueci, não, da sua promessa que você cumpre religiosamente toda quinta-feira santa...e andei me preparando, viu? antecipou-se Augusto.

- ‘Bom dia, bom dia’, repetiu Antônio José com ares de meio chateado e meio preocupado.

- ‘Imaginei, afinal, faz mais de 15 anos que venho aqui a comprar em suas mãos a matéria prima para a minha arte...’ respondeu Antônio José.

- ‘Você vai querer cinco ou mais pacotes de farinha de trigo’? – adiantou-se Augusto.

- ‘Ontem, o atacadista de minha confiança deixou aqui dois sacos de 50Kg de farinha de trigo legítima, sem misturas. Ela vem direto do moinho, lá do porto, viu? Com certeza vem do sul do País, talvez do Rio Grande do sul. Soube que o Brasil aprendeu a cultivar trigo e a fazer uma farinha de excelente qualidade? Que seja!’ sentenciou, o Bigode Doce.

- ‘Que bom, fico feliz, espero que desta vez o meu pão tenha um sabor especial’, disse o Antônio, ao lembrar, na sua mente, o incidente do ano anterior em que o pão que ele havia produzido com dedicado afinco, no final, não pode evitar o gostinho sutil de farinha mofada.

Não que o pessoal tenha dado fé desses ínfimos defeitos, ao contrário, o havia achado fragrante e saboroso aquele pão, mas ele, cricri como sempre foi, não ficou entusiasta da sua obra e não queria que acontecesse o mesmo. 

Antônio José, de fato, era conhecido por ser um perfeccionista. Encontrava defeito em quase tudo; não somente nos outros, mas também naquilo que ele mesmo fazia. Desta vez iria prestar mais atenção e, após a publicidade do Augusto, tinha certeza de que não iria falhar, mas não sem antes cheirar e apalpar aquela farinha de trigo que, agora, lhe era oferecida em suas mãos.

Ele examinava, meticulosamente, com gestos sincronizados, quase mecânicos repetitivos, dando até a impressão de ser conduzido por uma leve neurose, aquela cândida farinha. Fazia-a escorrer em suas mãos largas e rugosas e a levava delicadamente às suas aprimoradas e exigentes narinas. Depois desse ritual, Antônio José se dirigiu ao Bigode Doce e deu-lhe a conhecer a sua decisão: iria comprar logo 6 pacotes. Ele havia calculado, mentalmente, que seis quilos de pão eram mais que suficientes para dar conta da sua antiga promessa...

- ‘E aí, passou no teste a minha farinha’? sussurrou, jocosamente, o Augusto, bem baixinho no ouvido daquele exigente e respeitado freguês.

- ‘Parece que sim’, respondeu-lhe Antônio, - ‘pelo menos nessa primeira fase da minha empreita. Vamos ver como a sua farinha vai se comportar quando se transformar em massa a ser sovada’, respondeu-lhe aquele padeiro de ocasião.

Uma curiosa promessa

Efetivamente, Antônio José nunca foi padeiro de verdade, nunca vendeu pão para nenhuma freguesia. Transformava-se em produtor refinado de pão somente num dia do ano: na quinta-feira santa! Fora isso, ele era um fiel apreciador de arroz e feijão de todos os dias, sem esquecer, contudo, da sua insubstituível banana prata que, ele dizia, combinava com tudo, e dava consistência e valor à refeição.

Eram poucas as pessoas que sabiam, vagamente, o sentido daquela promessa de produzir pão na quinta-feira santa e distribui-lo, graciosamente, fora da porta da igreja matriz, justamente após a celebração do lava-pés e da santa eucaristia. Antônio José evitava aparecer na igreja na hora da celebração solene, e muitos se perguntavam como uma pessoa como ele, com uma iniciativa tão simbólica e caridosa, não participava daquele mistério de serviço e de partilha que era o que, de fato, se queria celebrar.

Ano após ano, os fregueses da matriz já sabiam que iriam encontrar fora da porta da igreja o Antônio José com três paneiros cheios de pão crocante e cheiroso. Aliás, havia alguns devotos espertinhos que não escondiam, e não deixavam de falar em boca pequena que a parte mais interessante da missa era o que vinha depois dela: a distribuição dos pães daquele padeiro improvisado e amador, mas que produzia um pão de excelente qualidade e de sabor inimitável que nenhum outro padeiro profissional da cidade sabia fazer.

 Um padre escravo dos preceitos

O padre Queiroz, pároco da matriz de Nossa Senhora da Conceição, ele sim, sabia o motivo real da promessa do Antônio José, mas fingia ignorar e, principalmente, mudava de conversa quando alguém perguntava.

Corria o ano de 2011, numa segunda feira da semana santa, quando Antônio José foi até a secretaria paroquial para tirar algumas dúvidas com o padre Queiroz. Aquele ministro de Deus havia chegado dois anos antes para tomar de conta daquela paróquia, mas já conhecia quase toda a sua freguesia, inclusive o Antônio José.

- ‘Bom dia padre, a sua bênção’, disse com um largo sorriso.

- 'Deus te abençoe, irmão’, respondeu gentilmente, padre Queiroz.

- ‘Quais bons ventos te trazem aqui, homem de Deus...’?

- ‘Vim me confessar, padre! Tem um tempinho para ouvir esse pobre pecador?’

- ‘Sim, claro, vamos para esse quarto ao lado, é mais tranquilo, aqui ninguém nos incomoda’ disse o padre convidando-o a se dirigir a um quarto bem austero, abafado e com vários quadros de bispos na parede, e o do papa em exercício.

- ‘Acomode-se nessa cadeira, não precisa você se ajoelhar...’ tranquilizou-o o padre.

Antônio José um tanto titubeante, sentou-se, fixou o padre já sentado na sua frente a abriu o coração....

-‘O senhor deve ter reparado que as poucas vezes que participo de suas missas eu não comungo’, começou o penitente, sem ter coragem de olhar diretamente o seu confessor. E continuou: ‘Depois que a Rosália me largou por outro homem há mais de 9 anos eu fiquei vivendo que nem solteiro comportado por quase três anos, mas aí, Deus colocou no meu caminho a Alcione, um anjo de Deus. Não sei por que Deus não a colocou no meu caminho quando havia chegado a minha hora de ter família própria....Destino é assim, ninguém planeja, só acontece sem a nossa permissão ou sem a nossa censura. Moral: desde que me juntei com a Alcione deixei de comungar como me ensinaram desde criança’.

O padre Queiroz com os olhos semiabertos ouvia atentamente aquele homem que falava pausadamente e com ar compenetrado.

Vivo com esse anjo maravilhosamente bem. Não que não haja algumas pequenas incompreensões, mas tudo resolvemos no diálogo e no entendimento...de forma que eu pensei, padre, que na quinta feira santa eu poderia comungar, o que o senhor acha? Afinal, estou amando e me sinto amado e nada melhor do que receber o corpo do Senhor juntamente com a Alcione até como expressão de comunhão entre......’

- 'Para, para....bem aí’ interrompeu o padre Queiroz.

- ‘Está me dizendo que vocês, justamente no dia da instituição da Santa Eucaristia, querem receber a comunhão indevidamente?’ exclamou um tanto alterado o confessor.

- ‘Como ‘indevidamente....’ interveio o Antônio José.

- ‘Padre, acabo de lhe falar que estamos nos amando e provando isso todo dia, e é justamente por isso que nos sentimos em condição de receber o corpo de Cristo, em que pesem nossas fragilidades e pequenas divergências...Onde está o crime?’, concluiu, Antônio José.

O padre Queiroz já visivelmente irritado com o que o seu penitente acabava de lhe colocar interveio com autoridade.

- ‘Nem pense em fazer isso. Comunhão é coisa séria. Vocês vivem em situação irregular perante Deus e perante a igreja. Vocês são ’amasiados’, não casados! Percebem a gravidade disso?’ afirmou o padre, levantando a voz e se ajeitando na cadeira, dando a impressão que queria se levantar e não deixar mais que a conversa fluísse entre confessor e penitente.

- ‘Permita-me, padre, por favor...veja.....queria só lhe colocar o meu ponto de vista.... deixe terminar o raciocínio...’ balbuciava o desconsolado Antônio, já observando que o padre havia se levantado e um tanto vermelho no semblante, andava depositando desordenadamente a sua estola em cima de uma mesinha de ferro....

A essa altura Antônio também se levantou e, mesmo com um andar tímido e olhando de soslaio aquele confessor, se aproximou dele e se colocou na sua frente...

Um cristão especial

- ‘Desculpe-me, padre, mas o que o senhor está falando ofende em primeiro lugar os ensinamentos do nosso Mestre Jesus e vou lhe dizer o porquê’, começou, agora com coragem surpreendente, o Antônio.

E prosseguiu:’ Pelo que sei Jesus na quinta feira da sua paixão deu pão também para aquele traidor do Judas e aos outros apóstolos que pouco tinham de santo não recusou nem pão e nem vinho, do mesmo jeito que ele fez ao longo da sua vida inteira...

Me desculpe padre, pois não quero ensinar o ‘pai nosso’ ao vigário, mas o senhor deve estar lembrado o tanto de refeições que Jesus tomava com ladrões públicos, corruptos, fariseus hipócritas, prostitutas e amasiados e sabe por que, padre’? continuava um tanto exaltado Antônio José, parecendo perder quase o controle.

Porque Jesus veio para os pecadores e não para os supostos justos! Porque Jesus acreditava que acolhendo as pessoas e não as rejeitando, elas sairiam daquele encontro fraterno totalmente mudadas! Sei que sou pecador, padre, mas não porque estou vivendo com a pessoa que amo. Mesmo que quisesse regularizar a minha situação, para vocês nem poderia pois, a minha primeira mulher está viva e vivendo com outro. Afinal que culpa eu tenho se ela me largou? Eu tenho que viver casto até à morte dela para poder casar-me com Alcione? O senhor acha que viria aqui e lhe abrir o coração com sinceridade e com boas intenções se não sentisse dentro de mim o desejo verdadeiro de comungar? Um pilantra, padre, não faria isso! Por que me excluir desse jeito? É esse o amor que o senhor prega’?

O padre Queiroz tentava se encaixar naquele impetuoso monólogo, mas não encontrava brechas e, talvez, argumentações. Afinal, o padre Queiroz como muitos outros clérigos só repetia o que lhe ensinaram e aprenderam: não pode, não deve, é pecado, é sacrilégio, Deus pune, Deus castiga, vai para o inferno....e muitas outras expressões de condenação.

Finalmente, o padre Queiroz deteve com um gesto um tanto brusco a fala do Antônio e fixando-o nos olhos sentenciou:’ prezado, esta é a lei da igreja! Pronto. Aconselho-lhe a não aparecer para comungar na quinta-feira santa porque terei a obrigação moral de lhe recusar a hóstia! Falei, pronto’! E saiu, apressadamente.

Uma Eucarista diferente

Antônio José sentiu um nó na garganta quase a sufocá-lo. Sabia que não era arrependimento por ter falado tudo aquilo para um padre. Sentia que era mais fruto de um desencanto, de uma decepção que não imaginava poder experimentar, um dia. Saiu mansinho, cabisbaixo, da secretaria e se dirigiu para a sua casa. Demorou o dia e a noite toda para tentar digerir aquele desencontro com o padre Queiroz.

Na madrugada daquela fatídica quinta-feira santa Antônio José acordou Alcione.

Amor, passei a noite em branco, lutei comigo mesmo, relutei, mas tomei uma decisão....ou melhor, fiz uma promessa’.

Alcione visivelmente chateada o olhava incrédula. Afinal, eram as três da madrugada.

- ‘O que foi homem, o que andou inventando’ disse-lhe, ela.

- ‘Não, não... deixa para lá, desculpa....volte a dormir, querida. Desculpa’.

O único e moderno sino da torre da matriz anunciava o início da missa de lava-pés, e nada de Antônio José aparecer. Alcione um tanto desconsolada e preocupada com a ausência do companheiro que havia saído ainda cedo decidiu que já não valia mais a pena esperá-lo e se dirigiu, rapidamente, à igreja matriz que ficava a uns 10 minutos, andando. Ao chegar à praça ficou boquiaberta ao notar que Antônio José já estava lá e ao seu lado três grandes volumes que, na hora, não conseguiu identificar.

- ‘O que aconteceu, querido.... esperei por ti, até agora. O que está fazendo aqui fora da igreja? Virou vendedor ambulante? O que você tem aí, nesses bagulhos’? indagou ela.

Antônio José com um sorriso maroto, mas cheio de luz, retirou a lona de tecido que cobria os vistosos volumes e, imediatamente, Alcione foi invadida por um agradável perfume de pão. Ficou estupefata.

- Onde foi comprar esse tanto de pão? Para que é isso? O que lhe deu na cabeça, homem? Perguntou com ar de espanto, Alcione.

Eu fiz'! disse orgulhoso Antônio José.

E continuou: 'Amor, depois daquela conversa que eu tive com o padre eu refleti muito....muito mesmo. Achei que não podia deixar correr tudo aquilo sem nada fazer. Não queria expor o padre, fazer futrico, polemizar...me entende?  Decidi fazer aquilo que eu acho que Jesus faria numa quinta-feira santa: oferecer, de graça, o pão da compaixão, do perdão infinito a todas as pessoas que desejam se sentir perdoadas e que se dispõem a perdoar...

Falei para mim mesmo que toda quinta-feira santa iria produzir o melhor pão da cidade e o ofereceria a todas aquelas pessoas que iriam celebrar a eucaristia na igreja, mas que sairiam de lá sem ter podido comungar. Pessoas que, como nós, são excluidas de comer o verdadeiro pão que sacia a verdadeira fome de amor e de fraternidade. 

Aqui estou eu para lhes oferecer um pão que não exige nem perfeição e nem santidade para ser comido’.

Alcione olhou intensamente Antônio José. Sentia que seus olhos estavam afogando naquelas lágrimas que agora escorriam copiosamente do seu rosto, incapaz de dominá-las. 

Depois pegou na mão de Antônio José e lhe sussurrou: ’eu vou ficar aqui contigo e vou te ajudar a distribuir o pão. A partir de hoje seremos dois a pagar a promessa, até que Deus nos der saúde e força’! 

Feliz Quinta-feira santa!

 

  

segunda-feira, 30 de março de 2026

O clã Bolsonaro exporta o trumpismo - Por Dario Pignotti

 

Neste sábado, enquanto milhões de americanos amaldiçoavam Donald Trump em manifestações sob o lema “Chega de Reis”, um grupo de extremistas, em nítido contraste com essa indignação, elogiava o republicano em Dallas, Texas. Entre os apoiadores incondicionais do “Rei” Trump estavam dois representantes de Jair Bolsonaro, seus filhos Flávio EduardoO ex-presidente foi impedido de viajar para o Texas porque permanece em prisão domiciliar, onde pretende estabelecer uma sede para o neofascismo verde-amarelo, enquanto cumpre uma sentença de 27 anos como líder da tentativa de golpe de 2023A revolta brasileira foi inspirada pela ocupação do Capitólio em 2021, apoiada por Trump, que alegava fraude eleitoral por parte do candidato democrata, Joe Biden.

Na cúpula de Trump em Dallas, Bolsonaro foi representado por seus filhos, Flávio e Eduardo, figuras importantes no clã familiar, organizado com uma hierarquia de estilo militar. Flávio é pré-candidato à presidência nas eleições de outubro, onde, segundo as pesquisas, enfrentará uma disputa acirrada com o atual presidente Luiz Inácio Lula da SilvaSeu irmão Eduardo é um ex-congressista que vive nos Estados Unidos há um ano, onde trabalha como lobista para Trump, o Departamento de Estado e o Congresso. Questionado pela imprensa, Eduardo disse que estava em Dallas a mando do pai. Na opinião dele, a política não tem muitos segredos; funciona como o exército: a palavra do general não é questionada, é executada por "coronéis, tenentes e soldados".

“Aos seus pés”

Desde que foi recebido por Trump em março de 2019, três meses após assumir a presidência, Jair Bolsonaro declarou sua devoção a ele sem qualquer constrangimento. Sua subserviência atingiu extremos constrangedores, como quando se pôs em posição de sentido e se curvou diante da bandeira americana. E afirmou, por meio de seu então ministro das Relações Exteriores, sua disposição de ser um "pária" da comunidade internacional se esse fosse o preço a pagar por seu alinhamento irrestrito. Um alinhamento que manteve inabalavelmente mesmo após perder para Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando fez de sua lealdade a Washington uma marca registrada de sua política de oposição. Assim, em setembro do ano passado, dias antes de ser condenado juntamente com um grupo de generais, ele organizou eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, lembrados pelas imensas bandeiras americanas sob as quais milhares de ativistas se protegeram. Nesses comícios, os filhos do líder de direita, Flávio e Eduardo, discursaram como porta-vozes de seu superior. Neste sábado, em Dallas, o formato se repetiu, com Bolsonaro puxando os cordões de Brasília; seus filhos expressaram seu apoio incondicional a Trump e aos Estados Unidos discursando antes e durante o evento da Conferência de Ação Política Conservadora.

 "Sepoy"

O deputado Carlos Zarattini, do Partido dos Trabalhadores, deplorou a atitude "servil" do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência, instando-o a ser menos subserviente politicamente. Ele criticou o senador por prometer entregar de bandeja os minerais de terras raras do Brasil, apesar de o país possuir algumas das maiores reservas mundiais. Ao contrário da abordagem de Bolsonaro, continuou o deputado, o governo Lula rejeita a presença de mineradoras americanas, a menos que elas se comprometam a processar os recursos dentro do país. A possível tomada de controle dos campos de petróleo brasileiros pelos Estados Unidos foi um dos temas discutidos na semana passada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e seu homólogo, Marco Rubio, à margem da reunião do G7 realizada na França.

 Risco de invasão

Outro tema recorrente na agenda dos ministros das Relações Exteriores é a inclusão das organizações criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital na lista de grupos terroristas ou narcoterroristas do Departamento de Estado. Vieira e o próprio Lula contestam essa inclusão. Para o presidente, esse rótulo mascara o risco de uma "invasão" estadunidense do território brasileiro. Esse risco de invasão é visto como uma oportunidade por Flávio Bolsonaro, que, durante sua visita aos Estados Unidos, concordou em classificar essas facções como “terroristas”. Ele repetiu, com mais moderação, o que já havia declarado no ano passado, quando disse sonhar com a Marinha dos EUA ancorada na costa do Rio de Janeiro e seus comandos invadindo os morros para caçar os “narcoterroristas” do Comando Vermelho. Uma tese historicamente defendida por Jair Bolsonaro.

 Jair contra Lula

Como vocês podem ver, foi Jair Bolsonaro, e não seus filhos Flávio e Eduardo, quem escreveu os discursos na CPAC. Esses discursos variaram de elogios a Trump e às diretrizes de sua política externa, que está intrinsecamente ligada à guerra contra o narcoterrorismo, a críticas ao suposto "intervencionismo" de Joe Biden nas eleições de 2022. Na realidade, Biden não cedeu às pressões golpistas de Bolsonaro após perder para Lula. Tudo o que Flavio e Eduardo disseram foi roteirizado enquanto estavam em prisão domiciliar em Brasília. Sem talento ou biografia, Flávio não passa de filho do pai, como Lula da Silva costuma salientar. Sempre que o atual presidente critica a extrema-direita, ele direciona suas críticas a Jair Bolsonaro, a quem apelida de "a coisa", ignorando deliberadamente seu filho. É incomum o líder do PT pronunciar o nome "Flavio", algo que certamente fere o ego do jovem pré-candidato.

Esse tratamento injusto dado a Flávio tem um significado político maior: as eleições de 4 de outubro e o possível segundo turno no dia 25 daquele mês serão, em última análise, um duelo entre Lula e Jair Bolsonaro, deixando o senador carioca com o papel de mero figurante. O próprio Flávio reconheceu isso no fim de semana, durante sua visita aos Estados Unidos. Em declarações à imprensa, afirmou que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto, residência presidencial, ao lado de seu pai. Mais tarde, tentou se retratar, dizendo: "Ele será o presidente, não o pai dele."

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

NUM DOMINGO DE RAMOS, EM ALGUM LUGAR , NUM PASSADO QUE É HOJE! - Um conto

Não foi sonho, foi uma espécie de pesadelo.

A noite toda Edinho havia se mexido e remexido naquele colchão matrimonial manchado pelo desleixo do tempo, e com forte olor de mofo.

Sentou-se na cama mais cansado do que quando havia se deitado no dia anterior. Olhos inchados, cabelos desgrenhados, e a clara sensação de ter sonhado a mesma coisa, repetidas vezes, durante toda a noite.

Não conseguia entender a razão para tanto.  

- ‘Que diacho aconteceu comigo, ontem, para ter uma noite infernal como essa!’ - dizia consigo mesmo. Tentava, na sua mente, resgatar alguns acontecimentos do dia anterior para ver se, por acaso, poderiam ter influenciado o seu sono.

Esforçava-se para se concentrar em algo que poderia ter perturbado a sua rotina, mas nada aflorava à sua mente. Não encontrando nenhuma resposta, com cautela colocou as duas mãos no rosto, na testa, esfregou os braços como que à procura de algum sinal de febre, mas nada.

Estava a renunciar a compreender aquele seu mal-estar quando o seu olhar posou, sem querer, naquele calendário que nunca o havia abandonado desde criança, pois marcava tudo. Marcava as festas, os santos do dia, as luas crescentes, as cheias e as minguantes, as luas boas para semear e plantar. Até orações para todo tipo de necessidade havia naquela enciclopédia que marcava o lento ritmo do tempo.

- ‘Minha nossa’, - exclamou, estupefato, - ‘hoje é festa de Ramos’!

- 'Começa a semana santa e eu nem dei fé’! exclamou, um tanto chateado, como que a repreender a si próprio por esse descuido de memória.

- ‘Estou ficando velho, distraído e desligado de tudo e todos...’ disse, desconsolado.

Empinou o corpo ainda vigoroso, mas já ligeiramente curvo, após 70 anos de vida intensa, e levantou-se com uma agilidade que o surpreendeu.

Tomou um banho rápido que lhe devolveu disposição e humor, e bebeu a pequenos sorvos um café bem forte.

Sentia-se um outro homem.

Tudo, agora, parecia fluir nos seus pensamentos com uma nitidez que só lembrava ter possuído quando era bem mais jovem.

Tomado já por uma energia desconhecida e por um fio de ansiedade começou a procurar o seu velho e inseparável facão. Achou-o no mesmo lugar de sempre, repousando como um guerreiro fiel numa bainha de couro desgastado e carcomido.

Apressou-se e saiu para o quintal indo direto para o juçaral que ele havia plantado 10 anos antes. Encontrou um pé de juçara bem pequeno e cortou um galho vigoroso de um verde intenso.

- ‘Esse daqui serve’ - disse. Os poucos vizinhos que conseguiam trocar algumas palavras com o sisudo Edinho sabiam que ele era cuidadoso e ciumento de suas plantas, flores, trepadeiras, ervas de todo tipo de aromas.

Voltou para a cozinha. Depôs o facão no mesmo lugar. Arrastou um pequeno tamborete de couro e com delicadeza deitou o ramo de juçara.

Armou a sua esfarrapada rede bem em frente daquele ramo que já adquiria ares de sacralidade. Abriu a rede e deitou-se. Todo domingo de Ramos ele fazia isso, desde que a Rosário, sua inseparável companheira, havia falecido, na madrugada de um domingo de ramos, dez anos antes. 

Edinho já não aparentava mais aquele semblante cansado e de quem passou uma noite mal dormida. Ele, agora, sabia o porquê daquela espécie de pesadelo que o havia atormentado durante toda aquela noite.

Fechou, por um instante, os olhos, mas os reabriu imediatamente, quase como se quisesse fugir de algo que não queria mais lembrar. Sabia que se os mantivesse fechado ele iria voltar a ver vultos, fantasmas e lembranças gostosas e dolorosas que ele, quando consciente, queria ter enterrado há muito tempo, mas que jamais havia conseguido.

De novo! As semanas santas, antes ou depois, vão acabar comigo...’ dizia para si.

Edinho olhava, fixamente, angustiado, aquele telhado de folhas de ubim, dividido internamente, sem saber se, mais uma vez, se deixaria levar por lembranças que, sistematicamente, emergiam no início da semana santa,com a sua tácita cumplicidade, ou se dava um basta definitivo a tudo isso.

De um lado, ele queria voltar página na sua vida e sepultar toda lembrança que lhe produzia renovada dor, sofrimento indescritível, mas, ao mesmo tempo, ao contemplar um simples galho de juçara no dia da festa de Ramos, deitado numa rede, e mantendo os seus olhos lacrados, Edinho voltava a ver rostos de pessoas amadas que, agora, talvez estivessem vagando no reino do anonimato, mas não para ele que as sentia reais, vivas,  e presentes como outrora.

E isto, apesar da sua trágica ausência física, proporcionava-lhe um misto de envergonhado e íntimo regozijo e de gostosa saudade, mas, também, de irreprimível sentimento de culpa por quase se alegrar em rever na sua mente pessoas já falecidas e enterradas.

Pelo sim, pelo não, Edinho decidiu não fechar mais seus olhos. Sentou-se na sua rede, pensativo, mas consciente de ter já tomado uma decisão.

- ‘Com a minha idade não dá mais para viver de lembranças, boas ou tristes, dolorosas ou gostosas. Chega de sonhar de olhos fechados! O ramo da minha juçara dentro de alguns dias vai murchar e secar...e, comigo, não vai ser diferente’ - dizia Edinho, com um fio de tristeza e de realismo.

Naquele instante foi como se a ficha da vida tivesse caído, finalmente, e encontrado o seu sentido. Edinho levantou-se, dirigiu-se até à parede e arrancou com firmeza o calendário, depois pegou em suas mãos o ramo de juçara e saiu, novamente, para o quintal, com um isqueiro e uma garrafinha de álcool. Afastou-se um pouco de suas plantas e flores e, naquele terreiro que mais se parecia a um jardim, ateou fogo ao calendário e ao ramo de juçara, talvez, imaginando que afastaria de si o seu turbolento passado.

Enquanto o fogo demorava para pegar e a fumaça já começava a incomodar os olhos irritados e lacrimejantes de Edinho, outras lágrimas, inexplicavelmente, começavam a brotar e a se misturarem entre si. Por um instante ele tentou fechar os olhos como querendo se defender da fumaça, mas resistiu.

Edinho, naquele domingo de ramos, de paixão e de vida nova, entendeu que precisava manter os seus olhos sempre abertos para poder expulsar os fantasmas e os medos, as tristezas e os pesadelos. Entendeu que seus olhos precisavam voltar a receber luz, uma luz nova, carregada de energia poderosa para ele próprio se alimentar de esperança, de futuro, de vida nova. 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Domingo da Semana Santa - PAIXÃO DO MUNDO, PAIXÃO DE JESUS!

 O itinerário de Jesus, principalmente na sua derradeira semana de vida não é mais trágico e mais dolorido do que o itinerário de milhões de seres humanos de hoje. Contemplar as atuais farsas de julgamentos formais, supostamente imparciais, os cotidianos abusos de policiais e os brutais assassinatos de milhões de seres humanos cometidos por governos fantoches e pelos ‘democraticamente eleitos’ sob os olhos complacentes de igrejas e de ‘instituições filantrópicas’ nos ajuda a mergulhar no drama vivido pelo próprio Jesus. É olhando o hoje que podemos intuir e compreender o ontem! Pouco adiantaria sentir pena da horrível morte subida por Jesus no Calvário se isso não produzir um forte sentimento de indignação pelas inúmeras injustiças que todo dia ferem de morte a dignidade de muitos inocentes. Em nada adiantaria dramatizar espetacularmente a Via Sacra nas nossas ruas se não deixarmos brotar em nós atitudes de compaixão e de solidariedade. Em nada adiantaria chorar ao ouvir o último e lancinante grito do agonizante Jesus se, depois, continuarmos a apoiar a pena de morte e a aplaudir os linchadores de ladrão de celulares. Celebrar a paixão de Jesus é celebrar o nosso compromisso de fé e de vida em combater toda indiferença e intolerância, e todos os prepotentes que crucificam filhos e filhas do Pai. Celebrar a Paixão é acreditar que toda vida é sagrada, e que toda morte jamais será em vão.

quarta-feira, 25 de março de 2026

25 de março - ANUNCIAÇÃO!

 Lucineide (nome fictício) tinha pouco mais de 12 anos quando foi estuprada pelo companheiro de sua mãe. A descoberta de sua gravidez gerou rumores e fofocas. Se aconteceu, foi porque, no fim das contas, ela permitiu. Aos 13 anos, Lucineide, "vítima e cúmplice", tornou-se mãe contra a sua vontade. Pensemos por um momento nas milhares de jovens "Marias" entre 12 e 16 anos no Brasil que descobrem estar grávidas, muitas vezes após terem sofrido abuso sexual. Em 2019, para cada 1.000 gestantes, 60 eram adolescentes entre 14 e 18 anos. Pensemos na consequente pressão psicológica e moral exercida pela família ou pelos supostos pais sobre essas jovens grávidas para que não levem a gestação a termo. Há inúmeros casos em que a mãe, despreparada para criar o filho, se entrega a quem oferece "proteção". Infelizmente, não são os "Josés justos" que acolhem a grávida Miriam e confrontam destemidamente as normas morais da religião, mas sim as gangues de narcotraficantes. Na maioria dos casos, essas mães solteiras e seus filhos já enfrentam um destino traçado: a clandestinidade e uma morte precoce e violenta. 

Na passagem do Evangelho que propomos para reflexão, Lucas não nos apresenta uma historiografia com conotações míticas, nem descreve teofanias delirantes. O evangelista nos oferece uma espécie de memorial da complexa jornada existencial da humanidade. Ele nos coloca em sintonia com os conflitos do nosso cotidiano, mas também com suas corajosas escolhas de vida. Apresenta-nos, sem sofismas, a situação difícil de milhões de mães solteiras e mulheres anônimas, vítimas do preconceito e das tradições patriarcais, chauvinistas e excludentes. Faz-nos compreender, porém, a necessidade de criar rupturas sociais para que a "exclusão legal" seja suplantada pela compaixão, pela misericórdia e pela defesa intransigente da integridade física e moral de cada vida. Com essa abordagem, Lucas parece desafiar uma concepção de história escrita e interpretada a partir da moralidade dos prédios governamentais e dos centros religiosos oficiais, para dar visibilidade a figuras e lugares aparentemente insignificantes, senão mesmo "amaldiçoados" pela história institucional. A narrativa nos prepara, num crescendo contínuo, para que possamos nos identificar com aquele "inesperado e inconveniente bebê", Jesus de Nazaré, e sua mãe "desconfiada", Miriam. Dois "intrusos sociais" que emergem do anonimato e da invisibilidade nos quais deveriam permanecer para sempre. 

Lucas, ao nos apresentar o diálogo entre "Gabriel, a Força de Deus" e a desconhecida Miriam, na Galileia rebelde, na aldeia de Nazaré, de onde "nada de bom poderia vir" (João 1:46), paradoxalmente destaca as contradições, ansiedades, lutas e esperanças que ainda existem em nossa "aldeia-casa comum". A novidade, em última análise, reside não tanto na "concepção milagrosa" de uma nova vida biológica, mas na ruptura radical com um presente limitado por leis sexistas e normas de pureza que exigem submissão ao palácio e ao templo. Todos os personagens na passagem de Lucas são transgressores autênticos das teologias tradicionais e das práticas institucionalizadas. O próprio anjo, "divino anunciador-mediador", não é visto em lugares sagrados, como o Templo ou as sinagogas, por exemplo, nem mesmo entre as castas sacerdotais. Ele "penetra na profana vida doméstica" de milhões de cidadãos sem lar e sem Deus. A sombra do Todo-Poderoso, que antes cobria apenas a Arca da Aliança, agora cobre e protege os verdadeiros tabernáculos, os ventres de milhares de Marias grávidas, violentadas, mas geradoras de esperança e desobediência civil e religiosa. 

Na teologia de Lucas, os homens já não são os verdadeiros geradores da vida e das dinastias, como a tradição cristalizada afirmava. Eles aparecem como instrumentos infrutíferos a serviço de preceitos estéreis e práticas religiosas antiquadas, incapazes de produzir frutos de justiça e transformação histórica. Em vez disso, são as mulheres e mães solteiras, suspeitas e marginalizadas, que "não conhecem homem", que ousam "dar um nome" e definir autonomamente o plano de vida para seus próprios filhos. Nesse sentido, a "mulher e mãe" Miriam emerge como o símbolo universal de todos aqueles homens e mulheres de fé, de diferentes culturas, que inauguram lógicas e práticas sociais sem precedentes. São miríades de anjos contemporâneos, em sua maioria negros, indígenas, migrantes, sem-teto, sem-terra, sem mandato e sem unção institucional, que insistem em anunciar o surgimento de uma nova criação. Sonham com uma "casa comum" na qual os Herodes e Césares de hoje sejam depostos de seus tronos. Onde ricos fazendeiros de soja e gado, traficantes de corpos, minerais, madeira preciosa e biodiversidade ameaçada, serão mandados embora de mãos vazias. Onde os rifles e as pistolas de exércitos mercenários e forças policiais privadas serão transformados em arados, poços artesianos e sementes não transgênicas. Onde os oligopólios que vendem notícias falsas e ilusões serão desmascarados pelas profecias de tantos rebeldes sem voz, arautos da esperança e da verdade!

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Seis estados, entre eles o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, não atingem meta de alfabetização no Brasil

Dados do MEC mostram que 66% das crianças foram alfabetizadas na idade certa, mas estados como Rio de Janeiro e Santa Catarina não alcançaram suas metas individuais. Brasil atingiu, em 2025, a meta nacional de alfabetização estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC), com 66% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental. Apesar do resultado positivo no cenário geral, seis estados não conseguiram cumprir suas metas específicas no Indicador Criança Alfabetizada (ICA).

Entre os estados que ficaram abaixo do esperado estão Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas e Rio Grande do Norte. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (23) pelo MEC. Ao todo, 20 estados atingiram suas metas individuais. Roraima não entrou na comparação por ter aderido ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) apenas em 2025, ficando sem meta definida para o período.

Rio Grande do Sul apresentou o maior distanciamento em relação à meta. O estado registrou 52% de crianças alfabetizadas, frente a um objetivo de 69%. Especialistas apontam que as enchentes de grande escala ocorridas em 2024 ainda impactam diretamente os resultados educacionais. Além disso, apenas dois estados tiveram desempenho inferior em 2025 na comparação com o ano anterior. Santa Catarina caiu de 62% para 59%, enquanto o Ceará recuou de 85% para 84%, embora ainda se mantenha acima da meta nacional projetada para 2030, que é de 80%. Na outra ponta, Goiás e Paraná atingiram pela primeira vez o patamar de 80% de crianças alfabetizadas, alcançando a meta final estipulada pelo CNCA.

O pior índice do país foi registrado no Rio Grande do Norte, com 48% de crianças alfabetizadas, apesar de uma evolução de nove pontos percentuais em relação ao ano anterior.

 

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira.

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira, no Pará, mesmo diante do avanço de doenças como dengue, febre e infecções pulmonares que já levaram crianças ao hospital. O protesto é contra a licença de instalação concedida à mineradora Belo Sun para o Projeto Volta Grande, que prevê uma mina de ouro a céu aberto às margens do rio Xingu

Em encontro com representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai, elas deram o prazo até quarta-feira (25) para uma reunião com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), responsável pelo licenciamento, e o Ministério Público Federal (MPF). As manifestações são lideradas pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu. Elas estão dormindo em barracas e tomando banho no rio porque os banheiros da Funai estão danificados. “Não foi por falta de alimentação, não foi por falta de água. Aqui na sede da Funai a gente está dormindo em barracas, e acho que o ambiente é muito úmido. Três crianças tiveram infecção pulmonar”, conta Tayani Xipaya, do povo Xipaya.

A principal reivindicação é a suspensão da licença do projeto, liberada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) em 13 de fevereiro. A medida barrou uma decisão anterior que mantinha o projeto paralisado por falhas no cumprimento de exigências relacionadas aos direitos indígenas. A concessão é de 2017, mas é contestada desde então. Na última segunda-feira (16), o movimento bloqueou o acesso ao aeroporto de Altamira. Uma audiência pública havia sido marcada para a manhã de quinta-feira (19), mas nenhum representante da Funai compareceu. Somente na sexta-feira (20), o procurador-geral do órgão federal, Matheus Antunes Oliveira, e assessores do MPI estiveram na sede da Funai em Altamira. As mulheres reforçaram o pedido para a anulação da licença e a realização de uma reunião com a Semas e o MPF, com prazo até a próxima quarta-feira.

A mobilização reúne lideranças dos povos XikrinAraraXipaya e Juruna. Percorrendo rios e estradas desde suas aldeias até a sede da Funai, algumas delas se deslocaram por mais 600 km, como no caso do povo Xikrin, ou por mais de 100 km, como ocorreu com as mulheres do povo Arara. A antropóloga Thais Mantovanelli, do Instituto Socioambiental (ISA), trabalha com as mulheres do Médio Xingu há mais de dez anos e explica que o protesto é incomum. De acordo com ela, as indígenas não costumam deixar suas aldeias nem gostam de fazê-lo. Só tomam essa decisão quando estão muito assustadas.

A mobilização das mulheres indígenas indica a gravidade do cenário: quando elas deixam suas atividades cotidianas para protestar é porque há uma ameaça urgente aos modos de vida e à continuidade da vida no território. Elas estão liderando porque têm papel central na proteção e reprodução da vida. Elas cuidam das crianças, dos alimentos, dos ciclos naturais e percebem de forma direta os impactos ambientais”, explica.