sexta-feira, 3 de julho de 2026

Festas juninas - Perguntas ao 'meu São João'....

Porque, ó meu São João, não convidaste as estrelas rodopiantes do céu de Upaon-Açu a dançar ao passo das matracas do Boi de Axixá para alumiar os cegos corações de quem se alimenta das turvas águas do Bacanga e do Anil?

Porque, ó meu São João, o hipnótico rufar dos teus tambores não comoveu Ogum a baixar, impávido, em quem nunca vibrou na vida, e naqueles corpos suados e transfigurados que só desmaiam pela fome, pelo cansaço e pela dor?

Porque, ó meu São João, ainda iludes as delirantes praças e seus exaltantes arraiais a acreditarem que ainda haverá um amanhã de sol quando, tu bem sabes, que os únicos lampejos nos céus de Gaia são só as flechas incandescentes dos seus temporais?

14 domingo comum - Nada pesa para quem faz com amor!

Há fardos na vida que deixam de ser tais quando compreendemos o sentido e o valor que eles escondem. Assistir um filho ou uma mãe acamada, por exemplo, pode ser um peso fisicamente exigente, mas pode se tornar um ‘jugo’ afetiva e moralmente leve. Compreender o valor da gratuidade e da gratidão ou a generosa doação incondicional para com aqueles que precisam de apoio, nos motiva a estarmos ao seu lado, custe o que custar. Para quem entende isso não existe cruz pesada, nem jugo insuportável, nem sacrifício inútil, nem destino amaldiçoado. As elites sacerdotais e os sabichões cegos da religião oficial não podiam entender isso. Eles foram educados a manter uma relação voltada única e exclusivamente para satisfazer um Deus supostamente desejoso de sacrifícios e mortificações, e não para manifestar solidariedade e compaixão aos seus irmãos e irmãs! Jesus de Nazaré continua a nos alertar, hoje, que preceitos, celebrações, liturgias e ritos, esses sim, se tornam verdadeiros jugos se ignoram que o único e verdadeiro compromisso do discípulo é ouvir, acolher, confortar todos aqueles que estão sendo esmagados sob o peso da indiferença, do abandono e da truculência dos que alimentam a alienação do legalismo e do moralismo do templo, e da lógica perversa de quem vive nos palácios.


sábado, 27 de junho de 2026

Solenidade de Pedro e Paulo - Por uma igreja mais humana!

 Se alguém nos perguntasse quem somos, muitos de nós responderíamos, sem hesitar, que somos, primeiramente, seres humanos. Se, contudo, persistissem em suas indagações e nos perguntassem como cada um de nós se compreende como ‘ser humano’ teríamos, certamente, uma infinidade de respostas. Chegaríamos até, a ensaiar respostas de acordo com as expectativas dos nossos pesquisadores. De fato, temos dificuldade em nos definir, e em nos expor para os outros. No evangelho de hoje Jesus, por sua inciativa, se assume, de imediato, como ‘filho do homem’ com tudo o que isso acarreta. Não receia em indagar os seus discípulos para saber como o povo compreende a sua ‘humanidade’ ou, a sua missão como ‘ser humano’ no meio dele. Ao ouvir as diferentes respostas, Jesus não esconde a sua decepção. Afinal, Ele é equiparado a alguns dos míticos profetas, semideuses, do passado de Israel. Jesus percebe que não estava sendo entendido como ‘filho do homem’, humano entre os humanos, mas como um semideus., uma espécie de líder celestial Ele que movido pela compaixão quis se igualar em tudo à condição humana, não havia sido acolhido como humano no meio dos humanos. O povo de ontem e de hoje, e o próprio Pedro, continuam, no fundo, a desejar ainda ‘messias’ e supostos ‘ungidos’ para poder delegar a esses supostos salvadores da pátria o que os ‘humanos’ não querem assumir!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza

 

Em 23 de junho, uma comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter como alvo crianças em Gaza. Em um relatório de cem páginas, os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra menores palestinos no território desde 7 de outubro de 2023 até 31 de março de 2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está cometendo genocídio.A reportagem é publicada por RFI, 25-06-2026.


Mais de 20 mil crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, cerca de 40 mil ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram órfãs. No relatório, os especialistas destacam que “o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o ‘grupo palestino’, no todo ou em parte, em Gaza”. Para a comissão, as crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua capacidade de sobreviver. Segundo o documento, as forças israelenses têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados superlotados. Israel também perturba sistematicamente a capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95% das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores e enfraqueceu “os alicerces da sociedade palestina”.

Estado israelense também tem como alvo os serviços neonatais e de maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento de abortos espontâneos e malformações congênitas. Além disso, a fome imposta em Gaza causou mortes infantis. Em 1º de outubro de 2025, 151 mortes de crianças por subnutrição haviam sido registradas.

Mas Israel também ataca diretamente as crianças. Tel Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e rifles, visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior do corpo “para infligir o máximo dano”, diz Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão. O relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone com câmera infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que ganhou destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando tentava deixar a Cidade de Gaza com sua família.

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

12°Domingo Comum - 'NÃO TENHAIS MEDO'!

Sentir medo faz parte da nossa estrutura emocional. É um mecanismo do nosso cérebro para se antecipar, e nos preservar de eventuais perigos e ameaças iminentes ou futuras. Contudo, quando o medo, em lugar de desencadear em nós uma reação positiva para superá-lo e enfrentar os supostos perigos, e chega a nos paralisar e dominar, ele se torna uma perigosa fobia. Algo patológico que não nos deixa viver com dignidade e liberdade. É a esse tipo de medo que Jesus parece se referir no evangelho de hoje. O ‘Não tenhais medo’ que o Mestre repete como uma espécie de refrão é dirigido aos seus seguidores que fazem a experiência concreta da perseguição e do banimento público por serem discípulos Dele. Jesus os incentiva a enfrentar o medo que Ele sabe ser real, e a não se deixar travar por ele. Ao mesmo tempo, Ele os motiva a não negociar com o medo ao compactuar com quem os ameaça e persegue, e a não renunciar jamais às suas convicções e aos seus testemunhos. Talvez, hoje, estejamos enfrentando dentro da igreja de Jesus outros ‘medos’ extremamente perigosos e patológicos: o medo de um 'deus' entendido como juíz intransigente e castigador; o medo de perder privilégios e poder; o medo de perder uma fantasmagórica e imutável ‘identidade católica’; o medo de perder fregueses devotos, e não discípulos! Na realidade, o verdadeiro ‘medo’ que deveríamos sentir é o de trair e renegar o Pai e o seu Reinado de amor e de compaixão!  

sábado, 13 de junho de 2026

XI Domingo Comum - Para ser discípulo de Jesus é preciso sentir indignação e compaixão!

"Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca". (Ap.3,16) O indiferente, o apático é incapaz de sentir nele a dor e a alegria que existem no outro. Às vezes, tem-se a impressão de que nos acostumamos de tal maneira em ver pessoas abandonadas, humilhadas e esmagadas por outros humanos que deixamos secar, aos poucos, a escassa indignação e empatia que ainda sobrevivem em nós. Achamos mais conveniente aderir à lógica diabólica da ‘religião’ e ‘orar’ pelos doentes e aflitos, em lugar de assisti-los e defendê-los em seus direitos e dignidade. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que os seus discípulos, se quiserem ser missionários autênticos da ‘Realeza do Pai’, devem abandonar a indiferença e a apatia. Devem rechaçar os vícios dos devotos hipócritas do templo e de seus preceitos de 'pureza litúrgica' que impedem a aproximação com 'as pessoas impuras'. Devem se deixar educar, definitivamente, pela indignação e pela ternura compassiva. Só assim poderemos sarar as feridas abertas e infectadas do egoísmo e da indiferença, purificar a lepra da intolerância e do racismo, e expulsar os demônios do medo, da dependência e da manipulação. 


domingo, 7 de junho de 2026

10°domingo comum - CHEGA DE SACRIFÍCIOS E RITOS, QUERO AMOR E COMPAIXÃO!

Pela nossa formação catequética e religiosa, um tanto distorcida, temos dificuldade de encarar a nossa relação com Deus de acordo com o modo vivenciado por Jesus. Muitos continuam a imaginar que temos um Deus que exige louvores, súplicas, promessas, sacrifícios, cumprimento rigoroso de ritos e liturgias que, afinal, nós mesmos criamos. Imaginamos que tudo isso é necessário para conquistar a Sua benevolência, e obter, em troca, favores e graças. É uma clara relação mercantilista, uma tentativa de cooptação e de manipulação de um suposto 'deus' que nós mesmos criamos para nós! E pagamos as consequências disso tudo: sentimentos de culpa, escrupulosidade litúrgica, misticismos e ritualismos desencarnados e ausência de obrigações éticas e morais para com as pessoas. Afinal, imaginamos que é o 'deus' ao qual nos dirigimos que nos dá tudo, o bem e o mal! Jesus nos prova que o nosso compromisso real é com as pessoas, filhos e filhas de um Pai que se preocupa exclusivamente com eles. O Deus de Jesus não quer nada para si, Ele já tem tudo, não precisa ser convencido de nada, Ele nos protege e ama com ou sem súplicas, orações e sacrifícios. Com isso, o Deus de Jesus nos desvia da religião bitolada e carola para assumirmos o verdadeiro compromisso de fé que faz sentido: amar os nossos semelhantes, compadecer-se do humilhado e do excluído. Sim, aqueles que com os nossos critérios religiosos  julgamos impuros e indignos. O Deus de Jesus quer amor, não alienação religiosa!