segunda-feira, 21 de setembro de 2026

FIM DA AUSTERIDADE NO VATICANO, MAS SÓ PARA OS CARDEAIS!

 Em março de 2021, o Papa Francisco, enfrentando um déficit no Vaticano "agravado" pela pandemia e, buscando evitar demissões, - inclusive porque o Vaticano não dispõe de medidas de proteção social para quem perde o emprego - decidiu cortar os salários dos níveis mais altos: uma redução de 10% para os cardeais (que ganham cerca de 5.000 euros por mês), 8% para os chefes de dicastérios e diretores (incluindo alguns laicos) enquadrados nos dois primeiros níveis (C e C1), e 3% para padres e religiosos nos níveis C2 e C3. Ele também congelou os aumentos salariais bienais por tempo de serviço (2021–2023) para todos os trabalhadores, excluindo apenas aqueles dos níveis mais baixos (há 10 níveis no total), que ganham um salário de 1.300 euros por mês."

Fim da austeridade no Vaticano para cardeais, executivos, prelados de alto escalão e religiosos que trabalham nos Sagrados Palácios. Com um motu proprio assinado em 1º de setembro e divulgado ontem, Leão XIV revogou as medidas de contenção salarial introduzidas pelo Papa Bergoglio em 2021, no auge da emergência Covid-19, quando as receitas da Santa Sé haviam se reduzido significativamente, em parte devido ao fechamento forçado dos Museus do Vaticano, que normalmente geram 150 milhões de euros anuais para os cofres pontifícios. Agora que a tempestade passou, os salários mais altos podem retornar aos seus níveis anteriores. No entanto, permanecem em vigor outras medidas de corte de custos, como o congelamento de aumentos salariais que afetaram a maioria dos funcionários laicos que recebem salários médios e médios-baixos. A medida de Prevost, portanto, restaura a renda de poucos, mas não altera a situação de muitos trabalhadores que não recuperam o que perderam, e que foi ainda mais corroído pela inflação.

A primeira intervenção de Leão XIV ocorreu em junho de 2025, um mês após sua eleição, quando eliminou o corte de 3% para os níveis C2 e C3. E também restabeleceu um costume que Bergoglio havia rejeitado: um bônus de 500 euros para todos os funcionários pelo trabalho realizado durante o conclave.Agora a segunda intervenção, que revoga a medida de 2021 de seu antecessor e restabelece os salários integrais de cardeais, prelados e executivos do Vaticano, bem como os de funcionários de órgãos vinculados, como o Vicariato e as quatro basílicas papais de Roma. No entanto, mantém-se o congelamento dos aumentos salariais por tempo de serviço, que afeta a maioria dos 6.000 funcionários, dos quais 4.200 são laicos.

E que, além da falta de aumento salarial (em média, 60 euros mensais por 13 pagamentos), também influi sobre as futuras indenizações rescisórias e aposentadorias. A medida de Prevost, que entrou em vigor em 1º de setembro, atende aos pedidos de cardeais, chefes de dicastérios, prelados e executivos que veem a reversão dos cortes em suas remunerações. No entanto, ignora as reivindicações dos trabalhadores laicos que, já em julho, quando entrou em vigor o novo Regulamento do Pessoal da Cúria Romana, haviam reclamado de "salários congelados desde 2008, perda de poder de compra e a transformação dos aumentos salariais bienais em algo eventual". De fato, a Associação de funcionários laicos do Vaticano denuncia que "a suposta falta de recursos da Santa Sé não justifica fazer com que os funcionários devam pagar por um déficit pelo qual não têm nenhuma responsabilidade. Pelo contrário, seria oportuno examinar mais a fundo um modelo de gestão econômica que impede a Santa Sé de 'pagar ao trabalhador um salário justo'. Espera-se também que os diretores (neste caso, os cardeais, N.d.E.) deem o exemplo, considerando cortes em diversas áreas", desde salários até benefícios.

A reportagem é de Luca Kocci, pulicado por Il manifesto, 15-09-2026


 

Mineradora ré por garimpo ilegal na Amazônia abasteceu indústria bélica dos EUA

 Uma mineradora é ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O Pentágono classifica o metal como indispensável para a produção de componentes eletrônicos usados em seus equipamentos militares.

Apresentando-se como uma das maiores produtoras de estanho do mundo, a White Solder forneceu ao menos 525 toneladas para a americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025, segundo registros alfandegários analisados pela reportagem. A Indium fornece soldas para a Raytheon, fabricante de sistemas militares, como radares e mísseis de alta precisão, que mantém diversos diversos contratos com o governo norte-americano. Com mais de 100 anos de atuação, a Raytheon faturou USD 88 bilhões em 2025. Um desses contratos, assinado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, prevê a produção de sete radares de defesa antimíssil destinados a Arábia Saudita até 2027. Em outro contrato, assinado em 2024 e com validade até 2031, a Raytheon garantiu outros US$ 2,9 bilhões para fornecer aos Estados Unidos unidades do mais moderno radar de defesa aérea e antimíssil desenvolvido pela companhia. A White Solder também forneceu o metal para a norte-americana Nathan Trotter, que se define como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia recebeu ao menos 2,4 mil toneladas da produtora de estanho brasileira, apontam registros alfandegários.

Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa americano destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a empresa instalar uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho no estado da PensilvâniaO objetivo do aporte é fortalecer a produção interna de minerais críticos e “conter os esforços da China para monopolizar a oferta global e a reduzir as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos”, diz o release divulgado pelo órgão. (IHU)

 

Prefeito da Cidade de Gaza: "A guerra acabou, mas vivemos em meio a escombros e destroços". Entrevista com Yahya al-Sarraj

 Yahya al-Sarraj afirma: "Continuamos sob ocupação, as Forças de Defesa de Israel não nos permitem acessar o que precisamos, estamos sem água e serviços básicos.". Yahya al Sarraj é um prefeito sem recursos, dinheiro, estradas, casas, aterros sanitários, luz, aquedutos, escritórios ou funcionários. Mas ele ainda é o prefeito da Cidade de Gaza, um engenheiro cedido à administração, que não pertence a nenhuma facção política. Ele não foi embora, não fugiu: permaneceu em sua cidade durante toda a guerra. E quando, à 1h da manhã, a estrutura de um prédio desabou sobre uma dúzia de famílias palestinas, às quais o destino não poupou nada, ele correu para tentar ajudar. Ele atende o telefone em frente aos escombros.

A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 17-09-2026.

Eis a entrevista.

Como vai, prefeito?

Estou muito triste.

Aquele prédio havia sido atingido durante a guerra?

Estava parcialmente danificado, mas ainda de pé. Não era seguro, mas as pessoas daqui não aguentam mais viver em barracas e não têm alternativa: estão dispostas a arriscar a vida por um lugar para ficar. As barracas não são habitáveis: faz muito calor no verão e muito frio no inverno, e muitas já estão em péssimo estado. Poucas novas chegam. Precisamos de casas móveis ou casas de verdade.

Você tem os meios para cavar?

Não, temos muito pouco equipamento, e ele é muito antigo. Não é adequado para resgatar pessoas presas sob os escombros.

Pediu às autoridades israelenses permissão para usar mais equipamentos de escavação?

Já faz uns três anos que estamos pedindo; ninguém nos ouve, não nos dão permissão. Precisamos de tudo: materiais de construção, peças de reposição. Se tivéssemos tudo isso, poderíamos ter consertado os prédios que correm risco de desabar.

Esta manhã, ligamos para organizações internacionais pedindo autorização para trazer todo esse material. Estamos cavando com as próprias mãos.

Já se passou quase um ano desde o cessar-fogo: qual é a situação na Cidade de Gaza?

Temos mais comida, a fome acabou, mas muitos itens básicos não estão chegando. É sobrevivência, não vida real. A maior parte dos escombros da guerra ainda está lá, com os mortos embaixo. Só conseguimos limpar as estradas principais.

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Temos um problema com o lixo, porque não nos permitem transportá-lo para os aterros sanitários no leste de Gaza, que ainda estão sob ocupação israelense. Somos obrigados a gerenciar o lixo dentro das áreas residenciais, com todos os riscos à saúde que isso acarreta.

Você tem água potável?

A disponibilidade de água corresponde a cerca de 30% das nossas necessidades. Conseguimos obter água potável limpa graças a algumas organizações internacionais. No entanto, muitos poços não estão funcionando.

E quanto aos banheiros? Os habitantes de Gaza têm permissão para tomar banho?

Este é um dos principais problemas. Os israelenses não permitem a construção de novos banheiros, e as pessoas tentam se virar: usam uma parte da barraca como banheiro ou simplesmente cavam um buraco no chão, o cobrem de alguma forma e fazem suas necessidades ali. Mas essa não é uma vida digna.

Como se ganha a vida em Gaza?

O desemprego provavelmente está acima de 70-80%, as pessoas dependem de auxílio.

As crianças vão à escola?

Sim, mas em dias alternados, porque não temos espaço suficiente para todos. Muitos não comparecem às aulas.

Você pediu ajuda ao governo interino palestino estabelecido pelo Conselho de Paz de Trump?

Claro, mas eles parecem paralisados. O plano de Trump está fracassando; quase nada foi implementado, exceto uma redução no número diário de vítimas. A travessia de Rafah está fechada: apenas cerca de 150 pessoas podem entrar ou sair por dia, em meio a inúmeras restrições.

O Hamas concordou em desarmar-se e renunciar ao poder: acredita nisso?

Eles afirmaram repetidamente que estão prontos para partir, e alguns deles de fato já o fizeram. Mas se todos partissem agora, isso criaria um vácuo de poder que poderia levar a confrontos e agitação. Alguém precisa ocupar o lugar deles, mas ninguém está disposto a fazê-lo. Uma força internacional de estabilização deveria intervir em Gaza, separar palestinos e israelenses e pôr fim às mortes que ocorrem diariamente.

Por que você diz que sem o Hamas haveria caos?

Como existem muitos grupos armados e milícias que colaboram com os israelenses, se surgir um problema entre duas pessoas, quem o resolverá? É preciso a polícia. É preciso autoridade. Não se pode viver sem um governo.

O que você pede da comunidade internacional?

Considerar os habitantes de Gaza como seres humanos, não como números. Nós, palestinos, somos um recurso, não uma ameaça. Temos uma das populações mais instruídas do mundo. Queremos trabalhar, não depender de ajuda. Queremos reconstruir uma vida em paz, uma vida com dignidade.

 

"Ultrapassar os limites desperta o monstro que existe dentro de nós". Artigo de Massimo Recalcati

 Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles traça uma linha clara que separa irreversivelmente o humano do monstruoso. Enquanto o humano seria orientado pela razão para a virtude, o monstruoso, ao contrário, não conheceria nem razão nem virtude. A terrível lição de Freud quebra traumaticamente o encanto de Aristóteles, revelando que o monstruoso não é de modo algum externo ao humano, mas lhe diz respeito intimamente. Não surge, como pensava Aristóteles, da animalização do humano, mas representa sua expressão mais significativa. Acrescenta-se que o monstruoso não coincide com o deformado, o aberrante ou o excessivo. Nem sempre tem a face da loucura, da ferocidade incontrolável ou da paixão destrutiva, do estranho ou do hostil, mas – como muitos episódios da transição para a ação criminosa demonstram – pode também ter a face reconfortante do empregado, do funcionário público, do homem que volta para casa depois do trabalho, do pai de família.

Em um famoso curso intitulado Introdução à Metafísica, ao interpretar o coro da Antígona de Sófocles, Heidegger se detém na célebre definição do homem como o ser "mais perturbador": "De muitas espécies existe o estranho, mas nada é mais perturbador do que o homem". Em suma, não há ser "mais terrível" ("mais poderoso" e "mais extraordinário") do que o homem. Heidegger traduz o estranho sofocliano como o "estranho", ou melhor, o "inquietante": o homem constrói sua própria casa, ergue cidades, gera cultura, determina fronteiras, atravessa mares, cultiva a terra, captura animais, estabelece leis, domina a natureza. Sua técnica revela uma vontade de poder que constantemente transforma o familiar em seu oposto. O monstruoso, portanto, não é o homem moralmente mau — não virtuoso no sentido aristotélico —, mas define o humano como tal. A violência mais terrível e cruel não é a dos animais, que visa garantir a sobrevivência da espécie, mas sim a dos humanos, movidos pela tentação de dominar o mundo, de ultrapassar os limites, de cruzar as fronteiras da família impunemente...

......Talvez seja por isso que Freud chegou a definir a humanidade como uma raça ruinosa rumo à sua própria destruição. Ser humano significa não apenas estar destinado à morte, mas ter o poder de semear a morte, decretar sadicamente a morte dos outros e cultivar masoquicamente a própria. Nesse sentido, o homem seria o monstro mais monstruoso. Não é coincidência que, para Freud, a pulsão mais fundamental que define o ser humano seja a pulsão de morte. O homem não é uma criatura monstruosa ao lado de outras criaturas normais, mas é o único animal que carrega consigo a monstruosa tentação de dominar. Em Antígona, relido por Heidegger, também evoca, e é a mesma reflexão lúcida que encontramos em Freud: quando o homem rejeita a sua própria castração — a sua própria finitude — ele se torna perigoso para si mesmo e para os outros. O monstruoso não é o caos desafiando a ordem, mas uma virada trágica que a ordem pode eletivamente tomar quando perde a sua dimensão humana finita

 Comentário do blogueiro - Em tempos de eleição, de suposta oportuidade de análise de propostas, projetos, comparações de perfis de candidatos, de histórias de vida é sempre bom refletir sobre as reflexões do Massimo Recalcati, principalmente numa hora em que no nosso País os 'limites' estão sendo ultrapassados e as monstruosidades jáa vêm despontando e ceifando vidas

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

XXV domingo comum - QUEM SE SENTE AMADO NÃO FICA COM CIÚMES SE OUTROS TAMBÉM SÃO AMADOS, SEJA QUEM FOR!

Seria interessante analisar o perfil daqueles cristãos que ainda hoje, como os fariseus de ontem, se indignam com a mensagem central da famosa parábola dos trabalhadores contratados em diferentes horários e ganhando o mesmo e idêntico salário. Eles manifestam uma obtusidade que só se explica pelo fato de discordarem frontalmente do modo ‘excessivamente’ generoso de proceder do próprio Pai. Imbuídos de arrogância e inveja esses supostos discípulos não toleram que os recém-convertidos à Boa Nova de Jesus possam usufruir, da mesma forma, a atenção, o carinho e a acolhida do próprio Mestre. Eles manifestam, afinal, uma consciência distorcida impregnada de ressentimento que os leva a se acharem, arrogantemente, mais dignos de amor e de atenção do que aqueles pecadores públicos ‘desprezíveis’ que só tardiamente acolheram o convite de Jesus. Essas atitudes revelam como deveria ser o verdadeiro caráter de um discípulo. O discípulo deveria assumir e reproduzir as mesmas atitudes do Pai que trata de forma ‘inexplicavelmente’ generosa os filhos-trabalhadores da ‘última hora’, sem jamais deixar de amar e assistir os filhos-discípulos da ‘primeira hora’! Por que, então, sentir ciúme ou inveja se o Pai quer oferecer também a outros o mesmo salário preenchido de amor e compaixão? Ou, por acaso, os discípulos da primeira hora acham que são os únicos merecedores de prêmios e reconhecimentos por ter feito o que deviam e se sentiam de fazer? Por acaso, o salário da paz interior e da presença amorosa do Pai não é suficiente???!!!!!!


terça-feira, 15 de setembro de 2026

COMO MORREM AS DEMOCRACIAS - Por Luís Nassif

A democracia exige ritos, tanto no processo político quanto no jurídico. São esses ritos que garantem os freios e contrapesos, definem limites e direitos e impedem abusos. A democracia brasileira começou a morrer no impeachment de Dilma Rousseff. O clamor das ruas, alimentado pela Lava Jato, uma imprensa submissa e um Supremo Tribunal Federal que se deixou intimidar, fizeram com que os procedimentos fossem atropelados. Aceitou-se uma inovação jurídica — as tais “pedaladas” — como fundamento para um processo de impeachment espúrio. Nem o ministro do STF que comandou a ópera bufa acreditava nos argumentos. Foi um período desmoralizante, no qual uma ministra, Rosa Weber, votou por uma regra que tirava Lula das eleições de 2018 em nome da “colegialidade” — isto é, para acompanhar a maioria. Com o detalhe de que seu voto era o de desempate. De lá para cá, o trem descarrilhou. Abriu-se espaço para um presidente envolvido com milícias, trazendo para o primeiro plano da política nacional o pior rebotalho político da história. Tentou-se até um golpe de Estado. No último momento, houve uma reação das forças democráticas, o STF acordou e, graças aos poderes conferidos ao ministro Alexandre de Moraes, conseguiu desmontar a primeira tentativa de golpe.

Mas o trem já estava descarrilado. Em nome da defesa da democracia, os procedimentos continuaram sendo atropelados, com o sentido de urgência justificando a pressa em resolver questões para conter a ameaça golpista. De atropelo a atropelo, a democracia foi recolocada nos eixos. Mas os ritos continuaram sendo desrespeitados, e o poder absoluto cumpriu a regra histórica de corromper quem o exerce. Tudo isso ocorreu em uma quadra de profundas transformações nos tribunais superiores, marcada por práticas inimagináveis em outros tempos: parentes de magistrados atuando nas cortes, viagens internacionais patrocinadas e seminários organizados em torno do poder individual de ministros, depois de atropelada a colegialidade. Não foi preciso muito para o pequeno André Mendonça conseguir implodir o Supremo. Bastou uma granada de mão para que todo o edifício viesse abaixo. Logo ele, ligado até as tampas ao esquema Bolsonaro e, possivelmente, a Daniel Vorcaro. Atrás da bomba vieram os justiceiros oportunistas de sempre: juristas e editorialistas de baixíssimo nível, buscando esfolar o Supremo e abrir caminho para Flávio. Como dois e dois são quatro, na hipótese terrível de uma eleição de Flávio, acaba a democracia brasileira — ou qualquer veleidade de o país sobreviver como nação. Não se trata de passar pano, mas a prioridade máxima é preservar o Supremo. Nem sei o que acontecerá na sessão de logo mais. Mas, se forem expostas as vísceras do Supremo, para gáudio dos urubus jurídicos e da mídia, pouco restará da democracia brasileira. A cumplicidade de jornais e jornalistas com o bolsonarismo já conseguiu embolar o meio de campo: trinta dias de manchetes em torno de uma notícia falsa — o envolvimento de Fábio Luís com a esbórnia — lançaram confusão sobre a opinião pública, proporcionaram o crescimento de Flávio e afastaram de Lula o centro e a direita racional. Há poucos dias para reverter a situação. Mas existe um empenho gigantesco dos brasileiros democratas e patriotas para impedir o desastre final. Se isso não ocorrer, setembro de 2026 será registrado nos livros de história como o mês em que a imprensa conseguiu destruir a democracia brasileira.

  

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

XXIV domingo comum - PERDOAR NÃO É IGNORAR O MAL COMETIDO; É PRATICAR UM AMOR EXIGENTE, E NÃO DESISTIR JAMAIS DO PECADOR

Muitos de nós se lembram do que se comentava à época da covid: ‘Nunca mais seremos os mesmos’. Mergulhados naquela experiência traumática supunha-se que iríamos aprender a ser, no futuro, mais humanos e mais compassivos, entre outras coisas. Ledo engano. Após alguns meses, e diminuídos os casos da pandemia, voltou-se a uma intrigante e constrangedora normalidade. Continuamos com os mesmos vícios e dependências e, em alguns casos, tornamo-nos até mais embrutecidos. Não aprendemos a lição de vida que nos era revelada através da dor e da perda! No evangelho de hoje Jesus enfatiza a necessidade de perdoar sempre, o tempo todo. Jesus entende que uma pessoa ao se sentir perdoada e agraciada, deveria, por sua vez, aprender a perdoar e a ser generoso com os demais. Contudo, o Mestre observa que, infelizmente, o ser humano tende a se deixar dominar pelas suas pulsões de dominar e humilhar, de controlar e oprimir. Esquece que um dia, ele mesmo, foi um agraciado, um poupado! É nesse contexto que Jesus deixa claro que perdoar não é ignorar o mal cometido por alguém. Isto seria uma grave omissão que cheira a cumplicidade. Perdoar é, antes de tudo, praticar um amor ativo e exigente, ou seja, ajudar quem errou a praticar, concretamente, a compaixão lá onde ele semeou brutalidade, e a tolerância onde praticou intolerância.