‘Mamãe,
não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar...’
Assim começa a música ‘Cowboy fora- da- lei’ de Raul Seixas em 1987. Certamente o nosso autor sabia muito bem que eventuais assassinatos preconizados nas letras da sua canção não viriam pela mão de um povo desiludido ou ludibriado pelas promessas não mantidas por prefeitos vencedores. Afinal, quem teria coragem de cometer tais barbaridades com administradores públicos só pelo fato de não cumprirem o que prometeram? É tão corriqueira essa realidade no nosso País que, se assim fosse, teríamos poucos prefeitos sobreviventes! Em geral, as fantásticas promessas que os candidatos gritam de seus palanques ou chegam até a assinar em cartório são dirigidas para o ‘povão’ que, sistematicamente, sabe que jamais serão cumpridas e que jamais serão punidas pela justiça. Dito de outra forma, ninguém do ‘povão’, pelas informações que temos desses últimos 45 anos, atentou à vida de algum prefeito em exercício por ele não ter cumprido suas promessas. Entretanto, o mesmo não pode ser dito daqueles grupos políticos com densidade política e interesses econômicos de destaque dentro de uma unidade municipal, sejam eles aliados de ocasião ou opositores de conveniência ao prefeito vencedor. Interesses variados contrariados, promessas de cargos não mantidas aos amigos ou supostamente tais, desentendimentos e disputas internas que fogem ao controle são motivos mais que razoáveis para a eliminação física de quem administra. Pelas estatísticas, na maioria dos casos de assassinato de prefeitos, há sempre um ‘vice’ envolvido. Ou seja, parece ser ‘briga de branco’ em que o ‘povão’, sempre à margem, não se imiscui. Somado a tudo isso, há que se constatar que até aqueles setores do ‘povão’ mais aguerridos em reivindicar ou denunciar coerência e cumprimento do prometido, há bastante tempo deixaram de fazê-lo. Cansaço, luta permanente desgastante, articulação paciente, diária, têm prazo de validade. Dessa forma, fica bastante óbvio que, em geral, um prefeito administra, preferencialmente, em favor de uma minoria de sanguessugas e de apaniguados que, paradoxalmente, são os únicos que poderiam atentar ao seu cargo e à sua vida.
Uma outra característica de um candidato a prefeito que o Raul cita nas letras da sua obra é a sua capacidade de mentir, da mesma forma que os jornais mentem! Ou melhor, candidatos sabem mentir sozinhos sem ter cumplicidade ou respaldo da mídia. É próprio de um candidato mentir. É tão visceral e tão generalizada essa postura que não chega a escandalizar ou a indignar ninguém. Quantas vezes ouvimos expressões do tipo ‘É o calor da campanha, sabe como é...deixa pra’ lá, releva!’ para tentar justificar os excessos no palavreado, nos gestos, nas promessas alucinantes de uma infinidade de candidatos de todos os espectros políticos e ideológicos. Quem não lembra, por exemplo, daquele famoso candidato que prometia que ‘ia metralhar a petralhada?’, mas acabou ‘metralhando’, com sua incompetência, mais de 700 mil amigos e inimigos?
Dito
tudo isso, qual o peso que se deve dar, então, a um candidato a prefeito que
após ter ouvido um grupo de cidadãos que apresentam um conjunto de normais e
óbvias reivindicações em favor da cidade, e não do grupo, o aprova e se
compromete colocando formalmente a sua assinatura? Será que aquele candidato, uma
vez eleito, ao não cumprir o seu compromisso poderia invocar o ‘calor da
campanha’, ou o ‘clima de campanha e suas dinâmicas’ como justificativa? Ou,
simplesmente, deixa de ser ‘homem de palavra’ em que para ele mentir e assumir
compromissos com a população sabendo, de antemão, que não irá cumpri-los é um
gesto sem peso, sem valor e, principalmente, sem consequências legais? Nobre, seria, se por parte daquele prefeito
eleito ao não conseguir cumprir os compromissos assumidos publicamente viesse a
público esclarecer, mostrar, expor e debater as causas efetivas do seu não
cumprimento. Ocorre que, ao contrário disso, os descumpridores de promessas e
de compromissos fogem, se escondem e voltam a mentir sobre as suas próprias mentiras
que um dia assinaram.
O
caso emblemático do prefeito de Açailândia, no caso Piquiá!








