O Ministério Público Federal (MPF) conseguiu a condenação de um homem por envolvimento em um esquema de exploração ilegal de madeira dentro da Terra Indígena (TI) Geralda Toco Preto, em Itaipava do Grajaú (MA). A sentença da Justiça Federal reconheceu a prática dos crimes de desmatamento e furto qualificado de recursos florestais. Segundo a decisão, os crimes ocorreram no contexto de um grupo que articulava a retirada e comercialização de madeira da terra indígena, com participação de indígenas e madeireiros. O documento destaca que o réu é casado com uma liderança indígena e teria usado essa condição para viabilizar o acesso e a exploração da área. A atuação envolvia divisão de tarefas, uso de equipamentos para beneficiamento da madeira e negociação com terceiros, configurando uma cadeia estruturada de exploração econômica ilegal. As investigações tiveram início a partir de um inquérito da Polícia Federal (PF) instaurado para apurar denúncias de desmatamento e extração ilegal na região, especialmente nas aldeias Sibirino e Bonita. A apuração reuniu provas obtidas em diligências, como buscas e apreensões, além da análise de materiais coletados. Laudos periciais confirmaram o desmatamento contínuo entre 2016 e 2023. Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citado na decisão, aponta que a TI Geralda Toco Preto está entre as mais pressionadas por desmatamento no país, ficando atrás apenas de uma área no Mato Grosso. A autoria dos crimes foi comprovada por provas como mensagens extraídas de aparelho celular apreendido, que indicaram a organização da extração, transporte e venda da madeira. Apesar de negar envolvimento, o réu foi apontado como responsável por viabilizar a exploração econômica da área com auxílio de outras pessoas. A sentença reafirmou que a madeira retirada ilegalmente de terras indígenas configura bem da União, o que caracteriza o crime de furto após o corte. O réu foi condenado a seis anos de reclusão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de multa. Os outros acusados respondem em processos separados após o desmembramento da ação penal. Ainda cabe recurso da decisão.
Claudio Maranhão
foto: Claudio Bombieri -
sexta-feira, 24 de abril de 2026
IV domingo de Páscoa - Um pastor se não for bom, não é pastor, é mercenário e manipulador!
Um pastor, mesmo imperfeito, ou é bom no
exercício da sua profissão, ou deve ser chamado com outro nome: mercenário,
vendido, infiltrado. Não existem ‘maus pastores’, mas ‘aproveitadores,
irresponsáveis e manipuladores’ que desvirtuam grotescamente a sua profissão e
se tornam indignos de tal nome. Jesus, na versão de João, oferece algumas
características para diferenciar um pastor de um mercenário que, aparentemente,
exerce a mesma profissão. É próprio de um pastor conhecer as manhas e manias de
suas ovelhas; conhecer o seu nome, sua índole, suas qualidades, potencialidades
e defeitos; entrar em simbiose com suas ovelhas de forma que elas saibam diferenciar o
timbre de sua voz, o seu cheiro, o seu jeito de se aproximar e de cuidar. As ovelhas
podem divergir do pastor e ensaiar invadir outras pastagens, mas acabam confiando no pastor e escutando a sua voz porque ele lhes dá provas concretas de que as sabe
proteger e cuidar. É próprio de um mercenário infiltrado e disfarçado de pastor utilizar as ovelhas
para seus projetos e interesses pessoais. Ele ordena e manda nelas, não conduz e nem
educa. Ele pune a rebelde, ameaça e chantageia as demais. Afinal, ele não sente
as ovelhas como uma extensão de si mesmo. São mercadoria a ser exploradas e instrumentalizadas. As ovelhas percebem o seu duplo jogo,
sórdido e manipulador, cheio de subterfúgios e espertezas. Seu desprezo e seu jeito impessoal. Acabam se
dispersando, brigando e disputando entre si. Talvez tenha chegado a hora de as
ovelhas se livrarem dos lobos intocáveis que, disfarçadamente, estão no meio
delas, que pulam a cerca, mas não entram pela porteira!
quinta-feira, 16 de abril de 2026
III domingo de Páscoa - É na reprodução das opções de Jesus que descobrimos o pão que sacia os decepcionados!
Desilusões
e decepções fazem parte da vida. Às vezes elas nos parecem uma vingança da vida
por termos acreditado, idealizado e sonhado demais! Parece que os discípulos de
Emaús tenham feito uma experiencia similar! Jesus havia sinalizado algo inédito
nas relações sociais de seus contemporâneos. Talvez eles esperassem uma
possível ruptura com o passado e com o presente daquela nação. A morte humilhante
do líder Jesus parece haver trazido todos os sonhos de mudança à crua
realidade. Os discípulos imaginavam que ao se afastarem de Jerusalém iriam esquecer, também, seus sentimentos de decepção. Contudo, na medida em que os dois discípulos se
afastam de Jerusalém, adquirem mais lucidez para entender o que lhes havia
acontecido. Já não é um exercício de mera recordação, mas um processo de conversão-revelação. Um ressignificar e um reviver de forma intensa, sacramental, gestos, palavras, relações de afeto e de compaixão
vivenciados com o crucificado Jesus. Compreendem que, agora, é este o pão que deveria ser partilhado e
doado. É reproduzindo as opções e gestos de Jesus que se alimentam esperanças! Não precisava mais se afastar de Jerusalém,
mas encarar o lugar da morte-decepção com outros olhos. Descobrir que no lugar
da humilhação poderia surgir esperança renovada e vida em abunddância. Só nesses momentos
reveladores que ‘os muitos’ discípulos/as decepcionados descobrem que o
‘peregrino’ Jesus sempre havia estado com eles ao longo do seu caminhar. Que Ele nunca havia se afastado deles!
quarta-feira, 15 de abril de 2026
É preciso repensar a atuação do Ministério dos Povos Indígenas. As aldeias continuam largadas e esquecidas!
A ministra do Povos Indígena Sônia Guajajara deixou o ministério para concorrer à sua reeleição como deputada federal, espaço que já era seu por direito, mas que nunca ocupou até o presente momento. Talvez, agora, até o período próprio de plena campanha, venha a exercer o mandato. Seja o que for, haveríamos de nos perguntar se a sua permanência ao longo desses três anos e meio fez a diferença para os povos indígenas do Maranhão. A primeira e instintual resposta é negativa. Algumas melhoras decorreram graças a uma série de decisões federais que independeram do planejamento e das decisões do Ministério dos Povos Indígenas. Certamente, as sedes físicas da FUNAI saíram do abandono a que estavam relegadas no governo passado e o quadro administrativo foi preenchido não por pessoas ligadas aos militares, mas por lideranças ligadas aos movimentos indígenas. Inicialmente, um tanto perdidos e inseguros diante do inédito, esses novos administradores e funcionários indígenas foram conhecendo aos poucos as entranhas e as armadilhas da máquina pública, ensaiando, testando, errando, corrigindo, sobrevivendo. Muitos outros elementos poderiam ser citados para confirmar que não houve imobilismo ou total ausência institucional, contudo, estamos longe de poder afirmar que o então inédito Ministério dos Povos Indígenas criado a seu tempo pelo governo Lula deixou um marco significativo, histórico, ao longo desses anos. Evidentemente, quem trabalha diretamente na máquina pública sabe melhor de quem olha de fora os engodos internos existentes, mas também é verdade que que está na base, nas aldeias, sentem na pele o que significa não ter estradas decentes, transporte, assistência na produção agrícola, artesanal, apoio no monitoramento e defesa dos territórios, fornecimento de água potável, educação escolar indígena de qualidade, assistência sanitária digna e muitos outros serviços que não apareceram ou foram realizados de forma muito precária, de forma que é difícil dizer que o Ministério exerceu uma influência e uma presença positiva junto às aldeias e que significou uma virada histórica. Estamos longe de poder afirmar isso! Acredito, também, que ao não corresponder às expectativas criadas, originalmente, - talvez excessivas, - tenha, ate, originado um certo mal-estar, nada bom em vista do futuro.
Nesses anos, nas nossas andanças e colaborações com inúmeras comunidades indígenas pudemos constatar o quão longe estão uns dos outros: os funcionários e pensadores de políticas públicas específicas para os povos indígenas e os próprios indígenas que vivem, sobrevivem, lutam e trabalham para sair da...miséria, pelo menos nesse Estado! Foi justamente nesses dias que ouvi um relato de uma amiga que conheceu um alto funcionário da SESAI (Saúde Especial Indígena) do Maranhão em que ele mostrou o seu total desconhecimento da real situação de numerosas aldeias desse mesmo estado em que trabalha há mais de três anos. Ainda há um desencontro histórico e institucional. Não é suficiente colocar indígenas para cuidar de indígenas. É preciso muito mais. Não é questão só de orçamento, nem de eficiência administrativa. É preciso mergulhar nos dramas de famílias, de pais e de jovens produtores indígenas que se sentem abandonados, largados, invisibilizados não somente pelos administradores locais não indígenas, mas também pelos ‘seus’! Isso dói demais!
"O ataque de Trump ao Papa pode marcar o começo do fim para ele". Entrevista com Massimo Faggioli
"Paradoxo
histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV.
"O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de
mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados
Unidos. Leão o faz não para proteger os interesses
da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do
que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos
sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do
Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert
Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca",
enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto
Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.
Eis a
entrevista.
Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa
Leão?
O
estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase Cupich, Robert McElroy e Joseph Tobin — que
também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo,
datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de
televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto,
são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.
Francisco não
preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus
ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano
— uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de
compreender os Estados Unidos. Leão XIV, por outro
lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e
faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas
origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se
tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem
sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos
três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou
acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais
permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de
janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca
o início de seu declínio político.
O
trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo
religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita",
personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter
Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder
interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e
da inteligência artificial, que estão menos interessados em
defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo
e seus recursos.
A
"tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa,
ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta
descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada
pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os
bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O
Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.
O
magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de
uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém,
violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter
sido explorada pelo trumpismo.
Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump,
sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em
2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua
conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele
tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão
XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa.
Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam
influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles
podem decidir se rebelar. (IHU)
domingo, 12 de abril de 2026
Domingo da oitava de Páscoa - É HORA DE DESTRANCAR PORTAS!
Trancar portas não resolve! Não seremos jamais poupados de ameaças e perseguições. Trancar portas só nos ilude, temporariamente, de que estamos seguros e protegidos, mas de quem, afinal? Trancar portas impede que olhemos para a cara de quem, supostamente, nos persegue, e possamos enfrentá-lo no diálogo, nas argumentações, no testemunho. Trancar portas impede que os gritos e os clamores de milhões de crucificados cheguem os nossos surdos ouvidos. Trancar portas não irá impedir que façamos as contas, mais cedo ou mais tarde, com os nossos medos e covardias. Enfim, é muito mais o que perdemos do que ganhamos ao fechar as portas do nosso coração! Difícil ver e crer no Ressuscitado numa igreja trancada, fechada, refém de seus medos interiores e de ritos que tornam o Ressuscitado um mero fantasma que entra e sai sem arranhar o nosso jeito ser! O Ressuscitado pode penetrar sim, nas nossas jaulas sagradas, mas não nos convence e nem nos mobiliza para a missão, pois o medo distorce a realidade e deforma os supostos discípulos! Pobre aquela igreja que acha que é somente no silêncio da adoração do pão eucarístico não partilhado, que emudece os clamores dos famintos, que vai fazer a experiência vital do Ressuscitado!!! É preciso ousar, romper o silêncio alienante e o temor sagrado e destrancar portas como fez Tomé, o Dídimo, o gêmeo de Jesus. É enfiando o dedo nas feridas e nas veias abertas da humanidade, curando, assistindo, protegendo vidas que experimentaremos vida! Talvez descubram os que os nossos perseguidores são os nossos próprios medos! A hora é de destrancar portas para não morrermos asfixiados!
domingo, 5 de abril de 2026
RESSURREIÇÃO, HOJE - Testemunho real de uma mãe que perdeu a única filha
'No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos'
TESTEMUNHO VERDADEIRO DE UMA MÃE QUE PERDEU A ÚNICA FILHA
‘Não me contive. Comecei a gritar como louca. Fiquei estarrecida e incrédula, mas após alguns instantes caí em mim mesma e comecei a acreditar no que meu marido acabava de me informar. A nossa única filha, de 23 anos, acabava de ser esmagada por um caminhão. Morreu na hora. Ela estava indo ao trabalho, de manhã, bem cedo. Os peritos achavam que ela devia ter encostado na sarjeta, perdido o equilíbrio e caído no asfalto. Logo atrás estava chegando um caminhão que não pode evitá-la. Não gosto de lembrar, mas não tem como tirar de mim aquele momento de dor que ainda me consome, mas que, agora, convivo com ele tendo um olhar bem diferente.... Passei noites inteiras sem dormir. Cochilava, mas acordava espantada, sobressaltada. O pensamento voltava àquelas imagens horríveis de minha filha toda deformada. Um corpo que era perfeito, ela era uma atleta, uma menina alegre, linda, cheia de vida, de iniciativas, amada e idolatrada pelos seus amigos e amigas com os quais ela saia, sistematicamente. E, agora, reduzida a um amontoado de carne dilacerada. Nos primeiros dias pensei besteiras. Não escondo não, já pensei em fazer coisas contra mim mesma para me livrar daqueles pensamentos obsessivos e recordações que alimentavam o meu cotidiano tornando-o insignificante, sem sentido....
Todos os dias, às cinco da tarde montava na minha bicicleta e ia ao cemitério. Levava comigo velas e flores. Não fazia isso para que Deus tivesse compaixão de minha filha. Para dizer a verdade, nunca acreditei em Deus e nem podia responsabilizando-o pela morte de minha filha. As velas e as flores eu as depositava naquele jazigo como se eu quisesse dizer para minha filha que a sua mãe continuava a amá-la. Que ela não estava sozinha, não sei...tinha virado uma rotina. Lembro que depois de 5 meses de idas e vindas do cemitério, uma bela noite meu marido me chamou e com dureza me disse que se eu continuasse assim ele iria perder duas pessoas queridas, e não só uma como, de fato, já a havia perdido, mas também eu. Não tive nem força para responder. Escutei calada e me levantei. Já não me importava mais nada. Viver ou morrer, continuar com ele ou sem ele, para mim era tudo a mesma coisa.
Mas, eis que uma tarde, após ter depositado as costumeiras flores e velas, ao contemplar a foto da minha lindinha, veio à minha mente algo que ao longo daqueles seis meses nunca havia aflorado. Pensei como poderia estar, agora, a minha filha depois de seis meses naquela cova, naquele caixão...Imaginei que deveria ter ainda os seus longos e castanhos cabelos, a sua melhor roupa que lhe foi colocada no dia do enterro, os sapatos, mas o corpo em si....meu Deus, gelei. Fechei os olhos e vi minha filha sem carne, sem pele, uma cabeça....não, uma caveira. Arrepiei toda. Senti uma revolta interior jamais experimentada. Repeti duas vezes para mim mesma: minha filha virou um cadáver? Um esqueleto? Não pode ser! Nunca havia pensado nisso, pois eu a via sempre linda, bonita, elegante....nunca havia me detido em imaginar que com o passar do tempo os corpos se deterioram...Não aguentei, chorei, mas saí rapidamente do cemitério. Não queria ficar lá nem um minuto a mais. Acho que estava revoltada comigo mesma. Afinal, passei meses indo visitar o lugar errado. Cemitério, queiramos ou não, é o lugar onde se depositam os cadáveres ,e não pessoas vivas. Sei que é triste dizer isso, mas é a dura realidade. E minha filha não é, e nunca foi, um cadáver, um esqueleto! Intuí que nunca mais voltaria para lá! Cheguei ao nosso apartamento e encontrei meu marido sentado no sofá assistindo tevê. Me aproximei dele um tanto sem jeito e sentei-me ao seu lado. Ele me olhou e nada disse. Já sabia de onde eu vinha. Aí tomei coragem e falei para ele: ‘querido, se não se importa, gostaria que você fosse comigo, sábado, agora, de manhã na estação de trens e na rodoviária’. Ele me olhou com ar de surpresa quase sem entender o motivo de tal pedido, mas eu expliquei logo para ele. Iríamos rever os amigos e amigas da nossa filha que, certamente, deveriam estar lá cuidando do pessoal de rua, oferecendo café, caldo, cobertores, roupas.... Havia tomado a decisão de conhecer minha filha e, talvez, já vinha acalentando um recôndito desejo de senti-la mais próxima de mim naquilo que ela fazia quando estava entre nós. Saber como era vista pelo grupo dela, o que pensava....enfim, percorrer o seu itinerário nesses ambientes e conviver um pouco com os amigos e amigas dela. Talvez fosse uma forma diferente de senti-la mais presente, mais viva...não sei.....
Passamos a manhã daquele sábado observando,
conversando, vendo o carinho, a paciência, a dedicação do grupo de nossa filha
para com aquelas pessoas maltrapilhas, de rosto tristonho, mas que se iluminava
quando se aproximava alguns daqueles jovens. Foi algo inesquecível. Confesso
que fechei os olhos e na minha mente vi também minha filha, lá, oferecendo um caldo
quente, café com leite, pão, com aquele jeito cativante que ela tinha com todos. Percebi que era
aqui que devia ter vindo desde o começo, mas, como diz o ditado, ‘antes tarde
do que nunca’. Depois disso, visito o jazigo de minha filha uma vez por ano,
mas não para falar com ela, pois eu sei que não está lá, mas só para que as
pessoas não digam que eu estou a desleixar a sepultura de minha filha...ah,
não, de minha filha, não. A sepultura dos restos mortais de minha filha. Minha
filha mesmo, nunca morreu. Hoje posso dizer isso. Ela continua vivinha e atuante naqueles jovens da
estação, da rodoviária, das casas de repouso onde eles continuam a assistir e a
acolher e a dar motivações para viver para muita gente’