sexta-feira, 8 de maio de 2026

'MAMÃE EU QUERO SER PREFEITO...MENTIR SOZINHO EU SOU CAPAZ....'

 

Mamãe, não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz, 
não quero ir de encontro ao azar...’ 

Assim começa a música ‘Cowboy fora- da- lei’ de Raul Seixas em 1987. Certamente o nosso autor sabia muito bem que eventuais assassinatos preconizados nas letras da sua canção não viriam pela mão de um povo desiludido ou ludibriado pelas promessas não mantidas por prefeitos vencedores. Afinal, quem teria coragem de cometer tais barbaridades com administradores públicos só pelo fato de não cumprirem o que prometeram? É tão corriqueira essa realidade no nosso País que, se assim fosse, teríamos poucos prefeitos sobreviventes! Em geral, as fantásticas promessas que os candidatos gritam de seus palanques ou chegam até a assinar em cartório são dirigidas para o ‘povão’ que, sistematicamente, sabe que jamais serão cumpridas e que jamais serão punidas pela justiça. Dito de outra forma, ninguém do ‘povão’, pelas informações que temos desses últimos 45 anos, atentou à vida de algum prefeito em exercício por ele não ter cumprido suas promessas. Entretanto, o mesmo não pode ser dito daqueles grupos políticos com densidade política e interesses econômicos de destaque dentro de uma unidade municipal, sejam eles aliados de ocasião ou opositores de conveniência ao prefeito vencedor. Interesses variados contrariados, promessas de cargos não mantidas aos amigos ou supostamente tais, desentendimentos e disputas internas que fogem ao controle são motivos mais que razoáveis para a eliminação física de quem administra. Pelas estatísticas, na maioria dos casos de assassinato de prefeitos, há sempre um ‘vice’ envolvido. Ou seja, parece ser ‘briga de branco’ em que o ‘povão’, sempre à margem, não se imiscui. Somado a tudo isso, há que se constatar que até aqueles setores do ‘povão’ mais aguerridos em reivindicar ou denunciar coerência e cumprimento do prometido, há bastante tempo deixaram de fazê-lo. Cansaço, luta permanente desgastante, articulação paciente, diária, têm prazo de validade. Dessa forma, fica bastante óbvio que, em geral, um prefeito administra, preferencialmente, em favor de uma minoria de sanguessugas e de apaniguados que, paradoxalmente, são os únicos que poderiam atentar ao seu cargo e à sua vida. 

Uma outra característica de um candidato a prefeito que o Raul cita nas letras da sua obra é a sua capacidade de mentir, da mesma forma que os jornais mentem! Ou melhor, candidatos sabem mentir sozinhos sem ter cumplicidade ou respaldo da mídia. É próprio de um candidato mentir. É tão visceral e tão generalizada essa postura que não chega a escandalizar ou a indignar ninguém. Quantas vezes ouvimos expressões do tipo ‘É o calor da campanha, sabe como é...deixa pra’ lá, releva!’ para tentar justificar os excessos no palavreado, nos gestos, nas promessas alucinantes de uma infinidade de candidatos de todos os espectros políticos e ideológicos. Quem não lembra, por exemplo, daquele famoso candidato que prometia que ‘ia metralhar a petralhada?’, mas acabou ‘metralhando’, com sua incompetência, mais de 700 mil amigos e inimigos?

Dito tudo isso, qual o peso que se deve dar, então, a um candidato a prefeito que após ter ouvido um grupo de cidadãos que apresentam um conjunto de normais e óbvias reivindicações em favor da cidade, e não do grupo, o aprova e se compromete colocando formalmente a sua assinatura? Será que aquele candidato, uma vez eleito, ao não cumprir o seu compromisso poderia invocar o ‘calor da campanha’, ou o ‘clima de campanha e suas dinâmicas’ como justificativa? Ou, simplesmente, deixa de ser ‘homem de palavra’ em que para ele mentir e assumir compromissos com a população sabendo, de antemão, que não irá cumpri-los é um gesto sem peso, sem valor e, principalmente, sem consequências legais?  Nobre, seria, se por parte daquele prefeito eleito ao não conseguir cumprir os compromissos assumidos publicamente viesse a público esclarecer, mostrar, expor e debater as causas efetivas do seu não cumprimento. Ocorre que, ao contrário disso, os descumpridores de promessas e de compromissos fogem, se escondem e voltam a mentir sobre as suas próprias mentiras que um dia assinaram.

O caso emblemático do prefeito de Açailândia, no caso Piquiá!









6 ª domingo de Páscoa - VENHA A NÓS O ESPÍRITO DA VERDADE PARA DEFENDERMOS OS INDEFESOS

Como se pode manter convicções e valores de vida em uma realidade onde tudo parece se esvair na atmosfera, e uma trajetória de vida coerente é rotulada pelo ‘senso comum’ como alienação ou insensatez? Como deter, afinal, o rolo compressor do ‘efeito manada’ que, tragicamente, sempre desponta em épocas de crises profundas em que predominam as atitudes massivas do ‘salve-se quem puder’, ou do ‘cada um por si e Deus por todos’? Jesus, no evangelho hodierno, parece deixar claro que não existem saídas individuais. Que a salvação entendida como plenitude de vida, aqui e agora, vem como resultado de um conjunto de imperativos éticos (mandamentos) conscientes, construídos e praticados coletiva e reciprocamente. A superação da sensação de perdição, de rejeição e de desamor é possível somente quando fazemos a experiência concreta de nos sentir defendidos, apoiados e amados por alguém que está sempre ao nosso lado. Um alguém que, mesmo não sendo visível e palpável, o sentimos como um ser vivo que emana segurança, acolhimento amoroso e paz interior. Um ‘ser-espírito’ que nos revela, sistematicamente, que não somos uma massa de órfãos abandonados, ou uma manada alienada de indivíduos enlouquecidos, mas sim, filhos queridos e irmãos solidários de uma mesma família planetária.

VIVA O DIA DAS MÃES! 

terça-feira, 5 de maio de 2026

CAOS ADMINISTRATIVO E SOCIOAMBIENTAL EM PIQUIÁ: DE FARSA A TRAGÉDIA!

 

Muitos maranhenses não sabem onde fica Piquiá. Poucos sabem que esse vilarejo de pouco mais de 4 mil residências pertencente ao município de Açailândia é responsável por quase a metade do quarto maior PIB do Estado do Maranhão. De Piquiá saem quase 2 bilhões de Reais em aço, ferro-gusa e outros derivados do minério de ferro que a empresa Vale distribui às empresas siderúrgicas locais e suas terceirizadas. Diante disso surge espontânea a ideia de que esse aglomerado de famílias vindas, em diferentes etapas, e de diferentes estados da Federação num outrora recanto florestal paradisíaco rico em ‘pequi’, ao longo de quase 50 anos, estaria vivendo numa redoma de prata. Ledo engano. Piquiá, em 2026, vive jogada às traças pelas recidivas e desastrosas administrações municipais, pela inoperância e o descaso socioambiental sistêmico de suas poderosas empresas minero-siderúrgicas. Hoje, Piquiá não possui saneamento básico, são poucas as ruas pavimentadas, verdadeiras crateras surgidas pela falta de manutenção recolhem esgoto fedorento e águas pluviais, e sem contar com uma praça que seja digna de tal nome. Entretanto, Piquiá oferece um outro trágico primado que a coloca a competir de igual para igual com São Luís do Maranhão: os altos índices de poluição que, quase sempre, são superiores aos permitidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Um morador histórico de Piquiá que tem acompanhado as vicissitudes desse vilarejo ao longo desses últimos 40 anos costuma afirmar que ‘Piquiá é a terra das promessas jamais cumpridas’, tecendo justas críticas aos diferentes administradores municipais que têm se sucedido e às notórias empresas minero-siderúrgicas que vêm se notabilizando não somente por suas superproduções de ferro-gusa, aço, e outros insumos, mas principalmente por ‘distribuírem o pó preto’ que emana de suas chaminés, sem nenhum investimento significativo, e sem compromisso com iniciativas concretas consistentes de compensação socioambiental e social’ para a população local.

Uma recente pesquisa patrocinada pela Associação Carlo Ubbiali em parceria com o Departamento de Ciências Sociais – Grupo de Estudo e Pesquisa Trabalho e Sociedade, da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), realizada ao longo de 2025 junto a cerca de 200 famílias de Piquiá sobre suas percepções a respeito da realidade socioambiental e do mercado de trabalho dos moradores de Piquiá, revela que 92% identificam a Poluição como o principal problema a ser combatido. Em segundo e terceiro lugar vem a ausência de saneamento básico e a ausência de pavimentação das ruas, respectivamente. Sabe-se que a identificação pura e simples de problemas estruturais como estes não garante a sua solução, mas pode motivar as vítimas do descaso a pressionarem e obrigarem os administradores públicos e outros atores econômicos que impactam o cotidiano de milhares de famílias a rever, radicalmente, a sua (in)capacidade de planejar e apontar prioridades. Foi com esse intuito que na manhã do dia 04 de maio uma comissão de representantes dos moradores de Piquiá reuniram-se com o Ministério Público da cidade de Açailândia. Não é que em diferentes ocasiões não se tenha tentado tecer um diálogo direto com o prefeito e alguns dos seus secretários para debater esses problemas estruturais. Ao contrário. Em pelo menos 4 ocasiões houve a possibilidade de pôr na mesa dos gestores públicos essas ‘feridas socioambientais’ que há mais de quatro décadas atentam o direito básico de uma vida digna, entretanto, do lado dos administradores públicos só ouvia-se uma monótona promessa de que ‘em 2026 iremos surpreender Piquiá’, ou ‘os projetos já estão prontos, carecem somente alguns ajustes burocráticos’, ou ‘nas próximas semanas formaremos uma equipe para mensurar o nível de poluição, identificar os responsáveis e exigir que as empresas tomem as medidas cabíveis, ou ‘os ônibus para o transporte público (do itinerário Piquiá-Açailândia-Piquiá) já chegaram, falta só criar a empresa municipal e começar a rodar...’ e outras lorotas que só vêm a desmoralizar e desacreditar o que, eufemisticamente definimos como ‘poder público’ de Açailândia. A Promotoria manifestou sensibilidade, esclareceu aos representantes algumas questões específicas e manifestou total disponibilidade em desempenhar o seu papel de mediação e de defensor de direitos coletivos convocando as partes, mas com alguns pontos centrais bem firmes, a saber: 1. Do lado da população ficou a tarefa de resgatar o documento contendo, por exemplo, os compromissos de campanha assinados pelo então candidato e, hoje, prefeito de Açailândia; a síntese e sistematização dos conteúdos-resultados emergidos das diferentes reuniões formais e informais realizadas com representantes da Prefeitura e, por último, a entrega dos resultados da pesquisa realizada ao longo de 2025 sobre as percepções da população de Piquiá a respeito da sua realidade socioambiental. Do lado da Prefeitura, o representante do Ministério Público iria comunicar formalmente o prefeito e os seus secretários para que se preparassem adequadamente, a partir do material fornecido, e em data a ser marcada de comum acordo, a administração pública iria expor tudo o que está sendo planejado para Piquiá, deixando claro os prazos e as modalidades. Haveria, finalmente, uma reunião conjunta para a apresentação e debate, finalizando com a assinatura de um termo de ajuste de conduta. Caso isso não venha a acontecer por falta de cumprimento do acordado, a população de Piquiá não terá outra saída a não ser a judicialização do caso.

AQUI ABAIXO ALGUMAS RUAS DE PIQUIÁ......



 









 

sábado, 2 de maio de 2026

5ª Domingo de Páscoa - Ao reproduzirmos as obras de compaixão de Jesus o Pai será visto em nós, e nós seremos um com Ele!

‘Ir ao Pai’ não é fugir da realidade onde vivem e lutam os Seus filhos e filhas. Não é alienar-se de suas existências e, supostamente, contemplar um deus-pai criado sob medida. É, ao contrário, encontrar a essência do amor do Pai comum no mais íntimo das pessoas. É compreender que quanto mais nos adentrarmos nos dramas, nas angústias, nas dores, nas aspirações e esperanças de Seus filhos e filhas poderemos descobrir o verdadeiro caminho para a sua superação. Jesus havia construído uma relação muito profunda e íntima com um Deus concebido e tratado como Pai ao agir com compaixão e ternura para com doentes e rejeitados da sociedade. Quanto mais Jesus se aproximava deles, mais intensamente sentia a paternidade de Deus agindo nele. Isso foi tão forte que Jesus chega a afirmar que quem via Ele, via o próprio Pai, invisível, sim, mas atuante por meio Dele. O mais espantoso, contudo, é que quem acreditar e reproduzir essa relação de amor e de compaixão poderá não somente encontrar verdade e vida, mas poderá produzir ‘obras maiores’ do que aquelas realizadas pelo próprio Jesus. As obras são ações históricas concretas de libertação e de superação de toda dependência, indiferença e intolerância, e não execuções de liturgias vazias e alienantes!

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Suspeitos de plantar maconha em aldeia indígena morrem em confronto com a polícia no interior do Maranhão

Nesta terça-feira (28) dois homens foram presos e outros dois morreram após confronto com a polícia durante a Operação Herba Nefanda II. A operação aconteceu na Aldeia Bananal, na divisa entre Grajaú e Barra do Corda, no sul do Maranhão. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.

Suspeitos eram naturais de Pernambuco

De acordo com a polícia, os suspeitos mortos eram naturais de Pernambuco e apontados como líderes do cultivo de maconha localizado na área, além de serem suspeitos de um homicídio na região. A operação foi coordenada pela 15ª Delegacia Regional de Barra do Corda e pelo 1º Distrito Policial de Grajaú, com apoio de forças estaduais e municipais. O objetivo foi dar cumprimento a mandados de prisão e de busca e apreensão, expedidos pela 2ª Vara de Grajaú, contra lideranças criminosas envolvidas com o tráfico interestadual de drogas e homicídios. Durante o cumprimento dos mandados, no povoado Sobradinho, os policiais foram recebidos a tiros por dois pernambucanos, que estavam entre os principais alvos da operação. Segundo a polícia, os suspeitos eram responsáveis pelas primeiras plantações de maconha que foram destruídas na primeira fase da operação Herba Nefanda. Eles também eram investigados por um homicídio na região. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.Foto: Divulgação / Polícia Civil do Maranhão

Troca de tiros durante a Herba Nefanda II

Houve troca de tiros, e os dois suspeitos foram baleados. Eles não resistiram aos ferimentos e morreram. Com a dupla, os policiais apreenderam uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Com a dupla, foram apreendidas uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Ainda conforme a investigação, eles eram apontados como líderes do cultivo de drogas e suspeitos de um homicídio na região. Outros dois suspeitos, naturais da Bahia, foram presos em flagrante durante a operação. Com eles, os policiais apreenderam armas longas, um revólver calibre .32 e grande quantidade de maconha em processo de secagem.

Tráfico de drogas e associação para o tráfico 

Os dois presos foram autuados por tráfico de drogas, associação para o tráfico e posse ilegal de arma de fogo.A operação também resultou na destruição de três áreas de plantio de maconha, com mais de 80 mil pés da droga. As plantações ficavam espalhadas para dificultar a localização e foram incineradas após a coleta de amostras para perícia.(IMIRANTE)

  

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cardeal Pizzaballa, patriarca de Jerusalém: "Todos sofrem, mas alguns ocupam e alguns são ocupados. Algoritmos decidem quem morre"

 

Em carta à Diocese de Jerusalém, o Patriarca escreve que hoje "a guerra se tornou objeto de adoração idólatra" e "os civis não são mais considerados vítimas colaterais". Ele denuncia a situação em Gaza e na Cisjordânia: "A agressão e os assentamentos estão aumentando". Um diagnóstico lúcido, que reconhece a dor de todos, mas distingue entre ocupantes e ocupados, e um apelo final à coexistência da fraternidade e da paz. O Cardeal Pierbattista Pizzaballa publicou hoje uma carta pastoral dirigida aos fiéis de sua diocese, Jerusalém, na qual exorta os cristãos a viverem sem se deixarem abater pela atual "desordem global".

"7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza significaram algo diferente e devastador para cada um dos dois povos desta terra", escreve o Patriarca Latino de Jerusalém no texto de 32 páginas. "Para os palestinos, representa a fase final e dramática de uma longa história de humilhação e êxodo. Para os israelenses, no entanto, representa algo sem precedentes: uma violência que trouxe à tona os horrores ocorridos na Europa há oitenta anos." Antes de se concentrar na missão dos cristãos de Jerusalém e examinar as implicações pastorais concretas para os fiéis, sacerdotes, jovens e idosos, famílias, escolas e hospitais, a carta pastoral faz uma "avaliação do atual estado de desordem em que a Terra Santa e o mundo caíram".

Pizzaballa, que nas últimas semanas não poupou críticas à missão de paz de Donald Trump, observa que um mundo em que "a comunidade internacional, e em particular o mundo ocidental, acreditava numa ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo" foi substituído por uma situação em que "a guerra se tornou objeto de um culto idólatra", "os civis já não são considerados vítimas colaterais" e "algumas potências mundiais, que outrora se apresentavam como garantes da ordem internacional (...) escolhem de que lado ficar não com base na justiça, mas nos seus próprios interesses estratégicos e econômicos".

Jerusalém, Gaza, Cisjordânia

As referências aos acontecimentos atuais são claras: "Os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração, estão se tornando campos de batalha pela identidade. Textos sagrados são invocados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo. Acredito que esse abuso do nome de Deus seja o pecado mais grave do nosso tempo", escreve Pizzaballa, que foi impedido de acessar o Santo Sepulcro pela polícia israelense durante a Semana Santa. Em Gaza, que Pizzaballa visitou diversas vezes desde o início da guerra, "nossos irmãos (...) viveram durante anos sob bombas, sem água, sem comida, sem remédios. E agora vivem entre os escombros". Na Cisjordânia, "a agressão causada pela ocupação e a total ausência do Estado de Direito estão aumentando, com a expansão contínua dos assentamentos. Se essa tendência não for interrompida, corre-se o risco de cristalização de uma situação de ocupação permanente que erode qualquer possibilidade de uma solução justa e compartilhada". E em Israel, escreve o patriarca, "nossos irmãos e irmãs vivem em um contexto diferente, mas não sem seus problemas: discriminação social, desigualdade econômica e crescente insegurança".

Dor e dor

"A dor é sempre dor, e não é nossa intenção hierarquizar o sofrimento", escreve Pizzaballa. "Embora respeitemos as diversas situações e reconheçamos sua complexidade, não podemos considerá-las todas idênticas: há uma diferença entre quem exerce o poder e quem o sofre, entre quem governa e quem é governado, entre quem possui armas e quem é ameaçado por elas, entre quem ocupa e quem é ocupado. As responsabilidades são diferentes. Reconhecer essa diferença é um ato de respeito à justiça e à verdade."

Morto com inteligência artificial

De maneira mais geral, o Patriarca Latino aponta o dedo para o uso da inteligência artificial na guerra: "Estamos entrando em uma fase em que algoritmos estão selecionando alvos, tomando decisões que até recentemente eram exclusivamente humanas". Pizzaballa pergunta: "Muitas vezes me perguntei, por exemplo: quantas pessoas morreram nessas guerras recentes em nosso país por causa da 'decisão de um algoritmo'?" O Patriarca Latino de Jerusalém lamenta que, também devido aos algoritmos das redes sociais, "estejamos cada vez mais nos isolando em grupos fechados, em enclaves sociais onde se encontram apenas pessoas que pensam da mesma forma, que falam a mesma língua, que compartilham os mesmos medos". Mas "esta terra — tão disputada quanto amada — é lar de todos: judeus israelenses e árabes palestinos; cristãos, judeus, muçulmanos, drusos, samaritanos, bahá'ís e pessoas de todas as outras crenças. Foi Deus quem nos colocou aqui. Nós, cristãos, em particular, temos um mandato específico: ser sal e luz onde quer que estejamos."  (IHU)


Em carta ao país, CNBB alerta para riscos da pejotização e defende trabalho digno

 

precarização das relações de trabalho no Brasil foi motivo de forte discussão na 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Além de uma Nota Técnica da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da entidade, os bispos se reuniram com o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, em uma reunião reservada durante o encontro.

A inclusão do tema na Carta aos Brasileiros, tradicional documento emitido sobre o posicionamento da Igreja Católica, sinaliza a preocupação e a prioridade que será dada pelo órgão máximo do catolicismo no país.Divulgada ao fim da Assembleia, realizada de 15 a 24 de abril de 2026, no Santuário Nacional de AparecidaSP, a Mensagem ao Povo Brasileiro reúne as principais preocupações sociais, políticas e éticas dos bispos do Brasil. O documento integra um conjunto de quatro mensagens aprovadas durante o encontro e aborda da violência urbana, o racismo estrutural até a crise climática e os desafios da democracia em ano eleitoralEntre os pontos mais graves apontados pelos bispos está o avanço de um “regime cotidiano de violência” nas periferias e no campo, o crescimento do feminicídio, a perseguição digital à mulheres, e a falta de reparação histórica pelo tráfico de pessoas escravizadasA mensagem também denuncia a corrosão ética na política, os ataques a povos indígenas e comunidades tradicionais, e alerta para os extremos climáticos que atingem biomas como a Amazônia.

O alerta sobre a pejotização

Em meio a um diagnóstico amplo, a questão trabalhista ganhou relevo próprio. A Carta ao Povo Brasileiro expressa a preocupação direta dos bispos com a discussão que está sendo realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre pontos da Reforma Trabalhista de Michel Temer. Em especial, a substituição de contratos regidos pela CLT por vínculos precários de prestação de serviços – o chamado fenômeno da pejotização“Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte”, afirmam os bispos no documento. A Carta também reafirma o direito sagrado ao repouso semanal e a defesa de escalas de trabalho que garantam qualidade de vida e convivência familiar.

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife (PE) e 2º vice-presidente da CNBB, explica que, durante a Assembleia, foram aprovadas quatro mensagens.Uma ao Papa Leão XIV, outra ao Dicastério para os Bispos, a terceira ao povo católico e, por fim, ao Povo Brasileiro, independente de religião.“Essa última é mais complexa e mais ampla”, afirmou Dom Paulo. “Sabemos que o Brasil não é para amadores. Nós tratamos das problemáticas sociais, políticas e econômicas e damos um pouco de assento ao tema das eleições que se aproximam”, registra.O arcebispo ressaltou que a CNBB repete, como já é praxe, o pedido por ética na política.

“Deve-se evitar compra e venda de votos e buscar com critérios éticos objetivos votar em pessoas que de fato possam melhorar o nível ético do nosso país, que se comprometam com a justiça e a paz”, disse o arcebispo. Ele também destacou que a mensagem ao povo brasileiro vai além da esfera meramente católica: “É um momento importante de nós saudarmos o povo para além dos círculos da Igreja.”As assembleias gerais da CNBB são os principais eventos deliberativos da Igreja Católica no Brasil. Reúne bispos de todas as dioceses do país para discutir diretrizes pastorais, analisar a conjuntura nacional e aprovar documentos públicos. Realizada anualmente no Santuário de Aparecida, o encontro tem grande peso simbólico e político, influenciando o debate sobre direitos humanosjustiça social e democracia no Brasil.

Neste ano, os bispos também reafirmaram o compromisso da Igreja com os mais vulneráveis, em sintonia com os 800 anos da morte de São Francisco de Assis.