Lula venceu e Flávio Bolsonaro fugiu. A história acelerou, abruptamente.
Nada será como antes. A virada era difícil, e até improvável, mas se confirmou,
mais uma vez, que nada é impossível quando a classe trabalhadora se coloca em
movimento, inspirando a maioria dos oprimidos, como nas Diretas Já, em
1984, e em 1992 na campanha Fora Collor.
Não
foi somente uma campanha eleitoral, embora tudo dependesse do desfecho nas
urnas. Aconteceu um levante cívico-eleitoral democrático com impulso
revolucionário. Talvez uma forma de “revolução democrática” do século XXI,
diante da ameaça fascista. A surpresa do desfecho do primeiro turno, com
Flávio Bolsonaro à frente de Lula, e o perigo real e imediato da
extrema-direita conquistar um “poder total” nas instituições, foi o gatilho que
disparou um alerta geral. O que teria acontecido, se Lula tivesse chegado em
primeiro lugar? Não podemos saber. Milhões de pessoas, até então, politicamente
inativas teriam despertado para uma militância febril e arrebatadora? Os
estudantes teriam saído das universidades para ser a faísca que arrastou
mulheres e homens, de distintas gerações, para um ativismo frenético nas ruas e
redes? Mas
não foi somente o medo. O medo somente não mobiliza. Somente o medo
conduz ao desespero. A outra força motriz do ascenso, tão ou mais importante,
foi a confiança que era possível vencer. O nome desta fé é a esperança. Em
2018, tivemos o momento tragédia com a eleição de Bolsonaro pai. Em
2026, o momento comédia com a fuga em pânico de Bolsonaro filho.
O
que é certo e mais importante é que ficou demonstrado, de forma irrefutável, a
força social de choque da classe trabalhadora brasileira, o maior proletariado da
América Latina. O Brasil viveu, nas três semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais, uma experiência
rara, avassaladora e inusitada de mobilização política de massas. A vitória
eleitoral de Lula no domingo 25 de outubro é incomparável e não tem
precedentes. A virada teve um “empurrão revolucionário”, algo novo, e foi
garantida pelo engajamento de uma vanguarda de milhões. O empoderamento da irrupção de massas em uma onda vermelha
que ocupou as ruas e tomou as redes sociais foi uma “escola”. As pessoas
descobriram que, quando se unem na luta, têm uma força de impacto que é
arrasadora. Da Avenida Paulista à praia de Copacabana, de Porto Alegre a Belém,
de Salvador a Brasília, de Belo Horizonte a Recife, de Curitiba a Fortaleza,
por todas as capitais, mas também em cidade médias e mesmo pequenas, ocorreram
as maiores manifestações da história.
Foram
atos de esquerda, de uma esquerda que é diversa e plural, em que se
ovacionava Lula. A avalanche mudou a relação social e política de forças:
estivemos durante dez anos em uma situação reacionária e defensiva. As “placas
tectônicas” da estrutura da sociedade se moveram. Estamos agora em ofensiva, e
abriu-se uma situação transitória. Mas nada está garantido de antemão. Tudo
está em disputa. Vai depender, sobretudo de dois fatores:
(i)
da capacidade de iniciativa, da ousadia e determinação do governo Lula;
(ii)
da manutenção da disposição de luta popular. A “onda vermelha’ pode
morrer na praia.
A
construção de uma segunda “onda” será, portanto, o desafio estratégico.
A
extrema direita sofreu a maior derrota de sempre e está agora,
transitoriamente, acéfala. Mas vai se reorganizar. Além do apoio da Casa Branca tem posições institucionais nos
governos estaduais e no Congresso mais fortes do que antes. Se as massas
recuarem, pelas mais diversas razões, pode se estabilizar uma situação de
impasse na luta de classes. Se mantiverem a confiança de que é necessário ir
além pode se abrir uma dinâmica de radicalização pré-revolucionária. Tanto a
evolução do governo, se irá avançar ou pactuar, como a evolução da força das
ruas, se irá se manter, e crescer para novas formas de democracia direta e
auto-organização, mais “leves e rápidas”, embriões de poder popular ou não,
definirão nosso destino.
Aprender
com a experiência da “onda vermelha” será crucial para o futuro da
esquerda. Este é uma daqueles momentos em que devemos recorrer ao bom método do
“empirismo leninista”. Isso significa estudar, minuciosa e pacientemente, o que
aconteceu, porque foi inesperado e inédito, surpreendente e colossal. Nada foi
tão decisivo como o impulso de luta ininterrupta e permanente, todos os dias.