Se alguém nos perguntasse quem somos, muitos de nós responderíamos, sem hesitar, que somos, primeiramente, seres humanos. Se, contudo, persistissem em suas indagações e nos perguntassem como cada um de nós se compreende como ‘ser humano’ teríamos, certamente, uma infinidade de respostas. Chegaríamos até, a ensaiar respostas de acordo com as expectativas dos nossos pesquisadores. De fato, temos dificuldade em nos definir, e em nos expor para os outros. No evangelho de hoje Jesus, por sua inciativa, se assume, de imediato, como ‘filho do homem’ com tudo o que isso acarreta. Não receia em indagar os seus discípulos para saber como o povo compreende a sua ‘humanidade’ ou, a sua missão como ‘ser humano’ no meio dele. Ao ouvir as diferentes respostas, Jesus não esconde a sua decepção. Afinal, Ele é equiparado a alguns dos míticos profetas, semideuses, do passado de Israel. Jesus percebe que não estava sendo entendido como ‘filho do homem’, humano entre os humanos, mas como um semideus., uma espécie de líder celestial Ele que movido pela compaixão quis se igualar em tudo à condição humana, não havia sido acolhido como humano no meio dos humanos. O povo de ontem e de hoje, e o próprio Pedro, continuam, no fundo, a desejar ainda ‘messias’ e supostos ‘ungidos’ para poder delegar a esses supostos salvadores da pátria o que os ‘humanos’ não querem assumir!
Claudio Maranhão
foto: Claudio Bombieri -
sábado, 27 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza
Em 23 de junho, uma comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter como alvo crianças em Gaza. Em um relatório de cem páginas, os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra menores palestinos no território desde 7 de outubro de 2023 até 31 de março de 2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está cometendo genocídio.A reportagem é publicada por RFI, 25-06-2026.
Mais de 20 mil crianças foram mortas na Faixa de Gaza entre 7 de outubro de 2023 e 7 de outubro de 2025, cerca de 40 mil ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram órfãs. No relatório, os especialistas destacam que “o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir o ‘grupo palestino’, no todo ou em parte, em Gaza”. Para a comissão, as crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua capacidade de sobreviver. Segundo o documento, as forças israelenses têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados superlotados. Israel também perturba sistematicamente a capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95% das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores e enfraqueceu “os alicerces da sociedade palestina”.
O Estado
israelense também tem como alvo os serviços neonatais e de
maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento de abortos espontâneos e
malformações congênitas. Além disso, a fome imposta em Gaza causou
mortes infantis. Em 1º de outubro de 2025, 151 mortes de crianças por
subnutrição haviam sido registradas.
Mas Israel também
ataca diretamente as crianças. Tel
Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e
rifles, visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior
do corpo “para infligir o máximo dano”, diz Srinivasan Muralidhar, presidente da
comissão. O relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone
com câmera infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que
ganhou destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando
tentava deixar a Cidade
de Gaza com sua família.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
12°Domingo Comum - 'NÃO TENHAIS MEDO'!
Sentir medo faz parte da nossa estrutura emocional. É um mecanismo do nosso cérebro para se antecipar, e nos preservar de eventuais perigos e ameaças iminentes ou futuras. Contudo, quando o medo, em lugar de desencadear em nós uma reação positiva para superá-lo e enfrentar os supostos perigos, e chega a nos paralisar e dominar, ele se torna uma perigosa fobia. Algo patológico que não nos deixa viver com dignidade e liberdade. É a esse tipo de medo que Jesus parece se referir no evangelho de hoje. O ‘Não tenhais medo’ que o Mestre repete como uma espécie de refrão é dirigido aos seus seguidores que fazem a experiência concreta da perseguição e do banimento público por serem discípulos Dele. Jesus os incentiva a enfrentar o medo que Ele sabe ser real, e a não se deixar travar por ele. Ao mesmo tempo, Ele os motiva a não negociar com o medo ao compactuar com quem os ameaça e persegue, e a não renunciar jamais às suas convicções e aos seus testemunhos. Talvez, hoje, estejamos enfrentando dentro da igreja de Jesus outros ‘medos’ extremamente perigosos e patológicos: o medo de um 'deus' entendido como juíz intransigente e castigador; o medo de perder privilégios e poder; o medo de perder uma fantasmagórica e imutável ‘identidade católica’; o medo de perder fregueses devotos, e não discípulos! Na realidade, o verdadeiro ‘medo’ que deveríamos sentir é o de trair e renegar o Pai e o seu Reinado de amor e de compaixão!
sábado, 13 de junho de 2026
XI Domingo Comum - Para ser discípulo de Jesus é preciso sentir indignação e compaixão!
"Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca". (Ap.3,16) O indiferente, o apático é incapaz de sentir nele a dor e a alegria que existem no outro. Às vezes, tem-se a impressão de que nos acostumamos de tal maneira em ver pessoas abandonadas, humilhadas e esmagadas por outros humanos que deixamos secar, aos poucos, a escassa indignação e empatia que ainda sobrevivem em nós. Achamos mais conveniente aderir à lógica diabólica da ‘religião’ e ‘orar’ pelos doentes e aflitos, em lugar de assisti-los e defendê-los em seus direitos e dignidade. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que os seus discípulos, se quiserem ser missionários autênticos da ‘Realeza do Pai’, devem abandonar a indiferença e a apatia. Devem rechaçar os vícios dos devotos hipócritas do templo e de seus preceitos de 'pureza litúrgica' que impedem a aproximação com 'as pessoas impuras'. Devem se deixar educar, definitivamente, pela indignação e pela ternura compassiva. Só assim poderemos sarar as feridas abertas e infectadas do egoísmo e da indiferença, purificar a lepra da intolerância e do racismo, e expulsar os demônios do medo, da dependência e da manipulação.
domingo, 7 de junho de 2026
10°domingo comum - CHEGA DE SACRIFÍCIOS E RITOS, QUERO AMOR E COMPAIXÃO!
Pela nossa formação catequética e religiosa, um tanto distorcida, temos dificuldade de encarar a nossa relação com Deus de acordo com o modo vivenciado por Jesus. Muitos continuam a imaginar que temos um Deus que exige louvores, súplicas, promessas, sacrifícios, cumprimento rigoroso de ritos e liturgias que, afinal, nós mesmos criamos. Imaginamos que tudo isso é necessário para conquistar a Sua benevolência, e obter, em troca, favores e graças. É uma clara relação mercantilista, uma tentativa de cooptação e de manipulação de um suposto 'deus' que nós mesmos criamos para nós! E pagamos as consequências disso tudo: sentimentos de culpa, escrupulosidade litúrgica, misticismos e ritualismos desencarnados e ausência de obrigações éticas e morais para com as pessoas. Afinal, imaginamos que é o 'deus' ao qual nos dirigimos que nos dá tudo, o bem e o mal! Jesus nos prova que o nosso compromisso real é com as pessoas, filhos e filhas de um Pai que se preocupa exclusivamente com eles. O Deus de Jesus não quer nada para si, Ele já tem tudo, não precisa ser convencido de nada, Ele nos protege e ama com ou sem súplicas, orações e sacrifícios. Com isso, o Deus de Jesus nos desvia da religião bitolada e carola para assumirmos o verdadeiro compromisso de fé que faz sentido: amar os nossos semelhantes, compadecer-se do humilhado e do excluído. Sim, aqueles que com os nossos critérios religiosos julgamos impuros e indignos. O Deus de Jesus quer amor, não alienação religiosa!
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Solenidade do Corpo e Sangue de Jesus - Servir, defender e proteger corpos desfigurados, sacrários do amor do Pai!
Nós
não temos corpo, nós somos corpo! É através dele que entramos em sintonia com
as pessoas na sua integralidade e com a própria transcendência. Sem o corpo não
existiria nem amor nem compaixão, nem solidariedade e nem caridade. Celebrar a
solenidade do Corpo e do Sangue de Jesus é mergulhar na plenitude da Sua
humanidade: identificar-se com sua sensibilidade, sua empatia e, também, com sua
capacidade de ‘sair do seu corpo’ para cuidar de outros corpos, feridos,
perseguidos, torturados, escravizados, famintos e violentados. Escandalizamo-nos
quando existe uma profanação da ‘hóstia consagrada’, mas permanecemos indiferentes
quando o corpo de um filho de Deus, que é o verdadeiro templo e sacrário do
Pai, é linchado e desfigurado. Revoltamo-nos com quem não se ajoelha para
adorar e venerar a ‘hóstia santa’ num ostensório dourado, mas somos incapazes
de nos ajoelhar para lavar os pés dos nossos irmãos como Jesus fez. Afinal,
nunca passou pela cabeça de Jesus de exigir reverência e adoração ao seu ‘corpo’,
- algo fácil de se fazer, - mas, ao contrário, Jesus colocou toda a sua
corporeidade a serviço daqueles corpos desfigurados pelo egoísmo e pelo ódio.
Fez do seu corpo o alimento para saciar a fome e sede de respeito e de amor de
quem não se alimenta de poder, de dinheiro, de prestígio, de alienação.
Corpus Christi: é mais cômodo adorar a Jesus que segui-lo - por padre Adroaldo Palaoro
Celebramos o “Corpus Christi”, uma das festas mais ricas por seu conteúdo e simbolismo, mas que nos faz pensar também no “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos. Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bem maior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”. Comungamos o “Corpo de Cristo” para podermos viver o seguimento com mais radicalidade. Infelizmente, o que temos observado é que grande parte dos cristãos não seguem uma Pessoa (Jesus Cristo), mas se limitam a cumprir alguns ritos, leis, práticas devocionais e piedosas... que revelam uma espiritualidade intimista, alienante e distante do compromisso com os outros. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o compromisso com os “corpos” explorados, manipulados, usados, escravizados...
Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito ao “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá, por todos os lados...Certamente, nunca passou pela cabeça de Jesus pedir que os seus(suas) seguidores(as) se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de servos, lhes disse: “Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”. Essa lição, ousada e provocativa, parece que nunca nos interessou. É mais cômodo transformá-Lo em objeto de adoração do que segui-Lo no serviço, na disponibilidade e na entrega aos demais. Todas as demonstrações de respeito e veneração diante do Corpo de Cristo tem seu sentido e significado. Mas, ajoelhar-nos diante do Santíssimo Sacramento e continuar menosprezando ou ignorando o próximo, é uma ofensa. Se, em nossa vida, não deixamos transparecer a atitude de Jesus, todos os gestos de adoração continuarão sendo “magia barata” para tranquilizar nossas consciências. É preciso descobrir a presença de Jesus em todos os corpos desfigurados, famintos, violentados, desprezados..., e que suplicam por uma presença servidora e solidária. Diante destes corpos desumanizados, morada do Ressuscitado, é que devemos nos ajoelhar para facilitar a ajuda e o serviço. Ninguém pode servir a partir de uma posição elevada; é preciso “descer”, esvaziar-nos de nosso ego prepotente, para prolongar as mãos e o coração do Compassivo.
“Corpus Christi” nos fala, portanto, da “Encarnação continuada”, ou seja, Deus não só se “encarna”, Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, ou um evento isolado da história, mas uma atitude eterna de Deus. Toda a Criação e toda a Humanidade foram assumidas por este “mistério” fundante de nossa fé. Assim, toda a história humana se faz História da Salvação. E o “assim novamente encarnado” (S. Inácio) se visibiliza em todos os “corpos” humanos. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40) Ao comungar o “Corpo de Jesus”, nosso corpo e todo nosso ser tocam algo do mistério da Encarnação. A comunhão é – ou deveria ser – uma sacudida pessoal e comunitária que nos impulsiona a retomar o projeto vital de Jesus, do qual nos afastamos continuamente.
Na
Eucaristia se concentra toda a mensagem de Jesus, que é o Amor. O
Amor que é Deus manifestado no dom de si mesmo e que Jesus deixou transparecer
durante sua vida. Ao dizer, “isto é o meu corpo”, Jesus está afirmando: Isto sou eu: Dom total, Amor total, sem limites. Ao comer o
pão e beber o vinho consagrados, queremos afirmar: fazemos nossa a Sua vida e nos comprometemos a
nos identificar com o que foi e fez Jesus. O pão que nos dá a Vida não é apenas
o pão que comemos, mas o pão no qual nos transformamos, quando fazemos de nossa
vida uma doação contínua. Somos cristãos, não só quando comemos o pão, mas
quando nos deixamos consumir, como Ele fez.
Discípulos(as) de Jesus somos quando aprendemos a partir o pão. Reconhecemos os cristãos hoje quando partem o pão e não o retém para si. O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece. Compartilhar significa não “monopolizar”, não permitir que haja necessitados entre nós. O pão partido é a vida compartilhada: bens, dons, tempo, qualidades...O cristão, além disso, compartilha seus ideais, seu entusiasmo, seu ânimo, sua fé, sua esperança. Também hoje Jesus precisa de nossas mãos para multiplicar os grãos; precisa de nossas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de nosso coração para que o pão seja repartido. O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo. O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fraticidas provoca o pão sem coração!
Deus precisa de nosso coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, energia de vida. Por fim, é preciso enfatizar que, celebrar e venerar o “Corpo de Cristo” nos remete ao nosso corpo e ao corpo dos outros. Nossos corpos estão integrados e dignificados no Grande Corpo Cósmico d’Aquele que se esvaziou dos atributos divinos para se fazer “Corpo” e “divinizar” nossos corpos. Integrados ao “Corpo do Ressuscitado” somos chamados a superar toda suspeita, medo, julgamentos moralistas e visões dualistas dos nossos corpos. Afinal, não “temos” corpo, “somos corpo”; pensamos, amamos, sentimos e entramos em relação com o Transcendente através de nosso corpo. Enchemo-nos de assombro diante do mistério que é cada corpo. Nossos esquemas e dualismos de matéria-espírito, espaço-tempo, passado-futuro, longe-perto, parecem diluir-se. Todo corpo está “animado” e toda “alma” está sempre “corporificada”. No encontro com o “Corpo de Cristo” passamos a ter uma outra visão de nosso corpo; isso implica superar a parcialização, a polarização e a dicotomia e buscar a harmonia e a integração. Somos nosso corpo animado, com vida e com sentido. Construímos nossa vida com nosso corpo e graças a ele. Com, em e pelo corpo, vivemos nossa história, caminhamos pela vida na contínua aventura de crescimento e de maturação, de amor e de conhecimento, de encontro com os outros e conosco mesmo, com nossos desejos e medos, nossas alegrias e dores, nossas esperanças e desesperos, nossas vitórias e desilusões ... Tudo isso está inscrito em nossa “carne”.
Nosso
ser profundo, nosso ser essencial se manifesta, se abre para fora através de
nosso corpo. O corpo deixa transparecer o que há de mais humano e mais divino
em seu interior.
Deixemos
“transparecer” o “Corpo de Cristo” em nossos corpos!