quinta-feira, 16 de abril de 2026

III domingo de Páscoa - É na reprodução das opções de Jesus que descobrimos o pão que sacia os decepcionados!

Desilusões e decepções fazem parte da vida. Às vezes elas nos parecem uma vingança da vida por termos acreditado, idealizado e sonhado demais! Parece que os discípulos de Emaús tenham feito uma experiencia similar! Jesus havia sinalizado algo inédito nas relações sociais de seus contemporâneos. Talvez eles esperassem uma possível ruptura com o passado e com o presente daquela nação. A morte humilhante do líder Jesus parece haver trazido todos os sonhos de mudança à crua realidade. Os discípulos imaginavam que ao se afastarem de Jerusalém iriam esquecer, também, seus sentimentos de decepção. Contudo, na medida em que os dois discípulos se afastam de Jerusalém, adquirem mais lucidez para entender o que lhes havia acontecido. Já não é um exercício de mera recordação, mas um processo de conversão-revelação. Um ressignificar e um reviver de forma intensa, sacramental, gestos, palavras, relações de afeto e de compaixão vivenciados com o crucificado Jesus. Compreendem que, agora, é este o pão que deveria ser partilhado e doado. É reproduzindo as opções e gestos de Jesus que se alimentam esperanças! Não precisava mais se afastar de Jerusalém, mas encarar o lugar da morte-decepção com outros olhos. Descobrir que no lugar da humilhação poderia surgir esperança renovada e vida em abunddância. Só nesses momentos reveladores que ‘os muitos’ discípulos/as decepcionados descobrem que o ‘peregrino’ Jesus sempre havia estado com eles ao longo do seu caminhar. Que Ele nunca havia se afastado deles!



quarta-feira, 15 de abril de 2026

É preciso repensar a atuação do Ministério dos Povos Indígenas. As aldeias continuam largadas e esquecidas!

A ministra do Povos Indígena Sônia Guajajara deixou o ministério para concorrer à sua reeleição como deputada federal, espaço que já era seu por direito, mas que nunca ocupou até o presente momento. Talvez, agora, até o período próprio de plena campanha, venha a exercer o mandato. Seja o que for, haveríamos de nos perguntar se a sua permanência ao longo desses três anos e meio fez a diferença para os povos indígenas do Maranhão. A primeira e instintual resposta é negativa. Algumas melhoras decorreram graças a uma série de decisões federais que independeram do planejamento e das decisões do Ministério dos Povos Indígenas. Certamente, as sedes físicas da FUNAI saíram do abandono a que estavam relegadas no governo passado e o quadro administrativo foi preenchido não por pessoas ligadas aos militares, mas por lideranças ligadas aos movimentos indígenas. Inicialmente, um tanto perdidos e inseguros diante do inédito, esses novos administradores e funcionários indígenas foram conhecendo aos poucos as entranhas e as armadilhas da máquina pública, ensaiando, testando, errando, corrigindo, sobrevivendo. Muitos outros elementos poderiam ser citados para confirmar que não houve imobilismo ou total ausência institucional, contudo, estamos longe de poder afirmar que o então inédito Ministério dos Povos Indígenas criado a seu tempo pelo governo Lula deixou um marco significativo, histórico, ao longo desses anos. Evidentemente, quem trabalha diretamente na máquina pública sabe melhor de quem olha de fora os engodos internos existentes, mas também é verdade que que está na base, nas aldeias, sentem na pele o que significa não ter estradas decentes, transporte, assistência na produção agrícola, artesanal, apoio no monitoramento e defesa dos territórios, fornecimento de água potável, educação escolar indígena de qualidade, assistência sanitária digna e muitos outros serviços que não apareceram ou foram realizados de forma muito precária, de forma que é difícil dizer que o Ministério exerceu uma influência e uma presença positiva junto às aldeias e que significou uma virada histórica. Estamos longe de poder afirmar isso! Acredito, também, que ao não corresponder às expectativas criadas, originalmente, - talvez excessivas, - tenha, ate, originado um certo mal-estar, nada bom em vista do futuro. 

Nesses anos, nas nossas andanças e colaborações com inúmeras comunidades indígenas pudemos constatar o quão longe estão uns dos outros: os funcionários e pensadores de políticas públicas específicas para os povos indígenas e os próprios indígenas que vivem, sobrevivem, lutam e trabalham para sair da...miséria, pelo menos nesse Estado! Foi justamente nesses dias que ouvi um relato de uma amiga que conheceu um alto funcionário da SESAI (Saúde Especial Indígena) do Maranhão em que ele mostrou o seu total desconhecimento da real situação de numerosas aldeias desse mesmo estado em que trabalha há mais de três anos. Ainda há um desencontro histórico e institucional. Não é suficiente colocar indígenas para cuidar de indígenas. É preciso muito mais. Não é questão só de orçamento, nem de eficiência administrativa. É preciso mergulhar nos dramas de famílias, de pais e de jovens produtores indígenas que se sentem abandonados, largados, invisibilizados não somente pelos administradores locais não indígenas, mas também pelos ‘seus’! Isso dói demais!

"O ataque de Trump ao Papa pode marcar o começo do fim para ele". Entrevista com Massimo Faggioli

"Paradoxo histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV. "O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados UnidosLeão o faz não para proteger os interesses da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca", enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.

Eis a entrevista.

Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa Leão?

O estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase CupichRobert McElroy e Joseph Tobin — que também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo, datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto, são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.

 Um dos temas centrais do pontificado desde o início, assim como fora sob o Papa Bergoglio. Por que Trump está intervindo agora?

Francisco não preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano — uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de compreender os Estados UnidosLeão XIV, por outro lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca o início de seu declínio político.

 Sério? Por qual motivo?

O trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita", personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e da inteligência artificial, que estão menos interessados ​​em defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo e seus recursos.

A "tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa, ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.

 Mas será que a decadência de Trump é realmente concebível?

O magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém, violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter sido explorada pelo trumpismo.

 Como alguns católicos em altos cargos de administração, como Vance e Rubio, poderiam reagir?

Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump, sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em 2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa. Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles podem decidir se rebelar. (IHU)

 

 


domingo, 12 de abril de 2026

Domingo da oitava de Páscoa - É HORA DE DESTRANCAR PORTAS!

Trancar portas não resolve! Não seremos jamais poupados de ameaças e perseguições. Trancar portas só nos ilude, temporariamente, de que estamos seguros e protegidos, mas de quem, afinal? Trancar portas impede que olhemos para a cara de quem, supostamente, nos persegue, e possamos enfrentá-lo no diálogo, nas argumentações, no testemunho. Trancar portas impede que os gritos e os clamores de milhões de crucificados cheguem os nossos surdos ouvidos. Trancar portas não irá impedir que façamos as contas, mais cedo ou mais tarde, com os nossos medos e covardias. Enfim, é muito mais o que perdemos do que ganhamos ao fechar as portas do nosso coração! Difícil ver e crer no Ressuscitado numa igreja trancada, fechada, refém de seus medos interiores e de ritos que tornam o Ressuscitado um mero fantasma que entra e sai sem arranhar o nosso jeito ser! O Ressuscitado pode penetrar sim, nas nossas jaulas sagradas, mas não nos convence e nem nos mobiliza para a missão, pois o medo distorce a realidade e deforma os supostos discípulos! Pobre aquela igreja que acha que é somente no silêncio da adoração do pão eucarístico não partilhado, que emudece os clamores dos famintos, que vai fazer a experiência vital do Ressuscitado!!! É preciso ousar, romper o silêncio alienante e o temor sagrado e destrancar portas como fez Tomé, o Dídimo, o gêmeo de Jesus. É enfiando o dedo nas feridas e nas veias abertas da humanidade, curando, assistindo, protegendo vidas que experimentaremos vida! Talvez descubram os que os nossos perseguidores são os nossos próprios medos! A hora é de destrancar portas para não morrermos asfixiados!

domingo, 5 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO, HOJE - Testemunho real de uma mãe que perdeu a única filha

'No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos'

TESTEMUNHO VERDADEIRO DE UMA MÃE QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

‘Não me contive. Comecei a gritar como louca. Fiquei estarrecida e incrédula, mas após alguns instantes caí em mim mesma e comecei a acreditar no que meu marido acabava de me informar. A nossa única filha, de 23 anos, acabava de ser esmagada por um caminhão. Morreu na hora. Ela estava indo ao trabalho, de manhã, bem cedo. Os peritos achavam que ela devia ter encostado na sarjeta, perdido o equilíbrio e caído no asfalto. Logo atrás estava chegando um caminhão que não pode evitá-la. Não gosto de lembrar, mas não tem como tirar de mim aquele momento de dor que ainda me consome, mas que, agora, convivo com ele tendo um olhar bem diferente.... Passei noites inteiras sem dormir. Cochilava, mas acordava espantada, sobressaltada. O pensamento voltava àquelas imagens horríveis de minha filha toda deformada. Um corpo que era perfeito, ela era uma atleta, uma menina alegre, linda, cheia de vida, de iniciativas, amada e idolatrada pelos seus amigos e amigas com os quais ela saia, sistematicamente. E, agora, reduzida a um amontoado de carne dilacerada. Nos primeiros dias pensei besteiras. Não escondo não, já pensei em fazer coisas contra mim mesma para me livrar daqueles pensamentos obsessivos e recordações que alimentavam o meu cotidiano tornando-o insignificante, sem sentido....

Todos os dias, às cinco da tarde montava na minha bicicleta e ia ao cemitério. Levava comigo velas e flores. Não fazia isso para que Deus tivesse compaixão de minha filha. Para dizer a verdade, nunca acreditei em Deus e nem podia responsabilizando-o pela morte de minha filha. As velas e as flores eu as depositava naquele jazigo como se eu quisesse dizer para minha filha que a sua mãe continuava a amá-la. Que ela não estava sozinha, não sei...tinha virado uma rotina. Lembro que depois de 5 meses de idas e vindas do cemitério, uma bela noite meu marido me chamou e com dureza me disse que se eu continuasse assim ele iria perder duas pessoas queridas, e não só uma como, de fato, já a havia perdido, mas também eu. Não tive nem força para responder. Escutei calada e me levantei. Já não me importava mais nada. Viver ou morrer, continuar com ele ou sem ele, para mim era tudo a mesma coisa. 

Mas, eis que uma tarde, após ter depositado as costumeiras flores e velas, ao contemplar a foto da minha lindinha, veio à minha mente algo que ao longo daqueles seis meses nunca havia aflorado. Pensei como poderia estar, agora, a minha filha depois de seis meses naquela cova, naquele caixão...Imaginei que deveria ter ainda os seus longos e castanhos cabelos, a sua melhor roupa que lhe foi colocada no dia do enterro, os sapatos, mas o corpo em si....meu Deus, gelei. Fechei os olhos e vi minha filha sem carne, sem pele, uma cabeça....não, uma caveira. Arrepiei toda. Senti uma revolta interior jamais experimentada. Repeti duas vezes para mim mesma: minha filha virou um cadáver? Um esqueleto? Não pode ser! Nunca havia pensado nisso, pois eu a via sempre linda, bonita, elegante....nunca havia me detido em imaginar que com o passar do tempo os corpos se deterioram...Não aguentei, chorei, mas saí rapidamente do cemitério. Não queria ficar lá nem um minuto a mais. Acho que estava revoltada comigo mesma. Afinal, passei meses indo visitar o lugar errado. Cemitério, queiramos ou não, é o lugar onde se depositam os cadáveres ,e não pessoas vivas. Sei que é triste dizer isso, mas é a dura realidade. E minha filha não é, e nunca foi, um cadáver, um esqueleto! Intuí que nunca mais voltaria para lá! Cheguei ao nosso apartamento e encontrei meu marido sentado no sofá assistindo tevê. Me aproximei dele um tanto sem jeito e sentei-me ao seu lado. Ele me olhou e nada disse. Já sabia de onde eu vinha. Aí tomei coragem e falei para ele: ‘querido, se não se importa, gostaria que você fosse comigo, sábado, agora, de manhã na estação de trens e na rodoviária’. Ele me olhou com ar de surpresa quase sem entender o motivo de tal pedido, mas eu expliquei logo para ele. Iríamos rever os amigos e amigas da nossa filha que, certamente, deveriam estar lá cuidando do pessoal de rua, oferecendo café, caldo, cobertores, roupas.... Havia tomado a decisão de conhecer minha filha e, talvez, já vinha acalentando um recôndito desejo de senti-la mais próxima de mim naquilo que ela fazia quando estava entre nós. Saber como era vista pelo grupo dela, o que pensava....enfim, percorrer o seu itinerário nesses ambientes e conviver um pouco com os amigos e amigas dela. Talvez fosse uma forma diferente de senti-la mais presente, mais viva...não sei..... 

Passamos a manhã daquele sábado observando, conversando, vendo o carinho, a paciência, a dedicação do grupo de nossa filha para com aquelas pessoas maltrapilhas, de rosto tristonho, mas que se iluminava quando se aproximava alguns daqueles jovens. Foi algo inesquecível. Confesso que fechei os olhos e na minha mente vi também minha filha, lá, oferecendo um caldo quente, café com leite, pão, com aquele jeito cativante que ela tinha com todos. Percebi que era aqui que devia ter vindo desde o começo, mas, como diz o ditado, ‘antes tarde do que nunca’. Depois disso, visito o jazigo de minha filha uma vez por ano, mas não para falar com ela, pois eu sei que não está lá, mas só para que as pessoas não digam que eu estou a desleixar a sepultura de minha filha...ah, não, de minha filha, não. A sepultura dos restos mortais de minha filha. Minha filha mesmo, nunca morreu. Hoje posso dizer isso. Ela continua vivinha e atuante naqueles jovens da estação, da rodoviária, das casas de repouso onde eles continuam a assistir e a acolher e a dar motivações para viver para muita gente’

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CARTA DE JUDAS - Por Kécio Rabelo

Não sei a quem escrevo.
Talvez a ninguém. Talvez a todos. Talvez à parte de mim que ainda insiste em procurar sentido depois que o mundo escureceu ao meio-dia.

Conheci Jesus como quem encontra um caminho no meio da poeira.
Não o compreendi de imediato. Ninguém compreendia por inteiro.
Havia nele uma calma que inquietava. Um silêncio que dizia mais que qualquer palavra. E, quando falava, não era apenas ouvido — era sentido, como se suas palavras atravessassem a pele e tocassem algo que ainda não tinha nome.

Eu o segui.

Como tantos outros, segui com esperança e cálculo misturados.
Esperança de redenção. Cálculo de futuro.
Queria nele o libertador — mas um libertador à minha medida.
Talvez tenha sido esse o meu primeiro erro: tentar encaixar Deus dentro das minhas expectativas.

Houve dias luminosos.
Multidões, curas, pão repartido que não se esgotava.
Mas houve também momentos que me desarmaram — como aquele jantar na casa de Zaqueu.
Ali, vi um homem que todos desprezavam ser acolhido sem reservas.
E algo em mim se revoltou.
Não era apenas incompreensão — era incômodo diante de um amor que não fazia distinções.
Um amor que não obedecia à lógica dos merecimentos.

E havia o silêncio dele…
Sempre o silêncio.
Um silêncio que me expunha mais do que qualquer acusação.

Na última ceia, tudo pesou.

O tempo parecia arrastar-se.
Cada gesto carregava um adeus escondido.
Ele falava de entrega, de corpo, de sangue… falava de traição.
E nós — tão próximos e tão distantes — fingíamos não entender.

Quando disse que um de nós o trairia, senti o chão ceder.
Mas permaneci.
Imóvel por fora. Em ruína por dentro.

Na noite do jardim das oliveiras, tudo se decidiu.

A escuridão tinha peso.
Havia passos, vozes, pressa.
E havia o beijo.

Nunca um gesto tão simples carregou tanta condenação.
Nunca algo tão pequeno abriu um abismo tão grande.

Não foi ódio. Foi pior.

Foi fraqueza disfarçada de decisão.
Foi pressa vestida de propósito.
Foi tentativa de controlar o que só poderia ser acolhido.

Talvez eu tenha acreditado que estava apressando Deus.
Que estava provocando o desfecho.
Que Ele reagiria com poder.

Mas Deus… não reage como esperamos.

Na sexta-feira, eu vi de longe.

Entre sombras, escondido entre gritos que mudaram de lado com uma facilidade assustadora.
Os mesmos que aclamaram, condenaram.
Os mesmos braços que ergueram ramos agora apontavam sentenças.

Eu vi o peso da cruz.
Vi o corpo ferido.
Vi o céu escurecer.

E, pela primeira vez… vi com clareza.

Não havia estratégia.
Nem havia erro de cálculo.
Não havia derrota.

Havia amor.

E eu não soube reconhecê-lo.

O som dos martelos não saiu de mim desde então.
Cada golpe não ecoa apenas na cruz — ecoa dentro de mim.
Porque não foi apenas a Ele que eu traí.

Eu me traí.

Traí aquilo que vi.
Traí aquilo que soube.
Traí a verdade quando ela exigiu de mim algo que eu não quis dar: confiança.

Carrego moedas que não compram silêncio.
Carrego lembranças que não permitem descanso.
Carrego um nome que será repetido como sinônimo de queda.

E talvez seja justo.

Mas escrevo.

Escrevo porque minha história não termina em mim.
Ela se repete — silenciosa — em cada escolha pequena, em cada desvio quase imperceptível, em cada momento em que trocamos o essencial pelo imediato.

Há em nós uma fissura.
Uma distância entre aquilo que sabemos ser o bem… e aquilo que escolhemos fazer.
E é nessa distância que nascem as maiores quedas.

Eu caminhei ao lado da verdade — e ainda assim a perdi.

E é isso que torna tudo mais duro.

Porque o perigo não está em não conhecer.
Está em conhecer… e ainda assim não sustentar.

Hoje entendo:
o erro mais profundo não é trair por ignorância — é trair por incapacidade de permanecer.

Na manhã da ressurreição, eu não estava lá.

Mas eu sabia.

Sabia porque o vi devolver vida onde só havia morte.
Vi-o acender esperança onde tudo era ruína.
Porque, mesmo quando tudo parecia perdido… Ele permanecia.

E é por isso que escrevo com a última verdade que me resta:

há sempre uma manhã depois da noite — mas nem todos suportam atravessar a noite.

No fim… não se enganem.

Eu não sou apenas o homem que o traiu.

Eu sou o homem que quis atalhos.
Que preferiu o imediato ao eterno.
Que trocou confiança por controle.

E, por isso mesmo,
sou o espelho que ninguém quer encarar.

Porque Judas, o Escariotes,
não é apenas um nome na história.

É a possibilidade que habita cada um de nós.
É a escolha silenciosa que fazemos quando abandonamos o que sabemos ser certo.
É o gesto pequeno que abre grandes abismos.

Mas outra vez é Páscoa.

E, outra vez, a travessia está diante de nós.

Sem moedas.
Sem cálculos.
Sem atalhos.

Apenas um caminho estreito — onde só passa quem tem coragem de confiar.

E talvez seja essa a diferença entre mim…
e aqueles que ainda podem recomeçar.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

QUINTA-FEIRA SANTA - UM PÃO ESPECIAL PARA TODOS, PARA 'SANTOS' PECADORES, E PARA 'PECADORES' SANTOS! - Um conto -

 

 

Um padeiro especial

Chegou, surpreendentemente, resplandecente, a manhã de quinta-feira santa e, como de costume, Antônio José, de inegável ascendência italiana, saiu para o mercadinho do velho e renomado Augusto, conhecido como ‘Bigode Doce’, - como ele mesmo gostava de se autodenominar.

- ‘Lá vem o madrugador...’ exclamou, com o seu vozeirão, como se estivesse à sua espera.

- ‘Bom dia, Antônio José, meu ilustre e estimado freguês’, não sem esconder uma veia de ironia.

- ‘Não esqueci, não, da sua promessa que você cumpre religiosamente toda quinta-feira santa...e andei me preparando, viu? antecipou-se Augusto.

- ‘Bom dia, bom dia’, repetiu Antônio José com ares de meio chateado e meio preocupado.

- ‘Imaginei, afinal, faz mais de 15 anos que venho aqui a comprar em suas mãos a matéria prima para a minha arte...’ respondeu Antônio José.

- ‘Você vai querer cinco ou mais pacotes de farinha de trigo’? – adiantou-se Augusto.

- ‘Ontem, o atacadista de minha confiança deixou aqui dois sacos de 50Kg de farinha de trigo legítima, sem misturas. Ela vem direto do moinho, lá do porto, viu? Com certeza vem do sul do País, talvez do Rio Grande do sul. Soube que o Brasil aprendeu a cultivar trigo e a fazer uma farinha de excelente qualidade? Que seja!’ sentenciou, o Bigode Doce.

- ‘Que bom, fico feliz, espero que desta vez o meu pão tenha um sabor especial’, disse o Antônio, ao lembrar, na sua mente, o incidente do ano anterior em que o pão que ele havia produzido com dedicado afinco, no final, não pode evitar o gostinho sutil de farinha mofada.

Não que o pessoal tenha dado fé desses ínfimos defeitos, ao contrário, o havia achado fragrante e saboroso aquele pão, mas ele, cricri como sempre foi, não ficou entusiasta da sua obra e não queria que acontecesse o mesmo. 

Antônio José, de fato, era conhecido por ser um perfeccionista. Encontrava defeito em quase tudo; não somente nos outros, mas também naquilo que ele mesmo fazia. Desta vez iria prestar mais atenção e, após a publicidade do Augusto, tinha certeza de que não iria falhar, mas não sem antes cheirar e apalpar aquela farinha de trigo que, agora, lhe era oferecida em suas mãos.

Ele examinava, meticulosamente, com gestos sincronizados, quase mecânicos repetitivos, dando até a impressão de ser conduzido por uma leve neurose, aquela cândida farinha. Fazia-a escorrer em suas mãos largas e rugosas e a levava delicadamente às suas aprimoradas e exigentes narinas. Depois desse ritual, Antônio José se dirigiu ao Bigode Doce e deu-lhe a conhecer a sua decisão: iria comprar logo 6 pacotes. Ele havia calculado, mentalmente, que seis quilos de pão eram mais que suficientes para dar conta da sua antiga promessa...

- ‘E aí, passou no teste a minha farinha’? sussurrou, jocosamente, o Augusto, bem baixinho no ouvido daquele exigente e respeitado freguês.

- ‘Parece que sim’, respondeu-lhe Antônio, - ‘pelo menos nessa primeira fase da minha empreita. Vamos ver como a sua farinha vai se comportar quando se transformar em massa a ser sovada’, respondeu-lhe aquele padeiro de ocasião.

Uma curiosa promessa

Efetivamente, Antônio José nunca foi padeiro de verdade, nunca vendeu pão para nenhuma freguesia. Transformava-se em produtor refinado de pão somente num dia do ano: na quinta-feira santa! Fora isso, ele era um fiel apreciador de arroz e feijão de todos os dias, sem esquecer, contudo, da sua insubstituível banana prata que, ele dizia, combinava com tudo, e dava consistência e valor à refeição.

Eram poucas as pessoas que sabiam, vagamente, o sentido daquela promessa de produzir pão na quinta-feira santa e distribui-lo, graciosamente, fora da porta da igreja matriz, justamente após a celebração do lava-pés e da santa eucaristia. Antônio José evitava aparecer na igreja na hora da celebração solene, e muitos se perguntavam como uma pessoa como ele, com uma iniciativa tão simbólica e caridosa, não participava daquele mistério de serviço e de partilha que era o que, de fato, se queria celebrar.

Ano após ano, os fregueses da matriz já sabiam que iriam encontrar fora da porta da igreja o Antônio José com três paneiros cheios de pão crocante e cheiroso. Aliás, havia alguns devotos espertinhos que não escondiam, e não deixavam de falar em boca pequena que a parte mais interessante da missa era o que vinha depois dela: a distribuição dos pães daquele padeiro improvisado e amador, mas que produzia um pão de excelente qualidade e de sabor inimitável que nenhum outro padeiro profissional da cidade sabia fazer.

 Um padre escravo dos preceitos

O padre Queiroz, pároco da matriz de Nossa Senhora da Conceição, ele sim, sabia o motivo real da promessa do Antônio José, mas fingia ignorar e, principalmente, mudava de conversa quando alguém perguntava.

Corria o ano de 2011, numa segunda feira da semana santa, quando Antônio José foi até a secretaria paroquial para tirar algumas dúvidas com o padre Queiroz. Aquele ministro de Deus havia chegado dois anos antes para tomar de conta daquela paróquia, mas já conhecia quase toda a sua freguesia, inclusive o Antônio José.

- ‘Bom dia padre, a sua bênção’, disse com um largo sorriso.

- 'Deus te abençoe, irmão’, respondeu gentilmente, padre Queiroz.

- ‘Quais bons ventos te trazem aqui, homem de Deus...’?

- ‘Vim me confessar, padre! Tem um tempinho para ouvir esse pobre pecador?’

- ‘Sim, claro, vamos para esse quarto ao lado, é mais tranquilo, aqui ninguém nos incomoda’ disse o padre convidando-o a se dirigir a um quarto bem austero, abafado e com vários quadros de bispos na parede, e o do papa em exercício.

- ‘Acomode-se nessa cadeira, não precisa você se ajoelhar...’ tranquilizou-o o padre.

Antônio José um tanto titubeante, sentou-se, fixou o padre já sentado na sua frente a abriu o coração....

-‘O senhor deve ter reparado que as poucas vezes que participo de suas missas eu não comungo’, começou o penitente, sem ter coragem de olhar diretamente o seu confessor. E continuou: ‘Depois que a Rosália me largou por outro homem há mais de 9 anos eu fiquei vivendo que nem solteiro comportado por quase três anos, mas aí, Deus colocou no meu caminho a Alcione, um anjo de Deus. Não sei por que Deus não a colocou no meu caminho quando havia chegado a minha hora de ter família própria....Destino é assim, ninguém planeja, só acontece sem a nossa permissão ou sem a nossa censura. Moral: desde que me juntei com a Alcione deixei de comungar como me ensinaram desde criança’.

O padre Queiroz com os olhos semiabertos ouvia atentamente aquele homem que falava pausadamente e com ar compenetrado.

Vivo com esse anjo maravilhosamente bem. Não que não haja algumas pequenas incompreensões, mas tudo resolvemos no diálogo e no entendimento...de forma que eu pensei, padre, que na quinta feira santa eu poderia comungar, o que o senhor acha? Afinal, estou amando e me sinto amado e nada melhor do que receber o corpo do Senhor juntamente com a Alcione até como expressão de comunhão entre......’

- 'Para, para....bem aí’ interrompeu o padre Queiroz.

- ‘Está me dizendo que vocês, justamente no dia da instituição da Santa Eucaristia, querem receber a comunhão indevidamente?’ exclamou um tanto alterado o confessor.

- ‘Como ‘indevidamente....’ interveio o Antônio José.

- ‘Padre, acabo de lhe falar que estamos nos amando e provando isso todo dia, e é justamente por isso que nos sentimos em condição de receber o corpo de Cristo, em que pesem nossas fragilidades e pequenas divergências...Onde está o crime?’, concluiu, Antônio José.

O padre Queiroz já visivelmente irritado com o que o seu penitente acabava de lhe colocar interveio com autoridade.

- ‘Nem pense em fazer isso. Comunhão é coisa séria. Vocês vivem em situação irregular perante Deus e perante a igreja. Vocês são ’amasiados’, não casados! Percebem a gravidade disso?’ afirmou o padre, levantando a voz e se ajeitando na cadeira, dando a impressão que queria se levantar e não deixar mais que a conversa fluísse entre confessor e penitente.

- ‘Permita-me, padre, por favor...veja.....queria só lhe colocar o meu ponto de vista.... deixe terminar o raciocínio...’ balbuciava o desconsolado Antônio, já observando que o padre havia se levantado e um tanto vermelho no semblante, andava depositando desordenadamente a sua estola em cima de uma mesinha de ferro....

A essa altura Antônio também se levantou e, mesmo com um andar tímido e olhando de soslaio aquele confessor, se aproximou dele e se colocou na sua frente...

Um cristão especial

- ‘Desculpe-me, padre, mas o que o senhor está falando ofende em primeiro lugar os ensinamentos do nosso Mestre Jesus e vou lhe dizer o porquê’, começou, agora com coragem surpreendente, o Antônio.

E prosseguiu:’ Pelo que sei Jesus na quinta feira da sua paixão deu pão também para aquele traidor do Judas e aos outros apóstolos que pouco tinham de santo não recusou nem pão e nem vinho, do mesmo jeito que ele fez ao longo da sua vida inteira...

Me desculpe padre, pois não quero ensinar o ‘pai nosso’ ao vigário, mas o senhor deve estar lembrado o tanto de refeições que Jesus tomava com ladrões públicos, corruptos, fariseus hipócritas, prostitutas e amasiados e sabe por que, padre’? continuava um tanto exaltado Antônio José, parecendo perder quase o controle.

Porque Jesus veio para os pecadores e não para os supostos justos! Porque Jesus acreditava que acolhendo as pessoas e não as rejeitando, elas sairiam daquele encontro fraterno totalmente mudadas! Sei que sou pecador, padre, mas não porque estou vivendo com a pessoa que amo. Mesmo que quisesse regularizar a minha situação, para vocês nem poderia pois, a minha primeira mulher está viva e vivendo com outro. Afinal que culpa eu tenho se ela me largou? Eu tenho que viver casto até à morte dela para poder casar-me com Alcione? O senhor acha que viria aqui e lhe abrir o coração com sinceridade e com boas intenções se não sentisse dentro de mim o desejo verdadeiro de comungar? Um pilantra, padre, não faria isso! Por que me excluir desse jeito? É esse o amor que o senhor prega’?

O padre Queiroz tentava se encaixar naquele impetuoso monólogo, mas não encontrava brechas e, talvez, argumentações. Afinal, o padre Queiroz como muitos outros clérigos só repetia o que lhe ensinaram e aprenderam: não pode, não deve, é pecado, é sacrilégio, Deus pune, Deus castiga, vai para o inferno....e muitas outras expressões de condenação.

Finalmente, o padre Queiroz deteve com um gesto um tanto brusco a fala do Antônio e fixando-o nos olhos sentenciou:’ prezado, esta é a lei da igreja! Pronto. Aconselho-lhe a não aparecer para comungar na quinta-feira santa porque terei a obrigação moral de lhe recusar a hóstia! Falei, pronto’! E saiu, apressadamente.

Uma Eucarista diferente

Antônio José sentiu um nó na garganta quase a sufocá-lo. Sabia que não era arrependimento por ter falado tudo aquilo para um padre. Sentia que era mais fruto de um desencanto, de uma decepção que não imaginava poder experimentar, um dia. Saiu mansinho, cabisbaixo, da secretaria e se dirigiu para a sua casa. Demorou o dia e a noite toda para tentar digerir aquele desencontro com o padre Queiroz.

Na madrugada daquela fatídica quinta-feira santa Antônio José acordou Alcione.

Amor, passei a noite em branco, lutei comigo mesmo, relutei, mas tomei uma decisão....ou melhor, fiz uma promessa’.

Alcione visivelmente chateada o olhava incrédula. Afinal, eram as três da madrugada.

- ‘O que foi homem, o que andou inventando’ disse-lhe, ela.

- ‘Não, não... deixa para lá, desculpa....volte a dormir, querida. Desculpa’.

O único e moderno sino da torre da matriz anunciava o início da missa de lava-pés, e nada de Antônio José aparecer. Alcione um tanto desconsolada e preocupada com a ausência do companheiro que havia saído ainda cedo decidiu que já não valia mais a pena esperá-lo e se dirigiu, rapidamente, à igreja matriz que ficava a uns 10 minutos, andando. Ao chegar à praça ficou boquiaberta ao notar que Antônio José já estava lá e ao seu lado três grandes volumes que, na hora, não conseguiu identificar.

- ‘O que aconteceu, querido.... esperei por ti, até agora. O que está fazendo aqui fora da igreja? Virou vendedor ambulante? O que você tem aí, nesses bagulhos’? indagou ela.

Antônio José com um sorriso maroto, mas cheio de luz, retirou a lona de tecido que cobria os vistosos volumes e, imediatamente, Alcione foi invadida por um agradável perfume de pão. Ficou estupefata.

- Onde foi comprar esse tanto de pão? Para que é isso? O que lhe deu na cabeça, homem? Perguntou com ar de espanto, Alcione.

Eu fiz'! disse orgulhoso Antônio José.

E continuou: 'Amor, depois daquela conversa que eu tive com o padre eu refleti muito....muito mesmo. Achei que não podia deixar correr tudo aquilo sem nada fazer. Não queria expor o padre, fazer futrico, polemizar...me entende?  Decidi fazer aquilo que eu acho que Jesus faria numa quinta-feira santa: oferecer, de graça, o pão da compaixão, do perdão infinito a todas as pessoas que desejam se sentir perdoadas e que se dispõem a perdoar...

Falei para mim mesmo que toda quinta-feira santa iria produzir o melhor pão da cidade e o ofereceria a todas aquelas pessoas que iriam celebrar a eucaristia na igreja, mas que sairiam de lá sem ter podido comungar. Pessoas que, como nós, são excluidas de comer o verdadeiro pão que sacia a verdadeira fome de amor e de fraternidade. 

Aqui estou eu para lhes oferecer um pão que não exige nem perfeição e nem santidade para ser comido’.

Alcione olhou intensamente Antônio José. Sentia que seus olhos estavam afogando naquelas lágrimas que agora escorriam copiosamente do seu rosto, incapaz de dominá-las. 

Depois pegou na mão de Antônio José e lhe sussurrou: ’eu vou ficar aqui contigo e vou te ajudar a distribuir o pão. A partir de hoje seremos dois a pagar a promessa, até que Deus nos der saúde e força’! 

Feliz Quinta-feira santa!