A mentalidade moralista e espiritualista que vem impregnando as nossas consciências ao longo dos séculos impede que se encare o ‘pecado’ como algo concreto e pernicioso para a existência de todos os seres vivos! O pecado é visto ainda como algo espiritual, intimista, uma falta contra uma determinada moral produzida por grupos humanos. Algo que, ao ser confessado, expiado ou absolvido cessaria, automaticamente, de existir e, consequentemente, deixaria de destruir sonhos e vidas reais. O profeta João Batista no evangelho de hoje nos coloca no plano das atitudes éticas, e não dos comportamentos morais. De fato, ele reconhece no inspirado Jesus de Nazaré, - que curava integralmente as pessoas de toda doença, exclusão, dependência espiritual maligna, - como Aquele que tem o poder de ‘eliminar, destruir, tirar’, definitiva e concretamente, o ‘pecado do mundo’. Isto significa que Jesus ataca direta e concretamente não as pequenas, periféricas e insignificantes faltas morais, mas a origem, a causa principal que produz aqueles hábitos destrutivos e os comportamentos desviantes que negam e destroem a vida em plenitude para todos os seres. É o ‘pecado do mundo’ que encontra abrigo no nosso coração e que nos leva a destruir, possuir, negar, escravizar, manipular o outro. O nosso desafio é incorporar ‘o Espírito do Pai’ para que tenhamos coragem de atacar e destruir tudo o que agride e destrói a vida em abundância! Sim, o pecado de mundo!
Claudio Maranhão
foto: Claudio Bombieri -
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Dez teses sobre a nova era. Artigo de Steven Forti
O retorno de Trump à Casa Branca em janeiro de 2025 marcou o início de uma nova era. Nosso "mundo de ontem", para usar as palavras de Stefan Zweig, acabou. Kaputt. Precisamos perceber isso o mais rápido possível. Entramos em uma nova fase histórica, cujas características são, naturalmente, ainda incertas. Tentarei delinear seus contornos com base em dez teses.
1. O neoimperialismo substitui a ordem liberal global - A ordem liberal global criada no final da Segunda Guerra Mundial — frágil, imperfeita e frequentemente desconsiderada — está sendo substituída por uma lógica imperial governada por uma mistura da lei da selva — a força faz o direito — e pela divisão de esferas de influência — a nova doutrina trumpista foi definida como “geopolítica hemisférica” — e uma abordagem transacional. Se quisermos traçar um paralelo histórico, a nova era assemelha-se à época do imperialismo do final do século XIX: não se trata de um retorno à era imperialista clássica ou à antiga ordem de Vestfália, mas sim do estabelecimento de um sistema internacional "neomonárquico" estruturado por um pequeno grupo de elites hiperprivilegiadas que buscam legitimar-se apelando ao seu excepcionalismo para criar novas hierarquias materiais e de status.
2. O neoliberalismo abriu caminho para o novo autoritarismo - Os alicerces da nova era estão sendo construídos sobre as ruínas do neoliberalismo. Primeiro, as políticas neoliberais — privatizações, insegurança no emprego, cortes nos gastos sociais, etc. — enfraqueceram o modelo do Estado de bem-estar social, aumentando as desigualdades e fragmentando a coesão social. Segundo, tudo isso foi reforçado pelo fato de que, como ideologia, por mais “invisível” que seja, o neoliberalismo incutiu uma série de valores, como o individualismo desenfreado e a competitividade extrema, a ponto de forjar uma aliança com os setores etnonacionalistas e identitários da direita. Terceiro, o próprio conceito de democracia foi esvaziado de sua componente social: a democracia formal — o respeito a (algumas) regras e procedimentos — substituiu a democracia substantiva, cujo objetivo é a igualdade. Em quarto lugar, num contexto marcado pela globalização neoliberal, o poder efetivo deslocou-se para as elites económicas, com a consequente configuração de um sistema pós-democrático, no qual os organismos intermediários – partidos, sindicatos, associações da sociedade civil – se desfizeram gradualmente, a participação evaporou-se e a personalização da política, também facilitada pela transformação dos meios de comunicação social, favoreceu o surgimento de fenómenos “populistas” [3].
.3. Os tecnoligarcas assumem o controle do Estado - Na era do neoliberalismo triunfante, a conivência entre o poder político e o econômico era evidente. Houve resistência, com intensidade variável de país para país. Uma aparência de respeito pelas regras do jogo foi mantida (embora nem sempre, é preciso dizer): a influência das elites econômicas era visível, mas houve tentativas (pelo menos em certa medida) de ocultá-la. Na nova era, porém, o que se quer fazer, faz-se e diz-se, sem esconder. Isso se aplica tanto à geopolítica quanto às relações com as potências econômicas. Por um lado, Trump bombardeia Caracas e prende Maduro para controlar diretamente os poços de petróleo venezuelanos: a palavra “democracia” não aparece em seus discursos e está longe de ser um de seus objetivos, mesmo que apenas superficialmente. Por outro lado, os barões ladrões do terceiro milênio estabeleceram explicitamente uma aliança estratégica com os novos líderes autoritários: os tecnoligarcas do Vale do Silício não querem apenas encher os bolsos, mas, em primeiro lugar, defendem abertamente projetos autoritários e antidemocráticos — novas monarquias absolutas, movidas pela eficiência e governadas por CEOs-reis.
4. Autocracias eleitorais substituem democracias - Na nova era, a democracia, mesmo em sua forma formal, é considerada um mero ornamento. De fato, foi reduzida a uma sombra do que já foi. Já na era do declínio do neoliberalismo, ou seja, a partir de 2008, a porcentagem da população mundial vivendo em democracias vem diminuindo constantemente, atingindo um modesto e preocupante patamar de 28% em 2024. A tendência é clara. Há cerca de vinte anos, vivenciamos a primeira grande onda de autocratização desde a Segunda Guerra Mundial; isto é, cada vez mais países se tornam autocracias eleitorais.
5. A extrema-direita é o principal ator da nova era - Juntamente com os líderes autoritários — leia-se: homens fortes — no poder em grande parte do mundo — Putin, Xi Jinping, Erdogan, Modi, os petro-monarcas do Golfo, e assim por diante — no Ocidente, é a extrema-direita que melhor representa esta nova era. De fato, ela está ganhando terreno eleitoral em todos os lugares e chegou ao poder em diversos países: dos Estados Unidos à Argentina, de Israel à Itália, da Hungria a El Salvador e ao Chile. Assim que tem a oportunidade, estabelece sistemas eleitorais autocráticos: a separação de poderes é corroída, o pluralismo midiático é atacado e os direitos de grandes segmentos da população desaparecem. O homem forte se apresenta como representante do povo, despreza os controles democráticos e coloca em movimento um projeto etnonacionalista reacionário.
6. Mais do que fascismo, é uma renovação do pensamento anti-iluminista - Costuma-se dizer que estamos vivenciando o retorno do fascismo, mais ou menos disfarçado. Embora existam elementos de continuidade entre o fascismo histórico e a extrema-direita do terceiro milênio — mais em alguns países do que em outros —, o conceito de “fascismo eterno”, proposto há mais de trinta anos por Umberto Eco, nos leva a conclusões equivocadas. Como aponta Santiago Gerchunoff, o uso compulsivo do termo — em suas diversas formas: fascismo tardio, fascismo fóssil, tecnofascismo etc. — revela, antes, “o desejo de encontrar uma palavra mágica que afaste o perigo da abstração do nosso mundo e, ao mesmo tempo, silencie qualquer discussão” [6]. É reconfortante, por assim dizer, chamar a nova extrema-direita de fascista porque, em certo sentido, isso nos dá a falsa certeza de saber o que estamos enfrentando. Contudo, as características desta nova era não são as mesmas do período entre guerras: passou-se um século desde os regimes de Hitler e Mussolini. Digamos o seguinte: pode-se ser reacionário, nacionalista, autoritário e antidemocrático sem necessariamente ser fascista. Mas isso não torna a situação menos grave. O que temos diante de nós é uma nova extrema-direita que defende um autoritarismo pós-liberal, anti-igualitário e orientado para a eficiência. As suas raízes encontram-se no pensamento anti-Iluminismo e no reacionarismo antiliberal do final do século XVIII.
7. O extremismo é a nova corrente dominante - Nas últimas décadas, ideias extremistas se normalizaram. A Janela de Overton deslocou-se radicalmente para a extrema-direita: ideias antes consideradas inaceitáveis tornaram-se senso comum e, como último recurso, foram consagradas em lei. Na Rússia e na Hungria, a homossexualidade é legalmente equiparada à pedofilia. Nos Estados Unidos, declarar-se antifascista implica ser considerado membro de um grupo terrorista. Já não choca ninguém quando influenciadores proeminentes do movimento MAGA afirmam publicamente que as mulheres não deveriam ter o direito ao voto, quando o presidente argentino Javier Milei considera a justiça social um câncer que deve ser erradicado, ou quando membros do governo israelense definem os palestinos como “animais” e defendem o genocídio no cenário mundial. Teorias da conspiração abundam, a começar pela Grande Substituição, segundo a qual as elites globalistas estariam executando um plano para substituir a população europeia por imigrantes muçulmanos. A nova era não é apenas a era da pós-verdade, da desinformação e das notícias falsas, mas também uma era em que o extremismo se tornou comum.
8. Os partidos e as instituições democráticas estão passando por uma paralisia debilitante - Apesar de algumas vitórias eleitorais e algumas decisões acertadas, a maioria dos partidos e instituições democráticas não conseguiu compreender que tudo mudou. Raciocinam com base em paradigmas ultrapassados e propõem soluções antiquadas que, além de serem irrealistas neste século XXI, já não despertam qualquer interesse, nem mesmo entre aqueles que as defendem. Na pior das hipóteses, demonstrando uma incrível falta de visão, o establishment liberal tenta copiar a extrema-direita para evitar ser canibalizado e sobreviver ao que acredita ser uma tempestade passageira, pavimentando, em última análise, o caminho para o autoritarismo pós-liberal. Apesar de seus erros e deficiências, poucos — Lula, Sánchez, Sheinbaum, Petro, Mamdami — parecem compreender o cerne da questão: nada será como antes.
9. A religião está sendo usada mais uma vez como arma política - A nova era é caracterizada pela renovada centralidade do uso político da religião em todo o mundo. Embora esse não seja um fenômeno novo nos mundos muçulmano ou hindu, certamente é novo no Ocidente, onde, após décadas de secularização, considerávamos a religião algo do passado. Apesar do aumento no número de ateus e agnósticos, novos líderes autoritários estão utilizando a religião mais do que nunca, invocando a suposta proteção de Deus, como se fossem novos monarcas absolutos por graça divina. É uma religião que se manifesta de forma agressiva, excludente e baseada na identidade.
10. A resposta para "O que fazer?" só pode ser coletiva - A resposta à antiga questão leninista não cairá do céu, nem será formulada por nenhum intelectual. Ela só pode emergir da sociedade; ou seja, só pode ser coletiva. Temo que levará tempo — certamente anos, provavelmente uma geração — porque o que precisa ser reconstruído, tanto do ponto de vista material quanto moral, aumenta a cada dia que passa. Iludir-se pensando que a derrota da extrema-direita em uma eleição específica significa uma virada é pura ilusão. Enquanto isso, pelo menos podemos evitar cair no abismo. Os partidos democráticos devem evitar sucumbir ao canto de sereia da extrema-direita e defender as instituições e os direitos arduamente conquistados. As instituições europeias devem opor-se veementemente ao neoimperialismo autoritário dos EUA, evitando a insolução do apaziguamento — um suicídio lento — e emergindo da letargia da “vassalagem feliz”. É necessário repensar completamente os paradigmas existentes: os antigos já não funcionam nesta nova era. Portanto, devemos começar do zero: reconstruir a sociedade — agora fragmentada e atomizada —, criar um senso de comunidade — que não seja do tipo identitário e etnonacionalista da extrema-direita —, reacender a batalha de ideias — a extrema-direita vem fazendo isso há anos e agora colhe os frutos — e forjar alianças e redes transnacionais — porque a solução não pode ser meramente local. Todos devemos nos sentir envolvidos. A única possibilidade é "voz", ou seja, participação e protesto. Este deve ser o ponto de partida. (IHU, artigo reelaborado pelo blogueiro)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
BATISMO DE JESUS: NÃO UM RITO VAZIO, MAS A CONSAGRAÇÃO DE UMA NOVA E INÉDITA MISSÃO
Existem momentos de iluminação existencial em que descobrimos de forma lúcida quem somos e o que queremos. Experiências únicas. Irreproduzíveis. Certamente, são o resultado de buscas interiores, de lutas internas, às vezes dolorosas. Todavia, quando somos levados a mergulhar no ‘luminoso e surpreendente’ que elas produzem se revelam a nós de forma poderosa e totalizante. Tudo muda. A nossa 'nova' vida pode ser narrada e interpretada somente a partir daquele momento. A experiência luminosa, inédita, única de Jesus de Nazaré se deu no contexto do seu batismo. Entre as águas que corriam pelo deserto da Judéia. No espaço onde duelavam vida e morte. Desejos de redenção e pulsões de destruição. Na escuta e na confrontação com a profecia, com as ameaças e as denúncias de João Batista. Jesus descobre de forma única, clara, luminosa que se iniciava uma nova etapa em sua vida. Uma nova vocação, a definitiva, a única. A de se colocar como instrumento de redenção e de libertação nacional. Mais do que isso: que essa missão nova vinha sendo confirmada e 'abençoada' pelo próprio Deus Pai. Um Deus que retoma a sua ação de redenção e recriação da humanidade mediante a prática da compaixão e da misericórdia do cidadão e filho fiel, Jesus! Que cada um de nós descubra a sua verdadeira missão aqui e agora, não somente na igreja, mas no mundo!
sábado, 27 de dezembro de 2025
SOLENIDADE DA SAGRADA FAMÍLIA - NÃO A FAMÍLIA COMUM E NUCLEAR, MAS A PLANETÁRIA É QUE ESTÁ SE DERRETENDO!
Proclama-se a tríade de Nazaré como uma família sagrada e perfeita,
mas dificilmente poderemos nos identificar com algo perfeito. Trata-se, então, de recuperar, sem maquiagens, o ‘comum e o real’ que caracterizava a família de
Nazaré. E, ao descobrir sua plena ‘humanidade’, aprender a valorizar a beleza, e a corrigir as rugas e rusgas da nossa família imperfeita e comum! O pai de Jesus não era o
seu pai biológico, mas José o amou como se dele fosse. Maria aos olhos humanos não
passava de uma ‘mãe solteira’, destinada a ser apedrejada. Entretanto, ela amou e
foi fiel àquele noivo que tinha a obrigação legal de denunciá-la por ter se
sentido traído por ela. Os evangelhos nos informam que Jesus tinha outros
irmãos e expõem seus nomes (Mc.6,3). Que fossem irmãos biológicos ou não tem pouca
importância. Afinal, Jesus vinha declarando em alto e bom som ‘que mãe, irmãos e irmãs
são todos aqueles que ouvem a Palavra e a põem em prática’ (Lc.8,21). Jesus vai além da
família nuclear, e a de sangue, e nos catapulta no seio da família planetária
onde temos um Deus que é Pai e Mãe de todos, ao mesmo tempo! Devemos nos perguntar, hoje, se as
nossas estruturas sociofamiliares ainda proporcionam acolhida,
proteção, ternura, respeito aos seus membros, ou se, ao contrário, no seu crescente individualismo, e alucinada intolerância, com criminosas tendências fratricidas, abdicou a tudo isso. Não é mais, ou não só, a
família nuclear que está em jogo, ou em crise. É a família planetária que está se autoexilando de si mesma e autodestruindo!
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Rigidez litúrgica ameaça uma sadia inculturação e revela rigidez mental e moral
Torna-se
bastante frequente em muitos ambientes eclesiais as disputas e polêmicas sobre
a estreita observância de ritos e fórmulas. Há grupos e celebrantes que consideram a
liturgia formal como algo cristalizado e imutável, e não como um auxílio para tentar
inculturar e atualizar o ‘mistério’. Como se identificar, por exemplo, com
aquelas ‘coletas e orações padronizadas’ todas iguais para toda a igreja
universal, incapazes de expressar, inclusive, o tema próprio da palavra de uma determinada
celebração? Ao fazer uma oração mais adaptada ao tema litúrgico estaria aquele
sacerdote ou ministro invalidando a missa, ou atacando algumas verdades de fé? Quantos
constrangimentos quando um presidente da celebração interrompe a assembleia e
enfaticamente reafirma que ‘somente o padre pode pronunciar’ aquela determinada
invocação. Imagina aquele celebrante ou os fervorosos da liturgia formal que ao pronunciar juntos a oração poderiam invalidar
o que ele está a rezar? É inegável o crescimento de uma perigosa rigidez litúrgica
e de uma submissão cega às fórmulas, preces, orações que inviabilizam os raros
e tímidos esforços de tornar a liturgia sempre mais ‘fons e culmen’, ou seja, ‘fonte
e ápice’ da ação eclesial, como nos lembra a ‘Sacrosantum Concilium’ do Concílio
Vaticano II. Imagino, de repente, Jesus que vai ao templo não para rezar, mas
para condenar as ‘longas orações’ dos escribas e os ridículos palavreados dos fariseus
hipócritas que assaltavam as casas das viúvas...e imaginavam que ao pronunciar
corretamente uma fórmula as coisas iam acontecendo....magicamente!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
NATAL É DESCOBRIR A AUTÊNTICA ESSÊNCIA E MISSÃO DOS HUMANOS-DIVINOS
O
planeta terra em suas etapas evolutivas já foi dominado e controlado pelos
dinossauros. Eles eram os senhores, até a vinda de um enorme meteoro que os fez
desaparecer. Hoje o planeta Gaia é dominado e controlado por quase 9 bilhões de
hominídeos, com vocação autodestrutiva. O conjunto deles achou por bem se autodenominar ‘humanidade’. Termo
que pode ser sinônimo também de ‘pessoa sensível, compreensiva, respeitadora,
acolhedora, colaborativa, generosa...’ Enfim, uma ‘pessoa não animal, a saber,
uma pessoa que não seja bruta, insensível, violenta, abusadora, irracional,
destruidora...como o senso comum determina. Parece, no entanto, que o termo
‘humanidade’ (que vem de humus-terra) acaba ocultando o ‘animal’ que persiste
no ‘humano’ e, principalmente, a sua 'origem primordial'. Talvez o Natal venha, mais uma
vez, para alertar e despertar dentro do ‘humano-animal’ o DNA do seu Criador
para ele tomar consciência de que o ‘divino’ que nunca desgrudou da sua
estrutura genética tem o poder de fazer reemergir no planeta a sua real essência e missão: o ‘humano
sensível, compreensivo, compassivo, generoso, colaborativo, construtor de vida...o 'homo-Deus.’ Que os ‘humanos-divinos’ que ainda se comovem ao contemplar o ‘divino-humano’ que nasce e renasce entre os humanos, ajudem a transformar o
planeta a descobrir a sua única e verdadeira vocação: SERMOS HUMANOS, NADA MAIS
DO QUE HUMANOS, DIVINAMENTE HUMANOS! FELIZ NATAL!
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
NATAL É DESVELAMENTO DO PODERIO DA LEI QUE ESCRAVIZA CONSCIÊNCIAS E CORPOS - BREVE REFLEXÃO SOBRE GÁLATAS 4, 4-5
Existe um Natal que é o resultado de obsoletas convenções sociais e religiosas, de tradições e de devoções que, embora não sujeitas a um julgamento valorativo, pouco acrescentam ao nosso desejo de dar qualidade e sentido à nossa existência. Há, contudo, o Natal das significações. Ele representa a sincera tentativa de operar um verdadeiro processo de desvelamento e descobrir o que existe por trás de um acontecimento histórico, - e não de um mito, - como é o nascimento de Jesus de Nazaré.
É verdade: nada existe ao estado puro, tudo interfere no todo e, por sua vez, tudo se conecta com o todo. No entanto, o nosso esforço, nesse contexto, deveria ser o de ir além das aparências, dos inevitáveis mascaramentos natalinos, das manjadas interpretações de circunstância (nascimento biológico de Jesus, num humilde casebre, longe da cidade, do palácio e do templo, num contexto político específico de dominação territorial, de cadastramento dos contribuintes, etc.) no intuito de captar e adotar aquela significação natalina que para nós, hoje, aqui, é a mais iluminadora. Aquela que nos permite assumir um novo olhar sobre a nossa existência e, de consequência, nos motiva para uma nova prática, um inédito agir que se dissocia do anterior. São Paulo em sua carta aos Gálatas nos diz que “chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob o poderio da Lei, para libertar os que eram escravos da Lei, para que recebamos adoção de filhos”( Gal 4, 4-5). E, uma vez conscientes de que somos filhos livres e não escravos podemos perceber que o Espírito do seu Filho Jesus habita em nós e ele grita ‘Abá’. Dessa forma, com o Espírito do Filho dentro de nós, nos libertamos dos grilhões da escravidão da lei e, portanto, nos tornamos, nós também, como o Seu Filho, filhos e herdeiros do mesmo Pai.
Mas qual é e de onde vem a força mistificadora da lei que nos escraviza? É a lei em si ou o poder que lhe foi outorgado que se torna capaz de dominar o nosso espírito? Uma lei feita por quem, afinal? Não era certamente a lei que inspirada pelo princípio da equidade garantiria direitos. Era a lei elaborada no calar da noite pelos senhores do direito e dos preceitos, fruto de nebulosas negociações, de conchavos, e não de consensos. De imposições, e não de persuasões. E como a elite legisladora sacerdotal não tinha ‘força moral’ própria para exigir a sua submissão acrítica e obediente ela utilizava o nome de Deus como suposto ‘fundador e inspirador’ para impô-la ao povão. Uma vez consagrada como ‘lei divina’ ela se torna incontestável e totalizante. Estão lançadas as bases para justificar o domínio da lei, que é humana, falível, reformável, embora carregada de conotações sagradas, supostamente inquestionáveis. É aqui que podemos descobrir as raízes da verdadeira significação do Natal para o nosso contexto específico: Jesus gerado e educado na lei, ao se libertar do ‘jugo da lei formal e interiorizada’, a ultrapassa, e age com um verdadeiro emancipador ao desvendar as armadilhas da sua pretensa sacralidade e absolutização. Torna-se, Ele próprio, um permanente infrator da lei formal com o intuito de libertar pessoas que, embora formalmente livres, viviam como escravas da lei e, permanentemente, segregadas e excluídas do convívio social.
O nosso olhar,
portanto, inspirado em Jesus não pode ser o da formalidade legal (legalismo)pura
e simplesmente, ou da mera justiça distributiva, por exemplo, tão injusta e
cega, e sim, assumirmos o desafio de adotar a lógica e a metodologia da
equidade. Nela somos continuamente solicitados a olhar com humanidade e
sensibilidade as diferentes realidades, e a agir de acordo com as necessidades
específicas de cada um. Não existe nada de mais injusto do que tratar todos de
forma igual. Não há como negar mais apoio e mais compaixão àquele que vive mais
abandonado e mais desprotegido. O Natal não vem para consolidar o que repetimos
e celebramos automática e acriticamente, mas para nos libertar de modelos,
categorias, formulações que mantêm o nosso olhar e sentir presos e cativos. O
Natal de Jesus, como Ele, nos convida a superar os sentimentos de culpa por nos
sentir infratores de leis e preceitos humanos que só visam a manutenção e a
dominação de consciências e corpos. Sejamos infratores libertos e libertadores!