Após
a segunda guerra mundial, meu pai com outros jovens deixaram o nosso povoado à
procura de trabalho nas minas de carvão mineral, na França. Naquele frio subsolo
respiravam pó de carvão, medo e preconceito. Mamãe fez o mesmo caminho com
outras jovens, mas na Suissa, trabalhando como mulher de limpeza, num hotel. Todos
eles sentiram na alma o que significou ‘ser estrangeiros’. Às vezes, tem-se a
impressão de que as ‘nossas’ segunda e terceira geração olvidaram que nossos
pais e avôs fizeram a indelével experiência de serem ‘oprimidos e maltratados’
em terra estrangeira, e reservam aos estrangeiros de hoje, em nossa própria
terra, a mesma xenofobia que os nossos antepassados sofreram outrora. Em muitos
casos, numa irracional generalização, os estrangeiros são considerados invasores,
responsáveis pela violência, pela crise econômica, pela intolerância e pelo
desmantelo cultural atual, tal como ocorria na época do Êxodo e do Israel de
Jesus. É o próprio Mestre que no evangelho de hoje nos diz que é preciso
interromper essa lógica. É preciso amar o nosso próximo, unilateralmente, sem
exigir reciprocidade. Amar não somente o parente biológico ou o membro da mesma
igreja, ou nação, mas quem ‘convive ao nosso lado’, que trabalha, chora e sonha
conosco, independentemente de sua origem, opção sexual, etnia e religião. O
amor e não o ódio, a compaixão e não a intolerância, têm o poder de nos transformar
em seres que aprendem a amar como o Pai ama seus filhos. Afinal, é amando os
filhos de Deus Pai que amamos Ele, diretamente!
Claudio Maranhão
foto: Claudio Bombieri -
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
XXX Domingo Comum - Não maltratem o 'estrangeiro'! Vocês se esquecem o quanto dói ser ignorado e excluído?
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Como podemos acabar com a tirania do presente na política? Entrevista com Pierre Rosanvallon
Em ‘A tirania do presente’, você constata que nossas
sociedades deixaram de se preocupar com o longo prazo e as gerações futuras.
Quando isso começou?
Podemos
fazer retroceder essa desconexão à modernidade. A modernidade representa a
ruptura do mundo dos direitos, da subjetividade e da humanidade. E essas
rupturas ocorreram ao nos libertarmos das amarras do passado e das promessas do
futuro incorporadas por religiões que antes ensinavam o sacrifício do presente.
Os ritmos políticos e o próprio conceito de coesão social mudaram. Porque se os
indivíduos se tornarem senhores do seu próprio futuro, poderão remodelá-lo. Substituímos
as instituições imutáveis e herdadas por instituições que podem ser
perpetuamente questionadas.
Será que a própria estrutura do nosso sistema político
complica a nossa relação com o longo prazo?
A
democracia é um regime do presente, e é crucial que assim permaneça, mas
deve obedecer a vários ritmos: o das instituições, o da vontade geral, o da
lei… Mas a vontade geral não pode ser reduzida simplesmente ao “capricho do
momento” ao qual as eleições parecem estar sujeitas. Uma nação tem uma
existência que faz parte de um contínuo, portanto, são necessários guardiões
dessa continuidade.
Para conciliar urgência e longo prazo, o senhor nos convida
em seu livro a examinar nossa condição de terranos, além da de indivíduos e
cidadãos. O que esse novo rótulo permitiria?
Os
procedimentos institucionais para estabelecer o longo prazo são essenciais, mas não são suficientes. Os
indivíduos também precisam ter internalizado essa prática de planejamento
futuro. Porque você pode tomar todas as decisões que quiser sobre os
comportamentos a serem adotados para reduzir o consumo de energia, por exemplo,
mesmo assim os resultados serão extremamente ruins se eles não forem
internalizados pelos cidadãos. Na democracia, as decisões institucionais e o comportamento
individual devem estar alinhados. Em regimes totalitários, onde o conceito de
indivíduo não existe, o problema não se coloca – a vontade da China
torna-se a vontade do povo chinês, porque este é forçado a conformar-se; não há
diálogo social. Mas, em uma democracia, esse alinhamento é essencial.
E como criamos as condições para esse alinhamento?
O
mundo moderno era inicialmente um mundo do indivíduo. O que permitiu que o
conceito de cidadão se consolidasse foi o fato de ter emergido gradualmente
como uma forma de proteção. Isso não aconteceu de forma repentina. Se deu
devido a guerras, lutas de classes e muitas outras provações que demonstraram a
importância dessa segunda dimensão.
Você cita Cynthia Fleury na
introdução, que essencialmente escreve que, enquanto não “batermos no muro”,
não seremos capazes de nos “colocar a caminho”. Pode-se pensar que, entre o
retorno da guerra à Europa, a pandemia de Covid-19 e verões que chegam a 42°C,
já fomos lançados à realidade em velocidade vertiginosa. E, no entanto, nada
parece realmente mudar…
Edgar Morin disse algo semelhante: o “nós” prevalece sobre
o “eu” quando enfrentamos uma provação terrível. Mas os eventos atuais mostram
que essa narrativa do muro não é totalmente precisa. Não acredito em um caminho
de Damasco para as mudanças climáticas, na lógica da conversão pela
brutalidade dos acontecimentos.
É
por isso que estou desenvolvendo o conceito de exercícios democráticos.
Precisamos implementar experimentos, como um “parlamento das gerações”, que
poderia ser modelado a partir de convenções cidadãs e nos permitiria abordar
diretamente a questão da justiça intergeracional e compartilhar o conhecimento. As teorias da justiça (que são teorias da distribuição) são
geralmente concebidas em termos de ricos contra pobres. Essa questão deve ser
ampliada para as relações entre gerações. Refletir sobre o que constitui a
justiça entre gerações também poderia ter a vantagem de atrair as gerações mais
jovens de volta à política. Porque, atualmente, os eleitores mais assíduos são
também os mais idosos. Enquanto se poderia pensar que deveria ser o contrário:
ao completar 18 anos hoje, você terá que viver a vida inteira com as decisões
tomadas pelos governos.
Que mandato exato daríamos a esses “parlamentos das
gerações”?
Precisamos
de assembleias permanentes das gerações futuras que desenvolvam uma abordagem
mais ponderada para o futuro, que permitam a coexistência de vozes divergentes.
Mas essas experiências não devem se tornar instituições. As instituições
diminuem o ritmo, acalmam as mentes, mas elas devem permanecer despertas.
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
XXIX domingo comum - AOS IMPERADORES DE HOJE SÓ DEVOLVEMOS SEUS AMULETOS, A DEUS PAI DEVEMOS O COMPROMISSO DE PROTEGER QUEM FOI CRIADO À SUA IMAGEM!
A
humanidade parece viver um verdadeiro paradoxo, planetário, trágico e,
aparentemente, irreversível. Parece que quanto mais a sociedade avança desde um
ponto de vista tecnológico, mais ela involui na sua consciência social,
organizacional, política. Tem-se a impressão que estamos voltando a cultuar caudilhos,
imperadores civis, líderes políticos como se fossem verdadeiros pais-patrões salvadores
de uma nação que, incontestavelmente, se submete às suas autocráticas vontades.
Jesus, na notória diatribe sobre a licitude ou não de pagar imposto a César coloca
algumas orientações e questões centrais que continuam atuais. Aos imperadores
de ontem e de hoje é preciso devolver as efígies e os símbolos que eles
próprios forjaram, no intuito de perpetuar o seu suposto sagrado poderio. A
eles não devemos nada! Só se devolve um desgastado objeto de metal, uma moeda
de ferro que representa a sua deformada cara de falso senhor do mundo! Agora, ao verdadeiro Senhor que não submete e
nem escraviza, que não ameaça e nem persegue devemos tudo o que nós temos e
somos. Ao Deus que criou o ser vivo à sua ‘imagem’ e semelhança temos a
obrigação de cuidar, proteger e salvar os seus filhos e filhas. Afinal, é neles
que Deus ‘cunhou’ a sua cara’! Ao protegermos esses templos vivos, reflexos
indeformáveis do Pai, e vítimas dos donos das moedas virtuais de hoje, estaremos
prestando o único e verdadeiro culto que é agradável ao Deus de Jesus de
Nazaré!
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
XXVIII Domingo Comum - QUEM ACEITA PARTICIPAR DO BANQUETE DO PAI NÃO PODE FICAR DO LADO DE QUEM EXCLUI DO BANQUETE!
Há oportunidades que aparecem
na nossa vida que são únicas. Existem convites específicos a nós dirigidos que
devem ser acolhidos no instante, pois nunca mais voltarão. Ocorre que estamos
tão obtusamente fixados no que conhecemos e experimentamos de forma rasteira que
não percebemos tudo isso como ‘momentos inéditos de graça’ que poderiam mudar
qualitativamente a nossa existência. Só com o tempo é que constatamos, com
tristeza, o que perdemos. O evangelho de hoje nos alerta sobre duas coisas. 1. Os
convites a entrarmos numa nova lógica e prática de vida que as circunstâncias
do cotidiano nos oferecem, ao serem ignorados e desprezados por nós, serão
aproveitados, inexoravelmente, por outras pessoas. Depois disso, não cabe nem inveja e nem
ressentimento. 2.Ao compreendermos, porém, a importância única de aceitarmos o
convite a entrar na nova lógica da Realeza do Pai, com atitudes e valores bem
específicos e bem diferentes daqueles que o anti-reino oferece, faz-se necessário
"vestir a camisa'. Ou seja, é imprescindível assumir radical e definitivamente aquele
compromisso-missão de construir o novo jeito de ser e viver inaugurado por Jesus. Aceitar
o convite para o banquete do reino e não vestir-incorporar a sua lógica de fraternidade, de comunhão,
de justiça, produzirá a nossa própria autoexclusão. Afirmar ser discípulo de
Jesus e apoiar os representantes do anti-reino que excluem e perseguem é sinal que nunca vestimos, de fato, a
camisa do Reino do Pai!
sábado, 3 de outubro de 2026
XXVII domingo comum - QUEM NÃO ADMINISTRA COM JUSTIÇA E COMPETÊNCIA A VINHA DO SENHOR SERÁ DEMITIDO E SUBSTITUÍDO!
Muitos ainda acreditam que a política, seja ela partidária ou não, nada tem a ver com a espiritualidade e a fé dos cristãos. Para eles seriam duas dimensões separadas da mesma pessoa. Acham que no âmbito da política o cidadão-cristão tem autonomia para escolher, decidir, atuar, de acordo com uma determinada ética, e na esfera da fé, vigoraria outra ética, totalmente contrária à primeira, a evangélica. É a favor da pena de morte na rua, mas na igreja defende a vida. Impõe e aguenta ritmos de trabalho absurdos para trabalhador pobre, mas na igreja fala contra a escravidão e a exploração do povo. Da mesma forma, na praça defende o administrador violento e autoritário, corrupto e golpista, mas na igreja apresenta Jesus como o servidor de todos e príncipe da paz. Essas posturas têm nome: esquizofrenia, dissociação cognitiva ou, na melhor das hipóteses, hipocrisia escrachada. No evangelho de hoje Jesus deixa claro que para quem não sabe administrar no respeito e na justiça a ‘vinha do Senhor’ está destinado ao fracasso, à falência, à destruição. Mais cedo ou mais tarde as contas chegam e, naturalmente, os administradores da vinha, incompetentes, corruptos, violentos, serão substituídos por um ‘novo povo, com uma nova consciência e prática’ que, fatalmente, tomarão de conta da ‘renovada vinha do Senhor’. Afinal, só quem sabe de ser ramo enxertado na videira que é Jesus, pode dar frutos e produzir um novo jeito de sermos sociedade e igreja, cidadão e cristão simultaneamente.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Perdidos num labirinto sem saída
Repete-se ad nauseam que vivemos ‘tempos estranhos’, e não sem razões. Poder-se-ia dizer, contudo, que sempre houve épocas em que até para uma minguada minoria de sábios nunca foi fácil decifrar o conjunto de acontecimentos em que as sociedades se encontravam mergulhadas. Algo paradoxal: afinal, aqueles setores de uma determinada sociedade que eram considerados os atores e os protagonistas de determinados acontecimentos que acabavam condicionando a totalidade da sociedade, eram também eles, por sua vez, simultaneamente, catapultados nas consequências-resultados que de lá emergiam, de forma confusa e indecifrável. Em outras palavras, parece que em determinados períodos históricos uma determinada sociedade acaba se descobrindo perdida, desnorteada, percorrendo sinuosas e obscuras vias onde parece não mais existirem saídas e nem entradas, pois uma pode ser confundida com a outra, e o suposto ponto de saída é confundido com o ponto anterior. Tem-se a impressão, hoje, de sermos tantas pequenas cobaias que correm apressada e loucamente num labirinto autoprojetado onde perdemos o mapa-projeto original que indica a única saída principal, sob pena de correr à toa e de permanecermos, paradoxalmente, num mesmo ou similar lugar.
Imaginemos, por um instante a ansiedade e o
progressivo desespero que começam a tomar de conta daquelas
criaturas enjauladas naquele labirinto em que, após inúmeras tentativas, não
acham a única saída salvadora para todos. Começam a crescer os níveis de
agressividade de uns contra outros em que se esvai, rapidamente, a lucidez necessária para parar,
se reorganizar, memorizar caminhos já percorridos, colocar sinalizações para
tanto para evitar correr em vão como baratas tontas. O absurdo é que é isso mesmo
que aquelas cobaias acabaram se tornando: seres atordoados, dominados pelo medo
e o desespero, com mentes entorpecidas, incapazes de repensar suas estratégias
de saída. Haverá uma delas que, afinal, assumirá com a força e com a sua capacidade de persuasão
ilusória a condução da totalidade das cobaias, sob a promessa de conduzi-las para uma saída definitiva que, de fato,
não existe. Levará as poucas cobaias que ainda sobrevivem, após sangrentas lutas
fratricidas, a se submeterem e a seguir a líder que, fatalmente, recomeçará a
percorrer mais caminhos, já percorridos, mas que já não consegue mais
reconhecer. É a perdição e a inanição que precedem a autodestruição.
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
XXVI domingo comum - CHEGA DE BLÁ BLÁ BLÁ, É PRECISO PÔR EM PRÁTICA O PLANO DO PAI!
Participamos
de uma época cultural e social em que a palavra dada parece definitivamente banalizada.
Muitos desconfiam daquelas pessoas que chegam até a registrar a própria palavra-promessa
em cartório como suposta garantia de que irão cumpri-la. Há uma inegável
esquizofrenia entre as afirmações verbais e a sua realização concreta, entre o
prometer, formalmente, e o seu cumprimento. O mais paradoxal, contudo, é que essa
contradição se naturalizou de tal maneira que poucos se escandalizam e se
indignam. Jesus, no evangelho hodierno, deixa claro que não se deixa comover
pela solenes e formais manifestações de devoção e de piedade, a não ser que
elas sejam ladeadas por gestos concretos de compaixão e de justiça. Já em
outras ocasiões o Mestre alertava os seus seguidores de que não é aquele que
diz ‘Senhor, Senhor’ que vai compreender, acolher e entrar na lógica e na prática do
Reino, mas aquele que, sem muitas falas, cumpre o plano do Pai! Ao agir dessa
forma, Jesus desmascara a vergonhosa hipocrisia dos fariseus de ontem e de hoje
que enchem a própria boca de fórmulas devocionais, mas despejam uma baba nojenta de moralismos
e de condenações baratas, misturada com manifestações de ódio, de intolerância, de racismo, de corrupção e de violência. Jesus prefere um seguidor que, embora aparentemente refratário ao projeto do Pai, acaba, afinal, aderindo a ele, a todos aqueles
falsos seguidores que se inflamam de ardor litúrgico e celebrativo, mas que não
realizam, de fato, a vontade do Pai. Daí que o Mestre sentencia que os supostos e presunçosos 'devotos santinhos' serão precedidos no Reino por aqueles ‘desviados’ que eles sempre condenaram e
demonizaram.