Paradoxalmente, em épocas de pós-modernidade e de pluralismos culturais parece haver uma volta a um moralismo arcaico e abjeto, não somente nos âmbitos religiosos e eclesiais, mas também na vida social. Muitas vezes por trás de uma insistente defesa da ‘liberdade de expressão’ esconde-se quase sempre um dogmatismo moralista obtuso. Os escribas de hoje insistem em ‘tentar e armar ciladas’ como verdadeiros instrumentos diabólicos, aos que acreditam em atitudes e comportamentos alicerçados na compreensão, compaixão e misericórdia. No evangelho de hoje, é no espaço sagrado do templo, e por ‘homens de Deus’ que Jesus é tentado por aqueles que pregam ainda o Deus das normas, dos preceitos e da punição aos impuros e extraviados. A sua rigidez e hipocrisia moral é desmascarada por Jesus ao lhes lembrar que ninguém pode se arvorar em juiz de quem quer que seja. O Mestre convida a todos a assumir o mesmo jeito que Deus-Pai teria se fosse visível aos nossos olhos: oferecer uma sempre renovada chance a quem errou, para que seja uma nova pessoa! Às vezes é preciso virar página, deixar de lado arrependimentos estéreis e olhar para o ‘inédito’ que o Deus da misericórdia constrói através de nós!
Claudio Maranhão
foto: Claudio Bombieri -
sexta-feira, 4 de abril de 2025
5º Domingo de Quaresma - Viremos página e sejamos pessoas novas construindo o inédito do Deus da misericórdia!
sexta-feira, 28 de março de 2025
4º domingo de Quaresma - Sentir e compreender como um coração compassivo de um Pai!
No universo ético dos prepotentes não há espaço para os misericordiosos. Ter um coração entranhado de compaixão é para os ‘sem piedade’ sinônimo de fraqueza. Modelos de ‘durões’ hipócritas não faltam na nossa atualidade. O evangelho de hoje nos convida a olhar as fragilidades dos outros a partir de um coração de pai. Compreender e sentir como um pai ao ver um filho amado se afastar dele para procurar alhures o que ele nunca lhe negou: afeto e amor sem fim. Somente essa capacidade de olhar para os erros dos outros como um pai de verdade, - e não a partir dos falsos conceitos de justiça do irmão mais velho da parábola, - é que podemos entender o alcance da mensagem de Jesus. Muitas vezes nos escandalizamos com os pequenos ou grandes erros dos outros, principalmente quando eles parecem nos prejudicar, ao passo que o Pai se preocupa unicamente com a nossa integridade física e moral na sua plenitude. O que apavora um pai não são os erros de seu filho, mas o medo de perdê-lo para sempre! Perdoar e acolher um irmão arrependido jamais é sinal de fraqueza ou, pior, de cumplicidade, ao contrário, é a demonstração de que em nós ainda prevalece a humanidade compassiva e não uma patológica sede de punição. O Deus de Jesus jamais ignora um filho que volta a procurar o seu abraço aconchegante e revitalizador! Nunca é tarde demais para fazer isso!
quarta-feira, 19 de março de 2025
SÃO JOSÉ, O TRANSGRESSOR POR AMOR! - Por Padre Alberto Maggi
O hebraico Yôsep (José), é um nome auspicioso para quem deseja uma família numerosa, de fato significa "o Senhor acrescenta" (ao filho nascido), muitos outros ainda. Nome popular na Bíblia, é carregado por personalidades ilustres da história de Israel, do filho de Jacó e Raquel, vendido como escravo por seus irmãos por ciúme, mas que depois se tornaria governador do Egito (Gn 37-42), ao marido de Maria; o que os assemelha é que ambos, em situações dramáticas, foram os salvadores de suas famílias. No Novo Testamento, entretanto, há uma evidente reticência ao tratar de José de Nazaré, marido de Maria e pai de Jesus. Tanto nas cartas de Paulo quanto nos outros autores do Novo Testamento não há nenhuma menção a José, mas o que surpreende é o papel marginal que até mesmo os evangelistas parecem dar a ele.
No evangelho considerado mais antigo, o de Marcos, não há referência a ele, e Jesus é lembrado apenas como "o filho de Maria"; são citados os irmãos Tiago, José, Judas e Simão, assim como suas irmãs (Mc 6,3), mas não há menção ao pai. Também no Evangelho de João fala-se da mãe de Jesus (Jo 2,1; 19,25) e de seus irmãos (Jo 7,3-10), mas não há nenhum indício sobre José. É apenas nos Evangelhos de Lucas, e em particular de Mateus, que os evangelistas, de maneiras diferentes, tratam esta figura singular, da qual estranhamente não relatam nenhuma palavra, e cuja profissão é mencionada apenas em relação a Jesus, conhecido como "filho do carpinteiro" (Mt 13,55). A escassez de informações sobre José nos Evangelhos fez com que a Igreja e a tradição tenha buscado abundantemente material nos textos apócrifos, em particular no Protoevangelho de Tiago, um pouco posterior aos Evangelhos. É nesse texto que José é apresentado já como um idoso ("Tenho filhos e sou idoso, enquanto ela é uma menina" (9,2), enquanto no apócrifo "História de José Carpinteiro” lemos que ele era viúvo com seis filhos (quatro meninos e duas meninas), quando se casou com Maria de Nazaré, então com 12 anos. E quando José morreu, com a idade de cento e onze anos (15,1), Jesus e Maria estavam presentes junto ao seu leito com todos os seus filhos e filhas. Essas informações levaram a tradição cristã a apresentar José como uma pessoa muito avançada na idade e, em especial a partir do século XV, a consolidação do culto a São José, levou a retratá-lo cada vez mais como um ancião que parecia mais o avô do que o pai de Jesus, talvez para tornar assim mais segura a virgindade de Nossa Senhora, e gerações de crianças aprenderam a doce canção de ninar dedicada a "San Giuseppe vecchierello…" (São José velhinho). Na realidade, com toda a probabilidade, o marido de Maria era um jovem, visto que a tradição judaica fixava o casamento para o homem aos dezoito anos (“Dezoito anos é a idade certa para o casamento” Pirkè Avot, 5,23) e para a mulher aos doze.
A Igreja apresenta José como o pai "putativo" (do latim putativus, suposto) de Jesus, de acordo com o que Lucas escreve em seu Evangelho ("era filho, como se acreditava [lat. putabatur], de José", Lc 3,23). Se Lucas fala de José como pai de Jesus (Lc 4,22), Mateus, apesar de ser o evangelista que mais dá destaque à sua figura providencial para a sagrada família, o exclui radicalmente da concepção do filho. De fato, na genealogia com a qual Mateus abre sua narração, listando os ancestrais de Jesus, por trinta e nove vezes, começando com Abraão, apresenta um homem que gera um homem (“Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó, Jacó gerou Judas... ", Mt 1,1), uma sucessão de pai para filho que atravessa a história de Israel de Abraão a Davi e de Salomão até José. Mas tendo alcançado o trigésimo nono "gerou" ("Jacó gerou José", Mt 1,16), em vez de continuar como o ritmo e a coerência gostariam com "José gerou Jesus", a transmissão da vida iniciada com Abraão de pai para filho se interrompe bruscamente. De fato, Mateus escreve que "Jacó gerou José, o marido de Maria, da qual foi gerado Jesus, chamado Cristo" (Mt 1,16), retirando José da geração do filho. Na cultura judaica não existia o termo pais, mas apenas um pai e uma mãe, com tarefas distintas. Enquanto o pai é aquele que gera, a mãe se limita a dar à luz o filho (Is 45,10). Mateus, infringindo esta cultura e esta tradição, apresenta uma mulher da qual foi gerado o filho usando o mesmo verbo (gr. ghennaô) que ele usou para todas as gerações anteriores, fazendo assim vislumbrar uma ação particular de Deus. Cristo não é filho de José, mas "Filho de Deus" (Mt 27,54), gerado pelo Espírito, a mesma energia divina que no relato da criação pairava sobre as águas (Gn 1,1-2).
José é apresentado por Mateus como "justo", uma qualificação que indica não só a conduta moral do indivíduo, mas sua plena fidelidade à Lei de Moisés, como Isabel e Zacarias, os pais de João, que “eram justos perante Deus”, pois “observavam irrepreensíveis todas as leis e prescrições do Senhor”, Lc 1,6). Quando José descobre que Maria, antes de começarem a viver juntos, está grávida, sabe que como "justo" seu dever é denunciar a noiva infiel e fazer com que seja apedrejada, conforme manda a Lei divina (Dt 22, 20-21). Mas José não o faz. Entre a fidelidade à Lei e o amor à noiva, vence a misericórdia, e José procura uma saída que salve Maria ("decidiu deixá-la secretamente", Mt 1,19). No Protoevangelho de Tiago, a escolha dramática de José é bem representada por este seu dilacerante diálogo interior: "Se eu esconder o seu erro, me verei lutando contra a Lei do Senhor" (14,1).
José não observa a Lei, e essa quebra em relação à obediência ao mandamento divino é suficiente para que o Espírito não apenas se insira em sua vida e lhe assegure tomar Maria por esposa (Mt 1,20) e salvá-la da morte certa, mas o torna capaz de perceber na sua existência a presença do "Deus misericordioso" (Dt 4, 31). José é o justo, o homem que não fala mas faz, ao contrário dos escribas e fariseus que “dizem mas não fazem” (Mt 23,3). Para o evangelista, ele é o primeiro daqueles “misericordiosos” que Jesus proclamará bem-aventurados “porque encontrarão misericórdia” (Mt 5,7), e dos “puros de coração” proclamados bem-aventurados “porque verão a Deus” (Mt 5,7). 5,7.8), ou seja, terão uma experiência constante da presença do "Senhor misericordioso" (Sir 48,20) em sua vida. Foi o que permitiu a José ser sempre guiado pelo próprio Deus (o "Anjo do Senhor"), que por três vezes, cifra que no simbolismo numérico hebraico indica a totalidade, lhe mostrará o que fazer (Mt 1,20; 2,13,19).
Repetindo os feitos do primeiro José da Bíblia (Gn 45-46), o carpinteiro de Nazaré salva sua família das tramas assassinas do rei Herodes, levando-os para o Egito, para depois retornar à mais distante, mas segura, Galileia. Acolhendo o filho de Maria como seu, José o legitima aos olhos do povo, e a criança, a quem deu o nome de Jesus (hebraico Yehsȗà, "O Senhor salva"), experimenta, mesmo antes da proteção do Pai celestial, o pai terreno como seu salvador.
sábado, 8 de março de 2025
Iº domingo de Quaresma – Não ter medo de sermos ‘testados’ e saber se temos estrutura para servir ou para dominar!
Faz parte da nossa existência sermos submetidos a muitas e diferentes provas. Ter que encarar e enfrentar desafios que exigem uma posição pessoal clara nos deixa angustiados, mas é algo que não podemos evitar. As tentações de que nos fala o evangelho de hoje são, na realidade, as provas que a vida apresenta a cada ser humano que opções permanentes. Lucas nos diz que Jesus cheio do Espírito é guiado por Ele (Espírito) ao deserto para ser ‘testado’. Esses testes, portanto fazem parte da pedagogia do Espírito para verificar se a pessoa está preparada para a missão! Lucas deixa claro que os 'testes' ocorrem ao longo da vida inteira, pois o número 40 simboliza uma geração inteira! ‘Diabo ou diabólico’ (do grego diabalein) significa ‘aquele de desarruma, que dispersa’. Dessa forma, cada um de nós faz a experiência de sentir dentro de si tendências contraditórias, centrífugas: aspiramos por algo considerado bonito, mas sentimos atração por algo contrário a isso. As três ‘tentações/testes’ a que Jesus foi submetido ao longo da vida inteira se resumem a uma: utilizar o seu poder religioso e político para possuir e dominar e não para partilhar e servir! Todo dia Jesus teve que lutar interiormente para não aderir à lógica diabólica de idolatrar as riquezas e o prestígio. Jesus superou tudo isso servindo os excluídos, o tempo todo, e partilhando tudo com os despossuídos.
quarta-feira, 5 de março de 2025
QUARTA FEIRA DE CINZAS - AS CINZAS PRETAS DE MAIS DE 50 TONS QUE AMEAÇAM AS CRIATURAS!
As cinzas pretas que caem do plúmbeo céu de Piquiá e se depositam nas nossas casas, e são inaladas pelos pulmões de trabalhadores e seres humanos não são emanações divinas que nos lembram a nossa caducidade e finitude. Tampouco são um sinal de um retorno ao ‘Éden’ onde, lá sim, tudo era ‘muito bom’. As cinzas de mais de 50 tons que cobrem as nossas cabeças e os telhados e os quartos das nossas casas, sem muitas liturgias, aqui, em Piquiá, nos lembram que somos obrigados a viver numa permanente quarta-feira de cinzas. O nosso cantinho da criação parece estar destinado a virar pó pelas mãos emporcalhadas das ‘criaturas. Nós cristãos católicos, hoje, somos chamados a deixar de lado os decadentes devocionismos que a solenidade ‘da imposição das cinzas’ podem sugerir, e a reatualizar, definitivamente, o gesto inicial do Criador: assumir o compromisso de fazer novas todas as coisas e todas as criaturas insuflando um hálito novo em toda a criação! O novo 'sopro de vida' consiste em exigir que haja uma interrupção radical na emissão de ‘cinzas pretas’ sobre nós e reduzir os índices de poluição. E permitir que muitas criaturas possam ‘inspirar’ o Hálito Oxigenado Original do Criador! Só assim o gesto de hoje poderá ter sentido. Em nada adianta receber 'cinzas bentas' se não houver o compromissos de eliminar aquelas 'cinzas pretas' mortíferas que, fruto da ganância ilimitada e da irresponsabilidade social e ambiental, estão reduzindo os filhos do Pai Criador em ‘Adãos e Evas sem vida e sem alma’!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
VIII domingo comum - Chega de palavras enganadoras! É preciso mostrar frutos concretos de humanidade e respeito!
É possível que as palavras possam camuflar e esconder o mau caráter de uma pessoa: seus sentimentos de ciúme, de ódio, de inveja, e até suas posturas arrogantes e prepotentes. Contudo, não dá para disfarçar a vida inteira. Mais cedo ou mais tarde, ela acaba despejando o que realmente está depositado no profundo do seu coração. Mais correto é sermos o que realmente somos, com as nossas contradições e fragilidades e, também, valores! É nesse sentido que Jesus nos alerta a não querermos ser ‘guias e fiscais’ dos outros, mas ajudar as pessoas a crescer e a caminhar de forma independente, pois existem supostos mestres que são, eles mesmos, cegos! De fato, há alguns mestres que movidos pela presunção e a hipocrisia são incapazes de ver suas próprias contradições/traves, mas são intransigentemente críticos dos microscópicos ‘ciscos/erros’ que existem nos outros. Para estes presunçosos é sempre o outro que está errado! São, afinal, os frutos concretos e valores reais como o respeito, os cuidados e a atenção para com os irmãos mais frágeis que nos definem, e não as nossas palavras artificialmente sedutoras. É preciso, portanto, na nossa realidade eclesial e social agir com atenção e discernimento, sem se deixar enganar por aqueles que dissociam com maestria suas palavras encantadoras, - aos ouvidos dos ingênuos e alienados, - de suas ações concretas carregadas de intolerância e de intransigência.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
7º Domingo comum - Desconstruir os inimigos e os perseguidores amando-os!
‘Bem-aventurados sois vós quando os homens vos odiarem e expulsarem...‘nos dizia Jesus no texto de domingo passado. Agora, nos convida a amar justamente essas pessoas. Palavras surpreendentes que vão na contramão do que parece estar encravado na genética universal: o instinto de eliminar todos os que ameaçam a nossa existência e a nossa honra! Parece ser um atestado de passividade e de inércia diante dos prepotentes e violentos. Contudo, Jesus tinha diante de si o desafio de quebrar as lógicas perversas das relações de vingança e de intolerância para com os que não pertenciam à mesma ‘família’ e à mesma cultura. Era preciso interromper, de vez, de forma unilateral e soberana, a espiral do ódio e da destruição física e moral do ‘diferente’ em que a maioria dos seres humanos mergulha até hoje! Amar o inimigo que persegue e ameaça, porém, não é complacência e nem cumplicidade com seus abusos. Ao não revidar e ao não aceitar a sua mesma ‘lógica’ se pretende tornar sem efeito multiplicador o mal que ele faz! A falta de revide por parte da vítima que ‘ama’ o seu agressor, desmoraliza e desconstrói o seu ‘inimigo’ e esteriliza a sua sede de mais agressão e mais ódio! Uma lição de vida bem atual para as nossas conturbadas relações interpessoais e.... ‘internacionais’!