Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:12 "Que
vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu?13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam.14 Do
mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos". (Mt.18,12-14)
Jesus dá por descontado que um pastor de verdade ao dar fé que lhe falta uma ovelha do seu rebanho vai, imediatamente, à procura dela. Parece um paradoxo: deixa 99 ovelhas desprotegidas para buscar uma única ovelha perdida, e sem ter garantia de achá-la! É evidente que esse pastor não é pautado pela lógica do ‘custo-benefício’, pois agiria de uma outra forma. Ocorre que, em geral, quem já fez a experiência de ser pastor de ovelhas, vacas, bodes, etc. age da mesma forma que agiu o pastor da parábola. É a única faltante e não as 99 que determina a sua decisão, a sua escolha, algo que, aparentemente indicaria impulsividade e ausência de raciocínio. O sentido de responsabilidade, o apego e os cuidados com cada ovelha impulsionam o pastor a não ceder a cálculos frios e pragmáticos. O desvio e a ‘perdição temporária’ de uma única ovelha parece ser objeto de uma preocupação um tanto exagerada por parte do pastor, principalmente quando as 99 não estão totalmente em segurança, mas poderiam sofrer, elas também, ataques e agressões. O nosso evangelista, contudo, carrega propositalmente as tintas na parábola para nos preparar e acolher o cuidado e o amor desmedido do Pai para com os.... pequenos. Aqui não se fala de ‘pecadores’ e ‘desviados’, e sim, de pequenos, na língua grega ‘invisíveis’ (mikroi). Lembremos que Jesus em diferentes circunstâncias constatava o desamparo das multidões que parecia como ‘ovelhas sem pastor’. Isso para reafirmar que se, de fato, houvesse um pastor de verdade, as ovelhas não se encontrariam ‘perdidas, desamparadas, desnorteadas’ e tampouco ‘invisibilizadas’ do jeito que estão. Jesus de forma enfática deixa claro qual é o desejo do Pai: não perder nenhum desses pequeninos, invisíveis. A lógica do templo e da sua classe dirigente vai na contramão disso: os pastores sanguessugas cultivam somente as ovelhas graúdas, as vistosas, as bem alimentadas, as que dão retorno econômico e afetivo. A lógica dos maus pastores é a de vigiar e administrar as ovelhas que, a princípio, não precisam de proteção e de amparo, e deixam as ovelhas feridas, desgarradas, perdidas, desviadas porque elas dão só prejuízo. Aliás, eles sequer conseguem enxergá-las em sua perdição. Não fazem falta, logo, não existem!
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