quarta-feira, 27 de maio de 2026

Cientistas repudiam ‘Pacote do Dia do Agro’ aprovado na Câmara e alertam para riscos ambientais

O documento, intitulado “Pacote do Dia do Agro não é sustentável”, expressa oposição ao avanço de propostas legislativas consideradas prejudiciais à conservação ambiental, à biodiversidade e ao enfrentamento da crise climática. Segundo as entidades, os projetos representam “graves retrocessos ambientais” e podem gerar impactos sociais, econômicos e climáticos em diferentes regiões do país.

A nota critica três propostas aprovadas na Câmara dos Deputados. Entre elas está o PL 364/2019, que exclui campos nativos e outras formações vegetacionais abertas do conceito de vegetação nativa protegida pela legislação ambiental brasileira. Os cientistas alertam que a medida poderá facilitar a destruição de milhões de hectares de ecossistemas naturais, afetando espécies únicas e comprometendo serviços ecossistêmicos fundamentais, como a proteção do solo, a recarga de aquíferos, o abastecimento de água, a polinização e o sequestro de carbono. Outra preocupação é o PL 5900/2025, que amplia o poder do Ministério da Agricultura sobre normas relacionadas a espécies de interesse econômico. Para os pesquisadores, a proposta enfraquece atribuições de órgãos ambientais e científicos, além de concentrar decisões no Ministério da Agricultura em temas que podem impactar diretamente ecossistemas e atividades produtivas.Já o PL 2564/2025, que busca impedir que órgãos ambientais, como o Ibama, realizem embargos e punições baseados em imagens de satélite e monitoramento remoto. De acordo com a nota, a proposta dificultaria a fiscalização ambiental, especialmente em regiões de difícil acesso, como a Amazônia.

“Um tiro no pé para o agronegócio”

Para Valério Pillar, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), os projetos demonstram desprezo pela conservação ambiental e podem trazer consequências negativas inclusive para o próprio agronegócio“Esses projetos de lei aprovados na Câmara dos Deputados expressam o desdém da maioria dos parlamentares pela conservação da biodiversidade e pelos benefícios que a natureza provê a toda a sociedade. Desprotegem campos nativos e cerrados em todo o Brasil, limitam a fiscalização por satélite e debilitam a autoridade do Ministério do Meio Ambiente. É um ‘tiro no pé’ para o agronegócio, pois compromete a sustentabilidade da agricultura diante das mudanças climáticas e do maior risco de eventos extremos de chuva e seca”, afirma. No documento, pesquisadores também alertam que a flexibilização da legislação ambiental pode ampliar as emissões de carbono, reduzir a capacidade de resposta aos eventos climáticos extremos e aumentar o risco de sanções comerciais internacionais e boicotes a produtos brasileiros em mercados que exigem critérios socioambientais mais rigorosos. (IHU)

 

O pensamento escravocrata na era da Inteligência Artificial. Artigo de Moisés Mendes

 Essa foi uma das crueldades cometidas em nome do fim da escravidão: o Brasil é que iria se livrar dos danos do escravismo. Não eram os escravizados que iriam se libertar do sistema que os explorava há mais de 300 anos. Mesmo os pensadores considerados liberais do século 19 cometiam esse ‘erro’ de avaliação. É o que os jornais publicavam. Antes de pensarem no que a libertação significaria para o escravizado, as elites refletiam sobre os benefícios do fim da escravidão para o país. É mais ou menos o que dizem hoje os pensadores liberais do século 21, com um detalhe que os diferencia. Os liberais do século 19, influenciados por fatos históricos recentes, como a Revolução Francesa, eram mais ‘iluministas’ do que os liberais produtivistas de hoje. Faíscas daqueles tempos vinham de fora e iluminavam ou pareciam iluminar os abolicionistas. 

Hoje, não. Tudo o que se lê, sob o ponto de vista da elite empresarial, em reflexões de pensadores do liberalismo, passa sempre pela questão ‘racional’ posta por essa pergunta, diante da possibilidade de acabarem com a escala 6X1: o que o país ganha com isso? Não perguntam o que pode mudar na vida das pessoas se elas tiverem dois dias de folga e como isso pode repercutir na qualidade de vida e em todas as atividades, mesmo sob o ponto de vista da economia. Dois exemplos pontuais, que estão na capa do jornal O Estado de São Paulo, na edição desse 26 de maio. O primeiro, em texto de um dos pensadores ‘liberais’ do jornal, o cientista político Fernando Schüler, tem esse título em forma de interrogação: “A pergunta real sobre o fim da escala 6×1. Haverá ganho de produtividade?”.

O segundo exemplo, no mesmo Estadão, é do colunista Rodrigo da Silva, com essa chamada: “Por que o debate sobre a escala 6×1 precisa de menos romantismo e mais aritmética”. Os liberais do século 19, apesar dos erros que cometiam ao verem os negros como passivos à espera de uma abolição redentora, abandonaram cedo essas contas básicas da matemática que atormenta hoje os liberais dos tempos da Inteligência Artificial. Os liberais do século 19 diriam hoje: é muito mais do que a aritmética, estúpido. Um jornal de São Paulo, criado em 1875, foi uma das vozes mais fortes do abolicionismo no Brasil, apesar de durante muito tempo publicar na capa anúncios em que eram oferecidos, como mercadorias à venda, negros escravizados. Esse jornal chamava-se A Província de São Paulo e mais tarde passou a se chamar O Estado de São Paulo. É o que chamam há muito tempo de O Estadão, da família Mesquita, publicado até hoje como porta-voz do conservadorismo brasileiro e atualmente sob gestão profissional que inclui prepostos de banqueiros.Pois esse jornal abolicionista de 1875, que mobilizou os liberais paulistas pelo fim do escravismo, é o mesmo que mobiliza agora os liberais produtivistas do século 21 em defesa da manutenção da escala 6X1. Porque, segundo esses liberais, a questão é matemática.

 

domingo, 24 de maio de 2026

O ESPÍRITO JÁ ESTÁ DENTRO DE NÓS! É URGENTE RECONHECÊ-LO!

 

O Espírito não criado, o preexistente,

que com sua centelha original alumiou as trevas,

nunca deixou de pairar sobre os seres vivos.

Jamais deixou de permear o cosmos infinito com sua seiva vital.

Hoje, continua a ser invocado e suplicado,

mas ELE JÁ ESTÁ DENTRO DE CADA SER VIVO...

...que, no entanto, ainda teima em pedir que Ele venha!

Talvez fosse sensato compreender que são os seres vivos

que ainda não sentem o Sopro do Pai presente e atuante dentro deles.

INVOQUEMOS O ESPÍRITO NÃO PARA QUE VENHA,

MAS PARA QUE SEJA RECONHECIDO E ACOLHIDO!

 

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

PENTECOSTES - O 'TERREMOTO EXISTENCIAL' QUE MUDA A NOSSA VISÃO DE MUNDO E A NOSSA PRÁTICA!

Existem na nossa vida uma multiplicidade de acontecimentos aparentemente contraditórios, de encontros fortuitos, de gestos ambíguos e de enigmáticas tendências. Num primeiro momento, tudo isso nos parece um amontoado de fatos sem conexão, sem propósitos e sem intencionalidades. No entanto, é possível que, ao fazermos experiências fortemente impactantes, verdadeiros terremotos interiores, tudo isso mude. São radicais mutações do nosso ser que nos obrigam a olhar a totalidade da nossa existência com outros olhos e com uma inédita disposição. Ficamos tão atônitos, e até intimidados com esse tipo de descoberta que não titubeamos em afirmar que ‘na vida nada acontece à toa’ ou que ‘Deus sabe o que faz, pois Ele escreve certo por linhas tortas’. Graças a essas experiências inéditas, mesmo que dolorosas, tudo nos parece interconectado, carregado de sentido, e o que nos parecia incompreensível e misterioso acaba se tornando, surpreendentemente, um marco referencial na nossa vida. Esta foi, de alguma forma, a mesma experiência luminosa que fizeram os discípulos de Jesus em Pentecostes, após a sua morte e a sua definitiva ausência física. Uma experiência coletiva, original, reveladora, sofrida, irrepetível, da compreensão e dos propósitos de suas vidas e de sua missão. Quando isto ocorre, todos os acontecimentos, os encontros, os gestos se iluminam e  adquirem sentido, inclusive o fracasso, a decepção, a dor e a morte! Deixemos Pentecostes acontecer!

sábado, 16 de maio de 2026

SOLENIDADE DA ASCENSÃO - CHEGA DE RASTEJAR, É PRECISO SE ELEVAR E OLHAR COM OS OLHOS DE QUEM OLHA DESDE O CÉU!

 Frequentemente as nossas atitudes e perspectivas denunciam que somos ainda demasiadamente terrenos, quase rasteiros. Não conseguimos nos desvencilhar de um imediatismo interesseiro e opaco. Temos dificuldade de nos transcender, de enxergar um pouco mais além do nosso nariz. Afinal, somos crias e multiplicadores de uma cultura supostamente pragmática e eficiente do aqui e agora. Jesus, no evangelho de hoje, ao se distanciar fisicamente dos seus discípulos, em lugar de consolá-los e conformá-los, os incentiva a fazer novos discípulos, novas testemunhas do Pai. Em outras palavras, os catapulta para fora do mundinho tapado em que viviam e atuavam, e os envia para se inserirem nos grandes cenários e desafios da sociedade. Jesus não quer uma seita de cultuadores piedosos, adoradores submissos da sua pessoa, mas reprodutores incansáveis de sua prática, e protagonistas ousados da Boa Nova nos quatro cantos do planeta. Chegou a hora de pensar e agir grande. De olharmos a nossa realidade com os olhos de quem a vê desde o Céu. Que sabem descortinar com clarividência, agora, novos e invisíveis horizontes e perspectivas de vida. Mas para tanto é preciso, urgentemente, que aprendamos a nos elevar, a nos distanciar de nós mesmos e a nos educar a enxergar as pessoas da nossa humanidade que ninguém vê e ninguém convida! 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Pela primeira vez, as guerras estão deslocando mais pessoas do que inundações, tempestades e outros desastres naturais

Imaginemos um assentamento que abrigasse mais de 82 milhões de pessoas — praticamente a população da Alemanha. Isso é real, mesmo que não sejam todas juntas: é o número de pessoas que foram deslocadas internamente dentro de seus próprios países no final de 2025, após fugirem de conflitos armados ou desastres naturais, de acordo com as estimativas mais recentes do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), a principal organização global para medir e analisar esse fenômeno, que publicou seu relatório anual nesta terça-feira.

Cada ano traz um desenvolvimento diferente, mas todos apontam na mesma direção: a deterioração global está se agravando. Durante anos, desastres naturais — inundações, tempestades, ciclones — causaram muito mais deslocamentos populacionais do que conflitos armados. De fato, 2024 foi um ano excepcionalmente devastador em termos climáticos. Mas as guerras vêm ganhando terreno na dinâmica global de deslocamento forçado e, em 2025, pela primeira vez desde que registros globais comparáveis começaram a ser mantidos, guerras e violência causaram mais deslocamentos forçados dentro dos países do que desastres naturais: os conflitos desencadearam um recorde de 32,3 milhões de movimentos populacionais (um aumento de 60% em relação ao ano anterior), em comparação com 29,9 milhões ligados a desastres naturais. Em 31 de dezembro de 2025, um total de 68,6 milhões de pessoas estavam vivendo longe de suas casas devido à guerra e outras 13,6 milhões devido a eventos relacionados ao clima. (IHU)

Nem galinhas nem crocodilos: a lição das mães que nos ensinam a voar. Artigo de Massimo Recalcati

 A literatura psicanalítica, basicamente, forneceu um retrato patológico da mãe. Um bestiário variegado a descreveu como uma desgraça a ser evitada como a peste: a mãe — a mãe galinha ou crocodilo, polvo ou vampiro — é a mãe que invade abusivamente a vida do filho, recusando sua perda; na linguagem freudiana, mas também junguiana, é a mãe devoradora que, em vez de se separar de seu fruto, o absorve canibalisticamente. Mas essa versão tentacular da mãe — da qual a prática clínica ainda oferece inúmeros exemplos hoje — só pode ser a versão patológica da maternidade. A essa, dever-se-ia acrescentar a figura da mãe morta ou fria, como o oposto da devoradora, ou seja, a mãe que abandona seus filhos tornando-se ausente. Também dever-se-ia tentar, contudo, ser mais justos com a mãe e, portanto, evocar não apenas sua onipotência devastadora, mas também seu ser figura insubstituível de cuidado. O filho, dizia Rainer Maria Rilke em um poema pungente, é como o orvalho que precisa de uma planta para se sustentar. E essa planta seria, precisamente, a mãe. Para além da identidade biológica, dever-se-ia lembrar, antes de tudo, que ser mãe não é o mesmo que ser a figura genitorial do filho.

Ser mãe não é um dado da natureza, mas uma experiência que consiste não tanto em gerar a vida, mas em cuidar dela de forma autêntica. Nesse sentido, Françoise Dolto lembrava que toda mãe é fundamentalmente sempre adotiva, no sentido de que o que a torna tal não é a continuidade biológica com o filho, mas, precisamente, o ato de cuidar. Poderíamos então dizer, de forma mais radical, indo além da identificação do materno com um único sexo específico, que existe uma mãe sempre que há um ato de cuidado ou, se preferir, que todo ato de cuidado se revela, em sua essência, profundamente materno. Mas em que consistiria um ato de cuidado? A resposta a essa pergunta nos leva a perceber como a lição da mãe vai muito além do bestiário no qual se gostaria de aprisioná-la.O ato de cuidado materno consiste, basicamente, em reconhecer a diferença substancial que distingue o nome do número. Aos olhos de uma mãe, de fato, cada filho é filho único, mas não na ordem do número. É filho único porque é filho insubstituível e incomparável. A lógica que inspira o cuidado materno nunca é aquela do geral, mas aquela do particular. Nesse sentido, Lacan lembrava que o amor materno é sempre amor pelo nome. É amor pela diferença do outro que rejeita ou encara com justificada suspeita qualquer generalização. A lição da mãe nos lembra, em outras palavras, que o amor que cuida nunca pode ser amor pela vida em geral, mas apenas amor de cada um, pelo filho por ser único, pelo seu nome mais próprio. Seu cuidado, portanto, nunca poderá ser procedural, protocolar, nunca será anônimo, impessoal, mas sempre particularizado. Nesse sentido, a lição materna também deveria ressoar em nossa vida civil e política, que com muita frequência demonstra sinais de incúria, ou seja, de confundir, em vez de distinguir, o nome do número.

Quando nos sentimos mais maltratados senão justamente quando nosso nome é confundido com um número? Esse é o risco da ação política, que muitas vezes pensa por meio de números em vez de nomes. Basta pensar na guerra como o fenômeno mais radical da incúria, podemos ver claramente como ela contradiz radicalmente o código materno. Se a maternidade, ao cuidar de cada indivíduo, torna a vida insacrifável, digna de ser considerada, como o Papa Francisco nos lembrou com força, "imensamente sagrada", a política pode, ao contrário, fazer do sacrifício do particular a sua ideologia subjacente. As vidas individuais não valem nada em relação à necessidade geral. Diversamente, o ensinamento materno nos lembra que ninguém é dono da vida de seu filho, nem mesmo quem a concebeu ou adotou. Pelo contrário, o que a maternidade demonstra é a existência de uma hospitalidade — acolher a vida do filho no próprio corpo — que renuncia a todos os direitos de propriedade.

É isso que vemos nestes belos meses de primavera nos parques públicos, quando encontramos mães ensinando seus filhos a caminhar. Um gesto aparentemente simples, mas que carrega em si toda a lição do amor materno: a você que foi sangue do meu sangue, vísceras nas minhas vísceras, eu ensino a caminhar, a se afastar de mim, a trilhar seu próprio caminho. Esse é o cerne mais profundo da grande narrativa bíblica do Rei Salomão. Seu famoso estratagema da espada revela que a verdadeira mãe não é aquela que reivindica o filho como sua propriedade, mas aquela que está disposta a perdê-lo, a renunciar a toda propriedade, contanto que a vida daquele filho seja salva.

 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

'MAMÃE EU QUERO SER PREFEITO...MENTIR SOZINHO EU SOU CAPAZ....'

 

Mamãe, não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais
mentir sozinho eu sou capaz, 
não quero ir de encontro ao azar...’ 

Assim começa a música ‘Cowboy fora- da- lei’ de Raul Seixas em 1987. Certamente o nosso autor sabia muito bem que eventuais assassinatos preconizados nas letras da sua canção não viriam pela mão de um povo desiludido ou ludibriado pelas promessas não mantidas por prefeitos vencedores. Afinal, quem teria coragem de cometer tais barbaridades com administradores públicos só pelo fato de não cumprirem o que prometeram? É tão corriqueira essa realidade no nosso País que, se assim fosse, teríamos poucos prefeitos sobreviventes! Em geral, as fantásticas promessas que os candidatos gritam de seus palanques ou chegam até a assinar em cartório são dirigidas para o ‘povão’ que, sistematicamente, sabe que jamais serão cumpridas e que jamais serão punidas pela justiça. Dito de outra forma, ninguém do ‘povão’, pelas informações que temos desses últimos 45 anos, atentou à vida de algum prefeito em exercício por ele não ter cumprido suas promessas. Entretanto, o mesmo não pode ser dito daqueles grupos políticos com densidade política e interesses econômicos de destaque dentro de uma unidade municipal, sejam eles aliados de ocasião ou opositores de conveniência ao prefeito vencedor. Interesses variados contrariados, promessas de cargos não mantidas aos amigos ou supostamente tais, desentendimentos e disputas internas que fogem ao controle são motivos mais que razoáveis para a eliminação física de quem administra. Pelas estatísticas, na maioria dos casos de assassinato de prefeitos, há sempre um ‘vice’ envolvido. Ou seja, parece ser ‘briga de branco’ em que o ‘povão’, sempre à margem, não se imiscui. Somado a tudo isso, há que se constatar que até aqueles setores do ‘povão’ mais aguerridos em reivindicar ou denunciar coerência e cumprimento do prometido, há bastante tempo deixaram de fazê-lo. Cansaço, luta permanente desgastante, articulação paciente, diária, têm prazo de validade. Dessa forma, fica bastante óbvio que, em geral, um prefeito administra, preferencialmente, em favor de uma minoria de sanguessugas e de apaniguados que, paradoxalmente, são os únicos que poderiam atentar ao seu cargo e à sua vida. 

Uma outra característica de um candidato a prefeito que o Raul cita nas letras da sua obra é a sua capacidade de mentir, da mesma forma que os jornais mentem! Ou melhor, candidatos sabem mentir sozinhos sem ter cumplicidade ou respaldo da mídia. É próprio de um candidato mentir. É tão visceral e tão generalizada essa postura que não chega a escandalizar ou a indignar ninguém. Quantas vezes ouvimos expressões do tipo ‘É o calor da campanha, sabe como é...deixa pra’ lá, releva!’ para tentar justificar os excessos no palavreado, nos gestos, nas promessas alucinantes de uma infinidade de candidatos de todos os espectros políticos e ideológicos. Quem não lembra, por exemplo, daquele famoso candidato que prometia que ‘ia metralhar a petralhada?’, mas acabou ‘metralhando’, com sua incompetência, mais de 700 mil amigos e inimigos?

Dito tudo isso, qual o peso que se deve dar, então, a um candidato a prefeito que após ter ouvido um grupo de cidadãos que apresentam um conjunto de normais e óbvias reivindicações em favor da cidade, e não do grupo, o aprova e se compromete colocando formalmente a sua assinatura? Será que aquele candidato, uma vez eleito, ao não cumprir o seu compromisso poderia invocar o ‘calor da campanha’, ou o ‘clima de campanha e suas dinâmicas’ como justificativa? Ou, simplesmente, deixa de ser ‘homem de palavra’ em que para ele mentir e assumir compromissos com a população sabendo, de antemão, que não irá cumpri-los é um gesto sem peso, sem valor e, principalmente, sem consequências legais?  Nobre, seria, se por parte daquele prefeito eleito ao não conseguir cumprir os compromissos assumidos publicamente viesse a público esclarecer, mostrar, expor e debater as causas efetivas do seu não cumprimento. Ocorre que, ao contrário disso, os descumpridores de promessas e de compromissos fogem, se escondem e voltam a mentir sobre as suas próprias mentiras que um dia assinaram.

O caso emblemático do prefeito de Açailândia, no caso Piquiá!









6 ª domingo de Páscoa - VENHA A NÓS O ESPÍRITO DA VERDADE PARA DEFENDERMOS OS INDEFESOS

Como se pode manter convicções e valores de vida em uma realidade onde tudo parece se esvair na atmosfera, e uma trajetória de vida coerente é rotulada pelo ‘senso comum’ como alienação ou insensatez? Como deter, afinal, o rolo compressor do ‘efeito manada’ que, tragicamente, sempre desponta em épocas de crises profundas em que predominam as atitudes massivas do ‘salve-se quem puder’, ou do ‘cada um por si e Deus por todos’? Jesus, no evangelho hodierno, parece deixar claro que não existem saídas individuais. Que a salvação entendida como plenitude de vida, aqui e agora, vem como resultado de um conjunto de imperativos éticos (mandamentos) conscientes, construídos e praticados coletiva e reciprocamente. A superação da sensação de perdição, de rejeição e de desamor é possível somente quando fazemos a experiência concreta de nos sentir defendidos, apoiados e amados por alguém que está sempre ao nosso lado. Um alguém que, mesmo não sendo visível e palpável, o sentimos como um ser vivo que emana segurança, acolhimento amoroso e paz interior. Um ‘ser-espírito’ que nos revela, sistematicamente, que não somos uma massa de órfãos abandonados, ou uma manada alienada de indivíduos enlouquecidos, mas sim, filhos queridos e irmãos solidários de uma mesma família planetária.

VIVA O DIA DAS MÃES! 

terça-feira, 5 de maio de 2026

CAOS ADMINISTRATIVO E SOCIOAMBIENTAL EM PIQUIÁ: DE FARSA A TRAGÉDIA!

 

Muitos maranhenses não sabem onde fica Piquiá. Poucos sabem que esse vilarejo de pouco mais de 4 mil residências pertencente ao município de Açailândia é responsável por quase a metade do quarto maior PIB do Estado do Maranhão. De Piquiá saem quase 2 bilhões de Reais em aço, ferro-gusa e outros derivados do minério de ferro que a empresa Vale distribui às empresas siderúrgicas locais e suas terceirizadas. Diante disso surge espontânea a ideia de que esse aglomerado de famílias vindas, em diferentes etapas, e de diferentes estados da Federação num outrora recanto florestal paradisíaco rico em ‘pequi’, ao longo de quase 50 anos, estaria vivendo numa redoma de prata. Ledo engano. Piquiá, em 2026, vive jogada às traças pelas recidivas e desastrosas administrações municipais, pela inoperância e o descaso socioambiental sistêmico de suas poderosas empresas minero-siderúrgicas. Hoje, Piquiá não possui saneamento básico, são poucas as ruas pavimentadas, verdadeiras crateras surgidas pela falta de manutenção recolhem esgoto fedorento e águas pluviais, e sem contar com uma praça que seja digna de tal nome. Entretanto, Piquiá oferece um outro trágico primado que a coloca a competir de igual para igual com São Luís do Maranhão: os altos índices de poluição que, quase sempre, são superiores aos permitidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Um morador histórico de Piquiá que tem acompanhado as vicissitudes desse vilarejo ao longo desses últimos 40 anos costuma afirmar que ‘Piquiá é a terra das promessas jamais cumpridas’, tecendo justas críticas aos diferentes administradores municipais que têm se sucedido e às notórias empresas minero-siderúrgicas que vêm se notabilizando não somente por suas superproduções de ferro-gusa, aço, e outros insumos, mas principalmente por ‘distribuírem o pó preto’ que emana de suas chaminés, sem nenhum investimento significativo, e sem compromisso com iniciativas concretas consistentes de compensação socioambiental e social’ para a população local.

Uma recente pesquisa patrocinada pela Associação Carlo Ubbiali em parceria com o Departamento de Ciências Sociais – Grupo de Estudo e Pesquisa Trabalho e Sociedade, da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), realizada ao longo de 2025 junto a cerca de 200 famílias de Piquiá sobre suas percepções a respeito da realidade socioambiental e do mercado de trabalho dos moradores de Piquiá, revela que 92% identificam a Poluição como o principal problema a ser combatido. Em segundo e terceiro lugar vem a ausência de saneamento básico e a ausência de pavimentação das ruas, respectivamente. Sabe-se que a identificação pura e simples de problemas estruturais como estes não garante a sua solução, mas pode motivar as vítimas do descaso a pressionarem e obrigarem os administradores públicos e outros atores econômicos que impactam o cotidiano de milhares de famílias a rever, radicalmente, a sua (in)capacidade de planejar e apontar prioridades. Foi com esse intuito que na manhã do dia 04 de maio uma comissão de representantes dos moradores de Piquiá reuniram-se com o Ministério Público da cidade de Açailândia. Não é que em diferentes ocasiões não se tenha tentado tecer um diálogo direto com o prefeito e alguns dos seus secretários para debater esses problemas estruturais. Ao contrário. Em pelo menos 4 ocasiões houve a possibilidade de pôr na mesa dos gestores públicos essas ‘feridas socioambientais’ que há mais de quatro décadas atentam o direito básico de uma vida digna, entretanto, do lado dos administradores públicos só ouvia-se uma monótona promessa de que ‘em 2026 iremos surpreender Piquiá’, ou ‘os projetos já estão prontos, carecem somente alguns ajustes burocráticos’, ou ‘nas próximas semanas formaremos uma equipe para mensurar o nível de poluição, identificar os responsáveis e exigir que as empresas tomem as medidas cabíveis, ou ‘os ônibus para o transporte público (do itinerário Piquiá-Açailândia-Piquiá) já chegaram, falta só criar a empresa municipal e começar a rodar...’ e outras lorotas que só vêm a desmoralizar e desacreditar o que, eufemisticamente definimos como ‘poder público’ de Açailândia. A Promotoria manifestou sensibilidade, esclareceu aos representantes algumas questões específicas e manifestou total disponibilidade em desempenhar o seu papel de mediação e de defensor de direitos coletivos convocando as partes, mas com alguns pontos centrais bem firmes, a saber: 1. Do lado da população ficou a tarefa de resgatar o documento contendo, por exemplo, os compromissos de campanha assinados pelo então candidato e, hoje, prefeito de Açailândia; a síntese e sistematização dos conteúdos-resultados emergidos das diferentes reuniões formais e informais realizadas com representantes da Prefeitura e, por último, a entrega dos resultados da pesquisa realizada ao longo de 2025 sobre as percepções da população de Piquiá a respeito da sua realidade socioambiental. Do lado da Prefeitura, o representante do Ministério Público iria comunicar formalmente o prefeito e os seus secretários para que se preparassem adequadamente, a partir do material fornecido, e em data a ser marcada de comum acordo, a administração pública iria expor tudo o que está sendo planejado para Piquiá, deixando claro os prazos e as modalidades. Haveria, finalmente, uma reunião conjunta para a apresentação e debate, finalizando com a assinatura de um termo de ajuste de conduta. Caso isso não venha a acontecer por falta de cumprimento do acordado, a população de Piquiá não terá outra saída a não ser a judicialização do caso.

AQUI ABAIXO ALGUMAS RUAS DE PIQUIÁ......



 









 

sábado, 2 de maio de 2026

5ª Domingo de Páscoa - Ao reproduzirmos as obras de compaixão de Jesus o Pai será visto em nós, e nós seremos um com Ele!

‘Ir ao Pai’ não é fugir da realidade onde vivem e lutam os Seus filhos e filhas. Não é alienar-se de suas existências e, supostamente, contemplar um deus-pai criado sob medida. É, ao contrário, encontrar a essência do amor do Pai comum no mais íntimo das pessoas. É compreender que quanto mais nos adentrarmos nos dramas, nas angústias, nas dores, nas aspirações e esperanças de Seus filhos e filhas poderemos descobrir o verdadeiro caminho para a sua superação. Jesus havia construído uma relação muito profunda e íntima com um Deus concebido e tratado como Pai ao agir com compaixão e ternura para com doentes e rejeitados da sociedade. Quanto mais Jesus se aproximava deles, mais intensamente sentia a paternidade de Deus agindo nele. Isso foi tão forte que Jesus chega a afirmar que quem via Ele, via o próprio Pai, invisível, sim, mas atuante por meio Dele. O mais espantoso, contudo, é que quem acreditar e reproduzir essa relação de amor e de compaixão poderá não somente encontrar verdade e vida, mas poderá produzir ‘obras maiores’ do que aquelas realizadas pelo próprio Jesus. As obras são ações históricas concretas de libertação e de superação de toda dependência, indiferença e intolerância, e não execuções de liturgias vazias e alienantes!

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Suspeitos de plantar maconha em aldeia indígena morrem em confronto com a polícia no interior do Maranhão

Nesta terça-feira (28) dois homens foram presos e outros dois morreram após confronto com a polícia durante a Operação Herba Nefanda II. A operação aconteceu na Aldeia Bananal, na divisa entre Grajaú e Barra do Corda, no sul do Maranhão. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.

Suspeitos eram naturais de Pernambuco

De acordo com a polícia, os suspeitos mortos eram naturais de Pernambuco e apontados como líderes do cultivo de maconha localizado na área, além de serem suspeitos de um homicídio na região. A operação foi coordenada pela 15ª Delegacia Regional de Barra do Corda e pelo 1º Distrito Policial de Grajaú, com apoio de forças estaduais e municipais. O objetivo foi dar cumprimento a mandados de prisão e de busca e apreensão, expedidos pela 2ª Vara de Grajaú, contra lideranças criminosas envolvidas com o tráfico interestadual de drogas e homicídios. Durante o cumprimento dos mandados, no povoado Sobradinho, os policiais foram recebidos a tiros por dois pernambucanos, que estavam entre os principais alvos da operação. Segundo a polícia, os suspeitos eram responsáveis pelas primeiras plantações de maconha que foram destruídas na primeira fase da operação Herba Nefanda. Eles também eram investigados por um homicídio na região. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.Foto: Divulgação / Polícia Civil do Maranhão

Troca de tiros durante a Herba Nefanda II

Houve troca de tiros, e os dois suspeitos foram baleados. Eles não resistiram aos ferimentos e morreram. Com a dupla, os policiais apreenderam uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Com a dupla, foram apreendidas uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Ainda conforme a investigação, eles eram apontados como líderes do cultivo de drogas e suspeitos de um homicídio na região. Outros dois suspeitos, naturais da Bahia, foram presos em flagrante durante a operação. Com eles, os policiais apreenderam armas longas, um revólver calibre .32 e grande quantidade de maconha em processo de secagem.

Tráfico de drogas e associação para o tráfico 

Os dois presos foram autuados por tráfico de drogas, associação para o tráfico e posse ilegal de arma de fogo.A operação também resultou na destruição de três áreas de plantio de maconha, com mais de 80 mil pés da droga. As plantações ficavam espalhadas para dificultar a localização e foram incineradas após a coleta de amostras para perícia.(IMIRANTE)

  

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cardeal Pizzaballa, patriarca de Jerusalém: "Todos sofrem, mas alguns ocupam e alguns são ocupados. Algoritmos decidem quem morre"

 

Em carta à Diocese de Jerusalém, o Patriarca escreve que hoje "a guerra se tornou objeto de adoração idólatra" e "os civis não são mais considerados vítimas colaterais". Ele denuncia a situação em Gaza e na Cisjordânia: "A agressão e os assentamentos estão aumentando". Um diagnóstico lúcido, que reconhece a dor de todos, mas distingue entre ocupantes e ocupados, e um apelo final à coexistência da fraternidade e da paz. O Cardeal Pierbattista Pizzaballa publicou hoje uma carta pastoral dirigida aos fiéis de sua diocese, Jerusalém, na qual exorta os cristãos a viverem sem se deixarem abater pela atual "desordem global".

"7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza significaram algo diferente e devastador para cada um dos dois povos desta terra", escreve o Patriarca Latino de Jerusalém no texto de 32 páginas. "Para os palestinos, representa a fase final e dramática de uma longa história de humilhação e êxodo. Para os israelenses, no entanto, representa algo sem precedentes: uma violência que trouxe à tona os horrores ocorridos na Europa há oitenta anos." Antes de se concentrar na missão dos cristãos de Jerusalém e examinar as implicações pastorais concretas para os fiéis, sacerdotes, jovens e idosos, famílias, escolas e hospitais, a carta pastoral faz uma "avaliação do atual estado de desordem em que a Terra Santa e o mundo caíram".

Pizzaballa, que nas últimas semanas não poupou críticas à missão de paz de Donald Trump, observa que um mundo em que "a comunidade internacional, e em particular o mundo ocidental, acreditava numa ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo" foi substituído por uma situação em que "a guerra se tornou objeto de um culto idólatra", "os civis já não são considerados vítimas colaterais" e "algumas potências mundiais, que outrora se apresentavam como garantes da ordem internacional (...) escolhem de que lado ficar não com base na justiça, mas nos seus próprios interesses estratégicos e econômicos".

Jerusalém, Gaza, Cisjordânia

As referências aos acontecimentos atuais são claras: "Os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração, estão se tornando campos de batalha pela identidade. Textos sagrados são invocados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo. Acredito que esse abuso do nome de Deus seja o pecado mais grave do nosso tempo", escreve Pizzaballa, que foi impedido de acessar o Santo Sepulcro pela polícia israelense durante a Semana Santa. Em Gaza, que Pizzaballa visitou diversas vezes desde o início da guerra, "nossos irmãos (...) viveram durante anos sob bombas, sem água, sem comida, sem remédios. E agora vivem entre os escombros". Na Cisjordânia, "a agressão causada pela ocupação e a total ausência do Estado de Direito estão aumentando, com a expansão contínua dos assentamentos. Se essa tendência não for interrompida, corre-se o risco de cristalização de uma situação de ocupação permanente que erode qualquer possibilidade de uma solução justa e compartilhada". E em Israel, escreve o patriarca, "nossos irmãos e irmãs vivem em um contexto diferente, mas não sem seus problemas: discriminação social, desigualdade econômica e crescente insegurança".

Dor e dor

"A dor é sempre dor, e não é nossa intenção hierarquizar o sofrimento", escreve Pizzaballa. "Embora respeitemos as diversas situações e reconheçamos sua complexidade, não podemos considerá-las todas idênticas: há uma diferença entre quem exerce o poder e quem o sofre, entre quem governa e quem é governado, entre quem possui armas e quem é ameaçado por elas, entre quem ocupa e quem é ocupado. As responsabilidades são diferentes. Reconhecer essa diferença é um ato de respeito à justiça e à verdade."

Morto com inteligência artificial

De maneira mais geral, o Patriarca Latino aponta o dedo para o uso da inteligência artificial na guerra: "Estamos entrando em uma fase em que algoritmos estão selecionando alvos, tomando decisões que até recentemente eram exclusivamente humanas". Pizzaballa pergunta: "Muitas vezes me perguntei, por exemplo: quantas pessoas morreram nessas guerras recentes em nosso país por causa da 'decisão de um algoritmo'?" O Patriarca Latino de Jerusalém lamenta que, também devido aos algoritmos das redes sociais, "estejamos cada vez mais nos isolando em grupos fechados, em enclaves sociais onde se encontram apenas pessoas que pensam da mesma forma, que falam a mesma língua, que compartilham os mesmos medos". Mas "esta terra — tão disputada quanto amada — é lar de todos: judeus israelenses e árabes palestinos; cristãos, judeus, muçulmanos, drusos, samaritanos, bahá'ís e pessoas de todas as outras crenças. Foi Deus quem nos colocou aqui. Nós, cristãos, em particular, temos um mandato específico: ser sal e luz onde quer que estejamos."  (IHU)


Em carta ao país, CNBB alerta para riscos da pejotização e defende trabalho digno

 

precarização das relações de trabalho no Brasil foi motivo de forte discussão na 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Além de uma Nota Técnica da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da entidade, os bispos se reuniram com o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, em uma reunião reservada durante o encontro.

A inclusão do tema na Carta aos Brasileiros, tradicional documento emitido sobre o posicionamento da Igreja Católica, sinaliza a preocupação e a prioridade que será dada pelo órgão máximo do catolicismo no país.Divulgada ao fim da Assembleia, realizada de 15 a 24 de abril de 2026, no Santuário Nacional de AparecidaSP, a Mensagem ao Povo Brasileiro reúne as principais preocupações sociais, políticas e éticas dos bispos do Brasil. O documento integra um conjunto de quatro mensagens aprovadas durante o encontro e aborda da violência urbana, o racismo estrutural até a crise climática e os desafios da democracia em ano eleitoralEntre os pontos mais graves apontados pelos bispos está o avanço de um “regime cotidiano de violência” nas periferias e no campo, o crescimento do feminicídio, a perseguição digital à mulheres, e a falta de reparação histórica pelo tráfico de pessoas escravizadasA mensagem também denuncia a corrosão ética na política, os ataques a povos indígenas e comunidades tradicionais, e alerta para os extremos climáticos que atingem biomas como a Amazônia.

O alerta sobre a pejotização

Em meio a um diagnóstico amplo, a questão trabalhista ganhou relevo próprio. A Carta ao Povo Brasileiro expressa a preocupação direta dos bispos com a discussão que está sendo realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre pontos da Reforma Trabalhista de Michel Temer. Em especial, a substituição de contratos regidos pela CLT por vínculos precários de prestação de serviços – o chamado fenômeno da pejotização“Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte”, afirmam os bispos no documento. A Carta também reafirma o direito sagrado ao repouso semanal e a defesa de escalas de trabalho que garantam qualidade de vida e convivência familiar.

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife (PE) e 2º vice-presidente da CNBB, explica que, durante a Assembleia, foram aprovadas quatro mensagens.Uma ao Papa Leão XIV, outra ao Dicastério para os Bispos, a terceira ao povo católico e, por fim, ao Povo Brasileiro, independente de religião.“Essa última é mais complexa e mais ampla”, afirmou Dom Paulo. “Sabemos que o Brasil não é para amadores. Nós tratamos das problemáticas sociais, políticas e econômicas e damos um pouco de assento ao tema das eleições que se aproximam”, registra.O arcebispo ressaltou que a CNBB repete, como já é praxe, o pedido por ética na política.

“Deve-se evitar compra e venda de votos e buscar com critérios éticos objetivos votar em pessoas que de fato possam melhorar o nível ético do nosso país, que se comprometam com a justiça e a paz”, disse o arcebispo. Ele também destacou que a mensagem ao povo brasileiro vai além da esfera meramente católica: “É um momento importante de nós saudarmos o povo para além dos círculos da Igreja.”As assembleias gerais da CNBB são os principais eventos deliberativos da Igreja Católica no Brasil. Reúne bispos de todas as dioceses do país para discutir diretrizes pastorais, analisar a conjuntura nacional e aprovar documentos públicos. Realizada anualmente no Santuário de Aparecida, o encontro tem grande peso simbólico e político, influenciando o debate sobre direitos humanosjustiça social e democracia no Brasil.

Neste ano, os bispos também reafirmaram o compromisso da Igreja com os mais vulneráveis, em sintonia com os 800 anos da morte de São Francisco de Assis.

 

Assassinatos dobram e Amazônia concentra violência no campo, aponta relatório da CPT

violência no campo brasileiro diminuiu em número de registros, mas se intensificou em gravidade em 2025. Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra nesta segunda-feira (27) mostram que o país teve 1.593 conflitos por terra, água e trabalho no ano passado, uma queda de 28% em relação aos 2.207 casos registrados em 2024. O recuo estatístico, porém, veio acompanhado de um agravamento dos episódios mais extremos: os assassinatos em conflitos agrários dobraram, saltando de 13 para 26 vítimas.

Mais da metade dessas mortes ocorreu na Amazônia Legal, que concentrou 16 assassinatos, distribuídos entre ParáRondônia e Amazonas. Segundo o relatório, a região segue como principal fronteira dos conflitos fundiários no país, marcada pela expansão da grilagem, da mineração, do garimpo e do avanço agropecuário sobre terras públicas e territórios coletivos. A CPT identifica nesse cenário a consolidação de um padrão em que crime organizado, agentes privados e fragilidades do Estado se articulam sobre áreas em disputa.

Os conflitos por terra continuaram sendo o núcleo da violência agrária, com 1.286 ocorrências, das quais 1.186 relacionadas diretamente a violência por ocupação e posse, e outras 100 ligadas a ações de resistência, como retomadas, acampamentos e ocupações. Fazendeiros aparecem como principais agentes envolvidos nos assassinatos registrados, relacionados a 20 dos 26 casos, segundo o levantamento. O relatório também aponta crescimento de outras formas de violência frequentemente subnotificadas, como prisões, humilhações, cárcere privado e destruição de bens de comunidades em conflito.

Outro dado que chamou atenção foi o avanço dos casos de trabalho análogo à escravidão no meio rural. Segundo a CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados dessa condição em 2025, em um cenário que conecta exploração laboral e disputa territorial, sobretudo em áreas de expansão da fronteira agrícola e extrativa. Também persistiram conflitos por água, envolvendo comunidades impactadas por barragens, monocultivos, mineração e apropriação privada de recursos hídricos.

Embora o número total de conflitos tenha recuado, o diagnóstico da CPT é de que a violência não diminuiu, apenas se concentrou em menos territórios, com maior intensidade. Em ano marcado pela preparação para a COP30 e pela disputa em torno de agendas sobre terra, clima e infraestrutura, o relatório recoloca a questão agrária como eixo do debate socioambiental brasileiro, com a Amazônia permanecendo como seu ponto mais crítico. (IHU)


Trechos do 'Diário de Jesus' no deserto da Judeia

 

'....Sinto-me totalmente dominado por sentimentos contrastantes. De um lado um inexplicável sentimento de paz que eu não experimentava desde a minha infância, e do outro, permanecem intactas, quase que indeléveis, algumas sombras e dúvidas que venho carregando há bastante tempo... Pergunto-me como isso é possível, após aquele momento único, inesquecível, revelador no Rio Jordão em que me parecia tão real aquela percepção de que algo havia se quebrado dentro de mim. Sim, eu diria que foi uma ruptura com o meu passado um tanto insosso, diria até medíocre. Não escondo: foi um passado carregado certamente de afetos e proximidade com os meus irmãos e os meus pais, mas que vinha me deixando muitas vezes atordoado, inseguro, angustiado, e questionando o tempo todo a mim mesmo e a todos. Não tenho dúvida de que o que senti naquele pedaço de deserto, ouvindo os gritos daquele pregador um tanto desconcertante foi um chamado a rever toda a minha vida, e ainda está viva em mim a sensação de que não foi uma miragem ou uma ilusão, mas que eu devia iniciar um novo itinerário de vida. Foi como se alguém dentro de mim tenha me convencido de que o que havia feito até então não teria acrescentado nada nem a mim e nem ao pessoal da minha aldeia Nazaré. Disse a mim mesmo, naquela ocasião, que, embora sem saber o que queria ser no meu futuro próximo, tinha a plena convicção de que jamais poderia voltar a ser o que eu era antes. Esta foi o que eu considerava ser a minha única certeza no dia em que fui mergulhado nas águas daquele rio sagrado....

Não posso esconder, portanto, que, depois desses momentos exaltantes que limparam aquela neblina interior quase sempre presente na minha vida, não voltaria a sentir quase os mesmos sentimentos de incerteza e de temor. É como se a minha intuição e o meu desejo quisessem iniciar algo inédito, algo que ninguém jamais ousou fazer, mas um outro lado do meu eu me segurava por não ver claro o que, afinal, eu queria...Foi aí que senti mais uma vez uma voz interior que me pressionava a não ter pressa para voltar para Nazaré. Era come se alguém já tivesse predisposto tudo, e eu era incapaz de reagir. Tomei, então, a decisão de me retirar para uma região do deserto que eu considerava propícia para refletir, afastado do convívio humano, numa caverna que, mais tarde vim saber que era utilizada como abrigo por pastores de cabras que raramente passavam por lá. Não posso afirmar que tinha experiência de passar muitos dias longe de casa, imaginemos no deserto, lugar desconhecido para nós do Norte onde há só colinas verdejantes, montanhas, planícies férteis e água em abundância. A minha primeira noite foi mal dormida. Havia um grupo de morcegos que ia e vinha estalando suas asas, sem pensar na possibilidade de pisar à noite em algumas cobras ou aranhas. De manhã acordei pelos raios de um sol que parecia mais uma bola enorme de fogo embora o seu calor não fosse ainda intenso, mas era tão brilhoso que tornava aquele deserto que se perdia no horizonte um imenso mar de ouro e de luz. Deslumbrado com aquela paisagem inédita logo percebi que havia sido transportado numa outra dimensão. Perguntei-me se aquele deserto luminoso e deslumbrante seria o mesmo que estava a possuir o espírito, o interior da maioria da minha nação. Uma população sem esperança, aparentemente conformada e incapaz de reagir, de se unir e se rebelar com a exceção de alguns grupos da minha terrinha da Galileia. 

....O pouco que notei naquelas concentrações à beira do Rio Jordão e que me deixou um tanto entristecido era de que aquelas multidões pareciam como ovelhas de um rebanho sem cuidador, sem pastor. De imediato veio-me espontâneo associar o aparente e infecundo vazio interior que me parecia entranhado na alma do meu povo, com o deserto daquele meu primeiro dia ao sair daquela espelunca, com uma diferença incomparável: o deserto que os meus olhos admiravam e o meu espírito se embevecia era infinitamente mais carregado de luz, de brilho, de sintonia com a natureza do que aquele deserto que parecia-me dominar milhares seres humanos. Será que aquele deserto escondia algo que eu desconhecia, algum segredo, algum passado que poderia torná-lo fértil e voltar a florescer? Óbvio que não estava a pensar naquela extensão de pedregulhos e de paisagens lunares, mas naquele povo sedento de palavras de conforto, de motivações para voltar a crer e a resistir, e que tinha dificuldade de se livrar do deserto estéril que o mantinha imóvel e desnorteado...' 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

MPF obtém condenação de réu por extração ilegal de madeira em terra indígena no Maranhão

 O Ministério Público Federal (MPF) conseguiu a condenação de um homem por envolvimento em um esquema de exploração ilegal de madeira dentro da Terra Indígena (TI) Geralda Toco Preto, em Itaipava do Grajaú (MA). A sentença da Justiça Federal reconheceu a prática dos crimes de desmatamento e furto qualificado de recursos florestais. Segundo a decisão, os crimes ocorreram no contexto de um grupo que articulava a retirada e comercialização de madeira da terra indígena, com participação de indígenas e madeireiros. O documento destaca que o réu é casado com uma liderança indígena e teria usado essa condição para viabilizar o acesso e a exploração da área. A atuação envolvia divisão de tarefas, uso de equipamentos para beneficiamento da madeira e negociação com terceiros, configurando uma cadeia estruturada de exploração econômica ilegal. As investigações tiveram início a partir de um inquérito da Polícia Federal (PF) instaurado para apurar denúncias de desmatamento e extração ilegal na região, especialmente nas aldeias Sibirino e Bonita. A apuração reuniu provas obtidas em diligências, como buscas e apreensões, além da análise de materiais coletados. Laudos periciais confirmaram o desmatamento contínuo entre 2016 e 2023. Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citado na decisão, aponta que a TI Geralda Toco Preto está entre as mais pressionadas por desmatamento no país, ficando atrás apenas de uma área no Mato Grosso. A autoria dos crimes foi comprovada por provas como mensagens extraídas de aparelho celular apreendido, que indicaram a organização da extração, transporte e venda da madeira. Apesar de negar envolvimento, o réu foi apontado como responsável por viabilizar a exploração econômica da área com auxílio de outras pessoas. A sentença reafirmou que a madeira retirada ilegalmente de terras indígenas configura bem da União, o que caracteriza o crime de furto após o corte. O réu foi condenado a seis anos de reclusão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de multa. Os outros acusados respondem em processos separados após o desmembramento da ação penal. Ainda cabe recurso da decisão.

IV domingo de Páscoa - Um pastor se não for bom, não é pastor, é mercenário e manipulador!

Um pastor, mesmo imperfeito, ou é bom no exercício da sua profissão, ou deve ser chamado com outro nome: mercenário, vendido, infiltrado. Não existem ‘maus pastores’, mas ‘aproveitadores, irresponsáveis e manipuladores’ que desvirtuam grotescamente a sua profissão e se tornam indignos de tal nome. Jesus, na versão de João, oferece algumas características para diferenciar um pastor de um mercenário que, aparentemente, exerce a mesma profissão. É próprio de um pastor conhecer as manhas e manias de suas ovelhas; conhecer o seu nome, sua índole, suas qualidades, potencialidades e defeitos; entrar em simbiose com suas ovelhas de forma que elas saibam diferenciar o timbre de sua voz, o seu cheiro, o seu jeito de se aproximar e de cuidar. As ovelhas podem divergir do pastor e ensaiar invadir outras pastagens, mas acabam confiando no pastor e escutando a sua voz porque ele lhes dá provas concretas de que as sabe proteger e cuidar. É próprio de um mercenário infiltrado e disfarçado de pastor utilizar as ovelhas para seus projetos e interesses pessoais. Ele ordena e manda nelas, não conduz e nem educa. Ele pune a rebelde, ameaça e chantageia as demais. Afinal, ele não sente as ovelhas como uma extensão de si mesmo. São mercadoria a ser exploradas e instrumentalizadas. As ovelhas percebem o seu duplo jogo, sórdido e manipulador, cheio de subterfúgios e espertezas. Seu desprezo e seu jeito impessoal. Acabam se dispersando, brigando e disputando entre si. Talvez tenha chegado a hora de as ovelhas se livrarem dos lobos intocáveis que, disfarçadamente, estão no meio delas, que pulam a cerca, mas não entram pela porteira! 


quinta-feira, 16 de abril de 2026

III domingo de Páscoa - É na reprodução das opções de Jesus que descobrimos o pão que sacia os decepcionados!

Desilusões e decepções fazem parte da vida. Às vezes elas nos parecem uma vingança da vida por termos acreditado, idealizado e sonhado demais! Parece que os discípulos de Emaús tenham feito uma experiencia similar! Jesus havia sinalizado algo inédito nas relações sociais de seus contemporâneos. Talvez eles esperassem uma possível ruptura com o passado e com o presente daquela nação. A morte humilhante do líder Jesus parece haver trazido todos os sonhos de mudança à crua realidade. Os discípulos imaginavam que ao se afastarem de Jerusalém iriam esquecer, também, seus sentimentos de decepção. Contudo, na medida em que os dois discípulos se afastam de Jerusalém, adquirem mais lucidez para entender o que lhes havia acontecido. Já não é um exercício de mera recordação, mas um processo de conversão-revelação. Um ressignificar e um reviver de forma intensa, sacramental, gestos, palavras, relações de afeto e de compaixão vivenciados com o crucificado Jesus. Compreendem que, agora, é este o pão que deveria ser partilhado e doado. É reproduzindo as opções e gestos de Jesus que se alimentam esperanças! Não precisava mais se afastar de Jerusalém, mas encarar o lugar da morte-decepção com outros olhos. Descobrir que no lugar da humilhação poderia surgir esperança renovada e vida em abunddância. Só nesses momentos reveladores que ‘os muitos’ discípulos/as decepcionados descobrem que o ‘peregrino’ Jesus sempre havia estado com eles ao longo do seu caminhar. Que Ele nunca havia se afastado deles!



quarta-feira, 15 de abril de 2026

É preciso repensar a atuação do Ministério dos Povos Indígenas. As aldeias continuam largadas e esquecidas!

A ministra do Povos Indígena Sônia Guajajara deixou o ministério para concorrer à sua reeleição como deputada federal, espaço que já era seu por direito, mas que nunca ocupou até o presente momento. Talvez, agora, até o período próprio de plena campanha, venha a exercer o mandato. Seja o que for, haveríamos de nos perguntar se a sua permanência ao longo desses três anos e meio fez a diferença para os povos indígenas do Maranhão. A primeira e instintual resposta é negativa. Algumas melhoras decorreram graças a uma série de decisões federais que independeram do planejamento e das decisões do Ministério dos Povos Indígenas. Certamente, as sedes físicas da FUNAI saíram do abandono a que estavam relegadas no governo passado e o quadro administrativo foi preenchido não por pessoas ligadas aos militares, mas por lideranças ligadas aos movimentos indígenas. Inicialmente, um tanto perdidos e inseguros diante do inédito, esses novos administradores e funcionários indígenas foram conhecendo aos poucos as entranhas e as armadilhas da máquina pública, ensaiando, testando, errando, corrigindo, sobrevivendo. Muitos outros elementos poderiam ser citados para confirmar que não houve imobilismo ou total ausência institucional, contudo, estamos longe de poder afirmar que o então inédito Ministério dos Povos Indígenas criado a seu tempo pelo governo Lula deixou um marco significativo, histórico, ao longo desses anos. Evidentemente, quem trabalha diretamente na máquina pública sabe melhor de quem olha de fora os engodos internos existentes, mas também é verdade que que está na base, nas aldeias, sentem na pele o que significa não ter estradas decentes, transporte, assistência na produção agrícola, artesanal, apoio no monitoramento e defesa dos territórios, fornecimento de água potável, educação escolar indígena de qualidade, assistência sanitária digna e muitos outros serviços que não apareceram ou foram realizados de forma muito precária, de forma que é difícil dizer que o Ministério exerceu uma influência e uma presença positiva junto às aldeias e que significou uma virada histórica. Estamos longe de poder afirmar isso! Acredito, também, que ao não corresponder às expectativas criadas, originalmente, - talvez excessivas, - tenha, ate, originado um certo mal-estar, nada bom em vista do futuro. 

Nesses anos, nas nossas andanças e colaborações com inúmeras comunidades indígenas pudemos constatar o quão longe estão uns dos outros: os funcionários e pensadores de políticas públicas específicas para os povos indígenas e os próprios indígenas que vivem, sobrevivem, lutam e trabalham para sair da...miséria, pelo menos nesse Estado! Foi justamente nesses dias que ouvi um relato de uma amiga que conheceu um alto funcionário da SESAI (Saúde Especial Indígena) do Maranhão em que ele mostrou o seu total desconhecimento da real situação de numerosas aldeias desse mesmo estado em que trabalha há mais de três anos. Ainda há um desencontro histórico e institucional. Não é suficiente colocar indígenas para cuidar de indígenas. É preciso muito mais. Não é questão só de orçamento, nem de eficiência administrativa. É preciso mergulhar nos dramas de famílias, de pais e de jovens produtores indígenas que se sentem abandonados, largados, invisibilizados não somente pelos administradores locais não indígenas, mas também pelos ‘seus’! Isso dói demais!

"O ataque de Trump ao Papa pode marcar o começo do fim para ele". Entrevista com Massimo Faggioli

"Paradoxo histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV. "O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados UnidosLeão o faz não para proteger os interesses da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca", enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.

Eis a entrevista.

Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa Leão?

O estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase CupichRobert McElroy e Joseph Tobin — que também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo, datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto, são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.

 Um dos temas centrais do pontificado desde o início, assim como fora sob o Papa Bergoglio. Por que Trump está intervindo agora?

Francisco não preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano — uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de compreender os Estados UnidosLeão XIV, por outro lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca o início de seu declínio político.

 Sério? Por qual motivo?

O trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita", personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e da inteligência artificial, que estão menos interessados ​​em defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo e seus recursos.

A "tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa, ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.

 Mas será que a decadência de Trump é realmente concebível?

O magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém, violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter sido explorada pelo trumpismo.

 Como alguns católicos em altos cargos de administração, como Vance e Rubio, poderiam reagir?

Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump, sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em 2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa. Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles podem decidir se rebelar. (IHU)