quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O sagrado em tempos de chatbot. Artigo de Antonio Spadaro

O sagrado não desapareceu: mudou de forma, escondeu-se nos circuitos, reemergiu em lugares imprevistos. A tecnologia no nosso tempo não é mais apenas um conjunto de instrumentos. Tornou-se um habitat. Um contexto mental, cultural, até mesmo espiritual. Vivemos em uma ecologia digital que modela os nossos pensamentos, os nossos desejos, as nossas crenças. E, nessa nova ecologia, as religiões – todas – também se encontram em uma encruzilhada. Não basta usar a tecnologia para transmitir uma mensagem: é preciso entendê-la, interpretá-la, discernir o que acontece na alma quando ela passa por uma máquina. 

Durante muito tempo, acreditou-se que a secularização secaria as fontes espirituais da humanidade. O progresso, pensávamos, deixaria os deuses para trás. Mas ocorreu o oposto. A religiosidade não desapareceu: foi reformulada. Longe dos templos, mas dentro dos apps. Nos chats, nos fóruns, nos algoritmos. As religiões, hoje, não devem se defender da tecnologia: devem dialogar com ela, discernir, compreender. Não para se adaptarem, mas para conservarem aquilo que foge do cálculo: o mistério, a gratuidade, o perdão. Poderíamos imaginar uma espécie de Sínodo Inter-Religioso da Inteligência, que, aliás, parece urgente. Não só para discutir temas religiosos, mas também para abordar juntos – cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, hindus... – as grandes questões do nosso tempo. Aquelas que nenhum algoritmo jamais poderá resolver: o que é o humano? O que é a dor? O que é a esperança? Em janeiro de 2025, o documento vaticano Antiqua et nova abordou essas interrogações. O verdadeiro risco, defende, não é a divinização da IA, mas sim a idolatria do humano que se ajoelha diante de sua própria criatura. Por isso, é preciso uma teologia que entre nessa nova fase da cultura não com medo, mas com sabedoria. Uma teologia que reconheça a opacidade crescente das fronteiras do humano e saiba conservá-las. No tempo dos chatbots e dos conselhos preditivos, talvez a fé continue sendo o último lugar no qual a pergunta é mais importante do que a resposta. 

Uma pergunta que não busca eficiência, mas sim profundidade. Que não pode ser otimizada, mas apenas habitada. Cada religião, a seu modo, conserva uma antropologia complexa: o ser humano como consciência encarnada, como ser desejante, vulnerável, relacional. A espiritualidade, em cada uma de suas manifestações, é uma forma de inteligência que não pode ser reduzida a código: integra pensamento e silêncio, lógica e emoção, símbolo e corpo. Nenhuma máquina, por mais refinada que seja, pode conter essa complexidade. A tarefa, hoje, é comum. Não pertence a uma única fé. Todas as religiões são chamadas a formar uma nova aliança espiritual. Não para se fundirem em uma união global indistinta, mas para afirmarem juntas que o humano não é uma função, que a verdade não é um output, que a salvação não pode ser baixada com um clique. A fé é a arte de escutar o que nenhuma máquina jamais poderá pronunciar. E talvez justamente por isso, no tempo das inteligências artificiais, ainda tenhamos uma necessidade tão desesperada de espiritualidade.

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