quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Uma carta aberta que jamais devia ter sido escrita

Titubeei bastante antes de escrever esta carta despretensiosa, mas que, certamente, será considerada por muitos de vocês um tanto inconveniente; não tanto pelo seu conteúdo, quanto por utilizar esse meio de comunicação que, diga-se de passagem, está ao alcance de todos, mas que não me parece ser aproveitado adequadamente para expor pensamentos, opiniões, sugestões...Com efeito, acreditam alguns de vocês que 'essas coisas' deveriam ser ditas e debatidas somente no espaço físico-formal de uma assembleia provincial ou de uma reunião de algum secretariado, e com a presença física. Só assim haveria plena legitimidade para dizer o que aqui se diz! De qualquer forma, num regime de quase plena liberdade de expressão e veiculação coloco sem inibições e sem temores das já conhecidas reações de vários de vocês, como eu vejo o momento atual da Província. Caberá à sabedoria ou a indiferença de cada um fazer tesouro ou descartar/ignorar os ‘delírios’ aqui expostos...

    Em primeiro lugar constato que estamos a viver um período marcado por uma forte sensação de desnorteamento que, aparentemente, não possui causas de fácil identificação. No meio do turbilhão, também não há como determinar responsabilidades, uma vez que todos nós estamos sendo arrastados por uma espécie de maré incontrolável. Além do mais, o objetivo desta carta não visa malhar um possível e hipotético ‘Judas’, uma vez que este está em todos nós: ‘quem não tiver pecado jogue a primeira pedra’, dizia o Mestre. Caso haja uma velada presunção na carta, esta visa tão somente provocar o debate que, - dada a minha deformação profissional, - dificilmente ocorrerá, inclusive naqueles espaços formais que alguns apontam como sendo os únicos ‘adequados e próprios para esse tipo de colocações’.  Ao mesmo tempo, o escrito pode ser uma oportunidade para favorecer uma tentativa de reflexão e contribuir na sistematização e socialização de angústias e preocupações, compartilhando percepções, pontos de vista, interpretações.  Faço isso ciente de que, nestes tempos, é mais fácil dizer ‘o que não somos e o que não queremos’ do que identificar/delinear o que somos e o que queremos.

Como frisei, em que pesem a falta de clareza e as disseminadas angústias, - pelo menos a partir da minha percepção e pelo testemunho de alguns de vocês, - acho oportuno e imperioso socializar sentimentos, percepções, temores, ainda que não abunde as intuições. Dependendo do grau de empatia de cada um, considero possível distinguir o que seria central/prioritário e o que seria periférico, o que seria pertinente e o que seria desviante, o que me parece coerente e o que definimos, formalmente, incoerente. Em suma, tentar, de forma ousada e sem muitos idealismos e malabarismos, apanhar, caracterizar e melhor compreender alguns processos que, a meu ver, estariam minando, enfraquecendo e, de certa forma, pulverizando os esforços direcionados à construção de um projeto coletivo de província. As relações entre o “coletivo” e o “individual” sempre foram permeadas por conflitos, tensões e contradições. Neste momento, contudo, parece-me prevalecer, de forma um tanto avassaladora, as visões, os projetos e as metodologias individuais. A valorização da pessoa parece consistir no projeto pessoal que ela consegue traçar e implementar. 

    Em segundo lugar, preocupa-me a carência, senão a ausência, de reflexão, aprimoramento, desconstrução, reformulação, de uma maneira sistemática e crítica, das escolhas/prioridades feitas que, diga-se de passagem, estão registradas em nossos documentos. Parecem funcionar como guarda-chuvas: protegem, amparam e justificam as opções/projetos de cada um. O material comunicativo que circula entre nós tem mais um caráter informativo, celebrativo, e até jocoso, do que propriamente analítico e propositivo, talvez por se 'reservar a debater somente na assembleia provincial...'. Importa registrar que, se de um lado, falta uma instância incentivadora, motivadora e estimuladora que propicie a socialização das experiências das comunidades, do outro, parece-me estar escasseando, progressivamente, as motivações pessoais e a capacidade de expor criticamente o que fazemos, o que sentimos, como avaliamos e quais são os nossos sonhos. Todos pertencemos a uma comunidade, mas, na realidade, não sabemos o que as outras comunidades fazem, de fato, como se sentem, quais os desafios e angustias, quais, também, as perspectivas. Mergulhamos numa espécie de letargia intelectual/reflexiva e numa atitude morna, indefinida, um tanto apática. Fique claro: não estou a afirmar que as pessoas não trabalham. Estou a dizer que não percebo, desde o meu ponto de vista, uma reflexão sistemática das nossas práticas. A impressão é de que todos nós fazemos de tudo um pouco, fazemos de qualquer jeito e sem preocupação sobre o que tudo isso estaria gerando ou deixando de gerar. 

    Não é difícil constatar a escassez de conteúdos e de testemunhos consistentes contida nas atas do CP, no sito Comboniano, nos grupos de WhatsApp, nas próprias assembleias ou nas articulações provinciais. Para ser mais específico: qual foi a última reflexão realizada, por exemplo, sobre a nossa atuação-inserção no mundo sociocultural dos afro-brasileiros, a não ser um recente vídeo que parecia 'encomendado' auto-elogiando 'os próprios combonianos' por serem os protagonistas em despertar uma 'nova consciência' nos jovens negros de Salvador? Não é somente saber o que foi feito ao longo desses anos, mas compartilhar intuições, evoluções, metodologias e perspectivas, hoje, no atual contexto eclesial, provincial, cultural. É desde a longínqua época de Heitor Frisotti que não vemos/lemos nada a esse respeito nessa dimensão! O que dizer, por exemplo, sobre a nossa atuação juntos aos assim chamados ‘ribeirinhos’? Nunca vi um relatório, um informe, ou uma reflexão minimamente sistematizada a esse respeito. Saber, por exemplo, como se dá o trabalho pastoral, qual a realidade sociocultural e econômica daquelas comunidades, o que vem produzindo, de fato, quais perspectivas de continuidade ou de entrega, quais desafios e aportes para a Província como um todo? Diga-se o mesmo quanto à questão indígena ou socioambiental ou das periferias urbanas, nas diferentes localidades, só para permanecermos nas assim chamadas prioridades. Faltou convite e incentivo por parte da coordenação? Faltou interesse e desejo pessoal em pensar e refletir comunitariamente? Faltou cobrança por parte do grupo? Como possuir elementos avaliativos e programáticos nos momentos cruciais de tomada de decisão se não possuímos informações, explanações, análises críticas do que fazemos e pensamos? Ou será que tudo isso foi exposto somente em assembleia, mas não relatado em atas e divulgado?  Seria interessante também fazermos uma avaliação, serena e profunda, da utilização das redes de comunicação que dispomos. Tornaram-se espaços de informação e comunicação mais do que formação/reflexão. Muitas, senão a maior parte, das coisas que lá circulam, ou já são do conhecimento de quem está preocupado com as mesmas questões ou são do interesse exclusivo de quem as posta. Bombardeados por uma infinidade de informações/indicações que, muitas vezes, visam formatar mentes e almas, precisamos focar no que é essencial/primordial para a nossa missão, a vida dos povos e a unidade/comunhão do grupo. Um bom artigo, um texto analítico que nos ajude a pensar, rever nossas concepções e visões do mundo a colocar em discussão as nossas ações dificilmente é visto nos nossos meio de comunicação. Talvez seja o que precisamos, mas..... 

    Em terceiro lugar, sinto-me com coragem de colocar outra questão que merece registro e tem a ver com a emergência de um latente e progressivo conflito geracional e cultural. Ainda que não se apresente de maneira explícita/contundente e haja certo temor/pudor em colocar e abordar o problema, constata-se que interfere, às vezes de forma mascarada e, outras vezes, com mais força e nitidez, nas visões/concepções de missão, do grupo e da forma de ser igreja. Desde o meu ponto de vista há um grupo, relevante, dentro da Província, geralmente catalogado como de segunda ou terceira idade que se moldou no contexto de uma determinada matriz formativa e eclesial; há outro grupo, de geração mais recente, que possui outras sensibilidades e outras preocupações. Não está em causa o suposto desafio de separar uma coisa da outra, o joio do trigo, o bem do mal, o bom do menos bom. Nada disso! Nem comparações caberiam. O que acontece na vida prática é a dificuldade e o desafio de produzir e manter a unidade. Virou chavão falar de “unidade na diversidade” como se fosse uma receita de bolo, uma mágica de quem decora e repete a fala. Na vida real as pessoas querem se sentir contempladas, valorizadas, dignificadas. Por isso, a questão me parece ser estrutural, de grupo e não individual. Como manter a unidade do grupo quando há projetos construídos com base em conteúdos e metodologias não apenas diferentes, mas também antagônicos? A impressão, - oxalá esteja equivocado, - é que essa questão não está sendo colocada ou, quem sabe, esteja sendo escamoteada. As possíveis e desejadas críticas não encontram entre nós o necessário, salutar e fecundo espaço. Medo de que, afinal? É comum ouvir críticas direcionadas a partidos, agremiações, igreja (evangélicas), movimentos, sindicatos, associações, organizações, instâncias e instituições governamentais etc. Reconhecemos que, muitas vezes, desviaram de suas finalidades e, preocupadas com interesses particulares, perderam o rumo ou, quem sabe, acharam outra direção! Data vênia, não estaríamos nós também no mesmo barco, um tanto perdidos? O passado nos honra, mas não podemos viver dele! Também não contribui em nada a nossa insistente autorreferencialidade. Apenas cria falsas expectativas e enche, ilusoriamente, o nosso ego. Desde o meu ponto de vista, a ausência de visão crítica e autocrítica nos coloca numa situação paradoxal. Há, por parte das gerações mais antigas o silêncio incômodo em relação às gerações mais novas. Considera-se que estas representariam, idealmente, o futuro, logo, faz-se necessário preservá-las de determinadas críticas, ainda que se discorde de determinadas posturas. Aflora, consequentemente, um certo abstencionismo e um espírito de renúncia ao princípio do contraditório e à participação do que teria a ver com o futuro. Prefere-se defender e viver no passado. Por outro lado, impregnados de outras sensibilidades, as gerações mais novas do grupo vão ocupando espaços sem, às vezes, ter claro o que pretendem com isso. Ocupam espaços dentro da estrutura da província, às vezes sem ter tido a oportunidade ou a curiosidade de conhecer sua história. 

    Em quarto lugar, as colocações acima delineadas, ainda que de forma sucinta, nos direcionam para outra preocupação: o exercício da coordenação provincial. Faço questão de reiterar, mais uma vez, que não há a mínima pretensão de tecer, aqui, críticas pessoais, individualizadas. Não há como negar as evidências: todos nós vivemos em tempos e contextos determinados e somos condicionados e moldados por específicas formas de organização social, cultural, política, econômica e, por que não, religiosa. Muitas vezes nos vemos na obrigação de cumprir com funções que nos foram atribuídas/delegadas. Aí experimentamos a ambiguidade/dilema de ter que lidar com o institucional e o informal, o coletivo e o pessoal. E, não sejamos ingênuos, o institucional sempre se impõe sobre o pessoal/individual. Isso, contudo, não nos exime das visões críticas e dos esforços para modificar também o que é institucional. Ou seja, não se trata apenas de uma conversão pessoal, mas também estrutural/institucional. É neste sentido que considero legítimo e propositivo externar as minhas angústias ao dizer que tenho a sensação de que a coordenação parece trilhar caminhos próprios, talvez um tanto distantes de um sentir e de um sonhar mais comum. Preocupa-me a progressiva tomada de decisões ignorando o sempre desejável envolvimento do grupo, exceto naqueles casos excepcionais, personalíssimos. É o caso emblemático, por exemplo, do fechamento do postulantado de Curitiba e a sua transferência a Fortaleza, mantendo no escuro a província como um todo. Poder-se-á invocar razões sigilosas para não constranger determinados confrades supostamente envolvidos nesses processos. Entretanto, a minha insignificante experiência e o bom senso me sugerem que, com inteligência e discrição, é sempre melhor 'abrir o jogo', mas jamais tomar decisões de tamanha envergadura sem deixar um tempo útil para os membros da província opinarem. Deu no que deu, deixando feridas abertas e mágoas. E até o presente momento a coordenação não se pronunciou a respeito e a maioria não sabe o que aconteceu de fato. Preocupa-me sim, outrossim, aquela que, aparentemente, se configuraria como uma tendência da coordenação provincial em pressionar mais através de escritos do que através do diálogo franco e aberto, olhos nos olhos. Talvez seja o caso de dialogar mais e buscar caminhos e formas de renovarmos a presença missionária comunitária em contextos específicos e diferenciados do que insistir tanto na tradicional convivência conventual que continua sendo uma espécie de obsessão.     Continua-se a exercer o serviço da província nos mesmos moldes de um passado remoto. Pode acontecer que os conselheiros nem conheçam os confrades que, teoricamente, são chamados a representar. Haveria o receio, talvez, de usurpar competências alheias? Ou talvez os confrades prefiram negociar diretamente com a figura do provincial? Realmente, pouco avançamos neste sentido. O provincial tem que lidar com conselheiros que ele não escolheu e os que foram votados como conselheiros parecem não possuírem legitimidade com aqueles que os escolheram, e tampouco com o seu coordenador, que também não os escolheu. Acredito que, ao incentivar concretamente todas as possíveis formas de participação, mesmo sabendo que sempre poderá haver aquele que não valorizará isso, certamente haverá também aquele que não dispensará sugestões, conselhos, correções. Isto exige humildade, caso contrário assistiremos sempre mais a publicações de cartas destemperadas, escrachando publicamente determinadas pessoas e realidades conflituosas particulares mantidas em segredo, ou a desabafos clandestinos em boca pequena permitindo, contudo, que se tenha a ilusão de que 'está tudo muito bem, obrigado'. Sabemos que isso não bate com a dura realidade!  Em nada servirá desafiar e exigir aos que assim se manifestarem, como é o meu caso, que apontem saídas ou indiquem fórmulas milagrosas. Sabemos que é no cotidiano feito de pequenas partilhas, de confrontações sinceras e responsáveis, de capacidade de acolher as críticas recíprocas não como formas de destruição, e sim como ajustes ou redirecionamento do rumo que construiremos o presente e o futuro. Afinal, estamos todos no mesmo barco e precisamos nos questionar, dialogar, nos afinar e ... remar. “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade” (Raul Seixas).

    Angustia-me a sensação de que, ao não existir o reconhecimento público das tensões e conflitos que existem entre nós, estaríamos envoltos num clima de ‘serenidade e fraternidade’. É o que sempre aparece nas nossas avaliações de fim-de-assembleia! Se for essa a lógica prevalecente, o mascaramento da realidade, de fato, não teremos como reconhecer e enfrentar um certo mal-estar difuso que, a meu ver, muitos sentem, mas poucos explicitam. Tenho a sensação de que o que se fala ou se escreve não encontra eco nas instâncias de coordenação. Não é a primeira vez, por exemplo, que se sugerem caminhos, propostas, dicas, relativamente novos. Demasiadamente idealistas e pouco realistas como alguns afirmaram? Dizíamos, por exemplo, que era necessário e urgente repensar a etapa do postulantado e até do escolasticado, pelo menos aqui, no nosso grupo. E foram oferecidas, em epoca de pandemia, propostas concretas. Preferiu-se manter o mesmo estilo e metodologia de 40 anos atrás, mesmo tendo um ou dois postulantes, (e agora, nenhum!) sem abrir mão de hábitos petrificados e comprovadamente estéreis. Quantas vezes aos atuais formadores do escolasticado de São Paulo foi sugerido, por exemplo, de propor leituras específicas da realidade sociocultural e eclesial da região onde os escolásticos iriam passar o período do recesso escolar – algo em vigor desde os anos 80 sem nenhuma mudança! – mas, diferentemente disso, salvo raras exceções, os escolásticos pisam nas nossas comunidades ignorando/desconhecendo a realidade, “e tudo segue dramaticamente igual, sem falar de outras questões a essas relacionadas que não vale a pena colocar nesse espaço.

    Falamos em ‘paróquias combonianas’, e existem documentos que sacralizam os critérios para tal definição. Em muitos casos, contudo, elas não se diferenciam de outras não combonianas. Afinal, entra conselho e sai conselho e a ‘paróquia comboniana’ depende exclusivamente do ‘pároco nomeado’, pois não existe nem internamente e nem por ocasião das visitas do provincial, a prática da avaliação e da confrontação utilizando os critérios definidores de uma paróquia comboniana. Anos atrás foram criados os JECs como uma forma de nova animação missionária e vocacional, mas alguém sabe como estão sendo conduzidos? Qual balanço após tantos anos? Quais conteúdos, quais pessoas, quais frutos, quais perspectivas? Estamos às vésperas de um congresso nacional de Jovens Combonianos que, sem dúvida, consumirá energias e recursos, mas poucos se expõem para fazer legítimas indagações. Não se trata de desmontar, de antemão, propostas novas ou supostamente tais, trata-se de ter a coragem de avaliar a partir de critérios coerentes e racionais para verificar se vale a pena continuar ou parar, ou reinventar! 

Evidente que diante dessas considerações vai passar pelo pensamento dos 'inconformados' a ideia de que 'eles estão sobrando' e que, talvez, seja conveniente em 'pedir para sair' para não ameaçar ou romper o clima de serenidade e fraternidade existente. Da mesma forma, é o que se passa pela cabeça daqueles missionários que já trabalharam na província e que, agora, se encontram na sua província radical, sobre a conveniência em voltar para cá ou permanecer lá! Seja o que for, alguém dirá que nós somos guiados pelo Espírito, e não estamos sozinhos nessa história! Assim seja! 

Piquiá, 20 de agosto, 2025



 


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