terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A terra dos Gavião/Pukobyê:entre mentiras e manipulações

Há metidos a ‘experts’ que acham que sabem tudo sobre tudo. Vendem versões e números como se fossem chuchu que eles mesmos plantam no quintal da sua casa. Sabem que por trás de números têm realidades, pessoas, tendências. Mas o seu propósito é somente ‘comprovar’ aritmeticamente a sua própria verdade. Os seus interesses. Mas, afinal, números, são ....números que expressam dados consolidados e irrefutáveis. A esses números nós queremos dirigir o nosso olhar e a nossa razão.

Estou me referindo especificamente à questão da nova demarcação da terra Governador do povo Gavião/Pukobyê, Amarante, Maranhão, e que a revista Veja de algumas semanas atrás abordou com a irresponsabilidade que lhe é costumeira. Vários jornalistas locais metidos a pseudo-analistas deram uma ampla cobertura à exposição das argumentações - nada civilizadas - que a revistas divulgou a nível nacional. Os ‘ventríloquos’ locais reproduziram as pérolas que a Veja desfilava sem sequer verificar se o que era divulgado correspondia minimamente à lógica e aos...números reais.

Lê-se na Veja, por exemplo, que os Gavião não passam de 500, mas são cerca de 1.000 (Funai 2009). Diz-se que são 3 aldeias, mas são 6 (Funai 2009). Pior: afirma-se que a nova terra elevaria para 75% a área ocupada pelos indígenas dentro do território municipal. Ora, ora, ora....a superfície de Amarante é de 7.669,090 km quadrados (IBGE 2010). Ou seja, mais de 766 mil hectares de terra. Esse é um dado inconteste e consolidado. Atualmente a terra Governador dos Pukobyê que é de 42.054,73 ha. e ocupa, portanto, pouco mais de 5% (cinco por cento) do território de Amarante. Mesmo com a sua ampliação – cujo tamanho ainda não é previsto – mas é calculado por alguns em cerca de 150 a 200 mil, a superfície que as terras indígenas ocupariam dentro do município não passaria de 25% (25 por cento). Estamos bem longe dos 75% propagados pela revista Veja e pelos pecuaristas da região, segundo os quais, ao se concretizar a ampliação, inviabilizaria a economia local. Argumentação arcaica utilizada por outros colegas de ofício (leia-se os de Zé Doca a respeito da terra Awá-Guajá) Sem falar, naturalmente, no fato que os critérios a serem adotados, - e sobre os quais a Funai se baseia, - não são nem aritméticos e nem conjunturais, e sim historiográficos e antropológicos, definidos em legislação específica. Ou seja, nada contra a lei!

Agora, contemplem alguns números que o próprio IBGE escancara: em 2006 a área dos estabelecimentos agropecuários em Amarante era de 159.278 hectares. Atualmente deve ter aumentado significativamente. Mais: 99.726 hectares eram ocupados por diferentes pastagens (plantadas, naturais, degradadas, boas, etc.) Deve ser muito mais agora. Não é engraçado tudo isso? Para defender uma ampliação de terra que afinal fica com a UNIÃO, patrimônio comum, – embora usada por indígenas – todos se levantam e esperneiam. Para condenar boi e dono de boi que ocupa sempre mais terras agricultáveis que poderiam ser distribuídas de forma mais racional para quem precisa realmente de terra, todos calam. Será que errei de País? Amarante virou Índia? Passou por lá algum hinduísta proclamando a ‘santidade das vacas’?

Entrevista com Jon Sobrino: 'Jesus incomoda'!

Contam-me – de brincadeira – que o senhor está cansado do mundo e também lhe ouvi dizer mais de uma vez que o senhor quer poder viver sem sentir vergonha do ser humano. Qual é a razão?

Às vezes, eu sinto vergonha. Por exemplo, interessamo-nos de verdade pelo Haiti? Obviamente, ele levantou interesse no começo e teve algumas respostas sérias. Mas passa um tempo e já não importa... Outro exemplo que contei outras vezes: em um jogo de futebol de equipes de elite jogando a Champions [League], calculei que, no campo, entre 22 jogadores, havia duas vezes o orçamento do Chade... Isso me enoja e me envergonha. Algo muito profundo tem que mudar neste mundo...

Para onde o neoliberalismo e a globalização nos levam?

Acredito que o chamado Primeiro Mundo – uma quarta parte da humanidade – continua pondo o sentido da história na acumulação e no desfrute que a acumulação permite. A diversão, por exemplo, é uma megaindústria multinacional: o esporte de elite, o turismo... É "civilização do capital", que produz uma sociedade gravemente enferma, em transe fatídico e fatal.

Ao cidadão médio do mundo desenvolvido corresponde alguma responsabilidade da pobreza, da opressão ou das guerras que assolam o planeta?

Objetivamente, sim. Quem declara as grandes guerras? Os governos, movidos por oligarquias, mas eleitos pelos cidadãos. Quando os governos oferecem guerra diretamente, alguns os elegem e outros não. Mas eu não ouço que um governante ofereça que se viva pior, que se desça para que outros muitos possam subir um pouco. Nesse sentido, objetivamente somos corresponsáveis. O mundo se divide entre oprimidos e opressores. Não é preciso enrolar muito...

A Congregação para a Doutrina da Fé emitiu em 2006 uma notificação

na qual afirma que o senhor falsifica a figura do Jesus histórico ao destacar muito a sua humanidade em detrimento da sua divindade. É o argumento da velha heresia...

O que eu digo é que, na realidade humana de Jesus de Nazaré, Deus se fez presente. Mas me dizem que não chego a dizer de verdade quem é Deus e que eu falo de Jesus de Nazaré muito concretamente e até que o converto em político, e isso, em geral, não costuma agradar às autoridades das cúrias romanas e também diocesanas. Ocorreu com vários teólogos. No meu caso, começou em 1976. Na "Notificatio", disseram que dois livros meus continham afirmações errôneas e perigosas. Antes, eu os havia dado para que sete teólogos sérios os lessem, e nenhum me disse que havia algum problema de possibilidade de heresia... Penso que Jesus de Nazaré sempre incomoda. Deus incomoda menos, porque é tão intocável, tão impalpável... Penso que, na Igreja, temos uma tendência a nos distanciarmos de Jesus de Nazaré. Não quer dizer que não falemos de Cristo, mas Cristo é "o ungido", um adjetivo. Creio que o mais perigoso é ignorar que Jesus não simplesmente morreu, mas que o executaram. E o mataram porque enfrentou o poder dos sumos sacerdotes e, indiretamente, o poder romano. Evidentemente, Jesus não fez só isso. Pregou coisas belíssimas e dificilíssimas: as bem-aventuranças, a misericórdia com as pessoas, a oração ao Pai. Dá gosto de ver Jesus, mas também é coisa séria, e, se alguém quer seguir o caminho de Jesus, vai lhe custar. Por isso, penso que, em conjunto, a Igreja também costuma se distanciar dele para que não incomode. Mas, graças a Deus, há pessoas e grupos aos quais Jesus lhes atrai. Vi isso no El Salvador, principalmente entre os pobres e aqueles que os defendem. (Fonte: IHU)


domingo, 19 de dezembro de 2010

Comissão visita Guajajara na cadeia. Permanecem presos e juiz ainda não finalizou o inquérito.

Uma comissão ligada aos direitos humanos visitou dias atrás os indígenas do povo Guajajara envolvidos no bloqueio da BR na terra indígena Canabrava. Eles permanecem presos em Presidente Dutra. Eis, uma breve síntese do relato que nos enviaram.

'....José é o mais debilitado. O tiro na cabeça afetou os reflexos do lado esquerdo; quase não movimenta a perna, e não mexe nada com o braço esquerdo. A esposa está lá para auxiliá-lo. A memória não foi afetada, lembra tudo. É muito magro e sente dores de cabeça. Douglas foi atingido na perna, quebrou o osso, usa pinos. Quanto a Eliseu, o mais velho, o tiro atingiu a barriga, mas não perfurou nenhum órgão vital. O Rogério, o mais falador e desinibido, foi atingido no braço e a bala foi parar próximo ao rim esquerdo. Fez cirurgia e sente dores na região da barriga. Eles passam o dia sob as árvores no pátio da delegacia. Um voluntário da cidade colocou os escapes para eles. À noite são recolhidos no corredor da carceragem. Recebem o mesmo alimento que os demais presos. Dizem que estão sendo bem tratados pelo delegado e os demais agentes. Apenas o delegado Beethoven de S. Luís usou palavras grosseiras e ofensivas contra eles. O delegado, dr. Taveira é muito atencioso, calmo. Perguntamos por que estão presos, pois quem garante que foram os 4, ou um deles que atiraram no delegado (se houve apenas um tiro de espingarda, e uma parte de dedo decepada). E os demais manifestantes estão soltos, e eles foram atingidos pelo delegado... Na opinião dele a prisão dos índios é mais política que penal... Continuam reclusos para a polícia mostrar à sociedade e para os índios que está fazendo alguma coisa, que índio não fica impune, que existe uma ordem. Enfim.... para calar a boca de todas as partes... Ele acha que deveriam ser soltos.  Disse ainda que ele está pisando em ovos, pois estão presos do lado de fora do cárcere o que não poderia ser. Os outros presos já estão demonstrando insatisfação pelo "privilégio" dos índios, mas considera que se forem colocados juntos dos demais, a outra parte da sociedade vai tachá-lo de desumano, pois estão feridos e deveriam estar num outro lugar e não numa cadeia. O delgado terminou expressando desaprovação total quanto à atitude do delegado Cavalcante envolvido no episódio. Disse que a soltura dependia do juiz de Grajaú e que ele tinha 10 dias para concluir o inquérito. Naquele dia já fazia um mês da prisão....'

Alguém foi atrás do delegado para esclarecer a barbaridade que fez, e tirar as dúvidas de um número crescente de pessoas, inclusive colegas dele? Será que vão abrir sindicância interna para livrá-lo, pelo menos, dos graves indícios (mais do que isso) de abuso de poder e tentativa múltipla de homicídio?...Ou é melhor deixar como está para não ressuscitar a 'irresponsabilidade do policial'?

Do amor entre os humanos brota o divino! (Mt. 1,18-24)


Narrações épicas de nascimentos espetaculares, entrelaçadas por mitos originais ou emprestados, diálogos e cruzamentos entre humanos e deuses, - confundindo o humano com o divino, - estão na base, muitas vezes, do surgimento de inúmeras religiões. Não assim acontece com a irrupção do ‘divino’ Jesus na história. Na versão de Mateus, a concepção e o nascimento do ‘humano’ Jesus deixam pouco espaço a mitos, a narrações épicas, a uniões elitizadas entre deuses e deusas. Tudo ocorre entre as quatro paredes de um templo familiar. Entre uma jovem mulher e um homem que, coincidentemente, possui o mesmo nome que o nascituro: José/Jesus. Sem intervenções de sacerdotes ou outros mediadores do sagrado. Numa aldeia ‘insignificante’ do ‘mapa mundi’ do império romano. Ou seja, parece ser a história da concepção de um ser comum. Nada que chame a atenção. Mas não é, tampouco, a narração de um mero evento biológico entre dois seres vivos....

Jesus é concebido como fruto da compreensão, do respeito e da delicadeza recíprocos entre esses dois seres humanos com consciência histórica. Entre dois anônimos cidadãos da ‘Galiléia das nações’, mas com identidade clara. Não há qualquer diálogo entre Maria e José. Parece que eles já sabem como devem agir, mas sem ser subservientes a um imperativo externo. Sem trair as suas percepções e sensibilidades pessoais chegam a intuir e a aceitar a missão a que são chamados, embora sem compreendê-la plenamente. Percebem que é algo maior do que o seu projeto pessoal. É o ‘anjo da consciência’ dos dois, o sentido de responsabilidade de um para com o outro, - e dos dois para com a humanidade - que permite que um novo humano tome corpo dentro e dentre eles. Para que este manifeste o divino que está neles e em cada humano.

É uma radical inversão. O divino brota, e se torna compreensível e manifesto só mediante os humanos. Humanos, porém, que possuem a consciência de que podem ser instrumentos de ‘humanização’ para outros humanos que esquecem ou negam o divino que está neles. Maria e José representam simbolicamente os humanos que se situam de forma responsável nas dinâmicas da história. Símbolos de quantos não apelam para o divino para negar o humano que está em cada ser vivo. Que não usam os ‘seres divinos’ para justificar a alienação dos humanos, a sua falta de compromisso com o mundo. Que não fazem do culto aos ‘divinos’ uma forma para escamotear o verdadeiro culto que deve ser prestado aos humanos em sua permanente procura de vida/salvação. Que procuram sentir dentro deles que, afinal, são ou podem ser...’EMANUEL’!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Sinais! Quais sinais? (Mt. 11,2-11)

Jesus inicia uma nova época. Um tempo longamente esperado pelos ‘pequeninos’ de Israel. Para Jesus, Deus já começou a governar em favor das ‘ovelhas perdidas da ‘casa de Israel’. Para Ele, o próprio Deus está desbancando e desautorizando os falsos pastores e os incompetentes administradores ‘desse mundo’. Eles não vinham demonstrando compaixão e estavam sendo incapazes de garantir paz e justiça aos pequenos de Israel. Jesus, porém, não somente proclama a nova era, mas oferece sinais concretos de que uma nova prática havia iniciado. Ele prova com gestos tangíveis que a nova soberania de Deus havia iniciado, definitivamente, com Ele.....

Com efeito, depois de séculos em que os pequenos não eram enxergados, Deus, através de Jesus, abre os olhos da humanidade para que tome consciência da sua existência. Os próprios pequenos, através dos gestos de compaixão de Jesus, começam a enxergar o seu próprio valor, a sacralidade da sua dignidade. Os que viviam paralisados pelo trauma de tantos complexos de culpa, imobilizados pela humilhação e pela discriminação social e religiosa, com a acolhida misericordiosa oferecida por Jesus começam a caminhar. Ousam avançar. Superam medos e traumas do passado. Os rejeitados, os impuros de ‘pele e de rito’ começam a se sentir incluídos no reino onde os preconceitos são definitivamente banidos. Os que nunca foram educados a ouvir a palavra da vida, a estar atentos ao grito dos sofredores e ao clamor da mãe terra, afinam, enfim, os seus ouvidos Escutam o Deus que fala a nova linguagem da misericórdia. Em Jesus de Nazaré, os desesperados, os que haviam perdido todo o sentido de sua existência, os ‘mortos ambulantes’ recuperam a vontade de viver, de lutar, de amar e sorrir. E, finalmente, os pobres, os despossuídos da história recebem a ‘boa nova’ de que eles, na nova realeza de Deus, são maiores do que todos os profetas. Inclusive, maiores do que João Batista.

Há uma evidente polêmica subjacente ao texto evangélico hodierno. Uma espécie de rivalidade entre o grupo de Jesus e o grupo de João. Jesus, ex-discípulo de João, reconhece de um lado a grandeza da profecia de João. Do outro Jesus percebe que a profecia, agora, exigia escolhas mais ousadas, práticas mais corajosas. Não era suficiente denunciar. Nem permanecer num templo frio e sem vida. Havia acabado a época dos sacrifícios e holocaustos que cooptavam a benevolência divina. Era preciso construir e reinventar formas alternativas de coexistência humana. Práticas sociais e religiosas novas. A mera ameaça de um Deus purificador e vingador feita por João não encontra eco na sensibilidade e visão de Jesus. É justamente na crise profunda em que Israel estava mergulhado que para Jesus despontava uma oportunidade única de ‘refundação’.
Esse processo de reconstrução nacional e moral passava necessariamente pelo reconhecimento do protagonismo/existência dos ‘menores’. Na realeza de Deus inaugurada por Jesus ‘os menores’ são reconhecidos formalmente como os ‘maiores’ competentes para governar da forma que Deus quer. Na igreja de Jesus de Nazaré, eles ainda não ocupam o espaço que lhe foi reservado pelo Mestre da Galileia. Os sinais oferecidos estão longe de provar que aos pequenos/pobres pertence o ‘reino de Deus’!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Deus começou a administrar. O futuro é agora! (Mt. 3,1-12)


Israel havia se tornado um deserto. O coração das pessoas estava estéril. Incapaz de produzir frutos de justiça e transformação. Era preciso transformá-lo num espaço de renovação ousada. Cada pessoa devia ‘arrepender-se’ de seus pecados, os que produziam morte e esterilidade. João que profetiza no deserto quer se tornar o instrumento facilitador de Deus. Um homem despido das roupas dos que viviam armando morte e destruição nas grandes cidades denuncia no deserto que era preciso descobrir e encarar o deserto que estava dentro de cada um. O deserto que dominava e ameaçava a vida de multidões.

João acreditava que era possível reverter a tendência de morte e esterilidade. Mas era preciso que as pessoas mudassem suas opções de vida. Suas atitudes. Suas concepções. Suas formas de consciência distorcida segundo a qual muitos pensavam que era suficiente considerar-se ‘filhos de Abraão’ para possuir a salvação. A salvação, o ‘deserto transformado’, para João, torna-se uma realidade ao alcance de todos só mediante gestos e ações concretas impregnadas de fraternidade e justiça. Isso, contudo, implica despir-se de toda hipocrisia e falsidade. De toda arrogância. De toda falsa segurança. De todo ‘privilégio religioso’ adquirido. Deixar-se batizar por João significa aceitar a lógica e a prática apontadas por ele. Só assim o batismo-compromisso se torna sinal-sacramento. Para evitar que seja uma das muitas formalidades religiosas judaicas, os que entram na fila no Jordão devem assumir o ‘credo/apelo’ de João!

O Deus de João não é o Deus de Jesus. É um Deus que cobra. Que monitora e pune. Que não dá novas chances. O reino Dele chegou e não há mais tempo a perder. Ou a mudança se dá agora, ou nunca mais. Porque agora se joga o futuro de Israel/humanidade! O Deus de Jesus é graça, perdão e compaixão. Um Deus que dá novas chances, oportunidades inéditas. Mas é preciso compreender que não se pode desperdiçar o momento presente. O Reino chegou. Agora é o futuro!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Awá-Guajá saem à procura de ...salvação!


"No Maranhão, já tentamos resolver esse problema, mas não adiantou. Por isso viemos a Brasília! Estamos pedindo socorro para que o senhor olhe o nosso documento primeiro!", pediu Itaxi Awá, ao desembargador do TRF1, Jirair Meguerian. Os 10 Awá Guajá que foram a Brasília destacaram a importância do rápido julgamento de uma dezena de apelações que atravancam a finalização do processo de demarcação das terras do povo. Esta é uma das 11 apelações, contra a sentença do juiz José Carlos Madeira, em que determinou que a União efetue a demarcação de acordo com os termos da Portaria nº 373/92 e do laudo antropológico elaborado pela perita oficial em antropologia Eliane Cantarino O’Dwyer (Universidade Federal Fluminense), procedendo também a homologação e registro imobiliário da área, que fica nos municípios de Zé Doca e São João do Caru (MA). Meguerian afirmou que deve tomar as medidas cabíveis assim que o MPF fizer suas apreciações. Os Awá ficaram satisfeitos com a visita a Jirair Meguerian.

No MPF

A gama de temas para discussão foi um pouco mais ampla na reunião dos Awá no Ministério Público Federal, neste 1º de dezembro. Coordenada pelo procurador da República no Maranhão, Alexandre Soares, a reunião foi uma oportunidade de os indígenas apresentarem as demandas diretamente aos representantes dos órgãos públicos responsáveis por atendê-las. Vários indígenas falaram o que vem acontecendo em seu território. Mostrando um mapa da região, eles relataram que há madeireiras, serrarias, caçadores e fazendeiros, que os impedem de usar a área para caça. "Já estão criando gado na nossa área, como que a gente fica com nossa terra acabada? Queremos que os invasores sejam retirados!". Os depoimentos eram preocupantes. "Esta terra vai acabar. Onde vamos coletar o mel? Onde vamos criar nossos filhos? Eu tenho medo dos madeireiros e a gente fica preocupado. Como vamos fazer?", afirmavam. Diante dos relatos, o procurador chefe Regional da 1ª Região, Alexandre Camanho, ficou estarrecido e indignado. O procurador garantiu que em uma hora, ele estaria designando um procurador para cuidar pessoalmente do caso e garantiu que a União iria desistir da apelação (nos processos, a União recorre da demarcação das terras por afirmar que o tempo era muito pouco). Ele também se comprometeu a participar no julgamento da corte especial e propôs que em todos os casos, a Funai apresente os documentos necessários. (re-elaboração do relatório do CIMI)