terça-feira, 30 de março de 2010

SEMANA SANTA: SUBIR A JERUSALÉM!

Subir a Jerusalém. Eis o desafio.

Subir a Jerusalém não é resultado de um destino escrito de antemão, mas o desfecho de uma opção de vida. Não uma predeterminação divina, mas conseqüência de escolhas e decisões tomadas ao longo de uma existência.

Subir a Jerusalém representa a situação-limite para qualquer pessoa que descobre que não pode mais voltar atrás. Porque voltar atrás seria trair a si mesmo. Trair as pessoas que se tem amado.

Subir a Jerusalém não é um mero deslocamento geográfico. É encontrar-se com o sentido último da vida: viver ou morrer. Viver, salvando a própria vida, mas perdendo o sentido de tudo o que se fez até então. Morrer, mas encontrando o sentido do sofrer, do lutar, do acreditar, do arriscar-se, do doar-se.

Subir a Jerusalém é acreditar que acolá se faça, enfim, jus ao nome ‘cidade da paz’, embora ao chegar encontre a perseguição, a condenação, a tortura e a cruz.

Subir a Jerusalém é defrontar-se com a cidade que persegue e mata os seus profetas. Os que incomodam os arrogantes, os que sacodem os indiferentes, os que não aceitam as leis escritas nos sinédrios, nas sinagogas e nos templos, em nome do ‘deus nacional’, para escravizar e dominar os filhos e as filhas da terra.

Subir a Jerusalém significa encarar aqueles que nos plenários dos seus Tribunais de Justiça julgam interpretando as leis que eles mesmos fizeram e manipularam. Em suas sentenças hieráticas são vistos como benfeitores da humanidade por livrá-la de impuros, de bandidos e assaltantes. Na realidade, só livram seus pares!

Subir a Jerusalém significa poder olhar fixamente nos olhos os seus próprios crucificadores, sentir compaixão deles, perdoá-los, mas resistindo contra toda cruz que humilha, que subjuga, que arranca espíritos e consciências livres, e faz agonizar toda esperança.

Subir a Jerusalém.....

Subir, enfim, de Jerusalém, e olhá-la de cima, redimida, em paz consigo mesma!

segunda-feira, 29 de março de 2010

PADRES, NEM ANJOS NEM DEMÔNIOS, HUMANOS COMO TODOS

Aqui abaixo transcrevo o artigo que escrevi para o Jornal do Maranhão de fevereiro, da arquidiocese de São Luis. Acredito que diante de tantas denúncias de pedofilia que envergonham a igreja como um todo e que exigem não somente justiça para as vítimas e punição rigorosa para os seus responsáveis é preciso iniciar na igreja mudanças radicais na sua própria estrutura, tais como: fim do celibato obrigatório, formação presbiteral mais inserida na realidade, extinção da Cúria Romana, sacerdócio às mulheres, fim do estado do Vaticano em que o papa volta a ser só pastor 'entre iguais' e não chefe de Estado, entre outras.....
Tradicionalmente, na cultura ocidental de cunho cristão, tem havido uma clara tendência em idealizar sobremaneira a figura do padre. O padre tem sido visto, predominantemente, como uma espécie de santo, mais anjo que homem. Por ser considerado, de forma irreal, ‘um homem de Deus’, raramente o padre tem sido visto na sua plena humanidade, com sentimentos, fragilidades, contradições e imperfeições, como os demais humanos. A própria mídia, ultimamente, está contribuindo para ‘mistificar’ mais ainda os padres, principalmente os que promovem o show do sagrado.
A conseqüência lógica desse modo de encarar o padre tem levado as pessoas a alimentarem expectativas enormes com relação a ele. É bem verdade que quando uma pessoa escolhe de ser padre se compromete formalmente a ser um sinal coerente e fiel do amor respeitoso de Deus, embora isto valha para todo cristão. É também verdade que uma pessoa, antes de ser consagrada padre passa por um longo caminho de formação, discernimento e acompanhamento espiritual até ser considerada definitivamente digna de assumir tal serviço. Em que pese tudo isso, não se pode desconhecer que todo ser humano é um mistério insondável que foge à plena compreensão humana. Também no padre, de fato, se manifestam, irremediavelmente, fragilidades, fortes contradições e até formas inesperadas e desviantes de comportamento. O impacto disso na vida das pessoas é devastador.
O escândalo provocado por padres que agem dessa forma é proporcionalmente mais intenso lá onde existe maior idealização da figura do padre, e onde tem existido uma cultura religiosa fortemente moralista, principalmente com relação à sexualidade. Ao enfatizarmos a fragilidade humana e a situação de pecado a que cada pessoa está sujeita - inclusive o padre, - não quer ser uma forma para justificar aquelas condutas que ofendem ‘o templo de Deus’ que são os filhos e as filhas Dele.
Ao contrário, de um lado se quer reconhecer que padres que cometem tais abusos devem ser punidos como qualquer cidadão, conforme a legislação em vigor; e, do outro lado, reconhecer que o único santo e verdadeiro sacerdote é o Filho Unigênito. Somente Jesus Cristo deverá continuar a ser a nossa autêntica fonte de inspiração, independentemente da santidade ou não de quem O anuncia e O serve.

Papa Bento, a verdade acima de tudo!

A semana santa deste ano vai ter um sabor especial para o papa Bento. Ele se vê sistematicamente crucificado por uma série de insinuações, suposições e ataques diretos à sua atuação com relação às denúncias de pedofilia de um padre que trabalhou na diocese de Mônaco quando ele era bispo. Ele teria aceitado na sua diocese um padre que já havia sido expulso de uma diocese por várias denúncias de pedofilia.
Acusam o então cardeal Ratzinger de não somente ter acolhido o padre, mas de ter-lhe confiado responsabilidades e atividades que o teriam colocado em situações de cometer novamente os crimes pelos quais foi afastado. Como é costume nessas circunstâncias, com o intuito de preservar o papa (então bispo), o vigário geral, colaborador e amigo íntimo do papa até hoje, assumiu sozinho toda a responsabilidade.

Segundo este, o então cardeal Ratzinger não sabia nada do acontecido. Francamente, é muito improvável que isto tenha acontecido. Para quem conhece minimamente as práticas costumeiras que se dão nas cúrias diocesanas, as relações existentes entre bispo/vigário geral/padres, é bem provável que o papa tivesse tido conhecimento desde o início da situação real daquele padre acusado de pedofilia. Foram publicadas, recentemente, em alguns jornais alemães supostas atas de encontros, na época da transferência do padre acusado, em que se faz referência indireta a esse episódio.

Acredito que em lugar de negar peremptoriamente o fato era muito mais compreensível ter afirmado que houve acolhida do padre acusado não para dar-lhe cobertura, mas para tentar oferecer-lhe uma extrema chance de se redimir colocando-o numa comunidade com outros padres que pudessem ajudá-lo. Acredito que muitos pastores agiram dessa forma: tentar ‘salvar’ a qualquer custo um padre, mesmo que isso significasse beirar a cumplicidade. Quero acreditar que esta tenha sido a postura do então cardeal Ratzinger!
Com certeza não joga a favor do papa e da igreja católica uma eventual prova cabal de que ele estava sabendo tudo sobre o caso. Bill Clinton, quando presidente, por uma pequena mentira quase sofria um impeachment, e ele não era nenhum paladino da honestidade e da verdade. Isto não vale para Bento XVI: a verdade acima de tudo, mesmo que tenha que se penitenciar!

sábado, 27 de março de 2010

Mais um assalto a ônibus, mas não em território indígena! Blogueiro também é vítima!

Chegou a hora do meu batismo de fogo. Vinha demorando...
Eram aproximadamente 1,30 da madrugada do dia 26, numa pequena localidade próxima de Santo Antônio dos Lopes, entre Dom Pedro e Peritoró, quando o ônibus da Progresso no qual me encontrava, proveniente de Grajaú, num redutor de velocidade (lombada) foi bruscamente intimado a parar. Um sujeito encapuzado estava com um revólver direcionado para o condutor, enquanto que outros dois comparsas aparecidos de repente, também eles armados e sumariamente encapuzados com uma camiseta, exigiam a abertura da porta do veículo.
Uma vez entrados, os três perguntaram se havia policiais entre os passageiros, e não obtendo resposta positiva iniciaram a esvaziar os bolsos e as bolsas dos mais de 40 passageiros. Alertaram que nada aconteceria se colaborássemos. Todos calados iniciamos a entregar dinheiro, celulares, cordões de ouro, relógios, etc. Enquanto dois passavam por cada poltrona exigindo os abjetos de valor, o terceiro assaltante mantinha sob seu atento e nervoso olhar o motorista intimando-o a entrar numa estrada vicinal distante da localidade aproximadamente um quilômetro.
Não satisfeitos, obrigaram todos os ‘piões’ a descerem do ônibus com as mãos na cabeça porque iriam iniciar uma nova ‘verifica’. Alertaram a todos que se descobrissem alguém com ‘dinheiro escondido nas cuecas’ iriam pagar por isso. Todos os homens enfileirados desceram em silêncio e permaneceram parados. Algumas mulheres iniciaram a chorar, mas os assaltantes as ‘tranqüilizavam’ dizendo que não iriam mexer com elas. Duas irmãs religiosas que vinham no ônibus iniciaram a rezar o terço. Um dos três comparsas pareceu ficar satisfeito: ’Continuem orando, orem por nós também porque precisamos’! Depois, em lugar de revistar todos os homens, os três acabaram subindo novamente no ônibus e começaram a abrir todas as bolsas carregando tudo o que havia de valor. Finalmente, se despediram ordenando de permanecer naquele local por pelo menos meia hora, e foram embora.

Algumas considerações:
1. O trecho da BR entre presidente Dutra e Peritoró foi totalmente recuperado. Antes eram os numerosos buracos que facilitavam a vida dos assaltantes no famigerado trecho. Agora são as numerosas lombadas. Incrivelmente, os assaltos ocorrem sempre nas mesmas localidades com uma freqüência assustadora. Com certeza a ‘inteligência’ da polícia já sabe quem pratica tais ações...Cheira muito a ‘formação de quadrilha mista’!
2. Enquanto não chegam as esperadas mudanças estruturais (justiça social e econômica, segurança, e... blá, blá...) é preciso que pelo menos as empresas se organizem para elas mesmas assegurarem aos seus clientes um mínimo de segurança interna, com escoltas ou outras formas...Infelizmente!
3. Ironia do destino: para aqueles passageiros que respiraram profundamente após ter passado incólumes pelo trecho indígena (Área indígena Canabrava, entre Grajaú e Barra do Corda) sem serem assaltados, encontraram uma desagradável surpresa entre o mundo dos ‘não indígenas’....Desse jeito, ninguém é melhor que ninguém! A ‘igualdade’ está garantida!!!
4. O Pai Nosso final puxado por um dos passageiros, de joelhos, quando tudo acabou, teve o sabor de uma autêntica ação de graças por ninguém ter se machucado. Para muitos ficarão o trauma, o medo e a angústia que, infelizmente, já fazem parte do cotidiano de muitas crianças e adultos, indistintamente.
5. Em época de campanha eleitoral o número de assalto a banco aumenta em média de 30 a 35%. Preparemo-nos! Vai piorar!

sábado, 13 de março de 2010

Traição ao projeto do Pai, eis o verdadeiro adultério! (Jo.8-11)

A narração hodierna de João parece ser uma complementação e ampliação da parábola do filho pródigo do evangelho de domingo passado. À primeira vista parece ser um simples gesto isolado de confrontação de Jesus com os fariseus e escribas a respeito de uma pecadora anônima pega em flagrante adultério. Mostraria, no caso concreto, de um lado uma extrema liberdade e autonomia de Jesus perante as leis em vigor, do outro, uma tolerância inédita para com aquelas pessoas que as desrespeitam. João, porém, vai muito além daquilo que à primeira vista a narração parece sugerir.
João está fazendo, na realidade, uma crítica estrutural ao sistema religioso judaico, utilizando-se de um personagem, uma adúltera, que representa simbolicamente o sistema religioso alicerçado no templo.

João, de forma perspicaz, nos informa que ‘Jesus, de manhã bem cedo, tornou para o templo....’ É nesse contexto do templo que os fariseus e os escribas aparecem trazendo uma mulher pega em flagrante adultério e interpelam Jesus acerca da sua interpretação das leis sobre aquele caso específico. Jesus não responde diretamente à inquisição dos seus interlocutores, mas retruca com outra pergunta que os deixa desarmados e sem resposta. Na realidade, abre seus olhos sobre a sua própria situação de adúlteros.

João, com efeito, elabora a cena de forma tal que deixa transparecer que os verdadeiros adúlteros, na prática, eram os que acusavam a mulher. Que o verdadeiro adultério se dava naquele templo que agia de forma intolerante, legalista e implacável para com os pecadores comuns. Jesus, para João, estava dizendo para os fariseus e escribas que o sistema religioso que eles alimentavam era uma verdadeira traição, uma infidelidade continua ao Deus da vida e do amor. Ao passo que para ‘o adultério da mulher’ só cabia misericórdia e compreensão, e não julgamento.

O adultério religioso, ou seja, a traição/infidelidade ao projeto do Deus da misericórdia e da justiça, esse sim, é o verdadeiro pecado que destrói consciências e quebra a relação com Deus e o seu povo. Os fariseus e os escribas, em lugar de julgar os demais ‘pelos ciscos que viam nos olhos alheios, deviam tirar a trave que estava fincada em seus próprios olhos’ que era bem maior! Que eles também aprendessem o que significa ’misericórdia eu quero, e não sacrifícios’!

O PERDÃO QUE LIBERTA! A PARÁBOLA DO 'IRMÃO MAIS VELHO'! (Lc.15,11-32)

As parábolas, em geral, narram quase sempre histórias um tanto paradoxais. Parecem ferir a lógica e o senso comum. É, claramente, um recurso didático que Jesus utilizava para chamar e segurar a atenção das pessoas. Ao fazer isto, obrigava os seus ouvintes a se perguntarem sobre o sentido de tais comparações/narrações, e sentiam-se obrigados a compreender a mensagem central, embora nem sempre conseguindo.

Mediante a parábola hodierna, Jesus procura justificar a sua relação para com os pobres, os pecadores e os religiosamente impuros, representados simbolicamente pelo filho pródigo. Isso ocorre num contexto polêmico, ou seja, perante as crescentes críticas e hostilidade dos fariseus encarnadas na figura do ‘irmão mais velho’.Os fariseus não aceitavam que Jesus, mestre e douto das sagradas escrituras, acolhesse e se misturasse com pessoas social e religiosamente indignas.

A parábola do filho pródigo que poderia ser definida, na realidade, como a parábola do ‘amor do Pai’, - por ser este o grande protagonista – tem, porém, algo mais. O que efetivamente soou paradoxal - e que deve ter suscitado uma enorme indignação nos ouvintes fariseus - foi o fato que Jesus, com aquela prática tolerante para com os pobres e ‘impuros’, estava dizendo em alto e bom som que o próprio Deus faria o mesmo que Ele. Jesus assume o papel de ‘representar’ aquele ‘Pai’ que acolhe, perdoa, compreende o filho extraviado, sem julgá-lo ou condená-lo. Isso era inconcebível para um fariseu ortodoxo!

A raiva, a indignação e a inveja que os fariseus sentiam eram direcionadas, no fundo, contra o atrevimento escandaloso de Jesus em manifestar com atitudes concretas não um Deus vingador e punitivo (justo, para eles!) e sim, um Deus misericordioso e cheio de compaixão e ternura. Dessa forma, Jesus elimina a componente do medo e do terror na relação com Deus. Anula a presença da vingança e da punição no coração/essência de Deus. Isto provocava um esvaziamento e um não sentido das práticas ritualísticas, purificatórias, penitenciais, sacrificais da religiosidade judaica.

A parábola, porém, num nível mais existencial, é um retrato das atitudes e reações humanas diante de supostas injustiças divinas que, na realidade, são expressão de misericórdia gratuita e ilimitada de Deus. Freqüentemente, na nossa soberba e arrogância, imaginamos que diante de uma nossa presumida fidelidade a Deus merecemos mais do que outras que nós julgamos indignos.

Experimentamos raiva e resistimos à idéia de um Deus misericordioso com aqueles que não agiram ‘correta e fielmente’ como nós. Que não obedeceram a normas e práticas religiosas que, nos nossos delírios e devaneios, imaginamos ser o passaporte para o paraíso, a premiação, a bênção divina....

Não nos damos conta de que ao agir assim acabamos reproduzindo as corriqueiras práticas sociais dos seres humanos que são movidos por sentimentos e atitudes de punição e castigo para os maus e prêmio e reconhecimento para os bons. Não damos fé que reproduzimos modelos culturais meramente humanos. Que somos nós mesmos, afinal, com a nossa parcialidade, e dominados pela nossa sede de vingança, de cumplicidade ou de interesses particulares, que julgamos quem é bom e quem é mau. E emitimos nossas sentenças de parte!

Chegamos a ser tão atrevidos que atribuímos esse mesmo modo mesquinho de agir também Àquele que ‘não olha as aparências, e sim o coração’. Afinal, ‘os pensamentos Dele não são os nossos pensamentos, e os caminhos Dele não são os nossos’! Sorte nossa que temos um Deus amoroso e misericordioso que nos conhece em profundidade, que não se escandaliza das nossas fragilidades. Ele nos chama pacientemente à permanente comunhão e à liberdade.

Que não tenhamos medo de nos deixar abraçar por esse Pai! Que não sintamos indignação quando Ele abraça também aqueles irmãos e irmãs que nós condenamos! Que não tenhamos receio em sentar junto com o nosso 'irmão mais novo' ao mesmo banquete, e festejar com alegria o seu retorno à casa do mesmo Pai!

O celibato dos suspeitos. Vamos fazer limpeza na igreja, mas também na sociedade!

Aqui abaixo um interessante artigo do Pe. Filippo di Giacomo publicado pelo jornal 'LÚnitá' e tirado por mim do site do Instituto Humanitas Unisinos sobre as numerosas denúncias de pedofilia na igreja.
Nestes dias, já se leem argumentações inclinadas a demonstrar como os atos de pedofilia clerical estariam relacionados ao celibato dos padres, a uma regressão sexual induzida, referente à formação oferecida nos seminários menores (praticamente desaparecidos há 40 anos), segundo um modelo imposto pelo Concílio de Trento, na segunda metade do século XV. Na realidade, o celibato existe desde 306, desde o Concílio de Elvira (nome de Granada na Hispânia romana), na Igreja do Ocidente tornou-se regra indiscutível ainda no século IV, quando Agostinho sugeriu a adoção da disciplina monástica a todos os seus padres.
O celibato deu prova de poder garantir uma estrutura psíquica que favorece a independência e a disponibilidade existencial e continua representando um dos carismas que a Igreja Católica testemunha no cristianismo global.E também no sacerdócio célibe, os homens sadios nunca conheceram o desenvolvimento de atrações eróticas com relação a crianças como resultado da abstinência.
Nos mais de 80 casos de abusos denunciados na diocese de Boston, a primeira circunscrição católica a ter chegado à mídia por causa da pedofilia difundida, só quatro foram reconhecidos culpados. Na Irlanda, as duas comissões governamentais que investigaram os cerca de 2.800 casos denunciados, só 10% foram considerados com fundamento. Isso quer dizer que 90% das acusações, mesmo que fortemente midiatizadas, eram falsas.
Existe uma latente e obscura veia fascista nessa persistente tentativa de querer exorcizar no mundo clerical um problema, o do uso e do abuso de crianças, que, em nível global, está vulgarmente estruturado em toda categoria profissional e abraça a pedofilia assim como a pornografia, o turismo sexual, a prostituição, a exploração do trabalho infantil, a mendicância escravista.
Não é por nada que, nesta terça-feira, o padre Federico Lombardi lembrou que: "Na Áustria, em um mesmo período de tempo, os casos confirmados em instituições ligadas à Igreja foram 17, enquanto houve 510 em outros ambientes. Também é bom se preocupar com esses". Pode-se notar como a onda europeia de midiatização de massa dos abusos católicos ocorra em um contexto ambíguo.
De um lado, é quase certo que Bento XVI manifestou sobre o assunto uma firmeza disciplinar que não deixa dúvidas nem dentro, nem fora da Igreja. De outro, a virulência dos ataques anticatólicos são enfatizados pela imagem de isolamento do Pontífice, devida verdadeiramente a uma máquina curial e administrativa que não lhe parece fiel e que é descrita à opinião pública como não controlada por ele.
No jornalismo eclesiológico e canonístico fora da Itália, desde o final dos anos 60, se questiona (é famoso o artigo que significativamente tinha o título "L'Eglise à l'heure du management", A Igreja na época do 'management') se o catolicismo ainda precisa de uma Cúria que ocupa cerca de 2.800 pessoas, impermeável às voluntariosas tentativas de Paulo VI e João Paulo II para torná-la eclesialmente compatível com a Igreja real, capaz (como demonstram os casos de certos "cavalheiros" do Papa) só de internacionalizar os atávicos privilégios e vícios.
No editorial de setembro de 1997, o então diretor de Jesus (revista mensal dos padres paulinos italianos), fez ricochetear na Itália uma proposta muito séria, levada adiante por alguns bispos norte-americanos: abolir a Cúria sem mais demora. Então, o diretor perdeu seu posto. Agora, se o seu sonho se tornasse realidade, quem bateria palmas seria, provavelmente, a Igreja inteira.