terça-feira, 5 de outubro de 2010

Esquemas semi-feudais vigoram no Maranhão para se eleger


Talvez seja cedo para fazer uma análise apurada do resultado das urnas, aqui, no Maranhão. Uma coisa, porém, que salta aos olhos: não estão aparecendo nomes novos no cenário político-eleitoral, as abstenções ficam a cada vez maiores, e os eleitos são sempre mais o resultado de ‘esquemas’/alianças com senhores prefeitos feudais e de vultosos investimentos econômicos.

O primeiro dado poderia, a princípio, não ser totalmente correto haja vista que apareceu algum nome novo ou ‘reciclado’, seja na assembléia legislativa bem como no congresso. Não surpreende que para ocupar uma cadeira no congresso vemos ainda vários... imortais: Gastão Vieira, Sarney F. Pedro Fernandes, Cléber Verde, Nice Lobão, Valdir Maranhão, Pedro Novais, Dutra, Ribamar Alves...As poucas novidades (Luciano Moreira, Edivaldo Holanda Junior....) são frutos de ‘esquema oficial’ e de máquinas administrativas azeitadas. A assembléia legislativa parece seguir a mesma tendência: há imortais ou candidatos a tais: Cutrim, Max, Barros, Cesar Pires, Cleide Coutinho, Rigo Teles, Stênio Rezende, e outros; alguns dos eleitos foram reciclados ressuscitando após um curto período de purgatório (Ricardo Murad, Manoel Ribeiro, Luciano Leitoa, Hemetério Weba...) ou se revezando com algum membro da família. As poucas novidades - que não chegam a ser surpresa, - são por conta de pessoas ligadas a ex-deputados estaduais, ou frutos do esquema de apadrinhamento de algum deputado federal imortal ou familiares de prefeitos poderosos.

Uma coisa parece certa nesse Estado: não há mais espaço para candidaturas eufemisticamente chamadas de populares. Resultado de mobilizações e articulações de movimentos sociais como na época da ‘Nossa Luta’ nos anos 80. Isso vale também para aqueles eleitos que supostamente erguem ainda a bandeira popular. São filhotes de um esquema fixo que os iguala a todos. Uma montagem de caráter essencialmente semi-feudal onde alguns ‘senhores’ prefeitos geralmente se juntam para patrocinarem alguns candidatos. Recebem, ou já receberam destes a promessa/garantia que encaminharão emendas parlamentares ou facilitarão a liberação de recursos federais e/ou estaduais para o seu município (ou família), e em troca ‘os senhores locais’ disponibilizam a máquina administrativa municipal para elegê-los. Investem maciçamente em propaganda e doações para eleitores sempre mais famélicos de benefícios em que a justiça eleitoral não intervém e não controla. Operam aquela troca mercantilista em que a relação voto-benefício é aceita e respeitada como um princípio moral universal.

Aqueles candidatos que ainda mantém vínculos com alguma forma de resquício de movimento popular e na sua ingenuidade acreditam que há ainda espaço para o ‘voto consciente’, ou eles aceitam entrar no esquema comum ou não se elegem. Todavia poderíamos nos perguntar olho no olho: há ainda alguém que acredita em voto consciente, não barganhado e fruto de independência cidadã e liberdade interior?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Francisco de Assis, ou seja, o perene duelo entre carisma e instituição

Levantei pela manhã com um pensamento fixo: dedicar um tempinho para uma reflexão pessoal sobre o sentido do testemunho de Francisco de Assis para mim e para a igreja. Quase passava batido. Encontro-me no momento bombardeado por mil imagens, lembranças, devaneios, escritos e especulações sobre ‘o pobre de Assis’. A tentação é reproduzir nesse espaço uma das muitas e ressabidas ‘mesmices’ que foram escritas e transmitidas sobre ele. Quero, todavia, ensaiar algo, talvez, inusitado e propor a minha reflexão. Francisco, talvez indiretamente, foi quem melhor provocou e escancarou o eterno dilema/duelo entre a dimensão carismática e a tendência compulsiva da instituição em enquadrar e controlar o ‘carisma’. É o perene confronto entre o ‘inspirado’ e a força do ‘legal’. Entre o que vem da liberdade do espírito, - sem normas e regras - e a necessidade de controlar, dominar e institucionalizar o que por natureza é incontrolável. Como, algo que vem do espírito livre de Deus, pode ser reduzido a norma jurídica, a regra, a cânon, e ter que ser reconhecido por humanos que adotam critérios ...humanos? Francisco talvez tenha sido uma das mais ilustres e famosas vítimas do que significou ser ‘movido e convertido pelo espírito do Deus dos pobres’ e ver, ainda em vida, a força das tramas humanas, do cinismo e da mesquinhez se apropriarem do ‘incontrolável espírito’ para petrificá-lo em estruturas e instituições.

Durante a viagem de Francisco para o Egito, em 1219, se consumava nos pequenos conventos que haviam aderido ao ‘espírito/carisma’ de Francisco o primeiro golpe dentro do movimento. Substituir o carisma com a instituição. A liberdade do sopro sempre renovado do espírito com as normas pétreas reconhecidas formalmente pela instituição formal. Francisco percebe o poder humano em ‘ameaçar e matar’ a força do espírito, e se retira. Renuncia a todo tipo de coordenação. Começa a viver fora da comunidade e da instituição. É justamente nesse deserto existencial que reata a sua comunicação com o espírito que outrora o havia chamado e jogado nos braços livres dos invisíveis lázaros de Assis. Ele re-encontra a sua liberdade interior ao deixar ‘seus frades’ disputando cargos e ambições. Morre como um lázaro anônimo qualquer, vítima de hanseníase e cego. Até na hora da sua morte o seu cadáver vira objeto de disputa entre grupos e frades, talvez vendo na sua apropriação uma fonte de lucro. Hoje, dia 4 de outubro, invoco o espírito que inspirou o indomável Francisco para que continue inspirando e enviando homens e mulheres livres de leis, normas e regras!

sábado, 2 de outubro de 2010

Uma 'pequena-grande fé' para produzir o impossível (Lc.17,5-10)


"Aumenta-nos a fé’! Assim suplicam os discípulos de Jesus. Não é para menos. Jesus acabava de alertar de que era preciso perdoar radicalmente (filho pródigo), que era urgente ser vivo e competente na administração do novo reino (o administrador esperto), e que o desejo doentio por riquezas impede o discípulo de enxergar os pobres que vivem à porta da sua casa (Lázaro e o rico). Para construir o reino de Deus que se contrapõe aos reinos dos concentradores de riquezas, de poder, de egoísmo e de intolerância era preciso criar novas relações humanas e sociais. O discípulo de Jesus devia apreender a preencher os enormes abismos criados pela ação egoísta e cega de alguns humanos sobre outros.

Os discípulos compreendem que Jesus não esconde as duras condições e exigências para quem quer segui-lo até o fim. É preciso, portanto, ter fé naquilo que Ele aponta. Nas suas metas e modalidades. Confiar ‘cegamente’ de que é possível produzir o que humanamente parece impossível. Uma ‘grande fé’ do tamanho de um grão de mostarda – a menor das sementes - seria suficiente para produzir o inesperado, o incalculável. E, ao conseguir o ‘impossível’, - como resultado da sua fé no Mestre e nas suas orientações e exigências, – o discípulo precisa manter a cabeça no lugar. E os pés no chão.

Muitos, com efeito, acabam atribuindo a si próprios a capacidade de produzir ‘coisas grandiosas’. Acham que, por isso, merecem destaque e reconhecimento. Essa, todavia, é a prática dos que seguem a lógica do anti-reino. Dos filhos das trevas: que acumulam riquezas, que não enxergam as necessidades alheias, que não sabem perdoar de forma radical. Ao contrário, para os seguidores de Jesus, pede-se serviço gratuito, sistemático e radical. Que não conhece descanso. Que não procura reconhecimento e gratificações. Afinal, entra-se na força-tarefa do reino de Deus para servir, para ter compaixão, para enxergar os lázaros que ninguém enxerga. Nisso o mundo vai descobrir a ‘utilidade’ desses servidores. Nisso estará a consciência do ‘dever cumprido’

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eleições 2010: faltou um sonho para nos fazer vibrar, e voltar a esperar!

Começou o que muitos definem como a reta final da campanha: a última semana. Pessoalmente acho que não vai haver surpresas. Não com a candidata Dilma que deverá ganhar no primeiro turno e evitará que baguncemos a nossa programação dominical no último domingo de outubro. Mas o mesmo dificilmente ocorrerá no Maranhão. O candidato do PDT/PSDB e sócios, Jackson Lago, já com evidente falta de fôlego nas pesquisas, e obrigado às cordas pela indefinição do STF, terá que renunciar nos próximos dias em favor de alguém ligado a ele ou ao seu partido. O que não é surpresa. Com a subida da ‘onda Flávio Dino’ teremos segundo turno no Maranhão: Roseana e Flávio Dino.

Um segundo turno entre os dois, tampouco será surpresa! Mas o êxito desse duelo, num hipotético segundo turno, será uma verdadeira incógnita, pois as dinâmicas serão diferentes. Os favoritismos tenderão a ser reduzidos. A polarização estará dada. Tudo será possível. Confesso que tudo isso me deixa um tanto indiferente e cético. Não que não esteja preocupado com os destinos do Estado, mas porque acho que a verdadeira ‘disputa’ que poderia mudar o rosto do Estado não se dá entre os ‘candidatos‘ a governador, a deputados, senador, etc. Nem ouso falar em seus programas de governo que inexistem de ambas as partes! O verdadeiro ‘duelo’ que não se deu – e, certamente, não é numa campanha política que se dá – foi a adesão da população ou de vastos setores dela a um determinado sonho...ou como antigamente se dizia, a uma bandeira, que um ou outro poderia ter assumido! Produzir e apresentar um sonho para a sociedade maranhense. Um sonho em que a maioria pudesse se identificar. Mostrar que é possível realizá-lo. Motivar e mobilizar pessoas para compreender que ‘esta é a hora’ para que o sonho vire realidade. Talvez esta linguagem esteja ‘demodée’ (fora de moda) aos nossos dias....Pode ser. É um fato que a empolgação, o debate acalorado de idéias e projetos, e a mobilização voluntária e gratuita fizeram falta. Ganhe quem ganhar, o futuro imediato pós eleitoral será 'preenchido' por uma pausa de mais quatro anos à espera do próximo duelo. Nele a população, mais uma vez, ficará nas arquibancadas a ‘torcer’, mas sem poder ocupar o gramado, chutar a bola e fazer, enfim, um GOLAÇO!

sábado, 25 de setembro de 2010

O rico 'epulão' e os 'lázaros da vida': um abismo a ser preenchido (Lc.16,19-31)

Existem pessoas e realidades que são ‘invisíveis’ aos nossos olhos. Deparamo-nos sistematicamente com elas, mas não as vemos. Não damos fé que são ‘reais’, concretas e palpáveis. Não percebemos que, afinal, não as vemos porque o nosso coração e a nossa mente estão concentrados em ‘outras realidades’. Que somos cegos só para com aquelas realidades e pessoas que não queremos que façam parte da nossa vida. Não imaginamos que elas também nos exigem um olhar, um gesto, uma atitude.

O rico ‘epulão’ de que fala a parábola hodierna era incapaz de enxergar a presença do ‘mendigo’ Lázaro que vivia sistematicamente deitado à porta da sua mansão. Que vivia no seu mesmo espaço físico. Passava por ele, mas não lhe dirigia uma palavra, e sequer um gesto, mesmo que fosse de rejeição. Simplesmente, ignorava-o. Jesus, ao apresentar o rico e festeiro ‘epulão’, descreve-o como alguém que ‘se vestia de púrpura e linho fino e que dava banquete todo dia’(v.19). Nisso residia a sua concentração, o seu verdadeiro interesse, e a sua motivação de vida. O seu desligamento e a sua indiferença para com as demais realidades e pessoas faziam com que estas aparecessem ao seu coração cego como ‘invisíveis e inexistentes’. Jesus nos diz que o desejo consumado por riqueza, festança e esbanjamento torna a pessoa cega e indiferente. Incapacita-a a permanecer ligada, solidária e compassiva para com aquelas pessoas que foram reduzidas a viverem no seu ‘lado oposto’.

Cria-se entre as duas realidades um ‘grande abismo’ (v.26) Uma separação aparentemente insanável. Mas só se for deixada para ‘depois’ da morte. É preciso preencher agora esse abismo, enquanto há tempo. Ouvir, agora, a voz de ‘Moisés e dos profetas’ (v. 29) que chamam para a justiça, a compaixão, a equidade. Ao mesmo tempo Jesus se dirige àqueles que 'vestiam púrpura e linho' e que acreditavam que a riqueza era fruto da benevolência de Deus. Jesus, ao contrário, diz que são ‘os Lázaros’ os reais bem-amados de Deus. Aqueles que moram definitivamente no seio de Abraão. E não adianta os acumuladores de riquezas, festeiros e esbanjadores achar que por se considerarem ‘filhos de Abraão’ vão se livrar das conseqüências das suas escolhas de vida! Eles já estão recolhendo agora, os frutos amargos de sua falta de compaixão, de solidariedade, de sobriedade e austeridade de vida. Enfim, de sua cegueira de coração e de sua irresponsabilidade social.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Administradores do Reino: ou Deus ou a dependência do ídolo 'dinheiro' (Lc.16.1-23)


A parábola do administrador astuto pode nos deixar bastante desconcertados. Não é para menos: Jesus parece se alinhar entre os admiradores dos aéticos, dos espertinhos, e dos sem-escrúpulos. Numa análise mais apurada fica clara qual é a intenção de Jesus. Jesus quer sacudir os seus discípulos para que se tornem mais competentes na construção/administração do reino de Deus. Jesus constata, com efeito, que ‘os filhos desse mundo’, ou seja, os que não fazem a opção em favor do Reino de Deus, são mais competentes e criativos ‘em seus negócios’ do que os ‘filhos da luz’...na construção de uma nova sociedade/reino. É uma clara provocação que o Mestre lança aos seus seguidores: por que não aprender dos espertinhos que conseguem encontrar saídas criativas quando estão em apuros? Por que não aprendemos a colocar ‘essa esperteza e genialidade’ (não a desonestidade!) a serviço do Reino? E com um realismo único, não cinismo, Jesus convida todos aqueles que acumularam ‘riquezas injustas’ a não segurá-las, mas a utilizá-las para ‘fazerem amigos que os possam acolher nas moradas eternas’, ou seja, fazer das riquezas um meio para obter condições e valores que não se acabam. De fato, as riquezas desse mundo se acabam: o ladrão pode assaltar, a traça corroer, mas a acolhida, a fraternidade, a segurança/proteção de quem ama e acolhe nunca se acaba!

Toda essa reflexão de Jesus tem mais um caráter metodológico que diz respeito à forma como o discípulo deveria ‘administrar o reino’ que já está entre nós. É um chamamento de Jesus aos seus seguidores para compreenderem que no enfrentamento do anti-reino de Herodes, de César, alicerçado na ambição, na competição, na falta de valores e de ética, é preciso possuir competência e determinação. Ao mesmo tempo, Jesus prepara e capacita os seus discípulos para a grande condição final: não é possível entrar nessa luta pela construção do novo reino ,e em suas dinâmicas, colocando em primeiro lugar a vontade de acumular riquezas. Ou se coloca Deus e o seu Reino ou as riquezas, pois as duas realidades não convivem. O desejo de riqueza e a sua veneração não combina com a causa do reino. O convite de Jesus aos discípulos de fazerem a firme escolha de colocar Deus e o seu reino em primeiro lugar, único e exclusivo, se contrapõe também ao modo farisaico de proceder. Estes achavam que era possível servir a Deus e ao dinheiro simultaneamente, não vendo nisso uma contradição. Com isso, Jesus ataca frontalmente a teologia da prosperidade, eternamente atual: Deus não abençoa quem coloca como meta da própria vida o acúmulo de riquezas e faz delas um ídolo que escraviza e cria dependência. Para construir o novo reino/sociedade é preciso ser livres!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mandante do assassinato do padre Josimo é condenado a 16 anos de prisão



Osvaldino Teodoro da Silva, um dos mandantes do assassinato do padre Josimo Moraes Tavares, ocorrido em 10 de maio de 1986 na cidade de Imperatriz (MA), foi condenado nesta quarta-feira, 15, a 16 anos e 6 meses de prisão, em júri popular. Apesar da condenação, Osvaldino pode aguardar em liberdade o julgamento do recurso que seus advogados vão ajuizar. A notícia é do Boletim da CNBB, 16-09-2010. A acusação foi feita pelo Promotor de Justiça, Domingos Eduardo da Silva, tendo como assistentes os advogados Aton Fon Filho da Rede Social de Justia e Direitos Humanos e Vanderlita Fernandes da Comissão Pastoral da Terra/ CPT-TO."As consequências do crime foram graves ante a perda repentina de pessoa bastante respeitada na região, pela sua reconhecida atuação como líder religioso, cuja morte, ainda hoje, sentida no seio das comunidades nas quais desenvolvia suas atividades, bem como nos movimentos sociais, com repercusso nacional e internacional", destacou, na sentença, a juíza Samira Barros Heluy. Assistiram ao julgamento lideranças dos Movimentos Sociais do Bico do Papagaio e do Sul do Maranhão; o bispo da Diocese de Tocantinópolis, dom Giovane Pereira de Melo e o bispo diocesano de Imperatriz, dom Gilberto Pastana de Oliveira, além de padres, estudantes de direito e representantes da CPT. (Fonte IHU)