sábado, 29 de janeiro de 2011

Bem-aventuranças:o modo de Deus governar! (Mt.5,1-12)


A nossa religião já foi definida a religião da dor. Do sofrimento. Do sacrifício. Da tristeza. Dos que esperam só por uma eternidade futura. A religião dos conformados. É inegável que demos muita munição para os nossos críticos! Não foi o conteúdo da ‘boa nova’ de Jesus de Nazaré que a forneceu. Foram as nossas interpretações do conteúdo da boa nova. Muitas delas têm se alicerçado em nossos interesses de grupo, em projetos mesquinhos institucionais, em jogos de poder que, infelizmente, existem em toda religião. Nesse sentido toda religião tende a matar a fé que está no coração dos humanos! Recuperar o sentido profundo das bem-aventuranças é fazer prevalecer a fé sobre a instituição. A prática da caridade/compaixão sobre os dogmas. O serviço gratuito ao pobre sobre o culto à autoridade, à hierarquia.

As bem-aventuranças não foram e não são um ‘discurso’. Nem tampouco um conjunto de normas e mandamentos. Não são piedosas admoestações pronunciadas por Jesus circunstancialmente. Nem uma lista de categorias sociais que poderão ganhar num futuro próximo, - se aceitarem a sua condição – um suposto prêmio eterno. Uma espécie de reino da felicidade por terem se conformado com sua situação adversa. Ao contrário, elas refletem e sintetizam as prioridades que emergiram do itinerário moral/espiritual de Jesus de Nazaré. Resgatam o miolo da pregação e da prática ousada do mestre da Galiléia. E, principalmente colocam em evidência a nova consciência por parte daqueles que historicamente sempre haviam sido deixados de lado. As bem-aventuranças representam uma espécie de linha de demarcação. A lógica que vigorava até Jesus era de que o abençoado, o feliz, o bem-aventurado era aquele que tinha fartura, que possuía coisas e pessoas, que dominava e perseguia, que praticava a sua autoridade mediante abusos e transgressões. Afinal, se ele agia daquela forma era porque Deus o estava confirmando!

Os primeiros cristãos ao resgatarem a prática de Jesus fazem emergir uma nova consciência. Para eles, a partir do serviço de Jesus aos pobres Deus veio definitivamente para governar de uma forma totalmente nova. Bem diferente de como o fazia Tibério César, herodes e outros. Os esquecidos de Israel são, de fato, os novos protagonistas que manifestam e concretizam a realeza de Deus. Ou seja, Deus administra de forma nova a humanidade escolhendo como mediadores os que lutam por justiça e paz. Os que sofrem perseguições. Os que agem de forma transparente. Todos eles são bem-aventurados não porque são amados e abençoados por Deus, ou porque poderão receber prêmios futuros, mas porque está em suas mãos, agora, a possibilidade de produzir uma inversão de valores e práticas. De realizar tudo o que sempre esteve no coração de Deus e que Jesus o tornou explícito.

Felizes são vocês se compreenderem que chegou a sua hora. A hora de despedir os ricos de mãos vazias, de derrubar dos tronos os poderosos e de reconhecer a dignidade dos humilhados. Para Jesus, esse é o verdadeiro modo de Deus governar!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bispos do Moçambique denunciam os impactos negativos dos mega-projetos. A VALE está envolvida

Reproduzo abaixo um trecho do 'comunicado dos bispos do Moçambique às comunidades cristãs e aos homens e mulheres de boa vontade' publicado recentemente. Chama a atenção a preocupação dos bispos moçambicanos para com os mega-projetos, pois acolá já chegou a 'empresa integralmente brasileira,' a VALE. Pelo visto o gigante da mineração não vem perdendo tempo: exporta poluição, expropriação e desagregação social, 'mercadoria' bem conhecida pela nossa população do Maranhão, Pará, Minas, Rio......

'A malária continua a matar, sobretudo no interior do País, apesar das estatísticas optimistas; o mesmo se diga da pandemia do HIV/SIDA, ao ponto de se pode dizer que a devastação escapa ao controle das estatísticas. Achamos que para a situação da fome estará contribuindo o abandono da produção da comida a favor das culturas de rendimento: algodão, tabaco, cana-de-açúcar e plantas para bio-combustível.Outros aspectos sociais muito preocupantes são o tráfico de seres e órgãos humanos. Quando a Igreja Católica, em 2004 e 2005, denunciou os primeiros casos conhecidos, muito se fez e muito se disse para afirmar que era falso e não faltou quem gostasse de ver a Igreja Católica no banco dos réus e punida, como boateira. Hoje, a imprensa quotidiana está confirmando, com casos, um fenómeno de dimensão planetária!

Outra ferida social é o banditismo, com contornos particulares: grupos de 10, 12 e mais indivíduos, que assaltam residências e instituições, na calada da noite ou em pleno dia. Enfim, os linchamentos parecem um mal sem remédio. Serão um mal sem remédio enquanto não se descobrir, não se quiser reconhecer e eliminar as suas causas.

Temos ainda o problema do impacto negativo dos mega-projectos, um impacto já sentido ou previsível: degradação e poluição do meio ambiente. Tais projectos expropriam terras das populações, obrigando-as a deslocarem-se para zonas desfavoráveis; ocupam áreas próprias para certas actividades favoráveis à vida das populações, deixando-as sem nenhum meio para o seu sustento....'

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Morre Dom Samuel Ruiz, o bispo dos índios do México


Morreu, ontem, D. Samuel Ruiz García bispo emérito de San Cristobal, Chiapas, no México, aos 86 anos de idade. Samuel Ruiz foi bispo da região de Chiapas e negociou com o Movimento Zapatista, nos anos 1990. A notícia da sua morte é da Agência Efe, 24-01-2011. Ele foi um homem muito conhecido e respeitado no México e na América Latina. Trata-se de um bispo da extirpe de um Pedro Casaldáliga, por exemplo. Ele se tornou um grande defensor dos direitos dos povos indígenas. Ele foi bispo de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, de 1960 a 2000, quando se tornou bispo emérito. Em 2008, participou de uma comissão negociadora com o Exército Popular Revolucionário - EPR -, que pedia ao governo mexicano a entrega de dois dos seus militantes desaparecidos. O bispo atual de San Cristóbal, D. Felipe Arizmendi, disse, durante as celebrações dos 50 anos de ordenação de D. Samuel, em 2009, que a sua vida e vocação ficou marcada "por descobrir e ver de perto a marginalização de uma quantidade enorme de comunidades ante uma situação de dominação generalizada".  Ontem, numa nota, afirmou que D. Samuel Ruiz deixou o legado, com as seguintes caracteristicas:

1.- A promoção integral dos indígenas, para que sejam sujeitos na Igreja e na sociedade;

2.- A opção preferencial pelos pobres e libertação dos oprimidos, como sinal do Reino de Deus;

3.- A liberdade para denunciar as injustiças ante qualquer arbítrio;

4.- A defesa dos direitos humanos;

5.- A inserção pastoral na realidade social e na história;

6.- A inculturação da Igreja, promovendo o que pede o Concílio Vaticano II, que haja igrejas autóctonas, encarnadas nas diferentes culturas indígenas e mestiças;

7.- A promoção da dignidade da mulher e da sua corresponsabilidade na Igreja e na sociedade;

8.- Uma Igreja aberta ao mundo e servidora do povo;

9.- O ecumenismo não somente com as outras confissões cristãs, mas com todas as religiões;

10.- Uma pastoral de conjunto, com responsabilidades compartilhadas;

11.- A Teologia Índia, como busca da presença de Deus nas culturas originárias;

12.-  O diaconato permanente como um processo específico entre os indígenas.

13 - A reconciliação nas comunidades;

14.- A unidade na diversidade;

(Fonte: IHU)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Na periferia do Império e do templo Jesus inicia a construir o 'reino de Deus' (Mt.4,12-25)



Há escolhas e decisões que mudam radicalmente a trajetória da nossa vida. O que pode nos parecer num primeiro momento algo corriqueiro, ordinário, acaba se tornando determinante e central. As conseqüências de tudo isso nos acompanham pelo resto da nossa vida. O texto hodierno nos apresenta a tomada de decisão que foi determinante para a vida de Jesus: o afastamento físico e ideológico de Jesus do grupo de João Batista com o qual havia convivido e se identificado por algum tempo, e a sua decisão surpreendente de se transferir definitivamente a Cafarnaum. Com relação a João, Jesus quer deixar claro que a sua pregação é qualitativamente diferente da do profeta do deserto. Jesus inaugura um Reino de graça e de nova oportunidade de mudança radical. O Deus de Jesus não é o Deus da ameaça, do castigo e da pressão total. É justamente a partir do momento que João é silenciado por Herodes que Jesus inicia a sua proclamação. Um novo momento começou! Mas Jesus rompe também com ‘os seus’, os de Nazaré. O reino novo que Deus quer não pode ser iniciado tampouco na terra natal de Jesus onde ele só havia conhecido rejeição e desconfiança.

Paradoxalmente a Boa Nova começa na ‘Galiléia dos pagãos, dos pescadores ritualmente impuros’. Mas também num centro alfandegário economicamente estratégico. Na ‘estrada do mar’ por onde passavam os que queriam ir ao Egito e ao porto de Cesaréia. Na terra onde Herodes queria mostrar a Tibério César força e poder. Daí pode-se perceber que Jesus não escolheu Cafarnaum de forma aleatória. Como não escolheu a partir de uma simples olhada, a beira mar, os seus seguidores. Jesus tinha clareza que a um projeto de dominação globalizante e bem articulado tinha que se opor com igual ou superior habilidade. Uma oposição que não fosse de confrontação militar, de força física, mas simbólica. Era nesse campo, de fato, que Jesus podia jogar as suas cartas. E Ele o fez de forma magistral.

Jesus não escolhe a capital Jerusalém para dar início ao seu ministério profético, e sim, um povoado considerado ‘infiel e herético’ pela composição e religiosidade de seus habitantes e pela confluência de ‘gente de fora’, estrangeiros que contaminavam o solo e a cultura judia. Não escolhe Nazaré, onde Jesus tinha família e amigos. Deixa atrás de si segurança afetiva e familiar. Rompe com a lógica ‘étnica’ e da ‘família nuclear’, e se abre ao ‘mundo’ pluricultural e pluriétnico. Este se torna a sua família! Jesus tampouco escolhe o ‘deserto’ de João Batista, onde não havia gente. Ele escolhe lugares habitados por gente que sonha, que luta, que debate, e que trama....contra César e seus asseclas.

Jesus fala de ‘reino’ propositalmente. Para dizer que o dele se opõe ao do César e ao do bajulador Herodes. Que, aliás, é o único possível. Porque nenhum humano pode dominar e subjugar outro humano. Que somente o ‘reino de Deus’ poderia trazer a verdadeira liberdade e o reconhecimento da dignidade divina que reside em cada humano. Que esse reino se constrói a partir da ‘periferia’ e nos bastidores da história, do império e do templo. Que, afinal, o reino de César e de tantos outros, são uma farsa...ou uma ‘tragédia’!

Jesus escolhe os seus seguidores. Examina-os, e os seleciona. Não aceita qualquer um. Molda-os sem lhes tolher a sua originalidade. Não quer fanáticos, e sim pessoas ‘vividas’, que saibam o que significa ter responsabilidades. Não quer funcionários, servos, assalariados, mas pessoas maduras que tenham a capacidade de se configurarem a um projeto específico.

Que tenham coragem de serem ‘pescadores de homens’, construindo novas formas de humanidade.

BRASIL, UM PAIS DE TODOS?



Carta aberta dos Missionários Combonianos da Provincia Brasil Nordeste sobre o Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes



O Ano 2011 foi declarado pela ONU Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes. Neste ano os vários países do mundo deverão fortalecer o compromisso político de erradicar a discriminação contra os descendentes de africanos. A iniciativa também quer promover o respeito pela diversidade e herança culturais, ainda não oficialmente integradas nas identidades das várias nações americanas!

A nossa experiência pastoral no Brasil mostra como a população afrodescendente ainda hoje sofre o preconceito e a discriminação racial. Mesmo tendo contribuído enormemente com suor e criatividade na construção da matriz social e cultural dessa imensa nação pluricultural e pluri-étnica, os afro-descendentes continuam ignorados. Mesmo representando mais da metade da população brasileira, os afrodescendentes vivem à margem da sociedade que eles mesmos têm ajudado a construir. De fato, são eles que encontramos morando nas periferias sem esgoto e sem infraestruturas. Apertados nos sistemas de transporte publico, e sobrevivendo com salário mínimo. Lotando os sistemas prisionais do país, nas filas dos hospitais, e mortos por atividades ilícitas e ações policiais.

Sabemos que eles vêm ocupando novos e legítimos espaços, mas graças à sua iniciativa e persistência, e não por serem reconhecidos como cidadãos/ãs com iguais direitos e oportunidades. Suas conquistas e lutas não ganham nem a visibilidade da mídia, e nem se tornam um sinal sócio-educativo para as atuais e futuras gerações. O próprio lema que marcou o governo passado - "O Brasil, um país de todos", - parece reforçar mais a ideologia de que neste país foi alcançada definitivamente a suposta "democracia racial", do que um efetivo reconhecimento de direitos universais respeitados. Não há como negar que, infelizmente, as estatísticas nas Américas e no Brasil demonstram que os afrodescendentes não têm tido as mesmas oportunidades que outros cidadãos/ãs.

Ao contrário, temos assistido a verdadeiras formas de negação de direitos e acesso à justiça formal. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do DIIESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio Econômicos) demonstram que nas regiões metropolitanas entre os negros e negras existe uma média de desemprego 50% maior do que entre a população branca. Além disso, os negros recebem, em média, somente cerca de 60% do valor dos salários oferecidos aos não-negros. Outro dado alarmante é a diferença entre a taxa de homicídios de negros e brancos. Dados da pesquisa "Mapa da Violência" revelam que as taxas brasileiras de homicídios têm como principal vítima a população negra de sexo masculino: de cada dez jovens assasinados, 7 são afrodescendentes.

Não é difícil perceber que nas grandes cidades brasileiras existe uma linha divisória imaginária, mas real entre os "brancos" e os "Afro-brasileiros". Ela se torna visível pela localização e pela estrutura da moradia de uns e de outros. Nos lugares de classe alta, nos prédios altos e bonitos da cidade os negros só aparecem para trabalhar! Para estes, a residência continua sendo nas longínquas periferias, nos amontoados de casas, nos cortiços, nas favelas, nos lugares de desmoronamento e enchentes.

Diante de tudo isso, nós Missionários Combonianos do Brasil Nordeste - sentimo-nos provocados pelo testemunho de Jesus de Nazaré e pelo exemplo do nosso fundador Daniel Comboni, que doou sua vida para a vida da África. Queremos reforçar nossa causa comum com quantos são humilhados e discriminados pela cor da sua pele, pela vivacidade de seus costumes e celebrações e pelo seu modo de falar e de ser. Empenhamo-nos a continuar nossa luta ao lado dos afrodescendentes do nosso País, do Continente e do Planeta inteiro, para que juntos possamos quebrar as barreiras históricas dos preconceitos e da exclusão em todos os espaços sociais. Somos cientes que um ano não será suficiente para superar essas barreiras históricas, mas sabermos que o mundo todo estará lutando e conscientizando-se para combater o racismo nos anima a continuar a caminhar ao lado de nossos irmãos-ãs afrodescendentes!


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Siderúrgicas de Piquiá: como ser empresas socialmente irresponsáveis!

Parece paradoxal, mas talvez seja a única saída para as famílias de Piquiá de baixo, Açailândia, Maranhão: organizar uma coleta para arrecadar dinheiro e comprar o terreno onde construir as casas numa possível transferência de famílias afetadas pela poluição intensa produzida pelas siderúrgicas locais. É que as poderosas siderúrgicas do Estado, organizadas e associadas ao SIFEMA, - o sindicato das siderúrgicas do Maranhão cujo presidente é o atual secretário estadual de Agricultura, Claudio Donizete Azevedo, - fazem corpo mole. Não acenam até o presente momento a desembolsar R$ 220.000 – duzentos e vinte mil Reais para adquirir o terreno escolhido consensualmente pelas famílias de Piquiá de baixo. Isto seria um sinal básico, mínimo, que as empresas poderiam oferecera toda a sociedade e aos negociadores. Além de fazer parte de um acordo informal – por enquanto – entre um grupo de instituições sob a coordenação do Ministério Público Estadual para tentar solucionar de vez um problema sócio-ambiental que vem se arrastando há décadas.

Diante da crescente poluição e prejuízos à saúde pública, e ao constatar que as empresas dificilmente irão mudar do atual local, a solução proposta pelo grupo inter-setorial foi a transferência de cerca de 300 famílias de Piquiá de baixo. A sua eventual transferência que vem sendo negociada aos trancos e barrancos, com omissões e evidente falta de interesse por parte de alguns atores locais, não poderá significar ‘carta branca’ para continuar a poluir. Ao contrário. Contribuir para amenizar, de forma emergencial, um impacto que vem produzindo prejuízos de toda ordem é para as siderúrgicas uma obrigação moral e legal. E, simultaneamente, terão que adotarem mecanismos efetivos para reduzir a emissão de fuligem. Sem falar em ações de indenização que obrigatoriamente irão aparecer. As empresas apostam na frouxidão legal e fiscalizatória do Estado...

O impasse, contudo, nesse momento, é o papel exercido pelo Ministério Público de Açailândia. Vem se omitindo de forma escandalosa. Talvez pressionado por forças locais. Há fortes apelos populares para que este assuma definitivamente, com coragem, a sua responsabilidade legal em convocar, cobrar, mediar e instaurar inquéritos para apurar responsabilidades. Diante de tanta falta de irresponsabilidade social e....vergonha de empresas que só sugam ar, saúde pública e suor humano é o mínimo que o ‘defensor dos direitos coletivos’ tem que fazer!

sábado, 15 de janeiro de 2011

'conhecer' os sinais. Ser sinais para o mundo! (Jo.2,29-34)


Vivemos em uma realidade que lança a cada instante, como uma metralhadora automática, inúmeros sinais. Mensagens, informações, símbolos, notícias, versões das mais variegadas. Nem sempre há uma lógica por trás de tudo isso. Nesses permanentes bombardeamentos e emaranhados de sinalizações fazemos a experiência de uma certa perdição. Sentimentos de desnorteamento parecem nos dominar. Sentimo-nos deslocados no nosso mesmo local em que vivemos. Parece que tudo o que considerávamos como referencial de vida, de hermenêutica, de análise da realidade, de repente, se esvaiu. Não sabemos o que pegar, o que reter. O pouco que seguramos o consideramos, logo a seguir, inadequado para dar conta da nossa sede de compreensão da realidade. Do que somos nós, do que queremos, do que desejamos ser num futuro próximo. Não deixa de ser uma ‘crise existencial’ que ajuda a nos re-situar no ‘local-contexto’ onde estamos. E descobrir quais ‘sinais’ - entre as miríades que existem – podem dar sentido ao nosso existir. Esses serão os sinais que temos que....segurar.

Com as óbvias diferenças essa foi a crise pela qual passou também João e Jesus de Nazaré. É caminho obrigatório para todo ser humano que busca dar um sentido ao seu ‘estar no mundo’. João havia descoberto que tinha uma missão para com Israel: a de despertá-lo sobre suas próprias contradições. Mostrando que estas estavam tão agudas que o levariam à destruição, caso a nação não mudasse de rumo. Escolheu como ‘sinal’ o batismo de água. Expressão de real compromisso das pessoas em construir um novo Israel. Ele mesmo, João, torna-se ‘sinal’. Tudo parecia correr bem para ele. As ameaças, as condições para receber o batismo, a apresentação de um Deus terrível e vingativo mexiam com a cabeça das pessoas. Talvez mexessem muito menos nas suas atitudes e opções de vida! Com o aparecimento de Jesus de Nazaré João entra em crise. Descobre que a sua estratégia para re-erguer Israel talvez não fosse tão acertada como imaginava.

Jesus ao se colocar no mesmo nível que as pessoas ‘penitentes’ e necessitadas de mudança, de conversão, de batismo de transformação lança um sinal inequívoco para João e para Israel. A redenção de uma nação não se dá colocando-se acima dela, proclamando de forma moralista a sua mudança. Mas envolvendo-a como um todo, e reconstruindo-a com ela (entrando na fila comum como fez Jesus). Não julgando os outros e se colocando numa situação de superioridade moral, de suposta absoluta integridade e pureza, mas trabalhando no mesmo nível daqueles que procuram re-erguer Israel a partir de suas próprias contradições. Pessoais e coletivas.

João que era um sinal, – um entre muitos, – sinaliza que o verdadeiro ‘Sinal’ a ser segurado com força, agora, era Aquele que não batizava com água, mas que ‘batizava’ a partir das consciências, do coração, da compaixão. Aquele que - misturado entre os comuns penitentes - queria construir com eles, e não à margem deles, um futuro totalmente novo para Israel e a humanidade. Descobrir quais são os sinais que a humanidade hoje necessita para se descobrir como humanidade e que tipo de sinal nós podemos ser no meio dela é um desafio que nos acompanhará a vida inteira. Só não podemos deixar de ser...’sinal’ de esperança para quem parece ter renunciado a se re-erguer!