Desde há muito tempo vem causando estranheza na minha concepção teológica a natureza do sacerdócio e a sua perpetuidade tal como conhecemos hoje. Lendo e relendo as narrativas evangélicas salta aos olhos a ojeriza que Jesus alimentava em relação à classe sacerdotal em geral e às castas religiosas da sua época. Seria preciso se perguntar se essa atitude era ditada pela sua pessoal convicção de que Deus Pai não precisava de sacrifícios e de mediadores, ou seja, sacerdotes profissionais que executavam especificamente os sacrifícios num determinado espaço sagrado, ou se porque eles eram meros aproveitadores, executores incoerentes de uma prática histórica e cultural que estava açodada desde tempos remotos. Longe de nós em querer responder exaustivamente a tais perguntas. Cabe, no entanto, observar que não temos nenhum dado que relate que Jesus frequentava o templo para oferecer sacrifícios e, mais, para utilizar os serviços religiosos daqueles sacerdotes, seja qual for o serviço solicitado. Temos, isso sim, registros do repúdio veemente de Jesus para com todos aqueles que ofereciam sacrifícios e holocaustos e que achavam que mediante os sacrifícios poderiam angariar a benevolência e proteção do Pai que, diga-se de passagem, fazia chover sobre os bons e sobre os maus. ‘Misericórdia eu quero, e não sacrifícios’ repetia Jesus ao fazer coro com os profetas clássicos do Antigo Testamento. Ao considerar inúteis os sacrifícios, Jesus, direta ou indiretamente, decretava obsoleto o papel dos sacerdotes, os únicos habilitados a oferecer de forma legal e digna os sacrifícios pelo povo.
Haverá quem diga que o sacerdócio de Jesus não se inscreve no perfil-natureza do sacerdócio do Antigo Testamento. Ele teria, então, criado um outro tipo de sacerdócio? Qual, quando, onde, para que? Ou, por acaso, os seus seguidores-discípulos lhe conferiram esse ‘título-serviço’ em contraposição ao sacerdócio clássico tradicional de matriz judaica, mesmo sem possuir qualquer tipo de registro histórico e testemunho a respeito? Teriam eles, os seguidores de Jesus, atribuído algo que o Jesus histórico nunca atribuiu a si próprio, e nem de longe teria imaginado reproduzir ou recriar uma espécie de sacerdócio pessoal ‘sui generis’? Há quem se identifique com a suposta ‘teologia do sacerdócio’ contida na carta aos Hebreus, mas não cabe dúvida que ela ‘produz um sacerdócio’ que passa longe de qualquer informação histórica da consciência e da prática de Jesus a esse respeito. Certamente é sedutor afirmar que Jesus é o único e verdadeiro Sumo Sacerdote, mas, vamos lá, Jesus detestava e desacreditava os sumos sacerdotes da sua época responsabilizando-os por ter transformado o templo num covil de ladrões, corruptos e manipuladores. Teria Jesus gostado de receber tal título a distância de anos, e que fazia referência e comparação com os seus antigos opositores? E mais: entraria na cabeça de Jesus uma referência direta a um tal de Melquisedeque para justificar um suposto ‘perpétuo sacerdócio’?
O impressionante é que até hoje para justificar que um sacerdote é ‘sacerdote para sempre’ cita-se, com maior naturalidade, um velho xamã pagão (Melquisedeque), de duvidosa existência, - e Jesus, o ‘verdadeiro, o único mediador’ - está longe de ser citado por Ele não ter sustentado e justificado um sacerdócio formal que Ele jamais quis, instituiu, proclamou e defendeu...Se pudéssemos, paradoxalmente, entrar na mente-consciência de Jesus, - a partir, contudo, dos escassos dados bíblicos, - podemos intuir que o Mestre da Galileia aos seus seguidores-discípulos leigos e leigas, - a quem chamava de ‘amigos’, - nada lhes escondia, fazendo-os partícipes de tudo, assegurando, inclusive, que os gestos e os sinais que Ele fazia, eles também poderiam reproduzi-los, e até poderiam realizar coisas maiores do que as Dele. E mais: que o gesto supremo de tornar presente e atuante Aquelele Mestre que se foi, mediante a partilha e ingestão de um pão e de uma taça de ‘vinho tinto de sangue’, eles, os leigos e leigas do grupo de Jesus, estariam assegurando a Sua permanente presença, de forma singela, fraterna, sem mandato, sem ordenação, e sem posse solene.