quarta-feira, 29 de abril de 2026

Suspeitos de plantar maconha em aldeia indígena morrem em confronto com a polícia no interior do Maranhão

Nesta terça-feira (28) dois homens foram presos e outros dois morreram após confronto com a polícia durante a Operação Herba Nefanda II. A operação aconteceu na Aldeia Bananal, na divisa entre Grajaú e Barra do Corda, no sul do Maranhão. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.

Suspeitos eram naturais de Pernambuco

De acordo com a polícia, os suspeitos mortos eram naturais de Pernambuco e apontados como líderes do cultivo de maconha localizado na área, além de serem suspeitos de um homicídio na região. A operação foi coordenada pela 15ª Delegacia Regional de Barra do Corda e pelo 1º Distrito Policial de Grajaú, com apoio de forças estaduais e municipais. O objetivo foi dar cumprimento a mandados de prisão e de busca e apreensão, expedidos pela 2ª Vara de Grajaú, contra lideranças criminosas envolvidas com o tráfico interestadual de drogas e homicídios. Durante o cumprimento dos mandados, no povoado Sobradinho, os policiais foram recebidos a tiros por dois pernambucanos, que estavam entre os principais alvos da operação. Segundo a polícia, os suspeitos eram responsáveis pelas primeiras plantações de maconha que foram destruídas na primeira fase da operação Herba Nefanda. Eles também eram investigados por um homicídio na região. Durante a ação, os policiais também destruíram cerca de 80 mil pés de maconha.Foto: Divulgação / Polícia Civil do Maranhão

Troca de tiros durante a Herba Nefanda II

Houve troca de tiros, e os dois suspeitos foram baleados. Eles não resistiram aos ferimentos e morreram. Com a dupla, os policiais apreenderam uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Com a dupla, foram apreendidas uma pistola calibre .40 e um carregador de pistola Glock. Ainda conforme a investigação, eles eram apontados como líderes do cultivo de drogas e suspeitos de um homicídio na região. Outros dois suspeitos, naturais da Bahia, foram presos em flagrante durante a operação. Com eles, os policiais apreenderam armas longas, um revólver calibre .32 e grande quantidade de maconha em processo de secagem.

Tráfico de drogas e associação para o tráfico 

Os dois presos foram autuados por tráfico de drogas, associação para o tráfico e posse ilegal de arma de fogo.A operação também resultou na destruição de três áreas de plantio de maconha, com mais de 80 mil pés da droga. As plantações ficavam espalhadas para dificultar a localização e foram incineradas após a coleta de amostras para perícia.(IMIRANTE)

  

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cardeal Pizzaballa, patriarca de Jerusalém: "Todos sofrem, mas alguns ocupam e alguns são ocupados. Algoritmos decidem quem morre"

 

Em carta à Diocese de Jerusalém, o Patriarca escreve que hoje "a guerra se tornou objeto de adoração idólatra" e "os civis não são mais considerados vítimas colaterais". Ele denuncia a situação em Gaza e na Cisjordânia: "A agressão e os assentamentos estão aumentando". Um diagnóstico lúcido, que reconhece a dor de todos, mas distingue entre ocupantes e ocupados, e um apelo final à coexistência da fraternidade e da paz. O Cardeal Pierbattista Pizzaballa publicou hoje uma carta pastoral dirigida aos fiéis de sua diocese, Jerusalém, na qual exorta os cristãos a viverem sem se deixarem abater pela atual "desordem global".

"7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza significaram algo diferente e devastador para cada um dos dois povos desta terra", escreve o Patriarca Latino de Jerusalém no texto de 32 páginas. "Para os palestinos, representa a fase final e dramática de uma longa história de humilhação e êxodo. Para os israelenses, no entanto, representa algo sem precedentes: uma violência que trouxe à tona os horrores ocorridos na Europa há oitenta anos." Antes de se concentrar na missão dos cristãos de Jerusalém e examinar as implicações pastorais concretas para os fiéis, sacerdotes, jovens e idosos, famílias, escolas e hospitais, a carta pastoral faz uma "avaliação do atual estado de desordem em que a Terra Santa e o mundo caíram".

Pizzaballa, que nas últimas semanas não poupou críticas à missão de paz de Donald Trump, observa que um mundo em que "a comunidade internacional, e em particular o mundo ocidental, acreditava numa ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo" foi substituído por uma situação em que "a guerra se tornou objeto de um culto idólatra", "os civis já não são considerados vítimas colaterais" e "algumas potências mundiais, que outrora se apresentavam como garantes da ordem internacional (...) escolhem de que lado ficar não com base na justiça, mas nos seus próprios interesses estratégicos e econômicos".

Jerusalém, Gaza, Cisjordânia

As referências aos acontecimentos atuais são claras: "Os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração, estão se tornando campos de batalha pela identidade. Textos sagrados são invocados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo. Acredito que esse abuso do nome de Deus seja o pecado mais grave do nosso tempo", escreve Pizzaballa, que foi impedido de acessar o Santo Sepulcro pela polícia israelense durante a Semana Santa. Em Gaza, que Pizzaballa visitou diversas vezes desde o início da guerra, "nossos irmãos (...) viveram durante anos sob bombas, sem água, sem comida, sem remédios. E agora vivem entre os escombros". Na Cisjordânia, "a agressão causada pela ocupação e a total ausência do Estado de Direito estão aumentando, com a expansão contínua dos assentamentos. Se essa tendência não for interrompida, corre-se o risco de cristalização de uma situação de ocupação permanente que erode qualquer possibilidade de uma solução justa e compartilhada". E em Israel, escreve o patriarca, "nossos irmãos e irmãs vivem em um contexto diferente, mas não sem seus problemas: discriminação social, desigualdade econômica e crescente insegurança".

Dor e dor

"A dor é sempre dor, e não é nossa intenção hierarquizar o sofrimento", escreve Pizzaballa. "Embora respeitemos as diversas situações e reconheçamos sua complexidade, não podemos considerá-las todas idênticas: há uma diferença entre quem exerce o poder e quem o sofre, entre quem governa e quem é governado, entre quem possui armas e quem é ameaçado por elas, entre quem ocupa e quem é ocupado. As responsabilidades são diferentes. Reconhecer essa diferença é um ato de respeito à justiça e à verdade."

Morto com inteligência artificial

De maneira mais geral, o Patriarca Latino aponta o dedo para o uso da inteligência artificial na guerra: "Estamos entrando em uma fase em que algoritmos estão selecionando alvos, tomando decisões que até recentemente eram exclusivamente humanas". Pizzaballa pergunta: "Muitas vezes me perguntei, por exemplo: quantas pessoas morreram nessas guerras recentes em nosso país por causa da 'decisão de um algoritmo'?" O Patriarca Latino de Jerusalém lamenta que, também devido aos algoritmos das redes sociais, "estejamos cada vez mais nos isolando em grupos fechados, em enclaves sociais onde se encontram apenas pessoas que pensam da mesma forma, que falam a mesma língua, que compartilham os mesmos medos". Mas "esta terra — tão disputada quanto amada — é lar de todos: judeus israelenses e árabes palestinos; cristãos, judeus, muçulmanos, drusos, samaritanos, bahá'ís e pessoas de todas as outras crenças. Foi Deus quem nos colocou aqui. Nós, cristãos, em particular, temos um mandato específico: ser sal e luz onde quer que estejamos."  (IHU)


Em carta ao país, CNBB alerta para riscos da pejotização e defende trabalho digno

 

precarização das relações de trabalho no Brasil foi motivo de forte discussão na 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Além de uma Nota Técnica da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da entidade, os bispos se reuniram com o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, em uma reunião reservada durante o encontro.

A inclusão do tema na Carta aos Brasileiros, tradicional documento emitido sobre o posicionamento da Igreja Católica, sinaliza a preocupação e a prioridade que será dada pelo órgão máximo do catolicismo no país.Divulgada ao fim da Assembleia, realizada de 15 a 24 de abril de 2026, no Santuário Nacional de AparecidaSP, a Mensagem ao Povo Brasileiro reúne as principais preocupações sociais, políticas e éticas dos bispos do Brasil. O documento integra um conjunto de quatro mensagens aprovadas durante o encontro e aborda da violência urbana, o racismo estrutural até a crise climática e os desafios da democracia em ano eleitoralEntre os pontos mais graves apontados pelos bispos está o avanço de um “regime cotidiano de violência” nas periferias e no campo, o crescimento do feminicídio, a perseguição digital à mulheres, e a falta de reparação histórica pelo tráfico de pessoas escravizadasA mensagem também denuncia a corrosão ética na política, os ataques a povos indígenas e comunidades tradicionais, e alerta para os extremos climáticos que atingem biomas como a Amazônia.

O alerta sobre a pejotização

Em meio a um diagnóstico amplo, a questão trabalhista ganhou relevo próprio. A Carta ao Povo Brasileiro expressa a preocupação direta dos bispos com a discussão que está sendo realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre pontos da Reforma Trabalhista de Michel Temer. Em especial, a substituição de contratos regidos pela CLT por vínculos precários de prestação de serviços – o chamado fenômeno da pejotização“Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte”, afirmam os bispos no documento. A Carta também reafirma o direito sagrado ao repouso semanal e a defesa de escalas de trabalho que garantam qualidade de vida e convivência familiar.

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife (PE) e 2º vice-presidente da CNBB, explica que, durante a Assembleia, foram aprovadas quatro mensagens.Uma ao Papa Leão XIV, outra ao Dicastério para os Bispos, a terceira ao povo católico e, por fim, ao Povo Brasileiro, independente de religião.“Essa última é mais complexa e mais ampla”, afirmou Dom Paulo. “Sabemos que o Brasil não é para amadores. Nós tratamos das problemáticas sociais, políticas e econômicas e damos um pouco de assento ao tema das eleições que se aproximam”, registra.O arcebispo ressaltou que a CNBB repete, como já é praxe, o pedido por ética na política.

“Deve-se evitar compra e venda de votos e buscar com critérios éticos objetivos votar em pessoas que de fato possam melhorar o nível ético do nosso país, que se comprometam com a justiça e a paz”, disse o arcebispo. Ele também destacou que a mensagem ao povo brasileiro vai além da esfera meramente católica: “É um momento importante de nós saudarmos o povo para além dos círculos da Igreja.”As assembleias gerais da CNBB são os principais eventos deliberativos da Igreja Católica no Brasil. Reúne bispos de todas as dioceses do país para discutir diretrizes pastorais, analisar a conjuntura nacional e aprovar documentos públicos. Realizada anualmente no Santuário de Aparecida, o encontro tem grande peso simbólico e político, influenciando o debate sobre direitos humanosjustiça social e democracia no Brasil.

Neste ano, os bispos também reafirmaram o compromisso da Igreja com os mais vulneráveis, em sintonia com os 800 anos da morte de São Francisco de Assis.

 

Assassinatos dobram e Amazônia concentra violência no campo, aponta relatório da CPT

violência no campo brasileiro diminuiu em número de registros, mas se intensificou em gravidade em 2025. Dados divulgados pela Comissão Pastoral da Terra nesta segunda-feira (27) mostram que o país teve 1.593 conflitos por terra, água e trabalho no ano passado, uma queda de 28% em relação aos 2.207 casos registrados em 2024. O recuo estatístico, porém, veio acompanhado de um agravamento dos episódios mais extremos: os assassinatos em conflitos agrários dobraram, saltando de 13 para 26 vítimas.

Mais da metade dessas mortes ocorreu na Amazônia Legal, que concentrou 16 assassinatos, distribuídos entre ParáRondônia e Amazonas. Segundo o relatório, a região segue como principal fronteira dos conflitos fundiários no país, marcada pela expansão da grilagem, da mineração, do garimpo e do avanço agropecuário sobre terras públicas e territórios coletivos. A CPT identifica nesse cenário a consolidação de um padrão em que crime organizado, agentes privados e fragilidades do Estado se articulam sobre áreas em disputa.

Os conflitos por terra continuaram sendo o núcleo da violência agrária, com 1.286 ocorrências, das quais 1.186 relacionadas diretamente a violência por ocupação e posse, e outras 100 ligadas a ações de resistência, como retomadas, acampamentos e ocupações. Fazendeiros aparecem como principais agentes envolvidos nos assassinatos registrados, relacionados a 20 dos 26 casos, segundo o levantamento. O relatório também aponta crescimento de outras formas de violência frequentemente subnotificadas, como prisões, humilhações, cárcere privado e destruição de bens de comunidades em conflito.

Outro dado que chamou atenção foi o avanço dos casos de trabalho análogo à escravidão no meio rural. Segundo a CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados dessa condição em 2025, em um cenário que conecta exploração laboral e disputa territorial, sobretudo em áreas de expansão da fronteira agrícola e extrativa. Também persistiram conflitos por água, envolvendo comunidades impactadas por barragens, monocultivos, mineração e apropriação privada de recursos hídricos.

Embora o número total de conflitos tenha recuado, o diagnóstico da CPT é de que a violência não diminuiu, apenas se concentrou em menos territórios, com maior intensidade. Em ano marcado pela preparação para a COP30 e pela disputa em torno de agendas sobre terra, clima e infraestrutura, o relatório recoloca a questão agrária como eixo do debate socioambiental brasileiro, com a Amazônia permanecendo como seu ponto mais crítico. (IHU)


Trechos do 'Diário de Jesus' no deserto da Judeia

 

'....Sinto-me totalmente dominado por sentimentos contrastantes. De um lado um inexplicável sentimento de paz que eu não experimentava desde a minha infância, e do outro, permanecem intactas, quase que indeléveis, algumas sombras e dúvidas que venho carregando há bastante tempo... Pergunto-me como isso é possível, após aquele momento único, inesquecível, revelador no Rio Jordão em que me parecia tão real aquela percepção de que algo havia se quebrado dentro de mim. Sim, eu diria que foi uma ruptura com o meu passado um tanto insosso, diria até medíocre. Não escondo: foi um passado carregado certamente de afetos e proximidade com os meus irmãos e os meus pais, mas que vinha me deixando muitas vezes atordoado, inseguro, angustiado, e questionando o tempo todo a mim mesmo e a todos. Não tenho dúvida de que o que senti naquele pedaço de deserto, ouvindo os gritos daquele pregador um tanto desconcertante foi um chamado a rever toda a minha vida, e ainda está viva em mim a sensação de que não foi uma miragem ou uma ilusão, mas que eu devia iniciar um novo itinerário de vida. Foi como se alguém dentro de mim tenha me convencido de que o que havia feito até então não teria acrescentado nada nem a mim e nem ao pessoal da minha aldeia Nazaré. Disse a mim mesmo, naquela ocasião, que, embora sem saber o que queria ser no meu futuro próximo, tinha a plena convicção de que jamais poderia voltar a ser o que eu era antes. Esta foi o que eu considerava ser a minha única certeza no dia em que fui mergulhado nas águas daquele rio sagrado....

Não posso esconder, portanto, que, depois desses momentos exaltantes que limparam aquela neblina interior quase sempre presente na minha vida, não voltaria a sentir quase os mesmos sentimentos de incerteza e de temor. É como se a minha intuição e o meu desejo quisessem iniciar algo inédito, algo que ninguém jamais ousou fazer, mas um outro lado do meu eu me segurava por não ver claro o que, afinal, eu queria...Foi aí que senti mais uma vez uma voz interior que me pressionava a não ter pressa para voltar para Nazaré. Era come se alguém já tivesse predisposto tudo, e eu era incapaz de reagir. Tomei, então, a decisão de me retirar para uma região do deserto que eu considerava propícia para refletir, afastado do convívio humano, numa caverna que, mais tarde vim saber que era utilizada como abrigo por pastores de cabras que raramente passavam por lá. Não posso afirmar que tinha experiência de passar muitos dias longe de casa, imaginemos no deserto, lugar desconhecido para nós do Norte onde há só colinas verdejantes, montanhas, planícies férteis e água em abundância. A minha primeira noite foi mal dormida. Havia um grupo de morcegos que ia e vinha estalando suas asas, sem pensar na possibilidade de pisar à noite em algumas cobras ou aranhas. De manhã acordei pelos raios de um sol que parecia mais uma bola enorme de fogo embora o seu calor não fosse ainda intenso, mas era tão brilhoso que tornava aquele deserto que se perdia no horizonte um imenso mar de ouro e de luz. Deslumbrado com aquela paisagem inédita logo percebi que havia sido transportado numa outra dimensão. Perguntei-me se aquele deserto luminoso e deslumbrante seria o mesmo que estava a possuir o espírito, o interior da maioria da minha nação. Uma população sem esperança, aparentemente conformada e incapaz de reagir, de se unir e se rebelar com a exceção de alguns grupos da minha terrinha da Galileia. 

....O pouco que notei naquelas concentrações à beira do Rio Jordão e que me deixou um tanto entristecido era de que aquelas multidões pareciam como ovelhas de um rebanho sem cuidador, sem pastor. De imediato veio-me espontâneo associar o aparente e infecundo vazio interior que me parecia entranhado na alma do meu povo, com o deserto daquele meu primeiro dia ao sair daquela espelunca, com uma diferença incomparável: o deserto que os meus olhos admiravam e o meu espírito se embevecia era infinitamente mais carregado de luz, de brilho, de sintonia com a natureza do que aquele deserto que parecia-me dominar milhares seres humanos. Será que aquele deserto escondia algo que eu desconhecia, algum segredo, algum passado que poderia torná-lo fértil e voltar a florescer? Óbvio que não estava a pensar naquela extensão de pedregulhos e de paisagens lunares, mas naquele povo sedento de palavras de conforto, de motivações para voltar a crer e a resistir, e que tinha dificuldade de se livrar do deserto estéril que o mantinha imóvel e desnorteado...' 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

MPF obtém condenação de réu por extração ilegal de madeira em terra indígena no Maranhão

 O Ministério Público Federal (MPF) conseguiu a condenação de um homem por envolvimento em um esquema de exploração ilegal de madeira dentro da Terra Indígena (TI) Geralda Toco Preto, em Itaipava do Grajaú (MA). A sentença da Justiça Federal reconheceu a prática dos crimes de desmatamento e furto qualificado de recursos florestais. Segundo a decisão, os crimes ocorreram no contexto de um grupo que articulava a retirada e comercialização de madeira da terra indígena, com participação de indígenas e madeireiros. O documento destaca que o réu é casado com uma liderança indígena e teria usado essa condição para viabilizar o acesso e a exploração da área. A atuação envolvia divisão de tarefas, uso de equipamentos para beneficiamento da madeira e negociação com terceiros, configurando uma cadeia estruturada de exploração econômica ilegal. As investigações tiveram início a partir de um inquérito da Polícia Federal (PF) instaurado para apurar denúncias de desmatamento e extração ilegal na região, especialmente nas aldeias Sibirino e Bonita. A apuração reuniu provas obtidas em diligências, como buscas e apreensões, além da análise de materiais coletados. Laudos periciais confirmaram o desmatamento contínuo entre 2016 e 2023. Estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citado na decisão, aponta que a TI Geralda Toco Preto está entre as mais pressionadas por desmatamento no país, ficando atrás apenas de uma área no Mato Grosso. A autoria dos crimes foi comprovada por provas como mensagens extraídas de aparelho celular apreendido, que indicaram a organização da extração, transporte e venda da madeira. Apesar de negar envolvimento, o réu foi apontado como responsável por viabilizar a exploração econômica da área com auxílio de outras pessoas. A sentença reafirmou que a madeira retirada ilegalmente de terras indígenas configura bem da União, o que caracteriza o crime de furto após o corte. O réu foi condenado a seis anos de reclusão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de multa. Os outros acusados respondem em processos separados após o desmembramento da ação penal. Ainda cabe recurso da decisão.

IV domingo de Páscoa - Um pastor se não for bom, não é pastor, é mercenário e manipulador!

Um pastor, mesmo imperfeito, ou é bom no exercício da sua profissão, ou deve ser chamado com outro nome: mercenário, vendido, infiltrado. Não existem ‘maus pastores’, mas ‘aproveitadores, irresponsáveis e manipuladores’ que desvirtuam grotescamente a sua profissão e se tornam indignos de tal nome. Jesus, na versão de João, oferece algumas características para diferenciar um pastor de um mercenário que, aparentemente, exerce a mesma profissão. É próprio de um pastor conhecer as manhas e manias de suas ovelhas; conhecer o seu nome, sua índole, suas qualidades, potencialidades e defeitos; entrar em simbiose com suas ovelhas de forma que elas saibam diferenciar o timbre de sua voz, o seu cheiro, o seu jeito de se aproximar e de cuidar. As ovelhas podem divergir do pastor e ensaiar invadir outras pastagens, mas acabam confiando no pastor e escutando a sua voz porque ele lhes dá provas concretas de que as sabe proteger e cuidar. É próprio de um mercenário infiltrado e disfarçado de pastor utilizar as ovelhas para seus projetos e interesses pessoais. Ele ordena e manda nelas, não conduz e nem educa. Ele pune a rebelde, ameaça e chantageia as demais. Afinal, ele não sente as ovelhas como uma extensão de si mesmo. São mercadoria a ser exploradas e instrumentalizadas. As ovelhas percebem o seu duplo jogo, sórdido e manipulador, cheio de subterfúgios e espertezas. Seu desprezo e seu jeito impessoal. Acabam se dispersando, brigando e disputando entre si. Talvez tenha chegado a hora de as ovelhas se livrarem dos lobos intocáveis que, disfarçadamente, estão no meio delas, que pulam a cerca, mas não entram pela porteira! 


quinta-feira, 16 de abril de 2026

III domingo de Páscoa - É na reprodução das opções de Jesus que descobrimos o pão que sacia os decepcionados!

Desilusões e decepções fazem parte da vida. Às vezes elas nos parecem uma vingança da vida por termos acreditado, idealizado e sonhado demais! Parece que os discípulos de Emaús tenham feito uma experiencia similar! Jesus havia sinalizado algo inédito nas relações sociais de seus contemporâneos. Talvez eles esperassem uma possível ruptura com o passado e com o presente daquela nação. A morte humilhante do líder Jesus parece haver trazido todos os sonhos de mudança à crua realidade. Os discípulos imaginavam que ao se afastarem de Jerusalém iriam esquecer, também, seus sentimentos de decepção. Contudo, na medida em que os dois discípulos se afastam de Jerusalém, adquirem mais lucidez para entender o que lhes havia acontecido. Já não é um exercício de mera recordação, mas um processo de conversão-revelação. Um ressignificar e um reviver de forma intensa, sacramental, gestos, palavras, relações de afeto e de compaixão vivenciados com o crucificado Jesus. Compreendem que, agora, é este o pão que deveria ser partilhado e doado. É reproduzindo as opções e gestos de Jesus que se alimentam esperanças! Não precisava mais se afastar de Jerusalém, mas encarar o lugar da morte-decepção com outros olhos. Descobrir que no lugar da humilhação poderia surgir esperança renovada e vida em abunddância. Só nesses momentos reveladores que ‘os muitos’ discípulos/as decepcionados descobrem que o ‘peregrino’ Jesus sempre havia estado com eles ao longo do seu caminhar. Que Ele nunca havia se afastado deles!



quarta-feira, 15 de abril de 2026

É preciso repensar a atuação do Ministério dos Povos Indígenas. As aldeias continuam largadas e esquecidas!

A ministra do Povos Indígena Sônia Guajajara deixou o ministério para concorrer à sua reeleição como deputada federal, espaço que já era seu por direito, mas que nunca ocupou até o presente momento. Talvez, agora, até o período próprio de plena campanha, venha a exercer o mandato. Seja o que for, haveríamos de nos perguntar se a sua permanência ao longo desses três anos e meio fez a diferença para os povos indígenas do Maranhão. A primeira e instintual resposta é negativa. Algumas melhoras decorreram graças a uma série de decisões federais que independeram do planejamento e das decisões do Ministério dos Povos Indígenas. Certamente, as sedes físicas da FUNAI saíram do abandono a que estavam relegadas no governo passado e o quadro administrativo foi preenchido não por pessoas ligadas aos militares, mas por lideranças ligadas aos movimentos indígenas. Inicialmente, um tanto perdidos e inseguros diante do inédito, esses novos administradores e funcionários indígenas foram conhecendo aos poucos as entranhas e as armadilhas da máquina pública, ensaiando, testando, errando, corrigindo, sobrevivendo. Muitos outros elementos poderiam ser citados para confirmar que não houve imobilismo ou total ausência institucional, contudo, estamos longe de poder afirmar que o então inédito Ministério dos Povos Indígenas criado a seu tempo pelo governo Lula deixou um marco significativo, histórico, ao longo desses anos. Evidentemente, quem trabalha diretamente na máquina pública sabe melhor de quem olha de fora os engodos internos existentes, mas também é verdade que que está na base, nas aldeias, sentem na pele o que significa não ter estradas decentes, transporte, assistência na produção agrícola, artesanal, apoio no monitoramento e defesa dos territórios, fornecimento de água potável, educação escolar indígena de qualidade, assistência sanitária digna e muitos outros serviços que não apareceram ou foram realizados de forma muito precária, de forma que é difícil dizer que o Ministério exerceu uma influência e uma presença positiva junto às aldeias e que significou uma virada histórica. Estamos longe de poder afirmar isso! Acredito, também, que ao não corresponder às expectativas criadas, originalmente, - talvez excessivas, - tenha, ate, originado um certo mal-estar, nada bom em vista do futuro. 

Nesses anos, nas nossas andanças e colaborações com inúmeras comunidades indígenas pudemos constatar o quão longe estão uns dos outros: os funcionários e pensadores de políticas públicas específicas para os povos indígenas e os próprios indígenas que vivem, sobrevivem, lutam e trabalham para sair da...miséria, pelo menos nesse Estado! Foi justamente nesses dias que ouvi um relato de uma amiga que conheceu um alto funcionário da SESAI (Saúde Especial Indígena) do Maranhão em que ele mostrou o seu total desconhecimento da real situação de numerosas aldeias desse mesmo estado em que trabalha há mais de três anos. Ainda há um desencontro histórico e institucional. Não é suficiente colocar indígenas para cuidar de indígenas. É preciso muito mais. Não é questão só de orçamento, nem de eficiência administrativa. É preciso mergulhar nos dramas de famílias, de pais e de jovens produtores indígenas que se sentem abandonados, largados, invisibilizados não somente pelos administradores locais não indígenas, mas também pelos ‘seus’! Isso dói demais!

"O ataque de Trump ao Papa pode marcar o começo do fim para ele". Entrevista com Massimo Faggioli

"Paradoxo histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV. "O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados UnidosLeão o faz não para proteger os interesses da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca", enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.

Eis a entrevista.

Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa Leão?

O estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase CupichRobert McElroy e Joseph Tobin — que também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo, datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto, são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.

 Um dos temas centrais do pontificado desde o início, assim como fora sob o Papa Bergoglio. Por que Trump está intervindo agora?

Francisco não preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano — uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de compreender os Estados UnidosLeão XIV, por outro lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca o início de seu declínio político.

 Sério? Por qual motivo?

O trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita", personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e da inteligência artificial, que estão menos interessados ​​em defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo e seus recursos.

A "tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa, ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.

 Mas será que a decadência de Trump é realmente concebível?

O magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém, violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter sido explorada pelo trumpismo.

 Como alguns católicos em altos cargos de administração, como Vance e Rubio, poderiam reagir?

Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump, sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em 2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa. Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles podem decidir se rebelar. (IHU)

 

 


domingo, 12 de abril de 2026

Domingo da oitava de Páscoa - É HORA DE DESTRANCAR PORTAS!

Trancar portas não resolve! Não seremos jamais poupados de ameaças e perseguições. Trancar portas só nos ilude, temporariamente, de que estamos seguros e protegidos, mas de quem, afinal? Trancar portas impede que olhemos para a cara de quem, supostamente, nos persegue, e possamos enfrentá-lo no diálogo, nas argumentações, no testemunho. Trancar portas impede que os gritos e os clamores de milhões de crucificados cheguem os nossos surdos ouvidos. Trancar portas não irá impedir que façamos as contas, mais cedo ou mais tarde, com os nossos medos e covardias. Enfim, é muito mais o que perdemos do que ganhamos ao fechar as portas do nosso coração! Difícil ver e crer no Ressuscitado numa igreja trancada, fechada, refém de seus medos interiores e de ritos que tornam o Ressuscitado um mero fantasma que entra e sai sem arranhar o nosso jeito ser! O Ressuscitado pode penetrar sim, nas nossas jaulas sagradas, mas não nos convence e nem nos mobiliza para a missão, pois o medo distorce a realidade e deforma os supostos discípulos! Pobre aquela igreja que acha que é somente no silêncio da adoração do pão eucarístico não partilhado, que emudece os clamores dos famintos, que vai fazer a experiência vital do Ressuscitado!!! É preciso ousar, romper o silêncio alienante e o temor sagrado e destrancar portas como fez Tomé, o Dídimo, o gêmeo de Jesus. É enfiando o dedo nas feridas e nas veias abertas da humanidade, curando, assistindo, protegendo vidas que experimentaremos vida! Talvez descubram os que os nossos perseguidores são os nossos próprios medos! A hora é de destrancar portas para não morrermos asfixiados!

domingo, 5 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO, HOJE - Testemunho real de uma mãe que perdeu a única filha

'No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos'

TESTEMUNHO VERDADEIRO DE UMA MÃE QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

‘Não me contive. Comecei a gritar como louca. Fiquei estarrecida e incrédula, mas após alguns instantes caí em mim mesma e comecei a acreditar no que meu marido acabava de me informar. A nossa única filha, de 23 anos, acabava de ser esmagada por um caminhão. Morreu na hora. Ela estava indo ao trabalho, de manhã, bem cedo. Os peritos achavam que ela devia ter encostado na sarjeta, perdido o equilíbrio e caído no asfalto. Logo atrás estava chegando um caminhão que não pode evitá-la. Não gosto de lembrar, mas não tem como tirar de mim aquele momento de dor que ainda me consome, mas que, agora, convivo com ele tendo um olhar bem diferente.... Passei noites inteiras sem dormir. Cochilava, mas acordava espantada, sobressaltada. O pensamento voltava àquelas imagens horríveis de minha filha toda deformada. Um corpo que era perfeito, ela era uma atleta, uma menina alegre, linda, cheia de vida, de iniciativas, amada e idolatrada pelos seus amigos e amigas com os quais ela saia, sistematicamente. E, agora, reduzida a um amontoado de carne dilacerada. Nos primeiros dias pensei besteiras. Não escondo não, já pensei em fazer coisas contra mim mesma para me livrar daqueles pensamentos obsessivos e recordações que alimentavam o meu cotidiano tornando-o insignificante, sem sentido....

Todos os dias, às cinco da tarde montava na minha bicicleta e ia ao cemitério. Levava comigo velas e flores. Não fazia isso para que Deus tivesse compaixão de minha filha. Para dizer a verdade, nunca acreditei em Deus e nem podia responsabilizando-o pela morte de minha filha. As velas e as flores eu as depositava naquele jazigo como se eu quisesse dizer para minha filha que a sua mãe continuava a amá-la. Que ela não estava sozinha, não sei...tinha virado uma rotina. Lembro que depois de 5 meses de idas e vindas do cemitério, uma bela noite meu marido me chamou e com dureza me disse que se eu continuasse assim ele iria perder duas pessoas queridas, e não só uma como, de fato, já a havia perdido, mas também eu. Não tive nem força para responder. Escutei calada e me levantei. Já não me importava mais nada. Viver ou morrer, continuar com ele ou sem ele, para mim era tudo a mesma coisa. 

Mas, eis que uma tarde, após ter depositado as costumeiras flores e velas, ao contemplar a foto da minha lindinha, veio à minha mente algo que ao longo daqueles seis meses nunca havia aflorado. Pensei como poderia estar, agora, a minha filha depois de seis meses naquela cova, naquele caixão...Imaginei que deveria ter ainda os seus longos e castanhos cabelos, a sua melhor roupa que lhe foi colocada no dia do enterro, os sapatos, mas o corpo em si....meu Deus, gelei. Fechei os olhos e vi minha filha sem carne, sem pele, uma cabeça....não, uma caveira. Arrepiei toda. Senti uma revolta interior jamais experimentada. Repeti duas vezes para mim mesma: minha filha virou um cadáver? Um esqueleto? Não pode ser! Nunca havia pensado nisso, pois eu a via sempre linda, bonita, elegante....nunca havia me detido em imaginar que com o passar do tempo os corpos se deterioram...Não aguentei, chorei, mas saí rapidamente do cemitério. Não queria ficar lá nem um minuto a mais. Acho que estava revoltada comigo mesma. Afinal, passei meses indo visitar o lugar errado. Cemitério, queiramos ou não, é o lugar onde se depositam os cadáveres ,e não pessoas vivas. Sei que é triste dizer isso, mas é a dura realidade. E minha filha não é, e nunca foi, um cadáver, um esqueleto! Intuí que nunca mais voltaria para lá! Cheguei ao nosso apartamento e encontrei meu marido sentado no sofá assistindo tevê. Me aproximei dele um tanto sem jeito e sentei-me ao seu lado. Ele me olhou e nada disse. Já sabia de onde eu vinha. Aí tomei coragem e falei para ele: ‘querido, se não se importa, gostaria que você fosse comigo, sábado, agora, de manhã na estação de trens e na rodoviária’. Ele me olhou com ar de surpresa quase sem entender o motivo de tal pedido, mas eu expliquei logo para ele. Iríamos rever os amigos e amigas da nossa filha que, certamente, deveriam estar lá cuidando do pessoal de rua, oferecendo café, caldo, cobertores, roupas.... Havia tomado a decisão de conhecer minha filha e, talvez, já vinha acalentando um recôndito desejo de senti-la mais próxima de mim naquilo que ela fazia quando estava entre nós. Saber como era vista pelo grupo dela, o que pensava....enfim, percorrer o seu itinerário nesses ambientes e conviver um pouco com os amigos e amigas dela. Talvez fosse uma forma diferente de senti-la mais presente, mais viva...não sei..... 

Passamos a manhã daquele sábado observando, conversando, vendo o carinho, a paciência, a dedicação do grupo de nossa filha para com aquelas pessoas maltrapilhas, de rosto tristonho, mas que se iluminava quando se aproximava alguns daqueles jovens. Foi algo inesquecível. Confesso que fechei os olhos e na minha mente vi também minha filha, lá, oferecendo um caldo quente, café com leite, pão, com aquele jeito cativante que ela tinha com todos. Percebi que era aqui que devia ter vindo desde o começo, mas, como diz o ditado, ‘antes tarde do que nunca’. Depois disso, visito o jazigo de minha filha uma vez por ano, mas não para falar com ela, pois eu sei que não está lá, mas só para que as pessoas não digam que eu estou a desleixar a sepultura de minha filha...ah, não, de minha filha, não. A sepultura dos restos mortais de minha filha. Minha filha mesmo, nunca morreu. Hoje posso dizer isso. Ela continua vivinha e atuante naqueles jovens da estação, da rodoviária, das casas de repouso onde eles continuam a assistir e a acolher e a dar motivações para viver para muita gente’

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CARTA DE JUDAS - Por Kécio Rabelo

Não sei a quem escrevo.
Talvez a ninguém. Talvez a todos. Talvez à parte de mim que ainda insiste em procurar sentido depois que o mundo escureceu ao meio-dia.

Conheci Jesus como quem encontra um caminho no meio da poeira.
Não o compreendi de imediato. Ninguém compreendia por inteiro.
Havia nele uma calma que inquietava. Um silêncio que dizia mais que qualquer palavra. E, quando falava, não era apenas ouvido — era sentido, como se suas palavras atravessassem a pele e tocassem algo que ainda não tinha nome.

Eu o segui.

Como tantos outros, segui com esperança e cálculo misturados.
Esperança de redenção. Cálculo de futuro.
Queria nele o libertador — mas um libertador à minha medida.
Talvez tenha sido esse o meu primeiro erro: tentar encaixar Deus dentro das minhas expectativas.

Houve dias luminosos.
Multidões, curas, pão repartido que não se esgotava.
Mas houve também momentos que me desarmaram — como aquele jantar na casa de Zaqueu.
Ali, vi um homem que todos desprezavam ser acolhido sem reservas.
E algo em mim se revoltou.
Não era apenas incompreensão — era incômodo diante de um amor que não fazia distinções.
Um amor que não obedecia à lógica dos merecimentos.

E havia o silêncio dele…
Sempre o silêncio.
Um silêncio que me expunha mais do que qualquer acusação.

Na última ceia, tudo pesou.

O tempo parecia arrastar-se.
Cada gesto carregava um adeus escondido.
Ele falava de entrega, de corpo, de sangue… falava de traição.
E nós — tão próximos e tão distantes — fingíamos não entender.

Quando disse que um de nós o trairia, senti o chão ceder.
Mas permaneci.
Imóvel por fora. Em ruína por dentro.

Na noite do jardim das oliveiras, tudo se decidiu.

A escuridão tinha peso.
Havia passos, vozes, pressa.
E havia o beijo.

Nunca um gesto tão simples carregou tanta condenação.
Nunca algo tão pequeno abriu um abismo tão grande.

Não foi ódio. Foi pior.

Foi fraqueza disfarçada de decisão.
Foi pressa vestida de propósito.
Foi tentativa de controlar o que só poderia ser acolhido.

Talvez eu tenha acreditado que estava apressando Deus.
Que estava provocando o desfecho.
Que Ele reagiria com poder.

Mas Deus… não reage como esperamos.

Na sexta-feira, eu vi de longe.

Entre sombras, escondido entre gritos que mudaram de lado com uma facilidade assustadora.
Os mesmos que aclamaram, condenaram.
Os mesmos braços que ergueram ramos agora apontavam sentenças.

Eu vi o peso da cruz.
Vi o corpo ferido.
Vi o céu escurecer.

E, pela primeira vez… vi com clareza.

Não havia estratégia.
Nem havia erro de cálculo.
Não havia derrota.

Havia amor.

E eu não soube reconhecê-lo.

O som dos martelos não saiu de mim desde então.
Cada golpe não ecoa apenas na cruz — ecoa dentro de mim.
Porque não foi apenas a Ele que eu traí.

Eu me traí.

Traí aquilo que vi.
Traí aquilo que soube.
Traí a verdade quando ela exigiu de mim algo que eu não quis dar: confiança.

Carrego moedas que não compram silêncio.
Carrego lembranças que não permitem descanso.
Carrego um nome que será repetido como sinônimo de queda.

E talvez seja justo.

Mas escrevo.

Escrevo porque minha história não termina em mim.
Ela se repete — silenciosa — em cada escolha pequena, em cada desvio quase imperceptível, em cada momento em que trocamos o essencial pelo imediato.

Há em nós uma fissura.
Uma distância entre aquilo que sabemos ser o bem… e aquilo que escolhemos fazer.
E é nessa distância que nascem as maiores quedas.

Eu caminhei ao lado da verdade — e ainda assim a perdi.

E é isso que torna tudo mais duro.

Porque o perigo não está em não conhecer.
Está em conhecer… e ainda assim não sustentar.

Hoje entendo:
o erro mais profundo não é trair por ignorância — é trair por incapacidade de permanecer.

Na manhã da ressurreição, eu não estava lá.

Mas eu sabia.

Sabia porque o vi devolver vida onde só havia morte.
Vi-o acender esperança onde tudo era ruína.
Porque, mesmo quando tudo parecia perdido… Ele permanecia.

E é por isso que escrevo com a última verdade que me resta:

há sempre uma manhã depois da noite — mas nem todos suportam atravessar a noite.

No fim… não se enganem.

Eu não sou apenas o homem que o traiu.

Eu sou o homem que quis atalhos.
Que preferiu o imediato ao eterno.
Que trocou confiança por controle.

E, por isso mesmo,
sou o espelho que ninguém quer encarar.

Porque Judas, o Escariotes,
não é apenas um nome na história.

É a possibilidade que habita cada um de nós.
É a escolha silenciosa que fazemos quando abandonamos o que sabemos ser certo.
É o gesto pequeno que abre grandes abismos.

Mas outra vez é Páscoa.

E, outra vez, a travessia está diante de nós.

Sem moedas.
Sem cálculos.
Sem atalhos.

Apenas um caminho estreito — onde só passa quem tem coragem de confiar.

E talvez seja essa a diferença entre mim…
e aqueles que ainda podem recomeçar.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

QUINTA-FEIRA SANTA - UM PÃO ESPECIAL PARA TODOS, PARA 'SANTOS' PECADORES, E PARA 'PECADORES' SANTOS! - Um conto -

 

 

Um padeiro especial

Chegou, surpreendentemente, resplandecente, a manhã de quinta-feira santa e, como de costume, Antônio José, de inegável ascendência italiana, saiu para o mercadinho do velho e renomado Augusto, conhecido como ‘Bigode Doce’, - como ele mesmo gostava de se autodenominar.

- ‘Lá vem o madrugador...’ exclamou, com o seu vozeirão, como se estivesse à sua espera.

- ‘Bom dia, Antônio José, meu ilustre e estimado freguês’, não sem esconder uma veia de ironia.

- ‘Não esqueci, não, da sua promessa que você cumpre religiosamente toda quinta-feira santa...e andei me preparando, viu? antecipou-se Augusto.

- ‘Bom dia, bom dia’, repetiu Antônio José com ares de meio chateado e meio preocupado.

- ‘Imaginei, afinal, faz mais de 15 anos que venho aqui a comprar em suas mãos a matéria prima para a minha arte...’ respondeu Antônio José.

- ‘Você vai querer cinco ou mais pacotes de farinha de trigo’? – adiantou-se Augusto.

- ‘Ontem, o atacadista de minha confiança deixou aqui dois sacos de 50Kg de farinha de trigo legítima, sem misturas. Ela vem direto do moinho, lá do porto, viu? Com certeza vem do sul do País, talvez do Rio Grande do sul. Soube que o Brasil aprendeu a cultivar trigo e a fazer uma farinha de excelente qualidade? Que seja!’ sentenciou, o Bigode Doce.

- ‘Que bom, fico feliz, espero que desta vez o meu pão tenha um sabor especial’, disse o Antônio, ao lembrar, na sua mente, o incidente do ano anterior em que o pão que ele havia produzido com dedicado afinco, no final, não pode evitar o gostinho sutil de farinha mofada.

Não que o pessoal tenha dado fé desses ínfimos defeitos, ao contrário, o havia achado fragrante e saboroso aquele pão, mas ele, cricri como sempre foi, não ficou entusiasta da sua obra e não queria que acontecesse o mesmo. 

Antônio José, de fato, era conhecido por ser um perfeccionista. Encontrava defeito em quase tudo; não somente nos outros, mas também naquilo que ele mesmo fazia. Desta vez iria prestar mais atenção e, após a publicidade do Augusto, tinha certeza de que não iria falhar, mas não sem antes cheirar e apalpar aquela farinha de trigo que, agora, lhe era oferecida em suas mãos.

Ele examinava, meticulosamente, com gestos sincronizados, quase mecânicos repetitivos, dando até a impressão de ser conduzido por uma leve neurose, aquela cândida farinha. Fazia-a escorrer em suas mãos largas e rugosas e a levava delicadamente às suas aprimoradas e exigentes narinas. Depois desse ritual, Antônio José se dirigiu ao Bigode Doce e deu-lhe a conhecer a sua decisão: iria comprar logo 6 pacotes. Ele havia calculado, mentalmente, que seis quilos de pão eram mais que suficientes para dar conta da sua antiga promessa...

- ‘E aí, passou no teste a minha farinha’? sussurrou, jocosamente, o Augusto, bem baixinho no ouvido daquele exigente e respeitado freguês.

- ‘Parece que sim’, respondeu-lhe Antônio, - ‘pelo menos nessa primeira fase da minha empreita. Vamos ver como a sua farinha vai se comportar quando se transformar em massa a ser sovada’, respondeu-lhe aquele padeiro de ocasião.

Uma curiosa promessa

Efetivamente, Antônio José nunca foi padeiro de verdade, nunca vendeu pão para nenhuma freguesia. Transformava-se em produtor refinado de pão somente num dia do ano: na quinta-feira santa! Fora isso, ele era um fiel apreciador de arroz e feijão de todos os dias, sem esquecer, contudo, da sua insubstituível banana prata que, ele dizia, combinava com tudo, e dava consistência e valor à refeição.

Eram poucas as pessoas que sabiam, vagamente, o sentido daquela promessa de produzir pão na quinta-feira santa e distribui-lo, graciosamente, fora da porta da igreja matriz, justamente após a celebração do lava-pés e da santa eucaristia. Antônio José evitava aparecer na igreja na hora da celebração solene, e muitos se perguntavam como uma pessoa como ele, com uma iniciativa tão simbólica e caridosa, não participava daquele mistério de serviço e de partilha que era o que, de fato, se queria celebrar.

Ano após ano, os fregueses da matriz já sabiam que iriam encontrar fora da porta da igreja o Antônio José com três paneiros cheios de pão crocante e cheiroso. Aliás, havia alguns devotos espertinhos que não escondiam, e não deixavam de falar em boca pequena que a parte mais interessante da missa era o que vinha depois dela: a distribuição dos pães daquele padeiro improvisado e amador, mas que produzia um pão de excelente qualidade e de sabor inimitável que nenhum outro padeiro profissional da cidade sabia fazer.

 Um padre escravo dos preceitos

O padre Queiroz, pároco da matriz de Nossa Senhora da Conceição, ele sim, sabia o motivo real da promessa do Antônio José, mas fingia ignorar e, principalmente, mudava de conversa quando alguém perguntava.

Corria o ano de 2011, numa segunda feira da semana santa, quando Antônio José foi até a secretaria paroquial para tirar algumas dúvidas com o padre Queiroz. Aquele ministro de Deus havia chegado dois anos antes para tomar de conta daquela paróquia, mas já conhecia quase toda a sua freguesia, inclusive o Antônio José.

- ‘Bom dia padre, a sua bênção’, disse com um largo sorriso.

- 'Deus te abençoe, irmão’, respondeu gentilmente, padre Queiroz.

- ‘Quais bons ventos te trazem aqui, homem de Deus...’?

- ‘Vim me confessar, padre! Tem um tempinho para ouvir esse pobre pecador?’

- ‘Sim, claro, vamos para esse quarto ao lado, é mais tranquilo, aqui ninguém nos incomoda’ disse o padre convidando-o a se dirigir a um quarto bem austero, abafado e com vários quadros de bispos na parede, e o do papa em exercício.

- ‘Acomode-se nessa cadeira, não precisa você se ajoelhar...’ tranquilizou-o o padre.

Antônio José um tanto titubeante, sentou-se, fixou o padre já sentado na sua frente a abriu o coração....

-‘O senhor deve ter reparado que as poucas vezes que participo de suas missas eu não comungo’, começou o penitente, sem ter coragem de olhar diretamente o seu confessor. E continuou: ‘Depois que a Rosália me largou por outro homem há mais de 9 anos eu fiquei vivendo que nem solteiro comportado por quase três anos, mas aí, Deus colocou no meu caminho a Alcione, um anjo de Deus. Não sei por que Deus não a colocou no meu caminho quando havia chegado a minha hora de ter família própria....Destino é assim, ninguém planeja, só acontece sem a nossa permissão ou sem a nossa censura. Moral: desde que me juntei com a Alcione deixei de comungar como me ensinaram desde criança’.

O padre Queiroz com os olhos semiabertos ouvia atentamente aquele homem que falava pausadamente e com ar compenetrado.

Vivo com esse anjo maravilhosamente bem. Não que não haja algumas pequenas incompreensões, mas tudo resolvemos no diálogo e no entendimento...de forma que eu pensei, padre, que na quinta feira santa eu poderia comungar, o que o senhor acha? Afinal, estou amando e me sinto amado e nada melhor do que receber o corpo do Senhor juntamente com a Alcione até como expressão de comunhão entre......’

- 'Para, para....bem aí’ interrompeu o padre Queiroz.

- ‘Está me dizendo que vocês, justamente no dia da instituição da Santa Eucaristia, querem receber a comunhão indevidamente?’ exclamou um tanto alterado o confessor.

- ‘Como ‘indevidamente....’ interveio o Antônio José.

- ‘Padre, acabo de lhe falar que estamos nos amando e provando isso todo dia, e é justamente por isso que nos sentimos em condição de receber o corpo de Cristo, em que pesem nossas fragilidades e pequenas divergências...Onde está o crime?’, concluiu, Antônio José.

O padre Queiroz já visivelmente irritado com o que o seu penitente acabava de lhe colocar interveio com autoridade.

- ‘Nem pense em fazer isso. Comunhão é coisa séria. Vocês vivem em situação irregular perante Deus e perante a igreja. Vocês são ’amasiados’, não casados! Percebem a gravidade disso?’ afirmou o padre, levantando a voz e se ajeitando na cadeira, dando a impressão que queria se levantar e não deixar mais que a conversa fluísse entre confessor e penitente.

- ‘Permita-me, padre, por favor...veja.....queria só lhe colocar o meu ponto de vista.... deixe terminar o raciocínio...’ balbuciava o desconsolado Antônio, já observando que o padre havia se levantado e um tanto vermelho no semblante, andava depositando desordenadamente a sua estola em cima de uma mesinha de ferro....

A essa altura Antônio também se levantou e, mesmo com um andar tímido e olhando de soslaio aquele confessor, se aproximou dele e se colocou na sua frente...

Um cristão especial

- ‘Desculpe-me, padre, mas o que o senhor está falando ofende em primeiro lugar os ensinamentos do nosso Mestre Jesus e vou lhe dizer o porquê’, começou, agora com coragem surpreendente, o Antônio.

E prosseguiu:’ Pelo que sei Jesus na quinta feira da sua paixão deu pão também para aquele traidor do Judas e aos outros apóstolos que pouco tinham de santo não recusou nem pão e nem vinho, do mesmo jeito que ele fez ao longo da sua vida inteira...

Me desculpe padre, pois não quero ensinar o ‘pai nosso’ ao vigário, mas o senhor deve estar lembrado o tanto de refeições que Jesus tomava com ladrões públicos, corruptos, fariseus hipócritas, prostitutas e amasiados e sabe por que, padre’? continuava um tanto exaltado Antônio José, parecendo perder quase o controle.

Porque Jesus veio para os pecadores e não para os supostos justos! Porque Jesus acreditava que acolhendo as pessoas e não as rejeitando, elas sairiam daquele encontro fraterno totalmente mudadas! Sei que sou pecador, padre, mas não porque estou vivendo com a pessoa que amo. Mesmo que quisesse regularizar a minha situação, para vocês nem poderia pois, a minha primeira mulher está viva e vivendo com outro. Afinal que culpa eu tenho se ela me largou? Eu tenho que viver casto até à morte dela para poder casar-me com Alcione? O senhor acha que viria aqui e lhe abrir o coração com sinceridade e com boas intenções se não sentisse dentro de mim o desejo verdadeiro de comungar? Um pilantra, padre, não faria isso! Por que me excluir desse jeito? É esse o amor que o senhor prega’?

O padre Queiroz tentava se encaixar naquele impetuoso monólogo, mas não encontrava brechas e, talvez, argumentações. Afinal, o padre Queiroz como muitos outros clérigos só repetia o que lhe ensinaram e aprenderam: não pode, não deve, é pecado, é sacrilégio, Deus pune, Deus castiga, vai para o inferno....e muitas outras expressões de condenação.

Finalmente, o padre Queiroz deteve com um gesto um tanto brusco a fala do Antônio e fixando-o nos olhos sentenciou:’ prezado, esta é a lei da igreja! Pronto. Aconselho-lhe a não aparecer para comungar na quinta-feira santa porque terei a obrigação moral de lhe recusar a hóstia! Falei, pronto’! E saiu, apressadamente.

Uma Eucarista diferente

Antônio José sentiu um nó na garganta quase a sufocá-lo. Sabia que não era arrependimento por ter falado tudo aquilo para um padre. Sentia que era mais fruto de um desencanto, de uma decepção que não imaginava poder experimentar, um dia. Saiu mansinho, cabisbaixo, da secretaria e se dirigiu para a sua casa. Demorou o dia e a noite toda para tentar digerir aquele desencontro com o padre Queiroz.

Na madrugada daquela fatídica quinta-feira santa Antônio José acordou Alcione.

Amor, passei a noite em branco, lutei comigo mesmo, relutei, mas tomei uma decisão....ou melhor, fiz uma promessa’.

Alcione visivelmente chateada o olhava incrédula. Afinal, eram as três da madrugada.

- ‘O que foi homem, o que andou inventando’ disse-lhe, ela.

- ‘Não, não... deixa para lá, desculpa....volte a dormir, querida. Desculpa’.

O único e moderno sino da torre da matriz anunciava o início da missa de lava-pés, e nada de Antônio José aparecer. Alcione um tanto desconsolada e preocupada com a ausência do companheiro que havia saído ainda cedo decidiu que já não valia mais a pena esperá-lo e se dirigiu, rapidamente, à igreja matriz que ficava a uns 10 minutos, andando. Ao chegar à praça ficou boquiaberta ao notar que Antônio José já estava lá e ao seu lado três grandes volumes que, na hora, não conseguiu identificar.

- ‘O que aconteceu, querido.... esperei por ti, até agora. O que está fazendo aqui fora da igreja? Virou vendedor ambulante? O que você tem aí, nesses bagulhos’? indagou ela.

Antônio José com um sorriso maroto, mas cheio de luz, retirou a lona de tecido que cobria os vistosos volumes e, imediatamente, Alcione foi invadida por um agradável perfume de pão. Ficou estupefata.

- Onde foi comprar esse tanto de pão? Para que é isso? O que lhe deu na cabeça, homem? Perguntou com ar de espanto, Alcione.

Eu fiz'! disse orgulhoso Antônio José.

E continuou: 'Amor, depois daquela conversa que eu tive com o padre eu refleti muito....muito mesmo. Achei que não podia deixar correr tudo aquilo sem nada fazer. Não queria expor o padre, fazer futrico, polemizar...me entende?  Decidi fazer aquilo que eu acho que Jesus faria numa quinta-feira santa: oferecer, de graça, o pão da compaixão, do perdão infinito a todas as pessoas que desejam se sentir perdoadas e que se dispõem a perdoar...

Falei para mim mesmo que toda quinta-feira santa iria produzir o melhor pão da cidade e o ofereceria a todas aquelas pessoas que iriam celebrar a eucaristia na igreja, mas que sairiam de lá sem ter podido comungar. Pessoas que, como nós, são excluidas de comer o verdadeiro pão que sacia a verdadeira fome de amor e de fraternidade. 

Aqui estou eu para lhes oferecer um pão que não exige nem perfeição e nem santidade para ser comido’.

Alcione olhou intensamente Antônio José. Sentia que seus olhos estavam afogando naquelas lágrimas que agora escorriam copiosamente do seu rosto, incapaz de dominá-las. 

Depois pegou na mão de Antônio José e lhe sussurrou: ’eu vou ficar aqui contigo e vou te ajudar a distribuir o pão. A partir de hoje seremos dois a pagar a promessa, até que Deus nos der saúde e força’! 

Feliz Quinta-feira santa!