sábado, 4 de fevereiro de 2023

VIOLÊNCIA E SANGUE CONTRA OS GUAJAJARA DA T.I. ARARIBOIA. UMA REFLEXÃO - Por Claudio Bombieri (Ass.Carlo Ubbiali)

Muitos requerimentos de investigação, cartas de denúncia e de pedidos de intervenção e de segurança vêm sendo publicados, ultimamente, a respeito de mais uma onda de assassinatos tendo como alvo, de modo especial, indígenas Guajajara da Terra Arariboia, o segundo maior território indígena do Maranhão. Muitos se perguntam o que, de fato, está acontecendo na região, e porque estão ocorrendo tantos homicídios em tão breve espaço de tempo. Talvez o grande público esteja um tanto desatento com a realidade indígena nacional e local, e não lembre que desde há vários anos inúmeros indígenas Guajajara das Terras Canabrava e Arariboia são sistematicamente atropelados, espancados, ameaçados, explorados e assassinados, embora em alguns determinados momentos possa ter havido uma certa descontinuidade. 

Analisando sem pretensões as três mortes de Guajajara e de um funcionário ligado a eles, e mais duas tentativas de assassinato no curto prazo de duas semanas, no eixo Grajaú-Arame-Amarante, - municípios em que incidem as terras indígenas, - há algo que chama a atenção. Paradoxalmente, esses homicídios e ameaças à integridade física dos indígenas parecem não seguir uma determinada lógica comum. A ação criminosa parece não se pautar pelo ‘princípio da seletividade’ em que são alvejadas, por exemplo, notórias lideranças indígenas que, supostamente, estariam a incomodar interesses locais. As vítimas não são líderes conhecidos pela mídia. São jovens, adultos, pais de famílias, gente comum, anônimos. Para os assassinos, essas vidas ceifadas parecem ter como única culpa o fato de serem, simplesmente, indígenas Guajajara! E, mesmo supondo que possa existir o movente da ‘vingança’ como justificativa radical de solucionar eventuais conflitos interpessoais, jamais se fez recurso à liquidação física pura e simples de um suposto rival com tamanha brutalidade e leviandade. Pelas informações que se possui até o presente momento é difícil identificar um ‘modus operandi’ comum nos diferentes homicídios ocorridos ao longo dessas semanas. 

Uma coisa, contudo, parece saltar aos olhos de muitos observadores: nunca foi tão fácil matar um índio e não ser preso por causa disso. É verdade que o sistema policial regional nunca mostrou interesse em investigar com competência para descobrir e punir o assassinato de um indígena. Por outro lado, nunca como agora têm surgido circunstâncias sociais e políticas tragicamente propícias para que os ‘caçadores de índio’ intensificassem seus ataques pessoais e de grupo. Nunca como hoje esses ‘grupos velados’, aparentemente sem nome e sem identidade, se sentiram tão politicamente respaldados para levar a cabo seus intentos racistas, exterminadores e antiindígenas. Não se pode excluir a hipótese, também, de que esses homicídios são terrificantes sinalizações e verdadeiras intimidações dirigidas às lideranças indígenas locais que estão se opondo a toda tentativa de comercialização de madeira nobre, de possibilidade de investimentos do agronegócio em terra indígena e outras forma de ocupação ilegal do território. Uma espécie de brutal alerta para que as lideranças indígenas e os ‘guardiões da floresta’ recuem e se sintam coagidos a não mais praticar ações de defesa e de monitoramento. 

A execução desses crimes de ódio racial e de intimidação deixam pistas que poderiam ser razoavelmente rastreadas. Contudo, a má vontade, as tácitas cumplicidades, as inconsistentes alegações de falta de incompetência jurídica, e a inexistência de fortes pressões locais e regionais sobre aqueles que têm o dever de investigar faz com que, após a comoção do momento, tudo volte à terrificante ‘normalidade’. Finalmente, poder-se-ia listar um conjunto de medidas a serem tomadas em diferentes níveis, - como, por exemplo, a federalização desses delitos, - ‘para que fatos como esses nunca mais voltem a se repetir’.  Entretanto, sabemos quão árduo é o caminho que educa ao respeito do ‘outro’, e quão desafiadora é a trilha que nos leva a venerar a sacralidade dos corpos e dos solos, dos igarapés e das florestas encantadas. Talvez tenha chegado a hora de não mais reprimir indignação e raiva; de não mais se conformar com a publicação de alguma polida manifestação de repúdio e de solidariedade moral com tantas vítimas indígenas; de cessar, enfim, de redigir cartas-denúncia e abaixo-assinados dirigidos aos imutáveis ‘órgãos competentes’. 

Talvez tenha chegado a hora de neutralizar de mil maneiras, com firmeza, os prepotentes e os arrogantes, os racistas e os preconceituosos. Ainda podemos reiniciar de forma original e ousada, novas e singelas formas de convivência, de acolhimento, de colaboração, e de produção com comunidades indígenas, com pessoas e diferentes grupos sociais que vivem no nosso mesmo espaço social. Talvez, nesses anos de trevas tenhamos nos esquecidos que essas pessoas-comunidades que interagem conosco de múltiplas formas continuam sendo irmãos, parceiros e cidadãos da nossa mesma e única ‘terra-pátria’! 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

As dores de cada indígena são também da igreja”. Nota da CNBB em solidariedade aos Yanomami

 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta terça-feira, 31 de janeiro, uma nota intitulada “Em defesa dos povos originários” motivada pela realidade vivida pelo povo Yanomami que, segundo o documento, é a “síntese da ofensiva contra os direitos dos povos indígenas agravada nos últimos anos”. 

A realidade, segundo a nota, foi denunciada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em seu relatório anual. De acordo com a nota da presidência da CNBB, “a realidade vivida pelo povo Yanomami é, pois, síntese do que apresenta o relatório do CIMI. Os povos originários, integrados à natureza, têm sido desrespeitados de modo contumaz, a partir da ganância, da exploração predatória do meio ambiente, que propaga a morte em nome do dinheiro”. Essa realidade, defende a Conferência, deve despertar santa indignação no coração de cada pessoa, especialmente dos cristãos, que não podem fazer da defesa da vida uma simples bandeira a ser erguida sob motivação ideológica. “A vida tem que ser efetivamente defendida, não apenas em uma etapa específica, mas em todo o seu curso. E a defesa da vida humana é indissociável do cuidado com o meio ambiente”, reitera o documento. Na nota, a CNBB pede às autoridades um adequado tratamento dedicado ao povo Yanomami e a cada comunidade indígena presente no território brasileiro. A CNBB pede ainda que “diante da gravidade do que se verifica no Norte do País, das mortes, principalmente de crianças e de idosos, sejam apontados os responsáveis, para que a justiça prevaleça”. A CNBB reforça que a Igreja Católica no Brasil está unida ao povo Yanomami, solidariamente, com sua rede de comunidades de fé. “As dores de cada indígena são também da Igreja, que, a partir de sua doutrina, do magistério do Papa Francisco, vem ensinando a importância dos povos originários na preservação do planeta”.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Garimpeiros desviam e vendem remédios enviados a indígenas

Remédios do SUS destinados ao tratamento de malária estão sendo vendidos em grupos de WhatsApp em que garimpeiros comercializam de tudo, de balsa para exploração de minérios a mercúrio em Roraima. O Ministério da Saúde apura se houve desvios dos medicamentos que seriam destinados a indígenas Yanomami. 

No grupo, chamado de "Amigos do Rio Uraricoera" - em referência à principal via fluvial usada pelos garimpeiros para chegar aos acampamentos dentro da Terra Indígena Yanomami, uma pessoa segura cartelas de medicamentos e faz a oferta: "tratamento para malária". Outro, anuncia: "remédios para malária disponível". Em outro momento, um homem compartilha uma imagem dos remédios artesunato + mefloquina e pergunta: "alguém te disponível eu quero 50 tratamento desse [sic]]. O medicamento é indicado para o tratamento de malária Plasmodium falciparum, o tipo mais grave da doença e que pode levar à morte. Homem pede 50 unidade de remédio para malária em grupo de garimpeiros 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) suspeita o artesunato + mefloquina foi o medicamento desviado para atender garimpeiros invasores. Por isso, o Ministério da Saúde abriu investigação. Nas mensagens sobre o medicamento de malária, todos têm os números de telefone com o DDD 95, de Roraima. Foi em um grupo também chamado de "Amigos do Rio Uraricoera" que, em maio do ano passado, uma mulher foi ofertada como prêmio principal de um bringo destinado a garimpeiros.

No mesmo grupo, onde os integrantes comentam sobre remédios para malária, integrantes também fazem ofertas de tudo que envolve a cadeia ilegal do garimpo, como balsa, voos, e canoas que navegam o rio com mantimentos que sustentam os os invasores dentro da reserva. Em um dos casos, uma pessoa pergunta se há canoa disponível para transportar 70 kg de comida, motor e uma pessoa. "Alguma canoa vai subir o rio hoje ou amanhã que dê pra levar 70 quilo de rancho e um motor que pesa quilos e um homem. Tudo no total vai dá 300 kg quem puder levar vem no meu PV". Uma mulher prontamente responde: "canoa com menos de meio frente pra subir" e avisa que falar no privado com o interessado.

O grupo tem até agenciadores de voos para comunidade na Terra Yanomami invadidas por garimpos, como Uxiu, Xitei e Parafuri. "Agenciamos voo Pará", diz a mensagem com a lista de destinos e valores que indicam o preço da passagem. Uma das mais cara é para Parafuri: R$ 9.500. Maior reserva indígena do Brasil em extensão territorial, a Terra Indígena Yanomami está no centro das discussões políticas e de saúde nacional em razão da grave crise sanitária, com registros de casos malária e desnutrição severa em adultos, principalmente, entre crianças. O problema é causado pelo avanço do garimpo ilegal, que, em um ano, aumentou 46% no território.

O Ministério da Saúde está apurando a denúncia e irá investigar junto aos órgãos competentes 

(Fonte: G1)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Guajajara de T.I. Canabrava, no Maranhão, denunciam a falta de medicamentos e assistência médica


 Moradores da Terra Indígena Cana Brava, localizada na região central do Maranhão, denunciam a falta de medicamentos e assistência médica no local. No território estão localizadas mais de 260 aldeias indígenas. A Terra Indígena Cana Brava abrange 137 mil hectares, onde vivem cerca de 15 mil indígenas da etnia Guajajara. A região possui somente três postos de saúde para atender 263 comunidades. E os poucos que possuem, não funcionam como deveriam. 

Na Aldeia Coquinho o posto de saúde foi reformado em julho após os indígenas colocarem pressão nas autoridades. Cerca de 500 indígenas deveriam ser atendidos pela unidade de saúde que, mesmo após ter sido reformada, não funciona. Equipamentos que seriam usados para a instalação de um gabinete odontológico, tais como um compressor, estão sendo consumidos pela poeira e estão guardados há mais de cinco anos. Além disso, alguns dos únicos medicamentos que estão no local, estão vencidos desde 2019. "Não dão remédio, dão receita para os índios. Às vezes precisa de uma operação de cirurgia e o pessoal não estão nem aí com a gente. Não tem uma, nenhuma aldeia que está melhor né? Está tudo igual, sofrimento igual", diz o indígena Zé Luciano, cacique da aldia. Uma indígena, de 78 anos, tem doença de Parkinson e depende de medicamentos de uso prolongado, para controlar as crises. A família conta que ela nunca conseguiu receber de graça no posto de saúde e nem sempre, tem dinheiro para comprar. "Hoje mesmo não tem não [remédio]. Faz é dia que não tem, acabou. É porque não tem 'real' para comprar", diz Eliezer de Sousa Guajajara, lavrador.

Sem médicos

O acesso à saúde nas aldeias é de responsabilidade do Distrito Industrial Indígena (DISEI), órgão ligado à Secretaria Especial de Saúde Indígena.Só em 2022, os indígenas já fizeram quatro protestos contra a situação, sendo o último em julho. A ação pedia o afastamento de Alberto José Braga, coordenador do DISEI, que continua no cargo. Os indígenas afirmam que desde que ele assumiu ao cargo, nenhum médico pisa na Aldeia Coquinho."Aqui não entrou mais nenhum médico de junho para cá. Entrou um dentista bem aqui, mas o resto de médico nunca veio para cá. E o médico que trabalhava dentro da equipe, o coordenador tirou e até agora não colocou mais nenhum", explica o cacique José Luciano Caminha Guajajara, presidente da Organização do Conselho Supremo dos Caciques. O filho de Linair Lopes Guajajara tem 16 anos e desde a infância, tem paralisia cerebral. Por conta do problema de saúde, o adolescente precisa tomar ao menos três remédios de uso contínuo. Sem receber os medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a aposentada precisa gastar parte do dinheiro que recebe para comprar os remédios. Além disso, o adolescente sofre sem a presença de médicos para avaliar seu estado de saúde. "Mais de R$ 500 [gasto por mês com remédios]. Quando ele pega uma tosse, algo assim, ou ele está com febre, eu mesmo que cuido dele, dou remédio para ele. Nem daqui vai para o hospital de Grajaú, para o do Jenipapo, só eu que cuido dele. Estou meio adoentada agora, tem horas que não me sinto bem de saúde, dor de cabeça, tontura, é assim que eu sinto", desabafa Linair.

Sem assistência

A manicure Eline Mariano Guajajara, de 24 anos, convive com uma pedra nos rins desde os 14 anos. Ela conta que quando tem crises, não consegue suportar a dor e reclama que não tem como conseguir um medicamento para amenizar o problema. "Quando eu fico com as crises, eu tenho que suportar a dor na minha casa. Porque não tem como ter um medicamento para tomar, entendeu? Para poder passar a dor. Tem hora que nós mesmos compramos remédios, antibióticos, para poder passar a dor. E quando não tem dinheiro, tem que sofrer com a dor", conta. Kerliane Nascimento Sousa é moradora da Aldeia Coquinho há mais de 17 anos. Ela diz que muitos moradores convivem com dezenas de doenças, mas sem acesso à saúde, os problemas de saúde só aumentam. "Aqui tem vários tipos de doença, tem a diabete, tem a pressão alta, tem a barriga distendida que se chama diarreia, tem as crianças 'manchadas'. A gente não sabe o diagnóstico dessas crianças que estão sendo manchadas", disse Kerliane. Há crianças, como a neta de Bernardino Soares Guajajara, que está com o corpo coberto por manchas. Sem médico, a menina não tem como ter um diagnóstico sobre o que se trata o problema.

Procurado, o Ministério da Saúde não se manifestou sobre as denúncias dos indígenas até a publicação desta reportagem.

(Fonte Imirante)

sábado, 24 de dezembro de 2022

‘Radiografia do desmonte’’: Alckmin elenca 11 pontos principais no relatório final da transição

 Na manhã desta quinta-feira (22), o futuro vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), líder da equipe de transição para o Governo Lula (PT), apresentou um relatório com uma “radiografia do desmonte do Estado e das políticas públicas” durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL). Em suas redes sociais, Alckmin listou algumas das maiores questões levantadas no documento:

Na área da educação, a constatação é que, nos últimos três anos, o número de crianças que não conseguem ler e/ou interpretar textos saltou de 50% para 70%, o pior resultado em dez anos. O governo federal reduziu em 85% o orçamento e em 66% o número de servidores na cultura.

Para a saúde, o ponto principal foi a pandemia de covid-19. Com 2,7% da população mundial, o Brasil registrou 11% do total de óbitos pela doença no mundo, sendo o 2º país com maior número de vítimas. Ainda, o documento aponta que 34 milhões de cidadãos brasileiros não receberam nenhuma dose da vacina contra a covid-19, enquanto 3 milhões de doses foram inutilizadas por perda de validade. A vacinação contra a poliomielite em crianças de até quatro anos caiu de quase 100%, em 2015, para 70%, em 2022, diz o documento.

No desenvolvimento social, chamou a atenção o aumento de 11% na hospitalização de crianças por carência alimentar, o pior índice em 14 anos. Mais da metade da população brasileira, 125,2 milhões de pessoas, vive com algum tipo de insegurança alimentar. O país também bateu o recorde no número de feminicídios, com 700 casos em seis meses de 2022.

Ainda de acordo com o relatório, o índice de desmatamento na Amazônia aumentou 59% entre 2019 e 2022. No último mês, foi registrado um aumento de 1.216% em focos de incêndio nos estados de Amazonas, Acre e Rondônia. Na infraestrutura, 93,66% da malha rodoviária federal com contrato de manutenção não possui serviço de prevenção e restauração das rodovias.

Na habitação, o governo zerou as contratações de famílias com renda de até R$ 1.800 do programa Casa Verde Amarela. Na transparência, 26,5% dos pedidos de acesso à informação requisitados foram negados por decretos de sigilo, número quatro vezes superior à gestão anterior. Além disso, o Brasil deve R$ 5,5 bilhões em aportes obrigatórios junto a órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).

Quem matou a índia Estela Kaiowá Guarani?

 O assassinato da indígena Estela Vera Guarani, de 67 anos, é um acontecimento estarrecedor. É o quinto homicídio de indígenas Kaiowá e Guarani em áreas de conflito em Mato Grosso do Sul, somente em 2022. E isso parece estar longe de acabar. Rezadora tradicional e liderança em sua aldeia, Estela foi morta a tiros no dia 15 de dezembro. Estava em casa com seu filho quando, às 15h, dois homens encapuzados e armados entraram e os atacaram. Tentaram fugir, mas Estela foi atingida pelos disparos.

No local, foram encontrados pela polícia cartuchos de arma calibre 36, de uso mais comum em espingardas de caça. Até agora, ninguém foi preso, e outros detalhes da morte permanecem sem explicação. Entidades e parlamentares do estado estão cobrando atenção ao caso. Se os detalhes do crime ainda permanecem ocultos, o contexto onde ele ocorreu é de conhecimento geral. Trata-se do problema estrutural da falta de terra. Enquanto aguardam a demarcação de suas terras ser efetivada pelo Estado, os Guarani e Kaiowá vêm sofrendo profundamente, há décadas, todos os males que a subtração do território e da floresta poderia causar em suas vidas. Apinhados em pequenas reservas, e expostos à enorme pressão do agronegócio, os territórios indígenas padecem de uma epidemia de violência, escalando cada vez mais nas comunidades.

Durante os anos de governo Bolsonaro, a falta de terra aprofundou avassaladoramente a relação de dependência das comunidades indígenas e camponesas ao agronegócio. No Mato Grosso do Sul, os indígenas foram abandonados à fome pelo atual presidente. Centenas de famílias dependem de cesta básica para sobreviver, e a Fundação Nacional do Índio (Funai) não está realizando a entrega – ou realiza de quatro em quatro meses, projetando cenas de mães e crianças desesperadas. Produtores de soja, aproveitando-se da fome, têm arrendado áreas ilegalmente dentro dos territórios Guarani e Kaiowá. Estela era conhecida por lutar contra os arrendamentos, inclusive ao lado de outras lideranças femininas ameaçadas de morte e que já sofreram agressões, como é o caso de Kuña Kuarahy. As duas fazem parte de um corajoso movimento que se opõe aos arrendamentos no tekoha Yvy Katu, local onde Estela foi assassinada. Por resistirem ao arrendamento, as indígenas e seus familiares sofrem cotidianamente ameaças e coerção por uma rede que envolve Poder Público, fazendeiros e outras forças econômicas e políticas da região – todos envolvidos e beneficiários dos arrendamentos. A partir disso, decorre a hipótese de o assassinato de Estela estar relacionado ao conflito com produtores de soja, de gado e arrendatários. (IHU)

domingo, 4 de dezembro de 2022

II domingo de Advento - João e Jesus: dois modos antagônicos de ver a 'Governança/Reino de Deus'!

 João o último idealista do antigo testamento acredita que o novo modo de governar de Deus está ao alcance dos homens. Ou seja, que eles podem promover na terra o modo de governar de Deus. O primeiro desafio, contudo, é descobrir qual é, de fato, o modo de governar de Deus. Aí surgem as divergências entre Jesus e o próprio João. Para João os alicerces da ‘governança de Deus’ são: 1. Prática da justiça seletiva e punitiva; 2. Não há segunda chance, o fogo e o machado já estão agindo para cortar e queimar os que resistem! 3. Propagação, pelo medo, da desgraça e da ameaça, do castigo e da ira divina. Para Jesus os humanos deveriam governar assumindo ‘a governança de Deus’ tem os seguintes alicerces: 1. Deus é Pai – e não juiz implacável, - que faz chover sobre os bons e sobre os maus, que procura sempre a ovelha ferida e desgarrada. 2. Deus sempre dá a todos uma nova/infinita chance de mudar de vida; 3. Proclamar a todos o ‘Bom Anúncio’ de que a graça e a compaixão estão a chegar, e não a ‘desgraça’! São visões irreconciliáveis. Jesus se separa de João e inicia o seu próprio caminho, respeitando o jeito de João! E hoje, qual 'governança de Deus' nós queremos seguir?