sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A centralidade do medo na modernidade e a esperança em novos inícios. Entrevista especial com Paulo Eduardo Bodziak Junior

“Penso que a modernidade é caracterizada pela centralidade do medo. Hobbes consolida o entendimento moderno desse afeto, mas a centralidade política do medo já remonta à antiguidade tardia romana. Não à toa, a célebre ideia de que o homem é o lobo do homem foi cristalizada na modernidade pelo filósofo inglês, mas sua origem remonta ao dramaturgo romano Plauto. Todavia, o medo sempre ocorre acompanhado da esperança, pois não há como separar as duas coisas. A ‘fé no mundo’, sempre renovada pela possibilidade de novos inícios, não é apenas uma convicção filosófica de Arendt, é uma experiência afetiva própria da modernidade”. A reflexão é do filósofo Paulo Eduardo Bodziak Junior na entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Em sua análise, o medo é um afeto político isolador, desolador. “Todavia, sua presença na esfera pública é inevitável, até mesmo porque não existem domínios políticos constituídos apenas de afetos alegres. Medo e esperança constituem a tensa relação que estabelecemos com o futuro, e qualquer experiência política voltada ao futuro, como é próprio da modernidade, será caracterizada por essa tensão”.

Manipulando com maestria as redes sociais, a extrema-direita enquanto fenômeno global catalisa com sucesso “a falência do capitalismo neoliberal” e se aproveita desse colapso, gerando medo nas sociedades de nosso tempo com ações como caçadas a imigrantes ou “pelo emprego de tropas em cidades governadas pela oposição de democrata nos EUA”, acrescenta Bodziak referindo-se ao exemplo norte-americano. Ações como essas não suspendem necessariamente a ação, mas tem o dom de recrudescer a violência. Se tomarmos em consideração o prólogo de uma das célebres obras arendtianas, A condição humana, perceberemos que ela é “toda atravessada pela tensão entre o medo da aniquilação nuclear e a esperança mantida pelos novos inícios. Arendt não recusa nem negligencia tal ameaça. No jargão arendtiano, ela quer ‘compreender’ a ameaça da aniquilação, pois essa é a condição de reconciliação com este mundo à sombra do poder nuclear. Isso nos permite enraizar nossa existência nesse mundo e nos habilita a agir nele e sobre ele. Portanto, o medo constitui o fundo sobre o qual se ergue e tensiona a própria esperança dos novos inícios. A estrela brilha sobre o céu escuro”.

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