sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Secretaria Estadual do Meio Ambiente colhe amostras para averiguar poluição em Piquiá!


Piquiá que é famosa por ser um dos pólos industriais mais poluídos do Maranhão ainda não conta com índices oficiais do grau de poluição atmosférica. Apesar das insistentes e numerosas denúncias da população e de organizações populares da região, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente apareceu ‘in loco’ somente nessa semana. Intimada pelo Promotor de Açailândia há cerca de dois meses atrás, a Secretaria enviou dois peritos químicos e um fiscal na terça feira 18. Num só dia colheram amostras de água, poeira industrial, e quem sabe mais lá o que’.... do assentamento Califórnia e de Piquiá. Não podiam fazer o teste da poluição atmosférica que exige mais tempo e mais material. E mais vontade política. Coisa que a Secretaria Estadual não tem no seu ‘almoxarifado’!Deu para perceber que não foi algo sério. Os próprios funcionários disseram que no dia seguinte já deviam estar em São Luis, e que tinham que aproveitar o máximo de tempo disponível para verificar eventuais outras denúncias ao longo do caminho para a capital. Interessante: em Piquiá ficaram quase uma hora conversando com um diretor da Gusa Nordeste, supostamente verificando a ‘papelada formal’ da siderúrgica. Só eles, ninguém mais! Na saída, a confirmação que ‘estava tudo bem’! Agora é só aguardar o resultado oficial das análises e compará-las com outras que a Rede Justiça nos Trilhos irá encomendar a um Instituto que não seja ‘tão apressado’ como a Secretaria do Meio Ambiente. Coincidência fatal: naqueles dias foi enterrada uma senhora de Piquiá vítima de um tumor aos pulmões. Ela morava bem ao lado do britador da Gusa Nordeste!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desembargadora pede anulação do licenceamento ambiental de Belo Monte. Motivo: índios e ribeirinhos têm direito ao uso tradicional de suas terras!

Uma juíza do Tribunal Regional Federal de Brasília colocou o governo na berlinda nesta segunda-feira ao pedir a anulação do licenciamento ambiental da mega-usina de Belo Monte, no rio Xingu. O julgamento no TRF foi suspenso por um pedido de vista do desembargador Fagundes de Deus. Mas o voto da desembargadora Selene Almeida, relatora da matéria, representa uma derrota para a Eletrobras, o Ibama e o governo federal, defensores da construção da usina. Almeida acolheu a argumentação do Ministério Público do Pará de que o decreto legislativo de 2005 que autorizou a construção de Belo Monte é nulo, por ter sido modificado no Senado sem voltar à Câmara. Ela também argumentou que os índios das terras Paquiçamba e Arara da Volta Grande do Xingu, que ficam no trecho do rio que terá vazão reduzida, precisam ser ouvidos pelo Congresso antes de que o licenciamento seja feito. "Estamos em choque", comentou o advogado da Eletrobras Marcelo Thompson após a leitura do voto, que durou quase duas horas. Caso um dos outros dois desembargadores vote com a relatora, o processo vai para o Supremo Tribunal Federal.

Será a segunda das 15 ações movidas contra Belo Monte que vai parar no STF, afirmou o procurador Felício Pontes Júnior, principal voz da oposição a Belo Monte. O Ibama e a Advocacia Geral da União têm argumentado que os índios foram, sim, ouvidos pela Funai durante o licenciamento da usina. Afirmam, ainda, que a ação do Ministério Público não tem razão de ser, já que não haverá obras nas duas terras indígenas. "Não vislumbro plausibilidade nas alegações dos réus", afirmou a desembargadora, dizendo que as populações das duas terras indígenas terão sua sobrevivência tradicional ameaçada do mesmo jeito, já que o rio que as margeia vai secar. "A regra geral no uso dos recursos naturais é a proteção do uso indígena", afirmou. A juíza defendeu que, "antes que a construção de hidrelétricas se torne corriqueira" na Amazônia, o Congresso formule um marco legal para a consulta aos índios, que não existe hoje no país. "A lógica indica que o Congresso Nacional só pode autorizar a obra depois de conhecer a realidade antropológica", afirmou Almeida. "Faltou informação científica."

Em seu voto, Selene Almeida afirmou ainda que ouvir os índios significa obter "a concorrência, a concordância", e que tanto os índios quanto as 400 famílias de ribeirinhos que serão removidas pela usina têm direito ao uso tradicional de suas terras. "Hoje a sociedade nacional só tem a oferecer aos índios doença, fome e desengano." (Fonte: Folha-UOL)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Falando em corrupção...na FUNAI tem pra´vender!

O tema-problema do momento parece ser a corrupção. Praga universalizada. Plenamente globalizada. Profundamente enraizada nos tecidos sociais, e nos ‘genéticos’. De fato, se nascemos com um sentido de justiça, - embora rudimentar, - a corrupção parece ser o fruto amargo da sua imediata ‘mutação ética’. Operada por nós manipuladores humanos! Detenhamo-nos sobre alguns casos dessa ‘praga’ somente na questão indígena aqui no Maranhão.

Primeiro caso. O coordenador técnico da FUNAI de Zé Doca, vem sendo acusado pelo indígenas da região, Ka’apor e Awá-Guajá, de fornecer bebidas alcoólicas a mulheres e homens e se aproveitar sexualmente das mulheres uma vez embebedadas. Ele é acusado de vários abusos, e de ser o articulador entre os madeireiros da região no roubo de centenas de toras de madeira nobre provenientes da Terra Indígena Alto Turiaçu. O negócio rendeu até agora, para o funcionário, pelo menos cinco casas em Araguanã. Nada sofreu até momento por parte dos seus chefes corregedores a FUNAI. Nem sindicância. O jeito foi levar tudo isso à Procuradoria da República.

Segundo caso. A Vale assinou convênio alguns anos atrás com a FUNAI do Maranhão para utilizar sete milhões e meio de Reais ao longo de 10 anos para projetos agrícolas e de desenvolvimento nas terras indígenas do Caru, Awá-Guajá, Pindaré e Alto Turiaçu. Após dois anos, nem um centavo desse novo convênio foi aplicado nas aldeias dos Ka’apor da Alto Turiuaçu. Ninguém sabe dizer o porquê. Nem os chefes da FUNAI de Imperatriz quando questionados pelos Ka’apor. O que sabemos é que no passado recente houve desvios escandalosos do dinheiro disponibilizado pela Vale. Vários funcionários da FUNAI estavam envolvidos, além do próprio responsável da Vale que logo foi demitido. Ninguém foi obrigado a devolver a grana comida. Alguns desses funcionários continuam tomando de conta do dinheiro que a da Vale disponibiliza, supostamente destinado a amenizar os impactos da ferrovia nas aldeias! Cá entre nós: a Vale acha que já está cumprindo com a sua obrigação agora que está a duplicar a ferrovia?

Terceiro caso. Nas últimas duas operações realizadas pela Polícia Federal em algumas terras indígenas foram apreendidas centenas e centenas de toras de madeira. Como de costume, determina-se que a os funcionários da FUNAI sejam os ‘fiéis depositários’, até que se resolvam as pendências legais sobre o destino da madera apreendida. Resultado descoberto recentemente: não há mais nenhuma tora nos pátios onde as toras haviam sido depositadas. Os funcionários da FUNAI nada sabem sobre o seu destino. Os 'fiéis desviadores' continuam em seus devidos lugares esperando outra oportunidade....

Quarto caso. Com a ‘reforma administrativa’ da FUNAI, todos os processos administrativos que estavam na sede de São Luis e que recebiam um primeiro e sumário julgamento foram enviados a Imperatriz. Aqui é que se resolvem, hoje em dia, todos os pepinos relacionados à questão indígena. Em São Luis há uma simples coordenação técnica. Onde existem muitos funcionários que ficaram sem ocupação. Que continuam sendo pagos com dinheiro público para não fazer nada. Ainda bem que houve reforma!

sábado, 15 de outubro de 2011

Para além da 'indignação' contra os 'césares' que dominam e escravizam! (Mt. 22, 15-21)



Hoje centenas de milhares de pessoas no mundo todo ocuparão ruas e praças para manifestar sua ‘indignação’ contra os abusos do sistema político-financeiro. E contra a crise social e econômica que os seus ‘césares’ vêm produzindo. Uma crise que vai além das perdas salariais e da falta de emprego formal. É uma crise que põe uma hipoteca sobre o futuro da humanidade. Crise ética, portanto. Crise de valores. Mas também crise organizacional, ou seja, incapacidade dos seres humanos de organizar de forma razoavelmente equânime a geração/produção e distribuição dos bens produzidos. Coisa que as abelhas, as formigas e tantos outros bichos sabem fazer com maestria. Nesses dias, num pequeno artigo da Folha de São Paulo, apareceu a informação segundo a qual alguns neuro-cientistas afirmavam que o ‘bebê’ (filhote de hominídeos!) já nasce com um ‘ sentido de justiça’, embora rudimentar. Este sentido de justiça estaria já presente nos seus genes. E não seria somente algo adquirido mediante os normais processos de aprendizagem. Poderoso! Isso diz muito sobre os poder diabólico dos humanos em manipular sua própria espécie para que ‘não desenvolva’ uma atitude que faz parte da sua estrutura genética! Diz muito também sobre a natureza da nossa própria missão como humanos nessa rápida passagem terrena! O que existe, então, nos humanos que faz com que percamos ou deixemos de desenvolver atitudes de justiça? Que outros processos, contra-valores são introduzidos para inibir, - quando não para apagar, - o ‘sentido de justiça’ que adquirimos ao nos formar como espécie humana?

Jesus certamente não possuía as informações que possuímos nós sobre a nossa própria estrutura genética. Nem precisava. Jesus como ser humano herdou e foi educado a possuir um forte sentido de justiça. Os seus educadores ajudaram-no a não se deixar manipular. Mas a conservar, e a fazer crescer nele mais ainda o sentimento da justiça. Mais: a praticar a justiça, evidenciando as suas negações no seu cotidiano e identificando aquelas ações que pudessem fortalecer a prática da justiça. Aprendeu a perceber os sinais de injustiça presentes no ser humano, e nas suas estruturas. Experimentou diante disso forte ‘indignação’. No trecho evangélico hodierno Mateus nos oferece um retrato sumário da ‘natureza ética’ de Jesus. O que o movia e o que o ‘indignava’. Tudo começa com uma pergunta capciosa. Aparentemente, de natureza jurídica. Pagar ou não o imposto a César. Na realidade o que está em jogo é o que Um (Deus) e outro (César) representam para uma sociedade (Israel). Uma nação que coloca – pelo menos formalmente - Deus acima de tudo, mas que tem que fazer as contas com ‘alguém que age como deus’! Com alguém que interfere diretamente, e de forma totalizante, na vida das pessoas. Quem manda na nossa consciência? Quem determina o valor, a natureza, e o sentido das nossas opções? O Deus da liberdade e da vida, ou o César da dominação, do totalitarismo, do egoísmo sem freios? O que está em jogo, portanto, é uma questão de ‘soberania ética’. Jesus ao aconselhar de devolver ao próprio César a moeda que o retrata coloca limites claros à sua (de César) atuação. É um forte chamado a não interferir na ‘soberania de Deus’. A César só cabe a ‘auto-contemplação’ narcisista do seu próprio rosto gravado numa moeda produzida por ele mesmo. A Deus, ao contrário, ao Legítimo Gestor do único e verdadeiro Reino cabia tudo. A esse Soberano precisava-se ‘devolver’ não moedas ‘que enferrujam e que os ladrões poderiam carregar’, e sim, a terra/território que Lhe pertencia. E que o César ocupava de forma ilegal. Ao verdadeiro Rei cabia só gratidão e livre submissão. Adoração autêntica e confiante. Reconhecimento que só Ele – fonte e consciência de toda justiça – pode nos libertar de tantas dependências que continuam a nos escravizar.

Aos 'césares', a nossa indignação, o nosso repúdio, a nossa insurreição!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Do quinto evangelho: proclamação do Cristo do Corcovado



Naqueles dias, ao se completarem 80 anos de existência, o Cristo do Corcovado estremeceu e se reanimou. O que era cimento e pedra se fez carne e sangue. Estendendo os braços, como quem quer abraçar o mundo, abriu a boca, falou e disse:

Bem-aventurados sois todos vós, pobres, famintos, doentes e caídos em tantos caminhos sem um bom samaritano para vos socorrer. O Pai que é também Mãe de bondade vos tem em seu coração e vos promete que sereis os primeiros herdeiros do Reino de justiça e de paz. Ai de vós, donos do poder, que há quinhentos anos sugais o sangue dos trabalhadores, reduzindo-os a combustível barato para vossas máquinas de produzir riqueza iníqua. Não serei eu a vos julgar, mas as vitimas que fizestes atrás das quais eu mesmo me escondia e sofria.

Bem-aventurados sois vós, indígenas de tantas etnias, habitantes primeiros destas terras ridentes, vivendo na inocência da vida em comunhão com a natureza. Fostes quase exterminados. Mas agora estais ressuscitando com vossas religiões e culturas dando testemunho da presença do Espírito Criador que nunca vos abandonou. Ai daqueles que vos subjugaram, vos mataram pela espada e pela cruz, negaram-vos a humanidade, satanizaram vossos cultos, roubaram-vos as terras e ridicularizaram a sabedoria de vossos pajés.

Bem-aventurados e mais uma vez bem-aventurados sois vós, meus irmãos e irmãs negros, injustamente trazidos de Africa para serem vendidos com peças no mercado, feitos carvão para ser consumido nos engenhos, sempre acossados e morrendo antes do tempo.Ai daqueles que vos desumanizaram. A justiça clama aos céus até o dia do juízo final. Maldita a senzala, maldito o pelourinho, maldita a chibata, maldito o grilhão, maldito o navio-negreiro. Bendito o quilombo, advento de um mundo de libertos e de uma fraternidade sem distinções.

Bem-aventurados os que lutam por terra no campo e na cidade, terra para morar e para trabalhar e tirar do chão o alimento para si, para os outros e para as fomes do mundo inteiro. Maldito o latifúndio improdutivo que expulsa posseiros e que assassina quem ocupa para ter onde morar, trabalhar e ganhar o pão para seus filhos e filhas. Em verdade vos digo: chegará o dia em que sereis espoliados. E a pouca terra da campa será pesada sobre vossas sepulturas.

Bem-aventuradas sois vós, mulheres do povo, que resististes contra a opressão milenar, que conquistastes espaços de participação e de liberdade e que estais lutando por uma sociedade que não se define pelo gênero, sociedade na qual homens e mulheres, juntos, diferentes, recíprocos e iguais inaugurareis uma aliança perene de partilha, de amor e de corresponsabilidade.Benditos sois vós, milhões de menores carentes e largados nas ruas, vitimas de uma sociedade de exclusão e que perdeu a ternura pela vida inocente. Meu Pai, como uma grande Mãe, enxugará vossas lágrimas, vos apertará contra o seu peito porque sois seus filhos e filhas mais queridos.

Felizes os pastores que servem, humildemente, o povo no meio do povo, com o povo e para o povo. Ai daqueles que trajam vestes vistosas, se envaidecem nas televisões, usam símbolos sagrados de poder, exaltam o Pai Nosso e esquecem o Pão Nosso. Quantos não usam o cajado contra as ovelhas ao invés de contra os lobos. Não os reconheço e não testemunharei em favor deles quando aparecerem diante do meu Pai.

Bem-aventuradas as comunidades eclesiais de base, os movimentos sociais por terra, por teto, por educação, por saúde e por segurança. Felizes deles que, sem precisar falar de mim, assumem a mesma causa pela qual vivi, fui perseguido e executado na cruz. Mas ressurgi para continuar a insurreição contra um mundo que dá mais valor aos bens materiais que à vida, que privilegia a acumulação privada à participação solidária e que prefere dar os alimentos aos cães que aos famintos. Bem-aventurados os que sonham com um mundo novo possível e necessário no qual todos possam caber, a natureza incluída. Felizes são aqueles que amam a Mãe Terra como sua própria mãe, respeitam seus ritmos, dão-lhe paz para que possa refazer seus nutrientes e continuar a produzir tudo o que precisamos para viver.

Bem-aventurados os que não desistem,mas resistem e insistem que o mundo pode ser diferente e será, mundo onde a poesia anda junto com o trabalho, a musica se junta às máquinas e todos se reconhecerão como irmãos e irmãs, habitando a única Casa Comum que temos, este belo e irradiante pequeno planeta Terra.

Em verdade, em verdade vos digo: felizes sois vós porque sois todos filhos e filhas da alegria pois estais na palma da mão de Deus. Amém”. (Leonardo Boff)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Todos são convidados a construir a nova humanidade, mas é preciso 'vestir a camisa' da Realeza de Deus! (Mt. 22, 1-14)


Todos nós, cotidianamente, consciente ou inconscientemente, fazemos análise da realidade em que vivemos. Detectamos sinais. Assistimos a acontecimentos. E deles participamos. Ouvimos comentários. Classificamos e avaliamos Reagimos e agimos. Colocamos em relação causas e efeitos. Tomamos posição. Decidimos. Claro, alguém faz tudo isso de forma ‘supostamente científica’. Profunda e ampla. Outros, de forma mais superficial. Talvez por possuir menos elementos que outros para fazer a mesma coisa. O fato é que cada ser humano analisa e reage perante uma determinada realidade. Próxima ou distante que seja. Cada um de nós avalia e alimenta sonhos e expectativas. E trabalha para moldar uma realidade que venha de encontro ao que ele sonha ou espera. A parábola proposta por Mateus joga uma luz ampla sobre como Jesus analisou a história/realidade de Israel, e como ele reagiu. Como avaliou, e o que sonhou para Israel. No intuito de construir uma ‘nova realidade’ para o seu povo.

Pela parábola podemos entrever que para Jesus determinados setores da classe dirigente do povo de Israel – a casta sacerdotal, principalmente, - atribuíram à nação uma ‘eleição exclusiva’ por parte de Deus. Israel se considerou, de forma arrogante e etnocêntrica, o povo eleito de Deus. O seu preferido. Aquele que devia ser luz das demais nações. Israel achava que ao dar sinais e frutos de justiça, equidade, e coesão interna, todos os demais povos, vizinhos e distantes, o imitariam. E poderiam aderir ao seu modo de ser e crer. O seu próprio Deus, Javé, se encarregaria de preparar sobre o ‘seu santo monte’, - em Israel, claro, - um grande banquete. Um banquete utópico. Simbólico, mas real e histórico. Nele, nenhum povo seria excluído. Todos poderiam comer e beber do bom e do melhor. Mais: o deus de Israel enxugaria as lágrimas de toda vítima da guerra e da violência. E poria fim ao luto dos desesperados. Tudo isso originou uma espécie de ‘complexo de superioridade’ perante os demais povos. A classe dirigente de Israel achou que bastava isso para ter Deus do seu lado. Mesmo sem praticar a justiça e a equidade que ele mesmo havia determinado para si como condição essencial para obter salvação e benevolência divina. Um deus, enfim, criado a sua própria imagem e semelhança, funcional aos seus interesses de casta. Um deus que continuasse a protegê-lo e a confirmá-lo na sua equivocada autoconsciência. Jesus, na parábola, analisa e condena esse ‘delírio coletivo’ em que Israel havia entrado. E reage.

Para Jesus os dirigentes de Israel nunca quiseram aceitar de aderir ao projeto/banquete de comunhão, equidade, justiça e fraternidade oferecido pelo mesmo deus que eles invocavam. E do qual se sentiam os escolhidos. Eles, que são os mesmos vinhateiros da parábola de domingo passado, perderam a sua chance histórica. O convite, agora, para participar e construir um novo banquete/aliança/comunhão estava sendo dirigido àquelas pessoas e setores da sociedade de Israel que os ‘arrogantes eleitos’ haviam excluído e condenado. Na avaliação de Jesus, de fato, só quem está sentindo na pele o que significa exclusão, abandono e discriminação é que pode e deve reagir. E construir um banquete alternativo, sem a presença dos seus algozes. Nele não haverá mais grupos privilegiados, seletos, supostamente preparados, qualificados e ‘escolhidos a dedo’ para realizar o sonho de Deus. Agora, todos, bons e maus, israelitas ou não, - recolhidos de todas as esquinas da humanidade, - são os verdadeiros convidados a preparar e a participar do novo banquete. O passado já foi. Inicia-se, agora, uma nova dinâmica e uma ‘nova prática administrativa’. Jesus, porém, nos alerta: não é suficiente ‘entrar e fazer parte do banquete’. É preciso ‘vestir a camisa’! Assumir a sua lógica, as suas condições e dinâmicas. Arcar com as responsabilidades, expor-se e arregaçar as mangas, pois ‘promover comunhão, aliança, fraternidade’ exige tudo isso! Já temos muitos ‘penetras’, passivos, medrosos e acomodados. Que ‘comem e bebem’ a própria e a alheia destruição/condenação.

PS - o autor adverte: qualquer semelhança com a realidade atual é mera coincidência!

Steve Jobs nu....perante a morte/vida!

‘Lembrar que eu estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a fazer grandes escolhas na vida’ Essas são as palavras que Steve Jobs pronunciou no dia 12 de junho de 2005 em um famoso discurso aos formandos de Stanford. Reler esse discurso no dia em que Steve Jobs deixou esta terra é, talvez, uma boa forma para honrá-lo. E Steve tem razão. As suas palavras ecoam as de Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, que considera que uma forma de fazer uma boa escolha na vida consiste em fazer "como se eu estivesse à beira da morte; e assim, regulando-me por ela, tomarei com determinação a minha decisão" (Exercícios Espirituais, 186). A morte não é, no caso de Inácio e de Steve, um espantalho, mas sim a constatação de que os temores, os embaraços e as futilidades desaparecem perante o pensamento da morte, e só resta o que realmente conta, aquilo que para nós é realmente importante.
E Steve diz isso de uma maneira fantástica, com uma pequena frase do nada: "Você já está nu". Exato. Lemos no Livro de Jó: "Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para o seio da terra" (1, 21). O pensamento de estarmos nu e sermos mortais nos leva a viver intensamente. Steve diz: "Você tem que encontrar o que você ama". Só quem sabe que a própria vida é nua e sempre será não perderá tempo para fingir de se cobrir, de ser jovem eternamente, de pensar que se é o dono do mundo, mas saberá que a vida tem em si uma fome profunda. (Tirado do IHU e adapatado)