sábado, 31 de dezembro de 2011

Maria, mãe de Deus: divinas mães para divin@s filh@s!


Tocamos com mãos todo dia o que significa desfigurar e destruir a dignidade d@s ‘filh@s de Deus’! Aquele rosto, aquele sopro, aquela energia, aqueles cromossomos e genes divinos que antes mesmo de nascer herdamos não simplesmente de um pai ou de uma mãe biológicos, mas de um Artífice paterno-maternal, são sistematicamente deletados por outros seres que esquecem a origem da sua filiação divina. Como pensar que Deus é pai-mãe que cuida e zela por nós ao vermos tanta brutalidade humana? Fome, guerras, violência, torturas e indiferenças parecem negar que temos em comum não somente genes e cromossomos, mas dignidade e filiação. Há, entretanto, seres humanos que mediante a sua dedicação e o seu amor sem limites para com outros humanos manifestam com mais intensidade e fidelidade, de forma visível, o que significa filiação e maternidade divina. Explicitam com seus gestos o que nós cremos pela fé. Ou pelos caminhos de indução. Tornam histórico e real o que parece ser relegado à esfera mítico-simbólica. Deus é Pai-mãe sim, e nós o vemos e o sentimos naqueles pais -mães que como Deus amam sem limites.

Jesus manifestava no seu organismo biológico genes e cromossomos idênticos aos de Maria. Nisso Jesus herdou de uma mulher o mesmo que todo ser humano herda de seus pais e de outros parentes próximos. Isso não é suficiente para fazer de Maria um personagem que se eleva acima dos demais. Hoje, contudo, não celebramos a maternidade de Maria por ter sido simplesmente a mãe biológica de Jesus, o 'filho de Deus’. Celebramos Maria e, com ela, todas aquelas mães que fizeram de sua maternidade uma vocação-missão. Ou seja, algo que vai além das obrigações biológico-reprodutivas. Não é toda mãe, afinal, que sabe amar e cuidar de um filho para que se torne e seja, de fato, ‘filh@ de Deus’! Não é toda mãe que sabe perceber as ameaças reais que desfiguram o rosto e a dignidade de seus filh@s. Não é toda mãe que toma a dianteira para prevenir e denunciar o que coloca em risco a integridade física e moral do ‘fruto do seu ventre’. E não simplesmente por serem filh@s seus, - pois poderia ser uma mera atitude de proteção e defesa biológica que toda mãe pode ter, - mas por serem el@s revelação da presença do próprio Deus entre os humanos. A todas as divinas mães que educam seus filh@s à proteção, defesa e geração de mais vida o nosso abraço e o nosso filial beijo de paz e gratidão.

Reproduzir a vida que recebemos do 'passado velho' ......

Qualquer pessoa de bom senso não aguarda o último dia do ano para fazer uma avaliação do que realizou ao longo desse período. Avaliação e balanço se dão ou deveriam se dar de forma sistemática e permanente. Inclusive porque o último dia do ano civil é de longe o mais inadequado por óbvios motivos! Nós humanos precisamos de ‘tempo’ para poder analisar e interpretar o impacto dos acontecimentos sobre nós mesmos. As derrotas e as perdas de hoje podem ser as conquistas e os ganhos de amanhã. O que hoje parece fracasso pode representar no dia seguinte uma oportunidade excelente de amadurecimento e crescimento. Com muita pressa e superficialidade queremos varrer e descartar o ‘velho’ ano achando e aspirando obter mais vantagens e ganhos no ‘novo’ ano que está a iniciar. Temos dificuldade em perceber que as conquistas e as perdas futuras são ‘construídas no passado’, mesmo que recente. Não aparecem como conquistas repentinas ou como desgraças fulminantes em céu de brigadeiro. A história da humanidade, da existência humana, mesmo que aos nossos olhos possa parecer como resultado de grandes rupturas ou de processos acelerados, encontra bases e raízes em escolhas, decisões, opções realizadas anteriormente ao presente em que vivemos, e ao longo de tempos extensos. Então, aqui vem a pergunta: por que dar ‘adeus’ ao ano velho? Por que não reconhecer que se nós somos o que somos é pelo que fizemos e temos sido nos instantes anteriores? Por que não mergulhar definitivamente na universal e sublime respiração do universo que não conhece pausas e nem interrupções, e nem etapas cronológicas ‘finitas’? Por que não se sentir permanentes construtores e co-criadores de vida nova sabendo que ela é nova porque outros semearam vida e produziram condições para que nós hoje e amanhã possamos sentir a beleza de viver essa vida nova eternamente mutante? E que bonito saber que nós hoje e sempre estaremos construindo mais vida para outros que virão depois de nós!
Pensemos, agora, por um instante....E se em lugar de recebermos e construirmos vida e novas condições de existência humana mais digna recebemos e construímos destruição, morte, violência, indiferença....? De quem será a responsabilidade? De uma herança recebida de um ‘genérico ano velho’ que não soube produzir o esperado? De um destino que nós humanos impotentes não conhecemos e nem podemos mudar? Entra ano, sai ano, nós continuamos divididos entre a pulsão criadora e destrutiva, diabólica e simbólica que possuímos e que temos que administrar dentro e sobre nós mesmos, e o ambiente que nos hospeda. Desejo que os humanos se sintam sempre mais co-construtores de vida para os seus semelhantes, para a Gaia-terra e para o universo inteiro!

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Natal delas!

‘Não tive o abraço dos meus três meninos nessa noite de Natal. Eles estão em alguma casa dessa cidade que nem eu mesma sei. A justiça, a vara da infância, os tirou de mim porque sou dependente de drogas e portadora de HIV. Dizem que não tenho condições de ser mãe, e nem de cuidar deles. Mas eu sinto falta deles. Não tive colo nessa noite de Natal. Senti-me só. Senti-me uma merda. Olho para o espelho e vejo o meu rosto magro encavado consumido pelas drogas. Tentei várias vezes me sair dessa, mas não consigo. Vocês falam de um Natal que eu não conheço: presentes, ceia com peru, papai Noel, missa do galo....Eu queria tanto que alguém se lembrasse de mim, e me olhasse com carinho. Só encontro aproveitadores. Sou humilhada o tempo todo. Não quero presente, não. Não quero a compaixão de ninguém. Sei que errei, sei que não sou limpa, mas continuo gente. Sinto que continuo sendo filha de Deus. Será que vocês - que parecem ter jeito de gente - não podem se lembrar que eu também sou gente, e que tenho sentimentos de gente? Pô, eu queria tanto dar um cheiro nos meus pequenos, mas ninguém me diz onde estão... Espero que pelo menos eles, nesses dias, tenham visto o papai Noel. Que algum cristão tenha dado aquele cheiro que não consegui dar.’ (A.S.R. 26 anos – São Luis)

Sangue e morte numa igreja católica da Nigéria na noite de Natal. Mais de 35 mortos!

Uma bomba explodiu ontem à noite, dia 24, na missa de Natal, na igreja católica de Santa Teresa, na cidade de Abuja capital da Nigéria, África. O saldo é terrível: 35 mortos até agora, e dezenas de feridos. Não foi o único episódio de violência na Nigéria nesse dia. Outras 5 pessoas foram vitimas de atentados, e outras bombas explodiram em outras igrejas católicas sem, contudo, provocar mais vítimas fatais.Fontes de informação da Nigéria disseram que não havia ambulâncias suficientes para levar os feridos. Em 3 delas foram levadas bem 15 vítimas.
Quem reivindicou a autoria desse crime horrendo foi o movimento islâmico radical Boko Haram. O movimento nasceu em 2001 e é autor de inúmeros atentados de Leste a Oeste da Nigéria ao longo desses anos. São partidários de um estado islâmico e têm como inspiradores os talibãs do Afeganistão. Parece, contudo, que tenham ligação também com Al Qaeda. O ódio cego e absurdo, a intolerância política desses ‘inumanos’ que utilizam ainda a religião como disfarce para outros fins parecem estar longe do seu ocaso. Na noite em que se celebrava o nascimento do ‘príncipe da paz’ os que continuam acreditando e lutando por ela conheceram morte e desespero.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

NATAL, SEMPRE. PARA NÃO DESISTIR EM GERAR E PROTEGER 'VIDAS'!


É Natal. Mais uma vez, celebrantes, fiéis e comentaristas se esforçam para não se repetirem em suas considerações. Contorcem-se para fazer emergir elementos novos, originais. Para dar um corte diferente ao Natal, e aos seus inúmeros significados. Para evitar cair no senso comum. Mas o que significa isso se o Natal parece ter tomado um rumo que parece irreversível? Mais uma vez ‘contemplamos’ de um lado o ‘surgimento’ e lançamento de novas mercadorias, promoções e ofertas nos efervescentes templos onde tudo é mercantilizado. As mercadorias parecem novas. As estratégias de promoção e lançamento continuam arcaicas. Contudo, parecem indicar para a grande massa que este é o Natal que, de fato, conta. Do outro lado, ‘escutamos’ nos templos que cheiram a incenso e louvor, o eterno e etéreo refrão de que ‘o menino Jesus nasceu para nos salvar’. E contemplamos na estátua de um menino, - em sua maioria, branco, - o ‘Deus invisível que se fez carne/homem para nos salvar’. Duas posturas que pouco ajudam a internalizar o sentido bíblico-teológico e antropológico do Natal.
Teologicamente falando podemos dizer que Natal é a memória-celebração do acontecimento histórico pelo qual um ‘humano’ (Jesus) revelou o que existe de mais ‘divino’ nos ‘humanos. Revelou-o mediante gestos e atitudes profundamente humanas. De compaixão-compreensão, de atenção ao outro, de amor e perdão sem limites. De indignação diante de tudo o que fere os filhos de Deus: o egoísmo mesquinho, a ganância irrefreável e doentia, a brutalidade, a violência física e moral, e os preconceitos e a discriminação. Deus seria assim? Nós cremos que Deus agiu assim em Jesus! Mas Natal vem para dizer que isso é extensivo a todos aqueles ‘humanos’ que agem como Jesus. Nós humanos, homens e mulheres, mesmo frágeis e limitados, podemos manifestar a humanidade que está em Deus. Podemos revelar o quão ‘humano’ é o nosso Deus. Reveladores do Divino que está em nós podemos iniciar uma ‘nova criação’.

Antropologicamente falando, - se é que podemos fazer esse tipo de distinção – Natal revela a capacidade-coragem que os humanos têm de renascer de suas próprias destruições, e formas de morte que eles mesmos geram. E reviver permanentemente. De sempre retomar, recriar e cultivar sonhos e projetos de vida inéditos. De gerar novas relações consigo mesmo, com o ambiente-habitat onde vive, com o futuro que imaginam ter para si e para todos os seres vivos. De cuidar com amor e responsabilidade da vida múltipla que lhe permite existir. De transformar e mudar pessoas, coisas e universo. Eliminando as distorções produzidas pelos próprios humanos! De se organizar e combater contra tudo e todos aqueles que ameaçam a vida, e as vidas frágeis de inúmeros desprotegid@s.
No dia 24 à noite de dezembro, em lugar de exibir aquelas imagens-estátuas de ‘menino Jesus’ – algumas de péssimo gosto, - mas que conseguem nos comover, deveríamos apresentar os inúmeros rostos desfigurados de tantos humanos que, mesmo vivos, deixaram de viver. Incapazes que são de renascer porque a esperança e a vontade de viver lhes foram tiradas por outros humanos. Humanos que negam com suas escolhas e atitudes o ‘divino’ que está dentro deles! Para que a compaixão nasça dentre nós....humanos!

FELIZ NATAL!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Geradores e organizadores da esperança fragilizada (Lc.1,26-38)

Quem de nós nunca fez uma experiência de ‘iluminação’? Uma percepção reveladora. Um sentir profundo. Uma voz anônima que ecoava imperceptível, repetitiva e insistente na nossa ‘alma-consciência. E que nos ‘intimava’ a assumir uma determinada atitude. A fazermos uma escolha que julgávamos uma loucura. A decidirmos um caminho que nos parecia insensato. E tivemos que nos tornar ‘escravos’ daquela voz. Sob pena de não dormir à noite. De ficarmos mal o tempo inteiro. De nos sentir traidores se não déssemos ouvidos àquela voz que já se havia transformado num grito. Enfim, obedecer àquela voz, a ‘nós mesmos’, para nos sentir livres.

O evangelho desse domingo narra como se deu essa experiência luminosa em Miriam-Maria, mãe de Yeshuá-Jesus de Nazaré. Miriam compreende qual deve ser o seu papel como cidadã de Israel. Não um chamado a ser mera geradora biológica de vida. Mas a ser aliada num ‘indefinido’ plano de ‘salvação nacional’! Compreendeu-o não através de sinais prodigiosos. Nem por meio de revelações extra-sensoriais. Mas como fruto maduro da sua capacidade de ler ‘os sinais’ históricos, sociais, políticos e religiosos da sociedade em que vivia. Miriam, uma anônima aldeã da Galiléia, se junta conscientemente á história de rebeldia, de insurreição daquele povo. Um povo de ‘indignados’. De irreverentes. E desobedientes às leis do templo, e aos impostos romanos. Miriam não quis, e nem podia silenciar aquela voz interior insistente. Ela teve que dizer ‘sim’ à sua consciência. Que a ‘intimava’ a fazer brotar, crescer e educar uma vida nova no ‘deserto humano’ que havia se tornado Israel. Jesus é concebido em Miriam como esperança para um povo, antes mesmo que como filho biológico. Miriam já vê Yeshuá como ameaça para alguns e oportunidade única para outros. Talvez, muitos.

Tanto é verdade isso que Miriam sente-se chamada a educar o seu filho para ele se contrapor aos ‘reinantes’ contemporâneos. Que haviam produzido só esterilidade e infecundidade. Esse ‘filho do povo’ governaria o seu povo de forma totalmente nova. Antagônica ao próprio reinado de Davi. De quem ocuparia o lugar. E, naturalmente, ao modo de governar de César Augusto. Ele, Yeshuá, ocuparia, a seu modo, o lugar usurpado indigna e ilegalmente por esses ‘governantes’! Mostraria como é possível fazer brotar fertilidade lá onde parece haver esterilidade. Vida múltipla lá onde parece existir só a mono-cultura do deserto. Da mesma forma que Deus faz brotar vida e esperança dos úteros-entranhas aparentemente estéreis de 'muita Isabel'!
Para que ninguém silencie a voz que intima a gerar novas formas de convivências humanas, de governabilidade, de organização da esperança fragilizada!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Testemunhas de uma 'luz' espalhada que surge das trevas (Jo.1,6-8,19-28)


Num mundo onde parece ser preciso ‘brilhar’ sempre, em qualquer lugar, e a toda custa, estranhamos quando alguém se apresenta como uma simples ‘testemunha da luz’! Quando alguém admite publicamente não ser ele próprio ‘luz’. Mas ser um singelo indicador que aponta para uma luz ‘externa’ a ele. Estranhamos porque significaria para alguns ou para muitos analistas sociais falta de auto-estima. Para outros seria, talvez, admitir incapacidades pessoais que negam ‘o valor de ter valor’. Para outros mais ‘virtuosos’ poderia ser a prova cabal de sua humildade pessoal. Virtude tão louvável quanto rara. Para outros, enfim, poderia ser a constatação real, histórica, de que ‘a luz’ é algo difuso. E que não está concentrada numa só pessoa. Enfim, o reconhecimento de que temos que olhar sempre para além de nós mesmos, e descobrir as miríades de matizes da luz presente nos outros. E sermos comprovadores da sua existência e da sua validade. Talvez seja justamente a descoberta da luz presente também nos outros que nos ajuda a tomar consciência da grandeza da luz que está em nós!João, na sua narração evangélica, manifesta a clara finalidade de ‘submeter’ João a Jesus. Redimensionar a sua espessura moral e profética perante o outro grande personagem contemporâneo, Jesus de Nazaré. Apresentar a sua pregação e a sua missão como ‘algo funcional’ ao próprio Jesus. Independentemente desse compreensível estratagema literário e teológico, podemos identificar na relação João-Jesus algo que significou ruptura radical com dogmas e crenças históricas consolidadas. E, principalmente, fazendo emergir dimensões do ser que afetam os humanos de forma direta.

Aos fariseus bitolados à idéia de um messias poderoso, restaurador do templo e da dinastia monárquica João afirma de forma contundente e ríspida que ‘ele’, João, não era a luz esperada. Mesmo assumindo algumas características messiânicas, o verdadeiro messias tinha outra identidade. E que não correspondia ao que eles esperavam. A ‘verdadeira luz’ já se encontrava no meio deles. Misturada naquela multidão de famintos, de mendigos, decepcionados, e doentes que lhe pediam batismo. E que invocavam a Deus uma ‘nova chance’ para escapar da destruição. O messias dos fariseus, o poderoso salvador, assumia para João, o rosto/destino daquela ‘massa informe’, sem nome, sem identidade e sem prestígio algum. Não haveria provas e nem sinais a oferecer aos fariseus. A não ser a impotência de um povo desejoso de luz, mas que vivia nas trevas produzidas pela arrogância deles. Desejoso de potência de vida, mas se chocando cotidianamente com a morte, a destruição, a falência gerada pela lógica do templo e por uma concepção distorcida de Deus. Era preciso, portanto, tomar uma decisão: esperar e sonhar com um ‘super-homem’ todo-poderoso, uma luz poderosíssima vinda de fora a nos iluminar e salvar ou descobrir e valorizar as inúmeras ‘luzes espalhadas’ que se encontram no meio de nós. Estas, conscientes de não possuírem em si mesmas a plenitude da luz iriam se associar às outras luzes que estão ao seu alcance. Cada uma portadora de novas esperanças. De vidas re-acendidas. De práticas originais. João nos ensina que nós somos vozes emprestadas que gritam, indicadores que apontam, ondas que divulgam e multiplicam a corações cegos e desertificados uma luz que não está só em nós, mas de que podemos ser testemunhas da sua existência e da sua força. De uma luz que não pode ser monopolizada por um ou por outro ‘poderoso redentor’. Mas que ela surge e brilha de forma difusa lá onde as trevas e a noite da vida parecem dominar.