sábado, 29 de junho de 2013

Pedro e Paulo, uma oportunidade para a igreja mudar, sempre, para permanecer a mesma!

A celebração da festa dos apóstolos Pedro e Paulo nos re-propõe uma reflexão inadiável sobre os modelos e identidades de igreja a serem construídos, e suas metodologias de evangelização a serem adotadas nesses tempos de efervescência e recrudescimento de ‘novas violências’. Olhar para as práticas evangelizadoras dos dois pilares da igreja originária não significa mergulhar na arqueologia, mas recuperar caminhos, intuições, motivações que, à época, produziram mudanças sócio-culturais surpreendentes. Discernir a "iluminação metodológica inicial" de Pedro e Paulo significa incorporar de forma atualizada e criativa a capacidade de dialogar de forma significativa aos homens e mulheres do nosso tempo, às suas culturas e modelos sociais. O que fariam e o que diriam hoje os dois apóstolos históricos à nossa sociedade planetária que experimenta a falta de sentido do "ser"? Que não pode mais se apoiar nos velhos dogmas da família nuclear, da autoridade, da política institucional, nas estruturas dos estados nacionais, da religião e de suas instituições, da moral religiosa e natural que aparentemente davam sentido, solidez e segurança? Uma sociedade que experimenta a inconsistência de muitas práticas apresentadas como ‘reveladas’, que vive numa situação de "liquidez" de valores e relações interpessoais onde tudo pode ser mudado a qualquer hora, com novas regras, novos jogos, tendo a sensação de ter que começar sempre de novo? Pedro e Paulo nos oferecem algumas dicas, pelo menos a partir daquilo que nos é possível intuir a partir dos escritos neo-testamentários.
1. Não se pode jamais renunciar ao imperativo de dialogar com "o outro", "o diferente", "o pagão". É essencial respeitar suas raízes sociais, culturais e religiosas, se é que podemos separar essas dimensões...O "outro’, ‘o estrangeiro’ em sentido amplo pode ser membro de uma mesma e nova "comunidade eclesial e social" sem renunciar a ser ele mesmo. A única coisa a ser pedida é a adesão a um projeto plural alicerçado no respeito ‘ao outro’.
2. Não se pode renunciar ao direito de debater, questionar, admoestar, alertar quem quer que seja. Paulo e Pedro que o digam: os conflitos e as discussões entre os dois nunca ameaçaram a estima e o respeito que um tinha para com o outro. Numa sociedade e numa igreja em que a submissão obsequiosa às autoridades, a bajulação servil às hierarquias e o silêncio cúmplice tornam-se práticas norteadoras sistemáticas, os apóstolos nos ensinam a nos expor, a argumentar e a praticar a dissensão, o contraditório, a contraposição. Sempre na caridade profética!
3. Numa sociedade e numa igreja em que prevalecem os princípios da eficácia administrativo-financeira em detrimento da força moral e carismática, da ostentação e do luxo litúrgico, do autoritarismo e do centralismo hierático, Pedro e Paulo apontam para o serviço desinteressado e gratuito, para a participação plena e diferenciada, para a simplicidade e a sobriedade de vida. Uma igreja total e plenamente ministerial onde não há ‘homem e mulher, escravo e livre, nacional e estrangeiro....’

Será que a igreja católica terá a coragem de não somente venerar liturgicamente os dois históricos, mas também de incorporar suas atitudes e intuições? Afinal, o que está em jogo é a construção de uma nova(s) identidade(s) de igreja que esteja disposta a se deixar questionar, a coragem de mudar, sempre, o tempo todo, para permanecer sempre a mesma.(Postagem de 2010 do mesmo blogueiro)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Os reformatórios para índios na ditadura: espancamento, trabalho escravo e desaparecimentos. Tudo isso no início da FUNAI!

Durante os anos de chumbo, após o golpe de 1964, a Fundação Nacional do Índio (Funai) manteve silenciosamente em Minas Gerais dois centros para a detenção de índios considerados “infratores”. Para lá foram levados mais de cem indivíduos de dezenas de etnias, oriundos de ao menos 11 estados das cinco regiões do país. O Reformatório Krenak, em Resplendor (MG), e a Fazenda Guarani, em Carmésia (MG), eram geridos e vigiados por policiais militares. 

Sobre eles recaem diversas denúncias de violações de direitos humanos. Os “campos de concentração” étnicos em Minas Gerais representaram uma radicalização de práticas repressivas que já existiam na época do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – órgão federal, criado em 1910, substituído pela Funai em 1967. Os anos desde o fim da ditadura pouco contribuíram para tirar da obscuridade a existência dos presídios indígenas. Um silêncio que incomoda novas lideranças como Douglas Krenak, 30 anos, ex-coordenador do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais (Copimg). Douglas é mais um entre os que têm histórias familiares de violência física e cultural sofridas nesse período. “Meu avô foi preso no reformatório Krenak”, conta. “Chegou a ser arrastado com o cavalo de um militar, amarrado pelos pés”.  Sem alarde, poucos anos após a criação da FUNAI o reformatório – por vezes também chamado de Centro de Reeducação Indígena Krenak – começou a funcionar (em 1969) em uma área rural dentro do Posto Indígena Guido Marlière. As atividades locais eram comandadas por oficiais da Polícia Militar mineira, que, após o estabelecimento do convênio, assumiram postos-chave na administração local da Funai. Nos anos seguintes, foram enviados para lá mais de cem índios, pertencentes a dezenas de comunidades. Um mosaico de etnias que incluía desde habitantes do extremo norte do país, como os índios ashaninka e urubu-kaapor, a povos típicos do sul e do sudeste, como os guaranis e os kaingangs. Até hoje, muito pouco se divulgou sobre o que de fato acontecia no local. “O reformatório não teve sua criação publicada em jornais ou veiculada em uma portaria”, escreve o pesquisador José Gabriel Silveira Corrêa, autor de um dos poucos estudos sobre a instituição. 

A vida no reformatório tinha uma rotina bem planejada: pela manhã, após o desjejum, os “confinados” – jargão utilizado para designar os índios – eram levados para trabalhos rurais, que prosseguiam também depois do almoço. No fim do dia, eram postos para dormir após o banho e o jantar coletivo. “Íamos até um brejo, com água até o joelho, plantar arroz”, revela Diógenes Ferreira dos Santos, índio pataxó levado ao Krenak em 1969. “Botavam a gente para arrancar mato, no meio das cobras, e os guardas ficavam em roda vigiando, todos armados”, complementa João Batista de Oliveira, conhecido como João Bugre, da etnia krenak. A região onde foi instalado o reformatório era habitada pelos índios krenaks, e muitos de seus representantes também foram presos. Segundo os registros oficiais, alguns índios permaneceram por mais de três anos e havia indivíduos sobre os quais desconhecia-se até o suposto delito. “Uma das histórias contadas é a de dois índios urubu-kaápor que, no Krenak, apanharam muito para que confessassem o crime que os levou até lá”, explica Geralda Chaves Soares, que trabalhou do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Minas Gerais, e atua como pesquisadora da história indígena no estado. “O problema é que eles nem sequer falavam português”. Se comunicar em língua indígena, diz o ex-preso João Bugre, era terminantemente proibido. “Você era repreendido, pois os guardas achavam que a gente estava falando deles”, lembra. Situação ainda mais difícil para aqueles que não sabiam português. “Tinha que aprender na marra. Ou falava, ou apanhava”. Algumas mulheres krenak, que chegaram a ser recrutadas pelos policiais da Funai para trabalhar no reformatório, também são testemunhas das violências desse período. “Quem fugia da cadeia sofria na mão deles”, afirma Maria Sônia Krenak, que foi cozinheira no local. Além dos espancamentos, há relatos sobre perseguições acompanhadas de tiros, e de presos que nunca mais foram vistos. “Saiu um bocado ali que não voltou mais”, revela. (Fonte:André Campos, publicada no site Pública)

Bispos do Brasil se pronunciam sobre as manifestações. 'Fazem renascer a esperança!'

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos. Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”
Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”. O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito. Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!
Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013

Cardeal Raymundo Damasceno Assis - Arcebispo de Aparecida-Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva -Arcebispo de São Luís-Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner -Bispo Auxiliar de Brasília-Secretário Geral da CNBB

terça-feira, 25 de junho de 2013

Na Portugueses, ontem, parecia estar na Síria! Hoje, os estudantes das escolas estaduais interromperam novamente a avenida!

Parecia guerra urbana em alguma cidade da Síria, ontem à noite, na altura da unidade mista na Avenida dos Português, São Luis. O helicóptero sobrevoando e jogando bombas de gás lacrimogêneo sobre os manifestantes que até às  22,00 continuavam se confrontando com a tropa de choque. A população formada por homens e mulheres que participam ativamente da vida da sociedade e sentem na pele o drama da falta de infra-estruturas na região já se havia retirado pela tarde. De fato, representantes do movimento que haviam interrompido a avenida pela manhã tiveram a oportunidade de se encontrar com o secretário de segurança do Estado. Este prometeu posto policial, a transferência do delegado da polícia civil da Vila Embratel e sistema de monitoramento nos locais de maior violência. Tudo, porém, para o próximo ano, conforme um manifestante relatou a este blogueiro. Ontem á noite, no entanto, a tropa de choque teve que voltar porque um grupo de cerca de 50 jovens identificados como não pertencentes a nenhum movimento insistiam no confronto atirando pedras e pedaço de paus, e criando o pânico entre as famílias e as pessoas que voltavam do serviço. Hoje pela manhã a avenida foi interrompida novamente. Agora são os estudantes da escola pública da Vila Embratel que reivindicam melhorias na qualidade do ensino e estruturas. Até onde irá parar isso não vai ser fácil saber....

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Índios do Maranhão ocupam pacificamente a sede da FUNASA. Reivindicam o de sempre: o cumprimento de direitos básicos.

Na onda dos protestos que agora tomam de conta do Brasil, cerca de 300 indígenas voltaram a protestar hoje de manhã em frente à sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), na Jordoa, Centro de São Luís. Cansado de esperar o cumprimento das promessas de sempre, e jamais realizadas, os representantes indígenas de pelo menos 6 etnias do estado reivindicam a troca da diretoria e melhorias no sistema de saúde. A mobilização indígena até agora é pacífica, como em geral sempre tem sido. De acordo com um dos líderes do movimento, a questão da saúde que está muito precária, não têm ambulância e nem carro comum para transportar doentes das aldeias às cidades mais próximas. Não há remédios e nem médicos, pois eles se recusam de trabalhar nas aldeias e para os índios. Os postos de saúde estão sucateados. Muitas crianças já morreram desde o início do ano. É um desespero. Apesar do baixo orçamento, dinheiro não falta na FUNASA, mas a corrupção ativa e passiva o devora. Vendo o que está acontecendo no País nesse momento, muitos cidadãos que condenavam as ‘ocupações’ indígenas, devem estar com saudade de suas ‘costumeiras’ mobilizações pacíficas. Parece até que fizeram história. Afinal, eles como muitos cidadãos estão reivindicando os seus direitos. Nada mais do que isso. 

Tropa de choque ataca população pacífica do Itaqui-Bacanga.

Chegam notícias de que a manifestação da população do Itaqui-Bacanga engrossou. Mais de 1.000 pessoas se concentraram de forma pacífica entre a avenida dos Portugueses e a  entrada do Gapara. Nesse momento chegou a tropa de choque e tenta dispersar os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo. O helicóptero está sobrevoando a área em conflito. A polícia militar fica observando de longe. Fui informado que um rapaz com deficiência mental foi preso pela polícia por estar atirando uma pedra. Alguns protestaram avisando a polícia da situação dele, mas mesmo assim foi levado algemado. A população do Itaqui-Bacanga há meses vem sofrendo a dominação da violência das drogas, a ausência dos aparatos de segurança, a falta de atendimento na educação e saúde. As ruas são um buraco só criando indignação, mal-estar e sentimento de abandono. Concretamente, pedem de poder sentar com 'alguma autoridade' municipal e estadual e ver o que é possível fazer para amenizar a situação.

Manifestações - que não seja mais uma festa, mas uma inserção do gosto do diferente no nosso cotidiano!

Em consequência dos protestos no país todo, um grupo de parlamentares decidiu propor a convocação de uma assembleia nacional constituinte exclusiva para aprovar uma reforma política. Para eles, a rejeição ao sistema político tradicional está por trás da pauta difusa dos manifestantes. A ideia é que, nas eleições de 2014, um grupo de pessoas seja eleito exclusivamente para discutir e aprovar uma reforma política. Os constituintes não precisariam ter filiação partidária e seriam eleitos para mandato de um ano. Depois, ficariam impedidos de disputar eleição por oito anos. Essa constituinte exclusiva funcionaria paralelamente aos trabalhos da Câmara dos Deputados e do Senado. (Fonte: IHU)

Muitos manifestantes de 1968, das Diretas ou do impeachment lembram esses momentos como apenas uma festa, mas que em nada mudou suas vidas. Ganharam liberdade sexual, é tudo. Será uma pena se assim for. Que os políticos procurem conduzir "business as usual" é até compreensível, mas as pessoas que sentiram o gosto do diferente deveriam inseri-lo em suas vidas. A Primavera Árabe, obra de jovens democratas, levou ao poder gente conservadora, como os extremistas da Tunísia e do Egito. Maio de 68 conduziu, em junho daquele ano, à vitória eleitoral da direita. Mas hoje ninguém lembra a direita francesa da época, e todos recordam os estudantes, os jovens, o mês de maio. A sociedade muda. E, assim como 1968 se deu em pelo menos três continentes, de 2011 para cá pode estar surgindo uma segunda onda dessas manifestações tão vitais: com a Espanha, países árabes, Turquia e Brasil, elas parecem estar-se espraiando pelo mundo. O que virá desta segunda onda? (Tirado de Roberto Janine, artigo no O Valor)