sexta-feira, 30 de março de 2018

É dando sentido à vida que podemos encarar a nossa morte biológica


‘Se não ressuscitamos enquanto estamos ainda vivos, depois que morrermos nunca mais iremos ressuscitar’ (Ev. apócrifo de Filipe). ‘Os que morreram já não vivem mais, são os vivos que não morrerão jamais’. (Ev. apócrifo de Tomé). É por isso que os evangelistas ao descrever a morte de Jesus dizem que ele ‘expirou’, ou seja, ‘deixou o espírito’. Jesus não falece, ele entrega a nós o seu espírito, o seu hálito de vida, paradoxalmente na hora da sua morte biológica. Entrega-o não ao Pai, mas a todos aqueles que querem 'in-spirar' o Seu hálito de vida. Para os primeiros cristãos a experiência da Ressurreição se faz não após a morte biológica, que já não tem valor, mas enquanto a pessoa vive, luta, sofre, constrói. ‘Quem crê - quem age como Jesus, - já tem a vida eterna’ nos diz Jesus (Jo. 3,15.16). A vida eterna não é um prêmio futuro. É algo que podemos viver agora, pois ‘vida eterna significa vida com sentido, vida com qualidade, vida plena, bem vivida’.

Jesus, em diferentes passagens nos mostra como há muitos ‘vivos’ que, na realidade, são ‘mortos’ porque não sabem viver bem a sua existência. Perdem-se na procura por dinheiro, poder, prestígio, ambições. Deixam de viver, pois vivem como escravos e dependentes. Mas há ‘mortos’ que continuam ‘vivos’, ou seja, pessoas que mesmo tendo falecido biologicamente, o seu testemunho, os seus gestos e opções de vida continuam presentes e marcantes nos que permanecem. Estes nunca morrem, pois já em vida fizeram a experiência da plenitude de vida e não precisam esperar a ‘ressurreição final e geral no fim dos tempos’! ‘Quem perde esta vida por causa minha e do anúncio-testemunho do evangelho a conservará para sempre’ (Mc. 8,35). Às irmãs de Lázaro Jesus confirma que quem crê nele, ou seja quem se doa e vive como Jesus,  mesmo que morra (biologicamente) continuará vivo, pois Jesus é, agora, a Ressurreição e a vida.(Jo.11,25) Não sejamos mortos ambulantes, mas ressuscitados e ressuscitadores!

quinta-feira, 29 de março de 2018

Quinta feira Santa do lava-pés – Um povo de sacerdotes que servem e acolhem –


Jesus faz implodir a prática dos falsos religiosos que acham que os humanos devem servir a Deus. Deus não precisa ser servido mediante cultos e celebrações. Na última ceia Jesus nos ensina que Deus se faz escravo para que os humanos possam se sentir livres. Livres de ambições e acumulações para servir outros humanos. Não é o serviço em si, só por servir, mas servir para resgatar pessoas que perderam a liberdade, a paz, a esperança. 

Pedro entendeu muito bem o gesto surpreendente de Jesus. Ele se recusa a aceitar que Jesus lhe lave os pés, pois ele mesmo teria que fazer o mesmo com outras pessoas. E isto incomoda. Então ele pede a ‘purificação de todo o corpo’, um rito de limpeza litúrgica, como pretexto para não servir. Mas Jesus deixa claro que por estar com Ele e acolher a Sua palavra já está purificado. O que realmente faz sentido na sua vida é a capacidade de acolher o outro, e de estar ao seu lado. 

João descreve que Jesus após o lava-pés não tira a toalha de que se tinha cingido. Ela fica amarrada, pois significa que lavar os pés não foi um gesto isolado, pontual, mas uma ação permanente do discípulo de Jesus. Se o Mestre que age como Deus faz isto, quanto mais um discípulo! Hoje queremos assumir o compromisso de lutar contra toda forma de autoritarismo e abuso que se comete na igreja de Jesus. Purificar as nossas comunidades de tanta indiferença e desculpa para não acolher e servir a todos. Compreender que todos, indistintamente, deveríamos ser servidores uns dos outros.  

terça-feira, 27 de março de 2018

Indígenas da Terra Indígena Canabrava denunciam 'FOMOS TORTURADOS PELA POLÍCIA' de Barra do Corda!

‘Depois que fomos presos e conduzidos á Delegacia de Barra do Corda, no dia seguinte, (13 de fevereiro de 2018) os policiais me tiraram da cela, colocaram-me um capuz  na cabeça para eu não poder ver nada, e me obrigaram a entrar numa viatura. Desconheço qual foi o lugar onde fomos, pois fiquei encapuzado o tempo todo. Ao chegar ao lugar, ligaram um som em volume muito alto e aí começou a sessão de tortura. Espancamentos, soco na barriga, nas costas. Queriam que falasse os nomes de índios envolvidos nos assaltos que, segundo eles, deviam ser meus cúmplices...Como não podia dizer os nomes, pois desconheço, eles enfiaram a minha cabeça num balde de água e a seguraram lá por muito tempo...Engoli muita água naquela hora. Depois disso, colocaram um saco de plástico na minha cabeça e o apertaram...Depois de um pouco me sentia sufocar, procurava ar, mas não achava. Sei que a uma certa altura apaguei’. Este é o depoimento parcial de um dos três presos indígenas - confirmado pelos outros dois indígenas - que se encontram atualmente detidos na Delegacia de Barra do Corda, após a deflagração da operação policial conjunta que no dia 12 de fevereiro invadiu algumas aldeias da terra Indígena Canabrava á procura de supostos foragidos e assaltantes indígenas. Segundo o depoimento de vários indígenas das aldeias Coquinho, Cabeça de Onça, Sumaúma e Canavial, a operação comandada pelo delegado regional Renilton Ferreira contou com a participação da Polícia Civil, Militar, e da Polícia Rodoviária Federal, deslocando-se com cerca de 6 viaturas e com cobertura de helicóptero. Em momento algum o delegado regional ofereceu aos indígenas algum tipo de mandado judicial, seja para busca e apreensão, bem como para invadir e vistoriar suas casas onde supostamente estariam guardadas as mercadorias roubadas. A operação se caracterizou pela violência espetacular e gratuita. E traumática para muitos indígenas! Muitas casas foram invadidas, objetos atirados ao chão, comida jogada aos cachorros, agressões e ameaças explícitas, e revólveres colocados na cabeça de várias pessoas. Muitos idosos, mulheres e crianças fugiam amedrontados com a chegada dos policiais. Segundo os relatos de vários indígenas não houve nenhum flagrante. Ao contrário, pessoas foram presas de forma arbitrária. O pai de dois suspeitos da aldeia Cabeça de Onça e o irmão de outro indígena da aldeia Canavial foram levados presos para a Delegacia de Barra do Corda e acolá mantidos por 24 horas só pelo fato de que os procurados não se encontravam no local quando da invasão policial. A necessidade de ‘dar satisfação’ à população em geral, e em nome da segurança na área, cometeu-se uma série de abusos de autoridade envolvendo, de forma irresponsável, indígenas inocentes. O pai e o irmão dos três indígenas que sofreram tortura não se intimidaram, e no dia 22 de março formalizaram a denúncia de tortura de seus familiares presos junto à Promotoria Pública de Barra do Corda, notificando também o ocorrido à Defensoria Pública do Estado. A Defensoria Pública Estadual que acompanha o caso informou que já apresentou pedido de soltura dos detidos, haja vista que não houve flagrante, e que os nomes dos três detidos foram feitos em base a uma ‘delação premiada improvisada’ por um adolescente mestiço que havia sido pego em flagrante. O próprio juiz havia determinado numa ‘Decisão’ do dia 16 de fevereiro que fossem soltos após 5 dias. Não se tem notícia de que a Polícia Civil de Barra do Corda tenha debatido e planejado ações de inteligência preventivas para colher dados e informações úteis e embasar uma posterior operação. Não consta também que a FUNAI, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União tenham sido previamente informados. Embora possa ser considerada, nesse caso específico, a súmula 140 do STJ, - que prevê competência da Justiça Estadual em casos de crimes cometidos por indígenas, - sabe-se, também, que existem ainda muitas controvérsias nos tribunais. No caso concreto da operação policial os direitos individuais e coletivos dos indígenas foram simplesmente ignorados. Muitos indígenas temem incursões de milícias armadas querendo ‘fazer limpeza’ na área....

sexta-feira, 16 de março de 2018

MORRI PELA BELEZA - 4 poemas de Emily Dickinson

 19.Sépala, pétala e um acúleo
Sépala, pétala e um acúleo
Numa manhã comum de julho –
O frasco de Rocio – uma Abelha ou duas –
A Brisa – a farfalha nas árvores –
E eu sou uma Rosa!

49.Nunca perdi tudo senão duas vezes
Nunca perdi tudo senão duas vezes,
E tal se deu em gleba dos meus.
Duas vezes me prostrei mendiga
Perante as portas de Deus!
Anjos – duas vezes acudiram
Recompondo meus bornais –
Larápio! Banqueiro – Pai!
Estou pobre uma vez mais!

108. Cirurgiões devem ser bem zelosos
Cirurgiões devem ser bem zelosos
Quando empunham o bisturi!
Embaixo das incisões precisas
Treme o Réu – a Vida em si!

449. Morri pela Beleza – mas estava pouco
Morri pela Beleza – mas estava pouco
À vontade no Túmulo
Quando Um que morreu pela Verdade foi posto
Em um Quarto vizinho –
Ele indagou baixinho “Por que eu falhara?”
“Pela Beleza”, eu disse –
“E eu – pela Verdade – A mesma coisa –
Confrades somos”, disse Ele –
E assim, qual Irmãos, encontramos a Noite –
Conversamos entre os Quartos –
Até que o Musgo alcançou nossos lábios –
E encobriu – nossos nomes –
(Fonte GGN)

Seja maldita toda violência militar. Brasil se revolta e se comove com o assassinato de Mariele


Milhares de pessoas protestaram nesta quinta-feira (15) pelo país contra o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, assassinados na noite de quarta (14) no centro do Rio. Aos gritos de “não acabou, tem que acabar, e Brasil em Transeu quero o fim da Polícia Militar”, “Marielle, presente” e “não vão nos calar”, os manifestantes também afixaram cartazes, acenderam velas e riscaram paredes e pontos de ônibus com mensagens de protesto. Protestos tinham muitos cartazes pedindo o fim da intervenção militar no Estado, mostrando que o assassinato da vereadora pressiona a cúpula da intervenção. Michel Temer, que pretendia comemorar o aniversário de um mês da intervenção com um "balanço positivo", foi aconselhado a cancelar a festa, diante da reação negativa da população.(Folha de SP)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Lula vs Moro - Moro e TRF4 condenaram inutilmente. O STF deverá absolver Lula. Entenda o porquê

A investigação e julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo juiz Sergio Moro, que culminou em sua condenação, deverá resultar em esforço inútil. Apesar do acolhimento que a decisão do juiz Moro teve no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), as falhas processuais e violações da lei, cometidas no curso da investigação, julgamento e condenação, não deverão ter acolhimento no Supremo Tribunal Federal. Dos avanços aos limites da lei na condenação do ex-presidente, a utilização da norma anglo-saxã da “dúvida razoável”, que permite a substituição de provas concretas, por “forte convicção”, talvez seja entre a magistratura ortodoxa, em particular o Supremo Tribunal Federal, o avanço às normas legais que sofre maior resistência.

Apesar de manter distância do processo, o Supremo sempre esteve atento à conduta do juiz Moro e de seus métodos desde o início e vozes da Corte vem ao longo de todo o processo se manifestando através da mídia. O Ministro Ricardo Lewandowski 1, que presidiu o polêmico impeachment de Dilma Roussef, disse; “a presunção de inocência é clausula pétrea da Constituição, não pode ser reinterpretada por juízes”, numa referência direta às “convicções” de Sergio Moro 2. Marco Aurélio Mello 3, por sua vez, afirmou; “Moro simplesmente deixou de lado a lei e isso está escancarado”. Gilmar Mendes4 classificou, de "cretino", quem criou a proposta de combate à corrupção defendida pelo juiz Sergio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol, que diz; ”que prova ilícita feita de boa fé deve ser validada”. No episódio da condução coercitiva de Lula, a Ministra Cármen Lúcia teceu críticas a Moro, enquanto Teori Zavascki e Marco Aurélio Mello foram mais incisivos, condenando a atitude do magistrado 5, o mesmo acontecendo com as gravações e quebra de sigilo, envolvendo Lula e a então presidente Dilma Roussef. Segundo o falecido Ministro Teori Zavascki, na época, Relator da Lava-jato, a decisão de Moro foi inconstitucional 6. Três outros Ministros que não tiveram os nomes revelados; seguiram a mesma linha crítica, no caso das gravações 7.

O corrente entendimento e manifestações de membros do Supremo Tribunal Federal, de que o juiz Sergio Moro avançou os limites da lei aviltando a Constituição na condenação do ex-presidente Lula, indica que a Corte voltará a analisar a questão da prisão após condenação em segunda instância8. O Ministro Celso de Mello, confirmou que já são 7 Ministros a favor de que a presidente Cármen Lúcia inclua na pauta, a prisão após 2ª instância. Segundo o Ministro, essa é uma “questão básica de direito fundamental, o direito de a pessoa ser presumida inocente”. Mais contundente, o Ministro Marco Aurélio Mello afirmou que “tem que colocar em pauta, haja a repercussão que houver 9”. Em outras palavras, no entendimento de juízes do STF, o método Moro que levou à condenação do ex-presidente Lula, avilta a Constituição e não encontra respaldo na lei, por isso, todo o esforço da Força Tarefa com objetivo último de pôr o ex-presidente na prisão, pode ter sido em vão. (Por Frederico Rocha Ferreira)


terça-feira, 13 de março de 2018

Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados (Mt. 5,4)

A lavradora dona Verônica Milhomem perdeu os dois únicos filhos, dois irmãos, dois sobrinhos e uma cunhada no massacre perpetrado por pistoleiros em Pau D'Arco, no Pará, em maio do ano passado. Ela dependia dos filhos para viver, pois fazia tratamento de hemodiálise. Após o brutal assassinato de sete familiares, ela começou a apresentar um quadro de agravamento da doença, assim como uma tristeza muito grande. Em setembro passado, teve a perna amputada, e veio falecer no dia 05 de fevereiro deste ano. Em momento algum, qualquer esfera do poder público a procurou para prestar auxílio. Os familiares e os amigos de dona Vera haviam assumido a missão de ajudá-la em tudo e, principalmente, de ‘consolá-la’. Os aflitos, segundo Mateus, - ou os que choram, na versão de Lucas, - são os que são violentamente maltratados e oprimidos por pessoas e instituições sem escrúpulos. Mergulham no desespero, e não conseguem sair de lá com suas próprias forças. Jesus, na segunda bem-aventurança, os declara bem-aventurados porque graças àqueles irmãos compassivos que fizeram a ‘livre opção de estarem ao lado dos pobres’ - os da primeira bem-aventurança, - serão, em breve, consolados. Consolar não é confortar. Tampouco é conformar os desesperançados para que ‘aceitem dignamente’ a sua situação! É, ao contrário, lutar para extirpar ou, pelo menos, aliviar o peso da sua opressão dilacerante. Daí vem a palavra ‘solidariedade’, ou seja, ‘dar e sentir alívio juntos’! É essa atitude que permite superar a violência de fazendeiros, de policiais violentos, de governos cúmplices, e de tantos outros prepotentes que se lixam da dor alheia. 

Na bíblia temos o testemunho de Jó, um ‘aflito inconformado’. Quando foi reduzido a uma situação de abandono extremo, recebeu a visita de três amigos que foram até ele para ‘confortá-lo’. Ele, porém, reagiu indignado, afirmando que aquela tentativa dos amigos era a pior desgraça, pois eles agiam como ‘confortadores inconvenientes’! (Jó.16,1). Jó não precisava de doces palavras, mas de alguém que assumisse a sua dor e o ajudasse a sair daquela situação de desespero. Da mesma forma, o profeta Isaías no cap.61, ao descrever o dia da vinda do ‘messias libertador’, nos diz que aquele será o dia em que ele ‘consolará os aflitos enlutados’. O enviado de Deus virá para tirar o ‘jugo da opressão, e as roupas de luto’. Para tanto ‘quebrará o chicote do capataz, e queimará as botas e as roupas ensanguentadas dos soldados...’ que produzem dor e lágrimas (Is.9.1-6). Jesus se identificou com essa missão profética, e a assumiu para si. ‘Consolar o seu povo’ significou para Ele, concretamente, libertá-lo não somente da dominação militar estrangeira, construindo o reino da paz, mas também superar a violência religiosa dos sacerdotes e escribas que com seus preceitos criavam sentimentos de culpa nas pessoas. O nosso País, hoje, vive momentos dramáticos de uma violência que brota das entranhas das instituições públicas e da sociedade. É a violência física da polícia que tortura e mata, mas também a do crime organizado que alicia jovens para o comércio das drogas e das armas. Milhares de mães mergulham no luto e na dor ao assistirem impotentes a eliminação física de seus filhos. Outras vezes é uma violência encoberta, mas letal, em que setores influentes do aparato judiciário demoram em julgar ou, pior, condenam, ilegalmente, pais de família, deixando esposas e filhos na angústia. Somos alimentados por uma violência que entrou nas nossas vísceras e cultura, e que nos obriga a nos refugiar em nossas casas fortificadas. Pagamos as consequências da violência econômica daqueles que consideram a ‘coisa pública/república’ um patrimônio pessoal, e se lixam do órfão, da viúva e do povinho sem emprego. Famílias inteiras estão perdendo a alegria de viver, e sofrem na solidão. Bem-aventurados aqueles aflitos que encontram ainda pessoas que não se deixam contaminar pela indiferença. Que continuam sentindo ‘compaixão e indignação’ ao tocar com mão a dor de tantos enlutados. Que resistem e não desistem em enfrentar os senhores das armas, do dinheiro, das drogas, que ceifam vidas e violentam as esperanças e os sonhos de paz de milhões de ‘Donas Vera’! 
(As bem-aventuranças são publicadas mensalmente no O Jornal do Maranhão da Arquidiocese de São Luis)