terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Carta de São Daniel Comboni aos seus missionários por ocasião da escolha do novo padre geral do instituto

Limone, 31 de dezembro, 2024

Meus queridos e amados confrades,

que o Coração de Jesus continue a incendiar suas almas de compaixão e de zelo apostólico. Como vocês bem sabem, apesar de eu me encontrar numa dimensão que vocês ainda não conhecem, o fluxo de informações que tem existido entre nós e vocês jamais foi interrompido. Da mesma forma, garanto-lhes que o afeto e a admiração por vocês nunca diminuíram. 

Queria me dirigir a vocês nesse momento importante para a vida do Instituto que vocês criaram, após o meu retorno ao Pai, e do qual vocês hoje fazem parte. Chegou até mim, - ainda não sei bem por quais caminhos, - que o padre geral de vocês abdicou de sua função para a qual havia sido eleito, de forma soberana, para ser bispo de uma diocese na minha amada África. Confesso que fiquei surpreso e um tanto pensativo com tal notícia. Andei investigando por aqui, através da minha restrita rede de anjos-anunciadores, para obter maiores detalhes sobre a procedência ou não dessa informação, e pude constatar que é verdadeira.

 Diante disso, gostaria, inicialmente, de parabenizá-los porque - diferentemente daquilo que muitos bispos católicos andam dizendo de si próprios ao se apresentarem como ‘legítimos e diretos sucessores dos apóstolos’, - vocês nunca entenderam o padre geral que escolhem, periodicamente, como meu direto sucessor. Contudo, não posso deixar de estranhar o poder que lhe é conferido. É verdade, existe um conselho geral, e uma configuração de instituto em que cada província possui um seu coordenador auxiliado por vários conselheiros, mas, no final das contas, o poder de decisão e, porque não, de interferência é, em última instância, do padre geral. E isso tem gerado muitos equívocos e manifestações pouco evangélicas. Ainda há missionários que entendem esse ‘serviço’ como uma espécie de cargo público a ser prestigiado e celebrado solenemente com parentes e amigos! 

Pessoalmente, acredito no poder da ‘sinodalidade’ que, ultimamente, na dimensão terrena de vocês, assumiu uma centralidade bem significativa. Em outros contextos, outrora, se falava em ‘comunhão e participação’, mas o seu sentido último não muda excessivamente. Tenho que admitir que quando me encontrava no seu mundo terreno atribuía-se ao escolhido a exercer uma missão dentro da igreja uma autoridade e um poder que, agora, vejo um tanto exagerados. Por ele se rezava e invocava o dom do Espírito para que ele pudesse exercer a sua missão com sabedoria. Hoje, após muitos anos, imaginava que diante das grandes transformações históricas na igreja e na sociedade, o instituto de vocês soubesse se adequar e alinhar de forma autônoma e original a estrutura, a linguagem, os conceitos e a metodologia, mas me parece que pouco mudou. 

Vocês não acham que chegou a hora de deixar de lado aquele pudor institucional que, frequentemente, oculta ‘segundas intenções’? Vocês não acham, por exemplo, que chegou a hora de largar de ‘nomear o nome de Deus em vão’ invocando as luzes do Espírito Santo para que os delegados escolham o novo geral de acordo com a sua (deles) consciência, mas que, ao lado da oração sempre bem-vinda, se criem, também, mecanismos concretos para que haja um amplo e participativo debate sobre o papel, os desafios, a missão, a identidade do futuro coordenador do seu instituto? Vocês não podem ignorar que quando há uma eleição, e nesse nível, principalmente, - e não se pratica um discernimento aberto, direto, comunitário, enfim, sinodal, - é grande a tentação de vocês mergulharem nos sórdidos joguinhos de ‘grupelhos de pressão’ para viabilizar este ou aquele nome, e, pior, sempre na surdina. Às vezes, tenho a impressão que as assembleias e os capítulos que vocês fazem são meras formalidades e repetições de coisas já vistas, e que pouco acrescentam à atual vida do instituto. 

Finalizando esta minha carta, como pai e pastor de vocês, - pois é assim que ainda me considero, -  exorto-os a não ter medo do futuro próximo que vocês mesmos estão a vislumbrar: a escassez de vocações, ou o seu surgimento restrito, basicamente, a uma região bem específica da terra, a minha amada África, o aumento de casos de desistência de missionários, os desafios com a manutenção econômica e muitos outros problemas que vocês bem conhecem. Convido-os a não serem meros executores de regras canônicas engessadas e esclerosadas, e nem modernos reprodutores de tarefas apostólicas ditadas por planos sexenais elaborados às pressas. Filhinhos, não se preocupem com o nome do candidato a ser o futuro geral de vocês, nem do atual e nem do futuro. Assegurem-se, ao contrário, que desde já se multipliquem as formas, os meios e os conteúdos centrais e coerentes da missão de vocês, hoje, para debater, discernir, e escolher todos juntos os melhores caminhos, evitando disfarçadas atitudes autoritárias, elitistas e omissas. Que Jesus o único e verdadeiro Pastor seja sempre Aquele que caminha ao seu lado. Abraço-os com profundo afeto e que Maria mãe missionária nos proteja sempre!

Vosso Daniel Comboni


sábado, 28 de dezembro de 2024

Solenidade da família de Jesus, Maria, José e quem ouve e pratica a Palavra

Quando disseram a Jesus que a mãe dele e seus irmãos estavam 'lá fora'para procurá-lo, - pois alguns diziam que ele estava fora de si, - Jesus de forma contundente afirmou que mãe, pai e irmãos são todos aqueles que escutam a Palavra e a põem em prática. Aquele filho que outrora vivia submisso e obediente a seus pais, chega à idade adulta em que, sem titubear, reafirma uma estrutura-identidade de família que vai além das tradicionais conotações biológicas. Em outras palavras Jesus afirma que é profundamente evangélico e humanamente salutar ser pai e mãe para quem nunca conheceu o amor de um pai ou de uma mãe, e ser irmão ou irmã para aqueles que nunca conheceram relações afetivas em que são oferecidos carinho, presença amorosa e proteção de graça, sem ser condicionado pelas obrigações morais do parentesco. Jesus sabia algo a esse respeito: afinal aprendeu a acreditar num Pai compassivo e misericordioso ao conviver com um pai não biológico que O amou e cuidou como se assim não fosse! Hoje as nossas igrejas refletem no seu seio as disputas, as ciumeiras e as rivalidades existentes nas comuns “sagradas famílias” e estão longe de viver o amor gratuito e soberano, para além da pertença biológica, étnica, religiosa e de gênero.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Cordel de Natal

 Natal outra vez, será que chegou a nossa vez.

A vez de cantar a esperança com ou sem dança?

Natal é tempo de reflexão, é o que dizem os irmãos,

Momento certo de semear virtude e assumir nova atitude.

Fico um tanto desconfiado com tanto mercado,

Muitos dons e muita luz a verdadeira paz não produz.

Natal é cantar a vida da pessoa querida,

Elevar o louvor e oferecer mais amor.

Pôr fim à guerra em toda a terra

Extinguir a escravidão e cantar a libertação

Natal é a estrela contemplar, e por ela se deixar levar,

e dos palácios de Herodes sempre se desviar; 

Natal é servir com afeição a comunidade e o povão

Caminhar sem ambição em plena comunhão.

Jesus não cansa de nascer na noite escura e no alvorecer

Meu irmão minha irmã não canse de crer que um novo mundo vai nascer! 


Feliz Natal 

A Eterna Criança, o Deus que faltava - Por Fernando Pessoa

 Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Pelo menos o recém-nascido Jesus........

Pelo menos o recém nascido Jesus ao nascer encontrou uma manjedoura e os cuidados de dois pais ao seu lado, ao passo que muitos recém nascidos, hoje, são colocados entre os escombros do terror, e sem o cobertor de um carinho paterno. Pelo menos Jesus tinha o calor do hálito emanado por um boizinho e um jumentinho, enquanto que muitos recém nascidos, hoje, inalam a fria indiferença ou são banhados pela baba da raivosa truculência de desumanos intolerantes e agressivos. Pelo menos o recém-nascido Jesus recebeu a surpreendente visita de suspeitos e desconhecidos pastores, ao passo que, hoje, muitos recém nascidos morrem sozinhos e desassistidos ainda na primeira semana de vida. Pelo menos o recém-nascido Jesus se tornou adulto e conseguiu, embora entre incompreensões e conflitos, realizar a sua missão, enquanto que, hoje, muitos recém nascidos sequer chegam à adolescência, pois são ceifados pelas balas de pistoleiros fardados do estado ou o seu futuro é sequestrado pelas gangues dos traficantes. Ainda bem que Jesus nasceu uma vez por todas!!!!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

IV Domingo do advento - O impossível se torna possível, e o divino assume a essência dos humanos!

Deus se revela não num templo sagrado, mas numa casa comum, num anônimo povoado. Não fala a sacerdotes, - supostamente mediadores entre Deus e os homens, - mas dialoga com uma mulher palestina da insubordinada 'Galileia dos pagãos'. A desconhecida Miriam acredita que algo grandioso está ocorrendo dentro dela. Muitas dúvidas a fazem balançar, mas não retroceder. Ela se deixa conduzir pelo Espírito e confia num futuro que não conhece e nem controla. Maria, contudo, não é uma ingênua passiva que acolhe tudo sem procurar razões e explicações do que lhe foi anunciado. Ela sai à procura de verificações e visita Isabel, outra grávida despachada pela biologia por ser considerada 'estéril'. Ela constata que o impossível se torna possível. A pequena 'grande vida' ainda embrional dormitando no útero de uma 'improdutiva' mexe surpreendentemente com expectativas e sonhos seculares até então frustrados. Miriam compreende que a revelação daquele anjo não era adivinhação e nem promessa vazia. Era o início da realização definitiva de uma esperança que vinha acalentando com o seu povo desde sempre. Deus deixou os distantes céus e veio para conviver com o seu povo sofrido, mas bem-aventurado porque acreditou no impossível. 


Censo 2022 mapeou 750 localidades e mais de 57 mil indígenas no Maranhão

O Censo Demográfico 2022 mapeou um total de 750 localidades indígenas no Maranhão, representando 8,75% do total das 8.568 existentes em todo o Brasil. O estado tem o quarto maior número de localidades indígenas o país, ficando atrás apenas do Amazonas (2.751), Mato Grosso (924) e Pará (869). Novos dados do levantamento censitário relacionados aos povos indígenas foram divulgados nesta quinta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São consideradas localidades indígenas todos os lugares com aglomerados permanentes de 15 ou mais moradores indígenas, seja em áreas urbanas ou rurais. Elas incluem aldeias, comunidades, sítios, acampamentos, instituições de acolhimento e outras formas de organização socioespacial dessas populações.

População

Os dados mostraram ainda que o Maranhão conta com uma população indígena de 57.166 pessoas, o que representa 0,84% da população total residente no estado. Em comparação com o Censo 2010, que mostrou um total de 38.831 pessoas, a população indígena no Maranhão aumentou 47%. Dos 57.166 indígenas maranhenses, 41.677 (72,91%) residem dentro de terras indígenas, enquanto que 15.489 (27,09%) moram fora dessas localidades. Ainda segundo o Censo do IBGE, em 2022, haviam 9.604 moradias ocupadas dentro das terras indígenas.

Moradias

Em relação ao tipo de domicílio, os dados apontam que a maioria da população indígena do Maranhão reside em casa, somando 16.799 (95,63%) de domicílios desse tipo. Maloca é o segundo tipo de moradia ocupada por moradores indígenas no estado, com 358 domicílios (2,04%). Além destes, aparece também apartamentos, com 223 domicílios (1,27%); Casa de vila ou condomínio, com 144 (0,82%); cortiço (20 – 0,23%); e estrutura degradada ou inacabada (3 – 0,02%). (fonte: Gildean Farias)