terça-feira, 24 de março de 2026

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira.

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira, no Pará, mesmo diante do avanço de doenças como dengue, febre e infecções pulmonares que já levaram crianças ao hospital. O protesto é contra a licença de instalação concedida à mineradora Belo Sun para o Projeto Volta Grande, que prevê uma mina de ouro a céu aberto às margens do rio Xingu

Em encontro com representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai, elas deram o prazo até quarta-feira (25) para uma reunião com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), responsável pelo licenciamento, e o Ministério Público Federal (MPF). As manifestações são lideradas pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu. Elas estão dormindo em barracas e tomando banho no rio porque os banheiros da Funai estão danificados. “Não foi por falta de alimentação, não foi por falta de água. Aqui na sede da Funai a gente está dormindo em barracas, e acho que o ambiente é muito úmido. Três crianças tiveram infecção pulmonar”, conta Tayani Xipaya, do povo Xipaya.

A principal reivindicação é a suspensão da licença do projeto, liberada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) em 13 de fevereiro. A medida barrou uma decisão anterior que mantinha o projeto paralisado por falhas no cumprimento de exigências relacionadas aos direitos indígenas. A concessão é de 2017, mas é contestada desde então. Na última segunda-feira (16), o movimento bloqueou o acesso ao aeroporto de Altamira. Uma audiência pública havia sido marcada para a manhã de quinta-feira (19), mas nenhum representante da Funai compareceu. Somente na sexta-feira (20), o procurador-geral do órgão federal, Matheus Antunes Oliveira, e assessores do MPI estiveram na sede da Funai em Altamira. As mulheres reforçaram o pedido para a anulação da licença e a realização de uma reunião com a Semas e o MPF, com prazo até a próxima quarta-feira.

A mobilização reúne lideranças dos povos XikrinAraraXipaya e Juruna. Percorrendo rios e estradas desde suas aldeias até a sede da Funai, algumas delas se deslocaram por mais 600 km, como no caso do povo Xikrin, ou por mais de 100 km, como ocorreu com as mulheres do povo Arara. A antropóloga Thais Mantovanelli, do Instituto Socioambiental (ISA), trabalha com as mulheres do Médio Xingu há mais de dez anos e explica que o protesto é incomum. De acordo com ela, as indígenas não costumam deixar suas aldeias nem gostam de fazê-lo. Só tomam essa decisão quando estão muito assustadas.

A mobilização das mulheres indígenas indica a gravidade do cenário: quando elas deixam suas atividades cotidianas para protestar é porque há uma ameaça urgente aos modos de vida e à continuidade da vida no território. Elas estão liderando porque têm papel central na proteção e reprodução da vida. Elas cuidam das crianças, dos alimentos, dos ciclos naturais e percebem de forma direta os impactos ambientais”, explica.

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