Não foi sonho, foi uma espécie de pesadelo.
A
noite toda Edinho havia se mexido e remexido naquele colchão matrimonial manchado
pelo desleixo do tempo, e com forte olor de mofo.
Sentou-se
na cama mais cansado do que quando havia se deitado no dia anterior. Olhos
inchados, cabelos desgrenhados, e a clara sensação de ter sonhado a mesma coisa,
repetidas vezes, durante toda a noite.
Não
conseguia entender a razão para tanto.
- ‘Que diacho aconteceu comigo, ontem, para ter uma noite infernal como essa!’ - dizia consigo mesmo. Tentava, na sua mente, resgatar alguns acontecimentos do dia anterior para ver se, por acaso, poderiam ter influenciado o seu sono.
Esforçava-se para se concentrar em algo que poderia ter perturbado a sua rotina, mas nada aflorava à sua mente. Não encontrando nenhuma resposta, com cautela colocou as duas mãos no rosto, na testa, esfregou os braços como que à procura de algum sinal de febre, mas nada.
Estava
a renunciar a compreender aquele seu mal-estar quando o seu olhar posou, sem
querer, naquele calendário que nunca o havia abandonado desde criança, pois
marcava tudo. Marcava as festas, os santos do dia, as luas crescentes, as cheias
e as minguantes, as luas boas para semear e plantar. Até orações para todo tipo
de necessidade havia naquela enciclopédia que marcava o lento ritmo do tempo.
- ‘Minha nossa’, - exclamou, estupefato, - ‘hoje é festa de Ramos’!
- 'Começa
a semana santa e eu nem dei fé’! exclamou, um tanto chateado, como que a
repreender a si próprio por esse descuido de memória.
- ‘Estou
ficando velho, distraído e desligado de tudo e todos...’ disse,
desconsolado.
Empinou
o corpo ainda vigoroso, mas já ligeiramente curvo, após 70 anos de vida intensa,
e levantou-se com uma agilidade que o surpreendeu.
Tomou
um banho rápido que lhe devolveu disposição e humor, e bebeu a pequenos sorvos um
café bem forte.
Sentia-se
um outro homem.
Tudo,
agora, parecia fluir nos seus pensamentos com uma nitidez que só lembrava ter possuído
quando era bem mais jovem.
Tomado
já por uma energia desconhecida e por um fio de ansiedade começou a procurar o
seu velho e inseparável facão. Achou-o no mesmo lugar de sempre, repousando
como um guerreiro fiel numa bainha de couro desgastado e carcomido.
Apressou-se
e saiu para o quintal indo direto para o juçaral que ele havia plantado 10 anos
antes. Encontrou um pé de juçara bem pequeno e cortou um galho vigoroso de um
verde intenso.
- ‘Esse daqui serve’ - disse. Os poucos vizinhos que conseguiam trocar algumas palavras com o sisudo Edinho sabiam que ele era cuidadoso e ciumento de suas plantas, flores, trepadeiras, ervas de todo tipo de aromas.
Voltou
para a cozinha. Depôs o facão no mesmo lugar. Arrastou um pequeno tamborete de
couro e com delicadeza deitou o ramo de juçara.
Armou
a sua esfarrapada rede bem em frente daquele ramo que já adquiria ares de
sacralidade. Abriu a rede e deitou-se. Todo domingo de Ramos ele fazia isso, desde que a Rosário, sua inseparável companheira, havia falecido, na madrugada de um domingo de ramos, dez anos antes.
Edinho já não aparentava mais aquele semblante cansado e de quem passou uma noite mal dormida. Ele, agora, sabia o porquê daquela espécie de pesadelo que o havia atormentado durante toda aquela noite.
Fechou, por um instante, os olhos, mas os reabriu imediatamente, quase como se quisesse fugir de algo que não queria mais lembrar. Sabia que se os mantivesse fechado ele iria voltar a ver vultos, fantasmas e lembranças gostosas e dolorosas que ele, quando consciente, queria ter enterrado há muito tempo, mas que jamais havia conseguido.
‘De
novo! As semanas santas, antes ou depois, vão acabar comigo...’ dizia para
si.
Edinho
olhava, fixamente, angustiado, aquele telhado de folhas de ubim, dividido internamente,
sem saber se, mais uma vez, se deixaria levar por lembranças que, sistematicamente, emergiam no início da semana santa,com a sua tácita cumplicidade, ou se dava um basta definitivo a tudo isso.
De
um lado, ele queria voltar página na sua vida e sepultar toda lembrança que lhe produzia
renovada dor, sofrimento indescritível, mas, ao mesmo tempo, ao contemplar um
simples galho de juçara no dia da festa de Ramos, deitado numa rede, e mantendo
os seus olhos lacrados, Edinho voltava a ver rostos de pessoas amadas que,
agora, talvez estivessem vagando no reino do anonimato, mas não para ele que as sentia reais,
vivas, e presentes como outrora.
E
isto, apesar da sua trágica ausência física, proporcionava-lhe um misto de envergonhado e íntimo regozijo e de gostosa saudade, mas, também, de irreprimível sentimento de culpa por
quase se alegrar em rever na sua mente pessoas já falecidas e enterradas.
Pelo
sim, pelo não, Edinho decidiu não fechar mais seus olhos. Sentou-se na sua rede,
pensativo, mas consciente de ter já tomado uma decisão.
- ‘Com a minha idade não dá mais para viver de lembranças,
boas ou tristes, dolorosas ou gostosas. Chega de sonhar de olhos fechados! O
ramo da minha juçara dentro de alguns dias vai murchar e secar...e, comigo, não
vai ser diferente’ - dizia
Edinho, com um fio de tristeza e de realismo.
Naquele instante foi como se a ficha da vida tivesse caído, finalmente, e encontrado o seu sentido. Edinho levantou-se, dirigiu-se até à parede e arrancou com firmeza o calendário, depois pegou em suas mãos o ramo de juçara e saiu, novamente, para o quintal, com um isqueiro e uma garrafinha de álcool. Afastou-se um pouco de suas plantas e flores e, naquele terreiro que mais se parecia a um jardim, ateou fogo ao calendário e ao ramo de juçara, talvez, imaginando que afastaria de si o seu turbolento passado.
Enquanto o fogo demorava para pegar e a fumaça já começava a incomodar os olhos irritados e lacrimejantes de Edinho, outras lágrimas, inexplicavelmente, começavam a brotar e a se misturarem entre si. Por um instante ele tentou fechar os olhos como querendo se defender da fumaça, mas resistiu.
Edinho, naquele domingo de ramos, de paixão e de vida nova, entendeu que precisava manter os seus olhos sempre abertos para poder expulsar os fantasmas e os medos, as tristezas e os pesadelos. Entendeu que seus olhos precisavam voltar a receber luz, uma luz nova, carregada de energia poderosa para ele próprio se alimentar de esperança, de futuro, de vida nova.
Nenhum comentário:
Postar um comentário