terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

15 milhões de Brasileiros estão passando fome....

 A conjuntura não era boa e o ano de 2019 encerrou com o fantasma da volta do Brasil para o Mapa da Fome. Em 2020, na eclosão da pandemia, a falta de comida na mesa virou uma realidade não somente para aqueles que estão em vulnerabilidade social, mas também para quem ‘se virava’ e tinha um trabalhado mesmo que informal. “As pessoas ficam desprovidas de renda, de início se endividam, depois já não tem mais condições de garantir compras de alimentos, mesmo os de mais baixo valor e pior qualidade”, aponta o economista Francisco Menezes. E se na cidade a falta de qualquer tipo de trabalho é o início de um caminho inevitável para a fome, no campo o desmonte de políticas à agricultura familiar e pequenos produtores empurra essas pessoas para as mesmas condições daqueles que vagam pelos centros urbanos sem renda. Até mesmo a suspensão das aulas impactou esses produtores, pois também eram grandes fornecedores para programas de merenda escolar. “Criou-se um problema que impactou fortemente sobre a alimentação das famílias com filhos na rede de escolas públicas, por deixarem de contar com o que era servido nas escolas. Do outro lado, a agricultura familiar que tinha a garantia de fornecimento de no mínimo 30% dos alimentos para as escolas, ficou sem esse mercado”, detalha Francisco. Ele também lembra que já “entre 2017 e 2018 já tínhamos mais de 10 milhões de pessoas vivendo em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, em situação de fome”. Assim, sem estarmos em situação favorável ainda sofremos a pandemia que acelera o agravamento desse quadro. “Se projeta que teríamos hoje em torno de 15 milhões de pessoas em situação de fome”, pontua. (Fonte: IHU)


'ARMAI-VOS UNS OS OUTROS'

 ‘Armemo-nos e partam’! Muitos conhecem a proverbial frase pronunciada por Benito Mussolini, o ditador fascista italiano, às vésperas da II Guerra Mundial. Reflete a atitude mesquinha de quem se subtrai a cumprir uma ordem que ele mesmo deu! Todos devem se armar, mas somente ‘os outros’ deverão arcar com as consequências de tal ordem. No caso específico, ir para a guerra. Pouco mais de um século mais tarde, outro candidato a ditador, no Brasil, conclama a população a ‘armar-se’. Não há uma guerra mundial ameaçando o País, mas os números das vítimas por homicídio são, tecnicamente, de ‘guerra civil’. Mediante repetidos e insistentes decretos presidenciais o atual presidente vem tentando flexibilizar sempre mais o porte e a posse de um número sempre maior de armas para ‘os cidadãos de bem’ se defenderem dos ‘bandidos’. Há, nisso, uma tácita admissão do fragoroso fracasso das instituições de segurança em proteger os ‘cidadãos normais’, ou seja, os que não podem e nem querem comprar armas. A fixação um tanto mórbida do atual mandatário com armas de fogo vem de longe. Remonta ao ano de 1995 quando o então candidato a deputado federal Jair Bolsonaro foi abordado por dois assaltantes que lhe roubaram a sua inseparável pistola Glock 45. Em várias entrevistas ele teve que admitir que, mesmo armado, naquela circunstância, se sentiu impotente. E, uma vez desarmado, permitiu que mais uma arma de fogo circulasse no comércio da criminalidade do Rio de Janeiro. Não é uma preocupação com a segurança da população que move o presidente em sua cruzada armamentista. E nem a tentativa de fazer justiça a um suposto clamor popular por segurança via armamento individual do cidadão. Há em jogo inconfessáveis intenções em engordar o cofre das indústrias bélicas nacionais e internacionais. Aquelas que abastecem as milícias urbanas, os grupelhos radicais ultraconservadores e violentos. Há, na atual conjuntura nacional, uma inegável tentativa de ‘preparar’, via armamento individual, aqueles setores da população identificados com o ‘Duce’ e dispostos com ele a defender um possível autogolpe institucional. 

Só os frouxos e os trogloditas sem argumentação e sem responsabilidade social apostam no falso poder civilizatório das armas. Os números oficiais não desmentem: quanto mais armas existem em circulação, mais crimes são cometidos! Contudo, essa argumentação é considerada uma falácia inaceitável para aqueles ‘cidadãos de bem’ que colecionam armas de R$ 3.000,00, enriquecem com sua venda e crescem politicamente à custa do medo e do sentimento de desamparo que domina e paralisa os ‘cidadãos comuns’. Mais uma vez o governo dessa ‘pacífica nação’ vai na contramão de numerosos Países, - como é o caso, por exemplo, dos EUA pós Trump, - que tendem a restringir sempre mais o acesso às armas por parte dos cidadãos de bem ou não. Chegou a hora de inverter radicalmente as prioridades sociais, e trazer de volta o País à sobriedade e à sanidade moral. Em vez de aumentar as armas pessoais de quatro para seis, faz-se urgente aumentar os impostos sobre os lucros e sobre as grandes fortunas dos sonegadores recalcitrantes. Faz-se urgente multiplicar, - biblicamente falando, - alimentos, salários e investimentos em saúde, habitação, empregos, universidades... E no desarmamento dos ‘cidadãos de bem’, fardados ou não! Afinal, já o Mestre da buliçosa Galileia dizia que ‘quem de espada fere, de espada será ferido’!


AS COISAS DE CARAVAGGIO - POR ROMÉRIO RÔMULO

 



Há coisas como o dia, como a noite

como as maçãs dormidas no seu prato.

há coisas pelos anjos, que intranquilos

revelam um macabro sobre tudo.

há coisas que são poucas e devassas

há coisas muitas, pedras, feitas breves

numa sangria de cuidado e morte.

que coisas arrebatam e nos queimam

de pura dor e sofridão intensa?

as coisas reveladas são mais duras

que a irrevelada ação que as sustenta?


há coisas tão medonhas enterradas

e outras só encanto nos seus vôos

que ávido de tudo me carrego

neste mar de sangrias infundadas.

umas coisas me dizem que sou bruto

tantas outras me regem que sou sábio

e dilaceram meu ânimo de bicho

ou corrompem um ombro puro osso.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

6º domingo comum - 'Fica curado, e volte a conviver conosco, porque somos todos irmãos'! - Mc 1,40-45

 A transgressão de Jesus exibida na sinagoga, e fora dela, inspira e dá frutos. Um hanseniano parece ter captado o jeito livre de Jesus diante da lei, e reproduz a sua ousadia e atrevimento. Relegado ao ‘isolamento social’ pela sua doença, o hanseniano, ‘duplamente impuro’ – social e ritual, - se rebela às normas. Invade a aglomeração criada ao redor de Jesus e o interpela. Ele não busca prioritariamente a cura física. Ele quer ser readmitido ao convívio social. Quer que lhe sejam devolvidos a sua dignidade e o seu direito de conviver com amigos e familiares. Mesmo sabendo do poder de Jesus o ‘transgressor atrevido’ deixa a Jesus a opção de curá-lo ou não. O Mestre ignora as filigranas da lei dos doutores e sacerdotes, estende a mão e o toca. Jesus é movido pela compaixão, e não pelas exigências legais! Mesmo que isto signifique ser considerado um impuro. Jesus acolhe a súplica do hanseniano e ordena com autoridade ‘Eu quero (não os sacerdotes):fica curado’! Ou seja, ‘volte a viver conosco, porque você sempre foi um de nós, um irmão, não um apestado! Experimente a alegria de abraçar e de ser abraçado! Vá e esfregue na cara dos sacerdotes esse seu novo status social e existencial’! O empedernido transgressor curado não foi se mostrar aos sacerdotes como previa a lei. Simplesmente reproduzia o que o seu Curador fazia: divulgar e pregar a inédita emancipação trazida por Jesus: somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai-Mãe!


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Funai inicia nova etapa da ação de barreiras sanitárias no Maranhão

 A Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou, na última semana, a quarta etapa da ação de barreiras sanitárias em Terras Indígenas (TIs) do Maranhão onde vive o povo Awa Guajá. Os trabalhos ocorrem em parceria com o Batalhão de Polícia Militar do Estado e têm o objetivo de intensificar a vigilância e o controle de acesso aos territórios indígenas durante a pandemia. Por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Awá, a Funai mantém seis barreiras sanitárias em funcionamento contínuo desde o mês de outubro do ano passado, localizadas no entorno de Terras Indígenas do Maranhão onde vivem os Awá Guajá e os grupos em isolamento voluntário e de recente contato da mesma etnia.

Além de monitorar a movimentação de pessoas e veículos nas imediações das TIs Alto Turiaçú, Awá, Caru e Arariboia, as barreiras permitem identificar e coibir a prática de ilícitos ambientais, bem como a promoção de ações de educação em saúde e de direitos indígenas para a população que mora no entorno das áreas indígenas.“Durante as atividades, as equipes também identificam e comunicam a ocorrência de casos suspeitos de covid-19 à vigilância epidemiológica dos respectivos municípios. Além disso, várias frentes de ilícitos ambientais já foram desarticuladas pela atuação das barreiras sanitárias”, comenta o coordenador de Políticas de Proteção e Localização de Povos Indígenas Isolados da Funai, Geovanio Oitaiã Pantoja, que pertence à etnia Katukina.

A Medida Provisória (MP) 1027, editada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, autorizou a Funai, de forma excepcional e temporária, a efetuar pagamento de diárias a servidores e militares que atuarem em barreiras sanitárias. A MP busca facilitar a atuação dos parceiros governamentais no suporte a essas barreiras, permitindo, assim, a manutenção e o aprimoramento dos trabalhos. Atualmente, a fundação mantém mais de 300 barreiras sanitárias em funcionamento no país.

(Assessoria de Comunicação/Funai)


sábado, 6 de fevereiro de 2021

V domingo Comum - Na vida do seguidor não entra satanás...xô satanás, xô satanás! (Mc. 1, 29-30)

Sábado estranho o de Jesus. Vivido em plena transgressão. Vai à sinagoga não para ouvir, e sim para pregar. Prega o oposto dos doutores da lei. Diante da contundência dos conteúdos de Jesus, alguém, cheio de complexos e culpas, entra em crise. Descobre-se possuído e manipulado. A lavagem cerebral exercida pelos ‘ideólogos da lei’ é escancarada pelo leigo pregador de Nazaré. É preciso se libertar do entulho demoníaco que aquele espaço sagrado veiculava. No evangelho hodierno, Jesus, após sair da sinagoga, sempre de sábado, comete mais uma transgressão. Mas, agora, com a cumplicidade dos apóstolos que percebem que o Mestre não liga para as exigências do sábado. Levam-no para a casa da sogra de Pedro: mulher e doente. Duplamente impura. E, por isso, duplamente agraciada: Jesus a pega pela mão e a cura. Para Jesus o ser humano, macho ou fêmea, está acima de toda proibição e norma social elaborada por  religiosos manipuladores e machistas. Marcos faz questão de frisar que Jesus pegou a mulher doente pela mão e a ajudou a ‘levantar-se’. O mesmo verbo utilizado para indicar a ‘ressurreição’ de alguém. A mulher ‘levantou-se’ dentre os excluídos, os relegados à invisibilidade social. Torna-se pessoa nova, viva e atuante, habilitada para servir. Um serviço espontâneo e gratuito. Uma 'diaconia' voluntária! Na sociedade em que tudo exige retribuição 'a cidadã invisível' e doente aponta para a gratuidade e para a gratidão. Hoje, como ontem, os piores infratores são os que se consideram 'guardiões da lei'. E os piores inescrupulosos são os que se fazem chamar de patriotas e defensores da família e da propriedade. É preciso que o seguidor de Jesus atualize e reproduza a mesma transgressão de Jesus: recolocar em primeiro lugar o cuidado e a proteção de tantos indefesos e inúmeros agredidos pelos demônios genocidas, pelos hipócritas legisladores e pelos 'falsos pastores' que rondam os palácios e os templos.... 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

CARLO UBBIALI - 20 LONGOS "BREVES" ANOS DE AUSÊNCIA SEMPRE PRESENTE!


 20 anos atrás, ao voltar com vários colaboradores de uma solenidade de formatura de um casal indígena que acabava de se formar em magistério, nas proximidades de Araguanã, no dia 04 de fevereiro de 2001, vinha a falecer num acidente de carro o Padre Carlo Ubbiali, amigo, irmão e companheiro. Ele havia nascido em Brignano (Bergamo - Itália) aos 28 de junho de 1939. Após o curso preparatório é enviado pelo então bispo de Cremona, ao Brasil, na diocese de Viana, no estado do Maranhão. Padre Carlo chega a Viana num momento delicado. Após a morte do bispo Dom Francisco Hélio Campos, considerado pelo regime militar como bispo perigoso por ter assumido a causa dos direitos dos lavradores e pobres daquela terra, é nomeado bispo de Viana o capuchinho Adalberto Abílio Paulo da Silva. Padre Carlo após um breve período de serviço pastoral em São Vicente Ferrer transfere-se para Boa Vista do Gurupi, na diocese de Cândido Mendes, hoje Zé Doca. Começa a ter os primeiros contatos com a realidade indígena, pois Boa Vista era uma cidade muito freqüentada pelos índios Tembé, Ka' apor e Timbira que ocupavam a  Alto Turiaçu. Fundador do Regional CIMI -MA (Conselho Indigenista Missionário do Maranhão) começa a articular a pastoral indigenista nos estados do Maranhão e Tocantins e a desencadear campanhas e mobilizações. A mais significativa destas, e que marcou a vida do padre, foi a sua participação em 1981 na transferência de um grupo de índios Guajá, índios nômades e com poucos contatos, para garantir-lhes a integridade física na atual Terra Indígena Awá-Guajá. Além disso, em 1982 articula com outras personalidades e movimentos de São Luís e do Maranhão inúmeras mobilizações de resistência à instalação da Alumar, ao Projeto Carajás e à ferrovia que originou impactos nocivos aos povos indígenas e comunidades situados às suas margens. Em 1990 em ocasião da assembléia nacional do Cimi é eleito vice-presidente nacional da entidade, sendo presidente Dom Tomás Balduíno. O último sonho da vida dele era iniciar um projeto de educação formal dos índios Awá-Guajá e a criação de uma escola de Ensino Médio para os índios Guajajara na Terra indígena Pindaré como forma de eles se tornarem artífices do seu futuro segundo seus valores, sua cultura, seus projetos de vida. Algo que se efetivou após alguns anos. 

Após 'longos' breves 20 anos, o missionário de Brignano, Bergamo, continua marcando presença e inspirando quantos se colocam ao lado da causa indígena. Imagino, por um momento, o que Carlos diria e faria, hoje, ao ver as tentativas da Funai em liberar garimpos e mineração em todas aquelas terras ainda não plenamente homologadas e diante de um presidente da República cuja prioridade para este ano coloca a 'mineração em terras indígenas', ignorando a situação de calamidade que o País vem enfrentando. Hoje, Carlos teria a nobre idade de 82 anos e não me é difícil imaginar o que aquele idoso faria se estivesse vivo e atuante no nosso meio...Certamente dedicaria mais tempo a leituras e momentos de espiritualidade que ele cultivava sistematicamente; daria mais tempo a amigos e a momentos de confraternização, aproveitando tudo o que a vida, a amizade, a fraternidade oferece de bonito e gostoso; continuaria fazendo algumas visitas seletivas a algumas aldeias próximas, dirigindo pessoalmente o seu carrinho e permanecendo nas aldeias ouvindo contos e cantos, histórias e estórias de um passado não tão mítico de povos resistentes e....anotando tudo naquela caderneta encardida que sempre levava junto. Não dispensaria, ao chegar à sua base em São Luís - como ele havia escolhido poucos meses antes de falecer, - chamar colaboradores e amigos para tomar juntos um vinho e assar uma carne vermelha, e entre uma análise e outras, não deixaria de apreciar algumas lorotas dando gargalhadas contagiantes. Pois, aqui estamos, hoje, 20 anos de presença real, não de um fantasma ou de um espírito desencarnado, mas de uma pessoa que nunca se ausentou entre aqueles que não desistem em senti-lo próximo!