terça-feira, 29 de dezembro de 2020

“TIREM O GARIMPO DAS NOSSAS TERRAS” Líder indígena relata a batalha contra a mineração ilegal e a Covid-19 no território yanomami - Por DÁRIO KOPENAWA

 


Meu pai, Davi Kopenawa, luta há décadas pelos direitos do povo yanomami. Graças à campanha liderada por ele, em 1992, foi homologada a Terra Indígena Yanomami, um território de 96.650 km² no extremo Norte da Amazônia, ao longo da fronteira com a Venezuela. A partir da homologação, o governo fez uma operação de retirada dos garimpeiros, e o problema arrefeceu. Meu pai ganhou vários prêmios e foi reconhecido internacionalmente por causa disso. Com o passar do tempo, minha mãe, Fátima, pressionou: “Agora você vai passar a bola dessa luta para nosso filho. Vai voltar para a aldeia e cuidar de mim, porque passou a vida toda viajando.”

Meu pai me deu muitos conselhos. Aprendi a língua de vocês, estudei na universidade e morei em São Paulo, onde conheci as problemáticas da sociedade não indígena. Tive a curiosidade de conhecer a cultura de vocês. Em 2004, criamos a Hutukara Associação Yanomami em Boa Vista, capital de Roraima. Há 16 anos trabalho na associação e me tornei porta-voz dos povos Yanomami e Ye’kwana que habitam a Terra Indígena Yanomami. Hoje, quando tem uma reunião mais importante, meu pai participa. Quando é menos importante, eu represento. Moro doze meses em Boa Vista, depois passo três meses e meio na nossa comunidade do Watoriki, no Amazonas.

Em março, quando a fumaça da xawara (epidemia) chegou com força no Brasil, avisei as lideranças: “Olha, xamãs, pajés, estou acompanhando os jornais e eles estão dizendo que a doença está chegando. Ela vai entrar no nosso território, temos que nos preparar.” No dia 9 de abril ocorreu a primeira morte de um yanomami por causa do novo coronavírus. O caso teve repercussão internacional. A Covid-19 foi avançando em nosso território. O principal vetor de transmissão são os garimpeiros, que levam a doença para as aldeias. As terras yanomami estão localizadas em dois estados: Roraima e Amazonas. Hoje existem 20 mil garimpeiros ilegais espalhados pelo nosso território. Com a alta do preço do ouro no mercado internacional, a prática do garimpo já havia se intensificado. Mas a situação piorou com o governo de Jair Bolsonaro. Ele defende a legalização do garimpo em terras indígenas, estimulando a ação dos invasores. Os garimpeiros andam nos arredores de nossas aldeias, sobem os rios de barco, pousam de helicóptero e de avião em pistas no meio da floresta. Nossos parentes pegam essa xawara deles e a transmitem nas aldeias.

Somos uma população de 28.990 yanomamis. Além da Covid, enfrentamos também o problema da malária. O Distrito Sanitário Especial Indígena – Yanomami é o responsável pelo atendimento médico no território. São 37 polos base, onde funcionam 78 Unidades Básicas de Saúde Indígena. Os profissionais permanecem cerca de trinta dias trabalhando nos postos de saúde e depois ficam quinze dias na cidade para descansar. Mas o número deles é muito reduzido. Em abril, reunimos o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana e decidimos fazer uma campanha para combater os dois problemas: o garimpo ilegal e a pandemia da Covid-19. O objetivo é chamar a atenção das autoridades e da sociedade, pedir socorro. É divulgar as informações e cutucar o governo brasileiro, que não está cumprindo seu papel de respeitar e proteger os povos originários. 

Por meio da nossa representante indígena no Congresso, a deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR), pedimos audiência com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão. No dia 3 de julho, fomos recebidos por ele no Palácio do Planalto. Levei a petição para a retirada do garimpo e o dossiê com o histórico da atividade ilegal. Mourão respondeu: “Ah, Dário, o território yanomami é muito grande, o governo federal não tem recursos para pagar funcionários, não tem aviões, a logística é difícil. Eu trabalhei em São Gabriel da Cachoeira, conheço a região.” Depois, em sua conta no Twitter, ele disse que o número de garimpeiros nas terras yanomami é de 3.500 e não 20 mil, como estimado por organizações indígenas. Ele havia falado que tinha uma reunião com o presidente Bolsonaro e faria um plano para a retirada do garimpo. Até agora, nada aconteceu. Para mim, Bolsonaro está doente, desrespeitando os povos indígenas e as terras demarcadas por lei. A política dele é de acabar com nossos direitos garantidos pela Constituição.   

A campanha #ForaGarimpoForaCovid reuniu mais de 439 mil assinaturas de pessoas de todo o Brasil e do exterior. No dia 3 de dezembro, eu e o Maurício Ye’kwana, diretor da Hutukara Associação Yanomami, entregamos a petição nos gabinetes do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para que tomem providências para a retirada dos garimpeiros. Também participamos de uma reunião virtual com as frentes parlamentares ambientalista e de defesa dos direitos indígenas.

Dizem que agora está chegando a vacina e que seremos imunizados antes de outros grupos porque somos mais vulneráveis. Vocês têm a obrigação de fortalecer os nossos corpos porque essa doença é da cidade, não é nossa. E o governo federal tem que cumprir o papel de proteger a nós, os povos originários, retirando os garimpeiros que invadiram a nossa terra demarcada. Essa é a nossa luta.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Natal - A imutabilidade do mistério da encarnação: não somos os mesmos, mas usamos os velhos jargões e mantemos os mesmos vícios!

 Há quem diga que é preciso reinventar, reinterpretar e recontemplar o Natal, principalmente à luz do que tem ocorrido ao longo desse ano. É para se perguntar se isso não seria válido o tempo todo, e não somente por ocasião dessas datas chamativas e, agora, nas atuais excepcionais circunstâncias! Fossilizamo-nos nos velhos e arcaicos ritos, nos jargões insossos, nas palavras contaminadas, nas análises decadentes, nas mesmices apáticas. Por que esse Natal deveria ser diferente e com a obrigação de desencadear algo inédito? Não dizíamos o mesmo há um ano? Dor, mortes, tragédias, desgraças nos acompanham, permanentemente, e por que só as atuais marcadas por uma pandemia planetária teriam o dever/poder de nos tocar tão profundamente a ponto de chegarmos a rever a nossa vida, nossas escolhas, nossas atitudes, nossos pseudovalores? 

É um dado de fato, contudo, que a liturgia católica na vigília do Natal apresenta, infalivelmente, a mesma narrativa evangélica. Por que, afinal, se o mundo muda, até os vírus são sempre mais mutantes e os acontecimentos se desencadeiam com um ritmo e uma originalidade sempre mais intensos e variegados?  Paradoxalmente, à distância de muitos anos, o mistério da ‘encarnação’ permanece imutável, em que pesem suas multifacetárias interpretações! Meditando a narrativa do nascimento de Jesus segundo o olhar de Lucas podemos compreender o nosso eterno e imutável hoje, a saber: 

1. Jesus, filho de Deus, se esvazia de sua divindade e de supostos privilégios, e se humaniza, assumindo fragilidades e limitações de toda ordem. No entanto, ‘humanos’, como César Augusto, querem se despir de sua humanidade para serem tratados como divinos, absolutos, imortais! Acham que podem tratar e dispor dos humanos como se ‘eles’ também não o fossem! Isso mudou aos nossos dias?

2. Maria e José são obrigados pelo ‘divinizado imperador’ a se cadastrar para declarar o tamanho de sua renda, e conhecer, consequentemente, quanto a Receita imperial iria abocanhar. Os cidadãos, para esses ‘divinizados’ não passam de um exército de códigos de barra, sem nome, sem sonhos, sem projetos. São peças a serem sugadas, usadas e descartadas! Isso mudou aos nossos dias?

3. Maria e José longe de sua casa-pátria experimentam a precariedade e a insegurança na capital! A cidade universal, a escolhida, em lugar de acolher, sonega hospitalidade, e trata seus filhos como estrangeiros e impuros em sua própria casa! Isso mudou aos nossos dias?

4. Os pastores, notórios ladrões, sem religião e sem lei, são envolvidos pela luz divina, e não pelo julgamento ou a condenação. Eles, os humanos descartados e condenados pelos humanos divinizados, são agraciados e acolhidos pelo Altíssimo. Realmente, isso nunca vai mudar: Deus continua a se revelar preferencialmente aos pequenos anônimos e rejeitados, não porque são os melhores ou os merecedores, mas porque a lógica do ’humano Deus’ é pautada pela compaixão e pela misericórdia infinita! Feliz Natal 


sábado, 19 de dezembro de 2020

IV de Advento - O Deus de Jesus escolhe o anônimo, o frágil, e o difamado para reerguer uma humanidade doente de poder, fama e protagonismo (Lc 1,26-38)

 O sentido e o alcance de certos acontecimentos da nossa vida nem sempre são compreensíveis no momento. Só com o passar do tempo, e através de um olhar profundo, é que eles parecem adquirir sentido e valor. O que parece desgraça agora, poderá nos parecer, amanhã, uma oportunidade de graça e de crescimento. O evangelho de hoje parece confirmar isso! O mensageiro de Deus, Gabriel, segue a lógica de um Deus um tanto peculiar. Primeiro, anuncia a uma estéril (Isabel) que vai se tornar mãe e ao seu esposo sacerdote do templo que vai ser pai, e este, naturalmente, não acredita! Depois, o anunciador vai a uma desconhecida cidade (Nazaré) da rebelde e pagã Galileia para dizer a uma jovem comum da plebe, de nome raro, Maria, que será a mãe do ‘enviado filho do Altíssimo’! Como levar a sério tais promessas, a partir dessas premissas? A narrativa carregada de força e de sentimento deixa o lugar para a teologia que desvenda o sonho-projeto do Deus de Jesus: Deus para reerguer a humanidade não escolhe o notório, o prestigioso, nem o que parece ser consolidado nas ‘escrituras sagradas’! O Altíssimo escolhe as anônimas Marias da vida – como Miriam a altiva irmã de Moisés, - que se tornou leprosa, uma castigada; o Onipotente não teme mergulhar nos lugares mais difamados e que ficam à margem das lógicas geopolíticas dos palácios; o Todo-poderoso varre a sua própria divindade e se reveste da vergonhosa fragilidade dos humanos. Um Deus humano que confunde os hermeneutas, os pesquisadores e os sabichões do sagrado. O impossível para estes, torna-se possível para ‘um humano que pensa como Deus’!


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Um presidente negacionista, mitômano, ignorante e cínico - Por ISTOÉ

 Na cerimônia de lançamento do Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19 — plano que não planeja nada, não se compromete com nada, e apenas prevê um monte de ações desconexas com a realidade –, Bolsonaro tentou amenizar Bolsonaro. Falou que “se alguém exagerou, foi no afã de encontrar uma solução”. Não, presidente. Não adianta vir agora com esse papinho furado, mais falso que nota de três reais, de que a pandemia sempre o afligiu. Não adianta vir falar em união, um dia após proferir as maiores barbaridades sobre a vacina e o governador de São Paulo. Ninguém, com mais de dois neurônios ativos, acredita em você. Alguém deve lhe ter soprado aos ouvidos que sua imagem está derretendo feito gelo no Saara. Pesquisas? São retratos do momento, e não filmes de um período. Você será considerado o pior e mais aloprado presidente da história do Brasil. O mundo já sabe disso. Por aqui, metade da população, também. Você sempre negou a Covid-19 e sua gravidade. Você sempre desrespeitou os mortos e a dor dos enlutados. Você sempre fez o que pôde para ajudar a propagar o novo coronavírus, desde aglomerações ao não uso de máscara. Você sempre deseducou a população e sempre estimulou a ignorância e irresponsabilidade.

Ninguém, em todo o planeta, mentiu como você sobre a doença. Ninguém jamais chegou perto do seu obscurantismo e negacionismo. Nem as pobres emas do Alvorada escaparam da sua estupidez lunática. Não venha, pois, agora, querer apagar o passado ou reescrevê-lo. Suas falas e atitudes estão gravadas para a eternidade. Você é o responsável direto por parte dos doentes e das mortes, sim. Você é o responsável direto por tanta gente ter se contaminado e contaminado outros, afinal é para “enfrentar o vírus de peito aberto”. Você é o responsável por alguns dos 40% de brasileiros que dizem não pretender se vacinar.

Enquanto o Brasil iniciava sua subida ao cemitério, você brincava de autogolpe em Brasília; estimulava gente do quilate de Sara Winter. Apoiava atos em favor do fechamento do STF e do Congresso. Divulgava a falsa cura da doença exibindo uma estúpida caixinha de cloroquina. Você sempre foi – e é – um patético arremedo de presidente. Os brasileiros terão vacinas, sim, não por você, mas a despeito de você e deste desgoverno incompetente. A despeito do “general especialista em logística” (que piada!) aboletado no Ministério da Saúde, já que ninguém mais aceitou o papel de títere. Mas as terão muito mais tarde e em menor quantidade. Em apenas um mísero dia, 70 mil novos casos de Covid e quase mil mortos. Mas, segundo o presidente, “está no finalzinho”. Já desisti de clamar “Deus nos ajude”. Definitivamente, Ele não está nem aí para esse triste pedaço de chão. Até porque, convenhamos, fazemos por merecer Seu desdém.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Brasil cai cinco posições no ranking global de IDH (Índice Desenvolvimento Humano)

 No primeiro ano do governo Bolsonaro, país aparece em 84º lugar entre 189 nações. ONU aponta falta de avanços na educação como responsável pelo índice brasileiro, e alerta para alta desigualdade de renda e de gênero. O Brasil caiu cinco posições no ranking mundial de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU e passou da 79ª para a 84ª posição, entre 189 países avaliados.

A estagnação brasileira se deve à falta de avanços na educação. O período de permanência das pessoas na escola ainda é o mesmo de 2016, de 15,4 anos. A média de anos de estudo teve uma pequena alta, de 7,8 anos em 2018 para 8 anos em 2019. A expectativa de vida no país aumentou de 75,7 anos para 75,9, o que representa um aumento significativo se comparado com a avaliação de 2015, que era de 75 anos. O Brasil é ainda o 6º entre os países da América do Sul, atrás de Chile, Argentina, Uruguai, Peru e Colômbia. Estes dois últimos estavam abaixo e empatados com o Brasil no ranking de 2018.

Se comparado aos demais países emergentes que integram o grupo dos Brics, o Brasil perde para a Rússia, mas aparece à frente de China, África do Sul e Índia. O país com o melhor IDH do mundo continua sendo a Noruega, seguida da Irlanda e da Suíça, empatadas na segunda colocação. A Alemanha, que era a terceira colocada em 2018, caiu para a 6ª posição, atrás de Hong Kong e Islândia, ambos em quarto lugar.

Se os índices referentes à desigualdade forem incluídos no cálculo, a queda do Brasil é ainda mais acentuada, com o país perdendo 20 posições. O IDH brasileiro, que é de 0,765, cai para 0,570, ou seja, uma redução de 25,5%. Nessa análise, o Brasil é a segunda nação que mais perde posições, atrás apenas de Comores, um país nanico no leste da África com população de 830 mil pessoas. O IDH ajustado para a desigualdade é calculado para 150 países. (Fonte: IHU)

O Covid matou mais estadunidenses do que todos que morreram em batalha durante a Segunda Guerra Mundial

Os EUA sofreram 291.557 mortes em batalha durante a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o Department of Veterans Affairs. O número total de mortes confirmadas por COVID-19 ultrapassou esse triste marco. Até domingo, 13 de dezembro, 299.000 estadunidenses morreram devido à doença. – Isso significa que mais estadunidenses morreram de COVID-19 do que a quantidade de soldados USA mortos na guerra mais sangrenta da história da humanidade. Os Estados Unidos já registraram mais mortes por COVID-19 do que o número total de estadunidenses mortos em combate durante a Segunda Guerra Mundial, a guerra mais sangrenta da história.



terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Capitalismo comunista di Giorgio Agamben

Il capitalismo che si sta consolidando su scala planetaria non è il capitalismo nella forma che aveva assunto in occidente: è, piuttosto, il capitalismo nella sua variante comunista, che univa uno sviluppo estremamente rapido della produzione con un regime politico totalitario. Questo è il significato storico del ruolo di guida che sta assumendo la Cina non solo nell’economia in senso stretto, ma anche, come l’uso politico della pandemia ha mostrato eloquentemente, come paradigma di governo degli uomini. Che i regimi istaurati nei paesi sedicenti comunisti fossero una particolare forma di capitalismo, specialmente adatta ai paesi economicamente arretrati e rubricata per questo come capitalismo di Stato, era perfettamente noto a chi sa leggere la storia; del tutto inatteso era invece che questa forma di capitalismo, che sembrava aver esaurito il suo compito e quindi obsoleta, fosse invece destinata a diventare, in una configurazione tecnologicamente aggiornata, il principio dominante nella fase attuale del capitalismo globalizzato. È possibile, infatti, che noi stiamo oggi assistendo a un conflitto fra il capitalismo occidentale, che conviveva con lo stato di diritto e le democrazie borghesi e il nuovo capitalismo comunista, dal quale quest’ultimo sembra uscire vittorioso. Quel che è certo, tuttavia, è che il nuovo regime unirà in sé l’aspetto più disumano del capitalismo con quello più atroce del comunismo statalista, coniugando l’estrema alienazione dei rapporti fra gli uomini con un controllo sociale senza precedenti.

15 dicembre