domingo, 5 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO, HOJE - Testemunho real de uma mãe que perdeu a única filha

'No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos'

TESTEMUNHO VERDADEIRO DE UMA MÃE QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

‘Não me contive. Comecei a gritar como louca. Fiquei estarrecida e incrédula, mas após alguns instantes caí em mim mesma e comecei a acreditar no que meu marido acabava de me informar. A nossa única filha, de 23 anos, acabava de ser esmagada por um caminhão. Morreu na hora. Ela estava indo ao trabalho, de manhã, bem cedo. Os peritos achavam que ela devia ter encostado na sarjeta, perdido o equilíbrio e caído no asfalto. Logo atrás estava chegando um caminhão que não pode evitá-la. Não gosto de lembrar, mas não tem como tirar de mim aquele momento de dor que ainda me consome, mas que, agora, convivo com ele tendo um olhar bem diferente.... Passei noites inteiras sem dormir. Cochilava, mas acordava espantada, sobressaltada. O pensamento voltava àquelas imagens horríveis de minha filha toda deformada. Um corpo que era perfeito, ela era uma atleta, uma menina alegre, linda, cheia de vida, de iniciativas, amada e idolatrada pelos seus amigos e amigas com os quais ela saia, sistematicamente. E, agora, reduzida a um amontoado de carne dilacerada. Nos primeiros dias pensei besteiras. Não escondo não, já pensei em fazer coisas contra mim mesma para me livrar daqueles pensamentos obsessivos e recordações que alimentavam o meu cotidiano tornando-o insignificante, sem sentido....

Todos os dias, às cinco da tarde montava na minha bicicleta e ia ao cemitério. Levava comigo velas e flores. Não fazia isso para que Deus tivesse compaixão de minha filha. Para dizer a verdade, nunca acreditei em Deus e nem podia responsabilizando-o pela morte de minha filha. As velas e as flores eu as depositava naquele jazigo como se eu quisesse dizer para minha filha que a sua mãe continuava a amá-la. Que ela não estava sozinha, não sei...tinha virado uma rotina. Lembro que depois de 5 meses de idas e vindas do cemitério, uma bela noite meu marido me chamou e com dureza me disse que se eu continuasse assim ele iria perder duas pessoas queridas, e não só uma como, de fato, já a havia perdido, mas também eu. Não tive nem força para responder. Escutei calada e me levantei. Já não me importava mais nada. Viver ou morrer, continuar com ele ou sem ele, para mim era tudo a mesma coisa. 

Mas, eis que uma tarde, após ter depositado as costumeiras flores e velas, ao contemplar a foto da minha lindinha, veio à minha mente algo que ao longo daqueles seis meses nunca havia aflorado. Pensei como poderia estar, agora, a minha filha depois de seis meses naquela cova, naquele caixão...Imaginei que deveria ter ainda os seus longos e castanhos cabelos, a sua melhor roupa que lhe foi colocada no dia do enterro, os sapatos, mas o corpo em si....meu Deus, gelei. Fechei os olhos e vi minha filha sem carne, sem pele, uma cabeça....não, uma caveira. Arrepiei toda. Senti uma revolta interior jamais experimentada. Repeti duas vezes para mim mesma: minha filha virou um cadáver? Um esqueleto? Não pode ser! Nunca havia pensado nisso, pois eu a via sempre linda, bonita, elegante....nunca havia me detido em imaginar que com o passar do tempo os corpos se deterioram...Não aguentei, chorei, mas saí rapidamente do cemitério. Não queria ficar lá nem um minuto a mais. Acho que estava revoltada comigo mesma. Afinal, passei meses indo visitar o lugar errado. Cemitério, queiramos ou não, é o lugar onde se depositam os cadáveres ,e não pessoas vivas. Sei que é triste dizer isso, mas é a dura realidade. E minha filha não é, e nunca foi, um cadáver, um esqueleto! Intuí que nunca mais voltaria para lá! Cheguei ao nosso apartamento e encontrei meu marido sentado no sofá assistindo tevê. Me aproximei dele um tanto sem jeito e sentei-me ao seu lado. Ele me olhou e nada disse. Já sabia de onde eu vinha. Aí tomei coragem e falei para ele: ‘querido, se não se importa, gostaria que você fosse comigo, sábado, agora, de manhã na estação de trens e na rodoviária’. Ele me olhou com ar de surpresa quase sem entender o motivo de tal pedido, mas eu expliquei logo para ele. Iríamos rever os amigos e amigas da nossa filha que, certamente, deveriam estar lá cuidando do pessoal de rua, oferecendo café, caldo, cobertores, roupas.... Havia tomado a decisão de conhecer minha filha e, talvez, já vinha acalentando um recôndito desejo de senti-la mais próxima de mim naquilo que ela fazia quando estava entre nós. Saber como era vista pelo grupo dela, o que pensava....enfim, percorrer o seu itinerário nesses ambientes e conviver um pouco com os amigos e amigas dela. Talvez fosse uma forma diferente de senti-la mais presente, mais viva...não sei..... 

Passamos a manhã daquele sábado observando, conversando, vendo o carinho, a paciência, a dedicação do grupo de nossa filha para com aquelas pessoas maltrapilhas, de rosto tristonho, mas que se iluminava quando se aproximava alguns daqueles jovens. Foi algo inesquecível. Confesso que fechei os olhos e na minha mente vi também minha filha, lá, oferecendo um caldo quente, café com leite, pão, com aquele jeito cativante que ela tinha com todos. Percebi que era aqui que devia ter vindo desde o começo, mas, como diz o ditado, ‘antes tarde do que nunca’. Depois disso, visito o jazigo de minha filha uma vez por ano, mas não para falar com ela, pois eu sei que não está lá, mas só para que as pessoas não digam que eu estou a desleixar a sepultura de minha filha...ah, não, de minha filha, não. A sepultura dos restos mortais de minha filha. Minha filha mesmo, nunca morreu. Hoje posso dizer isso. Ela continua vivinha e atuante naqueles jovens da estação, da rodoviária, das casas de repouso onde eles continuam a assistir e a acolher e a dar motivações para viver para muita gente’

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CARTA DE JUDAS - Por Kécio Rabelo

Não sei a quem escrevo.
Talvez a ninguém. Talvez a todos. Talvez à parte de mim que ainda insiste em procurar sentido depois que o mundo escureceu ao meio-dia.

Conheci Jesus como quem encontra um caminho no meio da poeira.
Não o compreendi de imediato. Ninguém compreendia por inteiro.
Havia nele uma calma que inquietava. Um silêncio que dizia mais que qualquer palavra. E, quando falava, não era apenas ouvido — era sentido, como se suas palavras atravessassem a pele e tocassem algo que ainda não tinha nome.

Eu o segui.

Como tantos outros, segui com esperança e cálculo misturados.
Esperança de redenção. Cálculo de futuro.
Queria nele o libertador — mas um libertador à minha medida.
Talvez tenha sido esse o meu primeiro erro: tentar encaixar Deus dentro das minhas expectativas.

Houve dias luminosos.
Multidões, curas, pão repartido que não se esgotava.
Mas houve também momentos que me desarmaram — como aquele jantar na casa de Zaqueu.
Ali, vi um homem que todos desprezavam ser acolhido sem reservas.
E algo em mim se revoltou.
Não era apenas incompreensão — era incômodo diante de um amor que não fazia distinções.
Um amor que não obedecia à lógica dos merecimentos.

E havia o silêncio dele…
Sempre o silêncio.
Um silêncio que me expunha mais do que qualquer acusação.

Na última ceia, tudo pesou.

O tempo parecia arrastar-se.
Cada gesto carregava um adeus escondido.
Ele falava de entrega, de corpo, de sangue… falava de traição.
E nós — tão próximos e tão distantes — fingíamos não entender.

Quando disse que um de nós o trairia, senti o chão ceder.
Mas permaneci.
Imóvel por fora. Em ruína por dentro.

Na noite do jardim das oliveiras, tudo se decidiu.

A escuridão tinha peso.
Havia passos, vozes, pressa.
E havia o beijo.

Nunca um gesto tão simples carregou tanta condenação.
Nunca algo tão pequeno abriu um abismo tão grande.

Não foi ódio. Foi pior.

Foi fraqueza disfarçada de decisão.
Foi pressa vestida de propósito.
Foi tentativa de controlar o que só poderia ser acolhido.

Talvez eu tenha acreditado que estava apressando Deus.
Que estava provocando o desfecho.
Que Ele reagiria com poder.

Mas Deus… não reage como esperamos.

Na sexta-feira, eu vi de longe.

Entre sombras, escondido entre gritos que mudaram de lado com uma facilidade assustadora.
Os mesmos que aclamaram, condenaram.
Os mesmos braços que ergueram ramos agora apontavam sentenças.

Eu vi o peso da cruz.
Vi o corpo ferido.
Vi o céu escurecer.

E, pela primeira vez… vi com clareza.

Não havia estratégia.
Nem havia erro de cálculo.
Não havia derrota.

Havia amor.

E eu não soube reconhecê-lo.

O som dos martelos não saiu de mim desde então.
Cada golpe não ecoa apenas na cruz — ecoa dentro de mim.
Porque não foi apenas a Ele que eu traí.

Eu me traí.

Traí aquilo que vi.
Traí aquilo que soube.
Traí a verdade quando ela exigiu de mim algo que eu não quis dar: confiança.

Carrego moedas que não compram silêncio.
Carrego lembranças que não permitem descanso.
Carrego um nome que será repetido como sinônimo de queda.

E talvez seja justo.

Mas escrevo.

Escrevo porque minha história não termina em mim.
Ela se repete — silenciosa — em cada escolha pequena, em cada desvio quase imperceptível, em cada momento em que trocamos o essencial pelo imediato.

Há em nós uma fissura.
Uma distância entre aquilo que sabemos ser o bem… e aquilo que escolhemos fazer.
E é nessa distância que nascem as maiores quedas.

Eu caminhei ao lado da verdade — e ainda assim a perdi.

E é isso que torna tudo mais duro.

Porque o perigo não está em não conhecer.
Está em conhecer… e ainda assim não sustentar.

Hoje entendo:
o erro mais profundo não é trair por ignorância — é trair por incapacidade de permanecer.

Na manhã da ressurreição, eu não estava lá.

Mas eu sabia.

Sabia porque o vi devolver vida onde só havia morte.
Vi-o acender esperança onde tudo era ruína.
Porque, mesmo quando tudo parecia perdido… Ele permanecia.

E é por isso que escrevo com a última verdade que me resta:

há sempre uma manhã depois da noite — mas nem todos suportam atravessar a noite.

No fim… não se enganem.

Eu não sou apenas o homem que o traiu.

Eu sou o homem que quis atalhos.
Que preferiu o imediato ao eterno.
Que trocou confiança por controle.

E, por isso mesmo,
sou o espelho que ninguém quer encarar.

Porque Judas, o Escariotes,
não é apenas um nome na história.

É a possibilidade que habita cada um de nós.
É a escolha silenciosa que fazemos quando abandonamos o que sabemos ser certo.
É o gesto pequeno que abre grandes abismos.

Mas outra vez é Páscoa.

E, outra vez, a travessia está diante de nós.

Sem moedas.
Sem cálculos.
Sem atalhos.

Apenas um caminho estreito — onde só passa quem tem coragem de confiar.

E talvez seja essa a diferença entre mim…
e aqueles que ainda podem recomeçar.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

QUINTA-FEIRA SANTA - UM PÃO ESPECIAL PARA TODOS, PARA 'SANTOS' PECADORES, E PARA 'PECADORES' SANTOS! - Um conto -

 

 

Um padeiro especial

Chegou, surpreendentemente, resplandecente, a manhã de quinta-feira santa e, como de costume, Antônio José, de inegável ascendência italiana, saiu para o mercadinho do velho e renomado Augusto, conhecido como ‘Bigode Doce’, - como ele mesmo gostava de se autodenominar.

- ‘Lá vem o madrugador...’ exclamou, com o seu vozeirão, como se estivesse à sua espera.

- ‘Bom dia, Antônio José, meu ilustre e estimado freguês’, não sem esconder uma veia de ironia.

- ‘Não esqueci, não, da sua promessa que você cumpre religiosamente toda quinta-feira santa...e andei me preparando, viu? antecipou-se Augusto.

- ‘Bom dia, bom dia’, repetiu Antônio José com ares de meio chateado e meio preocupado.

- ‘Imaginei, afinal, faz mais de 15 anos que venho aqui a comprar em suas mãos a matéria prima para a minha arte...’ respondeu Antônio José.

- ‘Você vai querer cinco ou mais pacotes de farinha de trigo’? – adiantou-se Augusto.

- ‘Ontem, o atacadista de minha confiança deixou aqui dois sacos de 50Kg de farinha de trigo legítima, sem misturas. Ela vem direto do moinho, lá do porto, viu? Com certeza vem do sul do País, talvez do Rio Grande do sul. Soube que o Brasil aprendeu a cultivar trigo e a fazer uma farinha de excelente qualidade? Que seja!’ sentenciou, o Bigode Doce.

- ‘Que bom, fico feliz, espero que desta vez o meu pão tenha um sabor especial’, disse o Antônio, ao lembrar, na sua mente, o incidente do ano anterior em que o pão que ele havia produzido com dedicado afinco, no final, não pode evitar o gostinho sutil de farinha mofada.

Não que o pessoal tenha dado fé desses ínfimos defeitos, ao contrário, o havia achado fragrante e saboroso aquele pão, mas ele, cricri como sempre foi, não ficou entusiasta da sua obra e não queria que acontecesse o mesmo. 

Antônio José, de fato, era conhecido por ser um perfeccionista. Encontrava defeito em quase tudo; não somente nos outros, mas também naquilo que ele mesmo fazia. Desta vez iria prestar mais atenção e, após a publicidade do Augusto, tinha certeza de que não iria falhar, mas não sem antes cheirar e apalpar aquela farinha de trigo que, agora, lhe era oferecida em suas mãos.

Ele examinava, meticulosamente, com gestos sincronizados, quase mecânicos repetitivos, dando até a impressão de ser conduzido por uma leve neurose, aquela cândida farinha. Fazia-a escorrer em suas mãos largas e rugosas e a levava delicadamente às suas aprimoradas e exigentes narinas. Depois desse ritual, Antônio José se dirigiu ao Bigode Doce e deu-lhe a conhecer a sua decisão: iria comprar logo 6 pacotes. Ele havia calculado, mentalmente, que seis quilos de pão eram mais que suficientes para dar conta da sua antiga promessa...

- ‘E aí, passou no teste a minha farinha’? sussurrou, jocosamente, o Augusto, bem baixinho no ouvido daquele exigente e respeitado freguês.

- ‘Parece que sim’, respondeu-lhe Antônio, - ‘pelo menos nessa primeira fase da minha empreita. Vamos ver como a sua farinha vai se comportar quando se transformar em massa a ser sovada’, respondeu-lhe aquele padeiro de ocasião.

Uma curiosa promessa

Efetivamente, Antônio José nunca foi padeiro de verdade, nunca vendeu pão para nenhuma freguesia. Transformava-se em produtor refinado de pão somente num dia do ano: na quinta-feira santa! Fora isso, ele era um fiel apreciador de arroz e feijão de todos os dias, sem esquecer, contudo, da sua insubstituível banana prata que, ele dizia, combinava com tudo, e dava consistência e valor à refeição.

Eram poucas as pessoas que sabiam, vagamente, o sentido daquela promessa de produzir pão na quinta-feira santa e distribui-lo, graciosamente, fora da porta da igreja matriz, justamente após a celebração do lava-pés e da santa eucaristia. Antônio José evitava aparecer na igreja na hora da celebração solene, e muitos se perguntavam como uma pessoa como ele, com uma iniciativa tão simbólica e caridosa, não participava daquele mistério de serviço e de partilha que era o que, de fato, se queria celebrar.

Ano após ano, os fregueses da matriz já sabiam que iriam encontrar fora da porta da igreja o Antônio José com três paneiros cheios de pão crocante e cheiroso. Aliás, havia alguns devotos espertinhos que não escondiam, e não deixavam de falar em boca pequena que a parte mais interessante da missa era o que vinha depois dela: a distribuição dos pães daquele padeiro improvisado e amador, mas que produzia um pão de excelente qualidade e de sabor inimitável que nenhum outro padeiro profissional da cidade sabia fazer.

 Um padre escravo dos preceitos

O padre Queiroz, pároco da matriz de Nossa Senhora da Conceição, ele sim, sabia o motivo real da promessa do Antônio José, mas fingia ignorar e, principalmente, mudava de conversa quando alguém perguntava.

Corria o ano de 2011, numa segunda feira da semana santa, quando Antônio José foi até a secretaria paroquial para tirar algumas dúvidas com o padre Queiroz. Aquele ministro de Deus havia chegado dois anos antes para tomar de conta daquela paróquia, mas já conhecia quase toda a sua freguesia, inclusive o Antônio José.

- ‘Bom dia padre, a sua bênção’, disse com um largo sorriso.

- 'Deus te abençoe, irmão’, respondeu gentilmente, padre Queiroz.

- ‘Quais bons ventos te trazem aqui, homem de Deus...’?

- ‘Vim me confessar, padre! Tem um tempinho para ouvir esse pobre pecador?’

- ‘Sim, claro, vamos para esse quarto ao lado, é mais tranquilo, aqui ninguém nos incomoda’ disse o padre convidando-o a se dirigir a um quarto bem austero, abafado e com vários quadros de bispos na parede, e o do papa em exercício.

- ‘Acomode-se nessa cadeira, não precisa você se ajoelhar...’ tranquilizou-o o padre.

Antônio José um tanto titubeante, sentou-se, fixou o padre já sentado na sua frente a abriu o coração....

-‘O senhor deve ter reparado que as poucas vezes que participo de suas missas eu não comungo’, começou o penitente, sem ter coragem de olhar diretamente o seu confessor. E continuou: ‘Depois que a Rosália me largou por outro homem há mais de 9 anos eu fiquei vivendo que nem solteiro comportado por quase três anos, mas aí, Deus colocou no meu caminho a Alcione, um anjo de Deus. Não sei por que Deus não a colocou no meu caminho quando havia chegado a minha hora de ter família própria....Destino é assim, ninguém planeja, só acontece sem a nossa permissão ou sem a nossa censura. Moral: desde que me juntei com a Alcione deixei de comungar como me ensinaram desde criança’.

O padre Queiroz com os olhos semiabertos ouvia atentamente aquele homem que falava pausadamente e com ar compenetrado.

Vivo com esse anjo maravilhosamente bem. Não que não haja algumas pequenas incompreensões, mas tudo resolvemos no diálogo e no entendimento...de forma que eu pensei, padre, que na quinta feira santa eu poderia comungar, o que o senhor acha? Afinal, estou amando e me sinto amado e nada melhor do que receber o corpo do Senhor juntamente com a Alcione até como expressão de comunhão entre......’

- 'Para, para....bem aí’ interrompeu o padre Queiroz.

- ‘Está me dizendo que vocês, justamente no dia da instituição da Santa Eucaristia, querem receber a comunhão indevidamente?’ exclamou um tanto alterado o confessor.

- ‘Como ‘indevidamente....’ interveio o Antônio José.

- ‘Padre, acabo de lhe falar que estamos nos amando e provando isso todo dia, e é justamente por isso que nos sentimos em condição de receber o corpo de Cristo, em que pesem nossas fragilidades e pequenas divergências...Onde está o crime?’, concluiu, Antônio José.

O padre Queiroz já visivelmente irritado com o que o seu penitente acabava de lhe colocar interveio com autoridade.

- ‘Nem pense em fazer isso. Comunhão é coisa séria. Vocês vivem em situação irregular perante Deus e perante a igreja. Vocês são ’amasiados’, não casados! Percebem a gravidade disso?’ afirmou o padre, levantando a voz e se ajeitando na cadeira, dando a impressão que queria se levantar e não deixar mais que a conversa fluísse entre confessor e penitente.

- ‘Permita-me, padre, por favor...veja.....queria só lhe colocar o meu ponto de vista.... deixe terminar o raciocínio...’ balbuciava o desconsolado Antônio, já observando que o padre havia se levantado e um tanto vermelho no semblante, andava depositando desordenadamente a sua estola em cima de uma mesinha de ferro....

A essa altura Antônio também se levantou e, mesmo com um andar tímido e olhando de soslaio aquele confessor, se aproximou dele e se colocou na sua frente...

Um cristão especial

- ‘Desculpe-me, padre, mas o que o senhor está falando ofende em primeiro lugar os ensinamentos do nosso Mestre Jesus e vou lhe dizer o porquê’, começou, agora com coragem surpreendente, o Antônio.

E prosseguiu:’ Pelo que sei Jesus na quinta feira da sua paixão deu pão também para aquele traidor do Judas e aos outros apóstolos que pouco tinham de santo não recusou nem pão e nem vinho, do mesmo jeito que ele fez ao longo da sua vida inteira...

Me desculpe padre, pois não quero ensinar o ‘pai nosso’ ao vigário, mas o senhor deve estar lembrado o tanto de refeições que Jesus tomava com ladrões públicos, corruptos, fariseus hipócritas, prostitutas e amasiados e sabe por que, padre’? continuava um tanto exaltado Antônio José, parecendo perder quase o controle.

Porque Jesus veio para os pecadores e não para os supostos justos! Porque Jesus acreditava que acolhendo as pessoas e não as rejeitando, elas sairiam daquele encontro fraterno totalmente mudadas! Sei que sou pecador, padre, mas não porque estou vivendo com a pessoa que amo. Mesmo que quisesse regularizar a minha situação, para vocês nem poderia pois, a minha primeira mulher está viva e vivendo com outro. Afinal que culpa eu tenho se ela me largou? Eu tenho que viver casto até à morte dela para poder casar-me com Alcione? O senhor acha que viria aqui e lhe abrir o coração com sinceridade e com boas intenções se não sentisse dentro de mim o desejo verdadeiro de comungar? Um pilantra, padre, não faria isso! Por que me excluir desse jeito? É esse o amor que o senhor prega’?

O padre Queiroz tentava se encaixar naquele impetuoso monólogo, mas não encontrava brechas e, talvez, argumentações. Afinal, o padre Queiroz como muitos outros clérigos só repetia o que lhe ensinaram e aprenderam: não pode, não deve, é pecado, é sacrilégio, Deus pune, Deus castiga, vai para o inferno....e muitas outras expressões de condenação.

Finalmente, o padre Queiroz deteve com um gesto um tanto brusco a fala do Antônio e fixando-o nos olhos sentenciou:’ prezado, esta é a lei da igreja! Pronto. Aconselho-lhe a não aparecer para comungar na quinta-feira santa porque terei a obrigação moral de lhe recusar a hóstia! Falei, pronto’! E saiu, apressadamente.

Uma Eucarista diferente

Antônio José sentiu um nó na garganta quase a sufocá-lo. Sabia que não era arrependimento por ter falado tudo aquilo para um padre. Sentia que era mais fruto de um desencanto, de uma decepção que não imaginava poder experimentar, um dia. Saiu mansinho, cabisbaixo, da secretaria e se dirigiu para a sua casa. Demorou o dia e a noite toda para tentar digerir aquele desencontro com o padre Queiroz.

Na madrugada daquela fatídica quinta-feira santa Antônio José acordou Alcione.

Amor, passei a noite em branco, lutei comigo mesmo, relutei, mas tomei uma decisão....ou melhor, fiz uma promessa’.

Alcione visivelmente chateada o olhava incrédula. Afinal, eram as três da madrugada.

- ‘O que foi homem, o que andou inventando’ disse-lhe, ela.

- ‘Não, não... deixa para lá, desculpa....volte a dormir, querida. Desculpa’.

O único e moderno sino da torre da matriz anunciava o início da missa de lava-pés, e nada de Antônio José aparecer. Alcione um tanto desconsolada e preocupada com a ausência do companheiro que havia saído ainda cedo decidiu que já não valia mais a pena esperá-lo e se dirigiu, rapidamente, à igreja matriz que ficava a uns 10 minutos, andando. Ao chegar à praça ficou boquiaberta ao notar que Antônio José já estava lá e ao seu lado três grandes volumes que, na hora, não conseguiu identificar.

- ‘O que aconteceu, querido.... esperei por ti, até agora. O que está fazendo aqui fora da igreja? Virou vendedor ambulante? O que você tem aí, nesses bagulhos’? indagou ela.

Antônio José com um sorriso maroto, mas cheio de luz, retirou a lona de tecido que cobria os vistosos volumes e, imediatamente, Alcione foi invadida por um agradável perfume de pão. Ficou estupefata.

- Onde foi comprar esse tanto de pão? Para que é isso? O que lhe deu na cabeça, homem? Perguntou com ar de espanto, Alcione.

Eu fiz'! disse orgulhoso Antônio José.

E continuou: 'Amor, depois daquela conversa que eu tive com o padre eu refleti muito....muito mesmo. Achei que não podia deixar correr tudo aquilo sem nada fazer. Não queria expor o padre, fazer futrico, polemizar...me entende?  Decidi fazer aquilo que eu acho que Jesus faria numa quinta-feira santa: oferecer, de graça, o pão da compaixão, do perdão infinito a todas as pessoas que desejam se sentir perdoadas e que se dispõem a perdoar...

Falei para mim mesmo que toda quinta-feira santa iria produzir o melhor pão da cidade e o ofereceria a todas aquelas pessoas que iriam celebrar a eucaristia na igreja, mas que sairiam de lá sem ter podido comungar. Pessoas que, como nós, são excluidas de comer o verdadeiro pão que sacia a verdadeira fome de amor e de fraternidade. 

Aqui estou eu para lhes oferecer um pão que não exige nem perfeição e nem santidade para ser comido’.

Alcione olhou intensamente Antônio José. Sentia que seus olhos estavam afogando naquelas lágrimas que agora escorriam copiosamente do seu rosto, incapaz de dominá-las. 

Depois pegou na mão de Antônio José e lhe sussurrou: ’eu vou ficar aqui contigo e vou te ajudar a distribuir o pão. A partir de hoje seremos dois a pagar a promessa, até que Deus nos der saúde e força’! 

Feliz Quinta-feira santa!

 

  

segunda-feira, 30 de março de 2026

O clã Bolsonaro exporta o trumpismo - Por Dario Pignotti

 

Neste sábado, enquanto milhões de americanos amaldiçoavam Donald Trump em manifestações sob o lema “Chega de Reis”, um grupo de extremistas, em nítido contraste com essa indignação, elogiava o republicano em Dallas, Texas. Entre os apoiadores incondicionais do “Rei” Trump estavam dois representantes de Jair Bolsonaro, seus filhos Flávio EduardoO ex-presidente foi impedido de viajar para o Texas porque permanece em prisão domiciliar, onde pretende estabelecer uma sede para o neofascismo verde-amarelo, enquanto cumpre uma sentença de 27 anos como líder da tentativa de golpe de 2023A revolta brasileira foi inspirada pela ocupação do Capitólio em 2021, apoiada por Trump, que alegava fraude eleitoral por parte do candidato democrata, Joe Biden.

Na cúpula de Trump em Dallas, Bolsonaro foi representado por seus filhos, Flávio e Eduardo, figuras importantes no clã familiar, organizado com uma hierarquia de estilo militar. Flávio é pré-candidato à presidência nas eleições de outubro, onde, segundo as pesquisas, enfrentará uma disputa acirrada com o atual presidente Luiz Inácio Lula da SilvaSeu irmão Eduardo é um ex-congressista que vive nos Estados Unidos há um ano, onde trabalha como lobista para Trump, o Departamento de Estado e o Congresso. Questionado pela imprensa, Eduardo disse que estava em Dallas a mando do pai. Na opinião dele, a política não tem muitos segredos; funciona como o exército: a palavra do general não é questionada, é executada por "coronéis, tenentes e soldados".

“Aos seus pés”

Desde que foi recebido por Trump em março de 2019, três meses após assumir a presidência, Jair Bolsonaro declarou sua devoção a ele sem qualquer constrangimento. Sua subserviência atingiu extremos constrangedores, como quando se pôs em posição de sentido e se curvou diante da bandeira americana. E afirmou, por meio de seu então ministro das Relações Exteriores, sua disposição de ser um "pária" da comunidade internacional se esse fosse o preço a pagar por seu alinhamento irrestrito. Um alinhamento que manteve inabalavelmente mesmo após perder para Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, quando fez de sua lealdade a Washington uma marca registrada de sua política de oposição. Assim, em setembro do ano passado, dias antes de ser condenado juntamente com um grupo de generais, ele organizou eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, lembrados pelas imensas bandeiras americanas sob as quais milhares de ativistas se protegeram. Nesses comícios, os filhos do líder de direita, Flávio e Eduardo, discursaram como porta-vozes de seu superior. Neste sábado, em Dallas, o formato se repetiu, com Bolsonaro puxando os cordões de Brasília; seus filhos expressaram seu apoio incondicional a Trump e aos Estados Unidos discursando antes e durante o evento da Conferência de Ação Política Conservadora.

 "Sepoy"

O deputado Carlos Zarattini, do Partido dos Trabalhadores, deplorou a atitude "servil" do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência, instando-o a ser menos subserviente politicamente. Ele criticou o senador por prometer entregar de bandeja os minerais de terras raras do Brasil, apesar de o país possuir algumas das maiores reservas mundiais. Ao contrário da abordagem de Bolsonaro, continuou o deputado, o governo Lula rejeita a presença de mineradoras americanas, a menos que elas se comprometam a processar os recursos dentro do país. A possível tomada de controle dos campos de petróleo brasileiros pelos Estados Unidos foi um dos temas discutidos na semana passada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e seu homólogo, Marco Rubio, à margem da reunião do G7 realizada na França.

 Risco de invasão

Outro tema recorrente na agenda dos ministros das Relações Exteriores é a inclusão das organizações criminosas Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital na lista de grupos terroristas ou narcoterroristas do Departamento de Estado. Vieira e o próprio Lula contestam essa inclusão. Para o presidente, esse rótulo mascara o risco de uma "invasão" estadunidense do território brasileiro. Esse risco de invasão é visto como uma oportunidade por Flávio Bolsonaro, que, durante sua visita aos Estados Unidos, concordou em classificar essas facções como “terroristas”. Ele repetiu, com mais moderação, o que já havia declarado no ano passado, quando disse sonhar com a Marinha dos EUA ancorada na costa do Rio de Janeiro e seus comandos invadindo os morros para caçar os “narcoterroristas” do Comando Vermelho. Uma tese historicamente defendida por Jair Bolsonaro.

 Jair contra Lula

Como vocês podem ver, foi Jair Bolsonaro, e não seus filhos Flávio e Eduardo, quem escreveu os discursos na CPAC. Esses discursos variaram de elogios a Trump e às diretrizes de sua política externa, que está intrinsecamente ligada à guerra contra o narcoterrorismo, a críticas ao suposto "intervencionismo" de Joe Biden nas eleições de 2022. Na realidade, Biden não cedeu às pressões golpistas de Bolsonaro após perder para Lula. Tudo o que Flavio e Eduardo disseram foi roteirizado enquanto estavam em prisão domiciliar em Brasília. Sem talento ou biografia, Flávio não passa de filho do pai, como Lula da Silva costuma salientar. Sempre que o atual presidente critica a extrema-direita, ele direciona suas críticas a Jair Bolsonaro, a quem apelida de "a coisa", ignorando deliberadamente seu filho. É incomum o líder do PT pronunciar o nome "Flavio", algo que certamente fere o ego do jovem pré-candidato.

Esse tratamento injusto dado a Flávio tem um significado político maior: as eleições de 4 de outubro e o possível segundo turno no dia 25 daquele mês serão, em última análise, um duelo entre Lula e Jair Bolsonaro, deixando o senador carioca com o papel de mero figurante. O próprio Flávio reconheceu isso no fim de semana, durante sua visita aos Estados Unidos. Em declarações à imprensa, afirmou que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto, residência presidencial, ao lado de seu pai. Mais tarde, tentou se retratar, dizendo: "Ele será o presidente, não o pai dele."

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

NUM DOMINGO DE RAMOS, EM ALGUM LUGAR , NUM PASSADO QUE É HOJE! - Um conto

Não foi sonho, foi uma espécie de pesadelo.

A noite toda Edinho havia se mexido e remexido naquele colchão matrimonial manchado pelo desleixo do tempo, e com forte olor de mofo.

Sentou-se na cama mais cansado do que quando havia se deitado no dia anterior. Olhos inchados, cabelos desgrenhados, e a clara sensação de ter sonhado a mesma coisa, repetidas vezes, durante toda a noite.

Não conseguia entender a razão para tanto.  

- ‘Que diacho aconteceu comigo, ontem, para ter uma noite infernal como essa!’ - dizia consigo mesmo. Tentava, na sua mente, resgatar alguns acontecimentos do dia anterior para ver se, por acaso, poderiam ter influenciado o seu sono.

Esforçava-se para se concentrar em algo que poderia ter perturbado a sua rotina, mas nada aflorava à sua mente. Não encontrando nenhuma resposta, com cautela colocou as duas mãos no rosto, na testa, esfregou os braços como que à procura de algum sinal de febre, mas nada.

Estava a renunciar a compreender aquele seu mal-estar quando o seu olhar posou, sem querer, naquele calendário que nunca o havia abandonado desde criança, pois marcava tudo. Marcava as festas, os santos do dia, as luas crescentes, as cheias e as minguantes, as luas boas para semear e plantar. Até orações para todo tipo de necessidade havia naquela enciclopédia que marcava o lento ritmo do tempo.

- ‘Minha nossa’, - exclamou, estupefato, - ‘hoje é festa de Ramos’!

- 'Começa a semana santa e eu nem dei fé’! exclamou, um tanto chateado, como que a repreender a si próprio por esse descuido de memória.

- ‘Estou ficando velho, distraído e desligado de tudo e todos...’ disse, desconsolado.

Empinou o corpo ainda vigoroso, mas já ligeiramente curvo, após 70 anos de vida intensa, e levantou-se com uma agilidade que o surpreendeu.

Tomou um banho rápido que lhe devolveu disposição e humor, e bebeu a pequenos sorvos um café bem forte.

Sentia-se um outro homem.

Tudo, agora, parecia fluir nos seus pensamentos com uma nitidez que só lembrava ter possuído quando era bem mais jovem.

Tomado já por uma energia desconhecida e por um fio de ansiedade começou a procurar o seu velho e inseparável facão. Achou-o no mesmo lugar de sempre, repousando como um guerreiro fiel numa bainha de couro desgastado e carcomido.

Apressou-se e saiu para o quintal indo direto para o juçaral que ele havia plantado 10 anos antes. Encontrou um pé de juçara bem pequeno e cortou um galho vigoroso de um verde intenso.

- ‘Esse daqui serve’ - disse. Os poucos vizinhos que conseguiam trocar algumas palavras com o sisudo Edinho sabiam que ele era cuidadoso e ciumento de suas plantas, flores, trepadeiras, ervas de todo tipo de aromas.

Voltou para a cozinha. Depôs o facão no mesmo lugar. Arrastou um pequeno tamborete de couro e com delicadeza deitou o ramo de juçara.

Armou a sua esfarrapada rede bem em frente daquele ramo que já adquiria ares de sacralidade. Abriu a rede e deitou-se. Todo domingo de Ramos ele fazia isso, desde que a Rosário, sua inseparável companheira, havia falecido, na madrugada de um domingo de ramos, dez anos antes. 

Edinho já não aparentava mais aquele semblante cansado e de quem passou uma noite mal dormida. Ele, agora, sabia o porquê daquela espécie de pesadelo que o havia atormentado durante toda aquela noite.

Fechou, por um instante, os olhos, mas os reabriu imediatamente, quase como se quisesse fugir de algo que não queria mais lembrar. Sabia que se os mantivesse fechado ele iria voltar a ver vultos, fantasmas e lembranças gostosas e dolorosas que ele, quando consciente, queria ter enterrado há muito tempo, mas que jamais havia conseguido.

De novo! As semanas santas, antes ou depois, vão acabar comigo...’ dizia para si.

Edinho olhava, fixamente, angustiado, aquele telhado de folhas de ubim, dividido internamente, sem saber se, mais uma vez, se deixaria levar por lembranças que, sistematicamente, emergiam no início da semana santa,com a sua tácita cumplicidade, ou se dava um basta definitivo a tudo isso.

De um lado, ele queria voltar página na sua vida e sepultar toda lembrança que lhe produzia renovada dor, sofrimento indescritível, mas, ao mesmo tempo, ao contemplar um simples galho de juçara no dia da festa de Ramos, deitado numa rede, e mantendo os seus olhos lacrados, Edinho voltava a ver rostos de pessoas amadas que, agora, talvez estivessem vagando no reino do anonimato, mas não para ele que as sentia reais, vivas,  e presentes como outrora.

E isto, apesar da sua trágica ausência física, proporcionava-lhe um misto de envergonhado e íntimo regozijo e de gostosa saudade, mas, também, de irreprimível sentimento de culpa por quase se alegrar em rever na sua mente pessoas já falecidas e enterradas.

Pelo sim, pelo não, Edinho decidiu não fechar mais seus olhos. Sentou-se na sua rede, pensativo, mas consciente de ter já tomado uma decisão.

- ‘Com a minha idade não dá mais para viver de lembranças, boas ou tristes, dolorosas ou gostosas. Chega de sonhar de olhos fechados! O ramo da minha juçara dentro de alguns dias vai murchar e secar...e, comigo, não vai ser diferente’ - dizia Edinho, com um fio de tristeza e de realismo.

Naquele instante foi como se a ficha da vida tivesse caído, finalmente, e encontrado o seu sentido. Edinho levantou-se, dirigiu-se até à parede e arrancou com firmeza o calendário, depois pegou em suas mãos o ramo de juçara e saiu, novamente, para o quintal, com um isqueiro e uma garrafinha de álcool. Afastou-se um pouco de suas plantas e flores e, naquele terreiro que mais se parecia a um jardim, ateou fogo ao calendário e ao ramo de juçara, talvez, imaginando que afastaria de si o seu turbolento passado.

Enquanto o fogo demorava para pegar e a fumaça já começava a incomodar os olhos irritados e lacrimejantes de Edinho, outras lágrimas, inexplicavelmente, começavam a brotar e a se misturarem entre si. Por um instante ele tentou fechar os olhos como querendo se defender da fumaça, mas resistiu.

Edinho, naquele domingo de ramos, de paixão e de vida nova, entendeu que precisava manter os seus olhos sempre abertos para poder expulsar os fantasmas e os medos, as tristezas e os pesadelos. Entendeu que seus olhos precisavam voltar a receber luz, uma luz nova, carregada de energia poderosa para ele próprio se alimentar de esperança, de futuro, de vida nova. 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Domingo da Semana Santa - PAIXÃO DO MUNDO, PAIXÃO DE JESUS!

 O itinerário de Jesus, principalmente na sua derradeira semana de vida não é mais trágico e mais dolorido do que o itinerário de milhões de seres humanos de hoje. Contemplar as atuais farsas de julgamentos formais, supostamente imparciais, os cotidianos abusos de policiais e os brutais assassinatos de milhões de seres humanos cometidos por governos fantoches e pelos ‘democraticamente eleitos’ sob os olhos complacentes de igrejas e de ‘instituições filantrópicas’ nos ajuda a mergulhar no drama vivido pelo próprio Jesus. É olhando o hoje que podemos intuir e compreender o ontem! Pouco adiantaria sentir pena da horrível morte subida por Jesus no Calvário se isso não produzir um forte sentimento de indignação pelas inúmeras injustiças que todo dia ferem de morte a dignidade de muitos inocentes. Em nada adiantaria dramatizar espetacularmente a Via Sacra nas nossas ruas se não deixarmos brotar em nós atitudes de compaixão e de solidariedade. Em nada adiantaria chorar ao ouvir o último e lancinante grito do agonizante Jesus se, depois, continuarmos a apoiar a pena de morte e a aplaudir os linchadores de ladrão de celulares. Celebrar a paixão de Jesus é celebrar o nosso compromisso de fé e de vida em combater toda indiferença e intolerância, e todos os prepotentes que crucificam filhos e filhas do Pai. Celebrar a Paixão é acreditar que toda vida é sagrada, e que toda morte jamais será em vão.

quarta-feira, 25 de março de 2026

25 de março - ANUNCIAÇÃO!

 Lucineide (nome fictício) tinha pouco mais de 12 anos quando foi estuprada pelo companheiro de sua mãe. A descoberta de sua gravidez gerou rumores e fofocas. Se aconteceu, foi porque, no fim das contas, ela permitiu. Aos 13 anos, Lucineide, "vítima e cúmplice", tornou-se mãe contra a sua vontade. Pensemos por um momento nas milhares de jovens "Marias" entre 12 e 16 anos no Brasil que descobrem estar grávidas, muitas vezes após terem sofrido abuso sexual. Em 2019, para cada 1.000 gestantes, 60 eram adolescentes entre 14 e 18 anos. Pensemos na consequente pressão psicológica e moral exercida pela família ou pelos supostos pais sobre essas jovens grávidas para que não levem a gestação a termo. Há inúmeros casos em que a mãe, despreparada para criar o filho, se entrega a quem oferece "proteção". Infelizmente, não são os "Josés justos" que acolhem a grávida Miriam e confrontam destemidamente as normas morais da religião, mas sim as gangues de narcotraficantes. Na maioria dos casos, essas mães solteiras e seus filhos já enfrentam um destino traçado: a clandestinidade e uma morte precoce e violenta. 

Na passagem do Evangelho que propomos para reflexão, Lucas não nos apresenta uma historiografia com conotações míticas, nem descreve teofanias delirantes. O evangelista nos oferece uma espécie de memorial da complexa jornada existencial da humanidade. Ele nos coloca em sintonia com os conflitos do nosso cotidiano, mas também com suas corajosas escolhas de vida. Apresenta-nos, sem sofismas, a situação difícil de milhões de mães solteiras e mulheres anônimas, vítimas do preconceito e das tradições patriarcais, chauvinistas e excludentes. Faz-nos compreender, porém, a necessidade de criar rupturas sociais para que a "exclusão legal" seja suplantada pela compaixão, pela misericórdia e pela defesa intransigente da integridade física e moral de cada vida. Com essa abordagem, Lucas parece desafiar uma concepção de história escrita e interpretada a partir da moralidade dos prédios governamentais e dos centros religiosos oficiais, para dar visibilidade a figuras e lugares aparentemente insignificantes, senão mesmo "amaldiçoados" pela história institucional. A narrativa nos prepara, num crescendo contínuo, para que possamos nos identificar com aquele "inesperado e inconveniente bebê", Jesus de Nazaré, e sua mãe "desconfiada", Miriam. Dois "intrusos sociais" que emergem do anonimato e da invisibilidade nos quais deveriam permanecer para sempre. 

Lucas, ao nos apresentar o diálogo entre "Gabriel, a Força de Deus" e a desconhecida Miriam, na Galileia rebelde, na aldeia de Nazaré, de onde "nada de bom poderia vir" (João 1:46), paradoxalmente destaca as contradições, ansiedades, lutas e esperanças que ainda existem em nossa "aldeia-casa comum". A novidade, em última análise, reside não tanto na "concepção milagrosa" de uma nova vida biológica, mas na ruptura radical com um presente limitado por leis sexistas e normas de pureza que exigem submissão ao palácio e ao templo. Todos os personagens na passagem de Lucas são transgressores autênticos das teologias tradicionais e das práticas institucionalizadas. O próprio anjo, "divino anunciador-mediador", não é visto em lugares sagrados, como o Templo ou as sinagogas, por exemplo, nem mesmo entre as castas sacerdotais. Ele "penetra na profana vida doméstica" de milhões de cidadãos sem lar e sem Deus. A sombra do Todo-Poderoso, que antes cobria apenas a Arca da Aliança, agora cobre e protege os verdadeiros tabernáculos, os ventres de milhares de Marias grávidas, violentadas, mas geradoras de esperança e desobediência civil e religiosa. 

Na teologia de Lucas, os homens já não são os verdadeiros geradores da vida e das dinastias, como a tradição cristalizada afirmava. Eles aparecem como instrumentos infrutíferos a serviço de preceitos estéreis e práticas religiosas antiquadas, incapazes de produzir frutos de justiça e transformação histórica. Em vez disso, são as mulheres e mães solteiras, suspeitas e marginalizadas, que "não conhecem homem", que ousam "dar um nome" e definir autonomamente o plano de vida para seus próprios filhos. Nesse sentido, a "mulher e mãe" Miriam emerge como o símbolo universal de todos aqueles homens e mulheres de fé, de diferentes culturas, que inauguram lógicas e práticas sociais sem precedentes. São miríades de anjos contemporâneos, em sua maioria negros, indígenas, migrantes, sem-teto, sem-terra, sem mandato e sem unção institucional, que insistem em anunciar o surgimento de uma nova criação. Sonham com uma "casa comum" na qual os Herodes e Césares de hoje sejam depostos de seus tronos. Onde ricos fazendeiros de soja e gado, traficantes de corpos, minerais, madeira preciosa e biodiversidade ameaçada, serão mandados embora de mãos vazias. Onde os rifles e as pistolas de exércitos mercenários e forças policiais privadas serão transformados em arados, poços artesianos e sementes não transgênicas. Onde os oligopólios que vendem notícias falsas e ilusões serão desmascarados pelas profecias de tantos rebeldes sem voz, arautos da esperança e da verdade!

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Seis estados, entre eles o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, não atingem meta de alfabetização no Brasil

Dados do MEC mostram que 66% das crianças foram alfabetizadas na idade certa, mas estados como Rio de Janeiro e Santa Catarina não alcançaram suas metas individuais. Brasil atingiu, em 2025, a meta nacional de alfabetização estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC), com 66% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental. Apesar do resultado positivo no cenário geral, seis estados não conseguiram cumprir suas metas específicas no Indicador Criança Alfabetizada (ICA).

Entre os estados que ficaram abaixo do esperado estão Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas e Rio Grande do Norte. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (23) pelo MEC. Ao todo, 20 estados atingiram suas metas individuais. Roraima não entrou na comparação por ter aderido ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) apenas em 2025, ficando sem meta definida para o período.

Rio Grande do Sul apresentou o maior distanciamento em relação à meta. O estado registrou 52% de crianças alfabetizadas, frente a um objetivo de 69%. Especialistas apontam que as enchentes de grande escala ocorridas em 2024 ainda impactam diretamente os resultados educacionais. Além disso, apenas dois estados tiveram desempenho inferior em 2025 na comparação com o ano anterior. Santa Catarina caiu de 62% para 59%, enquanto o Ceará recuou de 85% para 84%, embora ainda se mantenha acima da meta nacional projetada para 2030, que é de 80%. Na outra ponta, Goiás e Paraná atingiram pela primeira vez o patamar de 80% de crianças alfabetizadas, alcançando a meta final estipulada pelo CNCA.

O pior índice do país foi registrado no Rio Grande do Norte, com 48% de crianças alfabetizadas, apesar de uma evolução de nove pontos percentuais em relação ao ano anterior.

 

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira.

Mulheres indígenas do Médio Xingu resistem há um mês em um acampamento na sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira, no Pará, mesmo diante do avanço de doenças como dengue, febre e infecções pulmonares que já levaram crianças ao hospital. O protesto é contra a licença de instalação concedida à mineradora Belo Sun para o Projeto Volta Grande, que prevê uma mina de ouro a céu aberto às margens do rio Xingu

Em encontro com representantes do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai, elas deram o prazo até quarta-feira (25) para uma reunião com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), responsável pelo licenciamento, e o Ministério Público Federal (MPF). As manifestações são lideradas pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu. Elas estão dormindo em barracas e tomando banho no rio porque os banheiros da Funai estão danificados. “Não foi por falta de alimentação, não foi por falta de água. Aqui na sede da Funai a gente está dormindo em barracas, e acho que o ambiente é muito úmido. Três crianças tiveram infecção pulmonar”, conta Tayani Xipaya, do povo Xipaya.

A principal reivindicação é a suspensão da licença do projeto, liberada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) em 13 de fevereiro. A medida barrou uma decisão anterior que mantinha o projeto paralisado por falhas no cumprimento de exigências relacionadas aos direitos indígenas. A concessão é de 2017, mas é contestada desde então. Na última segunda-feira (16), o movimento bloqueou o acesso ao aeroporto de Altamira. Uma audiência pública havia sido marcada para a manhã de quinta-feira (19), mas nenhum representante da Funai compareceu. Somente na sexta-feira (20), o procurador-geral do órgão federal, Matheus Antunes Oliveira, e assessores do MPI estiveram na sede da Funai em Altamira. As mulheres reforçaram o pedido para a anulação da licença e a realização de uma reunião com a Semas e o MPF, com prazo até a próxima quarta-feira.

A mobilização reúne lideranças dos povos XikrinAraraXipaya e Juruna. Percorrendo rios e estradas desde suas aldeias até a sede da Funai, algumas delas se deslocaram por mais 600 km, como no caso do povo Xikrin, ou por mais de 100 km, como ocorreu com as mulheres do povo Arara. A antropóloga Thais Mantovanelli, do Instituto Socioambiental (ISA), trabalha com as mulheres do Médio Xingu há mais de dez anos e explica que o protesto é incomum. De acordo com ela, as indígenas não costumam deixar suas aldeias nem gostam de fazê-lo. Só tomam essa decisão quando estão muito assustadas.

A mobilização das mulheres indígenas indica a gravidade do cenário: quando elas deixam suas atividades cotidianas para protestar é porque há uma ameaça urgente aos modos de vida e à continuidade da vida no território. Elas estão liderando porque têm papel central na proteção e reprodução da vida. Elas cuidam das crianças, dos alimentos, dos ciclos naturais e percebem de forma direta os impactos ambientais”, explica.

Governo de Israel adota no Líbano táticas já empregadas em Gaza devastando a infraestrutura hídrica!

Os ataques de Israel ao Líbano nas últimas semanas estão sendo minuciosamente analisados ​​por organizações internacionais como a Oxfam, que acaba de elaborar e publicar um relatório afirmando que o Estado israelense está utilizando táticas já empregadas durante o genocídio em Gaza no Líbano, com o objetivo de devastar sua infraestrutura hídrica, algo proibido pelo direito internacional humanitário.

Em apenas quatro dias, durante as primeiras semanas da mais recente escalada de violência, Israel danificou pelo menos sete fontes vitais de água, incluindo reservatórios, redes de tubulações e estações de bombeamento que abasteciam mais de 7.000 pessoas somente no Vale do Bekaa”, afirma o relatório da Oxfam. E não é só isso: “A destruição da infraestrutura civil não se limitou a instalações básicas de água. Israel também destruiu redes elétricas e pontes, interrompendo o fornecimento de serviços essenciais para cidades e vilarejos inteiros”, conclui a organização, lamentando a impossibilidade de acessar as áreas afetadas — referindo-se às regiões do sul do Líbano próximas à fronteira — para realizar uma avaliação dos danos.

“As consequências a longo prazo serão devastadoras para as comunidades se elas não tiverem acesso à água potável ao retornarem para casa”, alerta a Oxfam, que é inequívoca quanto à estratégia israelense: “É evidente que as forças israelenses estão repetindo o mesmo padrão no Líbano que em Gaza: atacando civis, infraestrutura civil crítica, equipes de serviços de emergência e trabalhadores humanitários”, afirma Bachir Ayoub, diretor da Oxfam no Líbano. “O objetivo deles é espalhar o caos e o medo entre a população, ignorando o direito internacional.”A organização, que acusa a comunidade internacional de ser “cúmplice” das atrocidades que Israel vem cometendo em Gaza e no Líbano, fala em “impunidade” e “crimes de guerra” para descrever as ações do Estado de Israel; uma visão compartilhada pela maioria das organizações humanitárias e por uma parcela significativa da comunidade internacional. “O mundo mostrou que Israel pode fazer o que quiser, quando quiser, sem consequências, e mais uma vez é a população civil que paga o preço mais alto por essa inação”, afirma Ayoub. (IHU)

sexta-feira, 20 de março de 2026

5º Domingo de Quaresma - VEM PARA FORA, AGORA, ANTES QUE SEJA TARDE!

São muitos e variados os sepulcros que nos mantêm presos como cadáveres. Mesmo respirando, trabalhando, comendo, parecemos ‘Lázaros ambulantes’ à procura, em vão, de vida autêntica e plena. Nem sempre temos consciência de que estamos num rápido processo de putrefação interior, social e ética. Imaginamos que a vida que temos e levamos é marcada quase que exclusivamente pela carência, pela dor, pela insatisfação, pela decepção, pelo vazio interior. Chegamos a nos conformar com a nossa situação sepulcral. Jesus hoje se dirige àqueles seres sem esperança que aguardam uma vida nova somente no fim dos tempos. Ele nos provoca para acreditarmos que já, agora, é possível sair de uma situação de morte e fazermos a experiência real e histórica de voltar a viver, como seres novos, renascidos. Não se trata, aqui, de pessoas que já sofreram a morte biológica, - fato inelutável que não poupa ninguém, - mas daqueles seres, supostamente vivos, que cansaram de lutar e se entregaram ao desespero. Que acham que tudo está perdido, e que nada adianta. Hoje o grito de Jesus e de muitas pessoas que acreditam na proposta do Mestre ressoa na nossa alma: VEM PARA FORA! Não tenhamos medo de retirar a pedra que nos mantém cativos e cadavéricos. Ousemos viver de novo, deixando de lado conformação, desconfianças, descrenças e desânimos! A decisão de sair dos nossos sepulcros que fedem a morte é nossa! Só nossa! 


sábado, 14 de março de 2026

IV domingo de quaresma - VOLTAR A VER PARA LIBERTAR AQUELES QUE ACHAM QUE ENXERGAM!

 A maior cegueira é acreditar, arrogantemente, que enxergamos. É não reconhecer que analisamos e julgamos de forma distorcida. É não admitir que no nosso olhar pessoas e realidades somos, sistematicamente, condicionados por interesses, informações, preconceitos, pontos de vista específicos que nos impedem de enxergar o âmago da totalidade e da plenitude de cada ser. Precisamos assumir um novo filtro. Colocar outros óculos. Jesus deixa claro que Ele não vai enxergar por nós. Que esse trabalho interior de aprender a enxergar, de ver a luz, cabe exclusivamente a nós. Saber se libertar da escuridão que nos domina e nos condiciona exige romper com pessoas e modelos culturais e religiosos que deformaram o nosso olhar. Significa começar a se educar a não olhar as aparências ou as ideologias sedutoras de ou de outro, mas as ações concretas, as obras que libertam pessoas concretas das trevas da ignorância e da prepotência. Enxergar só por enxergar não faz sentido, nada acrescenta. Enxergar em plenitude para libertar outros das cegueiras que escravizam e excluem nos torna testemunhas da Luz. A única que não manipula e nao distorce pessoas e realidades.

sexta-feira, 6 de março de 2026

III domingo de quaresma - O poço de Jacó está poluído. Chegou a hora de beber a água cristalina que é Jesus!

Jesus não sacia a sede de ninguém. Ele só indica de qual água podemos nos abastecer, a única cristalina e verdadeira água que sacia plenamente as almas sedentas. Da mesma forma, Jesus não elimina a morte de ninguém. Ele nos indica o caminho de como podemos encarar a morte sem sermos dominados pelo medo ou pelo desespero que frequentemente paralisam quem é chamado a encará-la pessoal e diretamente. A escolha última de optar e apostar na água que Jesus indica e oferece é nossa, e é intransferível! A nossa instintual tendência, no entanto, é a de nos abastecer da água do poço onde sempre temos bebido: a água turva das nossas supostas seguranças, a água barrenta do irretocável patrimônio da tradição religiosa e cultural, a água tóxica do nosso egocentrismo arrogante, violento e dominador. Chegou a hora, e é agora, de desistir de puxar sistematicamente o balde da água do nosso ‘poço tradicional’ e nos arriscar a experimentar a beber a água de poço que Jesus nos propõe. De repente, não sabemos o que vamos ingerir e quais são seus efeitos. Uma coisa é certa: aquela água que bebemos sistematicamente desde há muito tempo não mata a nossa verdadeira sede de plenitude de vida e de paz! Cabe a nós decidir!


EDUCARE ALL' ODIO? Massimo Recalcati

L’odio è il fondamento passionale di ogni guerra. Nel mondo animale non esiste né crimine né guerra perché non esiste la passione dell’odio. L’istinto aggressivo si scatena solo per la difesa del proprio territorio, per la sopravvivenza della propria esistenza o di quella del proprio branco. In ogni caso, essa non assume mai il valore irresistibile di una passione destinata a durare nel tempo e a corrompere la vita. Per questo, Lacan la definisce una carriera senza limiti. Ci sono vite individuali e vite collettive che sostengono la loro identità sulla mobilitazione permanente dell’odio. Gli psicoanalisti sanno bene quanto l’odio possa dare senso a una vita che al suo centro è abitata da un vuoto profondo. Ho assistito più volte allo sprofondamento depressivo di persone che, per ragioni diverse, avevano perso contatto con il loro oggetto d’odio. Era la passione dell’odio a mantenerle in vita. Ma come si può interrompere la catena dell’odio? Quando il magistero di Gesù evoca l’amore come antidoto radicale della passione dell’odio non concede nulla alla retorica dei buoni sentimenti. La sua parola non sospinge infatti ad amare il simile, ad amare chi ci ama, ma, in modo inaudito, ad amare il nemico. È il passaggio vertiginoso del suo pensiero che nemmeno Sigmund Freud può accettare. Eppure il suo messaggio resta oggi più che mai tanto scabroso quanto essenziale: la fratellanza non è affatto un’esperienza di assimilazione, di uniformazione e, a rigore, nemmeno di condivisione. 

Con l’invito paradossale ad amare il nemico Gesù intende piuttosto sconvolgere ogni concezione ingenuamente armoniosa e pacificata dell’amore per metterne in luce il lato più indigesto. Amare il nemico significa infatti amare chi non è a nostra disposizione, chi sfugge al nostro governo, chi non può mai essere assimilato al nostro Io. In questo senso la passione dell’amore è una passione di decentramento, mentre quella dell’odio è, al contrario, una passione di accentramento. Il nemico diventa un bersaglio, un’alterità da disprezzare o da annientare, di fronte alla quale ribadire la propria superiorità morale, etica, razziale o culturale. Saremo dunque responsabili davanti alle nuove generazioni di avere sostenuto una cultura della guerra e dell’odio al posto di una cultura radicale dell’amore?


segunda-feira, 2 de março de 2026

VIA SACRA DRAMATIZADA, 2026

 Primeira estação – JESUS, O PROFETA SEM MORADA, SEM PÁTRIA E SEM TEMPLO É TRAÍDO E PRESO

 Primeiro cenário: grupo de apóstolos bocejando...dormindo...conversando como se estivessem brincando e Jesus afastado, angustiado, deitado no chão....inquieto, suplicante....

Jesus: Pai te suplico, mostra-me uma saída.

- O que devo fazer, meu Pai...Me sinto fracassado e abandonado.

- Até os meus companheiros parecem não entender a gravidade do momento...

- Sei que os potentes de Jerusalém estão armando contra mim.

- Estou inseguro e com medo. Me dê uma luz: vou continuar a fugir, a me esconder...ou deixo que seja feita a sua vontade?

- Fala comigo, meu Pai, não me largue nessa hora de angústia, te suplico....

Segundo cenário (bem próximo) – Sumos sacerdotes, Herodes, chefes do Sinédrio junto e com a presença de Judas e mais alguém do povo (isso para dar a ideia de que Jesus não foi traído só por um, mas por várias pessoas...)

Sumo sacerdote – Convoquei vocês líderes responsáveis dessa grande nação, herdeira de grandes tradições religiosas, para tomarmos uma decisão definitiva e radical, como judeus que somos, deixando os romanos de fora dessa confusão.

- É uma questão nossa, do nosso povo e nós vamos resolver....

- Todos nós ouvimos falar desse suposto profeta da Galileia que anda fazendo a cabeça de muita gente, espalhando confusão e pregando verdadeiros absurdos entre os nossos cidadãos e fiéis.

- Não podemos mais tolerar que ele ande fazendo isso....

- Soubemos que esse tal de Jesus se encontra aqui em Jerusalém nesses dias, mas não sabemos em qual lugar.

- Algumas pessoas ligadas a ele afirmam que nunca passa dois dias no mesmo lugar...Vai ver que ele tem muitas casas espalhadas por aí... (irônico....todos acham graça....)

Membro do Sinédrio – (irônico) Pode até ser, mas alguém do grupo dele me informou que esse Jesus sempre advertia os seus fanáticos que o seguiam que ele mesmo não tinha nem onde colocar a cabeça.

- Ele dizia que ‘enquanto as raposas têm suas tocas e as aves têm seus ninhos, ele, o filho do homem, como se definia, não tinha onde reclinar a cabeça...’

- Vai entender esse cara! Fica difícil.

- Só alguém do grupo dele para nos informar direito a casa que vai hospedá-los aqui em Jerusalém....

Sumo sacerdote - (com ares de seriedade e preocupação)

- Verdade, temos que investigar minuciosamente, ou corromper alguém do grupo dele para nos indicar o seu paradeiro.

- Se esse Jesus fosse pelo menos um homem minimamente piedoso ele viria ao nosso templo nesses dias de festa pascal, e aí poderíamos armar uma cilada e prendê-lo...

- O trágico é que esse homem não frequenta o nosso templo.

- Ele detesta sacrifícios, oferendas, dízimos. Ele manga das nossas celebrações solenes. Ele anda dizendo que Javé o Altíssimo não quer sacrifícios, mas misericórdia.

- Que o verdadeiro sacrifício que agrada a Deus é defender os direitos das viúvas e dos órfãos, dar comida a quem tem fome, acolhida a quem não tem casa e outras lorotas assim...

- Desse jeito como vamos manter os gastos no nosso templo. Já pensou se essa moda pega?

Sumo sacerdote – (com ares solenes...) Nobres pares, por tudo isso, e por muito mais, nós temos que dar um fim nessa história, antes que seja tarde demais.

- Vamos ser pragmáticos e eficientes.

- Alguém da minha secretaria de segurança me informou que aqui entre nós tem alguns galileus da mesma terrinha do metido a profeta.

- Estão aqui, por acaso? (o pessoal se afasta e deixa Judas e algumas pessoas do povo frente a frente com o sumo sacerdote...)

Membro do sinédrio – Aqui estão, (indica Judas e um grupinho de pessoas). Ele se chama Judas e é o tesoureiro do grupo de Jesus, e os seus parceiros insatisfeitos com o jeito do profeta...(Judas avança e se aproxima de sumo sacerdote)

Sumo sacerdote – Você é Judas o tesoureiro do grupo de Jesus?

- Pois bem, vamos deixar claras algumas coisas para evitar surpresas....Você é um espião dele?

Judas - (Judas um tanto apavorado e quase gaguejando...)

- Não, não, de forma alguma...

- Eu vim aqui espontaneamente, e não vim sozinho. Há outros aqui comigo.

- Ninguém nos obrigou.

- Outro dia, quinta-feira passada, tivemos uma ceia especial entre nós, e aí eu percebi que o grupo de quem eu fazia parte não tinha mais futuro. Aquele que eu considerava um mestre e um líder deu sinais claros de fraqueza...

- Ele começou a falar em morte, dizia o que devíamos fazer depois da morte dele e tantas outras coisas...

- Parecia mais uma despedida do que um banquete.

- Eu perdi todas as minhas esperanças com ele.

-  Acho melhor apressar o fim disso tudo. Por isso estou aqui para colaborar e não para espionar....

Sumo sacerdote - (com ares de satisfação) Muito bem, é bom ouvir isso.

- É bom saber que você está do nosso lado e que você como nós quer tirar do nosso meio quem produz desordem, e anda fazendo a cabeça do nosso povo com ideias malucas.

- Vou ser franco e direto com você: até onde você vai? Dito de outra forma: você fecha conosco até o fim, ou vai amarelar?

- Se você topar, vamos combinar aqui quanto vale a sua colaboração. Sei que você é tesoureiro e sabe o valor que o dinheiro tem.

- De você só queremos saber onde podemos encontrá-lo. O resto fica por nossa conta.

Judas – O valor do meu serviço é 30 contos, grande sacerdote!

- Eu darei todas as informações necessárias e vocês não vão ter trabalho para deter o homem!

- Mas fiquem cientes, eu não vou fugir.

- Estarei lá com ele na hora que vocês forem para prendê-lo.

- O sinal será um beijo no rosto que eu darei a ele...(todos se alegram, o sumo sacerdote manda entregar a grana e todos saem....)

 Segunda estação – JESUS, O JUSTO, É REJEITADO E JULGADO PELOS PODEROSOS DO TEMPLO E DA RELIGIÃO OFICIAL

 Cenário 1 - (Sumo sacerdote e sinédrio, e Jesus com túnica na frente deles...)

Sumo sacerdote – (com ares de deboche e ironia...) Ah, finalmente, tenho a oportunidade de ver e conhecer pessoalmente o famoso Jesus, o Galileu, o milagreiro, amigo da gentalha impura, sem deus e sem fé.... fino manipulador e divulgador de doutrinas pagãs.

- Mas deixa eu lhe perguntar algumas coisas para tirar algumas dúvidas, e comprovar se você é tudo aquilo que eu ouço a seu respeito.... (Jesus permanece fixando o sumo sacerdote, mas se mantém calado)

- É verdade que você se declarou filho de Deus? (Jesus fica calado) Fala!

- É verdade que você tem poder de expulsar os espíritos maus que dominam as pessoas? Sim ou não?

- Você não fala?

Guarda do templo (irritado e chutando Jesus)– Fala, você tem que responder ao sumo sacerdote.

- Você não sabe que está escrito nos livros sagrados que não pode calar perante o sumo sacerdote? (Jesus continua calado fixando o sumo sacerdote)

Sumo sacerdote – Eu olho para você e vejo o seu jeito arrogante....

- Você quer me desafiar, não é? Esse seu silêncio vai condená-lo!

- Vou lhe dar mais uma chance. Me responda: é verdade que você disse que irá destruir esse templo para depois reconstruí-lo em três dias?

- Ainda me pergunto como você teria poder e atrevimento para destruir a casa do Altíssimo, o lugar onde Javé mora?

Jesus(olhando fixamente o sumo sacerdote) Deus, meu Pai e pai nosso não precisa de templo de pedras com decorações preciosas....

- O verdadeiro templo de meu Pai são os corpos de seus filhos: das crianças, das mães, dos pais, dos avôs (indica as pessoas presentes....). É neles que Ele mora!

- Quando alguém torturar, espancar, linchar um desses corpos está profanando o templo de meu Pai! São essas vidas que devem ser zeladas, cuidadas e protegidas...(o sinédrio e sumo sacerdote ficam horrorizados...)

- Ninguém pode aprisionar o Pai num santuário de pedras frias como essas!

- Ele habita também nessas moradias (indica as casas próximas...) bonitas ou feias, grandes ou pequenas, de tijolo ou de taipa, não importa. Sabem porque? Porque é nelas que seus filhos e filhas vivem, choram, lutam e se amam!

- E Ele vem entre nós, mora entre nós, faz comunhão conosco, e se torna família com todas essas criaturas amadas (indica as pessoas...)

Membro do sinédrio (com raiva, gritando...) Chegaaaaaa! Cala-te! Isso é heresia, é sacrilégio! Como ousa falar essas loucuras ao sumo sacerdote?

- Não precisamos mais de testemunhas. Esse homem revelou o que de fato ele é! Ele é um ser que não respeita nem Deus e nem seus dignos representantes! (todas as pessoas reagem, falando gritando escandalizadas...)

Sumo sacerdote – (ele levanta e grita com autoridade...) SILÊNCIO! Depois do que esse charlatão falou não cabe dúvida: deve ser apedrejado! No entanto, isso poderia pegar mal para nós, afinal ele, como nós, pertence a um único povo.

- E nós não podemos ser acusados de derramar o sangue de um irmão mesmo que errado como ele é! Portanto, determino que seja definitivamente julgado por Pilatos que é a autoridade política dessa cidade.

- Eu queria resolver a questão internamente, mas não tem jeito. Levem para Pilatos!

Terceira estação – JESUS, O INOCENTE, É JULGADO CULPADO SEM DIREITO DE DEFESA, E É SENTENCIADO À MORTE POR CRUCIFICAÇÃO COMO MALFEITOR!

 CenárioPilatos, guardas romanas, Jesus e povo...)

Pilatos – O meu secretário de gabinete me informa, aqui, (olha a papelada...) que você é da Galileia, que você é um pregador que anda afirmando que não se deve pagar os impostos a César; - que diz que o Reino de Deus, - e não o de César, - está bem próximo para iniciar;

- que você expulsa demônios e os manda entrar numa manada de porcos;

- que você faz curas que ninguém faz, etc.... Bom, isso aqui não me interessa...

- Então, o que você tem a dizer sobre tudo isso?

Jesus – Pergunte a quem falou isso a meu respeito....

Guarda – (Dá um soco em Jesus...) Aprenda a respeitar a autoridade! Ele é o procurador romano!

Jesus – O que fiz de mal? Eu não o ofendi! Se não fiz nada de mal porque você me bate?

Pilatos – Vamos cuidar, não tenho muito tempo a perder...

- Você se declara inocente ou culpado de todas essas acusações?

- Você fez ou não fez essas coisas de que está sendo acusado? Me responda!

Jesus – Não cabe a mim e nem a vocês decidir se eu sou inocente ou culpado, mas só a meu Pai, pois Ele está acima de toda autoridade humana.

- Ele é o verdadeiro governante e eu sirvo o Reino Dele.

Pilatos – Boa essa! Não sabia que Deus também tem reino...eu nunca vi! Cadê o palácio dele?

- O modo de governar de meu Pai é diferente de todos os governos deste mundo.

- Vocês governantes humanos agem como tiranos, submetem as pessoas, exploram, escravizam, prendem, torturam...já o modo de governar de meu Pai é outro...

Pilatos – Ah é? E como é mesmo? Diga para mim....

Jesus – No governo de meu Pai não há palácio, nem exército e nem armas.

- No governo de meu Pai os pobres, os doentes, os anciãos, as crianças, as mulheres são prioridade!

- No governo dele todas as pessoas são reconhecidas e respeitadas, ninguém é superior a ninguém. - Ninguém é submisso a ninguém!

- Meu Pai não faz distinção entre pobre e rico, entre preto e branco, entre mulher e homem.

- Todos nascem com a marca divina de meu pai. Todos têm a mesma e inviolável dignidade!

Pilatos – Tá bom, tá bom....lá tudo é perfeito...(irônico...) Chega de lorotas! (Pilatos levanta e com ar solene....fala ao povo) Povo de Jerusalém, eu, francamente, não vejo nesse homem uma ameaça ao império de Roma. Ele não tem um grupo armado, e nem cara de bandido ele tem...Logo, eu não vou assumir a responsabilidade de mandar matar esse Jesus.

Povo – Você é um medroso. Você é um omisso.

- Roma vai te punir...

Pilatos – Silêncio!

- Ocorreu-me que nesse período da Páscoa de vocês existe a tradição de soltar um detento.

- Temos aqui na nossa carceragem um revoltoso condenado por tentativa de golpe e atentado ao estado democrático de direito...um cara perigoso chamado Barrabás...

- Tragam aqui esse homem!

Povo(enlouquecido de alegre...começa a gritar...) Barrabás, Barrabás.....Uuuuuuuuuu

Pilatos – Guardas, tragam aqui os dois..... (os guardas levam os dois perante Pilatos...)

- Aqui está Jesus quem prega o Reino de Deus e nunca pegou em armas ...(indica Jesus...)

- e aqui está o cara que combateu o Reino de César Augusto, que organizou grupos armados, um verdadeiro golpista que matou vários soldados nossos....(indica Barrabás)

- Quem vocês querem que eu solte?

Povo – Solta Barrabás....Anistia Barrabás!

- Ele sim defende a nossa pátria, a nossa família. Ele é dos nossos!

Pilatos – Pensem bem. Vocês poderão se arrepender mais adiante....

Povo- Solta, solta, solta.......Anistia já, anistia já!

Pilatos – Eu sou homem de palavra e respeito a vontade de vocês.

- Quero deixar claro que são vocês mesmos que estão libertando Barrabás e condenando Jesus.

Povo – Solta, solta ......

Pilatos - Vocês serão os responsáveis pela morte de um irmão de vocês? Vão manchar suas mãos de sangue?

Povo – Irmão não, impostor....... charlatão......traíra!

- Crucifica....crucifica.....

Pilatos – Silêncio! Então, após ter constatado que a maioria se declara a favor da soltura de Barrabás, eu condeno Jesus de Nazaré à pena de morte mediante a crucificação.

- Lavo as minhas mãos e vocês assumam as consequências desta decisão.

- Guardas, que o condenado carregue a cruz e sigam para o calvário, agora!

Quarta estação – JESUS CARREGA A SUA CRUZ E A CRUZ DA HUMANIDADE. CAI MUITAS VEZES, MAS NÃO SE DEIXA ESMAGAR POR ELA!

 Cenário: (Jesus anda cambaleando...até cair...bem em frente a uma família humilde de hoje com pai e mãe e dois filhinhos com trouxas, mala e contas de energia e água...)

Jesus olha com compaixão a família, em silêncio, comovido....e a família o olha calada sem dizer nada....depois um pouco um guarda intervém....

Guarda – Levanta, seu lerdo! Não aguenta carregar sequer 30 kg? (dá uma chicotada...)

- Está olhando o que? (Jesus olha com compaixão a família...estendendo a mão como querendo ajudar.... )

- Fariseu – Ei, profeta, você sabe quem são esses aí?

- Esses aí são aqueles que acreditaram em você...

- Não era você que dizia que o Reino de seu Pai era como uma semente de mostarda que iria crescer e se tornar tão grande que iria abrigar os passarinhos do céu?

- Olha eles. Nem árvore tem para abrigá-los.

Segundo fariseu (com ar de deboche...)– Essa família aí não tem nem tapera, nem toca e nem ninho...está pior do que os passarinhos e as raposas......kkkkk

Fariseu – Não era você que dizia que não era preciso se preocupar com o que vestir, o que comer, onde morar, pois ao final o seu Pai cuidava de todos, inclusive dos passarinhos e das flores?

- Olha aí o resultado... Aí estão eles aguardando casa, comida, roupa....

Jesus – Pai, perdoa esses coitados. Eles não sabem o que estão falando... (depois se arrasta perto da família e coloca suas mãos na cabeça deles...e fala para eles.)

- Meus filhinhos, não desanimem. Não é o nosso Pai que fez isso com vocês.

- É a ganância humana. É o desejo desmedido de muitas pessoas em ter sempre mais..

- É a falta de compaixão e de amor de pessoas que se esquecem que somos família.

- Não desistam....tenham fé, ....estou certo que algum bem-aventurado vai lhe oferecer abrigo e aconchego...

Guarda – Agora, chega! Levanta! Desse jeito vamos chegar tarde ao Calvário. Levanta!

Quinta estação – JESUS ENCONTRA AS MULHERES, AS DISCÍPULAS QUE NUNCA O ABANDONARAM, E ELAS LHE DÃO FORÇA PARA NÃO SE ENTREGAR!

 Cenário – várias mulheres, de diferente idade e cor....Jesus chega e elas se aproximam e cercam ele...

Maria mãe de Jesus (chorando...) – Oh, meu filho, o que fizeram contigo?

- Deixa eu limpar esse sangue.....

- Oh meu pai, quanta falta de humanidade.....(outras mulheres tentando limpar, cuidar....oferecendo água....)

- Jesus – Oh mãe, não se preocupe, se acalme... estou bem....(Jesus olha para elas....)

- Mãe querida, irmãs, obrigado, obrigado pela preocupação, pelo carinho...

- Não chorem e nem fiquem angustiadas por mim.

Maria Madalena – Oh Jesus me diz o que está sentindo...como podemos aliviar suas dores. Olha, deixa eu colocar esse óleo que é muito bom para as feridas

Guarda – Agora, chega....vocês estão atrapalhando. Vamos....

Mulheres – Deixa nós aqui ainda um pouco.

- Vai ser a última vez que o vemos vivo.

-Daqui a pouco vocês vão matá-lo, seus assassinos brutos!

- Vocês não têm coração mesmo!

Jesus – Mãe, irmãs queridas eu quero agradecer o carinho de vocês, não só o de agora, mas aquele que sempre me manifestaram ao longo da minha vida!

- Agradeço mãe a paciência e a compreensão que a senhora sempre teve para comigo.

– Agradeço de coração todo o amor que vocês sempre me deram. Isso está me dando coragem e força. Não se preocupem... (depois Jesus olha para todas as mulheres do povo....)

- Vocês irmãs queridas devem se preocupar com aquelas mães que veem seus filhos sendo arrancados do seu convívio e são cooptados pelo tráfico, que se tornam dependentes do álcool e das drogas...

- Se preocupem com todas aquelas esposas que perdem seus filhos e maridos no trabalho, nas guerras, no trânsito, nas ruas violentas das nossas cidades.......

- Chorem e se preocupem com aquelas mães que são espancadas ou assassinadas por seus companheiros e maridos, que são largadas e abandonadas para cuidar sozinhas de seus filhos pequenos....

- Irmãs, se preocupem com aquelas jovens mães que nunca tiveram chances na vida....que são violentadas e abusadas, desprotegidas e agredidas...

- com aquelas mães adolescentes que morrem de parto por falta de cuidados e assistência....que nunca conheceram um gesto de carinho....(Jesus se encaminha....e retoma o caminho...)

Maria Madalena (gritando...)Fica conosco Jesus, não vá....não nos abandone...

Jesus – (Jesus se vira uma última vez...) Maria, vocês mulheres são fortes!

- Vocês vão sobreviver a tudo isso.

- Vocês serão aquelas que irão me manter vivo sempre, mesmo quando eu estiver morto.....Tenham fé! Vocês estão aqui, no meu coração, sempre!

 Sexta estação – JESUS É AJUDADO PELOS CIRENEUS DA VIDA A CARREGAR A CRUZ, E A NOSSA CRUZ SE TORNA MAIS LEVE...

 Cenário vários homens e até crianças se preparam para carregar a cruz...Jesus cambaleando até cair....

Guarda – De novo! Você é fraco mesmo! (mais uma chicotada...)

Pessoa do povo – Vocês o torturaram e espancaram o tempo todo, quem aguenta?

Guarda – Cala a boca, quem foi? (guarda chama o centurião e se dirige a ele...)

- Senhor, temos que encontrar alguém para ajudar o condenado. Desse jeito vamos chegar só de noite!

Centurião romano – Escutem, vocês, aqui!

- Esse condenado não tem força suficiente para carregar essa cruz. Alguém se dispõe a ajudar ou vou ter que escolher eu, e obrigar a fazer o serviço? (todos calados...)

- Pergunto de novo: alguém se oferece? (todos calados...)

Fariseu(irônico...) Centurião, me permita.... Veja que engraçado é esse homem.

- (com deboche...)Quando estava no auge da fama ele falava para as multidões que aquele que queria ser seu discípulo devia carregar a sua própria cruz e segui-lo...inclusive, dizia que quem queria salvar a sua própria vida iria perdê-la....e quem perdia a sua vida por ele iria ganhá-la....Veja só, agora, sequer consegue carregar a sua própria cruz que não pesa nem 30 kg...kkkkkkk (todos riem e mangam...)

Pessoa do povo (gritando lá no meio do povo...) Não era dessa cruz aí que ele falava...seu hipócrita!

- Era da cruz que religiosos como vocês fariseus colocam na vida das pessoas....

- São os fardos pesados de suas leis, proibições e normas....

- São as cruzes de suas humilhações, perseguições e deboches de seus chefes com os pobres e as viúvas.

- Fica na tua, seu hipócrita....cria vergonha na cara!

Centurião – Chega. Aqui não é disputa religiosa. Aqui temos uma missão a cumprir...

- Há algum voluntário para carregar a cruz do condenado, sim ou não?

(nesse momento várias pessoas aparecem para ajudar: homens, crianças, mulheres...)

- Não precisa tudo isso não.....basta um....

Cireneu – Chefe, esses aqui são a minha família, a minha comunidade. Nós trabalhamos juntos! -  - Aonde um vai, todos vão!

- Nós sabemos o que significa carregar cruz...ser humilhado, e ser objeto de chacota...

- Se quiser vai ser do nosso jeito: todos nós aqui vamos carregar juntos a cruz desse homem

- Carregando juntos, a cruz de cada um se torna mais leve....

- ....e carregaremos também a cruz de muitos outros condenados que passarão por essas ruas rumo ao Calvário...

- Estaremos aqui para ajudar, de graça, seja quem for!

Centurião – Você quem sabe...(gritando...) Então, carreguem a cruz do jeito que vocês quiserem, com tanto que carreguem! Vamos! (e todos retomam o caminho com o grupo carregando a cruz de Jesus...)

Sétima estação – JESUS É DESPIDO DE SUAS VESTES, PREGADO NA CRUZ E LEVANTADO!

CenárioCruz é fincada no chão, mas as pessoas chegam com folhas de papel contendo palavras como violência, tortura, abusos, falta de moradia, injustiça, poluição, corrupção, indiferença, e as pregam na cruz de Jesus às pressas e quase às escondidas.... enquanto os soldados estão ocupados em tirar a roupa de Jesus, colocar a coroa de espinhos....) 

Guarda(dando fé das palavras...começa a gritar...) Guardas, afastem esses metidos!

- Que bagunça é essa! Afastem-se já! (guarda pega algumas palavras....comenta e rasga...)

- (Pega a palavra violência, tortura...) Vocês acham que são essas coisas aqui (indica as palavras...) que estão crucificando as pessoas hoje? É isso?

- Vocês não viram nada!

- Violência, tortura, perseguição....sim, isso mesmo. Vocês aprendem só na taca!

- Não adianta pedir ordem, vocês não respeitam a autoridade constituída....!  

- (pega a palavra Falta de moradia...e com deboche....) Vocês agora querem luxar, hein!

- Não produzem, ficam a vagabundear o dia todo e ainda querem a casinha bonitinha, hein? Vai ver que querem casa com piscina e churrasqueira....kkkkkkk

- Tem que trabalhar, suar.....vocês gostam é de moleza.

- O pior é que tem gente que quer folgar 3 dias por semana, já pensou?

Outro guarda(chega e rasga tudo...) Ei, colega, você está valorizando ainda o que esses caras escrevem....vamos cuidar. Tira essas baboseiras!

- Afastem-se, agora....cadê os pregos, traz aqueles grandes aí....já! Não esqueça o martelo...

- Ei, guarda essa túnica que é bonita. Mais tarde vamos sortear, viu?

(Jesus é pregado na cruz.. entre outros dois condenados....)

Centurião – Finalmente...O homem está no lugar dele. Está levantado para que todos o vejam...e aprendam a se manterem quietos e obedientes ao imperador.

Fariseu(com deboche...)Isso aí...Ele mesmo dizia que o filho do homem tinha que ser levantado para que quem nele crer não morra.... Agora, ele está levantado, mas nem ele consegue escapar da sua própria morte....imagina salvar os outros.....

Centurião – Guardas, fiquem de olho para evitar surpresas por parte de algum fanático....Um pouco de paciência e dentro de umas três ou quatro horas esses condenados vão morrer sufocados. - Depois que baterem as botas todos vocês estarão liberados para folgar e tomar vinho (todos os guardas ficam felizes....e ficam bebendo e brincando perto das cruzes...)

Crucificado N.1. – Você que é famoso Jesus de Nazaré?

- Ouvi falar muitas coisas a seu respeito...Você faz magia, não é?

- Vai, inventa algum truque para nos tirar daqui....

- Mostre a esses porcos romanos que somos mais espertos que eles...

Crucificado N.2 – Pelo amor de Deus, você está para morrer e ainda anda falando besteiras...Deixe-o em paz.

- Você não está vendo que ele não tem nem cara e nem jeito de bandido?

- Nós aprontamos e estamos pagando por isso, mas ele.... Está na cara que foi tudo armação.

- É mais um inocente que está sendo executado nessa terra...Muito triste!

(ele vira o rosto para Jesus....)

- Jesus, lembra-te de mim quando entrar no seu reino...

Jesus(Jesus olha para ele e para as pessoas ...) Irmão você estará comigo daqui a pouco num lugar onde não haverá mais lágrimas e nem dor.

- Onde ninguém mais passará fome, e ninguém será humilhado e perseguido.

- Todos nos sentaremos no colo de meu Pai e Pai vosso, e experimentaremos o seu amor intenso. Não desistam. Tenham fé!

Oitava estação – JESUS MORRE NA CRUZ, MAS A MORTE NÃO APAGA A VIDA PLENA QUE ELE SEMEOU E TESTEMUNHOU ENTRE OS POBRES E DOENTES!

 Cenário – (Só a cruz com Jesus......aos pés da cruz pode-se colocar os nomes de vários mártires como padre Ezequiel, Irmã Doroty, Chico Mendes, Dom Oscar Romero....)

Guarda(olha para Jesus com deboche...)

- Eita homem durão....ainda não morreu? (Jesus tem respiração cansada...faltando ar...)

Jesus – Tenho sede.....

Guarda – Sede? Sede de que? De vinho? Kkkkkkkk

- Pois é, você não ofereceu vinho no seu jantar com os seus fanáticos quinta-feira passada?

Guarda 2 – Vai ver que acabaram com o estoque inteiro....ou, de repente, o vinho estragou...

Guarda – Ah sim, o vinho estragou e virou vinagre....

- Aqui temos vinagre....kkkk Toma um pouco de vinagre e vai saboreando....cuidado para não ficar bêbado....kkkkk (e oferece vinagre a Jesus que não aceita...)

Jesus(Jesus agonizando olha para o céu...)

- Pai, onde está você? Está se escondendo de mim?

- Não estou sentindo a sua presença....Me dê um sinal, não me deixe morrer assim...

- Você está me abandonando justamente agora, Pai?

- Os meus discípulos me abandonaram, fugiram e se esconderam, mas tu, ó Pai, não me abandone, te suplico...

- Me perdoa, Pai, estou confuso.....

- Sei que não é você que quer a minha morte. Disso tenho certeza...

- Eu queria só entender a finalidade da minha morte, ó Pai...

- Queria saber se ela vai ajudar alguém a abrir os olhos e o coração...ou se eu vou morrer em vão...

- Certamente você tem um plano que ainda não consigo entender...Me ajude, Pai.

- Pai, para mim tudo está consumado. Sim, Pai....Estou pronto....

- Pai, agora me deixe ir,..... chegou a minha hora...

- Pai, em tuas mãos eu coloco o meu espírito, a minha vida, o meu ser... (Jesus dá um forte grito e expira)