domingo, 5 de abril de 2026

RESSURREIÇÃO, HOJE - Testemunho real de uma mãe que perdeu a única filha

'No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: "Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram". Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos'

TESTEMUNHO VERDADEIRO DE UMA MÃE QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

‘Não me contive. Comecei a gritar como louca. Fiquei estarrecida e incrédula, mas após alguns instantes caí em mim mesma e comecei a acreditar no que meu marido acabava de me informar. A nossa única filha, de 23 anos, acabava de ser esmagada por um caminhão. Morreu na hora. Ela estava indo ao trabalho, de manhã, bem cedo. Os peritos achavam que ela devia ter encostado na sarjeta, perdido o equilíbrio e caído no asfalto. Logo atrás estava chegando um caminhão que não pode evitá-la. Não gosto de lembrar, mas não tem como tirar de mim aquele momento de dor que ainda me consome, mas que, agora, convivo com ele tendo um olhar bem diferente.... Passei noites inteiras sem dormir. Cochilava, mas acordava espantada, sobressaltada. O pensamento voltava àquelas imagens horríveis de minha filha toda deformada. Um corpo que era perfeito, ela era uma atleta, uma menina alegre, linda, cheia de vida, de iniciativas, amada e idolatrada pelos seus amigos e amigas com os quais ela saia, sistematicamente. E, agora, reduzida a um amontoado de carne dilacerada. Nos primeiros dias pensei besteiras. Não escondo não, já pensei em fazer coisas contra mim mesma para me livrar daqueles pensamentos obsessivos e recordações que alimentavam o meu cotidiano tornando-o insignificante, sem sentido....

Todos os dias, às cinco da tarde montava na minha bicicleta e ia ao cemitério. Levava comigo velas e flores. Não fazia isso para que Deus tivesse compaixão de minha filha. Para dizer a verdade, nunca acreditei em Deus e nem podia responsabilizando-o pela morte de minha filha. As velas e as flores eu as depositava naquele jazigo como se eu quisesse dizer para minha filha que a sua mãe continuava a amá-la. Que ela não estava sozinha, não sei...tinha virado uma rotina. Lembro que depois de 5 meses de idas e vindas do cemitério, uma bela noite meu marido me chamou e com dureza me disse que se eu continuasse assim ele iria perder duas pessoas queridas, e não só uma como, de fato, já a havia perdido, mas também eu. Não tive nem força para responder. Escutei calada e me levantei. Já não me importava mais nada. Viver ou morrer, continuar com ele ou sem ele, para mim era tudo a mesma coisa. 

Mas, eis que uma tarde, após ter depositado as costumeiras flores e velas, ao contemplar a foto da minha lindinha, veio à minha mente algo que ao longo daqueles seis meses nunca havia aflorado. Pensei como poderia estar, agora, a minha filha depois de seis meses naquela cova, naquele caixão...Imaginei que deveria ter ainda os seus longos e castanhos cabelos, a sua melhor roupa que lhe foi colocada no dia do enterro, os sapatos, mas o corpo em si....meu Deus, gelei. Fechei os olhos e vi minha filha sem carne, sem pele, uma cabeça....não, uma caveira. Arrepiei toda. Senti uma revolta interior jamais experimentada. Repeti duas vezes para mim mesma: minha filha virou um cadáver? Um esqueleto? Não pode ser! Nunca havia pensado nisso, pois eu a via sempre linda, bonita, elegante....nunca havia me detido em imaginar que com o passar do tempo os corpos se deterioram...Não aguentei, chorei, mas saí rapidamente do cemitério. Não queria ficar lá nem um minuto a mais. Acho que estava revoltada comigo mesma. Afinal, passei meses indo visitar o lugar errado. Cemitério, queiramos ou não, é o lugar onde se depositam os cadáveres ,e não pessoas vivas. Sei que é triste dizer isso, mas é a dura realidade. E minha filha não é, e nunca foi, um cadáver, um esqueleto! Intuí que nunca mais voltaria para lá! Cheguei ao nosso apartamento e encontrei meu marido sentado no sofá assistindo tevê. Me aproximei dele um tanto sem jeito e sentei-me ao seu lado. Ele me olhou e nada disse. Já sabia de onde eu vinha. Aí tomei coragem e falei para ele: ‘querido, se não se importa, gostaria que você fosse comigo, sábado, agora, de manhã na estação de trens e na rodoviária’. Ele me olhou com ar de surpresa quase sem entender o motivo de tal pedido, mas eu expliquei logo para ele. Iríamos rever os amigos e amigas da nossa filha que, certamente, deveriam estar lá cuidando do pessoal de rua, oferecendo café, caldo, cobertores, roupas.... Havia tomado a decisão de conhecer minha filha e, talvez, já vinha acalentando um recôndito desejo de senti-la mais próxima de mim naquilo que ela fazia quando estava entre nós. Saber como era vista pelo grupo dela, o que pensava....enfim, percorrer o seu itinerário nesses ambientes e conviver um pouco com os amigos e amigas dela. Talvez fosse uma forma diferente de senti-la mais presente, mais viva...não sei..... 

Passamos a manhã daquele sábado observando, conversando, vendo o carinho, a paciência, a dedicação do grupo de nossa filha para com aquelas pessoas maltrapilhas, de rosto tristonho, mas que se iluminava quando se aproximava alguns daqueles jovens. Foi algo inesquecível. Confesso que fechei os olhos e na minha mente vi também minha filha, lá, oferecendo um caldo quente, café com leite, pão, com aquele jeito cativante que ela tinha com todos. Percebi que era aqui que devia ter vindo desde o começo, mas, como diz o ditado, ‘antes tarde do que nunca’. Depois disso, visito o jazigo de minha filha uma vez por ano, mas não para falar com ela, pois eu sei que não está lá, mas só para que as pessoas não digam que eu estou a desleixar a sepultura de minha filha...ah, não, de minha filha, não. A sepultura dos restos mortais de minha filha. Minha filha mesmo, nunca morreu. Hoje posso dizer isso. Ela continua vivinha e atuante naqueles jovens da estação, da rodoviária, das casas de repouso onde eles continuam a assistir e a acolher e a dar motivações para viver para muita gente’

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