Um
padeiro especial
Chegou,
surpreendentemente, resplandecente, a manhã de quinta-feira santa e, como de
costume, Antônio José, de inegável ascendência italiana, saiu para o mercadinho
do velho e renomado Augusto, conhecido como ‘Bigode Doce’, - como ele
mesmo gostava de se autodenominar.
-
‘Lá vem o madrugador...’ exclamou, com o seu vozeirão, como se estivesse
à sua espera.
-
‘Bom dia, Antônio José, meu ilustre e estimado freguês’, não sem esconder uma
veia de ironia.
-
‘Não esqueci, não, da sua promessa que você cumpre religiosamente toda
quinta-feira santa...e andei me preparando, viu? antecipou-se Augusto.
-
‘Bom dia, bom dia’, repetiu Antônio José com ares de meio chateado e meio
preocupado.
-
‘Imaginei, afinal, faz mais de 15 anos que venho aqui a comprar em suas mãos a
matéria prima para a minha arte...’ respondeu Antônio José.
-
‘Você vai querer cinco ou mais pacotes de farinha de trigo’? – adiantou-se
Augusto.
-
‘Ontem, o atacadista de minha confiança deixou aqui dois sacos de 50Kg de
farinha de trigo legítima, sem misturas. Ela vem direto do moinho, lá do porto,
viu? Com certeza vem do sul do País, talvez do Rio Grande do sul. Soube que o
Brasil aprendeu a cultivar trigo e a fazer uma farinha de excelente qualidade?
Que seja!’ sentenciou, o Bigode Doce.
-
‘Que bom, fico feliz, espero que desta vez o meu pão tenha um sabor especial’,
disse o Antônio, ao lembrar, na sua mente, o incidente do ano anterior em que o
pão que ele havia produzido com dedicado afinco, no final, não pode evitar o
gostinho sutil de farinha mofada.
Não
que o pessoal tenha dado fé desses ínfimos defeitos, ao contrário, o havia
achado fragrante e saboroso aquele pão, mas ele, cricri como sempre foi, não
ficou entusiasta da sua obra e não queria que acontecesse o mesmo.
Antônio
José, de fato, era conhecido por ser um perfeccionista. Encontrava defeito em
quase tudo; não somente nos outros, mas também naquilo que ele mesmo fazia.
Desta vez iria prestar mais atenção e, após a publicidade do Augusto, tinha
certeza de que não iria falhar, mas não sem antes cheirar e apalpar aquela
farinha de trigo que, agora, lhe era oferecida em suas mãos.
Ele
examinava, meticulosamente, com gestos sincronizados, quase mecânicos repetitivos,
dando até a impressão de ser conduzido por uma leve neurose, aquela cândida
farinha. Fazia-a escorrer em suas mãos largas e rugosas e a levava delicadamente
às suas aprimoradas e exigentes narinas. Depois desse ritual, Antônio José se
dirigiu ao Bigode Doce e deu-lhe a conhecer a sua decisão: iria comprar logo 6
pacotes. Ele havia calculado, mentalmente, que seis quilos de pão eram mais que
suficientes para dar conta da sua antiga promessa...
-
‘E aí, passou no teste a minha farinha’? sussurrou, jocosamente, o Augusto, bem
baixinho no ouvido daquele exigente e respeitado freguês.
-
‘Parece que sim’, respondeu-lhe Antônio, - ‘pelo menos nessa primeira fase da
minha empreita. Vamos ver como a sua farinha vai se comportar quando se
transformar em massa a ser sovada’, respondeu-lhe aquele padeiro de ocasião.
Uma curiosa promessa
Efetivamente,
Antônio José nunca foi padeiro de verdade, nunca vendeu pão para nenhuma
freguesia. Transformava-se em produtor refinado de pão somente num dia do ano:
na quinta-feira santa! Fora isso, ele era um fiel apreciador de arroz e feijão
de todos os dias, sem esquecer, contudo, da sua insubstituível banana prata que,
ele dizia, combinava com tudo, e dava consistência e valor à refeição.
Eram
poucas as pessoas que sabiam, vagamente, o sentido daquela promessa de produzir
pão na quinta-feira santa e distribui-lo, graciosamente, fora da porta da
igreja matriz, justamente após a celebração do lava-pés e da santa eucaristia.
Antônio José evitava aparecer na igreja na hora da celebração solene, e muitos
se perguntavam como uma pessoa como ele, com uma iniciativa tão simbólica e
caridosa, não participava daquele mistério de serviço e de partilha que era o que,
de fato, se queria celebrar.
Ano
após ano, os fregueses da matriz já sabiam que iriam encontrar fora da porta da
igreja o Antônio José com três paneiros cheios de pão crocante e cheiroso.
Aliás, havia alguns devotos espertinhos que não escondiam, e não deixavam de falar em boca pequena que a parte mais interessante da missa era o que vinha
depois dela: a distribuição dos pães daquele padeiro improvisado e amador, mas
que produzia um pão de excelente qualidade e de sabor inimitável que nenhum
outro padeiro profissional da cidade sabia fazer.
O
padre Queiroz, pároco da matriz de Nossa Senhora da Conceição, ele sim, sabia o
motivo real da promessa do Antônio José, mas fingia ignorar e, principalmente,
mudava de conversa quando alguém perguntava.
Corria
o ano de 2011, numa segunda feira da semana santa, quando Antônio José foi até
a secretaria paroquial para tirar algumas dúvidas com o padre Queiroz. Aquele
ministro de Deus havia chegado dois anos antes para tomar de conta daquela
paróquia, mas já conhecia quase toda a sua freguesia, inclusive o Antônio José.
-
‘Bom dia padre, a sua bênção’, disse com um largo sorriso.
- 'Deus te abençoe, irmão’, respondeu gentilmente, padre Queiroz.
-
‘Quais bons ventos te trazem aqui, homem de Deus...’?
-
‘Vim me confessar, padre! Tem um tempinho para ouvir esse pobre pecador?’
-
‘Sim, claro, vamos para esse quarto ao lado, é mais tranquilo, aqui ninguém nos
incomoda’ disse o padre convidando-o a se dirigir a um quarto bem austero,
abafado e com vários quadros de bispos na parede, e o do papa em exercício.
-
‘Acomode-se nessa cadeira, não precisa você se ajoelhar...’ tranquilizou-o o
padre.
Antônio
José um tanto titubeante, sentou-se, fixou o padre já sentado na sua frente a
abriu o coração....
-‘O
senhor deve ter reparado que as poucas vezes que participo de suas missas eu
não comungo’, começou o penitente, sem ter coragem de olhar diretamente o seu confessor.
E continuou: ‘Depois que a Rosália me largou por outro homem há mais de 9 anos
eu fiquei vivendo que nem solteiro comportado por quase três anos, mas aí, Deus
colocou no meu caminho a Alcione, um anjo de Deus. Não sei por que Deus não a
colocou no meu caminho quando havia chegado a minha hora de ter família própria....Destino
é assim, ninguém planeja, só acontece sem a nossa permissão ou sem a nossa
censura. Moral: desde que me juntei com a Alcione deixei de comungar como me
ensinaram desde criança’.
O
padre Queiroz com os olhos semiabertos ouvia atentamente aquele homem que
falava pausadamente e com ar compenetrado.
‘Vivo
com esse anjo maravilhosamente bem. Não que não haja algumas pequenas
incompreensões, mas tudo resolvemos no diálogo e no entendimento...de forma que
eu pensei, padre, que na quinta feira santa eu poderia comungar, o que o senhor
acha? Afinal, estou amando e me sinto amado e nada melhor do que receber o
corpo do Senhor juntamente com a Alcione até como expressão de comunhão
entre......’
- 'Para, para....bem aí’ interrompeu o padre Queiroz.
-
‘Está me dizendo que vocês, justamente no dia da instituição da Santa
Eucaristia, querem receber a comunhão indevidamente?’ exclamou um tanto
alterado o confessor.
-
‘Como ‘indevidamente....’ interveio o Antônio José.
-
‘Padre, acabo de lhe falar que estamos nos amando e provando isso todo dia, e é
justamente por isso que nos sentimos em condição de receber o corpo de Cristo,
em que pesem nossas fragilidades e pequenas divergências...Onde está o crime?’,
concluiu, Antônio José.
O
padre Queiroz já visivelmente irritado com o que o seu penitente acabava de lhe
colocar interveio com autoridade.
-
‘Nem pense em fazer isso. Comunhão é coisa séria. Vocês vivem em situação
irregular perante Deus e perante a igreja. Vocês são ’amasiados’, não casados! Percebem
a gravidade disso?’ afirmou o padre, levantando a voz e se ajeitando na cadeira,
dando a impressão que queria se levantar e não deixar mais que a conversa fluísse
entre confessor e penitente.
-
‘Permita-me, padre, por favor...veja.....queria só lhe colocar o meu ponto de
vista.... deixe terminar o raciocínio...’ balbuciava o desconsolado Antônio, já
observando que o padre havia se levantado e um tanto vermelho no semblante,
andava depositando desordenadamente a sua estola em cima de uma mesinha de
ferro....
A
essa altura Antônio também se levantou e, mesmo com um andar tímido e olhando
de soslaio aquele confessor, se aproximou dele e se colocou na sua frente...
Um cristão especial
-
‘Desculpe-me, padre, mas o que o senhor está falando ofende em primeiro lugar
os ensinamentos do nosso Mestre Jesus e vou lhe dizer o porquê’, começou, agora
com coragem surpreendente, o Antônio.
E
prosseguiu:’ Pelo que sei Jesus na quinta feira da sua paixão deu pão também
para aquele traidor do Judas e aos outros apóstolos que pouco tinham de santo
não recusou nem pão e nem vinho, do mesmo jeito que ele fez ao longo da sua
vida inteira...
Me desculpe padre, pois não quero
ensinar o ‘pai nosso’ ao vigário, mas o senhor deve estar lembrado o tanto de
refeições que Jesus tomava com ladrões públicos, corruptos, fariseus
hipócritas, prostitutas e amasiados e sabe por que, padre’? continuava um tanto exaltado Antônio José, parecendo perder quase o controle.
‘Porque Jesus veio para os pecadores e não para os supostos justos! Porque Jesus acreditava que acolhendo as pessoas e não as rejeitando, elas sairiam daquele encontro fraterno totalmente mudadas! Sei que sou pecador, padre, mas não porque estou vivendo com a pessoa que amo. Mesmo que quisesse regularizar a minha situação, para vocês nem poderia pois, a minha primeira mulher está viva e vivendo com outro. Afinal que culpa eu tenho se ela me largou? Eu tenho que viver casto até à morte dela para poder casar-me com Alcione? O senhor acha que viria aqui e lhe abrir o coração com sinceridade e com boas intenções se não sentisse dentro de mim o desejo verdadeiro de comungar? Um pilantra, padre, não faria isso! Por que me excluir desse jeito? É esse o amor que o senhor prega’?
O
padre Queiroz tentava se encaixar naquele impetuoso monólogo, mas não encontrava
brechas e, talvez, argumentações. Afinal, o padre Queiroz como muitos outros
clérigos só repetia o que lhe ensinaram e aprenderam: não pode, não deve, é
pecado, é sacrilégio, Deus pune, Deus castiga, vai para o inferno....e muitas
outras expressões de condenação.
Finalmente,
o padre Queiroz deteve com um gesto um tanto brusco a fala do Antônio e
fixando-o nos olhos sentenciou:’ prezado, esta é a lei da igreja! Pronto.
Aconselho-lhe a não aparecer para comungar na quinta-feira santa porque terei a
obrigação moral de lhe recusar a hóstia! Falei, pronto’! E saiu,
apressadamente.
Uma Eucarista diferente
Antônio
José sentiu um nó na garganta quase a sufocá-lo. Sabia que não era
arrependimento por ter falado tudo aquilo para um padre. Sentia que era mais fruto
de um desencanto, de uma decepção que não imaginava poder experimentar, um dia. Saiu mansinho, cabisbaixo, da secretaria e se dirigiu para a sua casa. Demorou o dia e a noite toda para
tentar digerir aquele desencontro com o padre Queiroz.
Na
madrugada daquela fatídica quinta-feira santa Antônio José acordou Alcione.
‘Amor,
passei a noite em branco, lutei comigo mesmo, relutei, mas tomei uma
decisão....ou melhor, fiz uma promessa’.
Alcione
visivelmente chateada o olhava incrédula. Afinal, eram as três da madrugada.
-
‘O que foi homem, o que andou inventando’ disse-lhe, ela.
-
‘Não, não... deixa para lá, desculpa....volte a dormir, querida. Desculpa’.
O único e moderno sino da torre da matriz anunciava o início da missa de lava-pés, e nada de Antônio José aparecer. Alcione um tanto desconsolada e preocupada com a ausência do companheiro que havia saído ainda cedo decidiu que já não valia mais a pena esperá-lo e se dirigiu, rapidamente, à igreja matriz que ficava a uns 10 minutos, andando. Ao chegar à praça ficou boquiaberta ao notar que Antônio José já estava lá e ao seu lado três grandes volumes que, na hora, não conseguiu identificar.
-
‘O que aconteceu, querido.... esperei por ti, até agora. O que está fazendo
aqui fora da igreja? Virou vendedor ambulante? O que você tem aí, nesses
bagulhos’? indagou ela.
Antônio
José com um sorriso maroto, mas cheio de luz, retirou a lona de tecido que
cobria os vistosos volumes e, imediatamente, Alcione foi invadida por um agradável
perfume de pão. Ficou estupefata.
-
Onde foi comprar esse tanto de pão? Para que é isso? O que lhe deu na cabeça,
homem? Perguntou com ar de espanto, Alcione.
‘Eu fiz'! disse orgulhoso Antônio José.
E continuou: 'Amor,
depois daquela conversa que eu tive com o padre eu refleti muito....muito
mesmo. Achei que não podia deixar correr tudo aquilo sem nada fazer. Não queria
expor o padre, fazer futrico, polemizar...me entende? Decidi fazer aquilo que eu acho que Jesus
faria numa quinta-feira santa: oferecer, de graça, o pão da compaixão, do
perdão infinito a todas as pessoas que desejam se sentir perdoadas e que se
dispõem a perdoar...
Falei para mim mesmo que toda quinta-feira santa iria produzir o melhor pão da cidade e o ofereceria a todas aquelas pessoas que iriam celebrar a eucaristia na igreja, mas que sairiam de lá sem ter podido comungar. Pessoas que, como nós, são excluidas de comer o verdadeiro pão que sacia a verdadeira fome de amor e de fraternidade.
Aqui estou eu para lhes oferecer
um pão que não exige nem perfeição e nem santidade para ser comido’.
Alcione olhou intensamente Antônio José. Sentia que seus olhos estavam afogando naquelas lágrimas que agora escorriam copiosamente do seu rosto, incapaz de dominá-las.
Depois pegou na mão de Antônio José e lhe sussurrou: ’eu vou ficar aqui contigo e vou te ajudar a distribuir o pão. A partir de hoje seremos dois a pagar a promessa, até que Deus nos der saúde e força’!
Feliz Quinta-feira
santa!
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