Hoje
nos sentimos todos mais ou menos perdidos. A situação de nossa civilização,
assim nos parece, chegou ao seu limite. Perdida nas contradições que ela mestra
criou, dá-se conta de que o corpo de conhecimentos e o arsenal de técnicas que
ela mesma criou, não oferecem soluções que poderiam nos tirar dos graves
problemas que enfrentamos. Temos que mudar ou nas palavras de Sygmunt
Bauman, ”vamos engrossar o cortejo daqueles que estão caminhando para a
vala comum”.
A
civilização atual não nos apresenta um futuro que seja esperançador. Como
advertiu um dos últimos grandes naturalistas franceses Théodore Monod em
seu livro-testamento:”Se a humanidade vier a desaparecer” (Paris
2000):”Seria o justo castigo pelas agressões que por séculos temos infligido à
Terra”. Mesmo assim continuamos esperando o imponderável e o imprevisível, pois
a evolução não é linear, mas dá saltos na direção de ordens mais complexas e
estruturadas ou também numa direção destrutiva. A nossa esperança é que o salto
seja construtivo. Em momentos de impasses como estes, buscamos fontes que nos
inspirem e que apontem para uma alternativa possível. Assim surgem em nossa
consideração os povos originários. Não são “índios”, pois estes não
existem. O que existem são povos com suas culturas, tradições e religiões.
Quando Cabral aportou em nossas terras, havia cerca de 5
milhões de habitantes, agrupados em 1.400 povos, falando 1.300 línguas, a maior
proliferação conhecida na história. Infelizmente devido à dizimação, ocorrida
ao longo de mais de 500 anos, restaram apenas 180 línguas, uma perda da ordem
85%, um dano irreparável para toda a humanidade. Os que sobreviveram, segundo
a ONU, são vários milhões em quase todas as partes do mundo.
Conservam um tesouro de experiências, de sabedoria ancestral e modos de se
relacionar com a comunidade de vida (natureza) que podemos afirmar aquilo que
os Padres da Igreja antiga diziam dos pobres: eles são nossos mestres e
doutores. Efetivamente, eles são isso e sua ancestralidade pode ser o nosso
futuro (Ailton Krenak).
Eles ensinaram aos europeus como viver nos trópicos, a começar por tomar banho, ao menos uma vez ao dia. Mais que tudo nos ensinaram uma integração sinfônica com a natureza. Eles se sentem parte da natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos, como animais, convivem e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são exímios ecologistas. A Amazônia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações originárias que aí viveram e ainda vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de toda floresta amazônica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas de recursos”. Os Yanomami sabem aproveitar 78% das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em conta a imensa biodiversidade da região, na ordem 1200 espécies por área do tamanho de um campo de futebol. Lição para nós: não podemos manter uma relação meramente utilitarista para com a natureza, sentindo-nos fora e donos dela. Mas de convivência sentindo-nos parte dela, cuidando-a e preservando sua integridade e regeneração. Se não aprendermos deles essa lição dificilmente salvaremos nossos biomas, base de nossa subsistência. Os povos originários revelam uma atitude de respeito e veneração por tudo o que existe e vive e vem carregado de mensagens que eles sabem decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela tem braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas, une a Terra com o Céu pelas raízes e pela copa. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa aprender deles, pois vivemos uma radical coisificação da natureza que nos torna surdos e cegos para mensagens que ela nos transmite. Para nossa cultura as coisas são apenas coisas e não símbolos de uma Energia de Fundo, poderosa e amorosa que tudo penetra e sustenta. A sabedoria deles se teceu através da sintonia fina com o universo e na escuta atenta do pulsar da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu e terra, integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar o ser humano com a natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados embora sejam tecnologicamente primitivos.
Essa
sabedoria precisa ser resgatada por nossa civilização dominante, fundada na
vontade de potência e de dominação.
Comerntário - Mal conseguimos escutar os 'nossos' aliados, familiares, amigos, pessoas que estimamos, imaginemos assumir a lógica, a sabedoria, os valores dos povos originários. Resgatar é uma coisa, aderir e adotar a sabedoria alheia é outra coisa....Admiremos, contudo, o idealismo desse grande escritor e teólogo!
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