sábado, 30 de março de 2024

RESSUSCITOU

Desdobra-se no céu

a rutilante aurora.

Alegre, exulta o mundo;

gemendo, o inferno chora.


Pois eis que o Rei, descido

à região da morte,

àqueles que o esperavam

conduz à nova sorte.


Por sob a pedra posto,

por guardas vigiado,

sepulta a própria morte

Jesus ressuscitado.


Da região da morte

cesse o clamor ingente:

'Ressuscitou!' exclama

o Anjo refulgente.


Jesus, perene Páscoa,

a todos alegrai-nos.

Nascidos para a vida,

da morte libertai-nos.


Louvor ao que da morte

ressuscitado vem,

ao Pai e ao Paráclito

eternamente. Amém.Desdobra-se no céu

a rutilante aurora.

Alegre, exulta o mundo;

gemendo, o inferno chora.


Pois eis que o Rei, descido

à região da morte,

àqueles que o esperavam

conduz à nova sorte.


Por sob a pedra posto,

por guardas vigiado,

sepulta a própria morte

Jesus ressuscitado.


Da região da morte

cesse o clamor ingente:

'Ressuscitou!' exclama

o Anjo refulgente.


Jesus, perene Páscoa,

a todos alegrai-nos.

Nascidos para a vida,

da morte libertai-nos.


Louvor ao que da morte

ressuscitado vem,

ao Pai e ao Paráclito

eternamente. Amém.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Quinta-feira santa - Uma estranha 'Páscoa': sem sacerdotes, usando uma mesa, fora do templo/igreja, com pão e sem cordeiro....

 Em geral na quinta-feira santa ao comentar a ‘ultima ceia’ costuma-se repetir e reproduzir conteúdos e informações adquiridas pela catequese tradicional e respaldadas pela teologia clássica. De tanto que são repetidas acabam se tornando um suprassumo um tanto mistificado de supostas ‘verdades históricas e teológicas inquestionáveis’. Daí a importância de recuperar, - lá onde é possível, - a informação histórica minimamente consensual, e de deduzir pelas práticas, costumes e tradições da época de Jesus uma narrativa verossímil......

1. João situa a última ceia no contexto da páscoa hebraica, fazendo-a coincidir. Isso é revelador, pois com isso ele quer nos dizer que a páscoa hebraica a partir daquele momento deve ser substituída pela 'Páscoa de Jesus'. É um claro abandono de uma prática centenária ou, dito de forma mais leve, um complemento essencial à 'velha páscoa'. Novo conteúdo, nova prática!

 3. João nos informa que no contexto da ceia pascal Jesus, a uma certa altura,  levantou, cingiu-se com uma toalha, colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, cumprindo, assim, a tarefa típica dos escravos. O que está por trás disso, e qual, afinal, o seu contexto? Não há nenhuma reprimenda de ordem moral! O pano de fundo era a recorrente e insidiosa disputa dentro do grupo de ‘quem seria o maior’. O que se encontra em outros contextos nos demais evangelhos, em João é encaixado no contexto de ‘ceia-banquete derradeiro’. Afinal, ao redor da mesma mesa, onde todos comem no mesmo prato, não há espaço para lugares e cargos de destaque. Está aí o surgimento de uma estrutura socioeclesial despida de qualquer anseio de caráter hierárquico. Nesse sentido, podemos compreender, então, o porquê da escolha do pão por parte de Jesus para assegurar a sua presença, e não do cordeiro, como a tradição mandava....

4. Jesus não celebra a Páscoa oferecendo o cordeiro sem mancha para ser comido! Para João, evidentemente, o próprio Jesus era o cordeiro. Mas isso é insuficiente para compreender essa escolha. Há uma motivação de fundo extremamente polêmica: os cordeiros sem defeitos e reconhecidos aptos para serem sacrificados - pelo menos no templo - provinham todos das criações do sumo sacerdote que detinha o seu monopólio, como sabe-se, hoje, pelos estudos historiográficos. Além disso, o cordeiro a ser consumido na ceia pascal na sua própria divisão e distribuição era uma fonte permanente de discriminação, pois os melhores e mais tenros pedaços eram reservados aos sacerdotes ou personalidades de destaque como previsto no antigo testamento. Jesus escolhe pão, algo carregado de densa simbologia e que sinaliza, de imediato, igualdade. Afinal, é a mesma qualidade e o mesmo sabor para todos os que dele se alimentam. O pão é mais um elemento que inibe a formação de estratificações, de vantagens e de privilégios numa possível e inaceitável estrutura hierárquica. Do ‘menor ao maior’ todos se alimentam do mesmo pão! Todos somos servidores, indistintamente, mesmo que o serviço a ser realizado seja qualitativamente diferente. Jamais poderá se sentir superior ao outro! Traição, portanto, é renunciar ao serviço e ambicionar poder e privilégios! Traição é acumular o pão e deixar de distribui-lo. 

5. Outro elemento que frequentemente é ignorado é de que o ‘evento ceia’ transcorre não seguindo o ritmo típico de um rito, mas o ritmo de uma ‘atividade doméstico-familiar’. A ceia não se dá num templo, supostamente o lugar sagrado propício para agradar e louvar Deus e, além disso, coordenado por uma elite sacerdotal especializada, mas numa casa particular. Uma casa, inclusive, anônima, talvez para sinalizar que pode-se ‘celebrar, consagrar, servir, partilhar’ na casa de qualquer um de nós, ou seja, de todos! 

6. O grupo de Jesus não se dispõe ao redor de um altar, - espaço próprio para executar o sacrifício liturgicamente adequado, - mas numa mesa, no lugar próprio da comunhão e da partilha existencial fraterna e familiar.  Nesse sentido Jesus passa o limite que separa o sagrado do profano. A Páscoa de Jesus irrompe no cotidiano e se torna ação transformadora permanente e não rito litúrgico pontual num espaço supostamente adequado. Acabou a época dos sacrifícios e oblações e se inaugura a época do pão repartido, para todos e de forma igualitária e fraterna, sem exclusões e sem condições.

7. Outro elemento que é sistematicamente ‘distorcido’ no seu ‘significado’ é o cálice de vinho’. João que apresenta Jesus como o novo Moisés o diferencia, substantivamente, do grande legislador. Moisés aspergiu com o sangue do cordeiro o povo, Jesus oferece o vinho da alegria, do amor fiel e radical. O vinho que os noivos tomavam, solenemente, no dia do casamento-aliança era a demonstração irrefutável do seu recíproco compromisso de se amar até o fim, até o derramamento de seu sangue para preservar a vida do amado/a. A nova aliança em Jesus não se dá a partir da obediência a leis e normas ‘sacerdotais’, - como ocorria no antigo testamento, mas é alicerçada no amor recíproco, no cuidado ao outro/a. É um amor tão grande que a pessoa se dispõe a derramar o próprio sangue para que o outro, o amado/a, viva! É a instituição do martírio, do testemunho radical.

A última ceia nos diz em claras letras que o discípulo de Jesus não pode ser um mero freguês ritualista, cumpridor de preceitos litúrgicos, e sim um ‘ativista eucarístico’, o tempo todo, em todos os espaços, e em todas as circunstâncias. Isso possa ajudar aqueles defensores empedernidos e cultores doentios da lisura/pureza litúrgico-ritual: a mudança de uma palavra por um seu sinônimo, nas ‘palavras da consagração’, por exemplo, não invalida o sacramento, nem nulifica a graça, porque eucaristia é uma ação transformadora continuada, permanente, pautada pelo amor que alimenta, serve e protege pessoas dentro e fora do rito!


quarta-feira, 27 de março de 2024

JUDAS ISCARIOTES, TRAIDOR OU TRAÍDO? Uma hipótese.

Uma premissa se faz necessária, a saber: a narrativa da paixão e morte de Jesus é estritamente teológica e catequética. Não há como tomá-la como base fidedigna para dados e informações históricas. Por outro lado, não podemos, tampouco, descartar integralmente tudo o que acolá é descrito e narrado. Em outras palavras, mesmo não tendo garantia cientifica da exatidão dos acontecimentos, dos ditos e fatos narrados nos quatro evangelhos é possível colher, ‘grosso modo’ o clima de fundo e o entrelaçar-se de conspirações, armadilhas, subterfúgios e traições que marcaram os últimos dias de Jesus. Um aparte merece ser reservado, hoje, - a partir da leitura do evangelho proposta pela liturgia (Mt. 26,14-25), - ao papel do apóstolo Judas Iscariotes. Muito se tem escrito e especulado sobre o movente da sua suposta traição ao Mestre de Nazaré. Proponho, com muita liberdade e sem pretensões de cientificidade histórica a minha humilde interpretação, a partir do que ocorre no nosso cotidiano de humanos... 

Ouso acreditar que o apóstolo Judas, traiu Jesus por ter sido, no fundo, ludibriado e traído por Ele. Jesus escolheu Judas para fazer parte do seu grupo porque certamente viu qualidades dignas de um apóstolo-seguidor do Seu grupo e da Sua causa. Judas não era uma pessoa anônima e sem expressão. Não há como duvidar que os dois devessem ter tido a possibilidade de se conhecer bastante, e trocar ideias sobre o presente e o futuro da nação Israel e o que poderia ser feito a respeito. Não temos porque duvidar quanto à clareza fundamental da exposição de motivos e de objetivos por parte de Jesus e que iriam nortear as ações do grupo do Rabi. Tampouco, não temos motivos para duvidar da capacidade de compreender e aceitar o todo por parte de Judas. Algo deve ter se quebrado na relação entre os dois ao longo da breve convivência...

    Conhecendo, embora superficialmente, as origens e as expectativas ocultas de Judas Iscariotes, - um proativo zeloso (zelota) da integridade e da soberania de Israel, pelo que sabemos – ele deve ter intuído, progressivamente, o evidente distanciamento de Jesus em adotar, claramente, a estratégia de confronto direto, radical e armado contra os romanos, principalmente, que Judas imaginava, desejava e esperava. Poderíamos dizer que Judas se decepcionou com Jesus por Ele ter se desviado do seu original objetivo que era ‘reconstruir o novo Israel’ e implementar ‘a governança de Deus’, e não a dos romanos. Judas alimentou dentro de si, - mesmo sem ter tido, sinais evidentes para confirmá-lo, - expectativas sociopolíticas que não foram atendidas pelo Mestre. A decepção psicológica que cria um forte sentimento de frustração ocorre quando idealizamos, sobremaneira, o outro. Quando, de forma acrítica, o colocamos num pedestal alto demais, esquecendo-nos que o outro também é humano, falho, frágil e que pode fazer escolhas que, para nós, parecem incompreensíveis, mas que, não por isso, se tornam ilegítimas. É difícil comprovar tal hipótese, mas me parece não totalmente descabida. É só analisar o nosso comportamento no nosso cotidiano, nas nossas relações interpessoais onde de forma consciente ou inconsciente projetamos no outro expectativas, qualidades, sonhos que, fundamentalmente são nossos, e não dele! Sem falar no fato de que numa relação nunca é uma pessoa só que muda, ou seja, o outro pode ter mudado demais em relação àquilo que aparentava ou afirmava inicialmente, mas certamente, nós também, na convivência acabamos ‘forçando a barra’ para que o outro se encaixe nos nossos esquemas e categorias. 

E, como muitas vezes ocorre numa relação amorosa um tanto neurótica, quando um grande amor se sente traído desponta o desejo insano de ‘destruí-lo’. Judas, certamente, amou e admirou, sobremaneira, Jesus, a ponto de querer destruí-lo quando teve a percepção subjetiva de que o Rabi havia distorcido tudo e se desviado do seu projeto original de ‘instaurar um novo reinado’ que, tragicamente, naqueles dias, em Jerusalém, já estava fadado ao fracasso. 


VIENI FUORI, ADESSO!

 VIENI FUORI DA UN SEPOLCRO-VITA.....

....dove non c’é piú luce e troppo stretti e tenui sono gli spiragli per contemplare il bagliore delle stelle altrui;

....dove le lacrime salate del tuo sconosciuto dolore ti innondano e affogano la tua superstite speranza in un indecifrabile malore;

....dove il disgustoso odore di necrosi che invade le tue narine corrompe e consuma ogni ambizione e mania di apoteosi;

...dove non ci son piú sorrisi, né sussurri, e nemmeno affetti di amici e di famigliari che fan sognare e amar, diletti;

...dove la neurosi recalcitrante dei guerrafondai di destra e di sinistra non risparmia, incalzante, neppure bambini e giardini ripieni di gelsomini;

...dove ‘dio’ é invano idolatrato, e da despoti dell’ordine e da imprenditori della fede é sacrilegamente manipolato;

VIENI FUORI, adesso, perché oltre al tuo esistono altri sepolcri aspettando che compassivi umani rotolino la pietra e liberino il nuovo uomo e la nuova donna che lá vivono come prigionieri desumani.

VIENI FUORI, adesso, finché puoi, e esci dall’oblio del tuo sepolcro perché né l’ombra dei cipressi e né il pianto dei depressi tornerá meno duro il sonno della morte che ti viene incontro.

                     RINASCI, E FÁ RINASCERE! 


sábado, 23 de março de 2024

SEMANA SANTA - CRUCIFICADORES E CRUCIFICADOS

Queiramos ou não no nosso dia a dia atuamos como intolerantes e cruéis crucificadores de pessoas. E, simultaneamente, podemos fazer a experiência de sermos ou sentirmos que nós mesmos somos crucificados, quando somos vítimas do ódio e da brutalidade alheia. Este aparente paradoxo o carregamos dentro de nós, como um fardo pesado e quase maldito de culturas milenares que reproduzimos e alimentamos.  Como se fosse algo inato, próprio da natureza biológica hominídea. Às vezes, parece que a nossa capacidade de controlar e dominar impulsos destrutivos, e de analisar e disciplinar comportamentos e decisões, nos ofereça a ilusão de superar esse binômio crucificador-crucificado, mas, afinal, mais uma vez, constatamos que nossas recaídas se tornam sempre mais frequentes. Acabamos, no fim, aceitando essa contradição existencial aparentemente estruturante do nosso ser social. 

    A Semana Santa que estamos a iniciar parece reproduzir ‘ad infinitum’ e, até, fortalecer a visão-prática binária crucificador-crucificado. No entanto, ela deveria, na realidade, nos oferecer uma visão-prática diametralmente oposta. A dinâmica das celebrações e os conteúdos próprios previstos nas celebrações, longe de conformar as pessoas em acolher quase que fatalmente a indissociável coexistência na mesma e única pessoa de um ser crucificador e de um ser crucificado, nos convida, ao contrário, a desvendar e a desmascarar quem são, hoje, de fato, os verdadeiros crucificadores com capacidade de produzir, estender e multiplicar morte, sofrimento, dor, destruição em grande escala. Não se trata, portanto, de negar que dentro da mesma pessoa existem obvias contradições, e uma inegável coexistência entre energias positivas e outras negativas, mas de identificar, isso sim, quem adquiriu força e poder de grande porte para canalizar energias destrutivas e cooptar mais pessoas para serem soldados subalternos a serviço da morte, da intolerância, do ódio como um verdadeiro ideal de vida, ou uma espécie de filosofia-espiritualidade que motiva e desperta para o ativismo espiritual destruidor, maléfico, crucificador de vidas. Concretamente, a semana santa deveria nos tornar mais perspicazes em identificar e combater os Pilatos, os Herodes, o Sinédrio, e setores da massa alienada e sedenta de sangue. Diante dos terríveis extremismos e polarizações inegáveis dentro da própria igreja, não há mais espaço para celebrar a semana santa de forma intimista e devocional. Com efeito, há no seu seio grupos de batizados que fazem verdadeiras cruzadas para ‘crucificar’ aqueles que já não chamam de irmãos ou amigos, e sim de hereges, comunistas, cismáticos heterodoxos. São aqueles falsos seguidores de Jesus que não aceitam o Crucificado derrotado e humilhado de Nazaré que praticava, compreensão, tolerância, compaixão. Eles são verdadeiros soldados de um exército que está permanentemente pronto a deflagrar verdadeiras batalhas espirituais em nome de um projeto político conservador e violento em que a reencarnação de Pilatos, Herodes, sumos sacerdotes e extremistas da massa alienada entraram em suas mentes e corações, dominando e manipulando. Não há como não ver neles, hoje, a ação assassina dos crucificadores de ontem. 

Não há mais como contemplar no Crucificado inerme, solitário, abandonado de ontem os crucificados de hoje espalhados pelos cinco continentes. Muitos deles, mesmo perseguidos e caluniados teimam em construir e tecer pequenas e aparentemente frágeis redes de resistência e solidariedade. São dignos continuadores da inconformidade daquelas poucas mulheres que teimavam ir ao sepulcro, acreditando que, um dia, aquele lugar de morte, sem o cadáver do crucificado, iria emanar uma luz e uma esperança jamais imaginada! Continuemos a ser ‘pacíficos combatentes’. de uma ‘causa vencida’!


sexta-feira, 22 de março de 2024

Crescimento da dengue está relacionado com desmatamento e crise climática, diz estudo da Fiocruz

A incidência cada vez maior da dengue em áreas onde antes a doença era incomum está diretamente relacionada com as constantes ondas de calor causadas pelas mudanças climáticas e a ocupação humana crescente de áreas recém-desmatadas. Essa é a conclusão de um novo estudo por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e divulgado na semana passada na revista Scientific Reports. O estudo utilizou técnicas de mineração de dados para identificar indicadores climáticos e demográficos que pudessem explicar o crescimento do número de casos de dengue nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. De acordo com a análise, a ocorrência de anomalias de temperatura por período prolongado, em especial ondas de calor, associado com a urbanização e o crescimento populacional de áreas antes ocupadas por vegetação, seriam os principais fatores que resultaram no aumento da incidência da doença entre 2014 e 2020.

“No interior do Paraná, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul, o aumento de temperaturas está se tornando quase permanente. A gente tinha cinco dias de anomalia de calor, agora são 20, 30 dias de calor acima da média ao longo do verão. Isso dispara o processo de transmissão da dengue, tanto por causa do mosquito [Aedes aegypti] quanto pela circulação de pessoas”, explicou Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz e um dos autores do estudo. Além do calor acima da média, o avanço do desmatamento, principalmente no Cerrado, vem favorecendo a proliferação da dengue no Centro-Oeste brasileiro. “Nessas regiões que estão sofrendo com altas de temperatura, também temos visto um desmatamento muito acelerado. E dentro do Cerrado, há as cidades que já têm ilhas de calor, áreas de subúrbio ou periferias com péssimas condições de saneamento, tornando mais difícil combater o mosquito”, afirmou Barcellos. Folha e O Globo deram mais informações sobre o estudo.(IHU)


Câmara derruba proteção a campos naturais e expõe 48 mi de hectares a desmate

Nesta quarta-feira (20), a Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, por 38 votos a 18, o substitutivo ao PL 364/2019, que elimina a proteção ambiental da vegetação nativa nas chamadas “áreas não florestais” em todo o país. O projeto – de autoria do ruralista Alceu Moreira (MDB-RS) e relatado pelo também ruralista Lucas Redecker (PSDB-RS) – expõe campos nativos em todos os biomas brasileiros à conversão para expansão agrícola. Cerca de 48 milhões de hectares dessas áreas em todo o país – uma extensão maior que o Paraguai – ficarão sujeitos ao trator. Como o projeto tramitou em caráter terminativo, deve ser encaminhado diretamente ao plenário do Senado. O texto só será apreciado no plenário da Câmara caso um recurso seja aprovado pela maioria dos deputados que votaram pela sua aprovação – ou seja, a chance é baixa.

A bancada ruralista argumentou, durante a votação, que o projeto não teria “qualquer relação com desmatamento” e que “nenhuma árvore seria derrubada”. Segundo os representantes da Frente Parlamentar Agropecuária e seus aliados, o projeto se destinaria apenas a “flexibilizar” as áreas de proteção ambiental para permitir a expansão agropecuária nos chamados campos de altitude da Mata Atlântica. O texto, no entanto, prevê que as áreas caracterizadas como não florestais em todo o país possam ser exploradas sem restrições, mesmo que guardem vegetação nativa. O único critério restritivo é que tenham sido utilizadas para plantio até julho de 2008. O projeto original retirava a proteção os campos de altitude, que representam menos de 5% da área total da Mata Atlântica, da lei que protege o bioma, e criava novas regras de proteção. O substitutivo apresentado altera a legislação ambiental brasileira e coloca todas as áreas de campos nativos na fogueira.

“O PL 364/2019 é a maior das boiadas contra todos os biomas brasileiros. Libera o desmatamento em todo o país para defender interesses privados. E com o falso argumento de que nenhuma árvore será derrubada, ignora a importância dos campos nativos e das formações não florestais que abrangem 50,6 milhões de hectares no Brasil [considerando, além dos campos nativos, áreas não florestais como as alagadas e de restinga]. É um ataque grave contra as agendas do clima, da água e da biodiversidade. Um atentado contra os nossos patrimônios naturais que recoloca o Brasil na contramão do mundo”, afirmou Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica. Segundo nota técnica da organização, considerando apenas campos nativos o projeto desprotege 50% do Pantanal (7,4 milhões de hectares), 32% dos Pampas (6,3 milhões de hectares), 7% do Cerrado (13,9 milhões de hectares) e quase 15 milhões de hectares na Amazônia. Somando-se os 5,4 milhões de hectares expostos na Mata Atlântica, o total de campos nativos vulneráveis ao desmatamento chegaria a 48 milhões de hectares. (IHU)