sábado, 27 de dezembro de 2025

SOLENIDADE DA SAGRADA FAMÍLIA - NÃO A FAMÍLIA COMUM E NUCLEAR, MAS A PLANETÁRIA É QUE ESTÁ SE DERRETENDO!

 

Proclama-se a tríade de Nazaré como uma família sagrada e perfeita, mas dificilmente poderemos nos identificar com algo perfeito. Trata-se, então, de recuperar, sem maquiagens, o ‘comum e o real’ que caracterizava a família de Nazaré. E, ao descobrir sua plena ‘humanidade’, aprender a valorizar a beleza, e a corrigir as rugas e rusgas da nossa família imperfeita e comum! O pai de Jesus não era o seu pai biológico, mas José o amou como se dele fosse. Maria aos olhos humanos não passava de uma ‘mãe solteira’, destinada a ser apedrejada. Entretanto, ela amou e foi fiel àquele noivo que tinha a obrigação legal de denunciá-la por ter se sentido traído por ela. Os evangelhos nos informam que Jesus tinha outros irmãos e expõem seus nomes (Mc.6,3). Que fossem irmãos biológicos ou não tem pouca importância. Afinal, Jesus vinha declarando em alto e bom som ‘que mãe, irmãos e irmãs são todos aqueles que ouvem a Palavra e a põem em prática’ (Lc.8,21). Jesus vai além da família nuclear, e a de sangue, e nos catapulta no seio da família planetária onde temos um Deus que é Pai e Mãe de todos, ao mesmo tempo! Devemos nos perguntar, hoje, se as nossas estruturas sociofamiliares ainda proporcionam acolhida, proteção, ternura, respeito aos seus membros, ou se, ao contrário, no seu crescente individualismo, e alucinada intolerância, com criminosas tendências fratricidas, abdicou a tudo isso. Não é mais, ou não só, a família nuclear que está em jogo, ou em crise. É a família planetária que está se autoexilando de si mesma e autodestruindo! 

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Rigidez litúrgica ameaça uma sadia inculturação e revela rigidez mental e moral


Torna-se bastante frequente em muitos ambientes eclesiais as disputas e polêmicas sobre a estreita observância de ritos e fórmulas. Há grupos e celebrantes que consideram a liturgia formal como algo cristalizado e imutável, e não como um auxílio para tentar inculturar e atualizar o ‘mistério’. Como se identificar, por exemplo, com aquelas ‘coletas e orações padronizadas’ todas iguais para toda a igreja universal, incapazes de expressar, inclusive, o tema próprio da palavra de uma determinada celebração? Ao fazer uma oração mais adaptada ao tema litúrgico estaria aquele sacerdote ou ministro invalidando a missa, ou atacando algumas verdades de fé? Quantos constrangimentos quando um presidente da celebração interrompe a assembleia e enfaticamente reafirma que ‘somente o padre pode pronunciar’ aquela determinada invocação. Imagina aquele celebrante ou os fervorosos da liturgia formal que ao pronunciar juntos a oração poderiam invalidar o que ele está a rezar? É inegável o crescimento de uma perigosa rigidez litúrgica e de uma submissão cega às fórmulas, preces, orações que inviabilizam os raros e tímidos esforços de tornar a liturgia sempre mais ‘fons e culmen’, ou seja, ‘fonte e ápice’ da ação eclesial, como nos lembra a ‘Sacrosantum Concilium’ do Concílio Vaticano II. Imagino, de repente, Jesus que vai ao templo não para rezar, mas para condenar as ‘longas orações’ dos escribas e os ridículos palavreados dos fariseus hipócritas que assaltavam as casas das viúvas...e imaginavam que ao pronunciar corretamente uma fórmula as coisas iam acontecendo....magicamente!


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL É DESCOBRIR A AUTÊNTICA ESSÊNCIA E MISSÃO DOS HUMANOS-DIVINOS

 

O planeta terra em suas etapas evolutivas já foi dominado e controlado pelos dinossauros. Eles eram os senhores, até a vinda de um enorme meteoro que os fez desaparecer. Hoje o planeta Gaia é dominado e controlado por quase 9 bilhões de hominídeos, com vocação autodestrutiva. O conjunto deles achou por bem se autodenominar ‘humanidade’. Termo que pode ser sinônimo também de ‘pessoa sensível, compreensiva, respeitadora, acolhedora, colaborativa, generosa...’ Enfim, uma ‘pessoa não animal, a saber, uma pessoa que não seja bruta, insensível, violenta, abusadora, irracional, destruidora...como o senso comum determina. Parece, no entanto, que o termo ‘humanidade’ (que vem de humus-terra) acaba ocultando o ‘animal’ que persiste no ‘humano’ e, principalmente, a sua 'origem primordial'. Talvez o Natal venha, mais uma vez, para alertar e despertar dentro do ‘humano-animal’ o DNA do seu Criador para ele tomar consciência de que o ‘divino’ que nunca desgrudou da sua estrutura genética tem o poder de fazer reemergir no planeta a sua real essência e missão: o ‘humano sensível, compreensivo, compassivo, generoso, colaborativo, construtor de vida...o 'homo-Deus.’ Que os ‘humanos-divinos’ que ainda se comovem ao contemplar o ‘divino-humano’ que nasce e renasce entre os humanos, ajudem a transformar o planeta a descobrir a sua única e verdadeira vocação: SERMOS HUMANOS, NADA MAIS DO QUE HUMANOS, DIVINAMENTE HUMANOS! FELIZ NATAL!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL É DESVELAMENTO DO PODERIO DA LEI QUE ESCRAVIZA CONSCIÊNCIAS E CORPOS - BREVE REFLEXÃO SOBRE GÁLATAS 4, 4-5

 

Existe um Natal que é o resultado de obsoletas convenções sociais e religiosas, de tradições e de devoções que, embora não sujeitas a um julgamento valorativo, pouco acrescentam ao nosso desejo de dar qualidade e sentido à nossa existência. Há, contudo, o Natal das significações. Ele representa a sincera tentativa de operar um verdadeiro processo de desvelamento e descobrir o que existe por trás de um acontecimento histórico, - e não de um mito, - como é o nascimento de Jesus de Nazaré.

É verdade: nada existe ao estado puro, tudo interfere no todo e, por sua vez, tudo se conecta com o todo. No entanto, o nosso esforço, nesse contexto, deveria ser o de ir além das aparências, dos inevitáveis mascaramentos natalinos, das manjadas interpretações de circunstância (nascimento biológico de Jesus, num humilde casebre, longe da cidade, do palácio e do templo, num contexto político específico de dominação territorial, de cadastramento dos contribuintes, etc.) no intuito de captar e adotar aquela significação natalina que para nós, hoje, aqui, é a mais iluminadora. Aquela que nos permite assumir um novo olhar sobre a nossa existência e, de consequência, nos motiva para uma nova prática, um inédito agir que se dissocia do anterior. São Paulo em sua carta aos Gálatas nos diz que “chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob o poderio da Lei, para libertar os que eram escravos da Lei, para que recebamos adoção de filhos”( Gal 4, 4-5). E, uma vez conscientes de que somos filhos livres e não escravos podemos perceber que o Espírito do seu Filho Jesus habita em nós e ele grita ‘Abá’. Dessa forma, com o Espírito do Filho dentro de nós, nos libertamos dos grilhões da escravidão da lei e, portanto, nos tornamos, nós também, como o Seu Filho, filhos e herdeiros do mesmo Pai. 

Mas qual é e de onde vem  a força mistificadora da lei que nos escraviza? É a lei em si ou o poder que lhe foi outorgado que se torna capaz de dominar o nosso espírito? Uma lei feita por quem, afinal? Não era certamente a lei que inspirada pelo princípio da equidade garantiria direitos. Era a lei elaborada no calar da noite pelos senhores do direito e dos preceitos, fruto de nebulosas negociações, de conchavos, e não de consensos. De imposições, e não de persuasões. E como a elite legisladora sacerdotal não tinha ‘força moral’ própria para exigir a sua submissão acrítica e obediente ela utilizava o nome de Deus como suposto ‘fundador e inspirador’ para impô-la ao povão. Uma vez consagrada como ‘lei divina’ ela se torna incontestável e totalizante. Estão lançadas as bases para justificar o domínio da lei, que é humana, falível, reformável, embora carregada de conotações sagradas, supostamente inquestionáveis. É aqui que podemos descobrir as raízes da verdadeira significação do Natal para o nosso contexto específico: Jesus gerado e educado na lei, ao se libertar do ‘jugo da lei formal e interiorizada’, a ultrapassa, e age com um verdadeiro emancipador ao desvendar as armadilhas da sua pretensa sacralidade e absolutização. Torna-se, Ele próprio, um permanente infrator da lei formal com o intuito de libertar pessoas que, embora formalmente livres, viviam como escravas da lei e, permanentemente, segregadas e excluídas do convívio social. 

O nosso olhar, portanto, inspirado em Jesus não pode ser o da formalidade legal (legalismo)pura e simplesmente, ou da mera justiça distributiva, por exemplo, tão injusta e cega, e sim, assumirmos o desafio de adotar a lógica e a metodologia da equidade. Nela somos continuamente solicitados a olhar com humanidade e sensibilidade as diferentes realidades, e a agir de acordo com as necessidades específicas de cada um. Não existe nada de mais injusto do que tratar todos de forma igual. Não há como negar mais apoio e mais compaixão àquele que vive mais abandonado e mais desprotegido. O Natal não vem para consolidar o que repetimos e celebramos automática e acriticamente, mas para nos libertar de modelos, categorias, formulações que mantêm o nosso olhar e sentir presos e cativos. O Natal de Jesus, como Ele, nos convida a superar os sentimentos de culpa por nos sentir infratores de leis e preceitos humanos que só visam a manutenção e a dominação de consciências e corpos. Sejamos infratores libertos e libertadores!  

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Extração ilegal de madeira cresce 44% em Áreas Protegidas da Amazônia Legal

 

Relatório anual mostra que a atividade fora da lei caiu em imóveis rurais, enquanto aumentou em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. A extração ilegal de madeira na Amazônia Legal ganhou novos contornos. Dados da Rede Simex, iniciativa do Instituto Centro de Vida (ICV), em parceria com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), sinalizam uma migração da atividade criminosa de propriedades privadas para áreas de status de proteção superior.

De acordo com um mapeamento divulgado na 5ª feira (18/12), no período de agosto de 2023 a julho de 2024, houve um aumento de 44% na exploração madeireira ilegal em Áreas Protegidas (APs), em comparação com o levantamento anterior. Nas Terras Indígenas, Unidades de Conservação e assentamentos rurais, a exploração ilegal aumentou 24%, 184% e 66%, respectivamente. exploração madeireira ilegal em imóveis rurais corresponde a 53% do total registrado. No entanto, houve uma queda de 39% de agosto de 2023 a julho de 2024 em comparação com o período imediatamente anterior, detalha a Folha. De modo geral, foram explorados 328 mil hectares de florestas nativas para fins madeireiros na Amazônia no período — uma redução de 10,5% em relação ao estudo anterior. Desses, 69% foram autorizados pelos órgãos competentes. Nessa fatia, a queda na atividade foi de 6%. Já entre os 31% ilegais, houve uma redução de 19% em relação ao ciclo anterior. O estado de Mato Grosso, que concentra 58% do total da atividade (entre legal e ilegal), segue na liderança, com 6 dos 10 municípios e Áreas Protegidas onde foram identificadas as maiores áreas de extração não permitida. Entre esses locais, quatro são TIs e duas são UCs — entre elas, o Parque Estadual Tucumã, de proteção integral.

O Amazonas passou o Pará e assumiu a segunda posição entre os estados com maior atividade de extração ilegal de madeira na Amazônia Legal, informa o RealTime1. Já em Roraima, de acordo com o g1, pela primeira vez desde 2022 a área de extração legal superou a ilegal, com 54% do total. Segundo o estudo, 90% da exploração legal ocorreu em imóveis rurais privados.A pesquisadora do Imazon, Camila Damasceno, considera a migração da extração ilegal de madeira para Áreas Protegidas “significativa e preocupante”. “Nos chama a atenção que essa madeira está sendo retirada de Áreas Protegidas em Mato GrossoAmazonas e Pará, e 53% da exploração ilegal se dá em imóveis rurais, ou seja, a gente tem como chegar aos autores”, pondera. Na avaliação da especialista, à medida que os recursos madeireiros se esgotam nos imóveis privados, os exploradores migram para áreas de conservação, onde há mais árvores. (A informação é publicada por ClimaInfo, 18-12-2025.)

 

 

Vitória parcial: STF rejeita marco temporal, mas lei segue com riscos a direitos indígenas

 

Pela segunda vez, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para declarar que a exigência de um marco temporal para demarcação de terras indígenas viola a Constituição Federal. A mais recente confirmação da inconstitucionalidade do marco, tese mobilizada por algumas entidades ruralistas para tentar restringir o direito indígena à demarcação de terras, é uma vitória por reafirmar o que diz a Constituição e enfraquecer um discurso que tem alimentado conflitos fundiários.Mas não se trata de uma vitória plena, segundo advogados indígenas ouvidos pela Agência Pública. Isso porque a maioria dos votos dos ministros mantêm outros pontos da Lei do Marco Temporal (lei 14.701), aprovada pelo Congresso em outubro de 2023, que são considerados preocupantes por esses advogados, por associações do movimento indígena e pelo próprio Ministério dos Povos Indígenas por ameaçarem os direitos desses povos.

Até esta quinta-feira, dia 18 de dezembro, oito dos dez ministros já haviam votado no julgamento das quatro ações sobre a Lei do Marco Temporal. Apesar dos protestos do movimento indígena, o julgamento está sendo realizado em plenário virtual – sem debate entre os ministros. O formato virtual é apenas a última entre uma série de críticas do movimento indígena e de entidades indigenistas em relação à maneira com que o tema vem sendo tratado no Supremo. Para complicar ainda mais, dias antes do início do atual julgamento, em mais um movimento de retaliação contra a Corte, o Senado Federal aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição que coloca o marco temporal na Carta Magna. A PEC ainda precisa ser analisada pela Câmara, mas, caso aprovada, deve ser também questionada no STF.

“Existe uma confusão em relação a como tudo isso vai se resolver no Supremo”, disse Terena, lembrando os recursos a serem analisados sobre o caso do povo Xokleng, relatado pelo ministro Edson Fachin, que agora preside o STF. “Agora que ele é presidente, ele poderia [pautar], mas parece que há uma indisposição de fazer isso. O resultado do julgamento pode ter consequências para todo país, considerando a importância cultural, ambiental e climática das terras indígenas. “Os territórios dos povos indígenas são as regiões com os menores índices de desmatamento, correspondendo ao percentual de 1% no período entre 1985 e 2022, segundo o estudo do MapBiomas. As comunidades indígenas são verdadeiros defensores dos biomas, e as terras indígenas, as principais barreiras de enfrentamento à crise climática. As consequências dessa decisão, dessas ações, serão sentidas pelas próximas gerações”, afirmou Ricardo Terena, advogado da Apib, durante o julgamento.

Marco temporal ignora expulsões do passado e causa violência no presente

Até agora, todos os ministros acompanharam o entendimento de que o estabelecimento de um marco temporal para a realização das demarcações de Terras Indígenas é inconstitucional. A Constituição estabelece que os povos indígenas possuem direito “originário” às terras tradicionalmente ocupadas por eles, precedendo qualquer outro direito. Além disso, em nenhum momento o texto constitucional estabelece limitações temporárias ou geográficas para reconhecer um território indígena, apenas determina que cabe à União demarcá-los e protegê-los. Já o marco temporal, criado pelos congressistas, cria um obstáculo à concretização desse direito por determinar uma data, a promulgação da Constituição de 1988, como parâmetro para a demarcação de territórios indígenas. A regra ignora o fato de que muitos povos indígenas foram expulsos de seus territórios originais pelo próprio Estado ao longo da história brasileira, como na época da ditadura civil-militar. Por isso, eles não teriam como comprovar sua presença na data da Constituição.

Insegurança jurídica: lei impedia demarcações

A vigência da Lei do Marco Temporal vinha impedindo a demarcação de vários territórios indígenas. Em entrevista à Pública em outubro, a ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara falou sobre esse problema, ao explicar que vários processos aguardavam a análise do Ministério da Justiça, um dos órgãos envolvidos nas últimas etapas de uma demarcação, que não podiam ser concluídos. “Tem uma lei hoje que realmente impede o avanço de alguns territórios”, disse Guajajara na ocasião. Ao travar a demarcação, o marco temporal também gerou consequências graves para os povos indígenas, acirrando a violência contra eles. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) reforçam esse cenário de violência. Segundo a entidade, os povos indígenas foram as principais vítimas de conflito de terra no país no ano passado, concentrando 29% de todos os conflitos. “Nos últimos meses, os relatos das terras indígenas revelam uma escalada brutal de ataques. As mais afetadas são mulheres, crianças e anciãs. Foram denunciados incêndios de casas de reza, perseguições dirigidas à lideranças, expulsões e a instalação de um medo permanente que desestrutura famílias e comunidades inteiras. A lei, ao abrir brechas para revisões territoriais e restrições indevidas, funciona como combustível para conflitos em áreas já vulnerabilizadas. Não estamos diante de um debate doutrinário abstrato. É um sofrimento concreto, mensurável em corpos, memórias, territórios e espiritualidades”, disse Maíra Pankararu na sessão do julgamento.“Quando o STF impõe a leitura correta da Constituição, há um freio imediato nos atores que, até então, se sentiam empoderados pela indefinição ou pela expectativa de retrocesso. Isso não elimina a violência da noite para o dia, mas reduz a margem para que ocupantes irregulares se sintam legitimados a permanecer, pressionar ou confrontar comunidades indígenas”, explicou Pankararu.

Pontos que o STF não resolveu segundo advogados e entidades

Ainda assim, vários pontos da lei mantidos pela maioria dos ministros causam preocupação, como o enfraquecimento da consulta livre, prévia e informada, a complexificação do processo demarcatório, a celebração de contratos para atividades econômicas nos territórios entre indígenas e não-indígenas e a possibilidade de antropólogos serem impedidos de atuar nos processos. Esses dois últimos, porém, foram alvo de ressalvas pelos ministros Dino e Zanin e de divergência pelo ministro Fachin. Uma decisão final sobre eles só será conhecida no acórdão. Há, ainda, um temor de que outros pontos da lei, mantidos no julgamento, acabem por premiar invasores e ocupantes de terras indígenas, como é o caso do pagamento de indenização por benfeitorias. Segundo a lei, são consideradas de “boa-fé” e, portanto, indenizáveis, todas as benfeitorias realizadas pelos ocupantes “até que seja concluído o procedimento demarcatório”. “Vejam o efeito prático disso: alguém que invade terra indígena faz benfeitorias e aguarda. Esse invasor terá direito de permanecer na terra enquanto a demarcação não for concluída. Se for concluída, porque a lei cria obstáculos, terá suas benfeitorias presumidas de boa-fé e será indenizado. A lei premia a grilagem, incentiva a invasão, transforma o ilícito em investimento”, defendeu a advogada Nara Sampaio, do PDT, durante o julgamento.

Para a Apib e para o MPI, algumas dessas determinações podem complicar os processos demarcatórios, assim como outros pontos da lei que seguem valendo. Como a possibilidade dos estados e municípios além de terceiros participarem no processo de demarcação ainda nas fases iniciais, o que, segundo a Apib, “facilita contestações, tornando o processo mais lento”. “É dever do Estado brasileiro remover os obstáculos que impeçam a desintrusão de território indígena, cujo cumprimento não pode depender de juízos casuísticos e tampouco da adoção de critérios vagos como proporcionalidade, utilidade pública e interesse social, facilmente capturáveis por interesses políticos e econômicos”, apontou Fachin. O ministro Flávio Dino já apontou para essa possibilidade em seu voto. Segundo ele, propostas de emenda constitucional que pretendam introduzir o marco temporal são “materialmente inconstitucionais, pois atingem o núcleo essencial dos direitos fundamentais”. “O Poder Legislativo não pode, sob qualquer pretexto, suprimir ou reduzir direitos assegurados aos povos indígenas, sob pena de ofensa aos princípios estruturantes do Estado Democrático de Direito”, afirmou Dino. (IHU)

sábado, 20 de dezembro de 2025

IV Domingo de Advento - E AGORA, JOSÉ?


‘E agora, José? A festa nem começou, a luz nunca ligou e o povo, na espreita, já julgou. Está com mulher, ela está grávida, sim, mas não de você! Adiantaria gritar e se revoltar, José? E se você fugisse, para onde iria?’ O seu drama, José, afinal, é o nosso, também. As suas dúvidas e angústias são as nossas, também. Sonhamos, idealizamos, nos aprontamos, mas a decepção, o desencanto, o abandono, a traição ferem quase mortalmente a nossa alma. Ficamos atordoados, como você, José, e sem saber qual o caminho a seguir. Muitas vezes, diferentemente de você, José, não temos um anjo do Senhor que venha a acalmar a nossa alma ou a alumiar a nossa noite escura. E agora, José, o que vamos fazer? O tempo urge para nós, José. Precisamos decidir: ou ficamos do lado do poder e da força da lei que manda apedrejar ‘as geradoras de vida infratoras’ ou nós as assumimos como nossas parceiras prometidas e as amamos visceralmente como se nosso fosse o filho da esperança que nelas repousa. Ninguém irá decidir por nós, José!  Às vezes é melhor trair a lei, José, e sermos fiéis às pessoas amadas, mesmo quando nos sintamos traídos por elas. O amor tudo salva, tudo perdoa, tudo cura, tudo compreende. José, não tenhamos medo! Algo novo pode estar surgindo a partir do nosso PEQUENO GRANDE gesto de amor!


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

III Domingo de Advento - É preciso entrar na lógica da 'nova governança' de Deus-Pai, inaugurada por Jesus, caso contrário, permanece no Antigo Testamento!

 

É um grande equívoco achar que hoje é mais difícil enganar alguém, supostamente por existirem formas sofisticadas de desmascaramento. Promessas vazias ainda iludem muitos ingênuos, e as Fake News continuam a desvirtuar uma realidade que, aparentemente, parece inegável. Jesus de Nazaré, já dois mil anos atrás, não só ‘falava a verdade’ como ‘fazia a verdade acontecer’. Na narração evangélica de hoje, a uma comissão enviada por João para saber se Jesus era o enviado ungido, o Mestre não responde com peças de autopropaganda ilusionistas. Ele lista ações concretas que provam a adoção definitiva da compaixão e do cuidado misericordioso para com as ‘ovelhas feridas, humilhadas e desgarradas’ da nação. Jesus rejeita, assim, a metodologia assumida pelos radicais nacionalistas forçavam pela violência e a manipulação a ‘Governança de Deus’, e se escandalizavam pelas opções de Jesus. Jesus, diferentemente deles, inaugura o ‘verdadeiro modo de administrar do Pai’ que faz da graça e da acolhida ilimitada dos esquecidos e dos pequeninos o seu princípio norteador. Acabou, enfim, o governo da vingança e do castigo divinos! João, mesmo sendo um grande profeta, flertava ainda com o Deus do castigo e da chantagem. Por isso que Jesus sentenciou sem titubear: o menor microscópico, o aparentemente insignificante da sociedade, na nova Governança de Deus-Pai, é, desde já, muito maior do que João o Batista. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Senado aprova PEC do marco temporal às vésperas do julgamento no STF

 

Aprovado em dois turnos no mesmo dia, votação contou com discursos racistas e denominação aos povos originários de forma indevida. Durante sessão deliberativa no Senado Federal desta terça-feira (09), os parlamentares aprovaram um requerimento de calendário especial para a votação em dois turnos da Proposta de Emenda à Constituição (PECnº 48/2023, denominada de PEC da morte pelo movimento indígena. A votação do regime de urgência recebeu 49 votos favoráveis ao calendário especial e 21 votos contrários, totalizando a votação de 71 senadores.

Aprovado nos dois turnos na mesma tarde – ou seja, os senadores votaram duas vezes, a votação contou com 52 votos favoráveis e 14 votos contrários (Veja como os senadores votaram em 1º turno e 2º turno). Durante os discursos de defesa da PEC, parlamentares apontaram falta de progresso e acusaram a Funai e o Instituto Socioambiental (ISA) de controle autoritário das terras indígenas. Outros discursos, questionaram a necessidade do percentual de terras indígenas destinadas aos povos originários e continuaram denominando os povos originários de índios, termo considerado pejorativo pelo movimento indígena“O que esse povo quer mais da terra indígena? Eles já possuem 14% de terras indígenas pelo Brasil. Se olhar para os Estados Unidos, eles possuem apenas 2,3% destinados a terras indígenas, mas lá eles podem criar arrendamento de terras, destinar a agricultura, eles podem construir cassinos, o que eles quiserem dentro das suas terras e o Brasil, não deixa. Índio não quer apito, ele quer hilux, ele quer agro, ele quer hotel, ele quer reserva, ele quer turismo, ele quer dignidade para viver”, afirmou o senador Jorge Seif (PL-SC), ex-ministro da pesca do governo Bolsonaro.

O chamado “marco temporal” prevê que os povos indígenas só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. A tese é considerada injusta e perversa, já que muitas etnias sofreram remoção forçada de suas terras originárias e outros tipos de violência antes e durante o período em que a Carta Magna brasileira foi promulgada. Durante a votação, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) divulgou nota técnica em repúdio a PEC, afirmando que “a lei abre caminho para insegurança jurídica, aumento de conflitos e legitimação de invasões, ao permitir atividades econômicas de terceiros e ao fragilizar o usufruto exclusivo dos povos indígenas sobre seus territórios”.

A nota conclui que declarar a Lei 14.701/2023 inconstitucional é “medida indispensável para preservar a supremacia da Constituição e garantir a continuidade física, cultural e territorial dos povos originários”, explica Auzerina Macuxi, Gerente da Assessoria Jurídica Indígena da Coiab. A lei, aprovada em 2023, está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal inconstitucional. O julgamento no STF começa nesta quarta-feira (10). O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) publicou uma nota nas redes sociais criticando a aprovação, afirmando que a aprovação da PEC “restringe o reconhecimento de territórios tradicionais e ignora expulsões históricas”. Trata-se de uma violação dos povos indígenas”. Com a aprovação, a PEC caminha para a votação na Câmara dos Deputados. Amanhã (10), o Supremo Tribunal Federal (STF) julgará quatro ações que questionam a constitucionalidade da Lei 14.701, de 2023, que prevê o marco temporal para as demarcações. (IHU)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O DESEJO DO PAI É QUE NENHUM 'PEQUENO-INVISÍVEL' SE PERCA, MESMO QUE ISTO SIGNIFIQUE DEIXAR EXPOSTAS AS DEMAIS OVELHAS!

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:12 "Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu?13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam.14 Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos". (Mt.18,12-14)

Jesus dá por descontado que um pastor de verdade ao dar fé que lhe falta uma ovelha do seu rebanho vai, imediatamente, à procura dela. Parece um paradoxo: deixa 99 ovelhas desprotegidas para buscar uma única ovelha perdida, e sem ter garantia de achá-la! É evidente que esse pastor não é pautado pela lógica do ‘custo-benefício’, pois agiria de uma outra forma. Ocorre que, em geral, quem já fez a experiência de ser pastor de ovelhas, vacas, bodes, etc. age da mesma forma que agiu o pastor da parábola. É a única faltante e não as 99 que determina a sua decisão, a sua escolha, algo que, aparentemente indicaria impulsividade e ausência de raciocínio. O sentido de responsabilidade, o apego e os cuidados com cada ovelha impulsionam o pastor a não ceder a cálculos frios e pragmáticos. O desvio e a ‘perdição temporária’ de uma única ovelha parece ser objeto de uma preocupação um tanto exagerada por parte do pastor, principalmente quando as 99 não estão totalmente em segurança, mas poderiam sofrer, elas também, ataques e agressões. O nosso evangelista, contudo, carrega propositalmente as tintas na parábola para nos preparar e acolher o cuidado e o amor desmedido do Pai para com os.... pequenos. Aqui não se fala de ‘pecadores’ e ‘desviados’, e sim, de pequenos, na língua grega ‘invisíveis’ (mikroi). Lembremos que Jesus em diferentes circunstâncias constatava o desamparo das multidões que parecia como ‘ovelhas sem pastor’. Isso para reafirmar que se, de fato, houvesse um pastor de verdade, as ovelhas não se encontrariam ‘perdidas, desamparadas, desnorteadas’ e tampouco ‘invisibilizadas’ do jeito que estão. Jesus de forma enfática deixa claro qual é o desejo do Pai: não perder nenhum desses pequeninos, invisíveis. A lógica do templo e da sua classe dirigente vai na contramão disso: os pastores sanguessugas cultivam somente as ovelhas graúdas, as vistosas, as bem alimentadas, as que dão retorno econômico e afetivo. A lógica dos maus pastores é a de vigiar e administrar as ovelhas que, a princípio, não precisam de proteção e de amparo, e deixam as ovelhas feridas, desgarradas, perdidas, desviadas porque elas dão só prejuízo. Aliás, eles sequer conseguem enxergá-las em sua perdição. Não fazem falta, logo, não existem!

Não é Flávio Bolsonaro o candidato a presidente do Bozo. É MICHEQUE!

 

Está ficando cada vez mais óbvio. A candidatura do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, à Presidência, anunciada na sexta-feira, 5, e relativizada pelo próprio senador 48 horas depois, é uma manobra de Jair Bolsonaro para reorganizar seu campo político. Com apenas 8% dos eleitores dizendo que o primogênito deveria ser o candidato apoiado pelo pai, segundo o Datafolha, Flávio não aparece como nome competitivo nem dentro da base bolsonarista.

Mas, então, o que está por trás da jogada da família Bolsonaro?

A declaração de que pode desistir “por um preço” expôs o caráter instrumental de sua candidatura. Desde então, análises vêm se avolumando, e a edição de hoje de Cartas Marcadas reúne as que considera mais pertinentes — não por especulação, mas por apontarem movimentos reais da extrema direita.Há uma leitura cada vez mais compartilhada por analistas e políticos: Flávio é apenas a fumaça. Quem pode incendiar a eleição tem nome, força e base própria: Michelle Bolsonaro, a vice-presidente ideal em uma hipotética candidatura de Tarcísio de Freitas. 

Entre as várias análises que pipocaram nos últimos dias, a do historiador Odilon Caldeira Neto, especialista em extrema direita, vale atenção. Ele aponta que a disputa relevante neste momento não é pela cabeça de chapa, mas pela vice-presidência numa possível candidatura do governador paulista Tarcísio de Freitas, do Republicanos.

A análise é plausível e tem circulado em Brasília. De acordo com ela, a luta da família Bolsonaro, agora, é para garantir o próprio sobrenome na chapa presidencial, em uma candidatura à vice. Isso forçaria que Tarcísio mantivesse vivo o compromisso de, caso eleito, atuar para tirar Bolsonaro da cadeia. A agenda anunciada pelo próprio senador reforça essa ideia: Flávio não disse que vai rodar o Brasil ou convocar comícios. Disse que pretende se reunir com os presidentes do União Brasil (Antonio Rueda), Progressistas (Ciro Nogueira) e PL (Valdemar Costa Neto).

Os integrantes do Centrão ouvidos pela imprensa indicaram que União Brasil, PP, Republicanos e PSD tenderiam a não embarcar na candidatura de Flávio, cogitando inclusive a neutralidade. O mercado financeiro, por isso, reagiu mal à novidade. No dia do anúncio, o Ibovespa registrou a maior queda diária desde fevereiro de 2021, recuando 4,31%, enquanto o dólar teve a maior alta desde outubro, subindo 2,3% e chegando a R$ 5,43. Os porta-vozes do mercado nos ajudam a entender essa reação: o economista Yihao Lin, da Genial Investimentos, afirmou a clientes que a reação negativa se explica pela percepção de que ele concentra a rejeição do pai sem construir uma alternativa viável. Ou seja, em portugês claro: Flávio perderia de Lula.

Mas, após a desastrosa coletiva de Flávio no domingo, 6, muita gente começa a perceber que o movimento de Jair produz outro efeito: colocar o primogênito na posição de fiador das negociações da família na corrida eleitoral. E com uma possibilidade evidente: a de que ele retire a própria candidatura, indicando Michelle como vice de Tarcísio. (Intercept)


sábado, 6 de dezembro de 2025

II Domingo de Advento - O DESERTO QUE ESTÁ DENTRO DE NÓS ....


João vive no deserto, mas quem tem o deserto dentro de si somos nós cidadãos estéreis de Jerusalém e de muitos lugares, incapazes de produzirmos frutos de mudança. O deserto que está dentro de nós nos torna impotentes, infrutíferos. Vivemos alienados buscando sinais e prodígios, ou salvação fácil. Somos adoradores de um ‘deus legalista’ manipulado e idolatrado por sacerdotes, líderes religiosos e funcionários do templo e do palácio. Estamos longe de compreender a urgência do momento presente, menos ainda o Kairós, o tempo da graça que já começou. Não temos consciência de que o tempo está esgotado, cheio, que não podemos mais fugir de uma dura realidade para mergulhar em ritos e belas liturgias, ao passo que o nosso povo passa fome, vive violentado e extorquido por líderes religiosos carrascos e políticos sem escrúpulos. A Realeza do Deus dos escravos, dos pobres, das viúvas e dos órfãos de hoje está a governar, mas nós não o percebemos. Daí a necessidade de produzirmos frutos que provem que a alienação, a dependência, a indiferença, a negligência social podem ser superadas. Esta seria a prova de que o deus do templo será derrotado e que o povo estaria pronto para receber e perceber uma ‘boa notícia’, inédita, mas que está ao alcance de todos: o Deus de Jesus está vindo para governar com justiça, graça e compaixão. Mas temos ainda fé para acreditar nisso?

sábado, 29 de novembro de 2025

ADVENTO - "Estamos abastecidos de futuro” (Pedro Arrupe, sj). É preciso desatá-lo. - Por Adroaldo Palaoro

 

Nossa concepção de futuro se atrofiou: vivemos “tempos sem futuro”. Não podemos prever o futuro com segurança. Hoje, o futuro se apresenta a nós muito mais aberto que em qualquer outra época de nossa humanidade. Os conhecimentos, os meios de comunicação, a tecnologia... não nos asseguram uma certeza do que virá. Aventurar no futuro torna-se cada dia mais complexo e difuso, pois predomina a incerteza que nós mesmos geramos. Vivemos uma geração que teme o futuro; por isso vivemos um “presente esticado” porque o futuro nos apavora. Já que preferimos não imaginar o futuro, alargamos o presente.

Precisamente porque faltam valores e um sentido para a existência é que se irrompe o medo do futuro, a acomodação, o refúgio no efêmero e no imediato, sem raízes e sem esperança. O medo do futuro nos ajuda a entender a mediocridade e o vazio do presente. Não esqueçamos que o Advento é toda uma possibilidade de vida que temos à frente. Por isso o grande grito deste primeiro domingo é “Vigiai!” porque “não sabeis quando virá o vosso Senhor”. Ninguém vigia o passado que já passou e já não existe mais. Vigiamos o que está por vir, o que está vindo. A vigilância olha sempre o futuro. Um futuro que depende de Deus e depende de nós. Porque uma coisa é a ação de Deus em cada um de nós neste tempo do Advento e outra coisa é o que nós fazemos para que algo novo aconteça. Nós mesmos somos um “advento”, porque nosso futuro humano depende do que esperamos. Haverá aqueles que já não esperam nada. Haverá outros que esperam algo novo, mas duvidam. E haverá aqueles que esperam o novo e dedicam suas vidas a criá-lo já agora. Porque em cada momento definimos nossas vidas; em cada momento algo surpreendente pode acontecer em nossa vida; em cada momento nossa vida pode apagar-se ou pode rejuvenescer-se. No evangelho deste domingo (primeiro do advento), as duas pequenas parábolas insistem na atitude da vigilânciaA primeira delas nos adverte com uma intencionalidade clara: o maior inimigo da vigilância é a dispersão, revestida de rotina e apego ao costumeiro (“comer, beber, casar-se”). Viver vigilantes para olhar mais além de nossos pequenos interesses e preocupações. Na segunda, a insistência se situa na importância de “estar vigilante”, porque o que está em jogo é nada menos que a segurança da “casa”, ou seja, a consistência da própria pessoa.

Não é raro que, ao sentir um mal-estar ou medo frente ao nosso mundo interior, optemos pela “distração” ou “dispersão”. Por outro lado, vivemos dispersos e ansiosos porque crescemos com a ideia de que nos falta “algo” que, supostamente, se encontra “fora” de nós, com o qual conseguiríamos, finalmente, desfrutar da felicidade desejada. dispersão é o estado habitual de quem se encontra identificado com seus pensamentos, sentimentos, emoções ou reações, ignorando sua verdadeira identidade. Vivemos num contexto marcado pela “dispersão”, seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes. E então, nós nos esvaziamos, nos diluímos, perdemos a interioridade e... nos desumanizamos. “dispersão” corrói a interioridade da pessoa e dissolve aquilo que é mais nobre em seu interior. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que a pessoa deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador. Isso tudo leva a pessoa a debilitar-se, provocando a redução da vitalidade humana em vez de favorecer o crescimento pessoal.

Advento é tempo propício – “kairós” – para ajudar a superar nossa “dispersão” e poder recuperar a densidade humana interna. Para isso, precisamos entrar em “estado de vigilância”, repensar a interioridade perdida, reconquistar a autodeterminação. Estar atentos e vigilantes é uma condição humana e cristã para viver intensamente; viver distraídos e dispersos é perder as oportunidades de muitos encontros, é deixar que o outro passe ao nosso lado sem nos darmos conta, é deixar que Deus passe sem que o percebamos, é deixar passar o momento em que Ele nos chama e perdemos a oportunidade de dar uma resposta vivificadora. Viver é estar atentos à vida, a nós mesmos, aos demais. Viver é estar atentos às ocasiões únicas, às oportunidades que não voltam; viver é estar com os olhos abertos para contemplar, é estar com os ouvidos atentos para escutar. É nessa direção que o “tempo do Advento”, centrado n’Aquele que vem, mobiliza e reordena todas as dimensões da vida e propõe um caminho de humanização. Ele desafia cada um a assumir o potencial humano criativo que está latente em seu interior.

 

Reflorestar consciências: por que o Brasil precisa de uma universidade indígena?

 

“O Brasil é o único país no mundo a ter nome de uma árvore”, lembra a deputada Célia Xakriabá, que fez parte do processo de concepção da nova universidade. “Na verdade, a universidade indígena já existe há mais de 1.500 anos atrás. Hoje é apenas assinatura. Mas, na verdade, antes de assinar com a caneta, nós assinamos com sabedoria da floresta, nós assinamos com o jenipapo e o urucum”, afirma a parlamentar, que é graduada em Educação Indígena, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estudiosa das experiências de universidades indígenas na América Latina. “Em 2016, tive a oportunidade de pesquisar sobre universidade indígena no México e as universidades autônomas. E o Brasil ganha um momento muito importante porque é reconhecendo a universidade indígena, mas com a pluralidade de povos diferentes. E hoje pensar as epistemologias indígenas é pensar uma superação do epistemicídio também. Quantas vezes o nosso conhecimento indígena, a ciência indígena foi negada na universidade?”, comenta Xakriabá.

Consagração de um direito

Maurício Terena, advogado indígena, explica que a universidade representa a consagração do mandamento constitucional e o respeito ao conhecimento tradicional. “Uma universidade indígena vem que para consagrar o respeito ao conhecimento tradicional indígena, que a história desse país é fundada numa perspectiva da qual os nossos corpos, os nossos conhecimentos, eles eram invalidados por essa ciência hegemônica. Então, poder hoje estar testemunhando esse lançamento dessa universidade indígena, eu acho que acima de tudo como advogado indígena, é a consagração do mandamento constitucional, mas também a promoção e o respeito dos conhecimentos indígenas”, afirma. Terena lembra das dificuldades que passou para se formar em direito, sendo um estudante indígena. “Eu relembro um pouco das violências que a gente passa no ensino superior quando a gente fala que é indígena, quando a gente traz as perspectivas, no meu caso, do direito indígena para o debate”, recorda o advogado.

Territórios transformados

Além da importância epistemológica e climática, a universidade indígena é vista como um marco importante para a inclusão e a melhoria de vida nas comunidades. Para estudantes como Ricardo, do povo Potiguara, a universidade indígena é uma questão de resistência e proporciona visibilidade para seu povo. “Ajuda a dar visibilidade para o nosso povo e à nossa resistência”, comentou brevemente, tomado pela timidez, o jovem de 18 anos, que viajou da Paraíba a Brasília para prestigiar a criação da Unindi. Por sua vez, Maurício Terena já vislumbra transformações profundas a partir dessa experiência acadêmica que, se bem não está restrita aos povos indígenas, sendo uma universidade aberta a toda a sociedade, tem potencial para promover grandes viradas de pensamento na sociedade brasileira.“Isso gera na sociedade brasileira uma nova maneira de se organizar politicamente. Eu já fico curioso para daqui 10, 15 anos, ver como ela vai transformar acima de tudo as nossas realidades locais, mas também a configuração da sociedade como um todo, e a academia também, porque a gente vai passar a trazer conhecimentos que, em alguma medida, foram invalidados durante o processo de construção desse país. Acho que trazer uma virada epistemológica mesmo da ciência no nosso país”, avalia.

Universidade do clima

Celia Xakriabá aponta que não é possível pensar em soluções climáticas sem reconhecer a ciência e a tecnologia ancestral dos povos indígenas. Ela chega a sugerir que a universidade indígena pode ser reconhecida como a universidade do clima, algo que não existe em nenhum lugar do mundo. “No mundo inteiro não existe escola do clima e universidade do clima. E a universidade indígena já pode ser reconhecida também como a universidade do clima. Nós, povos indígenas, somos 5% da população mundial e protegemos mais de 80% da sociobiodiversidade”, propõe a parlamentar, que defende que a “ciência do clima” esteja enraizada nos territórios. Com um toque de poesia e ancestralidade, a deputada reforça a ideia de que preservar as florestas e o meio ambiente já é uma alternativa e uma solução, e deve passar pelo reconhecimento dos saberes tradicionais. “A Terra é a professora mais antiga do planeta e a floresta também é escola, a floresta também é universidade”, recita. Segundo o governo, os grupos técnicos interministeriais responsáveis pelo desenho das instituições atuarão ao longo de 2026 e a previsão é que as universidades entrem em funcionamento em 2027.

A reportagem é de Leonardo Fernandes, publicada por Brasil de Fato, 27-11-2025

 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Iª domingo de advento - É URGENTE SABER INTERPRETAR OS SINAIS DA 'DES-GRAÇA' QUE PAIRAM SOBRE A HUMANIDADE !

 

Muitos sinais apontam para uma rápida e próxima autodestruição do planeta terra. Não é paranoia e nem alarmismo irresponsável. Só acompanhar os alertas explícitos de quem vem estudando as transformações políticas, sociais e climáticas da humanidade. Os negacionistas e egoístas de turno, em sua inconsciência alienante, continuam a acreditar que são imortais e inesgotáveis. Ou que, na última hora, na pior das hipóteses, possa aparecer uma nova arca de Noé para salvá-los! Em seu afã de possuir e dominar tudo e todos, aqui e agora, acham que é urgente arrancar, explorar, e consumir a todo custo, não se importando com as consequências. Jesus, que é um verdadeiro analista dos grandes movimentos da história, continua nos alertando: ‘ficai atentos’, pois estamos a viver um verdadeiro processo seletivo, de filtragem, de depuração e julgamento global. Alguns poucos, ao acumular bens, sugando territórios, abusando do seu poder, e descartando outros seres humanos como mercadoria sobrante, sequer imaginam o colapso planetário que estão a produzir. Em sua falta de sintonia e empatia para com os seus semelhantes e com a natureza acreditam que estão a garantir a sua própria e definitiva sobrevivência.  Ledo engano. O dia da desgraça os flagrará como um astuto e surpreendente ladrão que vem roubar a agonizante esperança. Agora é a hora de ‘forçar a irrupção da Realeza do Filho do Homem’ que vem como permanente e inédita chance de graça, de reerguimento e de equidade planetária. 'Contudo, será que haverá ainda fé na terra quando isto ocorrer?' 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Maranhão é o estado que tem mais trabalhadores informais do que formais

 


Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que 6 Estados do Brasil têm mais trabalhadores informais do que formais: Maranhão, Pará, Piauí, Amazonas, Bahia e Ceará. Todas as unidades da Federação do Norte e do Nordeste registram taxa de informalidade acima da média nacional, que é de 37,8%. Os percentuais são do 3º trimestre de 2025 e constam na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

A taxa de informalidade é a proporção de trabalhadores que não têm carteira de trabalho assinada e outros direitos trabalhistas, como férias, contribuição para a Previdência Social e 13º salário, em comparação com o total de ocupados. Também entram no contingente de informais os empregadores e trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ e os trabalhadores familiares auxiliares.

A taxa do Maranhão é de 57%, com 1,5 milhão de informais entre 2,7 milhões de ocupados.

Leia abaixo as taxas dos demais Estados que têm mais da metade dos trabalhadores em situação informal:

Pará – 56,5%;
Piauí – 52,7%;
Amazonas – 51,5%;
Bahia – 51,5%;
Ceará – 51,1%.

Além destes Estados, há 17 unidades da Federação com taxa acima da média nacional (37,8%). São Paulo (29,3%), Distrito Federal (26,9%) e Santa Catarina (24,9%) têm os menores níveis de informalidade. Em números absolutos, São Paulo, o Estado mais rico do país, tem o maior contingente de informais: 7,1 milhões de pessoas. A explicação para ter a 3ª menor taxa é o tamanho da população ocupada, que somou 24,3 milhões.

O Brasil registrou 102,4 milhões de pessoas ocupadas no 3º trimestre, sendo que 38,7 milhões são informais. Norte e Nordeste respondem por 41% de toda a população informal do país. O Sudeste tem 15,1 milhões, mas a população ocupada é 44% superior à das duas regiões somadas.

Maranhão integra projetos que buscam recuperar 3,3 mil hectares de terras indígenas na Amazônia

 

A iniciativa prevê plantio de 5,7 milhões de mudas, criação de empregos e execução de ações em 26 territórios da região Norte e do Maranhão, com recursos administrados pelo BNDES.O Maranhão está entre os estados contemplados pelos 19 projetos do programa Restaura Amazônia para Terras Indígenas. Os projetos foram selecionados para recuperar áreas degradadas porque se destacaram entre 44 propostas inscritas no edital. Ao todo, as iniciativas prometem restaurar mais de 3,3 mil hectares em 26 territórios indígenas, com o plantio de 5,7 milhões de árvores e a geração de 1.420 empregos.

O Maranhão está entre os estados contemplados pelos 19 projetos do programa Restaura Amazônia para Terras Indígenas, anunciados nesta sexta-feira (21), em Belém, durante o encerramento das atividades do Pavilhão dos Círculos dos Povos na COP30. Os projetos foram selecionados para recuperar áreas degradadas porque se destacaram entre 44 propostas inscritas no edital. Ao todo, as iniciativas prometem restaurar mais de 3,3 mil hectares em 26 territórios indígenas, com o plantio de 5,7 milhões de árvores e a geração de 1.420 empregos. O investimento total é de R$ 123,6 milhões, financiados pelo Fundo Amazônia e geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “A gente vem hoje a público dizer que 26 terras indígenas serão contempladas nos estados de Rondônia, Amazonas, Acre, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão. Ou seja, a gente vai ter 26 territórios indígenas, muitos deles recém-desintrusados, num esforço profundo de trabalho”, declarou o superintendente de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Kadril.

 A presença do Maranhão entre os selecionados reforça a participação do estado nas ações de restauração ambiental apresentadas na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, destacou que o anúncio consolida as ações climáticas do governo federal na Conferência do Clima, atendendo a demandas de demarcação, proteção, gestão e recuperação de terras indígenas. “Deixamos claro que não há como pensar soluções para a crise climática, se não incluir todos e todas que protegem os territórios, que cuidam da biodiversidade, que cuidam da mãe Terra. Não tem como encontrar soluções efetivas se não incluir essas diferentes vozes”, afirmou a ministra. O Restaura Amazônia integra uma estratégia mais ampla do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que prevê recuperar 12 milhões de hectares no país. Desse total, 6 milhões já foram restaurados por meio de iniciativas de plantio e regeneração natural, segundo o MMA. A secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do MMA lembrou que “a retomada do Fundo Amazônia chega em mais de 600 organizações da sociedade civil, em três de cada quatro municípios da Amazônia, em projetos de restauração ecológica para reconstruir o antigo Arco do Desmatamento, onde o reflorestamento construirá um verdadeiro cinturão verde no território de sete estados amazônicos” — entre eles, o Maranhão. (IMIRANTE)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

JESUS O ANTIMONÁRQUICO QUE MORRE POR INSTAURAR O REINADO DO CUIDADO E DO BEM-QUERER!

Em geral são sempre 'os chefes' que tripudiam das tragédias alheias. Para eles as vítimas agonizantes, anônimas e impotentes da violência institucional não passam de meros efeitos colaterais na sua guerra santa contra quem luta por liberdade e justiça. Parece paradoxal, mas os assim chamados chefes do povo encontram o seu sentido de existir em oprimir e dominar os seus ‘súbditos’. Já, outros líderes morais, desprovidos de mandato, de tronos e de exércitos pagam com a própria vida por defender e servir os ‘súbditos’ dos 'chefes'! Esses que deveriam ser considerados, de fato, cuidadores do povo, são eliminados pelos falsos reis por se comportarem como pastores e defensores das pessoas que sequer lhes foram confiadas mediante uma investidura formal. O trono do Rei Jesus é uma vergonhosa cruz que carrega um letreiro com o altissonante título de ‘Rei dos Judeus’. Jesus o antimonárquico morre como rei por servir um povo esmagado, ao passo que os chefes do povo governam e vivem por cuidar deles mesmos. Uma incompreensível inversão. Hoje temos ainda seguidores de Jesus que têm dificuldade de compreender que vivemos para os outros, e não para nós mesmos. Para salvar quem precisa e não para salvar a nossa pele e a nossa alma! É preciso que nos lembremos daqueles que, esquecidos por todos, nos pedem de ser simplesmente...lembrados, olhados com amor e abraçados sem temor! Enfim, é preciso nos converter definitivamente ao Reinado do cuidado e do bem-querer!


Guarani Kaiowá é morto com tiro na testa em área de conflito no MS

 

UM INDÍGENA de 36 anos, Vicente Fernandes Vilhalva, foi morto com um tiro na testa em um ataque atribuído a pistoleiros contra a retomada (ocupação) Pyelito Kue, no município de Iguatemi (MS), neste domingo (16). Ao menos outros quatro Guarani Kaiowá ficaram feridos. A área integra a Terra Indígena (TI) Iguatemipeguá I, sobreposta à Fazenda Cachoeira e retomada pelos indígenas em 3 de novembro. O ataque teria sido realizado entre 4h e 5h por cerca de 20 homens que já teriam chegado atirando, segundo lideranças ouvidas pela reportagem. Elas relatam que barracos de lona e pertences na retomada foram incendiados e destruídos por um trator. Ainda de acordo com os Guarani Kaiowá, pistoleiros teriam tentado levar o corpo de Vicente Vilhalva, mas foram impedidos pelos indígenas. 

“Perdemos um guerreiro que sempre esteve na luta em defesa dos direitos dos povos indígenas, Vicente era um dos porta-vozes da comunidade. Não tivemos chance, os jagunços estavam com arma de fogo, calibre .12 e .38 e acertaram um dos nossos”, relata Xe Ryvy Rendy’i, um indígena da comunidade. “A ponte está interditada. Parece que já estavam se organizando para atacar a comunidade. Porque nunca arrumaram a ponte. Só depois que fizemos a retomada, decidiram bloquear. Foi um crime bem organizado. Nenhum carro está passando por lá”, denuncia Rendy’i. Apesar de as autoridades federais terem sido acionadas pelos indígenas assim que houve o ataque, a FNSP (Força Nacional de Segurança Pública) só chegou ao local às 9h, quatro horas depois de os tiros cessarem. Servidores da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) também se dirigiram ao local no final da manhã deste domingo. “Fomos cercados. Os pistoleiros não chegaram para conversar, já chegaram atirando. Não temos armas, não temos nenhuma chance de defesa. Recuamos e fomos até a aldeia, mas eles seguiram atirando fora da retomada, nas nossas casas. Queimaram tudo na retomada: os barracos, as panelas, as cadeiras”, conta uma das lideranças de Pyelito Kue, sob anonimato. 

Demarcação de território está parada desde 2013

Recém ocupada pelos indígenas, a Fazenda Cachoeira está arrendada por duas empresas de exportação de carne: a Agropecuária Santa Cruz e a Agropecuária Guaxuma. A reportagem entrou em contato neste domingo com as duas companhias, mas não obteve retorno até o fechamento. O texto será atualizado se um posicionamento for recebido. Em matéria publicada no site o Joio e o Trigo em 12 de novembro, um advogado da Agropecuária Guaxuma afirmou que a empresa desconhece o conflito na região e que “não possui qualquer tipo de segurança na propriedade arrendada”. A Cachoeira é uma das 44 propriedades sobrepostas à TI Iguatemipeguá I. A área de 41.714 hectares abarca os tekohas (“lugar onde se é”, em guarani) Pyelito Kue e Mbaraka’y e foi delimitada pela Funai em 2013. Desde então, no entanto, o processo demarcatório está parado.

Vivendo atualmente em uma aldeia de 97 hectares traçada a partir de um acordo judicial de 2014, as cerca de 120 famílias de Pyelito Kue alegam estar espremidas, sem condições de plantar e passando fome. Diante da estagnação do processo demarcatório, a comunidade decidiu atravessar a estrada de terra e ocupar outro pedaço considerado por eles como território tradicional. Os indígenas passaram 22 dias escondidos em um pequeno trecho de mata na Fazenda Cachoeira e, desde o dia 3 de novembro, montaram acampamento em campo aberto, no meio da pastagem de gado. O ataque que matou Vicente Vilhalva é o quarto desde o início do mês. O saldo dos outros, ocorridos entre 3 e 5 de novembro, foi de quatro indígenas feridos a balas de borracha e duas crianças machucadas depois de suas mães terem caído, ao correrem, com elas no colo.

Os cartuchos e as fotografias de perfurações de casas e de uma panela por balas letais foram entregues à Delegacia da Polícia Federal de Naviraí (MS), onde os indígenas registraram um boletim de ocorrência.  Desde o dia 5 de novembro, a Força Nacional visita a região. A reportagem esteve no local e constatou que os agentes têm feito patrulhas pontuais, sem presença fixa na área. O conflito fundiário no Mato Grosso do Sul escalou desde o fim de setembro, quando indígenas da TI Guyraroká, que também aguarda a demarcação, foram reprimidos pela Polícia Militar após retomarem área da Fazenda Ipuitã, em Caarapó (MS). O governo federal criou um GTT (Grupo de Trabalho Técnico) interministerial com a finalidade de “elaborar diagnóstico com subsídios técnicos para a mediação de conflitos fundiários envolvendo povos indígenas no sul do estado de Mato Grosso do Sul, incluindo a realização de levantamentos e estudos sobre áreas públicas e privadas”, segundo publicação no Diário Oficial da União (DOU) em 3 de novembro. A secretaria-executiva do GTT cabe ao Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), e está com a atuação focada nos tekohas Guyraroká e Passo Piraju, sobre os quais devem publicar um relatório na próxima semana. (Reporter Brasil)


ONU alerta que só conseguirá ajudar um terço das pessoas em situação de fome crítica no mundo em 2026

 

Programa Mundial de Alimentos (PMA) anunciou nesta terça-feira (18) que, na melhor das hipóteses, poderá ajudar apenas 1/3 das cerca de 318 milhões de pessoas que precisarão de auxílio alimentar em 2026 devido a cortes no financiamento humanitário.

"A redução do financiamento humanitário global está obrigando o PMA a priorizar a assistência alimentar para aproximadamente um terço dos necessitados", concentrando-se em 110 milhões das pessoas mais vulneráveis, afirmou o órgão em comunicado.A agência calcula um custo de US$ 13 bilhões (R$ 69 bilhões) para o combate à fome no mundo no ano que vem, mas alertou que provavelmente receberá apenas cerca da metade deste valor. O maior doador do PMA é o governo dos Estados Unidos, que, sob o segundo mandato de Donald Trump, cortou a ajuda externa, incluindo a destinada às Nações Unidas. Outros grandes contribuintes, entre eles alguns países europeus, também reduziram seus orçamentos humanitários.

'Várias fomes simultâneas'

A agência da ONU, com sede em Roma, destaca que a previsão de 318 milhões de pessoas em situação de fome crítica em 2026 representa mais do que o dobro do número registrado em 2019. O aumento está relacionado a conflitos armados, condições climáticas extremas e à instabilidade econômica no mundo atualmente. Neste ano, as Nações Unidas declararam fome em Gaza e em áreas do Sudão. Diante deste cenário, a diretora-executiva do PMA, Cindy McCain, lamenta que a resposta global para o combate à fome "continua lenta, fragmentada e insuficientemente financiada".

“O mundo enfrenta várias fomes simultâneas, em Gaza e em algumas regiões do Sudão. Isso é totalmente inaceitável no século 21”, pontuou McCainAlém disso, na semana passada, as duas agências alimentares da ONU, o PMA e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), já haviam alertado sobre a existência de 16 "pontos críticos de fome" em todo o mundo, entre eles HaitiMaliPalestina e Sudão do SulO relatório conjunto dos dois órgãos alerta que o financiamento atual para ajuda humanitária é “perigosamente insuficiente”.

“A crise alimentar mundial não mostra sinais de abrandamento em 2026, pois os conflitos, os fenômenos meteorológicos extremos e a instabilidade econômica deverão provocar mais um ano de grave insegurança alimentar”, acrescentou Cindy McCain

(IHU) 

Consciência negra - QUANDO É PRECISO MAIS QUE UM CANTO...

 

É preciso ter raça sempre!

Pela 1ª vez, desde que o Censo foi criado em 1872, a população parda superou a população branca. Somos hoje 92.083.286 (45,3%) da população brasileira. Entretanto, os recortes étnico-raciais mostram que o racismo no Brasil é alarmante. Na medicina há um racismo velado que poucos conhecem: somente 3% dos médicos no Brasil são negros (dados do CFM), 80% dos transplantados no Brasil são homens brancos. A despeito das doenças cardíacas ocorrerem mais em homens negros, a maioria dos transplantes de coração são em homens brancos (Jornal da USP), na pandemia da covid-19, a taxa de letalidade da doença nos negros foi de 55%, enquanto nos brancos foi de 38% (FIOCRUZ). A taxa de mortes por causa evitáveis em 2023 foi maior entre negros: de 51,8% para homens e 37,8% em mulheres em comparação com 39,4% e 26,5% entre não negros (Pacto Nacional de Combate às Desigualdades).

Uma das principais vias a partir da quais as políticas raciais se estruturam na saúde é a omissão e a falta intencional de dados, de tornar invisível a população negra. Há muitas formas de racismo no Brasil e a mais perversa é o racismo institucional e subjetivo de quando um médico negro precisa passar por mais validações para assumir um cargo, quando é confundido com o atendente, recepcionista ou auxiliar do hospital, quando não assume postos de poder, ou quando não aparece nos dados demográficos étnicos/raciais de sua instituição.  O CFM, AMB, OPGE, FBG, não possuem estes dados. Desde 1993, a Associação Americana de Gastroenterologia (AGA) vem abordando e lutando para diminuir as disparidades raciais em um país onde a herança escravagista é tão terrível quanto a nossa. No seu brilhante Equity Project apresenta uma autoanálise transparente da composição racial e étnica dos seus membros, líderes voluntários e funcionários em comparação com os dados populacionais dos EUA. Adotou o antirracismo como estratégia para promover a diversidade, a equidade e a inclusão, e para reduzir as disparidades nas doenças gastrointestinais. A União Europeia de Gastroenterologia segue o mesmo caminho.

Quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida!

O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo. Entre os séculos XVI e XIX trouxe à força cerca de 4,86 milhões de escravos africanos (40% de todos os africanos que cruzaram o Atlântico) para trabalharem nos 3 ciclos da economia brasileira: cana de açúcar, mineração e café.  Mais longa que a escravidão do Egito, mais duro que o cativeiro na Babilônia foi a escravidão negra no Brasil, que só foi abolida em 1888. Os impactos de terem sido abandonados à própria sorte, sem nenhuma forma de reparação, explica porque o povo negro está na base da pirâmide social. As políticas públicas de ações afirmativas, como as cotas, por exemplo, representam uma tentativa de pagar uma dívida e tentar diminuir as consequências de um passado colonial que ainda nos divide em Casa Grande e Senzala. A gastroenterologia brasileira tem vários desafios e um deles é tentar eliminar as disparidades raciais na saúde para diversas doenças gastrointestinais e de não se calar e nem abafar as vozes que querem acabar com o racismo estrutural, institucional e interpessoal, que a cada dia aumenta a lacuna entre negros e brancos neste país.

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça é preciso ter SONHO sempre!

Há cerca de um mês atrás, uma paciente negra, fez uma colonoscopia comigo. Ao entrar na sala vi que ela teve aquele impacto inicial e me disse: ”que bom que a senhora é da minha cor” e perguntou se podia me dar um abraço. Naquele abraço recebi toda a consideração e contentamento daquela mulher, mas recebi também o peso de tentar fazer com que minha especialidade seja o mais representativa possível da população a qual assiste. O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação”. Esta frase de Steve Biko, advogado, intelectual e ativista sul africano, assassinado pelo regime do apartheid, mostra que a luta de ontem abre caminho para as vitórias de hoje e que racismo se combate todo dia.

Hoje, dia da CONSCIÊNCIA NEGRA, na qual lembramos a morte de Zumbi dos Palmares e a luta de um povo contra a exploração e opressão do sistema colonial, celebramos a resistência, luta e a resiliência do povo negro de hoje, quilombola, favelado, periférico, que teima em ser FELIZ e ter SONHOS sempre!

Joceli Oliveira dos Santos - Gastroenterologista/Endoscopista e Ex- membro da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da FBG

 

 

 

sábado, 15 de novembro de 2025

33 domingo comum - É permanecendo firmes na defesa dos verdadeiros templos que iremos salvar a humanidade

 

Ainda tem gente que acha que precisa de templos para adorar Deus, mas já Jesus dizia que não é em nenhum santuário que se adora Deus, mas ‘em espírito e verdade’. Ainda há gente que acha que o templo é a morada do Altíssimo, mas já São Paulo dizia que ‘nós somos o santuário de Deus’ e o nosso corpo é ‘templo do Espírito Santo’! Apesar de tudo isso há devotos que continuam gastando dinheiro e energias embelezando e revitalizando templos e igrejas desviando a atenção da única realidade que conta: proteger e cuidar do órfão, da viúva, do pobre e do estrangeiro! São esses falsos devotos que contribuem para confundir os simples de coração ao se apresentarem como profetas ungidos e iluminados. Jesus é claro em rechaçar esse tipo de gente: ’Não vão atrás deles’! Jesus é contundente em detonar o que era considerado o cerne da religião judaica, o templo e suas relações de dominação e manipulação. Aqui não cabe reformar, é preciso destruir, não deixar pedra sobre pedra! Afinal, os verdadeiros templos em que encontramos o amor cuidadoso de Deus e onde Ele colocou a sua tenda são os seus filhos e filhas! São esses templos ameaçados e humilhados por perseguições, guerras e doenças que devemos defender e proteger com firmeza e coerência. É nisso que estaremos adorando o único e verdadeiro Deus! 

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

“A pós-verdade é o fim do mundo comum”. Entrevista com Máriam Martínez-Bascuñán

 Máriam Martínez-Bascuñán (Madri, 1979) é professora de Teoria Política na Universidade Autônoma de Madri. Foi também diretora de Opinião do jornal El País e é, sobretudo, uma estudiosa de Hannah Arendt, a quem recorre para analisar os desafios da pós-verdade e da credibilidade nas democracias atuais, em seu mais recente livro intitulado El fin del mundo común (Taurus, 2025). 

 Você diz que o mundo comum está acabando. Se assim for, que futuro nos espera?

Eu falo do fim do mundo comum, mas não como algo irreversível. É o diagnóstico que faço. Detenho-me no que é o mundo comum, e meu diagnóstico é que a pós-verdade é isto: o fim do mundo comum. Junto com Hannah Arendt, defino esta ideia de mundo comum como aquilo que, ao mesmo tempo, nos conecta e nos separa. A pós-verdade não está em que o político mente, pois os políticos sempre mentiram. Acontece que agora o político utiliza a verdade ou a mentira como uma arma de poder para construir uma realidade alternativa, que é uma ficção. Deixamos de habitar no mesmo mundo. O mundo comum é também a erosão de todos esses intermediários, de todas essas instituições invisíveis que ajudavam a sustentar o chão compartilhado para que fosse possível uma conversa, a deliberação pública e, inclusive, as regras do jogo democrático. Quando caem todas essas instituições invisíveis, com todos os consensos, torna-se possível acreditar em realidades alternativas e em mundos fictícios que o líder é capaz de impor

 “Sem pluralidade, não há mundo comum”, ressalta. O problema é que os partidos políticos agora buscam desprestigiar e desumanizar seus rivais?

O problema hoje é que, de alguma forma, substituímos a pluralidade pela lógica tribal. O tribalismo instaura uma lógica para o cidadão de que a verdade não exige entendimento ou preocupação; exige pertencimento. A fidelidade ao grupo vale mais do que sua própria opinião e a evidência e o julgamento crítico se tornam quase um luxo desnecessário.

 E como é possível debater essas questões em meio a tanta polarização?

É muito difícil, porque tudo já assumiu a forma de guerra cultural; qualquer assunto, até mesmo a mudança climática, torna-se uma guerra da pós-verdade. Por fim, criou-se muita confusão, ninguém sabe mais em quem acreditar. O pior não é espalhar uma mentira, mas deixar de acreditar em tudo. E deixar de acreditar em tudo significa que, se alguém diz que venceu as eleições, quando as perdeu, uma porcentagem muito significativa da população acaba acreditando. Para que isso acontecesse, tiveram de desacreditar os meios de comunicação, as instituições eleitorais, as autoridades e os jornais. Ao final, aderimos à lógica da tribo, à narrativa, que, além disso, canaliza a raiva e apresenta um rosto a ser odiado e contra quem protestar.

 No livro, você ressalta que “temos uma cidadania mais desorientada do que um povo enganado”. Será que isto acontece porque a única ideologia propositiva é a da extrema-direita?

Penso que o central é que se tornaram bons narradores políticos. Possuem uma forma de ver o mundo reconhecida por essas pessoas que se sentem de fora e que oferece uma visão coerente sobre o mundo, mesmo que seja fictícia. Eles são narradores políticos com narrativas perfeitamente coerentes e elaboradas. Tenta-se combater isto com dados e especialistas, mas os fatos por si só não convencem ninguém. Além de dados e ciência, são necessários narradores políticos que saibam contar os fatos de modo que mexam com os cidadãos e os façam ver por que são importantes.

 Devemos assumir que o debate público estará para sempre imerso em falsidades e pós-verdade?

Um programa político não deveria ser reativo; ou seja, não deveria estar o tempo todo respondendo às barbaridades do populista e não deveria se deixar colonizar pela agenda dele. Além disso, os políticos devem ser capazes de alcançar as pessoas com histórias baseadas em fatos. Penso que estamos menosprezando as emoções. Um político não pode vencer as eleições sem mobilizar as emoções. O crucial está no tipo de emoção que se mobiliza, se a raiva ou a esperança, como fez Obama. Não se alcança as pessoas apenas com autoridade científica. É preciso, com base nessa evidência científica, construir uma narrativa política que convença o cidadão e o faça se sentir protagonista, não espectador, que seja convidado a fazer parte da solução, a deliberar, a decidir junto.

 O livro termina falando dos meios de comunicação e do jornalismo com uma sentença muito dura: “O objetivo não é tanto salvar o jornalismo, mas a função pública que realizava”. Se não forem os meios de comunicação, quem serão os novos atores que realizarão esta função?

Não considero que devam ser outros atores, nem que voltaremos ao mundo de antes. O espaço público mudou e as redes fizeram isto. Há uma leitura positiva nisso: entraram opiniões que eram completamente marginais e que romperam o consenso hegemônico. Defendo a importância da crônica e da narrativa dos fatos a partir da imparcialidade homérica. A imparcialidade homérica, segundo Arendt, não guarda silêncio sobre o vencido, dá testemunho de Heitor e de Aquiles. Homero mostra todos os lados com dignidade e preserva essa pluralidade de perspectivasimparcialidade homérica não é equidistância, nem é tratar todas as afirmações como igualmente válidas, nem é dar o mesmo peso aos fatos e às mentiras. É dar testemunho dos fatos como são. Às vezes, essa falsa equidistância leva à normalização de coisas que nunca deveriam ter sido normalizadas. O central está na pluralidade de perspectivas e na imparcialidade, que não é equidistância. Não podemos voltar a assistir a casos como a cobertura da BBC nas eleições de 2024, que colocava no mesmo nível uma proposta de justiça de Kamala Harris e as declarações de Donald Trump dizendo que iria fuzilar jornalistas.