terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Dez teses sobre a nova era. Artigo de Steven Forti

O retorno de Trump à Casa Branca em janeiro de 2025 marcou o início de uma nova era. Nosso "mundo de ontem", para usar as palavras de Stefan Zweig, acabou. Kaputt. Precisamos perceber isso o mais rápido possível. Entramos em uma nova fase histórica, cujas características são, naturalmente, ainda incertas. Tentarei delinear seus contornos com base em dez teses.

1. O neoimperialismo substitui a ordem liberal global - A ordem liberal global criada no final da Segunda Guerra Mundial — frágil, imperfeita e frequentemente desconsiderada — está sendo substituída por uma lógica imperial governada por uma mistura da lei da selva — a força faz o direito — e pela divisão de esferas de influência — a nova doutrina trumpista foi definida como “geopolítica hemisférica” — e uma abordagem transacional. Se quisermos traçar um paralelo histórico, a nova era assemelha-se à época do imperialismo do final do século XIX: não se trata de um retorno à era imperialista clássica ou à antiga ordem de Vestfália, mas sim do estabelecimento de um sistema internacional "neomonárquico" estruturado por um pequeno grupo de elites hiperprivilegiadas que buscam legitimar-se apelando ao seu excepcionalismo para criar novas hierarquias materiais e de status.

2. O neoliberalismo abriu caminho para o novo autoritarismo - Os alicerces da nova era estão sendo construídos sobre as ruínas do neoliberalismo. Primeiro, as políticas neoliberais — privatizações, insegurança no emprego, cortes nos gastos sociais, etc. — enfraqueceram o modelo do Estado de bem-estar social, aumentando as desigualdades e fragmentando a coesão social. Segundo, tudo isso foi reforçado pelo fato de que, como ideologia, por mais “invisível” que seja, o neoliberalismo incutiu uma série de valores, como o individualismo desenfreado e a competitividade extrema, a ponto de forjar uma aliança com os setores etnonacionalistas e identitários da direita. Terceiro, o próprio conceito de democracia foi esvaziado de sua componente social: a democracia formal — o respeito a (algumas) regras e procedimentos — substituiu a democracia substantiva, cujo objetivo é a igualdade. Em quarto lugar, num contexto marcado pela globalização neoliberal, o poder efetivo deslocou-se para as elites económicas, com a consequente configuração de um sistema pós-democrático, no qual os organismos intermediários – partidos, sindicatos, associações da sociedade civil – se desfizeram gradualmente, a participação evaporou-se e a personalização da política, também facilitada pela transformação dos meios de comunicação social, favoreceu o surgimento de fenómenos “populistas” [3].

.3. Os tecnoligarcas assumem o controle do Estado - Na era do neoliberalismo triunfante, a conivência entre o poder político e o econômico era evidente. Houve resistência, com intensidade variável de país para país. Uma aparência de respeito pelas regras do jogo foi mantida (embora nem sempre, é preciso dizer): a influência das elites econômicas era visível, mas houve tentativas (pelo menos em certa medida) de ocultá-la. Na nova era, porém, o que se quer fazer, faz-se e diz-se, sem esconder. Isso se aplica tanto à geopolítica quanto às relações com as potências econômicas. Por um lado, Trump bombardeia Caracas e prende Maduro para controlar diretamente os poços de petróleo venezuelanos: a palavra “democracia” não aparece em seus discursos e está longe de ser um de seus objetivos, mesmo que apenas superficialmente. Por outro lado, os barões ladrões do terceiro milênio estabeleceram explicitamente uma aliança estratégica com os novos líderes autoritários: os tecnoligarcas do Vale do Silício não querem apenas encher os bolsos, mas, em primeiro lugar, defendem abertamente projetos autoritários e antidemocráticos — novas monarquias absolutas, movidas pela eficiência e governadas por CEOs-reis. 

4. Autocracias eleitorais substituem democracias - Na nova era, a democracia, mesmo em sua forma formal, é considerada um mero ornamento. De fato, foi reduzida a uma sombra do que já foi. Já na era do declínio do neoliberalismo, ou seja, a partir de 2008, a porcentagem da população mundial vivendo em democracias vem diminuindo constantemente, atingindo um modesto e preocupante patamar de 28% em 2024. A tendência é clara. Há cerca de vinte anos, vivenciamos a primeira grande onda de autocratização desde a Segunda Guerra Mundial; isto é, cada vez mais países se tornam autocracias eleitorais.

5. A extrema-direita é o principal ator da nova era - Juntamente com os líderes autoritários — leia-se: homens fortes — no poder em grande parte do mundo — Putin, Xi Jinping, Erdogan, Modi, os petro-monarcas do Golfo, e assim por diante — no Ocidente, é a extrema-direita que melhor representa esta nova era. De fato, ela está ganhando terreno eleitoral em todos os lugares e chegou ao poder em diversos países: dos Estados Unidos à Argentina, de Israel à Itália, da Hungria a El Salvador e ao Chile. Assim que tem a oportunidade, estabelece sistemas eleitorais autocráticos: a separação de poderes é corroída, o pluralismo midiático é atacado e os direitos de grandes segmentos da população desaparecem. O homem forte se apresenta como representante do povo, despreza os controles democráticos e coloca em movimento um projeto etnonacionalista reacionário.

6. Mais do que fascismo, é uma renovação do pensamento anti-iluminista - Costuma-se dizer que estamos vivenciando o retorno do fascismo, mais ou menos disfarçado. Embora existam elementos de continuidade entre o fascismo histórico e a extrema-direita do terceiro milênio — mais em alguns países do que em outros —, o conceito de “fascismo eterno”, proposto há mais de trinta anos por Umberto Eco, nos leva a conclusões equivocadas. Como aponta Santiago Gerchunoff, o uso compulsivo do termo — em suas diversas formas: fascismo tardio, fascismo fóssil, tecnofascismo etc. — revela, antes, “o desejo de encontrar uma palavra mágica que afaste o perigo da abstração do nosso mundo e, ao mesmo tempo, silencie qualquer discussão” [6]. É reconfortante, por assim dizer, chamar a nova extrema-direita de fascista porque, em certo sentido, isso nos dá a falsa certeza de saber o que estamos enfrentando. Contudo, as características desta nova era não são as mesmas do período entre guerras: passou-se um século desde os regimes de Hitler e Mussolini. Digamos o seguinte: pode-se ser reacionário, nacionalista, autoritário e antidemocrático sem necessariamente ser fascista. Mas isso não torna a situação menos grave. O que temos diante de nós é uma nova extrema-direita que defende um autoritarismo pós-liberal, anti-igualitário e orientado para a eficiência. As suas raízes encontram-se no pensamento anti-Iluminismo e no reacionarismo antiliberal do final do século XVIII. 

7. O extremismo é a nova corrente dominante - Nas últimas décadas, ideias extremistas se normalizaram. A Janela de Overton deslocou-se radicalmente para a extrema-direita: ideias antes consideradas inaceitáveis ​​tornaram-se senso comum e, como último recurso, foram consagradas em lei. Na Rússia e na Hungria, a homossexualidade é legalmente equiparada à pedofilia. Nos Estados Unidos, declarar-se antifascista implica ser considerado membro de um grupo terrorista. Já não choca ninguém quando influenciadores proeminentes do movimento MAGA afirmam publicamente que as mulheres não deveriam ter o direito ao voto, quando o presidente argentino Javier Milei considera a justiça social um câncer que deve ser erradicado, ou quando membros do governo israelense definem os palestinos como “animais” e defendem o genocídio no cenário mundial. Teorias da conspiração abundam, a começar pela Grande Substituição, segundo a qual as elites globalistas estariam executando um plano para substituir a população europeia por imigrantes muçulmanos. A nova era não é apenas a era da pós-verdade, da desinformação e das notícias falsas, mas também uma era em que o extremismo se tornou comum. 

8. Os partidos e as instituições democráticas estão passando por uma paralisia debilitante - Apesar de algumas vitórias eleitorais e algumas decisões acertadas, a maioria dos partidos e instituições democráticas não conseguiu compreender que tudo mudou. Raciocinam com base em paradigmas ultrapassados ​​e propõem soluções antiquadas que, além de serem irrealistas neste século XXI, já não despertam qualquer interesse, nem mesmo entre aqueles que as defendem. Na pior das hipóteses, demonstrando uma incrível falta de visão, o establishment liberal tenta copiar a extrema-direita para evitar ser canibalizado e sobreviver ao que acredita ser uma tempestade passageira, pavimentando, em última análise, o caminho para o autoritarismo pós-liberal. Apesar de seus erros e deficiências, poucos — Lula, Sánchez, Sheinbaum, Petro, Mamdami — parecem compreender o cerne da questão: nada será como antes.

9. A religião está sendo usada mais uma vez como arma política - A nova era é caracterizada pela renovada centralidade do uso político da religião em todo o mundo. Embora esse não seja um fenômeno novo nos mundos muçulmano ou hindu, certamente é novo no Ocidente, onde, após décadas de secularização, considerávamos a religião algo do passado. Apesar do aumento no número de ateus e agnósticos, novos líderes autoritários estão utilizando a religião mais do que nunca, invocando a suposta proteção de Deus, como se fossem novos monarcas absolutos por graça divina. É uma religião que se manifesta de forma agressiva, excludente e baseada na identidade.

10. A resposta para "O que fazer?" só pode ser coletiva - A resposta à antiga questão leninista não cairá do céu, nem será formulada por nenhum intelectual. Ela só pode emergir da sociedade; ou seja, só pode ser coletiva. Temo que levará tempo — certamente anos, provavelmente uma geração — porque o que precisa ser reconstruído, tanto do ponto de vista material quanto moral, aumenta a cada dia que passa. Iludir-se pensando que a derrota da extrema-direita em uma eleição específica significa uma virada é pura ilusão. Enquanto isso, pelo menos podemos evitar cair no abismo. Os partidos democráticos devem evitar sucumbir ao canto de sereia da extrema-direita e defender as instituições e os direitos arduamente conquistados. As instituições europeias devem opor-se veementemente ao neoimperialismo autoritário dos EUA, evitando a insolução do apaziguamento — um suicídio lento — e emergindo da letargia da “vassalagem feliz”. É necessário repensar completamente os paradigmas existentes: os antigos já não funcionam nesta nova era. Portanto, devemos começar do zero: reconstruir a sociedade — agora fragmentada e atomizada —, criar um senso de comunidade — que não seja do tipo identitário e etnonacionalista da extrema-direita —, reacender a batalha de ideias — a extrema-direita vem fazendo isso há anos e agora colhe os frutos — e forjar alianças e redes transnacionais — porque a solução não pode ser meramente local. Todos devemos nos sentir envolvidos. A única possibilidade é "voz", ou seja, participação e protesto. Este deve ser o ponto de partida. (IHU, artigo reelaborado pelo blogueiro)


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