terça-feira, 28 de abril de 2026

Trechos do 'Diário de Jesus' no deserto da Judeia

 

'....Sinto-me totalmente dominado por sentimentos contrastantes. De um lado um inexplicável sentimento de paz que eu não experimentava desde a minha infância, e do outro, permanecem intactas, quase que indeléveis, algumas sombras e dúvidas que venho carregando há bastante tempo... Pergunto-me como isso é possível, após aquele momento único, inesquecível, revelador no Rio Jordão em que me parecia tão real aquela percepção de que algo havia se quebrado dentro de mim. Sim, eu diria que foi uma ruptura com o meu passado um tanto insosso, diria até medíocre. Não escondo: foi um passado carregado certamente de afetos e proximidade com os meus irmãos e os meus pais, mas que vinha me deixando muitas vezes atordoado, inseguro, angustiado, e questionando o tempo todo a mim mesmo e a todos. Não tenho dúvida de que o que senti naquele pedaço de deserto, ouvindo os gritos daquele pregador um tanto desconcertante foi um chamado a rever toda a minha vida, e ainda está viva em mim a sensação de que não foi uma miragem ou uma ilusão, mas que eu devia iniciar um novo itinerário de vida. Foi como se alguém dentro de mim tenha me convencido de que o que havia feito até então não teria acrescentado nada nem a mim e nem ao pessoal da minha aldeia Nazaré. Disse a mim mesmo, naquela ocasião, que, embora sem saber o que queria ser no meu futuro próximo, tinha a plena convicção de que jamais poderia voltar a ser o que eu era antes. Esta foi o que eu considerava ser a minha única certeza no dia em que fui mergulhado nas águas daquele rio sagrado....

Não posso esconder, portanto, que, depois desses momentos exaltantes que limparam aquela neblina interior quase sempre presente na minha vida, não voltaria a sentir quase os mesmos sentimentos de incerteza e de temor. É como se a minha intuição e o meu desejo quisessem iniciar algo inédito, algo que ninguém jamais ousou fazer, mas um outro lado do meu eu me segurava por não ver claro o que, afinal, eu queria...Foi aí que senti mais uma vez uma voz interior que me pressionava a não ter pressa para voltar para Nazaré. Era come se alguém já tivesse predisposto tudo, e eu era incapaz de reagir. Tomei, então, a decisão de me retirar para uma região do deserto que eu considerava propícia para refletir, afastado do convívio humano, numa caverna que, mais tarde vim saber que era utilizada como abrigo por pastores de cabras que raramente passavam por lá. Não posso afirmar que tinha experiência de passar muitos dias longe de casa, imaginemos no deserto, lugar desconhecido para nós do Norte onde há só colinas verdejantes, montanhas, planícies férteis e água em abundância. A minha primeira noite foi mal dormida. Havia um grupo de morcegos que ia e vinha estalando suas asas, sem pensar na possibilidade de pisar à noite em algumas cobras ou aranhas. De manhã acordei pelos raios de um sol que parecia mais uma bola enorme de fogo embora o seu calor não fosse ainda intenso, mas era tão brilhoso que tornava aquele deserto que se perdia no horizonte um imenso mar de ouro e de luz. Deslumbrado com aquela paisagem inédita logo percebi que havia sido transportado numa outra dimensão. Perguntei-me se aquele deserto luminoso e deslumbrante seria o mesmo que estava a possuir o espírito, o interior da maioria da minha nação. Uma população sem esperança, aparentemente conformada e incapaz de reagir, de se unir e se rebelar com a exceção de alguns grupos da minha terrinha da Galileia. 

....O pouco que notei naquelas concentrações à beira do Rio Jordão e que me deixou um tanto entristecido era de que aquelas multidões pareciam como ovelhas de um rebanho sem cuidador, sem pastor. De imediato veio-me espontâneo associar o aparente e infecundo vazio interior que me parecia entranhado na alma do meu povo, com o deserto daquele meu primeiro dia ao sair daquela espelunca, com uma diferença incomparável: o deserto que os meus olhos admiravam e o meu espírito se embevecia era infinitamente mais carregado de luz, de brilho, de sintonia com a natureza do que aquele deserto que parecia-me dominar milhares seres humanos. Será que aquele deserto escondia algo que eu desconhecia, algum segredo, algum passado que poderia torná-lo fértil e voltar a florescer? Óbvio que não estava a pensar naquela extensão de pedregulhos e de paisagens lunares, mas naquele povo sedento de palavras de conforto, de motivações para voltar a crer e a resistir, e que tinha dificuldade de se livrar do deserto estéril que o mantinha imóvel e desnorteado...' 

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