"Paradoxo
histórico." É assim que Massimo Faggioli define a postura do governo Trump em relação a Leão XIV.
"O primeiro Papa americano se vê diante da tarefa de propor uma visão de
mundo radicalmente diferente daquela atualmente promovida pelos Estados
Unidos. Leão o faz não para proteger os interesses
da Santa Sé, mas sim em nome de uma comunidade muito mais ampla do
que a dos próprios católicos: ele fala em nome de todos os seres humanos
sacrificados em guerras e pisoteados em sua dignidade. Este é o DNA do
Vaticano, que cada Pontífice interpreta à sua maneira. Para Robert
Prevost, essa interpretação o tornou alvo do chefe da Casa Branca",
enfatiza o historiador das religiões, professor de eclesiologia no Instituto
Loyola do Trinity College Dublin, após quase duas décadas nos EUA.
Eis a
entrevista.
Professor, qual a razão para um ataque tão direto ao Papa
Leão?
O
estopim foi a entrevista concedida no domingo à noite pelos cardeais Blase Cupich, Robert McElroy e Joseph Tobin — que
também foram os autores da carta contra as políticas de imigração do governo,
datada de 19 de janeiro — ao programa "60 Minutes", o programa de
televisão mais assistido dos Estados Unidos. As verdadeiras causas, no entanto,
são os apelos enérgicos e repetidos do Papa pela paz e pelo multilateralismo.
Francisco não
preocupou muito o presidente dos EUA. Era fácil descartar seus
ensinamentos como a "excentricidade" de um pontífice latino-americano
— uma parte do mundo de pouca importância para o magnata — incapaz de
compreender os Estados Unidos. Leão XIV, por outro
lado, é um conhecedor do país: nasceu e cresceu em Chicago e
faz parte da cultura americana. Além disso, justamente por causa de suas
origens, Robert Prevost tentou, ao longo de 2025, não se
tornar o "anti-Trump", incentivando bispos locais a se manifestarem
sobre questões nacionais. Foi assim que se desenrolaram as intervenções dos
três cardeais. Desde o início de 2026, no entanto, a política do governo mudou
acentuadamente para o neocolonialismo, da Venezuela a Cuba, de Gaza ao Irã. Diante dessa mudança, o Papa sentiu que não podia mais
permanecer em silêncio, a começar por seu discurso ao corpo diplomático em 9 de
janeiro. Daí o ataque de Trump. Uma atitude que provavelmente marca
o início de seu declínio político.
O
trumpismo retornou ao poder graças a uma aliança entre o conservadorismo
religioso — católico e protestante — e a chamada "tecnodireita",
personificada por magnatas do Vale do Silício, de Elon Musk a Peter
Thiel. Ao longo do último ano e meio, contudo, o equilíbrio de poder
interno mudou drasticamente em favor de gurus da vigilância, da defesa e
da inteligência artificial, que estão menos interessados em
defender valores tradicionais ou conter a imigração do que em controlar o mundo
e seus recursos.
A
"tecnodireita", agora no comando, tem uma agenda religiosa,
ainda que profundamente anticristã e anticatólica. Considera o planeta
descartável para permitir que alguns poucos vão a Marte, é obcecada
pela busca da imortalidade e acredita no culto da força. Seus expoentes são os
bisnetos de Nietzsche, que acreditava que Jesus era um perdedor. O
Papa, é claro, falando do Evangelho, cutucou a ferida.
O
magnata é um sobrevivente. Escapou de uma condenação por golpe de Estado, de
uma tentativa de assassinato e de várias derrotas. Ao atacar o Papa, porém,
violou o último tabu aos olhos da direita religiosa, que se dá conta de ter
sido explorada pelo trumpismo.
Vance e Rubio estão disputando a presidência pós-Trump,
sem saber ao certo como ou quando — se nas eleições de meio de mandato ou em
2028 — a sucessão ocorrerá. Ao contrário de Rubio, o catolicismo de Vance é fundamental: sua
conversão coincide com sua entrada na política. Não é coincidência que ele
tenha buscado apoio no Vaticano com Francisco ou Leão
XIV. Agora, portanto, não será fácil para ele se manter fora da disputa.
Além disso, a elite intelectual de direita, onde os católicos ganharam
influência, está profundamente constrangida. Uma vez passado o choque, eles
podem decidir se rebelar. (IHU)
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